17 de fevereiro de 2017

31. O fim da Autoridade

Pois o Império não mais existe. E agora o leão e o libo hão de cessar.
Willian Blake

A Sra. Coulter sussurrou para a sombra a seu lado:
— Veja como ele se esconde, Metatron! Anda se esgueirando pela escuridão como uma ratazana...
Estavam numa saliência bem no alto da grande caverna, observando Lorde Asriel e a pantera branca que seguiam descendo, andando muito cautelosamente, a uma grande distância mais abaixo.
— Eu poderia atacá-lo agora — sussurrou a sombra.
— Sim, é claro que poderia — respondeu ela sussurrando, se inclinando para bem perto dele — mas eu quero ver o rosto dele, caro Metatron, quero que ele saiba que o traí. Venha, vamos segui-lo...
A catarata de Pó brilhava como um grande pilar de luz tênue, precipitando-se suave e incessantemente para dentro da garganta. A Sra. Coulter não tinha nenhuma atenção disponível para dedicar a ela, porque a sombra a seu lado estava tremendo de desejo e tinha que mantê-lo a seu lado, sob o pouco controle que conseguia impor.
Os dois começaram a descer, em silêncio, seguindo Lorde Asriel. Quanto mais para baixo iam avançando, mais ela sentia um enorme cansaço se apoderar dela.
— O que foi? O que foi? — sussurrou a sombra, sentindo suas emoções e, imediatamente, desconfiado.
— Estava pensando — disse ela com uma doce malevolência — em como estou satisfeita com o fato de que a criança nunca crescerá para amar e ser amada. Pensei que a amasse quando era bebê, mas agora...
— Houve pesar — disse a sombra — em seu coração, houve pesar porque não a verá crescer.
— Ah, Metatron, quanto tempo faz que você foi um homem! Será que não sabe realmente distinguir o que estou lamentando? Por que estou pesarosa? Não é a maturidade dela, mas a minha. Como lamento que não soubesse de sua existência em minha própria infância, com que paixão teria me devotado a você...
Ela se inclinou para a sombra, como se não conseguisse controlar os impulsos de seu próprio corpo, e a sombra inalou com avidez faminta, e pareceu engolir o perfume de sua carne.
Estavam se movendo com dificuldade sobre as rochas despencadas e espatifadas em direção à base da encosta. Quanto mais desciam, mais a luz do Pó dava a tudo um halo de névoa dourada. A Sra. Coulter constantemente estendia a mão como se procurasse segurar onde a mão dele poderia estar, como se a sombra fosse um companheiro humano, e então parecia se recordar e sussurrava:
— Fique atrás de mim, Metatron, espere aqui, Asriel é desconfiado, deixe-me acalmá-lo primeiro. Quando ele estiver desprevenido, eu chamarei você. Mas venha como sombra, nessa forma pequena, de modo que ele não possa vê-lo, caso contrário ele simplesmente deixará o dimon da menina fugir voando.
O Regente era um ser cujo profundo intelecto tivera milhares de anos para se desenvolver e se fortalecer, e cuja sabedoria e conhecimento se estendiam a um milhão de universos. A despeito disso, naquele momento estava cego por suas duas obsessões: destruir Lyra e possuir sua mãe. Ele assentiu e ficou onde estava, enquanto a mulher e o macaco seguiam adiante tão silenciosamente quanto podiam.
Lorde Asriel estava esperando atrás de um enorme bloco de granito, fora do raio de visão do Regente. A pantera branca os ouvira se aproximando e Lorde Asriel se levantou quando a Sra. Coulter surgiu dando a volta no bloco. Tudo, todas as superfícies, todos os centímetros cúbicos de ar estavam permeados pelo Pó que caía, que dava uma claridade suave a cada minúsculo detalhe, e, sob a luz do Pó, Lorde Asriel viu que o rosto dela estava molhado de lágrimas e que estava rangendo os dentes para não soluçar. Ele a tomou nos braços, e o macaco dourado abraçou o pescoço da pantera branca e enterrou a carinha negra em seu pelo.
— Lyra está em segurança? Encontrou seu dimon? — murmurou ela.
— O fantasma do pai do menino está protegendo os dois.
— O Pó é lindo... nunca imaginei.
— O que disse a ele?
— Eu menti e menti, Asriel... Não esperemos muito mais, eu não aguento... Nós não viveremos, não é? Não sobreviveremos como os fantasmas?
— Não, se cairmos no abismo. Viemos para cá para dar tempo a Lyra para encontrar seu dimon e, depois, tempo para viver e crescer. Se levarmos Metatron à extinção, Marisa, ela terá esse tempo e se formos com ele, isso não terá importância.
— E Lyra estará segura?
— Sim, estará, sim — respondeu com ternura.
Ele a beijou. Ela se sentiu suave e leve em seus braços, como havia se sentido quando Lyra tinha sido concebida 13 anos antes. Ela estava soluçando baixinho.
Quando conseguiu falar, sussurrou:
— Eu disse a ele que ia trair você e trair Lyra, e ele acreditou em mim porque eu era corrompida e cheia de maldade, e olhou tão fundo dentro de mim que tive certeza que ele veria a verdade. Mas menti bem. Estava mentindo com cada fibra, cada nervo e tudo o que algum dia eu tinha feito... queria que ele não encontrasse nada de bom em mim e ele não encontrou. Não há nada de bom. Mas eu amo Lyra. De onde veio este amor? Eu não sei, aproximou-se de mim, sorrateiro como um ladrão na noite, e agora eu a amo tanto que meu coração está explodindo de amor. Tudo o que eu podia esperar era que meus crimes fossem tão monstruosos que o amor não fosse maior que uma semente de mostarda à sombra deles, e desejei ter cometido crimes ainda maiores para escondê-lo ainda mais profundamente... Mas a semente de mostarda criou raiz e estava crescendo e o pequeno rebento estava partindo meu coração, e tive tanto medo que ele visse...
Ela teve que parar para se controlar. Ele acariciou seus cabelos brilhantes cobertos de Pó dourado e esperou.
— A qualquer momento ele vai perder a paciência — sussurrou ela. — Disse a ele que se mostrasse pequeno. Mas, afinal, ele é apenas um anjo, mesmo se um dia foi homem. E podemos lutar com ele e trazê-lo até a borda da garganta, e nós dois cairemos com ele...
Ele a beijou e disse:
— Sim. Lyra vai estar em segurança e o reino ficará impotente, não poderá fazer nada contra ela. Chame-o agora, Marisa, meu amor.
Ela respirou fundo e deixou o ar escapar num longo e trêmulo suspiro. Então alisou a saia sobre as coxas e enfiou os cabelos atrás das orelhas.
— Metatron — chamou baixinho. — Está na hora.
A forma de Metatron coberta por uma sombra apareceu no ar dourado e no mesmo instante percebeu o que estava acontecendo: os dois dimons, agachados e alertas, a mulher com o nimbo de Pó e Lorde Asriel, que saltou em cima dele, imediatamente, agarrando-o pela cintura, e tentou atirá-lo no chão. Contudo, os braços do anjo estavam livres e, com punhos, palmas, cotovelos, nós dos dedos, antebraços, ele surrou a cabeça e o corpo de Lorde Asriel: grandes golpes que batiam com enorme violência forçando o ar a sair de seus pulmões e repercutiam em suas costelas, que esmurravam sua cabeça e abalavam seus sentidos.
Contudo, os braços de Lorde Asriel envolviam as asas do anjo, prendendo-as a seus flancos. E um momento depois a Sra. Coulter tinha saltado no espaço entre aquelas asas imobilizadas, e agarrado o cabelo de Metatron. A força do anjo era enorme: era como segurar a crina de um cavalo empinando, em disparada. Enquanto ele sacudia a cabeça furiosamente, ela era lançada para lá e para cá, e sentiu a força nas asas grandiosas fechadas à medida que se esforçavam para se abrir, se levantar e lutavam contra os braços do homem, cerrados tão firmemente em torno delas.
Os dimons também o tinham agarrado. Stelmaria havia cravado os dentes em sua perna e o macaco dourado estava atacando com unhas e dentes uma das pontas da asa mais próxima, mordendo e partindo penas, rasgando-lhe as bárbulas, e aquilo só tornava a fúria do anjo ainda maior. Com um esforço maciço repentino, ele se lançou para o lado libertando uma das asas e esmagando a Sra. Coulter contra um rochedo.
A Sra. Coulter ficou atordoada por um segundo e suas mãos se soltaram.
Imediatamente o anjo empinou-se para o alto novamente, batendo a asa livre, para lançar longe o macaco dourado, mas os braços de Lorde Asriel ainda o envolviam com firmeza e, na verdade, o homem agora conseguia segurá-lo melhor uma vez que a circunferência a abraçar era menor. Lorde Asriel esforçou-se para esmagar seu peito, de maneira a impedir que Metatron respirasse, triturando suas costelas e tentando ignorar os golpes tremendos que o acertavam no crânio e no pescoço.
Mas aqueles golpes estavam começando a se fazer sentir. E, enquanto Lorde Asriel tentava manter seu ponto de apoio na superfície de rochas quebradas, algo de destruidor aconteceu com a parte de trás de sua cabeça. Quando havia se jogado para o lado, Metatron tinha agarrado uma pedra do tamanho de um punho e naquele instante bateu com ela, com uma força brutal, na ponta do crânio de Lorde Asriel. O homem sentiu os ossos de sua cabeça se moverem uns contra os outros, e soube que mais um golpe como aquele o mataria imediatamente.
Atordoado de dor — uma dor que se intensificava por causa da pressão de sua cabeça contra o flanco do anjo — ele continuou agarrado nele, apertando-o, os dedos da mão direita quase esmagando os da esquerda, e tropeçou buscando apoio entre as rochas fraturadas. E, quando Metatron levantava bem alto a pedra ensanguentada, uma forma de pelo dourado saltou em cima dele, como uma chama saltando sobre uma copa de árvore, e o macaco cravou fundo os dentes na mão do anjo. A pedra se soltou e despencou ruidosamente em direção à borda e Metatron sacudiu violentamente o braço em círculo, movimentando-o para a esquerda e para a direita, tentando desalojar o dimon, mas o macaco dourado agarrou-se com unhas, dentes e rabo, e então a Sra. Coulter abraçou a grandiosa asa branca que batia, trazendo-a para junto de seu corpo, e fez cessar seu movimento.
Metatron estava imobilizado, mas ainda não estava ferido. Nem estava perto da borda do abismo.
E àquela altura Lorde Asriel estava enfraquecendo. Ele estava fazendo um enorme esforço para manter consciente e lúcido o cérebro encharcado de sangue, mas a cada movimento um pouquinho mais se perdia. Podia sentir as pontas fraturadas dos ossos roçando umas contra as outras em seu crânio, podia até ouvi-las. Seus sentidos estavam confusos: tudo o que ele sabia era que tinha que segurar firme e arrastar para baixo.
Então a Sra. Coulter sentiu a face do anjo sob sua mão e cravou os dedos bem fundo nos olhos dele.
Metatron soltou um urro de dor. De muito longe, do outro lado da imensa caverna, ecos responderam, e a voz dele saltou de rochedo em rochedo, se duplicando e perdendo a intensidade, e fazendo com que aqueles fantasmas distantes fizessem uma pausa em sua procissão infindável e olhassem para cima.
E Stelmaria, o dimon pantera branca, sentindo sua própria consciência ir se apagando junto com a de Lorde Asriel, fez um último esforço e saltou sobre a garganta do anjo.
Metatron caiu de joelhos. A Sra. Coulter, caindo com ele, viu os olhos ensanguentados de Lorde Asriel se fixarem nela. E se levantou rapidamente, empurrando com uma das mãos posta sobre a outra, obrigando a asa que batia a se afastar para o lado, e agarrou o cabelo do anjo para puxar violentamente sua cabeça para trás e deixar a garganta desprotegida, livre para os dentes da pantera.
E então Lorde Asriel começou a arrastá-lo, e arrastá-lo para trás, os pés tropeçando e as rochas caindo, enquanto o macaco dourado saltava para baixo junto com eles, mordendo, arranhando e rasgando lanhos, e eles quase tinham chegado, estavam quase na borda, mas, fazendo força, Metatron conseguiu se levantar e, com um derradeiro esforço, abriu bem as duas asas um grandioso dossel branco que batia para baixo e para baixo com força, uma vez após outra e, de novo, uma vez após outra, e então conseguiu fazer a Sra. Coulter cair de suas costas e Metatron estava de pé, ereto, e as asas bateram cada vez mais forte, mais forte, e ele levantou voo — estava deixando o solo, com Lorde Asriel ainda segurando-o com força, mas enfraquecendo rapidamente. Os dedos do macaco dourado estavam enterrados, torcendo o cabelo do anjo, e ele jamais o largaria...
Mas eles tinham ultrapassado a beira do abismo. Estavam começando a se elevar. E se voassem mais alto, Lorde Asriel cairia e Metatron escaparia.
— Marisa! Marisa!
O grito foi arrancado de Lorde Asriel e, com a pantera branca a seu lado, com um rugido em seus ouvidos, a mãe de Lyra se levantou, encontrou um ponto de apoio, e saltou com todas as forças de seu coração, para se arremessar contra o anjo, com seu dimon, com seu amado que morria e agarrar aquelas asas que batiam, e puxar todos eles juntos para baixo, para dentro do abismo.


Os avantesmas-dos-penhascos ouviram a exclamação de consternação de Lyra e suas cabeças achatadas se viraram todas juntas, imediatamente. Will saltou para frente e golpeou com a faca atingindo os que estavam mais próximos. Ele sentiu uma pequena pancada no ombro, quando Tialys tomou impulso e saltou, caindo na face do maior, agarrando-lhe os pelos e chutando violentamente abaixo da mandíbula antes que pudesse arremessá-lo longe. A criatura uivou e se debateu enquanto caía na lama e uma outra ficou olhando estupidamente para o coto de seu braço e depois, horrorizada, para seu próprio tornozelo, que a mão que havia sido cortada fora tinha agarrado ao cair. Um segundo depois, a faca estava enterrada em seu peito: Will sentiu o cabo saltar três ou quatro vezes com os batimentos moribundos do coração e a puxou fora, antes que o avantesma-dos-penhascos pudesse torcê-la e levá-la ao cair.
Ouviu os outros gritarem e guincharem de ódio enquanto fugiam, e soube que Lyra estava ilesa a seu lado, mas ele se jogou na lama com apenas uma coisa na mente.
— Tialys! Tialys! — gritou, e evitando os dentes que abocanhavam, empurrou para o lado a cabeça do maior dos avantesmas-dos-penhascos.
Tialys estava morto, suas esporas enfiadas profundamente em seu pescoço. A criatura ainda estava esperneando e mordendo, de modo que cortou fora sua cabeça e a empurrou fazendo-a rolar para longe, antes de retirar o galivespiano morto do pescoço de pele grossa e peluda como couro.
— Will — chamou Lyra — Will, olhe só para isso...
Ela estava olhando fixamente para a liteira de cristal. Estava intacta, embora o cristal estivesse manchado e lambuzado de lama e sangue do que os avantesmas-dos-penhascos tinham comido antes de a encontrar. Estava caída num ângulo estranho entre os pedregulhos e dentro dela...
— Ah, Will, ele ainda está vivo! Mas, pobre-coitado...
Will viu as mãos de Lyra fazendo pressão contra o cristal, tentando alcançar o anjo e confortá-lo, pois era tão idoso e estava apavorado, chorando e gritando como um neném, todo encolhido no canto mais baixo.
— Ele deve ser tão velho... nunca vi ninguém sofrendo assim... Ah, Will, não podemos deixá-lo sair?
Will cortou o cristal com um único movimento e enfiou a mão para ajudar o anjo a sair. Enlouquecido e impotente, o ser idoso só conseguia chorar e balbuciar incoerentemente de medo, de dor e de infelicidade, e se encolheu para longe do que parecia mais uma ameaça.
— Não tenha medo — disse Will — pelo menos podemos ajudar o senhor a se esconder. Venha, não vamos machucá-lo.
A mão trêmula pegou a mão dele e a segurou sem forças. O velho estava emitindo um lamento sem palavras, um gemido desconsolado, que se repetia sem parar, rangendo os dentes e, compulsivamente, arrancando as próprias penas com a mão livre, mas quando Lyra também enfiou a mão para ajudá-lo a sair, ele tentou sorrir e fazer uma mesura, e seus olhos antiquíssimos muito fundos em meio às rugas piscaram para ela com inocente encantamento. E os dois, juntos, ajudaram o ser mais antigo de todos os tempos a sair da cela de cristal, não foi difícil, pois ele era leve como papel, e os teria seguido para qualquer lugar, uma vez que não tinha vontade própria e respondia à simples gentileza como uma flor ao sol. Mas, ao ar livre, não havia nada que impedisse o vento de lhe fazer mal e, para a consternação dos dois, sua forma começou a perder consistência e a se dissolver. Apenas alguns minutos depois ele havia desaparecido completamente e a última imagem que Lyra e Will tiveram foi daqueles olhos, piscando de encantamento, e o som de um suspiro do mais próximo e então ele havia sumido: um mistério se dissolvendo misteriosamente.
Tudo havia levado menos de um minuto e, no mesmo instante, Will virou-se de volta para o cavaleiro morto. Levantou o corpo pequenino, segurando-o delicadamente nas palmas das mãos, e quando se deu conta as lágrimas escorriam rápidas por suas faces.
Mas Lyra estava dizendo alguma coisa em tom aflito.
— Will, temos que sair daqui... nós temos que ir... a dama ouviu cavalos se aproximando...
Do céu azul-índigo, um falcão azul-índigo desceu, de repente, num movimento suave e circular, Lyra deu um grito de susto e se abaixou, mas Salmakia gritou com toda a força que tinha:
— Não, Lyra! Não! Levante-se o mais alto que puder e estenda o punho para cima!
De modo que Lyra se manteve de pé, imóvel, sustentando um braço com o outro, e o falcão azul fez uma outra volta, virou-se e tornou a descer num movimento suave e circular, pousando e agarrando os nós de seus dedos nas garras afiadas.
No dorso do falcão estava montada uma senhora de cabelos grisalhos, cujo rosto de olhos claros virou-se primeiro para Lyra, depois para Salmakia que se segurava em seu colarinho.
— Madame... — disse Salmakia, com a voz fraca — nós fizemos...
— Vocês fizeram tudo o que foi necessário. Agora nós estamos aqui — declarou Madame Oxentiel e puxou as rédeas. Imediatamente o falcão gritou três vezes, tão alto que a cabeça de Lyra zumbiu. Em resposta, dardejando do céu, saíram primeiro uma, depois duas e mais três, então centenas de libélulas de cores brilhantes carregando guerreiros, todas voando baixo, tão velozmente que parecia que inevitavelmente iriam colidir umas contra as outras, mas os reflexos dos insetos e a destreza de seus cavaleiros eram tão aguçados que, em vez disso, pareceram tecer uma tapeçaria bordada de cores fortes e claras, rápida e silenciosa acima e ao redor das crianças.
— Lyra — disse a dama no falcão — e Will: agora sigam-nos e os levaremos a seus dimons.
Enquanto o falcão abria as asas e levantava voo saindo de uma de suas mãos, Lyra sentiu o peso de Salmakia cair sobre a outra e soube no mesmo instante que somente a força de vontade da pequenina dama a mantivera viva até aquele momento. Ela segurou cuidadosamente o corpo trazendo-o para junto do seu e correu com Will debaixo da nuvem de libélulas, tropeçando e caindo mais de uma vez, mas, o tempo todo, mantendo a dama delicadamente encostada em seu coração.
— Esquerda! Esquerda! — gritou a voz do falcão azul e, na escuridão rasgada pelos clarões de relâmpagos, eles viraram naquela direção, à direita deles, Will viu um pelotão de homens vestindo armaduras cinza-claro, elmos, máscaras, seus dimons lobo caminhando ao lado deles na mesma cadência. Uma corrente de libélulas partiu para cima deles imediatamente e os homens vacilaram: suas armas eram inúteis e num instante os galivespianos estavam entre eles, cada guerreiro saltando das costas de seu inseto, encontrando uma mão, um braço, um pescoço nu e enfiando sua espora antes de saltar de volta para o inseto enquanto este fazia meia-volta e passava de novo em voo rasante. Eles eram tão rápidos que era quase impossível seguir os movimentos. Os soldados se viraram e saíram correndo em pânico, sua disciplina totalmente destruída.
Mas então veio o ruído de cascos, num estrondo repentino partindo de trás, e as crianças se viraram desalentadas: aquele povo montado a cavalo estava caindo sobre eles a galope e um ou dois já tinham redes nas mãos, girando-as acima da cabeça e capturando as libélulas, então batendo com as redes como se fossem chicotes e atirando no chão os corpos partidos dos insetos.
— Por aqui — chamou a voz da dama e então ela disse: — Agora abaixem-se, para baixo, colados no chão!
Eles obedeceram e sentiram a terra tremer sob seus corpos. Poderia aquilo ser o ruído de cascos? Lyra levantou a cabeça e afastou o cabelo molhado dos olhos, e viu algo bem diferente de cavalos.
— Iorek! — exclamou, a alegria se acendendo como uma chama saltando em seu peito. — Ah, Iorek!
Will puxou-a para baixo de novo imediatamente, pois não somente Iorek Byrnison mas um regimento de ursos de armadura estavam vindo diretamente para eles. Foi por um triz: Lyra abaixou a cabeça bem a tempo e então Iorek saltou, passando acima deles, rugindo ordens para seus ursos para irem para a esquerda, para irem para a direita e acabar com os inimigos que os cercavam.
Com imensa leveza, como se sua armadura não pesasse mais que seu pelo, o urso rei girou para encarar Will e Lyra, que estavam lutando para se levantar.
— Iorek, atrás de você, eles têm redes! — gritou Will, porque os cavaleiros estavam quase em cima deles.
Antes que o urso pudesse se mover, a rede do cavaleiro sibilou voando no ar e no mesmo instante Iorek foi envolvido por uma teia de aranha de fios fortes como aço. Ele rugiu, levantando-se bem alto nas patas traseiras, golpeando o cavaleiro com as patas imensas. Mas a rede era forte e embora o cavalo relinchasse e empinasse, assustado, Iorek não conseguiu se libertar dos anéis da rede.
— Iorek! — gritou Will. — Fique parado! Não se mexa!
E saiu correndo para frente, chapinhando em meio às poças e saltando sobre as moitas de capim, enquanto o cavaleiro tentava controlar o cavalo, e alcançou Iorek justo no momento em que um segundo cavaleiro chegava e uma segunda rede era lançada sibilando no ar.
Mas Will manteve a cabeça fria: em vez de golpear com a faca a torto e a direito e se enredar ainda mais, observou o fluxo da trama da rede e cortou-a em questão de instantes. A segunda rede caiu inutilizada no chão e então Will saltou para Iorek, tateando com a mão esquerda e cortando com a direita. O grande urso manteve-se imóvel enquanto o menino corria de um lado para outro sobre seu corpo vasto, corando, libertando, abrindo passagem.
— Agora vá! — berrou Will afastando-se com um salto, e Iorek pareceu explodir para cima bem no peito do cavalo mais próximo.
O cavaleiro tinha levantado a cimitarra para golpear o pescoço do urso, mas Iorek Byrnison em sua armadura pesava quase duas toneladas e nada, àquela distância, seria capaz de resistir a ele. Cavalo e cavaleiro, ambos espatifados e esmagados, tombaram para o lado inofensivamente. Iorek recuperou o equilíbrio, olhou em volta para ver como estava o terreno e rugiu para as crianças.
— Subam nas minhas costas! Agora!
Lyra montou com um salto e Will a seguiu. Apertando o ferro frio entre as pernas, eles sentiram o vagalhão de força maciça quando Iorek começou a se mover.
Atrás deles, o demais ursos estavam lutando contra a estranha cavalaria, ajudados pelos galivespianos, cujas ferroadas enfureciam os cavalos. A dama montada no falcão azul aproximou-se num voo rasante e gritou:
— Agora siga reto, bem em frente! Entre as árvores no vale!
Iorek alcançou o topo de uma pequena elevação no terreno e se deteve. À frente deles o terreno irregular descia numa encosta em direção a um arvoredo a cerca de 400 metros de distância. Em algum lugar depois disso, uma bateria de armas pesadas estava disparando uma bomba atrás da outra que subiam voando alto, e alguém também estava disparando foguetes luminosos, que explodiam pouco abaixo das nuvens e desciam flutuando em direção às árvores. E, lutando para ganhar o controle do arvoredo propriamente dito, havia um grupo de 20 Espectros ou mais, sendo impedidos por um bando desalinhado de fantasmas.
Tão logo viram o grupo de árvores, tanto Lyra quanto Will tiveram a certeza que seus dimons estavam ali dentro e que se não os alcançassem logo, eles morreriam. Mais Espectros estavam chegando a cada minuto, fluindo sobre a elevação estreita e comprida, vindos da direita. Agora Will e Lyra podiam vê-los muito claramente.
Uma explosão bem acima da elevação sacudiu o solo e lançou pedras e nuvens de terra no ar. Lyra deu um grito e Will teve que apertar o peito.
— Segurem-se bem — rosnou Iorek, e partiu para o ataque.
Um foguete luminoso explodiu lá em cima, muito alto, depois outro e mais outro, descendo flutuando lentamente com um clarão intenso de magnésio. Uma outra bomba explodiu, dessa vez mais perto, e eles sentiram o impacto do deslocamento de ar e, um ou dois segundos depois, as agulhadas de terra e pedras sobre seus rostos. Iorek não vacilou, mas eles acharam difícil se segurar: não podiam enfiar os dedos e agarrar seu pelo — tinham que apertar a armadura entre os joelhos, e as costas dele eram tão largas que ambos ficavam escorregando.
— Olhe! — exclamou Lyra, apontando para o alto enquanto uma outra bomba explodia nos arredores.
Uma dúzia de bruxas estavam se dirigindo para os foguetes, empunhando galhos bastos, densamente carregados de folhas, e com eles elas afastaram as luzes intensas, varrendo-as para longe no céu mais além. A escuridão caiu novamente sobre o arvoredo, escondendo-o da artilharia.
E agora as árvores estavam a apenas alguns metros de distância. Tanto Will quanto Lyra sentiram a parte deles que faltava ali por perto — uma animação, uma esperança descontrolada, gelada de medo: pois havia um grande número de Espectros em meio às árvores e eles teriam que entrar e passar abertamente entre eles, e o simples fato de vê-los evocava aquela fraqueza nauseante no coração.
— Eles têm medo da faca — disse uma voz ao lado deles, e o urso rei parou tão de repente que Will e Lyra despencaram de suas costas.
— Lee! — exclamou Iorek. — Lee, meu camarada, nunca vi isso antes. Você está morto, com o que estou falando?
— Iorek, meu velho, você não sabe de metade da história. Nós assumiremos o comando agora, os Espectros não têm medo de ursos. Lyra, Will, venham por aqui e levantem essa faca...
O falcão azul veio voando mais uma vez num movimento lento circular para pousar no punho de Lyra, e a senhora de cabelos grisalhos disse:
— Não percam nem um segundo, entrem e encontrem seus dimons e fujam! Há mais perigo se aproximando.
— Obrigada, senhora! Muito obrigada a todos vocês! — exclamou Lyra e o falcão azul levantou voo.
Com dificuldade, Will conseguia enxergar o fantasma de Lee Scoresby ao lado deles, insistindo para que seguissem para o arvoredo, mas eles tinham que se despedir de Iorek Byrnison.
— Iorek, meu querido, não tenho palavras, vá em paz, abençoado seja você!
— Obrigado, Rei Iorek — disse Will.
— Não temos tempo. Andem! Andem logo! — Ele os empurrou, afastando-os com a cabeça coberta pela armadura. Will mergulhou atrás do fantasma de Lee Scoresby em meio aos arbustos e plantas rasteiras no bosque, golpeando e cortando à esquerda e à direita com a faca. Ali a luz era irregular e amortecida, e as sombras densas, emaranhadas, desnorteantes.
— Fique bem perto — gritou para Lyra, e então deu um grito de dor quando um galho de espinheiro cortou-lhe o rosto.
Por toda parte ao redor havia movimento, barulho e luta. As sombras se moviam para frente e para trás como galhos sob um vento forte. Poderiam ter sido fantasmas, as duas crianças sentiam os pequenos choques de frio que conheciam tão bem, e então ouviram vozes por toda parte.
— Por aqui!
— Venham por aqui!
— Sigam adiante, estamos conseguindo impedir que eles passem.
— Agora estão quase chegando!
E então veio um grito numa voz que Lyra conhecia e amava mais que qualquer outra.
— Ah, venha depressa! Depressa, Lyra!
— Pan, querido... estou aqui.
Ela se arremessou na escuridão, soluçando e tremendo, e Will arrancou galhos e hera, cortou galhos de espinheiros e urtigas, enquanto por toda parte ao redor deles as vozes de fantasmas se elevavam num clamor de encorajamento e de advertência.
Mas os Espectros também tinham encontrado o alvo deles e avançaram penetrando através do emaranhado de plantas rasteiras, trepadeiras e arbustos espinhosos, só encontrando fumaça como resistência. Uma dúzia, um grande número das pálidas malignidades pareceu afluir rapidamente em direção ao centro do pequeno bosque, onde o fantasma de John Parry punha-se em posição de combate e comandava seus companheiros para lutar contra eles. Will e Lyra estavam tremendo e enfraquecidos de medo, exaustão, náusea e dor, mas desistir era inconcebível. Lyra arrancava os galhos cheios de espinhos com as mãos nuas, Will golpeava e cortava à esquerda e à direita, enquanto em torno deles o combate de seres fantasmagóricos se tornava cada vez mais selvagem.
— Ali! — exclamou Lee. — Estão vendo? Junto daquela pedra grande.
Um gato selvagem, dois gatos selvagens, cuspindo, sibilando e dando golpes cortantes. Os dois eram dimons e Will sentiu que se houvesse tempo ele teria facilmente conseguido dizer qual era Pantalaimon, mas não havia tempo, porque com uma facilidade horripilante um Espectro se moveu lentamente para fora do trecho de sombra mais próximo e foi planando silenciosamente em direção a eles.
Will saltou por cima do último obstáculo, um tronco de árvore caído, e enfiou a faca na luz trêmula no ar sem encontrar resistência. Ele sentiu seu braço ficar dormente, mas cerrou os dentes como estava cerrando os dedos em volta do cabo da faca e a forma pálida pareceu se afastar borbulhando e se fundir de volta na escuridão.
Estavam quase lá, e os dimons estavam loucos de medo, porque mais e mais Espectros vinham avançando através das árvores, e somente os valentes fantasmas os estavam impedindo de passar.
— Você pode cortar uma abertura? — perguntou o fantasma de John Parry.
Will levantou a faca e teve que parar quando uma onda violenta de náusea o sacudiu da cabeça aos pés. Não havia mais nada em seu estômago e o espasmo doeu terrivelmente. Ao lado dele, Lyra estava no mesmo estado. O fantasma de Lee, vendo o porquê daquilo, saltou para junto dos dimons e lutou contra a coisa pálida que estava surgindo, saindo através da rocha atrás deles.
— Will, por favor — disse Lyra, arquejando.
E a faca entrou, cortou para o lado, para baixo e para cima. O fantasma de Lee Scoresby olhou através da janela e viu uma ampla pradaria silenciosa sob uma lua brilhante, tão parecida com sua terra natal que pensou que tivesse recebido uma graça.
Com um salto, Will atravessou a clareira e agarrou o dimon mais próximo, enquanto Lyra apanhava o outro.
E mesmo naquela pressa terrível, mesmo naquele momento de extremo perigo, cada um deles sentiu o mesmo pequeno choque de agitação: pois Lyra estava segurando o dimon de Will, a gata selvagem sem nome, e Will estava carregando Pantalaimon.
Com dificuldade, eles afastaram os olhos um do outro.
— Adeus, Sr. Scoresby! — gritou Lyra, olhando em volta, procurando por ele. — Eu gostaria... Ah, muito obrigada, muito obrigada... adeus!
— Adeus, minha menina... Adeus, Will... vão em paz!
Lyra atravessou a janela rapidamente, mas Will se manteve imóvel e olhou nos olhos do fantasma de seu pai, brilhantes em meio às sombras. Antes de deixá-lo, havia uma coisa que tinha que dizer.
— O senhor disse que eu era um guerreiro — falou para o fantasma de seu pai. — Disse que eu era um guerreiro, disse que essa era a minha natureza e que eu não devia contestá-la. Pai, o senhor estava errado. Eu lutei porque tive que lutar. Não posso escolher minha natureza, mas posso escolher o que faço. E vou escolher, porque agora estou livre.
O sorriso de seu pai se abriu cheio de orgulho e ternura.
— Muito bem, meu filho. Faz realmente muito bem — disse.
Will não conseguia mais vê-lo. Então virou-se e atravessou a janela atrás de Lyra.
E agora que o objetivo deles havia sido atingido, agora que as crianças tinham encontrado seus dimons e fugido, os guerreiros mortos permitiram que seus átomos relaxassem e finalmente se separassem flutuando. Para fora do pequeno bosque, para longe dos Espectros perplexos, para fora do vale, passando pelo vulto poderoso de seu velho companheiro, o urso de armadura, até que o último minúsculo fragmento de consciência do que fora o aeronauta Lee Scoresby flutuou para o alto, exatamente como seu grande balão havia feito tantas vezes.
Sem se incomodar com os foguetes luminosos e bombas eclodindo e voando pelos ares, surdo às explosões, gritos e urros de raiva, de advertência e de dor, consciente apenas de seu movimento para cima, o que restava de Lee Scoresby passou através das nuvens pesadas e saiu sob a abóbada de estrelas brilhantes, onde os átomos de seu dimon tão amado, Hester, estavam esperando por ele.

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