17 de fevereiro de 2017

30. A Montanha Nublada

E ao longe vê com atenção pausada o empírio céu, que nos sentidos todos vai a perder de vista e excelso cobre a sua forma na grandeza sua; observa-lhe com saudade de opalas as torres, de safira os muros.
John Milton, Canto II

A nave da intenção estava sendo pilotada pela Sra. Coulter. Ela e seu dimon estavam sozinhos na cabine de comando.
O altímetro barométrico era de muito pouca utilidade por causa da tempestade, mas podia calcular aproximadamente sua altitude observando as fogueiras que ardiam no chão onde os anjos caíam, apesar da chuva torrencial, as chamas ainda estavam altas. No que dizia respeito ao curso, também não era difícil: os relâmpagos e raios que caíam sobre a montanha serviam como faróis intensos.
Mas ela tinha que evitar os vários seres voadores e se manter longe das elevações no solo abaixo.
Não utilizou as luzes, porque queria se aproximar e encontrar um lugar para pousar antes que a vissem. À medida que voou para mais perto, as correntes de ar verticais tornaram-se mais violentas, as rajadas mais repentinas e brutais. Um giróptero não teria tido nenhuma chance: as selvagens rajadas de vento o teriam lançado ao solo como uma mosca. Na nave da intenção ela podia se mover suavemente com o vento, ajustando seu equilíbrio como alguém numa prancha deslizando sobre uma onda no Oceano Pacífico.
Cautelosamente, ela começou a subir, examinando o que estava à sua frente, ignorando os instrumentos, navegando por alcance visual e por instinto. Seu dimon saltava de um lado para outro na pequena cabine de vidro, olhando para o que estava à frente, acima, à esquerda e à direita, e passando-lhe informações constantemente. Os relâmpagos e raios, grandes clarões e lanças de luminosidade fulgurante, refulgiam e ribombavam, acima e ao redor da aeronave. Em meio a tudo isso ela voava na pequena aeronave, pouco a pouco ganhando altura e sempre seguindo adiante em direção ao palácio coberto de nuvens.
E à medida que a Sra. Coulter se aproximava, viu sua atenção deslumbrada e desconcertada com a natureza da montanha propriamente dita. Fazia com que se lembrasse de uma certa heresia abominável, cujo autor agora merecidamente definhava nas masmorras do Tribunal Consistorial. Ele havia sugerido que havia mais dimensões espaciais que as três conhecidas, que, em uma escala muito pequena, havia até sete ou oito outras dimensões, mas que elas eram impossíveis de ser examinadas diretamente. O homem tinha até construído um modelo para mostrar como poderiam funcionar e a Sra. Coulter tinha visto o objeto antes de ser exorcizado e queimado. Dobras dentro de dobras, cantos e bordas ao mesmo tempo contendo e sendo contidos: seu interior estava em toda parte e seu exterior em todas as outras partes. A Montanha Nublada a afetava de uma maneira similar: não era bem como um rochedo, era mais como um campo de força, manipulando o próprio espaço para se envolver, se esticar e se dispor em camadas, formando galerias e terraços, câmaras, colunatas e torres de observação, de ar, de luz e de vapor. Ela sentiu uma estranha exultação começar a crescer em seu peito e viu ao mesmo tempo como pousar a aeronave em segurança lá em cima no terraço no flanco sul. A pequena nave deu um solavanco e lutou no ar turbulento, mas ela manteve o curso firme e seu dimon a guiou na descida para pousar no terraço.
A luz que havia usado para enxergar até aquele momento tinha vindo dos relâmpagos, dos ocasionais cortes profundos na nuvem por onde o sol passava, das fogueiras dos anjos queimando, dos focos de luz dos holofotes anbáricos, mas ali a luz era diferente. Vinha da substância da própria montanha, que fulgurava e se apagava num ritmo lento, semelhante ao da respiração, com uma radiância de madrepérola.
A mulher e o dimon saltaram da nave e olharam em torno para ver em que direção deveriam seguir.
Ela possuía a sensação de que outros seres estavam se movimentando rapidamente acima e abaixo, correndo através da própria substância da montanha com mensagens, ordens, informações. Não conseguia vê-los, tudo o que conseguia ver eram confusas perspectivas envolventes de colunata, escada, terraço e fachada.
Antes que pudesse se decidir sobre que direção tomar, ouviu vozes e se escondeu atrás de uma coluna. As vozes estavam cantando um salmo e se aproximando, e então viu uma procissão de anjos carregando uma liteira. Quando se aproximaram do lugar onde estava escondida, viram a nave da intenção e se detiveram. O cântico se calou, alguns dos carregadores olharam em torno tomados pela dúvida e pelo medo.
A Sra. Coulter estava perto o bastante para ver o ser na liteira: um anjo, pensou ela, e indescritivelmente idoso. Ele não era fácil de ver porque a liteira era toda fechada com cristal que cintilava e refletia de volta a luz envolvente da montanha, mas ela teve a impressão de uma decrepitude aterradora, de uma face encovada, mergulhada em rugas, de mãos trêmulas, de uma boca balbuciante e olhos remelentos.
O ser idoso fez um gesto trêmulo para a nave da intenção, deu uma risada estridente, desagradável, e balbuciou para consigo mesmo, incessantemente puxando a barba, e então lançou a cabeça para trás e emitiu um uivo de tamanha angústia que a Sra. Coulter teve que cobrir os ouvidos. Mas, evidentemente, os carregadores tinham uma missão a cumprir, pois se recuperaram e seguiram adiante pelo terraço, ignorando os gritos e resmungos do interior da liteira.
Quando alcançaram um espaço aberto, abriram bem as asas e depois de uma palavra do líder começaram a voar, carregando a liteira juntos, até saírem do campo de visão da Sra. Coulter nos vapores rodopiantes.
Mas não havia tempo para pensar naquilo. Ela e o macaco dourado moveram-se rapidamente, subindo as grandes escadarias, atravessando pontes, sempre seguindo para cima. Quanto mais alto iam, mais tinham aquela sensação de atividade invisível por toda parte ao redor deles, até que finalmente dobraram uma esquina, num espaço amplo como uma praça coberta de neblina, e viram-se confrontados por um anjo com uma lança.
— Quem é você? O que quer aqui? — perguntou ele.
A Sra. Coulter olhou para ele curiosamente. Aqueles eram os seres que haviam se apaixonado por mulheres humanas, pelas filhas de homens, tanto tempo atrás.
— Não, não — disse ela suavemente — por favor, não perca tempo. Leve-me ao Regente imediatamente. Ele está me esperando.
“Deixe-os desconcertados”, pensou ela, “mantenha-os desestabilizados”, e o anjo não sabia o que devia fazer, de modo que fez o que ela mandou. A Sra. Coulter o seguiu durante alguns minutos através daquelas perspectivas desnorteantes de luz, até que chegaram a uma antecâmara. Como tinham entrado ali, ela não sabia, mas lá estavam eles e, depois de uma breve pausa, algo diante dela se abriu como uma porta.
As unhas pontudas de seu dimon estavam cravadas na carne da parte superior de seus braços e ela agarrou seu pelo para se acalmar. Encarando-os havia um ser feito de luz. Tinha forma de homem, tamanho de homem, pensou ela, mas estava demasiado ofuscada para ver. O macaco dourado escondeu a face no ombro dela e a Sra. Coulter levantou o braço para cobrir os olhos. Metatron disse:
— Onde está ela? Onde está sua filha?
— Eu vim para dizer ao senhor, Regente.
— Se estivesse sob seu controle, você a teria trazido.
— Ela não está, mas seu dimon está.
— Como é possível isso?
— Eu juro, Metatron, seu dimon está sob meu controle. Por favor, grande Regente, esconda-se um pouco... meus olhos estão ofuscados.
Ele puxou um véu de nuvem diante de si. Agora era como olhar para o sol através de vidro fume, e os olhos dela podiam vê-lo mais claramente, embora ainda fingisse estar ofuscada pelo rosto dele. Era exatamente como um homem no início da idade madura, alto, forte e imponente. Estaria vestido? Tinha asas? Ela não sabia dizer por causa da força de seus olhos. Não conseguia olhar para mais nada.
— Por favor, Metatron, ouça o que tenho a dizer. Acabei de fugir de Lorde Asriel. Ele está com o dimon da criança e sabe que a criança logo virá procurá-lo.
— O que ele quer com a criança?
— Mantê-la protegida, fora de seu alcance, até atingir a maturidade. Ele não sabe para onde vim e devo voltar logo para junto dele. Estou lhe dizendo a verdade. Olhe para mim, grande Regente, uma vez que não posso olhar para o senhor com facilidade. Olhe bem francamente para mim e diga-me o que vê.
O príncipe dos anjos olhou para ela. Foi o exame mais penetrante a que Marisa Coulter jamais fora submetida. Cada retalho de proteção e de engano foi-lhe arrancado e ela ficou parada ali despida, de corpo, espírito e dimon, sob a ferocidade do olhar de Metatron.
E sabia que sua natureza teria que responder por ela, e estava apavorada de que o que ele visse nela fosse insuficiente. Lyra tinha mentido para Iofur Raknison com palavras, sua mãe estava mentindo com toda a sua vida.
— Sim, estou vendo.
— O que vê?
— Corrupção, inveja e ambição pelo poder. Crueldade e frieza. Uma curiosidade perversa incessante. Maldade pura, venenosa, tóxica. Você nunca, desde os primeiros anos de vida, demonstrou um fiapo de compaixão, solidariedade ou gentileza sem antes calcular como usá-lo em seu próprio benefício. Você torturou e matou sem arrependimento ou hesitação, você traiu, tramou, conspirou e se rejubilou, glorificando sua perfídia. Você é um poço de imundície moral.
Aquela voz, fazendo aquele julgamento, abalou profundamente a Sra. Coulter. Sabia o que estava a caminho e o temeu apavorada, mas ao mesmo tempo também esperava por aquilo e, agora que tinha sido dito, sentiu um pequeno arrebatamento de triunfo.
Ela se aproximou mais dele.
— Então compreende — declarou — eu posso traí-lo facilmente. Posso levá-lo para onde ele está levando o dimon de minha filha e você poderá destruir Asriel, e a criança virá direto para suas mãos inocentemente.
Ela sentiu o movimento de vapor ao seu redor e seus sentidos ficaram confusos: as palavras seguintes dele perfuraram sua carne como dardos de gelo perfumado.
— Quando eu era homem — disse ele — tive uma quantidade de esposas, mas nenhuma era tão bela quanto você.
— Quando era homem?
— Quando eu era homem, era conhecido como Enoque, o filho de Jared, filho de Mahalalel, filho de Kenan, filho de Enosh, filho de Seth, filho de Adão. Vivi na terra durante 65 anos e então a Autoridade me levou para seu reino.
— E teve muitas esposas?
— Adorava-lhes a carne. E compreendia quando os filhos do céu se apaixonavam pelas filhas da terra, defendi a causa deles diante da Autoridade. Mas seu coração estava decidido contra eles e ele me fez profetizar a perdição deles.
— E não conheceu mais uma esposa durante milhares de anos...
— Tenho sido o Regente do reino.
— E não está na hora de ter uma consorte?
Aquele foi o momento em que ela se sentiu mais exposta e correndo mais perigo. Mas confiava em sua carne e na estranha verdade que havia descoberto a respeito de anjos que outrora tinham sido humanos: carecendo de carne, eles a cobiçavam e ansiavam por ter contato com ela. E Metatron estava perto, perto o bastante para sentir o perfume de seus cabelos e contemplar a sua pele, perto o bastante para tocá-la com mãos escaldantes. Houve um som estranho, como o murmúrio e o crepitar que você ouve antes de se dar conta de que o que está ouvindo é sua casa pegando fogo.
— Diga-me o que Lorde Asriel está fazendo e onde ele está — ordenou ele.
— Posso levá-lo até ele agora — respondeu ela.


Os anjos carregando a liteira deixaram a Montanha Nublada e voaram rumo ao sul. As ordens de Metatron tinham sido levar a Autoridade para um lugar seguro, distante do campo de batalha, porque queria que ainda fosse mantido vivo por algum tempo, mas, em vez de dar-lhe um corpo de guarda de muitos regimentos, que só atrairiam a atenção do inimigo, tinha confiado na obscuridade da tempestade, calculando que naquelas circunstâncias um grupo pequeno seria mais seguro que um grande.
E poderia ter sido assim, se um certo avantesma-dos-penhascos, ocupado em se banquetear com um guerreiro semimorto, não tivesse olhado para cima exatamente no momento em que um holofote de busca, por acaso, iluminou o lado da liteira de cristal.
Alguma coisa despertou na memória do avantesma-dos-penhascos. Ele fez uma pausa, com uma das mãos no fígado ainda quente, e, enquanto seu irmão o empurrava para o lado com um safanão, a lembrança de uma raposa do Ártico tagarela surgiu em sua mente.
Imediatamente ele abriu as asas e saltou para o alto, um momento depois o resto da tropa o seguiu.


Xaphania e seus anjos tinham procurado diligentemente a noite inteira e parte da manhã e, finalmente, tinham encontrado uma rachadura minúscula na encosta da montanha ao sul da fortaleza, que não estivera lá no dia anterior. Eles a haviam explorado e aumentado, e agora Lorde Asriel estava descendo por uma série de cavernas e túneis que se estendiam por uma longa distância abaixo da fortaleza.
Não estava totalmente escuro, como havia esperado. Havia uma fraca fonte de luz, como uma corrente de bilhões de partículas minúsculas, cintilando suavemente. Elas fluíam sem parar descendo pelo túnel, como um rio de luz.
— Pó — disse ele para seu dimon.
Ele nunca o tinha visto a olho nu, mas também nunca tinha visto tanto Pó junto. Seguiu adiante até que, de maneira muito repentina, o túnel se abriu, bem largo, e viu-se no alto de uma vasta caverna: uma abóbada imensa o bastante para conter uma dúzia de catedrais. Não havia solo, as paredes se inclinavam vertiginosamente para baixo em direção à borda de um enorme abismo, centenas de metros mais abaixo e para dentro do abismo corria a catarata infinita de Pó, jorrando incessantemente para o fundo. Seus bilhões de partículas eram como as estrelas de todas as galáxias no céu e cada uma delas era um pequeno fragmento de pensamento consciente. Era uma luz melancólica a que lhe permitia ver.
Ele fez a escalada com seu dimon, descendo em direção ao abismo, e, à medida que desciam, gradualmente começaram a ver o que estava acontecendo ao longo da extremidade oposta da garganta, a centenas de quilômetros de distância na semiobscuridade. Teve a impressão de que havia um movimento lá, e quanto mais descia, mais claramente se definia: uma procissão de vultos pálidos, apagados, caminhando cautelosamente pela encosta perigosa, homens, mulheres, crianças, seres de todos os tipos que ele já tinha visto e muitos que nunca vira. Concentrados em manter o equilíbrio, eles o ignoraram totalmente e Lorde Asriel sentiu os cabelos se arrepiarem na nuca quando se deu conta de que eram fantasmas.
— Lyra esteve aqui — disse baixinho para a pantera branca.
— Pise com cuidado — foi tudo o que ela disse em resposta.
A esta altura, Will e Lyra estavam completamente encharcados, tremendo de frio, atormentados pela dor e tropeçando cegamente em meio à lama, sobre pedregulhos e em pequenos barrancos onde riachos alimentados pela tempestade corriam vermelhos de sangue. Lyra temia que Lady Salmakia estivesse morrendo: ela não dizia nenhuma palavra há vários minutos e estava deitada, o corpo mole desmaiado na mão de Lyra.
Quando se abrigaram no leito de um riacho onde a água estava clara, pelo menos, e encheram as mãos em concha várias vezes levando-as à boca para beber e matar a sede, Will sentiu Tialys despertar e dizer:
— Will, estou ouvindo cavalos se aproximando, Lorde Asriel não tem cavalaria. Deve ser o inimigo. Atravessem o riacho e se escondam... vi alguns arbustos naquela direção...
— Vamos — disse Will para Lyra, e eles chapinharam pela água gelada de fazer doer os ossos e subiram correndo o barranco do outro lado bem a tempo. Os cavaleiros que surgiram no alto da encosta e desceram para beber não pareciam ser uma cavalaria: pareciam ter o mesmo tipo de pele de pelo curto que seus cavalos e não tinham roupas nem arreios. Contudo, empunhavam armas: tridentes, redes e cimitarras.
Will e Lyra não pararam para olhar, seguiram aos tropeções pelo terreno irregular agachados, concentrados apenas em sair dali sem serem vistos. Mas tinham que manter a cabeça abaixada, para ver onde estavam pisando e evitar torcer um tornozelo ou coisa pior, e trovões explodiam acima, enquanto corriam, de modo que não puderam ouvir os gritos estridentes e os rosnados dos avantesmas-dos-penhascos até que deram de cara com eles. As criaturas estavam cercando alguma coisa que estava caída brilhando na lama: algo ligeiramente mais alto que eles, que estava caído sobre um dos lados, uma grande jaula, talvez, com paredes de cristal. E estavam martelando-a, com punhos e pedras, guinchando e dando gritos estridentes. E antes que Will e Lyra pudessem parar e correr em outra direção, tinham tropeçado bem para o meio do grupo.

2 comentários:

  1. Nossa. É tão difícil saber se Coulter está mentindo ou não. Prefiro pensar que ela sempre mentiu, mas e se eu estiver enganada?

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  2. Acho q ela está enganando o anjo pra empurrar ele do abismo

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Boa leitura :)