11 de fevereiro de 2017

3. Um mundo infantil

Lyra acordou cedo. Tinha tido um sonho horrível: alguém lhe dera a caixa térmica que ela vira o pai, Lorde Asriel, mostrar ao Reitor e aos Catedráticos da Universidade Jordan.
Quando aquilo aconteceu na vida real, Lyra estava escondida no armário, e vira Lorde Asriel abrir a caixa e mostrar aos Catedráticos a cabeça cortada de Stanislaus Grumman, o explorador desaparecido; mas no sonho Lyra tinha que abrir ela mesma a caixa, e não queria fazer isso. Na verdade, estava apavorada.
Mas tinha que abrir, querendo ou não, e sentia as mãos fracas de terror ao soltar o fecho da tampa e ouvir o ar entrando no vácuo da caixa térmica. Então retirou a tampa, quase engasgada de terror, mas sabendo que era preciso, tinha que fazer isso. E dentro não havia coisa alguma. A cabeça sumira. Não havia o que temer.
Mas mesmo assim ela despertou chorando e transpirando no quartinho de frente para o porto, com o luar entrando pela janela, e ficou deitada na cama de outra pessoa, agarrada ao travesseiro de outra pessoa, com Pantalaimon na forma de um arminho acariciando-a com o focinho e murmurando que se acalmasse. Ah, ela estava com tanto medo! E como era estranho que ela ficasse tão apavorada no sonho — logo ela, que na vida real tivera tanta vontade de ver a cabeça de Stanislaus Grumman, chegando a pedir a Lorde Asriel para abrir de novo a caixa para ela olhar .
Quando amanheceu, ela perguntou ao aletiômetro o que o sonho significava, mas ele respondeu apenas: Foi um sonho a respeito de uma cabeça.
Ela pensou em acordar o garoto desconhecido, mas ele dormia tão profundamente, que ela desistiu. Em vez disso, desceu para a cozinha e tentou fazer uma omelete; 20 minutos depois ela se sentou a uma mesa na calçada e comeu com grande orgulho a mixórdia escura e crocante, enquanto Pantalaimon, agora um pardal, bicava os pedacinhos de casca de ovo. Ela ouviu um ruído atrás de si e lá estava Will, com os olhos pesados de sono.
— Sei fazer omelete — ela anunciou. — Posso fazer para você, se quiser.
Ele olhou para o prato dela.
— Não, obrigado. Vou comer flocos de milho. Achei na geladeira um pouco de leite que ainda está bom. Eles não devem ter ido embora há muito tempo, o pessoal que mora aqui.
Ela o observou colocar flocos de milho numa tigela e derramar leite em cima — mais uma coisa que ela nunca tinha visto. Ele levou a tigela para a rua e perguntou:
— Se você não é deste mundo, onde é o seu mundo? Como chegou até aqui?
— Atravessando uma ponte. Meu pai fez essa ponte e... eu atravessei atrás dele. Mas ele foi para outro lugar, não sei onde. Não me importo. Mas, enquanto eu estava atravessando, havia tanta neblina que me perdi, eu acho. Fiquei andando no meio da neblina durante dias, comendo só cerejas e coisas que eu encontrava. Então um dia a neblina sumiu e a gente estava no alto daquele rochedo lá atrás...
Fez um gesto para trás de si. Will olhou ao longo da praia, para além do farol, e verificou que a costa se erguia numa grande fileira de rochedos que desapareciam na neblina à distância.
— E vimos a cidade aqui, e descemos, mas não tinha ninguém aqui. Pelo menos tinha coisas para comer e cama para dormir. Não sabíamos o que íamos fazer depois.
— Tem certeza de que isto aqui não é outra parte do seu mundo?
— Claro. Este não é o meu mundo, disto eu tenho certeza.
Will lembrava-se da sua certeza absoluta, quando viu o trecho de gramado através da janela no ar, de que aquilo não ficava no seu mundo, e então fez um gesto de assentimento.
— Então existem pelo menos três mundos ligados — disse.
— Existem milhões e milhões — disse Lyra. — Aquele outro dimon me contou. Era o dimon de uma bruxa. Ninguém consegue calcular quantos mundos existem, todos no mesmo espaço, mas ninguém conseguia ir de um para outro antes do meu pai fazer essa ponte.
— E a janela que eu encontrei?
— Isso eu não sei. Talvez os mundos estejam começando a entrar uns nos outros.
— E por que você está procurando pó?
Ela o encarou friamente.
— Pode ser que um dia eu lhe conte — declarou.
— Está bem. Mas como é que vai procurar esse pó?
— Vou encontrar um Catedrático que saiba sobre ele.
— Como assim? Qualquer Catedrático?
— Não. Um teólogo experimental — ela esclareceu. — Lá na minha Oxford, eram eles que sabiam dessas coisas. É lógico que deve ser o mesmo na sua Oxford. Vou primeiro à Universidade Jordan, porque a Jordan tinha os melhores teólogos.
— Nunca ouvi falar em teologia experimental — ele duvidou.
— Eles sabem tudo sobre partículas elementares e forças fundamentais — ela explicou. — E anbaromagnetismo, coisas assim. Naves atômicas.
— Magnetismo o quê?
— Anbaromagnetismo. Vem de anbárico. Essas luzes — disse, apontando para os postes ornamentais. — Elas são anbáricas.
— Nós chamamos de elétricas.
— Elétricas... Parece electrum. É um tipo de pedra, uma joia, feita de resina de árvore. Às vezes tem um inseto dentro delas.
— Ah, você está falando de âmbar — disse ele.
Ambos falaram ao mesmo tempo:
— Anbárico!
E ambos viram a expressão no rosto do outro. Durante muito tempo Will lembrou-se desse momento.
— Bom, eletromagnetismo — disse ele, desviando os olhos. — Parece o que a gente chama de física, essa sua teologia experimental. Você vai precisar de cientistas, não de teólogos.
— Ah, vou conseguir encontrar — disse ela em tom cauteloso. Estavam sentados ao ar livre naquela manhã sem nuvens, e qualquer um dos dois poderia ter falado a seguir, porque ambos estavam cheios de perguntas; mas nesse momento ouviram uma voz que vinha de mais longe ao longo da calçada da praia, da direção dos jardins do cassino. Ambos olharam para lá, espantados. Era uma voz infantil, mas não havia ninguém à vista.
Will perguntou baixinho a Lyra:
— Há quanto tempo mesmo você está aqui?
— Três, quatro dias, perdi a conta. Nunca vi ninguém. Não tem ninguém Aqui. Procurei em quase toda parte.
Mas havia. Duas crianças, uma delas uma garota da idade de Lyra e a outra um menino mais jovem, saíram de uma das ruas que levavam ao porto. Carregavam cestas, e ambos tinham cabelos ruivos. Estavam a menos de 100 metros quando avistaram Will e Lyra à mesa do pequeno restaurante.
Pantalaimon mudou de pintassilgo para camundongo e subiu correndo pelo braço de Lyra para o bolso da camisa dela.
Ele reparou que aquelas novas crianças eram como Will: nenhuma das duas tinha um dimon visível.
As duas crianças aproximaram-se e ocuparam uma mesa próxima.
— Vocês são de Ci’gazze? — a menina perguntou.
Will sacudiu a cabeça.
— De Sant’Elia?
— Não. Somos de outro lugar — Lyra respondeu.
A menina assentiu; era uma resposta razoável.
— O que é que está acontecendo? — Will perguntou. — Onde estão os adultos?
A menina franziu a testa.
— Os Espectros não vieram à sua cidade? — quis saber.
— Não — disse Will. — Acabamos de chegar. Não sabemos nada sobre Espectros. Qual é o nome desta cidade?
— Ci’gazze — a menina informou, cheia de suspeita. — Quer dizer, Cittàgazze.
— Cittàgazze... — Lyra repetiu. — Ci’gazze. Por que os adultos tiveram que ir embora?
— Por causa dos Espectros — a menina explicou com enorme sarcasmo.
— Qual é o seu nome?
— Lyra. E ele é Will. Qual é o seu?
— Angélica. O meu irmão é Paolo.
— De onde vocês vieram?
— Dos morros. Houve uma grande tempestade e muita neblina, e todo mundo ficou assustado, de modo que corremos para o alto dos morros. Então, quando a neblina clareou, os adultos viram pelos telescópios que a cidade estava cheia de Espectros, de modo que eles não podiam voltar. Mas as crianças, a gente não tem medo de Espectros, ora. Mais crianças estão vindo aí. Vão chegar mais tarde, mas nós fomos os primeiros.
— Nós e o Tullio — disse o pequeno Paolo com orgulho.
— Quem é Tullio?
Angélica ficou zangada: Paolo não devia ter mencionado o outro irmão. Agora já não era segredo.
— O nosso irmão mais velho — explicou. — Ele não está conosco. Está escondido até conseguir... Está escondido, só isso.
— Ele vai pegar... — Paolo começou, mas Angélica deu-lhe um tapa com força e ele calou a boca, apertando os lábios trêmulos.
— Que foi que você disse sobre a cidade? — quis saber Will. — Que está cheia de Espectros?
— É, Ci’gazze, Sant’Elia, todas as cidades, os Espectros vão aonde as pessoas estão. De onde você vem?
— De Winchester — Will informou.
— Nunca ouvi falar. Lá não tem Espectros?
— Não. Também não estou vendo nenhum aqui.
— Claro que não! — ela exclamou. — Você não é adulto! Quando a gente fica adulto, vê Espectros.
— Eu não tenho medo de Espectros — disse o garotinho, erguendo o queixo sujo. — Mato todos eles.
— Os adultos não vão mais voltar? — Lyra perguntou.
— Vão, daqui a alguns dias — disse Angélica. ’ Quando os Espectros forem para outro lugar. Nós gostamos quando os Espectros vêm para cá, porque podemos correr pela cidade, fazer tudo que queremos.
— Mas o que os adultos acham que os Espectros vão fazer com eles? ’ Will perguntou.
— Bom, quando um Espectro agarra um adulto, a coisa é feia de se ver. Eles comem a vida dele ali, na hora. Não quero ser adulta, eu juro. No princípio eles sabem o que está acontecendo e ficam com medo, e gritam e gritam, tentam olhar para outro lado e fingir que não está acontecendo, mas está. É tarde demais. E ninguém chega perto deles, eles ficam sozinhos. Então ficam pálidos e param de se mexer. Ainda estão vivos, mas é como se tivessem sido comidos por dentro. A gente olha nos olhos deles e vê o fundo da cabeça. Não tem nada lá dentro.
A menina virou-se para o irmão e limpou o nariz dele na manga da camisa.
— Eu e Paolo vamos procurar sorvete — informou. — Querem vir também?
— Não — disse Will. — Temos uma coisa a fazer.
— Então até logo — disse ela.
— Morte aos Espectros! — Paolo completou.
— Até logo — fez Lyra.
Assim que Angélica e o menininho desapareceram, Pantalaimon surgiu do bolso de Lyra, olhos brilhantes, os pelos da cabecinha de camundongo eriçados. Disse a Will:
— Eles não sabem da janela que você encontrou.
Era a primeira vez que Will o ouvia falar, e isso quase o deixou mais espantado do que tudo que ele vira até então. Lyra riu do seu espanto.
— Mas... ele falou... Todos os dimons falam? — quis saber.
— Claro que sim! — disse Lyra. — Achou que ele era só um bichinho de estimação?
Will passou a mão pelos cabelos e pestanejou. Depois sacudiu a cabeça e voltou-se para Pantalaimon:
— Não, você tem razão, eu acho. Eles não sabem da janela.
— Então é melhor termos cuidado com isso — Pantalaimon continuou. Durou um instante a estranheza de conversar com um camundongo, e logo passou a ser tão normal quanto falar ao telefone, porque na verdade ele estava falando com Lyra. Mas o camundongo era um ser independente; tinha alguma coisa de Lyra em sua expressão, mas alguma outra coisa também. Era difícil raciocinar, com tantas coisas esquisitas acontecendo ao mesmo tempo.
Will tentou organizar os pensamentos.
— Primeiro você tem que arrumar algumas roupas, Lyra, antes de entrar na minha Oxford — afirmou.
— Por quê? — ela perguntou, rebelde.
— Porque no meu mundo você não pode ir falar com as pessoas vestida assim, elas não iam deixar você chegar perto. Tem que parecer que faz parte delas. Tem que andar camuflada. Eu sei, entende? Faço isso há anos. É melhor você me escutar, senão vai ser apanhada, e se descobrirem de onde você veio, a Janela, e tudo... Ora, este mundo é um bom esconderijo. Sabe, eu... Preciso me esconder de certas pessoas. Este é o melhor esconderijo que eu poderia sonhar, e não quero que seja descoberto. Portanto, não quero que você estrague tudo com sua aparência de quem não faz parte de lá. Tenho minhas coisas a fazer em Oxford, e se me descobrirem por sua causa eu mato você.
Ela engoliu em seco. O aletiômetro nunca mentia: aquele garoto era um assassino — e, se tinha matado antes, podia matá-la também. Ela assentiu com ar sério.
— Está bem — disse, e era verdade.
Pantalaimon tinha virado um lêmure e o encarava com um olhar desconcertante. Will encarou-o de volta, e o dimon virou camundongo outra vez, entrando para o bolso dela.
— Ótimo — ele disse. — Agora, enquanto estivermos aqui, vamos fingir para as outras crianças que viemos de algum lugar do mundo delas. É bom não haver adultos. Podemos ficar à vontade, ninguém vai perceber. Mas no meu mundo você vai ter que me obedecer. E a primeira coisa é tomar um banho. Você vai precisar parecer limpa, senão vai ser notada. Temos que estar camuflados em toda parte. Temos que parecer que fazemos parte dali, com tanta naturalidade que as pessoas nem nos percebam. Então, para começar, vá lavar os cabelos. Eu vi um xampu no banheiro. Depois vamos procurar algumas roupas.
— Não sei fazer isso — ela admitiu. — Nunca lavei meus cabelos. A governanta fazia isso na Jordan, e depois de lá eu nunca mais precisei.
— Bom, vai ter que dar um jeito — ele insistiu. — Tome logo um banho completo. No meu mundo as pessoas são limpas.
— Hum... — fez Lyra, e foi para o segundo andar. O olhar de um camundongo feroz fixou-se nele por cima do ombro dela, mas ele retribuiu o olhar com frieza.
Parte dele queria passear nessa manhã ensolarada, explorar a cidade, mas outra parte tremia de ansiedade pela mãe, e mais outra parte estava ainda dopada pelo choque da morte que ele provocara. E acima de tudo havia a missão que ele tinha que cumprir. Mas era bom manter-se ocupado, de modo que enquanto esperava por Lyra ele limpou a cozinha, lavou o chão e esvaziou a lata de lixo no recipiente que encontrou no beco nos fundos. Depois pegou dentro da sacola o escrínio de couro verde e contemplou-o com anseio. Assim que tivesse mostrado a Lyra como atravessar a janela para dentro da Oxford dele, ia voltar e examinar o seu conteúdo; mas até então ele o enfiou sob o colchão da cama onde havia dormido. Neste mundo ele estava em segurança.
Quando Lyra desceu, limpa e molhada, os dois saíram em busca de roupas para ela. Encontraram uma loja de departamentos, modesta como tudo mais, com roupas que aos olhos de Will pareciam um pouco fora de moda, mas acharam para Lyra uma saia escocesa e uma blusa verde sem mangas, com um bolso para Pantalaimon. Ela recusou-se a usar jeans: recusou-se até a acreditar quando Will lhe disse que a maioria das garotas usava.
— São calças! — protestou. — Eu sou mulher. Não seja burro.
Ele deu de ombros; a saia escocesa era discreta, isso era o principal. Antes de partirem, Will deixou algumas moedas na caixa atrás do balcão.
— O que é que você está fazendo? — ela quis saber.
— Pagando. Você tem que pagar pelas coisas. No seu mundo não se paga pelas coisas?
— Não neste aqui! Aposto que aquelas outras crianças não estão pagando por nada!
— Elas podem não pagar, mas eu pago.
— Se começar a se comportar como adulto, os Espectros vão lhe pegar — ela avisou, embora ainda não soubesse se podia brincar com ele ou se devia continuar tendo medo dele.
À luz do dia Will via como eram antigos os prédios no centro da cidade, e o estado de ruína a que alguns deles tinham chegado.
A rua estava cheia de buracos não consertados; havia janelas quebradas, rebocos caindo. No entanto, já houvera nesse lugar beleza e esplendor: através de arcos entalhados viam-se pátios espaçosos, cheios de plantas, e havia grandes construções que pareciam palácios, embora as escadarias estivessem rachadas, e as molduras das portas, soltas das paredes. Parecia que, em vez de derrubar um prédio e construir um novo, os cidadãos de Ci’gazze preferiam remendá-lo indefinidamente. A certa altura chegaram a uma torre solitária numa pracinha. Era a construção mais antiga que tinham visto: uma torre simples, de quatro andares, com amei as no topo. Alguma coisa na sua imobilidade à luz forte do sol era intrigante, e tanto Will quanto Lyra sentiram-se atraídos para a meia-porta aberta no topo da escadaria larga; mas não falaram sobre isso, e com certa relutância seguiram seu caminho.
Quando chegaram à alameda larga, com as palmeiras, ele mandou-a procurar um pequeno café de esquina, com mesas de metal pintadas de verde na calçada.
Ela encontrou-o num minuto. Parecia menor e mais pobre à luz do dia, mas era o mesmo lugar, com o balcão de tampo de zinco, a máquina de café expresso, o prato de risoto pela metade, agora começando a cheirar mal no ar quente.
— É aqui? — Lyra perguntou.
— Não. Fica no meio da rua. Veja se não há outras crianças por perto...
Mas estavam sozinhos. Will levou-a para o canteiro central sob as palmeiras e olhou em volta para se orientar.
— Acho que era por aqui — disse. — Quando atravessei, via muito mal aquele morro alto atrás da casa branca lá em cima, e olhando para este lado eu vi o café, e...
— Como é essa coisa? Não estou vendo nada.
— Você não vai confundir. Não parece nada que você já tenha visto.
Ele caminhava de um lado para outro. A janela teria desaparecido? Teria fechado? Ele não conseguia encontrá-la. E de repente encontrou-a. Estivera observando a borda do canteiro enquanto caminhava; assim como na noite anterior, no lado de Oxford, ela só podia ser vista de um lado, quando se passava para trás dela, ela ficava invisível. E o sol no gramado do outro lado era exatamente como o sol no gramado deste lado, a não ser por alguma coisa indizivelmente diferente.
— Achei! — exclamou, quando teve certeza.
— Ah! Estou vendo!
Ela estava alvoroçada. Parecia tão atônita quanto ele ao escutar Pantalaimon falar. O dimon, incapaz de continuar dentro do bolso, tinha saído como uma vespa, e voou zumbindo até o buraco algumas vezes, recuando sempre, enquanto ela enrolava entre os dedos os cabelos ainda molhados.
— Fique de lado — ele instruiu. — Se ficar na frente dele, as pessoas vão ver só um par de pernas, e isso ia causar sensação. Não quero que ninguém perceba.
— Que barulho é este?
— Trânsito. Vamos sair no trevo de Oxford. Deve estar muito movimentado. Abaixe-se e dê uma olhada por este lado. Na verdade, não é uma hora boa para a gente atravessar, muitas pessoas passando. Mas vai ser difícil encontrar um lugar para ir se atravessarmos no meio da noite. Pelo menos, depois de atravessarmos poderemos nos misturar com facilidade. Você passa primeiro. Mergulhe depressa e depois se afaste da janela.
Desde que saíram do café, ela vinha carregando uma pequena mochila azul e, antes de agachar-se e olhar para o outro lado, ela tirou a mochila das costas e segurou-a nos braços.
— Ah! — exclamou. — Este aí é o seu mundo? Não está parecendo ser Oxford. Tem certeza que estava em Oxford?
— Claro que tenho. Quando atravessar, vai ver uma rua bem na sua frente. Vá para a esquerda, e depois, um pouco à frente, pegue a rua que vai para a direita. Ela leva ao centro da cidade. Não deixe de marcar bem esta janela e não se esqueça de onde ela está, certo? É a única maneira de voltar.
— Certo, não me esquecerei.
Com a mochila nos braços, ela mergulhou no ar através das janela e desapareceu. Will agachou-se para ver aonde ela ia. E lá estava ela, parada no gramado na Oxford dele, com Pan ainda como vespa no ombro dela, e ninguém, pelo que ele podia dizer, a tinha visto surgir do nada. A poucos passos, carros e caminhões voavam, e nesse cruzamento movimentado nenhum motorista teria tempo de olhar para o lado e reparar num pequeno trecho de ar esquisito, mesmo se conseguisse vê-lo, e o trânsito escondia a janela de qualquer pessoa que olhasse da outra calçada.
Houve o guinchar de freios, um grito, uma batida. Ele jogou-se no chão para olhar.
Lyra estava caída na grama. Um carro tinha freado tão subitamente, que foi atingido pelo furgão que vinha atrás, sendo empurrado alguns metros para a frente, e lá estava Lyra, imóvel...
Will lançou-se atrás dela. Ninguém o viu surgir; todos os olhos estavam no carro, no para-choque amassado, no motorista do furgão — que saltava do veículo — e na menina.
— Não consegui impedir... Ela entrou correndo na frente... — disse a mulher de meia-idade que estava ao volante do carro. — E você estava perto demais — acrescentou, voltando-se para o motorista do furgão.
— Depois a gente vê isso — ele retrucou. — Como está a menina?
O motorista do furgão estava falando com Will, de joelhos ao lado de Lyra. Will ergueu os olhos e olhou em volta, mas não havia outro jeito, ele era responsável por ela. No chão, Lyra mexia a cabeça, pestanejando. Will viu Pantalaimon em forma de vespa arrastando-se por um talo de grama ao lado dela.
— Você está bem? — ele perguntou. — Mexa os braços e as pernas.
— Uma estupidez! — dizia a mulher dentro do carro. — Correu na minha frente. Nem olhou. Que é que eu podia fazer?
— Você está bem, querida? — perguntou o motorista do furgão.
— Estou — balbuciou Lyra.
— Tudo no lugar?
— Mexa os pés e as mãos — Will insistiu.
Ela obedeceu. Não havia fratura.
— Ela está bem — Will assegurou. — Vou tomar conta dela. Ela está ótima.
— Você conhece esta menina? — quis saber o motorista do furgão.
— É minha irmã — disse Will. — Está tudo bem. Moramos logo ali, dobrando a esquina. Vou levar ela para casa.
Lyra agora estava sentada, e, como era evidente que ela não estava gravemente ferida, a mulher voltou sua atenção para o carro. O resto do trânsito passava ao largo dos dois veículos parados, e ao passarem olhavam para a cena com curiosidade, como sempre acontece. Will ajudou Lyra a se levantar; quanto mais depressa saíssem dali, melhor. A mulher e o motorista do furgão tinham chegado à conclusão de que o problema deveria ser resolvido pelas respectivas companhias de seguros, e estavam trocando endereços quando a mulher viu Will afastando-se, ajudando Lyra, que mancava.
— Esperem! — gritou. — Vocês vão ser testemunhas. Preciso do seu nome e endereço.
— Sou Mark Ransom — disse Will, virando-se. — Minha irmã se chama Lisa. Moramos na Travessa Bourne 26.
— Código postal?
— Nunca me lembro — ele disse. — Escute, quero levar minha irmã para casa.
— Entrem aqui, vou lhes dar uma carona — ofereceu o motorista do furgão.
— Não é preciso, é mais rápido a pé.
Lyra não estava mancando muito. Afastou-se caminhando com Will ao longo do gramado sob os carpinos; os dois viraram na primeira esquina que encontraram.
Sentaram-se num muro baixo de praça.
— Está machucada? — Will perguntou.
— Minha perna bateu. E quando eu caí, a minha cabeça tremeu — ela respondeu.
Mas estava mais preocupada com o que havia dentro da mochila. Tateou lá dentro e pegou um embrulhinho pesado, envolvido em veludo negro, que ela desdobrou. Will arregalou os olhos ao ver o aletiômetro: os minúsculos símbolos pintados em volta do mostrador, os ponteiros dourados, o ponteiro maior em movimento, a pesada opulência do envoltório de metal — tudo isso deixou-o sem fôlego.
— Que é isso? — quis saber.
— É o meu aletiômetro. É um contador de verdade. Um leitor de símbolos. Espero que não esteja quebrado...
Mas o artefato estava intacto. Mesmo nas mãos trêmulas de Lyra o ponteiro maior girava regularmente. Ela guardou o aletiômetro e disse:
— Nunca vi tantas carroças e coisas... Nunca pensei que andassem tão depressa...
— A sua Oxford não tem carros e furgões?
— Não tantos assim. E não como esses. Eu não estou acostumada. Mas já estou bem.
— Bom, de agora em diante tome cuidado. Se for parar debaixo de um ônibus, ou se se perder ou coisa assim, vão perceber que você não é deste mundo e vão começar a procurar a passagem...
Ele estava muito mais zangado do que precisava. Finalmente declarou:
— Está certo. Escute: se fingir que é minha irmã, isso vai ser um bom disfarce para mim, pois o menino que eles estão procurando é filho único. E se eu estiver com você, posso lhe ensinar a atravessar a rua sem ser atropelada.
— Está bem — ela concordou com humildade.
— E dinheiro. Aposto que você não tem... Ora, como poderia ter dinheiro? Como vai se movimentar, comer e tudo mais?
— Eu tenho dinheiro — ela contestou, e pescou algumas moedas de ouro na bolsa.
Will estudou-as com expressão incrédula.
— É ouro? É, sim, não é? Bom, isto ia fazer todo mundo ficar curioso, se ia. Você não está segura. Vou lhe dar algum dinheiro. Guarde estas moedas bem escondidas. E lembre-se: você é a minha irmã e o seu nome é Lisa Ransom.
— Lizzie. Uma vez fingi que meu nome era Lizzie. Posso me lembrar disso.
— Está bem, Lizzie. E eu sou Mark. Não esqueça.
— Está certo — ela concordou.
A perna ia ficar muito dolorida; estava vermelha e inchada onde o carro tinha batido, e uma grande mancha escura já estava se formando. Com a equimose no rosto, onde ele a golpeara na véspera, ela parecia maltratada, e isso também preocupava o garoto: e se um policial ficasse curioso?
Tentou tirar isso da cabeça e os dois partiram, atravessando a rua no sinal e lançando um último olhar à janela sob os carpinos. Não conseguiam vê-la. Ela estava invisível, e o trânsito retomara seu fluxo. Em Summertown, depois de dez minutos de caminhada pela Rua Banbury, Will parou na frente de um banco.
— O que é que você vai fazer?
— Vou tirar algum dinheiro. É melhor não fazer isso muitas vezes, mas eles só vão registrar o saque no final do expediente, eu imagino.
Colocou o cartão bancário da mãe na caixa automática e digitou a senha. Pelo jeito estava tudo certo, portanto ele retirou 100 libras, que a máquina entregou sem um senão.
Lyra observava, boquiaberta. Ele deu a ela uma nota de 20 libras.
— Para usar depois — disse. — Compre uma coisa qualquer para trocar o dinheiro. Vamos procurar um ônibus para a cidade.
No ônibus, Lyra deixou que ele cuidasse das coisas e ficou sentada, muito quieta, observando as casas e os jardins da cidade que era dela e não era. Ela se sentia como se estivesse dentro do sonho de outra pessoa. Saltaram no centro da cidade, junto a uma antiga igreja de pedra, que ela conhecia, na frente de uma grande loja de departamentos que ela não conhecia.
— Está tudo mudado! — disse. — Como... Ali não é o Mercado de Milho? E esta aqui é a Broad. Ali, o Balliol. E a Biblioteca Bodley’s, ali embaixo. Mas onde está a Jordan?
Ela agora tremia com força. Podia ser uma reação retardada por causa do acidente, ou um choque atual por encontrar um prédio inteiramente diferente no lugar da Universidade Jordan, que era o seu lar.
— Não está certo — disse. Falava baixinho, porque Will lhe ordenara que parasse de apontar e comentar em voz tão alta as coisas que estavam erradas. — É uma outra Oxford.
— Bom, a gente sabia disso.
Ele não estava preparado para o espanto e a confusão de Lyra. Não tinha como saber até que ponto a infância dela havia transcorrido em correrias por ruas quase idênticas a essas, e o orgulho que ela sentia por pertencer à Universidade Jordan, cujos Catedráticos eram os mais inteligentes, cujos cofres eram os mais ricos, cuja beleza era a mais esplêndida; e tudo isso agora simplesmente não estava ali, e ela não era mais a Lyra da Jordan; era uma menininha perdida num mundo estranho, que não fazia parte de nenhum lugar.
— Bem, se não está aí... — disse em voz trêmula.
Ia apenas demorar um pouco mais do que ela havia pensado — só isso.

2 comentários:

  1. Eu sei q no mundo dela era diferente mas mesmo se for uma carroça se ela tive rapida n se atire na frente e ela vai lá e é atropeladaa , e ainda acha q ia ser td igual nos outros mundos que ve q vai se um mais louco q outro

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  2. Atenção completamente presa em mais um livro, ok.
    thank you universe <3

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Boa leitura :)