4 de fevereiro de 2017

3. A Jordan de Lyra

A Faculdade Jordan era a mais grandiosa e mais rica faculdade de Oxford. Era provavelmente a maior, também, embora ninguém tivesse certeza disso. Os prédios, agrupados ao redor de três quadriláteros irregulares, datavam de todas as épocas, do início da Idade Média até meados do século XVIII. Sua arquitetura não tinha sido planejada; a faculdade crescera aos poucos, com o passado e o presente se misturando a cada esquina, e o efeito final era de uma imponência confusa e decadente. Sempre havia uma parte querendo desabar, e, durante cinco gerações, a mesma família — os Parslow — trabalhava para a Faculdade em tempo integral, como pedreiros e especialistas em andaimes. O Sr. Parslow atual estava ensinando a profissão ao filho; os dois, com mais três empregados, subiam como formigas diligentes pelos andaimes que estavam montados no canto da Biblioteca, ou ficavam sobre o telhado da Capela, e puxavam para cima novos blocos de pedra, rolos de chumbo brilhante, ou vigas de madeira.
A Faculdade era dona de fazendas e propriedades por toda a Inglaterra. As pessoas diziam que era possível caminhar de Oxford a Bristol, numa direção, ou de Oxford a Londres, em outra, e nunca sair das terras da Jordan. Em toda parte do reino, havia olarias e tanques de tintura, florestas e oficinas de naves atômicas que pagavam aluguel à Jordan, e todo primeiro dia de cada trimestre o Tesoureiro e seus funcionários somavam tudo, anunciavam o total ao Conselho e encomendavam um par de cisnes para o Banquete. Parte do dinheiro ia para novos investimentos — o Conselho acabara de aprovar a compra de um prédio de salas das conversas em Manchester —, e o que sobrava era usado para pagar os modestos salários dos Catedráticos e dos criados (e dos Parslow, e de mais de uma dúzia de famílias de artesãos e comerciantes que serviam à Faculdade), para manter a adega bem provida de vinhos, para comprar livros e anbarógrafos para a imensa Biblioteca — que ocupava um lado inteiro do Quadrilátero Melrose e se estendia, como a toca de uma toupeira, por vários andares no subsolo — e também para comprar o equipamento filosófico mais moderno para a Capela.
Era importante manter a Capela equipada com o que havia de mais moderno, porque a Faculdade Jordan não tinha concorrentes, na Europa ou na Nova França, como centro de teologia experimental. Lyra sabia disso, pelo menos. Tinha orgulho do destaque de sua Faculdade e gostava de se gabar disso com os vários moleques com quem brincava junto ao Canal ou nos Barreiros; e olhava para os eruditos e professores visitantes com desprezo e piedade, porque eles não pertenciam à Jordan, e sendo assim deviam saber menos, coitados, do que o mais humilde Professor-assistente da Jordan.
O que era essa teologia experimental, Lyra sabia tão pouco quanto os moleques da rua. Imaginava que era algo relacionado à magia, aos movimentos das estrelas e dos planetas, a minúsculas partículas de matéria — mas tudo isso era apenas palpite, na verdade. Com certeza, as estrelas tinham dimons, como os humanos, e na teologia experimental se conversava com eles. Lyra imaginava o Capelão falando solenemente, escutando os comentários dos dimons das estrelas e depois concordando com ar sábio, ou sacudindo a cabeça com tristeza. Mas o que se passava entre eles ela não conseguia imaginar.
E nem estava muito interessada. De certo modo, Lyra tinha alma de moleque; o que ela mais gostava de fazer era subir nos telhados da Faculdade com Roger, o ajudante de cozinha que era seu amigo, para cuspir caroços de ameixa na cabeça dos Catedráticos que passavam lá embaixo, ou piar como corujas do lado de fora da janela de uma sala de aula, ou apostar corrida nas ruas estreitas, roubar maçãs no mercado, brigar. Assim como ela não fazia ideia das disputas políticas que se escondiam sob a aparência de normalidade no dia a dia da Faculdade, também os Catedráticos, por sua vez, não conseguiriam enxergar o caldo fervilhante de alianças, inimizades, guerras e acordos que era a vida de uma criança em Oxford. Crianças brincando juntas: que cena agradável! Existe alguma coisa mais inocente e encantadora que isso?
Na verdade, Lyra e seus amiguinhos estavam envolvidos numa guerra mortal, naturalmente. Primeiro, as crianças de uma faculdade — serviçais jovens, os filhos de criados, e Lyra — declaravam guerra às de outra. Mas essa inimizade era esquecida quando as crianças da cidade atacavam uma criança de faculdade; então todas as crianças das faculdades se juntavam e lutavam contra as crianças da cidade. A rivalidade entre esses dois grupos tinha centenas de anos e era bastante profunda e apreciada.
Mas até isso era esquecido quando outros inimigos ameaçavam. Um inimigo era eterno: os filhos dos oleiros, que viviam perto dos Barreiros e eram desprezados tanto pelas crianças das faculdades como pelas da cidade. No ano anterior, Lyra e algumas crianças da cidade tinham feito uma trégua provisória e atacaram os Barreiros, atirando grandes pedaços de argila sobre os filhos dos fabricantes de tijolos e derrubando o ensopado castelo de barro que eles haviam construído; depois rolaram cada um deles na substância pegajosa de onde eles tiravam o sustento, até que todos — vencidos e vencedores — ficaram parecendo um bando de bonecos animados.
O outro inimigo regular tinha sua época: as famílias de gípcios, que moravam em barcos de canal, iam e vinham com as feiras de primavera e outono, e estavam sempre dispostos a brigar. Havia uma família em particular, que voltava regularmente para seu atracadouro na parte da cidade conhecida como Jericó, com quem Lyra vinha lutando desde a primeira vez que teve força para jogar uma pedra. Na última vez que essa família esteve em Oxford, ela, Roger e alguns dos outros ajudantes de cozinha da Jordan e da Faculdade St. Michael’s prepararam uma emboscada, jogando lama na barcaça pintada de cores brilhantes, até que a família inteira desembarcou para expulsá-los. Nesse momento, o esquadrão de reserva, sob as ordens de Lyra, invadiu o barco e o afastou da margem, deixando que a embarcação flutuasse canal abaixo, atrapalhando os barcos que passavam, enquanto os incursores de Lyra revistavam a barcaça de uma ponta a outra, procurando a rolha. Lyra acreditava firmemente nessa rolha e assegurou à sua tropa que se a puxassem o barco afundaria no mesmo instante; não a encontraram, e tiveram que abandonar o barco quando os gípcios os alcançaram; acabaram fugindo, pingando água e em meio a gritos de triunfo, pelas ruas estreitas de Jericó.
Aquele era o mundo e o prazer de Lyra. Na maior parte do tempo, ela era uma selvagenzinha ambiciosa e sem educação, mas sempre tivera uma sensação de que aquele não era o seu mundo inteiro, que uma parte dela pertencia à solenidade e aos rituais da Faculdade Jordan; e que, em algum lugar de sua vida, havia uma ligação com o elevado mundo da política representado por Lorde Asriel. Essa intuição apenas fazia com que ela se achasse superior e mandasse nos outros moleques; nunca passara pela sua cabeça tentar descobrir alguma coisa sobre isso.
Ela passara a infância, então, mais parecendo um gato selvagem. As coisas só mudavam um pouco quando Lorde Asriel aparecia na Faculdade. Ter um tio rico e poderoso era muito bom para se vangloriar, mas o preço disso era ter que ser agarrada pelo Catedrático mais ágil e levada à Governanta para ser lavada e metida num vestido limpo, sendo em seguida acompanhada (com várias ameaças) à Sala de Estar dos Decanos para tomar chá com Lorde Asriel. Alguns Catedráticos mais velhos também eram convidados. Lyra, rebelde, jogava-se numa cadeira até o Reitor lhe ordenar severamente que se sentasse direito, e ela então fazia uma cara tão zangada que até o Capelão achava graça.
Essas visitas formais e constrangedoras nunca variavam; depois do chá, o Reitor e o punhado de Catedráticos convidados deixavam Lyra e o tio sozinhos, e ele a chamava para ficar de pé à sua frente e contar o que aprendera desde a última visita dele. Ela então murmurava tudo que conseguia lembrar sobre geometria, ou árabe, ou história ou anbarologia, e ele, recostado, pernas cruzadas, a observava enigmaticamente até ela ficar sem palavras.
No ano anterior, antes da expedição ao Norte, ele tinha perguntado também:
— E como você passa o tempo quando não está estudando com afinco?
E ela respondeu:
— Eu brinco, só isso. Por aí pela Faculdade. Só... brincadeira.
Ele então pediu:
— Me deixe ver suas mãos, garota.
Ela estendeu as mãos para serem examinadas, e ele as virou, para ver as unhas. Seu dimon estava deitado como uma Esfinge no tapete, sacudindo a cauda de vez em quando e encarando Lyra sem piscar.
— Sujas — declarou Lorde Asriel, empurrando as mãos dela. — Aqui neste lugar não lhe fazem tomar banho?
— Sim, mas as unhas do Capelão estão sempre sujas. Até mais que as minhas.
— Ele é um homem culto. Qual é a sua desculpa?
— Devo ter sujado depois que lavei.
— Onde é que você brinca, para se sujar tanto assim?
Ela o encarou desconfiada. Tinha a impressão de que subir no telhado era proibido, embora ninguém tivesse lhe dito isso com todas as letras.
— Em algumas salas velhas — respondeu afinal.
— E onde mais?
— Nos Barreiros, às vezes.
— E?
— Em Jericó e Port Meadow.
— Mais algum outro lugar?
— Não.
— Está mentindo. Ontem mesmo vi você no telhado.
Ela mordeu o lábio e ficou calada. Ele a observava ironicamente.
— Quer dizer que brinca no telhado também? — continuou. — Costuma entrar na Biblioteca?
— Não. Mas encontrei uma gralha no telhado da Biblioteca.
— Foi mesmo? E a pegou?
— Ela estava com uma pata machucada. Eu ia matar e assar ela, mas Roger disse que tínhamos que cuidar dela. Então lhe demos sobras de comida e um pouco de vinho, e ela melhorou e voou para longe.
— Quem é Roger?
— Meu amigo. O ajudante de cozinha.
— Entendo. Então você andou pelo telhado inteiro...
— Não o telhado inteiro. Não dá para chegar no Prédio Sheldon porque é preciso dar um pulo da Torre do Peregrino, por cima de um espaço. Há uma claraboia que se abre ao telhado, mas não consigo alcançar.
— Você andou pelo telhado inteiro, menos o Prédio Sheldon; e lá embaixo?
— Embaixo?
— Para baixo do chão a Faculdade é tão grande quanto para cima. Estou surpreso de ver que você ainda não descobriu isso. Bem, já estou de partida. Você parece bastante saudável. Tome aqui.
Tirou do bolso um punhado de moedas, de onde separou e entregou a ela cinco dólares de ouro.
— Não lhe ensinaram a agradecer? — perguntou.
— Muito obrigada — ela murmurou.
— Você obedece ao Reitor?
— Ah, sim.
— E respeita os Professores?
— Sim.
O dimon de Lorde Asriel riu baixinho. Era o primeiro som que ele fazia, e Lyra enrubesceu.
— Então vá brincar — disse Lorde Asriel.
Lyra se virou e disparou para a porta, aliviada, se lembrando de parar e dizer até logo.


Assim tinha sido a vida de Lyra antes do dia em que ela resolveu se esconder na Sala Privativa e pela primeira vez ouviu falar no Pó.
E, naturalmente, o Bibliotecário estava enganado ao dizer ao Reitor que ela não prestaria atenção; ela teria ouvido com muita atenção quem quer que pudesse lhe falar do Pó.
Nos meses seguintes, iria ouvir muita coisa sobre o assunto, e finalmente iria saber mais sobre o Pó do que qualquer outra pessoa no mundo; mas, enquanto isso, havia toda aquela fascinante vida da Jordan acontecendo bem à sua volta.
De qualquer maneira, havia outra coisa para se pensar. Nas últimas semanas, um boato vinha se espalhando pelas ruas — um boato que fazia algumas pessoas rirem e outras silenciarem, assim como algumas pessoas riem de fantasmas e outras têm medo deles: sem que qualquer pessoa pudesse imaginar o motivo, crianças estavam começando a desaparecer.
Acontecia assim: ao longo da margem oriental da grande rodovia que é o rio Ísis, repleto de barcaças de tijolos, asfalto ou milho navegando devagar, até abaixo de Henley e Maidenhead chegando em Teddington, onde a maré do Oceano Germano alcança, e ainda bem mais abaixo até Mortlake, passando pela casa do grande mago Dr. Dee, por Falkeshall, onde os parques-jardins ostentam seus chafarizes e suas bandeirolas durante o dia, e seus lampiões nas árvores e seus fogos de artifício à noite; e passando pelo Palácio de White Hall, onde o Rei comanda semanalmente o Conselho de Estado; pela Torre Shot, pingando seu infindável chuvisco de chumbo derretido em barris de água escura; e ainda mais abaixo, até onde o rio, agora largo e imundo, faz uma grande curva para o sul.
Ali fica o bairro de Limehouse, e lá está a criança que vai desaparecer. É um menino chamado Tony Makarios. A mãe pensa que ele tem 9 anos, mas ela tem memória fraca, destruída pela bebida; ele pode ter 8, ou 10. Seu sobrenome é grego, mas, assim como a idade, pode ser apenas um palpite da mãe dele, porque ele parece mais chinês que grego, e pelo lado da mãe ele tem sangue irlandês, escraelingue e lascar. Tony não é muito inteligente, mas tem uma espécie de ternura desajeitada que às vezes o leva a dar um abraço meio bruto na mãe e plantar um beijo pegajoso em seu rosto. A pobre mulher geralmente está tonta demais para tomar uma iniciativa dessas, mas corresponde com carinho, quando percebe o que está acontecendo.
No momento, Tony está vagando pelo mercado na rua Pie. Está com fome; é de noitinha e ele não vai encontrar comida em casa. Tem no bolso um xelim que um soldado lhe deu para levar um recado à sua garota favorita, mas Tony não vai desperdiçar seu dinheiro com comida, quando se pode conseguir tanta coisa de graça.
De modo que ele fica vagando pelo mercado com seu pequeno dimon — uma pardoca — no ombro observando tudo, por entre as barracas de roupas usadas e as de papéis da sorte, os vendedores de fruta e o vendedor de peixe frito; e quando uma barraqueira e seu dimon estão ambos olhando para o outro lado, a pardoca dá o sinal, e as mãos de Tony vão à frente e voltam para dentro da camisa larga com uma maçã ou um punhado de castanhas, e finalmente com um pastelão quentinho.
A barraqueira o vê e dá um grito, e seu dimon-gato salta, mas a pardoca de Tony está voando, e o próprio Tony já está quase na esquina. Palavrões e pragas o acompanham, mas não até muito longe; ele para de correr junto à escada do Oratório de Santa Catarina, onde se senta e pega seu troféu quente e amassado, deixando um rastro de molho na camisa.
E ele está sendo observado; uma dama usando um casaco longo de pele de raposa amarela e vermelha, uma linda jovem, cujos cabelos castanhos brilham delicadamente dentro da sombra de seu capuz forrado de pele, está parada à porta do Oratório, alguns degraus acima do garoto. Talvez o ofício esteja terminando, pois pela porta atrás dela jorra luz, lá dentro um órgão está tocando, e a dama está segurando um livro de orações enfeitado com pedras preciosas.
Tony nada percebe. Feliz, com o rosto enterrado no pastelão, os dedos dos pés curvados para dentro e as solas descalças juntas, ele mastiga e engole enquanto seu dimon se transforma numa ratinha e alisa os bigodes.
O dimon da jovem dama está se destacando do casaco de pele de raposa. Ele tem a forma de um macaco, mas não um macaco comum: tem os pelos compridos e sedosos, de um tom dourado forte e lustroso. Com movimentos sinuosos, ele desce lentamente a escadaria na direção de Tony e se senta no degrau acima do garoto.
Então a ratinha percebe alguma coisa e se transforma outra vez em pardoca, virando a cabecinha de lado e saltando um ou dois passos pela pedra.
O macaco observa a pardoca; a pardoca observa o macaco.
O macaco estende a mão devagar. Tem a mão pequena e preta, as unhas são garras perfeitas, os movimentos são suaves e convidativos. A pardoca não consegue resistir; se aproxima com mais alguns saltos e então esvoaça para a mão do macaco.
O macaco a ergue e a estuda de perto antes de se levantar e voltar para junto do seu ser humano, levando consigo o dimon-pardoca. A dama abaixa a cabeça perfumada para lhe sussurrar alguma coisa. E então Tony se vira; não consegue evitar.
— Rateira! — chama, de boca cheia, com certo susto.
— Olá! — diz a linda dama. — Qual é o seu nome?
— Tony.
— Onde é que você mora, Tony?
— Na alameda Clarice.
— Este pastelão é de quê?
— De carne.
— Gosta de chocolatl?
— Gosto!
— Por acaso tenho mais chocolatl do que poderia beber. Quer vir me ajudar a acabar com ele?
Tony já está perdido — desde o momento em que seu dimon insensato saltou para a mão do macaco. Ele acompanha a jovem e o macaco dourado ao longo da rua Dinamarca, passando pelo Cais do Algoz e descendo a Escadaria do Rei George, até uma portinhola verde na parede de um armazém de teto alto. Ela bate, a porta é aberta; eles entram, a porta se fecha.
Tony nunca mais sairá — pelo menos por aquela entrada; e nunca mais vai ver a mãe; e ela, pobre bêbada, vai pensar que o filho fugiu, e, quando pensar nele, vai achar que a culpa foi sua e vai se desmanchar em lágrimas.


O pequeno Tony Makarios não foi a única criança raptada pela mulher com o macaco dourado. No porão do depósito, ele encontrou uma dúzia de outras, meninos e meninas, nenhuma delas com mais de 12 anos — apesar de que, tendo todas elas uma infância parecida, ninguém tinha certeza da própria idade. O que Tony não percebeu, naturalmente, era o que todas tinham em comum: nenhuma criança naquele porão quentinho tinha chegado à adolescência.
A gentil dama acomodou-o num banco ao longo da parede e lhe mandou, por uma criada silenciosa, uma caneca de chocolatl tirado da panela sobre o fogão de ferro. Tony comeu o resto do pastelão e bebeu o líquido quente e doce sem prestar muita atenção ao que estava em volta, e ninguém prestou muita atenção nele: era pequenino demais para ser uma ameaça e apático demais para desempenhar satisfatoriamente o papel de vítima.
Foi outro menino quem fez a pergunta óbvia.
— Ei, dona! Por que trouxe a gente para cá?
Era um moleque de ar durão, com um bigode de chocolatl e uma ratazana preta e magricela como dimon. A dama estava parada perto da porta, conversando com um homem corpulento com jeito de capitão de navio; quando se virou para responder, ela tinha uma aparência tão angelical à luz sibilante da lamparina a nafta que todas as crianças se calaram.
— Queremos a sua ajuda — ela disse. — Vocês não se importam em nos ajudar, não é?
Ninguém conseguia dizer uma palavra. Tímidos de repente, se limitavam a ficar olhando para ela. Nunca tinham visto uma mulher assim; ela era tão graciosa, simpática e boazinha que eles sentiam que não mereciam tamanha sorte, e fariam com prazer tudo que ela pedisse, apenas para ficar mais um pouco com ela.
Ela revelou que iam fazer uma viagem; as crianças seriam bem alimentadas e vestidas, e aquelas que quisessem poderiam mandar um recado para a família dizendo que estavam em segurança. Logo o Capitão Magnusson as levaria para o seu navio, e quando a maré estivesse favorável, iam sair velejando até o mar e depois rumar para o Norte.
Logo as poucas crianças que queriam mandar um recado para o lar que tivessem estavam sentadas em volta da linda dama, que escrevia o que elas lhe ditavam e deixava que desenhassem um X desajeitado no final, dobrava a folha, a colocava dentro de um envelope perfumado e escrevia nele o endereço que lhe davam. Tony teria gostado de mandar alguma coisa para a mãe, mas sabia que ela não ia conseguir ler. Deu um puxão na pele da manga do casaco da dama e cochichou que queria que ela dissesse à sua mãe aonde ele estava indo e tudo mais; ela inclinou a cabeça graciosa para bem perto do corpinho malcheiroso do menino, acariciou sua cabeça e prometeu passar adiante o recado.
Então as crianças se amontoaram para se despedir. O macaco dourado acariciou os dimons de todas, e todas elas tocaram na pele de raposa para dar sorte, ou como se estivessem recebendo alguma força ou esperança ou bondade vinda da mulher, e ela se despediu de todas e as levou até uma lancha a vapor parada no cais, deixando-as aos cuidados do valente capitão. O céu já estava escuro, o rio era uma massa de luzinhas saltitantes. A dama ficou parada no cais acenando até não conseguir mais ver os rostos das crianças.
Então voltou para dentro do depósito, com o macaco dourado aninhado em seu seio, e jogou a pequena pilha de cartas na fornalha antes de sair por onde tinha entrado.
Era muito fácil atrair as crianças dos bairros miseráveis, mas finalmente as pessoas começaram a perceber, e a polícia teve que entrar em ação, embora com alguma resistência.
Por algum tempo, não houve mais enfeitiçamentos. Mas o boato tinha nascido e, aos poucos, foi mudando, crescendo e se espalhando, e quando, passado algum tempo, algumas crianças desapareceram em Norwich, e depois em Sheffield, e depois em Manchester, as pessoas nesses lugares que sabiam dos desaparecimentos em outras cidades acrescentavam novos fatos à história, que ia ganhando força.
E assim cresceu a lenda de um misterioso grupo de feiticeiros que roubavam crianças. Alguns diziam que o chefe era uma linda mulher, outros falavam num homem alto, de olhos vermelhos, e uma terceira versão falava num rapaz que ria e cantava para suas vítimas, que o seguiam como carneirinhos.
Quanto ao local para onde levavam as crianças perdidas, não havia duas versões iguais. Alguns diziam que era para o Inferno, debaixo da terra, para a Terra Encantada. Outros afirmavam: para uma fazenda onde as crianças eram confinadas e engordadas para serem servidas à mesa. Outros diziam que elas eram vendidas como escravas para tártaros ricos...
Mas uma coisa em que todos concordavam era o nome desses raptores invisíveis. Tinham que ter um nome, ou então não poderiam ser mencionados, e falar sobre eles — especialmente para quem estava são e a salvo em casa, ou na Faculdade Jordan — era delicioso. E o nome com que eles aparentemente foram batizados, sem que ninguém soubesse por quê, foi Gobblers.
— Não fique fora até tarde, senão os Gobblers vão pegar você!
— Minha prima em Northampton conhece uma mulher cujo filho foi roubado pelos Gobblers...
— Os Gobblers estiveram em Stratford. Dizem que eles estão vindo para o sul!


E inevitavelmente:
— Vamos brincar de crianças e Gobblers!
Foi o que Lyra disse a Roger, o ajudante de cozinha da Faculdade Jordan. Ele a teria seguido até o fim do mundo.
— Como é que se brinca disso?
— Você se esconde e eu o encontro e o abro ao meio, como fazem os Gobblers.
— Você não sabe o que eles fazem. Pode ser que não façam nada disso.
— Você está com medo deles. Estou vendo! — disse ela.
— Não tô. Aliás, nem acredito neles.
— Eu acredito — ela retrucou com firmeza. — Mas nem eu tenho medo. Faço o que meu tio fez na última vez que veio a Jordan. Eu vi. Ele estava na Sala Privativa e havia um convidado que não foi educado, e tio Asriel só fez olhar firme para ele, e o homem caiu morto na hora, espumando pela boca.
— Duvido. Nunca falaram sobre isso na cozinha. Além do mais, você não pode entrar na Sala Privativa.
— Claro que não falaram. Eles não iam contar esse tipo de coisa aos criados. E eu estive na Sala Privativa, sim. De qualquer modo, ele está sempre fazendo isso. Fez com uns tártaros que o pegaram uma vez. Amarraram o meu tio e iam cortar as tripas dele, mas, quando o primeiro chegou com a faca, meu tio olhou bem para ele, e ele caiu morto, então veio outro, e meu tio fez a mesma coisa com ele, e no final só sobrou um. Tio Asriel disse que ia deixar o homem vivo se ele o desamarrasse, e foi o que ele fez, e então meu tio matou ele mesmo assim, para lhe dar uma lição.
Roger duvidava dessa história ainda mais do que dos Gobblers, mas era boa demais para ser desperdiçada, de modo que os dois se revezaram sendo Lorde Asriel e os tártaros que iam morrer; em vez de espuma, os dois usaram bicarbonato adocicado.
Mas isso foi uma distração. Lyra ainda queria brincar de Gobblers e convenceu Roger a descer para as adegas, onde eles entraram com o chaveiro de reserva do Mordomo. Juntos atravessaram as grandes câmaras onde o Tokay e o Canary da Faculdade, o Burgundy e o brantwijn descansavam sob as teias de aranha de muitos anos. Os antigos arcos de pedra se erguiam acima deles, apoiados em colunas grossas como dez árvores juntas; o chão era de pedras irregulares, e por toda parte havia garrafas arrumadas em prateleiras e barris. Era fantástico. Esquecendo-se dos Gobblers, as duas crianças foram de uma ponta à outra, cautelosamente, segurando uma vela com dedos trêmulos, tentando enxergar em cada canto escuro, com uma única pergunta cada vez mais forte na mente de Lyra: qual era o gosto do vinho?
Havia um modo fácil de saber. Lyra — apesar de Roger ser totalmente contra — escolheu a garrafa mais velha, retorcida e verde que conseguiu encontrar, e, não tendo nada com que pudesse tirar a rolha, quebrou a garrafa no gargalo. Encolhidos no canto mais escondido, os dois bebericaram o líquido púrpura, curiosos para ver quando ficariam bêbados e como saberiam que estavam. Lyra não gostou muito do sabor, mas tinha que admitir que tinha algo de solene e de complexo. O mais engraçado era observar os dois dimons, que pareciam ficar cada vez mais tontos: caíam, davam risadinhas sem motivo e mudavam de forma imitando monstros, cada um tentando ficar mais feio que o outro.
Finalmente, e quase ao mesmo tempo, as crianças descobriram como era ficar bêbado.
— Eles gostam disso? — ofegou Roger, depois de vomitar muito.
— Gostam, sim — disse Lyra, nas mesmas condições. — E eu também — acrescentou teimosamente.
A única coisa que Lyra aprendeu nesse episódio foi que brincar de Gobblers levava a lugares interessantes. Lembrou-se das palavras do tio na última conversa que tiveram e começou a explorar o porão, pois o que havia acima do solo era apenas uma pequena fração do todo; como um enorme fungo cujas raízes se estendem por muitos quilômetros, a Jordan, ao se ver brigando por espaço com a Faculdade St. Michael’s de um lado, a Faculdade Gabriel do outro e a Biblioteca da Universidade atrás, começara, ainda na Idade Média, a se espalhar por baixo da terra. Túneis, poços, câmaras, porões, escadarias — tudo isso tinha escavado tanto a terra abaixo da Jordan e por centenas de metros ao redor dela que havia quase tanto ar debaixo da terra quanto acima dela; a Faculdade Jordan ficava sobre uma espécie de espuma de pedra.
Tendo provado o gostinho de explorar o subsolo, Lyra abandonou seu território de costume, os Alpes irregulares que eram os telhados da Faculdade, e mergulhou com Roger neste mundo subterrâneo. Brincar de Gobblers virou caçar Gobblers, pois o que seria mais provável do que haver tais criaturas escondidas no subsolo, à espreita?
De modo que certo dia ela e Roger desceram para a cripta sob o Oratório. Era ali que as gerações de Reitores vinham sendo enterradas, cada um em seu caixão de carvalho forrado de chumbo. Os caixões ficavam dentro de nichos ao longo das paredes de pedra. Uma placa de pedra abaixo de cada um dava os nomes deles:

Simon Le Clerc, Reitor 1765-1789 Cerebaton
Requiescant in pace

— Que quer dizer isso? — Roger perguntou.
— A primeira linha é o nome dele, e a segunda é romano. E as datas no meio da linha são o tempo que ele foi Reitor. E o outro nome deve ser o dimon dele.
Saíram caminhando ao longo da cripta silenciosa, lendo mais inscrições:

Francis Lyall, Reitor 1748-1765 Zohariel
Requiescant in pace

Ignatius Cole, Reitor 1745-1748 Musca
Requiescant in pace

Lyra achou interessante constatar que, em cada caixão, havia uma placa de bronze com uma imagem diferente: num era um basilisco; no outro, uma mulher loura; no outro, uma serpente; no outro, um macaco. Percebeu que eram imagens dos dimons dos mortos. Quando as pessoas chegavam à idade adulta, seus dimons perdiam o poder de se transformar e ficavam com uma forma única e permanente.
— Esses caixões têm esqueletos dentro! — Roger sussurrou.
— Carne em putrefação — Lyra sussurrou de volta. — E vermes e lombrigas se retorcendo nos buracos dos olhos deles...
— Deve ter fantasmas por aqui... — disse Roger, com um arrepio de prazer.
Depois da primeira cripta, eles encontraram um corredor cujas paredes eram cobertas de prateleiras de pedra. Cada prateleira era dividida em quadrados, e em cada quadrado descansava uma caveira.
O dimon de Roger, com o rabo entre as pernas, estremeceu junto ao corpo dele e soltou um uivo breve e fraco.
— Quieto! — mandou Roger.
Lyra não podia ver Pantalaimon, mas sabia que, em sua forma de mariposa, ele estava descansando em seu ombro e com certeza tremendo também.
Estendendo a mão, ela pegou a caveira mais próxima e a tirou do lugar.
— O que está fazendo? Não é para tocar nelas! — Roger protestou.
Sem lhe dar atenção, ela ficou girando a caveira nas mãos. De repente alguma coisa saiu pelo buraco na base do crânio, passou entre os dedos dela e caiu no chão ruidosamente. Com o susto, ela quase deixou cair a caveira.
— É uma moeda! — Roger exclamou, tateando no chão. — Pode ser um tesouro!
Ele ergueu o objeto à luz da vela e ambos o contemplaram de olhos arregalados. Não era uma moeda, e sim um pequeno disco de bronze com um entalhe grosseiro representando um gato.
— Como os dos caixões — disse Lyra. — É o dimon dele. Só pode ser.
— É melhor botar de volta — Roger, inquieto, aconselhou.
Lyra girou a caveira e deixou o disco cair de volta em seu lugar imemorial antes de recolocá-la na prateleira. Os dois descobriram então que cada um dos crânios tinha sua moeda-dimon representando o companheiro da vida do dono ainda perto dele na morte.
— O que você acha que estes eram quando estavam vivos? — Lyra perguntou. — Provavelmente Catedráticos, imagino. Só os Reitores ganham caixões. Com certeza, foram tantos Catedráticos durante todos esses séculos que não haveria lugar para enterrar todos, de modo que eles cortam a cabeça e guardam. É mesmo a parte mais importante deles...
Não encontraram Gobblers, mas as catacumbas sob o Oratório mantiveram Lyra e Roger ocupados durante muitos dias. Certa vez, ela inventou de fazer uma brincadeira com alguns dos Catedráticos mortos, trocando os discos dentro dos crânios, dando a eles dimons errados; Pantalaimon ficou tão nervoso com isso que se transformou num morcego e começou a voar para cima e para baixo soltando gritos agudos e batendo as asas no rosto dela, mas ela não deu atenção; a brincadeira era boa demais. Porém ela pagou por isso mais tarde. Na cama, em seu quartinho apertado no topo da Escadaria Doze, ela foi visitada por uma assombração e acordou gritando por causa das três figuras de túnica paradas ao lado da cama apontando os dedos ossudos antes de jogar para trás os capuzes e mostrar os tocos sangrentos onde deveriam estar as cabeças. Só quando Pantalaimon se transformou num leão e rugiu foi que eles recuaram, fundindo-se à matéria da parede até que só restaram de fora os braços, depois as mãos secas, cinzentas-amarelas, depois os dedos convulsivos, depois nada. De manhã, a primeira coisa que ela fez foi correr para as catacumbas e devolver as moedas-dimons aos seus verdadeiros donos, sussurrando “Perdão! Perdão!” às caveiras.
As catacumbas eram muito maiores do que a adega, mas também tinham um limite. Depois que Lyra e Roger exploraram cada canto delas e se certificaram de que não havia Gobblers por lá, voltaram a atenção para outra coisa — mas não antes de terem sido vistos saindo da cripta pelo Intercessor, que os chamou ao Oratório.
O Intercessor era um ancião gorducho conhecido como Padre Heyst. Sua função era dirigir todos os ofícios da Faculdade, pregar, orar e ouvir confissões. Tinha se interessado pelo bem-estar espiritual de Lyra quando ela era menorzinha, mas foi desencorajado pela indiferença e pelos falsos arrependimentos dela. Finalmente chegara à conclusão de que espiritualmente ela não era promissora.
Ouvindo o chamado dele, Lyra e Roger se viraram com relutância e foram, arrastando os pés, para dentro do Oratório escuro, cheirando a mofo. Aqui e ali tremulavam chamas de velas diante das imagens dos santos; um ruído fraco e distante vinha do mezanino do órgão, onde alguns consertos estavam sendo feitos; um criado polia o púlpito de bronze. Padre Heyst, na porta da sacristia, fez um aceno.
— Onde estiveram? — perguntou. — Já vi vocês saindo de lá mais de uma vez. O que estão tramando?
Seu tom não era de acusação; ele parecia genuinamente interessado. Empoleirado em seu ombro, o dimon do padre estendeu para eles a língua de lagarto. Lyra respondeu:
— Queríamos ver a cripta.
— Por que motivo?
— Os... os caixões. Queríamos ver todos os caixões — ela disse.
— Mas por quê?
Ela deu de ombros — sua resposta de costume quando se sentia pressionada.
— E você? — ele continuou, olhando para Roger. O dimon do rapaz começou a balançar a cauda de terrier, para aplacá-lo. — Qual é o seu nome?
— Roger, Padre.
— Se é um criado, onde trabalha?
— Na cozinha, Padre.
— Não devia estar lá agora?
— Sim, Padre.
— Então vá.
Roger se virou e saiu correndo. Lyra arrastou o pé de um lado para o outro no chão.
— Quanto a você, Lyra, fico contente em ver que está se interessando pelas coisas do Oratório. É uma menina de sorte, por ter tanta História à sua volta.
— Hum — murmurou ela.
— Mas me espanta a sua escolha de companheiros. Você se sente sozinha?
— Não — ela disse.
— Sente... sente falta da companhia de outras crianças?
— Não.
— Não estou falando de Roger, o ajudante de cozinha. Estou falando de crianças como você. Crianças de berço nobre. Gostaria de ter alguns companheiros desse tipo?
— Não.
— Outras meninas, talvez...
— Não.
— Sabe, nenhum de nós quer que você perca todos os prazeres e divertimentos comuns da infância. Às vezes penso que sua vida aqui deve ser solitária, no meio dos velhos Catedráticos. Sente isso?
— Não.
Ele juntou os polegares sobre os outros dedos entrelaçados, incapaz de pensar em outra coisa para perguntar àquela criança obstinada.
— Se estiver com algum problema, sabe que pode me contar — disse finalmente. — Espero que sempre se lembre disso.
— Sim.
— Tem feito suas orações?
— Sim.
— Muito bem. Agora vá.
Com um suspiro de alívio mal disfarçado, ela se virou e saiu.
Não tendo conseguido encontrar Gobblers debaixo da terra, Lyra voltou para as ruas.
Era onde se sentia em casa.
Então, quando ela tinha quase perdido o interesse neles, os Gobblers apareceram em Oxford.


A primeira notícia que ela teve foi quando sumiu um menino de uma família gípcia que ela conhecia.
Foi na época da Feira de Cavalos, e a bacia do canal estava apinhada de barcos e barcaças, com mercadores e viajantes, e os ancoradouros ao longo do cais em Jericó cintilavam com os arreios brilhantes e ressoavam com o ruído de ferraduras e os gritos dos negociantes. Lyra sempre gostara da Feira de Cavalos; além da chance de um passeio clandestino em algum cavalo mal vigiado, havia inúmeras oportunidades para provocar uma batalha.
E esse ano ela tinha um ótimo plano; inspirada pela captura do barco no ano anterior, dessa vez ela pretendia navegar um pouco mais antes de ser expulsa. Se ela e os amigos das cozinhas das faculdades pudessem chegar até Abingdon, poderiam fazer uma grande bagunça no dique...
Mas nesse ano não haveria guerra. Enquanto percorria a borda do estaleiro de Port Meadow ao sol da manhã com dois moleques, passando um para o outro um cigarro roubado e soprando a fumaça com bastante ostentação, ela escutou um grito numa voz conhecida.
— Bem, o que foi que você fez com ele, seu bunda-mole?
Era uma voz poderosa, voz de mulher — mas uma mulher com pulmões de couro e cobre. Lyra na mesma hora tentou ver de onde ela vinha, pois tinha reconhecido a voz de Mãe Costa, que, em duas ocasiões, tinha deixado Lyra quase desmaiada com uns pescoções, mas em três lhe dera pão de mel quente, e cuja família era famosa pelo luxo e pela imponência de seu barco. Eram príncipes entre os gípcios, e Lyra admirava muito Mãe Costa, mas pretendia passar ainda algum tempo cautelosa, pois era deles o barco que ela havia roubado.
Um dos moleques companheiros de Lyra pegou automaticamente uma pedra no chão quando ouviu a gritaria, mas Lyra ordenou:
— Pode ir soltando. Ela está nervosa. Pode quebrar você ao meio como um graveto.
Na verdade, Mãe Costa parecia mais ansiosa do que zangada. O homem com quem falava, um mercador de cavalos, dava de ombros e espalmava as mãos.
— Bom, eu não sei — dizia ele. — Ele estava aqui e no minuto seguinte tinha sumido. Não cheguei a ver para onde ele foi...
— Ele estava ajudando você! Estava segurando seus malditos cavalos!
— Bom, ele devia ter ficado aqui, não é? Sair correndo no meio do trabalho...
O homem não chegou a terminar a frase, pois Mãe Costa lhe pregou um tremendo tabefe na lateral da cabeça, acompanhado de tantos xingamentos e safanões que ele berrou e se virou para fugir. Os outros mercadores de cavalos zombaram, e um potro assustadiço empinou, sobressaltado.
— O que está acontecendo? — Lyra perguntou a um menino gípcio que a tudo assistia, boquiaberto. — Por que ela está com tanta raiva?
— É o filho dela — explicou o menino. — Billy. Com certeza, ela acha que os Gobblers pegaram o garoto. E pode ser verdade, mesmo. Eu não vejo o Billy desde...
— Os Gobblers? Então eles chegaram a Oxford?
O menino gípcio se virou para o outro lado para gritar para os amigos, que estavam observando Mãe Costa:
— Ela não sabe de nada! Nem sabe que os Gobblers tão aqui!
Meia dúzia de moleques olharam para ela com expressão de desprezo, e Lyra jogou fora o cigarro, reconhecendo a deixa para uma boa briga. No mesmo instante, os dimons de todos se prepararam para a guerra: cada criança era acompanhada por dentes, ou garras, ou pelos eriçados, e Pantalaimon, desprezando a imaginação limitada daqueles dimons gípcios, se transformou num dragão do tamanho de um cão veadeiro.
Mas antes que a batalha começasse, Mãe Costa se intrometeu, empurrando dois gípcios e confrontando Lyra como se fosse uma lutadora profissional.
— Você sabe dele? — ela interpelou Lyra. — Viu o Billy?
— Não. Acabamos de chegar. Não vejo o Billy há meses.
O dimon de Mãe Costa fazia círculos no ar acima da cabeça dela — um falcão de olhos amarelos e ferozes que olhavam para todos os lados sem piscar. Lyra ficou com medo; ninguém se preocupava quando uma criança sumia por algumas horas, principalmente uma gípcia: no mundinho dos barcos gípcios, todas as crianças eram preciosas e intensamente amadas, e cada mãe sabia que, se seu filho estivesse longe de sua vista, não estaria longe da vista de outra mãe, que o protegeria instintivamente.
No entanto, ali estava Mãe Costa, rainha entre os gípcios, aterrorizada pela ausência de uma criança. O que estava acontecendo?
Mãe Costa olhou sem ver o grupinho de crianças, saiu tropeçando por entre a multidão, indo na direção do ancoradouro, sempre gritando pelo filho. No mesmo instante, as crianças esqueceram a briga, diante daquele sofrimento.
— Esses Gobblers são o quê, afinal? — perguntou Simon Parslow, amiguinho de Lyra.
O primeiro menino gípcio respondeu:
— Você sabe. Eles estão roubando crianças por toda parte. São piratas...
— Eles não são piratas — corrigiu outro gípcio. — São canorbais. É por isso que o nome deles é Gobblers, papões.
— Eles comem crianças? — perguntou outro amigo de Lyra, Hugh Lovat, ajudante de cozinha na St. Michael’s.
— Ninguém sabe — disse o primeiro menino. — Levam a criança e ninguém mais tem notícia dela.
— Isso nós todos sabemos — disse Lyra. — Há meses estamos brincando de crianças e Gobblers, antes de vocês, aposto. Mas duvido que alguém já tenha visto um Gobbler.
— Já viram — disse um garoto.
— Quem? — Lyra insistiu. — Você já viu? Como é que sabe que não é só uma pessoa?
— Charlie viu eles em Banbury — disse uma menina gípcia. — Eles ficaram falando com uma mulher enquanto outro homem tirou o filho dela do jardim.
— É, eu vi eles fazerem isso! — confirmou Charlie, um menino gípcio.
— Como é que eles eram? — Lyra quis saber.
— Bom, eu não vi direito — Charlie confessou. — Mas vi o caminhão deles — acrescentou. — Eles chegam num caminhão branco. Colocam o menino no caminhão e saem disparados.
— Mas por que chamam eles de Gobblers? — Lyra insistiu.
— Porque eles papam as crianças — disse o primeiro garoto gípcio. — Nos contaram lá em Northampton. Eles estiveram por lá e tudo mais. Tinha uma garota em Northampton, levaram o irmão dela e ela disse que os homens que levaram ele disseram que iam comer ele. Todo mundo sabe disso. Eles papam as crianças todinhas.
Uma menina gípcia começou a chorar alto.
— É a prima de Billy — Charlie informou.
Lyra perguntou:
— Quem viu o Billy por último?
— Eu! — uma dúzia de vozes exclamou.
— Eu vi o Billy segurando aquele pangaré do Johnny Fiorelli.
— Eu vi ele perto do vendedor de maçã caramelada.
— Eu vi ele se balançando no guindaste...
Depois que conseguiu entender tudo aquilo, Lyra ficou sabendo que Billy tinha sido visto não mais de duas horas antes.
— Então, nas últimas duas horas, os Gobblers estiveram por aqui...
Todos olharam em volta, estremecendo, apesar do sol quente, do porto apinhado, do cheiro familiar de alcatrão, cavalos e folha-de-fumo. O problema era que, já que ninguém sabia como eram esses Gobblers, qualquer pessoa podia ser um Gobbler, como Lyra declarou ao bando de crianças perplexas, todas elas — as das faculdades e as gípcias — já agora sob o seu domínio.
— Eles têm que parecer pessoas comuns, senão seriam logo descobertos — ela explicou. — Se só aparecessem à noite, podiam ter qualquer aparência. Mas, se aparecem à luz do dia, têm que parecer gente normal. Então qualquer pessoa aqui pode ser um Gobbler...
— Não pode, não — disse um gípcio em tom hesitante. — Conheço elas todas.
— Está certo, não estas aqui, mas qualquer outra — disse Lyra. — Vamos procurar os Gobblers! E o caminhão branco também!
Aquilo provocou um estouro de boiada. Outros logo se juntaram aos primeiros, e, em pouco tempo, havia umas trinta ou mais crianças gípcias correndo de uma ponta à outra dos ancoradouros, entrando e saindo dos estábulos, subindo pelos guindastes e gruas no estaleiro, saltando por cima da cerca para dentro do pasto, 15 crianças ao mesmo tempo agarradas à corda que se usava para atravessar o rio de águas verdes, e correndo a toda pelas ruas estreitas de Jericó, por entre as casinhas de tijolos, e entrando no grande oratório de St. Barnabas, o Químico, com sua torre quadrada. Metade delas não sabia o que estavam procurando e achava que se tratava apenas de uma brincadeira, porém as mais próximas a Lyra sentiam medo e aflição de verdade cada vez que avistavam uma figura solitária num beco ou na meia-luz do Oratório: seria um Gobbler?
Mas, naturalmente, não era. Finalmente, sem sucesso e com a sombra do desaparecimento verdadeiro de Billy pesando sobre todo mundo, o entusiasmo foi diminuindo.
Quando Lyra e os dois jovens das faculdades saíam de Jericó perto da hora do jantar, viram os gípcios reunidos no ancoradouro vizinho àquele em que o barco dos Costa estava atracado. Algumas mulheres choravam bem alto, e os homens, furiosos, formavam grupinhos; todos os seus dimons estavam agitados, voando nervosos ou rosnando para as sombras.
— Aposto que os Gobblers não teriam coragem de vir aqui — Lyra disse a Simon Parslow quando os dois atravessavam a soleira do grande saguão da Jordan.
— Não... — ele concordou sem muita firmeza. — Mas sei que sumiu uma garota do Mercado.
— Quem?
Lyra conhecia a maioria das crianças do Mercado, mas não sabia que alguma tinha desaparecido.
— Jessie Reynolds, da selaria. Ontem ela saiu só para buscar um pedaço de peixe para a janta do pai, mas na hora de fechar ainda não tinha aparecido. E ninguém viu ela. Procuraram no Mercado inteiro e em toda parte.
— Ninguém me contou isso! — disse Lyra indignada. Achava uma falha imperdoável de seus súditos não a manterem sempre informada de tudo.
— Bom, foi ontem que aconteceu. Ela pode já ter aparecido.
— Vou perguntar — disse Lyra, se virando para tornar a sair.
Mas ainda não tinha passado pelo portão quando o Porteiro a chamou.
— Venha cá, Lyra! Você não pode sair esta noite. Ordens do Reitor.
— Por que não?
— Já disse, ordens do Reitor. Ele disse que se você voltasse, para não sair de novo.
— Então me pegue — ela o desafiou, e saiu correndo.
Atravessou em disparada a rua estreita e entrou no beco onde as camionetes descarregavam mercadoria para o Mercado Coberto. Como era hora de fechar, havia poucas camionetes por ali, mas um grupinho de jovens fumava e conversava perto da porta central, em frente ao alto muro de pedra da Faculdade St. Michael’s. Lyra conhecia um deles, um rapaz de 16 anos, que ela admirava porque ele conseguia cuspir mais longe que qualquer outra pessoa que ela ouvira falar; foi até lá e ficou esperando humildemente que ele a percebesse.
— Ei, o que você quer? — ele finalmente perguntou.
— A Jessie Reynolds sumiu?
— Foi. Por quê?
— Porque um menino gípcio também sumiu hoje, e tudo mais.
— Estão sempre sumindo, esses gípcios. Depois de toda Feira de Cavalos eles somem.
— Os cavalos também — comentou um dos amigos dele.
— Mas é diferente — Lyra protestou. — Era um garotinho. Ficamos procurando ele a tarde toda, e as outras crianças disseram que os Gobblers pegaram ele.
— Os quê?
— Os Gobblers — ela repetiu. — Nunca ouviu falar dos Gobblers?
Aquilo era novidade também para os outros rapazes, e, tirando alguns comentários grosseiros, eles escutaram com atenção o que ela lhes contou.
— Gobblers... — repetiu o conhecido de Lyra, cujo nome era Dick. — Que coisa idiota. Esses gípcios vivem com essas ideias idiotas.
— Disseram que os Gobblers apareceram em Banbury há poucas semanas e levaram cinco crianças — Lyra insistiu. — Com certeza, vieram para Oxford agora para pegar as nossas. Devem ter sido eles que pegaram a Jessie.
— Sumiu um menino lá para as bandas de Cowley — contou um dos rapazes. — Agora me lembro. Minha tia, ela veio aqui ontem, porque vende peixe e batata frita de uma camionete, e ouviu contar isso... Um menino pequeno... Mas não sei dessa história de Gobblers. Não existem Gobblers. É só uma história.
— Existem sim! — contestou Lyra. — Os gípcios já viram eles. Acham que eles comem as crianças que eles pegam e...
Ela parou a frase no meio, porque de repente tinha se lembrado de uma coisa. Durante aquela noite estranha que ela passara escondida na Sala Privativa, Lorde Asriel tinha mostrado um slide de um homem com jorros de luz entrando nele; e ao lado do homem havia uma figura pequena com menos luz em volta; e Lorde Asriel tinha dito que era uma criança; e alguém perguntara se era uma criança seccionada, e o tio tinha dito que não, que essa era a questão. Lyra sabia que “seccionada” queria dizer cortada.
E então uma coisa lhe atingiu o coração: onde estava Roger?
Ela não o via desde a manhã...
De repente ficou com medo. Pantalaimon, como um leão em miniatura, saltou para os seus braços e rosnou. Ela se despediu dos rapazes junto ao portão e caminhou em silêncio de volta para a rua Turl, depois correu o mais que podia até a Faculdade Jordan, entrando pela porta um segundo antes do dimon, agora em forma de leopardo.
O Porteiro estava zangado.
— Tive que ligar para o Reitor e contar tudo — declarou. — Ele não gostou. Eu não queria estar no seu lugar, mocinha, por dinheiro nenhum.
— Onde está o Roger? — ela quis saber.
— Não vi. Ele também vai ver só. Ah, quando o Sr. Cawston o pegar...
Lyra correu para a Cozinha entrando no meio daquela agitação barulhenta e fumegante.
— Onde está o Roger? — berrou.
— Some daqui, Lyra! Estamos ocupados!
— Mas onde é que ele está? Você deve saber! — Lyra gritou para o Chefe da Cozinha, que lhe deu um tapa na orelha e a expulsou de lá.
Bernie, o Confeiteiro, tentou acalmá-la, mas não conseguiu.
— Eles pegaram o Roger! Aqueles Gobblers malditos, alguém devia pegar e matar eles! Eu odeio eles! Vocês não se importam com o Roger...
— Lyra, todos nós nos importamos com o Roger...
— Não, porque senão paravam o trabalho e iam procurar por ele nesse instante! Odeio vocês!
— Pode haver um monte de motivos para o Roger ter sumido. Seja sensata. Temos o jantar para preparar e servir em menos de uma hora; o Reitor tem convidados na Residência e ele também vai jantar lá, o que significa que o Chefe vai ter que mandar a comida para lá bem depressa, para não esfriar; com uma coisa e outra, Lyra, a vida tem que continuar. Tenho certeza de que o Roger vai aparecer...
Lyra saiu correndo da Cozinha, derrubando uma pilha de tampas de prata e ignorando o rugido de raiva que isso provocou. Correndo, desceu os degraus e atravessou o Quadrilátero, passou entre a Capela e a Torre Palmer e entrou no Quadrilátero Yaxley, onde ficavam os prédios mais antigos da Faculdade.
Pantalaimon corria de um lado para o outro na frente dela na forma de um leopardo em miniatura e disparou escada acima até o último andar, onde ficava o quarto de Lyra. A menina abriu a porta de sopetão, arrastou a cadeira cambaleante para perto da janela, abriu a janela e passou para o lado de fora. Logo abaixo da janela havia uma calha de pedra forrada de chumbo com uns 30 centímetros de largura, para recolher a água da chuva; de pé dentro dela, Lyra virou e subiu pelas telhas rústicas até chegar à cumeeira do telhado. Ali ela abriu a boca e gritou. Pantalaimon, que sempre se transformava em pássaro quando estava no telhado, voava em círculos ao redor dela, acompanhando-a com seu grasnado agudo de gralha.
O céu do final de tarde se tingia de cores — pêssego, damasco, creme, delicadas nuvens de sorvete num largo céu alaranjado. As torres e os campanários de Oxford estavam em volta deles, na mesma altura; os bosques verdes de Château-Vert e White Ham se mostravam a cada lado — um a leste, outro a oeste. Em algum lugar, havia gralhas grasnando e sinos tocando, e dos Currais dos Bois as batidas ritmadas de um motor a gás anunciavam a decolagem diária do zepelim do Correio Real para Londres. Lyra ficou olhando enquanto ele subia acima do campanário da Capela de St. Michael’s, a princípio do tamanho da ponta do dedo mindinho dela quando ela estendia o braço, depois ficando cada vez menor, até virar um pontinho no céu perolado.
Ela se virou e baixou o olhar para o Quadrilátero mergulhado em sombras, onde os Catedráticos, vestindo suas becas pretas, já começavam a chegar, sozinhos ou aos pares, para a Despensa, seus dimons caminhando ou voejando ao lado deles, ou então calmamente empoleirados em seus ombros. Estavam acendendo as luzes no Salão; ela via os vitrais da janela começando a brilhar um a um à medida que um criado percorria as mesas, acendendo as lamparinas. O sino do Administrador começou a tocar, anunciando a meia hora antes do jantar. Aquele era o mundo dela. Ela queria que ele permanecesse a mesma coisa para sempre, mas ele estava mudando ao seu redor, pois alguém lá fora estava roubando crianças. Ela se sentou na cumeeira do telhado, o queixo apoiado nas mãos.
— É melhor irmos salvar o Roger, Pantalaimon — declarou.
Ele respondeu da chaminé, com sua voz de gralha:
— Vai ser perigoso.
— Claro! Eu sei disso.
— Não esqueça o que eles disseram na Sala Privativa.
— O que foi?
— Alguma coisa sobre uma criança lá no Ártico. Aquela que não estava atraindo o Pó.
— Disseram que era uma criança completa... E daí?
— Pode ser isso que vão fazer com o Roger, os gípcios e as outras crianças.
— Como é?
— Bom, o que completa quer dizer?
— Sei lá. Com certeza, cortam elas no meio. Acho que elas viram escravas. Isso seria mais útil. Com certeza, eles têm minas por lá. Minas de urânio para as naves atômicas. Aposto que é isso. Se mandassem adultos para o fundo das minas, eles morreriam, então usam crianças porque elas são mais baratas. Foi isso que fizeram com ele.
— Eu acho...
Mas a opinião de Pantalaimon teve que esperar, porque uma voz que vinha de baixo começou a gritar:
— Lyra! Lyra! Desça daí neste instante!
Alguém batia na janela. Lyra reconheceu a voz e a impaciência: era a Sra. Lonsdale, a Governanta. Impossível se esconder dela!
Com o rosto tenso, Lyra escorregou pelo telhado até a calha e tornou a entrar pela janela. A Sra. Lonsdale estava enchendo de água uma pequena bacia descascada, com o acompanhamento de gemidos e batidas que o sistema hidráulico produzia.
— Quantas vezes já lhe disseram para não ir ao telhado... Veja o seu estado! Veja esta saia: está imunda! Tire a roupa imediatamente e se lave enquanto eu procuro alguma coisa decente que não esteja rasgada. Não sei por que você não consegue ficar limpa e arrumada...
Lyra estava aborrecida demais até para perguntar por que tinha que se lavar e se vestir, e nenhum adulto fornecia uma razão por iniciativa própria. Ela puxou o vestido pela cabeça e o deixou cair sobre a cama estreita, e começou a se lavar com má vontade enquanto Pantalaimon, agora um canário, saltava cada vez mais para perto do dimon da Sra. Lonsdale, um impassível cão de caça, tentando em vão implicar com ele.
— Veja o estado deste guarda-roupa! Faz semanas que você não pendura um vestido! Veja como este está amassado...
Veja isso, veja aquilo... Lyra não queria ver. Ela fechou os olhos enquanto esfregava o rosto com a toalha fina.
— Vai ter que usar este assim mesmo. Não dá tempo de passar. Deus me perdoe, menina, veja os seus joelhos, veja o estado deles...
— Não quero ver nada — Lyra resmungou.
A Sra. Lonsdale lhe deu um tapa na perna.
— Lave — ordenou com ferocidade. — Tire toda essa sujeira.
— Por quê? — Lyra finalmente perguntou. — Eu nunca lavo os joelhos. Ninguém vai olhar para os meus joelhos. Por que tenho que fazer isso tudo? A senhora também não liga para o Roger, igual ao Cozinheiro Chefe. Eu sou a única que...
Outro tapa, na outra perna.
— Chega dessa bobagem. Sou uma Parslow, como a mãe do Roger. Ele é meu primo em segundo grau. Aposto que não sabia disso, porque aposto que você nunca perguntou, Srta. Lyra. Aposto que isso nunca lhe passou pela cabeça. Não me acuse de não me importar com o menino. Deus sabe que eu me importo até mesmo com você, que me dá poucos motivos para isso e nenhuma gratidão.
Ela pegou a flanela e esfregou os joelhos de Lyra com tanta força que deixou a pele rosada e ardendo, mas limpa.
— O motivo disso é que você vai jantar com o Reitor e os convidados dele. Peço a Deus que você se comporte. Fale somente quando falarem com você, seja discreta e educada, sorria e nunca diga “Sei lá” quando lhe perguntarem alguma coisa.
Ela enfiou o melhor vestido de Lyra no corpo magro da menina, ajeitou-o, pescou na confusão de uma gaveta uma fita vermelha e escovou os cabelos dela com uma escova de cerdas duras.
— Se tivessem me avisado antes, eu podia ter lavado direito os seus cabelos. Bom, é uma pena. Tomara que não olhem muito de perto... Pronto. Agora fique direito. Onde estão aqueles sapatos bons, de verniz?
Cinco minutos mais tarde, Lyra estava batendo na porta da Residência do Reitor, a casa imponente e um pouco triste que se abria para o Quadrilátero Yaxley e cujos fundos davam para o Jardim da Biblioteca. Pantalaimon, que por educação se transformara num arminho, se esfregou na perna dela. A porta foi aberta por Cousins, criado do Reitor e velho inimigo de Lyra; mas ambos sabiam que aquilo era uma trégua.
— A Sra. Lonsdale disse para eu vir — Lyra explicou.
— Sim — fez Cousins, chegando para o lado. — O Reitor está na Sala de Estar.
Ele a levou para o aposento amplo que dava para o Jardim da Biblioteca. Os últimos raios de sol entravam ali através do vazio entre a Biblioteca e a Torre Palmer, e iluminavam os quadros pesados e a prataria severa que o Reitor colecionava. Iluminavam também os convidados, e Lyra entendeu por que não iam jantar no Salão: três deles eram mulheres.
— Ah, Lyra! Que bom que pôde vir! — exclamou o Reitor. — Cousins, arranje uma coisa que ela possa beber. Dama Hannah, acho que não conhece Lyra... A sobrinha de Lorde Asriel, a senhora sabe.
Dama Hannah Relf, Diretora de uma das faculdades femininas, era uma senhora de cabelos grisalhos cujo dimon era um sagui. Lyra a cumprimentou com toda educação e depois foi apresentada aos outros convidados, que eram, como Dama Hannah, estudiosos de outras Faculdades e bastante desinteressantes. Então o Reitor chegou ao último.
— Sra. Coulter, esta é a nossa Lyra. Lyra, venha cumprimentar a Sra. Coulter.
— Olá, Lyra — disse a Sra. Coulter.
Era linda e jovem. Os cabelos negros e lisos emolduravam o rosto dela, e seu dimon era um macaco dourado.

5 comentários:

  1. EITA. Qual será a relação que ela tem com Reitor? Isso não parece coisa boa...

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  2. LUAMARA Cahill Madrigal infiltrada Ekhaterina5 de março de 2017 21:06

    ooooookeeeeeeeeeeeyyyyy

    (vou usar o nome da última séria pq não sei um pra essa e ainda to meio de luto com final de unsttopable,acabou :´( triste )

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  3. Que que essa mulher ta fazendo aiiiii???? \o/
    (Ta meio q óbvio mas mesmo assimmmm oq ela ta fzendo aiiii)
    Há e a série é o título ou esse nome de baixo? Quero pesquisar :)

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    1. Quê?
      Fronteiras do Universo é o nome da série. A Jordan de Lyra é o nome do capítulo

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Boa leitura :)