17 de fevereiro de 2017

3. Comedores de carniça

Os ossos do cavaleiro são agora pó, a ferrugem corrói, sua alma, creio, jaz com os santos...
S. T. Coleridge

Serafina Pekkala, a rainha do clã das bruxas do Lago Enara, chorava ao voar pelos céus turbulentos do Ártico. Chorava de raiva, de medo e de remorso: raiva da mulher Coulter, a quem havia jurado matar, medo do que estava acontecendo com sua terra adorada, e remorso... Bem enfrentaria o remorso mais tarde.
Enquanto isso, olhou para baixo, para a calota polar que se derretia, para as florestas das terras baixas, inundadas, para o mar alto, volumoso, e sentiu o coração se contrair angustiado. Mas não parou para visitar sua terra natal, nem para consolar e encorajar suas irmãs. Em vez disso, voou rumo ao norte e ainda mais para o norte, entrando nos nevoeiros e ventos cortantes que cercavam Svalbard, o reino de Iorek Byrnison, o urso de armadura. Mal reconheceu a ilha principal. As montanhas estavam nuas e enegrecidas, e apenas alguns vales escondidos voltados contra o sol ainda conservavam alguma neve em seus cantos de sombra, mas, de qualquer maneira, o que o sol estava fazendo ali, naquela época do ano? A natureza inteira estava enlouquecida.
Serafina levou quase um dia inteiro para encontrar o urso rei. Ela o avistou entre as rochas da extremidade norte da ilha, nadando rapidamente atrás de uma morsa. Era mais difícil para os ursos matar dentro d’água: quando a terra estava coberta de gelo e os grandes mamíferos marinhos tinham que subir à tona para respirar, os ursos tinham a vantagem de estar camuflados e suas presas fora de seu elemento. Era assim que as coisas deviam ser.
Mas Iorek Byrnison estava com fome e nem as presas afiadas da enorme morsa conseguiram mantê-lo à distância. Serafina ficou observando enquanto os dois grandes animais lutavam, tingindo de vermelho a espuma do mar e viu Iorek levantar a carcaça das ondas e colocá-la sobre uma larga plataforma de rocha, observado a uma distância respeitosa por três raposas de pelo maltratado, que esperavam por sua vez de comer o banquete.
Depois que o urso rei acabou de comer, Serafina desceu voando para falar com ele. Agora havia chegado a hora de enfrentar o remorso.
— Rei Iorek Byrnison — disse ela — por favor, poderia falar com o senhor? Primeiro vou deixar as minhas armas.
Ela colocou seu arco e flechas sobre a rocha molhada entre eles. Iorek as examinou rapidamente e ela sabia que se sua face pudesse registrar alguma emoção seria surpresa.
— Fale, Serafina Pekkala — disse ele com um rosnado. — Nós nunca lutamos, não é?
— Rei Iorek, fracassei em ajudar seu amigo, Lee Scoresby.
Os olhos negros pequeninos do urso e seu focinho manchado de sangue ficaram absolutamente imóveis, de repente. Serafina podia ver o vento agitando as pontas dos pelos branco-cremosos ao longo de seu dorso. Ele não disse nada.
— O Sr. Scoresby está morto — prosseguiu Serafina. — Antes de nos separarmos, dei a ele uma flor para que me chamasse, se precisasse de mim. Ouvi seu chamado e voei até onde estava, mas cheguei tarde demais. Ele morreu lutando contra uma brigada de soldados Muscovitas, mas desconheço os motivos que os levaram até lá e por que ele estava combatendo os soldados imperiais e impedindo que avançassem quando poderia facilmente ter escapado. Rei Iorek, estou consumida pelo remorso.
— Onde isso aconteceu? — quis saber Iorek Byrnison.
— Em um outro mundo. Vou precisar de algum tempo para contar o que aconteceu.
— Então comece.
Serafina contou o que Lee Scoresby havia decidido fazer: encontrar o homem que era conhecido como Stanislaus Grumman. Contou a ele sobre como a barreira entre os mundos havia sido rompida por Lorde Asriel e sobre algumas das consequências — o derretimento do gelo, por exemplo. Falou sobre o voo da bruxa Ruta Skadi atrás dos anjos e tentou descrever aqueles seres voadores para o urso rei como Ruta os havia descrito para ela: a luz que emanava deles, a claridade cristalina de sua aparência, a riqueza da sabedoria deles. Então descreveu o que havia encontrado ao responder ao chamado de Lee.
— Fiz um feitiço para proteger seu corpo, para preservá-lo da decomposição — explicou. — Durará até que o veja, se desejar fazer isso. Mas estou muito preocupada com isso, Rei Iorek. Estou preocupada com tudo, mas especialmente com isso.
— Onde está a criança?
— Eu a deixei com minhas irmãs, porque tinha que responder ao chamado de Lee.
— Naquele mesmo mundo?
— Sim, no mesmo mundo.
— Como posso ir daqui para lá?
Ela explicou. Iorek Byrnison ouviu impassível e depois disse:
— Eu irei até Lee Scoresby. E depois tenho de ir para o sul.
— Para o sul?
— O gelo desapareceu destas terras. Tenho estado pensando a respeito disso, Serafina Pekkala. Contratei um navio.
As três pequenas raposas tinham estado esperando pacientemente. Duas delas estavam deitadas, com a cabeça repousando sobre as patas, observando, e a outra ainda estava sentada, acompanhando a conversa. As raposas do Ártico, como boas comedoras de carniça que eram, haviam aprendido alguma coisa da linguagem falada, mas seus cérebros eram formados de tal maneira que só podiam compreender frases com verbos conjugados no presente. A maior parte do que Iorek e Serafina tinham dito eram ruídos sem significado para elas. Além disso, quando falavam, a maior parte do que diziam eram mentiras, de modo que não importava se repetissem o que tinham ouvido: ninguém conseguiria separar as partes que eram verdade, embora os crédulos avantesmas-dos-penhascos acreditassem em quase tudo e nunca aprendessem com suas decepções. Os ursos e as bruxas estavam habituados com o fato de suas conversas serem consumidas por elas, como os restos de carne que deixavam quando haviam acabado de comer.
— E você, Serafina Pekkala? — prosseguiu Iorek. — O que vai fazer agora?
— Vou procurar os gípcios — respondeu ela. — Creio que vamos precisar deles.
— Lorde Faa — disse o urso — sim. São bons combatentes. Boa jornada.
Ele se afastou e deslizou para dentro d’água sem fazer ruído e começou a nadar em seu ritmo regular e incansável em direção ao novo mundo. E, algum tempo depois, Iorek Byrnison chegou à terra, pisando na vegetação rasteira enegrecida e nas rochas fendidas pelo calor, na beira de uma floresta queimada. O sol ardia inclemente, em meio à névoa enfumaçada, mas ele ignorou o calor, assim como ignorou a poeira de carvão que enegreceu seu pelo branco e os mosquitos-pólvora que procuravam em vão pele para picar.
Tinha percorrido uma longa distância e, a certo ponto em sua jornada, estivera nadando pela entrada daquele outro mundo. Havia reparado na mudança no gosto da água e na temperatura do ar, mas o ar ainda era bom para respirar e a água ainda sustentava seu corpo de maneira que tinha continuado nadando e agora deixara o mar para trás e estava quase no lugar que Serafina Pekkala havia descrito. Procurou em volta, os olhos negros se detendo nas rochas que reluziam ao sol em uma parede de penhascos de calcário acima dele.
Entre a borda da floresta queimada e as montanhas, uma encosta rochosa de grandes pedregulhos e entulho estava salpicada de pedaços de metal queimado e retorcido: traves e suportes que haviam pertencido a alguma máquina complexa. Iorek Byrnison os examinou com olhos de ferreiro e de guerreiro, mas não havia nada naqueles fragmentos que pudesse aproveitar. Riscou uma linha com uma de suas garras poderosas ao longo de um suporte menos danificado que os outros e, sentindo uma fragilidade na qualidade do metal, deu-lhe as costas imediatamente e novamente vasculhou a parede montanhosa.
Então avistou o que estava procurando: uma fossa estreita que permitia a passagem entre as paredes denteadas e, na entrada, um grande pedregulho baixo. Foi escalando em sua direção em ritmo constante. Sob suas patas enormes, ossos secos se partiam estalando alto em meio ao silêncio, pois muitos homens haviam morrido ali, a carne de seus corpos tendo sido depois consumida por coiotes, abutres e outros animais inferiores, mas o grande urso os ignorou e continuou subindo cautelosamente em direção à rocha. O solo não era firme e ele era pesado, de modo que mais de uma vez o entulho de rocha deslizava sob suas patas e o arrastava para baixo levantando massas de poeira e de cascalho. Mas tão logo conseguia parar de escorregar, retomava a escalada, pacientemente e com implacável determinação até alcançar a própria rocha, onde o solo era mais firme.
O pedregulho estava todo furado e lascado com marcas de balas. Tudo o que a bruxa lhe havia contado era verdade. E, para confirmar, uma pequenina flor do Ártico, uma saxífraga escarlate, contrariando todas as probabilidades, florescia viçosa onde a bruxa a havia plantado, para marcar o local, numa fissura da rocha.
Iorek Byrnison contornou o pedregulho até chegar ao lado superior. Era um bom abrigo contra um inimigo que estivesse abaixo, mas não o bastante, pois dentre a saraivada de balas que haviam arrancado fragmentos de rocha, houvera algumas que tinham encontrado seu alvo e que estavam onde haviam acertado, no corpo rígido do homem deitado na sombra.
Era um corpo, ainda, e não um esqueleto, porque a bruxa fizera um feitiço para preservá-lo da decomposição. Iorek podia ver o rosto de seu velho companheiro abatido e crispado pela dor de seus ferimentos e ver os buracos esgarçados em suas roupas onde as balas haviam entrado. O feitiço da bruxa não cobrira o sangue que devia ter-se derramado e os insetos, o sol e o vento o dispersaram completamente. Lee Scoresby não parecia estar dormindo, nem estar em paz, parecia ter morrido em combate, mas por sua expressão parecia saber que sua luta havia sido bem-sucedida.
E como o aeronauta texano era um dos raros seres humanos que Iorek estimara, aceitou o último presente que o homem lhe ofereceu. Com movimentos destros de suas garras, rasgou e afastou as roupas do homem, abriu o corpo com um corte e começou a se banquetear com a carne e o sangue de seu velho amigo.
Era a primeira refeição que fazia em dias e estava com fome.
Mas uma complexa teia de pensamentos estava se tecendo na mente do urso rei, contendo mais fios que fome e satisfação. Havia a lembrança da garotinha, Lyra, a quem ele tinha dado o nome de Língua Mágica e que vira pela última vez atravessando a frágil ponte de neve sobre uma fenda de geleira em sua ilha natal de Svalbard. Então havia a agitação entre as bruxas, os rumores de pactos e de alianças e guerra, depois havia o fato ainda mais estranho daquele novo mundo e a insistência da bruxa em que existiam muitos outros mundos como aquele, e que o destino de todos eles de alguma forma dependia do destino da criança.
E então havia a questão do gelo se derretendo. Ele e seu povo viviam no gelo, o gelo era a casa deles, o gelo era a cidadela deles. Desde que tinham ocorrido as grandes perturbações no Ártico, o gelo havia começado a desaparecer e Iorek sabia que tinha que encontrar uma região de gelo permanente para seus súditos ou eles pereceriam. Lee lhe dissera que havia montanhas ao sul que eram tão altas que nem mesmo seu balão poderia voar acima delas e que tinham uma coroa de neve e gelo o ano inteiro. Explorar essas montanhas seria sua próxima tarefa.
Mas por enquanto, algo mais simples dominava seu coração, algo que era ardente, duro e inabalável: o desejo de vingança. Lee Scoresby, que viera resgatar Iorek do perigo em seu balão e lutara a seu lado no Ártico de seu próprio mundo, estava morto. Iorek o vingaria. A carne e os ossos daquele bravo homem ao mesmo tempo o nutririam e o manteriam infatigável até que bastante sangue tivesse sido derramado para acalmar seu coração.
O sol estava se pondo quando Iorek terminou sua refeição e o ar estava esfriando. Depois de reunir os fragmentos formando uma única pilha, o urso levantou a flor com a boca e a deixou cair no centro deles, como seres humanos gostavam de fazer. Agora o feitiço da bruxa estava quebrado, o resto do corpo de Lee estava liberado para todos os que viessem. Logo estaria alimentando uma dúzia de tipos de vida diferentes.
Então Iorek retomou o caminho, novamente descendo a encosta em direção ao mar, rumo ao sul.


Os avantesmas-dos-penhascos gostavam de comer raposas, quando conseguiam apanhá-las. Os pequeninos animais eram espertos e difíceis de capturar, mas a carne era macia e farta. Antes de matar aquela, o avantesma-dos-penhascos deixou que falasse e riu de sua tola conversa fiada.
— Urso tem que ir para o sul! Juro! Bruxa está preocupada! Verdade! Juro! Prometo!
— Ursos não vão para o sul, imunda mentirosa!
— Verdade! Rei urso tem que ir para o sul! Mostro morsa para você, carne boa, gorda.
— Rei urso ir para o sul?
— E coisas voadoras têm tesouro! Coisas voadoras, anjos, tesouro de cristal!
— Coisas voadoras, como avantesmas-dos-penhascos? Tesouro?
— Como luz, não como avantesmas-dos-penhascos. Rico! Cristal! E bruxa aflita, preocupada, bruxa triste, Scoresby morto...
— Morto? Homem do balão morto? — A gargalhada do avantesma-dos-penhascos ecoou nos penhascos ressecados.
— Bruxa matou, Scoresby morto, rei urso ir para o sul.
— Scoresby morto! Ha, ha, Scoresby morto! — O avantesma-dos-penhascos arrancou a cabeça da raposa e lutou com seus irmãos pelas entranhas.


... eles virão, eles virão!
— Mas onde está você, Lyra?
E isso ela não sabia responder.
— Acho que estou sonhando, Roger — foi tudo o que conseguiu encontrar para dizer.
Atrás do garotinho, ela podia ver mais espíritos, dúzias, centenas, as cabeças juntas umas das outras, olhando tudo com muita atenção e ouvindo cada palavra.
— E aquela mulher? — perguntou Roger. — Espero que ela não esteja morta. Espero que continue viva por tanto tempo quanto puder. Porque se ela descer aqui, então não haverá nenhum lugar para nos escondermos, então ela será nossa dona para sempre. Essa é a única coisa boa que consigo ver em estar morto, que ela não está. Só que um dia ela estará...
Lyra ficou assustada.
— Eu acho que estou sonhando e não sei onde ela está! — disse. — Ela está em algum lugar por perto, e eu não consigo...

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