17 de fevereiro de 2017

29. A batalha na planície

Todo homem está sob o domínio de seu espectro até que é chegada a hora em que sua humanidade desperta...
Willian Blake

Foi terrivelmente difícil para Lyra e Will deixar aquele mundo agradável onde tinham dormido na noite anterior, mas, se quisessem reencontrar seus dimons, tinham que entrar de novo na escuridão. E agora, depois de horas se arrastando exaustivamente pelo túnel quase escuro, Lyra inclinou-se pela vigésima vez para consultar o aletiômetro, inconscientemente emitindo pequenos sons de angústia — gemidos e suspiros que teriam sido soluços se tivessem mais força. Will também sentia uma dor onde seu dimon estivera, um lugar escaldante, queimado, de profunda sensibilidade que era rasgado por ganchos gelados cada vez que respirava. Com que cansaço ela fez girar os ponteiros, como seus pensamentos se moviam lentos, como se fossem pés calçados de chumbo. Os degraus de significado que a conduziam a cada um dos 36 símbolos do aletiômetro, pelos quais ela costumava descer tão rapidamente e tão confiante, pareciam soltos e trêmulos. E estabelecer as conexões entre eles em sua mente... Antigamente tinha sido como correr, ou cantar, ou contar uma história: uma coisa natural. Agora tinha que fazê-lo com um enorme esforço, e sua compreensão estava falhando, e não podia falhar, caso contrário tudo o mais fracassaria...
— Não está longe — disse ela finalmente. — E temos pela frente todo tipo de perigos, está havendo uma batalha, está havendo... Mas estamos quase no lugar certo agora. Bem no final deste túnel existe um grande pedregulho liso, com uma nascente de onde sai uma corrente de água. É lá que você pode cortar a abertura.
Os fantasmas que iriam lutar seguiram adiante, cheios de entusiasmo, e ela sentiu Lee Scoresby chegar bem perto, a seu lado. Ele disse:
— Lyra, minha menina, agora não falta muito. Quando você encontrar aquele velho urso, diga a ele que Lee se foi lutando. E depois que a batalha tiver terminado, terei todo o tempo do mundo para flutuar ao sabor do vento e encontrar os átomos que costumavam ser Hester, e minha mãe, na terra das artemísias, e minhas namoradas, todas as minhas namoradas... Lyra, minha querida, trate de descansar quando tudo isso tiver acabado, está me ouvindo? A vida é boa e a morte morreu...
A voz dele foi se calando. Ela queria abraçá-lo, mas é claro que isso era impossível. De maneira que, em vez disso, apenas olhou para seu vulto pálido e o fantasma viu a paixão e o brilho em seus olhos e recebeu a força que transmitiam.
E no ombro de Lyra e no de Will vinham os dois galivespianos. O tempo curto de vida que tinham estava quase esgotado, cada um dos dois sentia o enrijecimento nos músculos, um frio ao redor do coração. Ambos estariam de volta ao mundo dos mortos brevemente, dessa vez como fantasmas, mas eles trocaram um olhar e juraram que ficariam com Will e Lyra por tanto tempo quanto pudessem e que não diriam nem uma palavra a respeito de estarem perto da morte.
As crianças foram escalando com dificuldade, para o alto, cada vez mais para o alto. Não falaram. Ouviam a respiração ofegante um do outro, ouviam os sons de seu passos, ouviam o ruído das pedrinhas que seus passos deslocavam. À frente deles, o tempo todo, a harpia subia pesadamente, com dificuldade, suas asas se arrastando, as garras arranhando, calada e carrancuda.
E então surgiu um novo som: um gotejar constante, ecoando no túnel. E depois um gotejar mais rápido, um escorrer devagar, um som de água corrente.
— Aqui! — exclamou Lyra, estendendo a mão para a frente para tocar uma parede de pedra que bloqueava o caminho, lisa e fria. — É aqui.
Ela se virou para a harpia.
— Estive pensando — disse ela — sobre como me salvou, e como prometeu guiar todos os fantasmas que passarem pela terra dos mortos para aquele mundo onde dormimos ontem à noite. E pensei que se você não tem nome, isso não pode estar certo, não para o futuro. Assim pensei que eu podia dar um nome a você, como o Rei Iorek Byrnison me deu o meu nome, Lyra da Língua Mágica. Vou chamar você de Asas da Bondade. De maneira que, de agora em diante, este é o seu nome e é isso que você vai ser para sempre: Asas da Bondade.
— Um dia — disse a harpia — eu verei você de novo, Lyra da Língua Mágica.
— E se eu souber que você está aqui, não vou ter medo — declarou Lyra. — Adeus, Asas da Bondade, até o dia em que eu morrer.
Ela abraçou a harpia bem apertado e beijou-lhe as duas faces. Então o Cavaleiro Tialys perguntou:
— Este é o mundo da república de Lorde Asriel?
— É — confirmou Lyra — foi o que o aletiômetro disse. Estamos perto da fortaleza dele.
— Então deixe-me falar com os fantasmas.
Ela o levantou bem alto e ele gritou:
— Ouçam, porque Lady Salmakia e eu somos os únicos dentre nós que já vimos este mundo antes. Há uma fortaleza no cume de uma montanha: é isso que Lorde Asriel está defendendo. Quem é o inimigo não sei dizer. Lyra e Will agora têm apenas uma missão, que é procurar seus dimons. A nossa missão é ajudá-los. Vamos ser corajosos e combater bem.
Lyra virou-se para Will.
— Tudo bem — disse — estou pronta.
Ele pegou a faca e olhou bem nos olhos do fantasma de seu pai, que se mantinha bem perto. Eles não se conheceriam por muito mais tempo e Will pensou em como teria ficado satisfeito de ver sua mãe ao lado deles também, os três juntos.
— Will — chamou Lyra, assustada.
Ele se deteve. A faca estava presa, enfiada no ar. Afastou a mão e ela ficou pendurada ali, presa na substância de um mundo invisível. Will deixou escapar um profundo suspiro.
— Eu quase...
— Eu vi — disse ela. — Olhe para mim, Will.
Na luz pálida ele viu seus cabelos claros, brilhantes, a boca firme, os olhos francos: sentiu o calor de seu hálito, reconheceu o perfume familiar de sua pele.
A faca se soltou.
— Vou tentar de novo — declarou.
Dando as costas para todos, ele se virou para a parede de pedra. Concentrando-se com toda a intensidade, deixou sua mente fluir descendo até a ponta da faca, tateando, recuando, procurando, e então encontrou a fenda. A ponta entrou, cortou para o lado, para baixo e de volta para o lado: os fantasmas estavam agrupados em massa, tão junto deles que o corpo de Will e o de Lyra sentiam pequenos choques de frio em cada nervo.
E então ele fez o corte final.
A primeira coisa que assaltou seus sentidos foi o barulho. A luz que penetrou de um golpe era ofuscante e tiveram que cobrir os olhos, fantasmas e vivos igualmente, de modo que não puderam enxergar nada durante vários segundos, mas as pancadas incessantes, as explosões, o matraquear de rajadas de artilharia, os berros e gritos, instantaneamente, ficaram todos muito nítidos e terrivelmente assustadores.
O fantasma de John Parry e o fantasma de Lee Scoresby foram os primeiros a recuperar a presença de espírito. Como ambos tinham sido soldados, com experiência de combate, não ficaram tão desorientados pelo barulho. Will e Lyra simplesmente ficaram olhando tomados pelo medo e pelo espanto.
Foguetes explosivos estavam eclodindo no ar acima, despejando uma chuva de fragmentos de rocha e metal sobre as encostas da montanha, que viram um pouco mais adiante, e nos céus, anjos lutavam com anjos, e bruxas também, arremetendo, voando baixo e depois subindo às alturas, berrando os gritos de guerra de seus clãs enquanto disparavam flechas contra seus inimigos. Viram um galivespiano, montado numa libélula, mergulhando para atacar uma máquina voadora cujo piloto tentou lutar contra ele em combate corpo a corpo. Enquanto a libélula dardejava e dava voos rasantes sobre a máquina, seu cavaleiro saltou dela para enfiar suas esporas bem fundo no pescoço do piloto, e então o inseto voltou, voando baixo para deixar que seu cavaleiro saltasse sobre seu dorso verde-brilhante enquanto a máquina voadora se chocava diretamente contra as rochas nos contrafortes da fortaleza.
— Aumente a abertura — disse Lee Scoresby. — Deixe-nos sair!
— Espere, Lee — disse John Parry . — Alguma coisa está acontecendo... olhe ali.
Will cortou uma outra pequena janela na direção que ele indicou e, quando olharam para fora, puderam ver uma mudança na evolução do combate. As forças atacantes começaram a ceder terreno e a recuar: um grupo de veículos armados parou de avançar e, sob o fogo de cobertura, virou pesadamente e bateu em retirada. Uma esquadrilha de máquinas voadoras, que estivera levando a melhor numa dura batalha contra os girópteros de Lorde Asriel, fez um círculo no céu e se afastou rumo ao oeste. As forças do reino em terra — colunas de fuzileiros, tropas equipadas com lança-chamas, com canhões que disparavam uma chuva venenosa, com armas que nenhum dos observadores jamais havia visto — começaram a se dispersar e a recuar.
— O que está acontecendo? — perguntou Lee. — Eles estão batendo em retirada, mas por quê?
Parecia não haver nenhuma razão para isso: os aliados de Lorde Asriel estavam superados em número, suas armas eram menos potentes e havia muitos mais deles caídos feridos.
Então Will sentiu um movimento repentino entre os fantasmas. Estavam apontando para alguma coisa flutuando no ar.
— Espectros! — exclamou John Parry. — Este é o motivo.
E, pela primeira vez, Will e Lyra acharam que podiam ver aquelas coisas, como véus de gaze tremeluzente, caindo do céu como lanugem de cardo. Mas eram muito transparentes, e quando chegavam ao chão eram muito mais difíceis de ver.
— O que eles estão fazendo? — perguntou Lyra.
— Eles estão se dirigindo para aquele pelotão de fuzileiros.
E Will e Lyra sabiam o que iria acontecer e os dois gritaram apavorados:
— Corram! Fujam daí!
Alguns dos soldados, ouvindo vozes de crianças gritando de perto, olharam em torno, espantados. Outros, vendo um Espectro se aproximando na direção deles, tão estranho, vazio e ávido, levantaram as armas e atiraram, mas, é claro, sem nenhum efeito. E então o Espectro atacou o primeiro homem que alcançou.
Era um soldado do mundo de Lyra, um africano. Seu dimon era uma gata de pernas longas, castanho-amarelada com pintas pretas, e ela arreganhou os dentes e preparou-se para saltar.
Eles viram o homem fazer pontaria com a metralhadora, destemido, sem ceder um centímetro — e então viram o dimon lutando contra uma rede invisível, rosnando, uivando impotente e o homem tentando alcançá-la, largando sua arma, gritando o nome dela e caindo, ele próprio desmaiando de dor e náusea brutal.
— Muito bem, Will — disse John Parry. — Deixe-nos sair agora, nós podemos lutar contra essas coisas.
De modo que Will abriu mais a janela, alargando-a, e saiu correndo, encabeçando o exército de fantasmas, e então teve início a batalha mais estranha que ele podia imaginar.
Os fantasmas escalavam a janela, saindo de dentro da terra, vultos pálidos, ainda mais pálidos sob a luz do meio-dia. Agora não tinham mais nada que temer e se lançavam contra os Espectros invisíveis, atracando-se, lutando e dilacerando coisas que Will e Lyra absolutamente não conseguiam ver. Os fuzileiros e os outros aliados vivos estavam perplexos: não conseguiam ver nem entender nada daquele combate fantasmagórico, espectral. Will foi abrindo caminho até o meio deles, brandindo a faca, lembrando-se de como os Espectros tinham fugido dela antes. Aonde quer que ele fosse, Lyra ia atrás, desejando ter alguma coisa com que pudesse lutar como Will estava fazendo, mas olhando ao redor, observando mais atentamente. Achou que de vez em quando podia ver os Espectros, num brilho oleoso no ar, e foi Lyra quem sentiu o primeiro arrepio de medo. Com Salmakia em seu ombro, ela se encontrava numa pequena elevação, apenas um monte de terra coberto por arbustos de espinheiro, de onde podia ver a enorme amplitude do terreno que os invasores estavam destruindo.
O sol estava bem acima de Lyra. Adiante, no horizonte a oeste, as nuvens se aglomeravam empilhadas e brilhantes, fendidas por abismos de escuridão, seus topos abertos sob os ventos fortes que sopravam a grande altitude. Naquela direção também, na planície, as forças terrestres do inimigo esperavam: máquinas reluziam muito claras, bandeiras em movimentos de cor, regimentos em formação, esperando.
Atrás, e à sua esquerda, havia a cadeia de colinas pontiagudas que conduziam à fortaleza. Elas brilhavam em um tom cinza-claro, refletindo a luz sinistra que precede a tempestade, e nas fortificações distantes das muralhas de basalto negro, conseguia ver até pequeninos vultos se movimentando de um lado para outro, fazendo reparos nas muralhas danificadas, trazendo mais armas para disparar ou simplesmente observando.
E foi mais ou menos nesse instante que Lyra sentiu o primeiro solavanco distante de náusea, dor e medo que era o toque inconfundível dos Espectros. Ela soube o que era imediatamente, embora nunca o tivesse sentido antes. E aquilo disse-lhe duas coisas: a primeira, que devia ter crescido o suficiente para se tornar vulnerável aos Espectros, e a segunda, que Pan devia estar em algum lugar bem perto.
— Will... Will — gritou.
Ele a ouviu e se virou, de faca em punho e olhos faiscantes. Mas, antes que ele pudesse falar, arquejou, sacudido por um solavanco sufocante, e agarrou o peito, e ela soube que a mesma coisa devia estar acontecendo com ele.
— Pan! Pan! — gritou, ficando nas pontas dos pés para olhar ao redor.
Will estava dobrado para a frente, tentando não vomitar. Depois de alguns instantes a sensação passou, como se seus dimons tivessem escapado, mas não estavam mais perto de encontrá-los e por toda parte o ar estava cheio de tiros, gritos, vozes berrando de dor ou de pânico, o ioque-ioque-ioque distante dos avantesmas-dos-penhascos voando em círculos acima, volta e meia o zunido tzim e a pancada tuque de flechas e então um som novo: o vento se tornando mais intenso.
Lyra o sentiu primeiro nas faces e depois viu a relva se dobrando sob sua força, e então o ouviu nos espinheiros. O céu mais adiante estava tomado por uma tempestade colossal: toda a brancura havia desaparecido das massas arredondadas de nuvens carregadas e elas vinham avançando e rodopiavam em tons amarelo-enxofre, verde-mar, cinza-enfumaçado, negro-petróleo, um violento encrespamento com quilômetros de altura e largo como o horizonte.
Atrás dela o sol ainda estava brilhando, de modo que todos os pequenos arbustos e cada uma das árvores entre ela e a tempestade fulguravam fervorosos e vividos, coisas pequeninas e frágeis desafiando a escuridão com folha e galho e flor.
E através de tudo aquilo seguiram as duas não-mais exatamente crianças, vendo os Espectros agora quase que claramente. O vento estava fustigando os olhos de Will e chicoteando os cabelos de Lyra contra sua face, e deveria ter conseguido soprar os Espectros para longe, mas as coisas desciam flutuando em linha reta para o solo diretamente através dele. O menino e a menina, de mãos dadas, foram caminhando cautelosamente em meio aos mortos e feridos, Lyra chamando seu dimon, Will, com todos os seus sentidos alerta, buscando o seu.
E agora o céu estava rendado de relâmpagos, então o primeiro estrondo poderosíssimo de um trovão acertou seus tímpanos como um machado. Lyra pôs as mãos na cabeça e Will quase tropeçou, como se empurrado para baixo pelo som. Eles se agarraram um no outro, olharam para o alto e se depararam com uma visão que ninguém jamais tinha visto antes em nenhum dos milhões de mundos.
Bruxas, do clã de Ruta Skadi e do clã de Reina Miti, e de mais uma meia dúzia de outros, cada uma delas carregando uma tocha de pinheiro do pez encharcada de betume, vinham voando numa torrente sobre a fortaleza vindas do leste, do último canto de céu claro, seguindo diretamente para a tempestade.
Aqueles que estavam no solo podiam ouvir o rugido e o crepitar dos voláteis hidrocarbonetos ardendo lá no alto. Uns poucos Espectros ainda permaneciam nas alturas e algumas bruxas voaram de encontro a eles, sem vê-los, e gritando despencaram em chamas no chão, mas, àquela altura, a maioria das coisas pálidas tinha chegado ao solo e a grande esquadrilha de bruxas passou correndo como um rio de fogo penetrando no meio da tempestade.
Uma esquadrilha de anjos, armados de lanças e espadas, tinha saído da Montanha Nublada para vir ao encontro das bruxas. Eles tinham o vento soprando às suas costas e vieram avançando mais rápidos que flechas, mas as bruxas estavam à altura deles, e as primeiras subiram voando muito alto e depois mergulharam nas fileiras de anjos, golpeando à esquerda e à direita com suas tochas ardentes. Um anjo após outro, delineado em fogo, com as asas em chamas, despencou gritando do ar.
E então as primeiras grandes gotas de chuva caíram. Se o comandante das nuvens de tempestade queria apagar as tochas das bruxas, ficou desapontado, o pinheiro do pez e o betume continuaram ardendo desafiadoramente contra as gotas, crepitando e sibilando mais alto, quanto mais chuva caía sobre eles. As gotas de chuva bateram no solo como se tivessem sido lançadas com maldade, explodindo e respingando para cima no ar. Em menos de um minuto Lyra e Will estavam ensopados até os ossos e tremendo de frio, e a chuva golpeava-lhes a cabeça e os braços como minúsculas pedrinhas.
Em meio àquilo tudo os dois seguiram adiante, cambaleando e se esforçando, limpando a água dos olhos, gritando:
— Pan! Pan! — em meio ao tumulto.
Os trovões acima agora eram quase contínuos, rasgando, moendo e explodindo como se os próprios átomos estivessem sendo rompidos. Entre as explosões de raios e trovões e as pontadas de medo, Will e Lyra corriam, urrando juntos:
— Pan! Meu Pantalaimon! Pan — e um grito sem palavra de Will, que sabia o que havia perdido, mas não como ela se chamava.
Com eles, por toda parte onde passavam, iam os galivespianos advertindo-os para olhar nessa direção, para seguir por aquela, de olho nos Espectros que as crianças ainda não podiam ver claramente. Lyra tinha que segurar Salmakia nas mãos porque a pequenina dama não tinha mais forças para se segurar no ombro de Lyra. Tialys estava vasculhando os céus ao redor, em busca de seus companheiros e gritando sempre que via uma faísca de cor brilhante passar dardejando no ar acima. Mas a voz dele tinha perdido muito de sua força e de qualquer maneira os outros galivespianos estavam procurando as cores dos clãs de suas duas libélulas, a azul-elétrica e a vermelho-e-amarela, e essas cores há muito haviam se apagado, e os corpos que tinham brilhado com elas jaziam no mundo dos mortos.
E então houve um movimento no céu que foi diferente do resto. Enquanto as crianças olhavam para cima, protegendo os olhos da chuva violenta, viram uma aeronave diferente de todas as que tinham visto antes: deselegante, com seis pernas, escura e totalmente silenciosa. Estava voando baixo, muito baixo, vinda da fortaleza. Ela fez um voo rasante bem acima, passando sobre a cabeça deles na altura de um telhado, e então se afastou seguindo para o coração da tempestade.
Mas eles não tiveram tempo para se perguntar sobre o que seria, pois um outro latejar estonteante de náusea disse a Lyra que Pan estava em perigo novamente, e então Will também o sentiu, e os dois seguiram cambaleando cegamente em meio às poças de água, lama e o caos de homens feridos e fantasmas lutando, desprotegidos, apavorados e se sentindo enjoados.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)