17 de fevereiro de 2017

28. Meia-noite

Inúmeras vezes me senti semiapaixonado pela indulgência da morte...
John Keats

— Marisa, acorde. Estamos quase pousando — disse Lorde Asriel.
Um dia tempestuoso estava raiando sobre a fortaleza de basalto quando a nave da intenção chegou voando, vinda do sul. Dolorida e desgostosa, a Sra. Coulter abriu os olhos, não estivera dormindo. Viu o anjo Xaphania planando acima do campo de pouso e depois se elevando e seguindo para a torre enquanto a nave da intenção seguia para a plataforma atrás das trincheiras. Assim que a nave pousou, Lorde Asriel saltou rapidamente e correu para se juntar ao Rei Ogunwe na torre de observação a oeste, ignorando por completo a Sra. Coulter. Os técnicos que vieram imediatamente cuidar da aeronave também não lhe deram nenhuma atenção, ninguém lhe fez perguntas sobre a perda da aeronave que ela havia roubado, era como se ela tivesse se tornado invisível. Dominada pela tristeza, ela seguiu para os aposentos na torre adamantina, onde um ordenança ofereceu-se para lhe trazer algo que comer e café.
— Qualquer coisa serve — disse ela. — E obrigada. Ah, a propósito — prosseguiu, quando o homem se virava para ir embora — o aletiometrista de Lorde Asriel, o Sr...
— Sr. Basilides?
— Sim. Ele estaria livre para vir até aqui um instante?
— Está trabalhando com seus livros, no momento, madame. Pedirei a ele que venha até aqui quando puder.
Ela se lavou e se trocou, vestindo a única camisa limpa que lhe restava. O vento frio que sacudia as janelas e a luz da manhã cinzenta a fizeram tiritar. Colocou mais carvão no braseiro, na esperança de que aquilo a fizesse parar de tremer, mas o frio estava em seus ossos, não só na carne. Dez minutos depois, houve uma batida à porta. O aletiometrista, pálido, de olhos escuros, com seu dimon rouxinol pousado no ombro, entrou e fez uma pequena mesura. Um momento depois o ordenança voltou trazendo uma bandeja com pão, queijo e café, e a Sra. Coulter disse:
— Muito obrigada por ter vindo, Sr. Basilides. Posso lhe oferecer alguma coisa?
— Aceito um café, obrigado.
— Por favor, diga-me — pediu ela, depois de servir a bebida — pois tenho certeza que tem estado acompanhando o que aconteceu: minha filha está viva?
Ele hesitou. O macaco dourado agarrou o braço da Sra. Coulter.
— Ela está viva — disse Basilides cautelosamente — mas também...
— Está? Ah, por favor, o que está querendo dizer?
— Ela está no mundo dos mortos. Durante algum tempo não consegui interpretar o que o instrumento estava me dizendo: parecia impossível. Mas não há dúvida. Ela e o menino foram para o mundo dos mortos e abriram uma passagem para os fantasmas saírem. Tão logo os mortos chegam ao ar livre, eles se dissolvem como fizeram seus dimons e parece que este é o fim mais agradável e desejável para eles. E o aletiômetro me diz que a menina fez isso porque ela ouviu uma profecia de que a morte chegaria ao fim, e achou que esta era uma tarefa que deveria realizar. Em resultado disso, agora existe uma saída do mundo dos mortos.
A Sra. Coulter não conseguia falar. Teve que se virar e ir até a janela para esconder a emoção em seu rosto. Finalmente disse:
— E ela sairá de lá viva? Mas não, eu sei que o senhor não pode prever. Ela está... como está ela?... Ela...
— Ela está sofrendo, sentindo dor, está com medo. Mas tem a companhia do menino e dos dois espiões galivespianos, e todos ainda estão juntos.
— E a bomba?
— A bomba não a feriu.
A Sra. Coulter se sentiu exausta, de repente. Não queria mais nada além de se deitar e dormir durante meses, durante anos. Lá fora, a corda da bandeira no mastro estalou e se sacudiu com estrépito sob o vento, e as gralhas grasnaram enquanto voavam em círculos ao redor das fortificações.
— Muito obrigada, senhor — disse ela, virando-se de volta para o leitor. — Estou muito agradecida. Por favor, poderia me avisar se descobrir mais alguma coisa a respeito dela, ou de onde ela está, ou o que está fazendo?
O homem fez uma mesura e se retirou. A Sra. Coulter foi se deitar na cama de campanha, mas, por mais que tentasse, não conseguiu manter os olhos fechados.


— O que acha daquilo, Rei? — perguntou Lorde Asriel.
Ele estava olhando pelo telescópio da torre de observação para alguma coisa no céu a oeste. Tinha a aparência de uma montanha pendurada no céu, um palmo acima do horizonte e coberta por nuvens. Estava a uma grande distância, tão distante, na verdade, que não era maior que uma unha de polegar afastada à distância de um braço estendido. Mas não estava ali há muito tempo, e se mantinha parada lá, absolutamente imóvel. O telescópio trouxe-a para mais perto, mas não havia maiores detalhes: uma nuvem ainda tem a aparência de uma nuvem, por mas ampliada que seja.
— A Montanha Nublada — respondeu Ogunwe. — Ou, como é que chamam? A Carruagem?
— Com o Regente controlando as rédeas. Ele se escondeu bem, esse Metatron. Falam a respeito dele nas escrituras apócrifas: que um dia foi homem, um homem chamado Enoque, o filho de Jared, seis gerações depois de Adão. E agora ele governa o reino. E está pretendendo fazer mais do que isso, se aquele anjo encontrado na beira do lago de enxofre estava certo, o que entrou na Montanha Nublada para espionar. Se ele vencer esta batalha, pretende intervir diretamente na vida humana. Imagine isso, Ogunwe, uma Inquisição permanente, pior que qualquer coisa com que o Tribunal Consistorial de Disciplina pudesse sonhar, composta de espiões e traidores em todos os mundos, e dirigida, pessoalmente, pela inteligência que está mantendo aquela montanha nas alturas... A velha Autoridade pelo menos teve a graça de se retirar, o trabalho sujo de queimar hereges e enforcar bruxas foi deixado para os padres. Esta nova será, de longe, muito pior.
— Bem, ele começou com a invasão da república — comentou Ogunwe. — Olhe, aquilo é fumaça?
Um fluxo flutuante cinzento estava saindo da Montanha Nublada, uma mancha que se espalhava lentamente contra o céu azul. Mas não poderia ter sido fumaça: estava fluindo na direção oposta à do vento que soprava as nuvens com violência.
O rei levou o binóculo até os olhos e viu o que era.
— Anjos — disse.
Lorde Asriel afastou-se do telescópio e se levantou, a mão protegendo os olhos do sol. As centenas e depois aos milhares, e dezenas de milhares, até que metade daquela parte do céu estivesse escurecida, as silhuetas minúsculas voavam e voavam, e continuavam vindo. Lorde Asriel tinha visto a força de bandos de bilhões de estorninhos azuis, que voavam em círculos, ao pôr-do-sol, ao redor do palácio do Imperador K’ang-Po, mas nunca tinha visto uma multidão tão vasta em toda a sua vida. Os seres voadores se reuniram e então se dividiram movendo-se lentamente, bem lentamente, para o norte e para o sul.
— Ah! E o que é aquilo? — perguntou Lorde Asriel, apontando. — Aquilo não é o vento.
A nuvem estava rodopiando para o flanco sul da montanha e longos estandartes esgarçados de vapor jorravam para fora sob os ventos fortes. Mas Lorde Asriel estava certo: o movimento estava vindo de dentro, não do ar do lado de fora. A nuvem se turvou e se retorceu, estremeceu, e então se abriu por um segundo.
Havia mais que uma montanha ali, mas eles só viram por um instante, então a nuvem rodopiou de volta, como se puxada sobre a montanha por uma mão invisível, para escondê-la novamente.
O Rei Ogunwe abaixou o binóculo.
— Aquilo não é uma montanha — declarou. — Vi plataformas para canhões...
— Eu também. Toda uma complexidade de coisas. Será que ele pode ver o que está do lado de fora através da nuvem? Eu gostaria de saber. Em certos mundos eles têm máquinas para fazer isso. Mas, quanto a seu exército, se esses anjos são tudo o que eles têm...
O rei soltou uma breve exclamação, em parte de espanto, em parte de desespero. Lorde Asriel se virou e agarrou o braço dele, apertando os dedos com uma força que quase fez doer até o osso.
— Eles não têm isso — afirmou ele, e sacudiu violentamente o braço de Ogunwe. — Eles não têm carne.
Ele colocou a mão sobre a face áspera do amigo.
— Por mais que sejamos poucos — prosseguiu — e por mais curta que seja nossa vida, por mais fraca que seja nossa vista, por mais frágil que seja nossa pele, em comparação com eles, ainda somos mais fortes. Eles nos invejam, Ogunwe! É isso que alimenta o ódio deles, tenho certeza. Eles anseiam ter nossos corpos preciosos, tão sólidos e poderosos, tão bem adaptados à boa terra! E se os golpearmos com força e determinação, podemos varrer para longe, rápida e completamente, essas forças infinitas com a mesma facilidade que você pode enfiar a mão na névoa. A força deles se limita a isso!
— Asriel, eles têm aliados de um milhar de mundos, seres vivos como nós.
— Nós venceremos.
— E suponhamos que ele tenha mandado esses anjos para procurar sua filha?
— Minha filha! — exclamou Lorde Asriel, exultante. — Não é extraordinário trazer ao mundo uma criança como ela? Você imaginaria que teria sido o suficiente ir sozinha procurar o rei dos ursos de armadura e passá-lo para trás, tomando-lhe seu reino, mas descer ao mundo dos mortos e calmamente conduzir todos eles para fora! E aquele menino, eu quero conhecer aquele menino, quero apertar a mão dele. Por acaso sabíamos o que estávamos enfrentando quando começamos esta rebelião? Não. Mas será que eles sabiam, a Autoridade e seu Regente, esse Metatron, será que sabiam o que estariam enfrentando quando minha filha foi envolvida?
— Lorde Asriel — disse o rei — o senhor compreende a importância que ela tem para o futuro?
— Francamente, não. Por isso quero ver Basilides. Para onde ele foi?
— Foi ver Lady Coulter. Mas o homem está exausto, não pode fazer mais nada enquanto não descansar.
— Deveria ter descansado antes. Mande chamá-lo, por favor. Ah, mais uma coisa: por favor, peça à Madame Oxentiel para vir até a torre assim que for conveniente. Preciso apresentar minhas condolências a ela.
Madame Oxentiel tinha sido a comandante substituta dos galivespianos. Agora ela teria que assumir as responsabilidades de Lorde Roke. O Rei Ogunwe fez uma mesura e deixou seu comandante vasculhando o horizonte cinzento.
Durante aquele dia inteiro o exército se reuniu e se preparou. Anjos da força militar de Lorde Asriel voaram alto sobre a Montanha Nublada, procurando uma brecha, mas sem sucesso. Nada mudou, não apareceram mais anjos voando para dentro ou para fora, os ventos fortíssimos rasgavam as nuvens e as nuvens incessantemente se renovavam, sem se abrir nem por um segundo. O sol atravessou o céu azul frio e então começou a descer a sudoeste, dourando as nuvens e tingindo o vapor ao redor da montanha de todos os matizes de creme e escarlate, de damasco e tangerina. Quando o sol se pôs, as nuvens reluziram suavemente iluminadas por dentro. Os combatentes de todos os mundos onde a rebelião de Lorde Asriel tinha aliados agora estavam em posição, mecânicos e artífices estavam pondo combustível nas aeronaves, carregando armas e calibrando visores de mira e medidas. Quando chegou a escuridão, alguns reforços bem-vindos também chegaram: as patas ligeiras se movendo silenciosamente sobre o solo gelado do norte, foram chegando separadamente, um por um, diversos ursos de armadura — foi um grande número, muitos ursos vieram e, entre eles, estava seu rei. Não muito depois, chegou o primeiro de vários clãs de bruxas, o som de ar passando através dos galhos de seus pinheiros-nubígenos sussurrando no céu escuro durante muito tempo.
Ao longo da planície ao sul da fortaleza, milhares de luzes brilhavam, marcando os acampamentos daqueles que tinham chegado vindos de muito longe. Mais além, em todos os quatro cantos da bússola, esquadrilhas de anjos espiões voavam incansavelmente montando guarda.
À meia-noite, na torre adamantina, Lorde Asriel estava sentado discutindo planos com o Rei Ogunwe, o anjo Xaphania, Madame Oxentiel, a galivespiana, e Teukros Basilides. O aletiometrista tinha acabado de falar e Lorde Asriel se levantou, atravessou o aposento indo até a janela e olhou para fora para o brilho distante da Montanha Nublada pairando no céu a oeste. Os outros estavam em silêncio, tinham acabado de ouvir algo que fizera Lorde Asriel empalidecer e tremer, e nenhum deles sabia exatamente como reagir. Afinal, Lorde Asriel se pronunciou.
— Sr. Basilides — disse — deve estar muito cansado. Estou muito grato por todos os seus esforços. Por favor, beba um pouco de vinho conosco.
— Muito obrigado, senhor.
As mãos dele estavam tremendo. O Rei Ogunwe serviu o Tokay dourado e passou-lhe o copo.
— O que isto significará, Lorde Asriel? — perguntou a voz clara de Madame Oxentiel.
Lorde Asriel voltou para a mesa.
— Bem — disse ele — significará que quando entrarmos em combate teremos um novo objetivo. Minha filha e esse menino de alguma forma se separaram de seus dimons e conseguiram sobreviver, e seus dimons estão em algum lugar aqui neste mundo, corrija-me se estiver resumindo erradamente, Sr. Basilides, seus dimons estão aqui neste mundo e Metatron está decidido a capturá-los. Se ele capturar os dimons, as crianças terão que segui-lo, e se ele puder controlar essas duas crianças, o futuro será dele, para sempre. Nossa missão é muito clara: temos que encontrar os dimons antes que ele o faça e mantê-los em segurança até que a menina e o menino voltem a se juntar a eles.
A líder galivespiana perguntou:
— Que forma eles têm, esses dois dimons perdidos?
— Ainda não têm forma fixa, madame — respondeu Teukros Basilides. — Poderiam ter qualquer forma.
— Portanto — prosseguiu Lorde Asriel — para resumir: todos nós, nossa república, o futuro de todos os seres conscientes, todos nós dependemos de minha filha continuar viva e de impedir que seu dimon e o do menino caiam nas mãos de Metatron?
— Exatamente.
Lorde Asriel suspirou, quase que com satisfação, era como se ele tivesse chegado ao fim de um longo e complexo cálculo, e tivesse encontrado uma resposta que fazia um sentido bastante inesperado.
— Muito bem — declarou, pondo as mãos espalmadas sobre a mesa. — Então isto é o que vamos fazer quando a batalha começar. Rei Ogunwe, o senhor assumirá o comando de todos os exércitos defendendo a fortaleza. Madame Oxentiel, a senhora deverá mandar seu povo sair imediatamente e conduzir buscas em todas as direções para encontrar a menina e o menino, e os dois dimons. Quando os encontrarem, devem defendê-los com suas vidas até que tornem a se reunir. Nesse momento, pelo que compreendi, o menino poderá escapar para um outro mundo e ficar em segurança.
A dama assentiu. Seus cabelos duros, prateados, refletiram a luz da lamparina brilhando como aço inoxidável e o falcão azul que ela tinha herdado de Lorde Roke abriu as asas rapidamente na arandela junto à porta.
— Agora, Xaphania — disse Lorde Asriel. — O que sabe a respeito desse Metatron? Ele outrora foi um homem: ainda tem a força física de um ser humano?
— Ele alcançou a proeminência muito depois que fui exilada — respondeu o anjo. — Nunca o vi de perto. Mas não teria sido capaz de dominar o reino a menos que fosse, realmente, muito, muito forte, forte em todos os sentidos. A maioria dos anjos evitaria o combate corpo a corpo. Metatron apreciaria o combate e venceria.
Ogunwe percebeu que Lorde Asriel acabara de ter uma ideia. Sua atenção de repente se retraiu, seus olhos perderam o foco por um instante e então rapidamente voltaram a se concentrar no momento em curso com uma carga adicional de intensidade.
— Compreendo — disse ele. — Finalmente, Xaphania, o Sr. Basilides nos disse que a bomba deles não somente abriu um abismo abaixo dos mundos, como também fraturou a estrutura das coisas tão profundamente que há fissuras e rachaduras por toda parte. Em algum lugar aqui nas vizinhanças deve haver um caminho de descida até a borda desse abismo. Quero que o encontre.
— O que pretende fazer? — perguntou o Rei Ogunwe asperamente.
— Vou destruir Metatron. Mas meu papel está quase encerrado. É minha filha que tem que viver e é nossa missão manter todas as forças do reino longe dela para que tenha uma chance de encontrar o caminho para um mundo mais seguro, ela e aquele menino e seus dimons.
— E a Sra. Coulter? — perguntou o rei.
Lorde Asriel passou a mão na testa.
— Prefiro que não seja incomodada — declarou. — Deixe-a em paz e proteja-a se puder. Embora... Talvez eu esteja cometendo uma injustiça contra ela. Não importa o que tenha feito, ela nunca deixou de me surpreender. Mas todos nós sabemos o que nós devemos fazer e por que temos que fazê-lo: temos que proteger Lyra até ela encontrar seu dimon e fugir. Nossa república poderia ter sido criada com o único objetivo de ajudá-la a fazer isso. Bem, vamos tratar de fazer isso o melhor que pudermos.


A Sra. Coulter estava deitada na cama de Lorde Asriel no quarto ao lado. Ao ouvir vozes no aposento vizinho, ela despertou, pois não estava profundamente adormecida. Acordou de seu sono agitado sentindo-se aflita e carregada de anseio.
Seu dimon sentou a seu lado, mas ela não queria se aproximar da porta, era simplesmente o som da voz de Lorde Asriel que queria ouvir, mais do que quaisquer palavras em particular. Acreditava que estavam ambos condenados. Acreditava que todos eles estivessem condenados. Finalmente ela ouviu a porta se fechar no outro aposento e se esforçou para se pôr de pé.
— Asriel — chamou, passando pela porta e entrando no gabinete iluminado pela luz cálida de nafta.
O dimon dele rosnou baixinho: o macaco dourado baixou a cabeça lá embaixo em sinal de que buscava conciliação com ela. Lorde Asriel estava enrolando um grande mapa e não se virou.
— Asriel, o que vai acontecer com todos nós? — perguntou ela, sentando-se numa cadeira.
Ele apertou a base das mãos nos olhos. Seu rosto estava muito abatido pelo cansaço. Sentou-se e descansou um cotovelo sobre a mesa. Seus dimons estavam muito quietos: o macaco agachado no encosto da cadeira, a pantera branca sentada bem ereta e alerta ao lado de Lorde Asriel, observando a Sra. Coulter sem piscar.
— Você não ouviu? — perguntou ele.
— Ouvi um pouco. Não consegui dormir, mas não estava prestando atenção. Onde está Lyra, alguém sabe?
— Não.
Ele ainda não tinha respondido à primeira pergunta e não ia responder, ela sabia disso.
— Nós deveríamos ter-nos casado — disse ela — e tê-la criado juntos.
Foi um comentário tão inesperado que ele levantou a cabeça e olhou rapidamente para ela. Seu dimon soltou o rosnado mais suave possível lá no fundo da garganta e se acomodou com as patas estendidas para frente na posição da Esfinge. Ele não disse nada.
— Não consigo suportar a ideia do apagamento total, Asriel — prosseguiu ela. — Prefiro qualquer coisa a isso. Costumava pensar que a dor seria pior, ser torturada para sempre, achava que isso devia ser pior... Mas, enquanto você estivesse consciente, seria melhor, não seria? Melhor que não sentir nada, apenas sumir na escuridão, tudo se apagando para todo o sempre?
O papel dele era apenas ouvir. Seus olhos estavam cravados nos dela e ele estava prestando profunda atenção, não havia necessidade de responder. Ela disse:
— No outro dia, quando você falou a respeito dela com tanta amargura, e de mim... Pensei que a odiasse. Podia compreender que me odiasse. Eu nunca odiei você, mas podia compreender... eu sabia por que poderia me odiar. Mas não conseguia compreender por que você odiava Lyra.
Ele virou o rosto para o lado, lentamente, depois olhou de volta para ela.
— Eu me lembro que você disse alguma coisa estranha, em Svalbard, no topo da montanha, pouco antes de partir de nosso mundo — prosseguiu ela. — Você disse: venha comigo e destruiremos a fonte do Pó para sempre. Você se lembra de ter dito isso? Mas não era o que estava querendo dizer. Estava querendo dizer exatamente o oposto, não era? Agora compreendo. Por que não me disse o que realmente estava fazendo? Por que não me disse que na verdade estava tentando preservar o Pó? Poderia ter-me dito a verdade.
— Eu queria que você viesse comigo e se unisse a mim — respondeu ele, com a voz rouca e baixa — e achei que você preferiria uma mentira.
— Sim — sussurrou ela — foi o que pensei.
Ela não conseguia ficar parada na cadeira, mas na verdade não tinha forças para se levantar. Por um instante sentiu-se tonta, a cabeça girou, os sons foram sumindo, o aposento escureceu, mas quase que imediatamente recuperou os sentidos, ainda mais impiedosamente do que antes, e nada na situação tinha mudado.
— Asriel... — murmurou.
O macaco dourado estendeu a mão hesitante para tocar na pata da pantera branca. O homem observou sem dizer uma palavra e Stelmaria não se moveu, seus olhos estavam cravados na Sra. Coulter.
— Ah, Asriel, o que vai acontecer conosco? — perguntou a Sra. Coulter de novo. — Será isso o fim de tudo?
Ele não disse nada.
Movendo-se como alguém em um sonho, ela se levantou, apanhou a mochila que estava no canto do gabinete e enfiou a mão para pegar a pistola, e o que ela teria feito a seguir, ninguém saberia, porque naquele momento houve o som de passos subindo as escadas correndo.
Tanto o homem quanto a mulher, e ambos os dimons, se viraram para olhar para o ordenança que entrou e disse ofegante:
— Com licença, senhor, os dois dimons, eles foram avistados, não muito longe do portão leste, sob a forma de gatos, a sentinela tentou falar com eles, fazê-los entrar, mas não quiseram se aproximar. Isso foi há apenas um minuto...
Lorde Asriel endireitou-se na cadeira, transfigurado. Toda a fadiga havia sido apagada de seu rosto em um instante. Ele se levantou de um salto e agarrou o sobretudo. Ignorando a Sra. Coulter, jogou o casaco sobre os ombros e disse para o ordenança:
— Avise Madame Oxentiel imediatamente. Faça circular esta ordem: os dimons não devem ser ameaçados, nem assustados, ou coagidos de nenhuma forma. Qualquer um que os veja deve primeiro...
A Sra. Coulter não ouviu mais nada do que ele estava dizendo, porque Lorde Asriel já tinha saído e estava a meio caminho, descendo a escada. Quando o som de seus passos correndo também desapareceu, os únicos sons eram o sibilar suave da lamparina de nafta e o gemido do vento selvagem lá fora.
Os olhos dela encontraram os olhos de seu dimon. A expressão do macaco dourado era sutil e complexa, como sempre tinha sido, ao longo de todos os seus 35 anos de vida.
— Muito bem — disse ela. — Não vejo nenhuma outra alternativa. Acho... Acho que nós vamos...
Ele soube instantaneamente o que ela queria dizer. Saltou para o colo dela e eles se abraçaram. Depois ela pegou seu casaco forrado de pele e muito silenciosamente os dois deixaram o gabinete e desceram pelas escadas escuras.

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