17 de fevereiro de 2017

27. A plataforma

Sim, em meio a ramagem, minh’alma plana
Lá, como um pássaro, descansa e cata
Depois afia e penteia suas asas de prata
Andrew Marcell

Tão logo os mulefas começaram a construir a plataforma para Mary, trabalharam rápido e bem. Ela gostava de ficar observando-os, porque podiam discutir sem brigar e cooperar sem atrapalhar uns aos outros, e porque as técnicas que usavam para rachar, cortar e encaixar a madeira eram tão elegantes e eficientes.
Em dois dias, a plataforma de observação foi projetada, construída e alçada para a posição determinada. Era firme, espaçosa e confortável, e depois que ela subiu para lá sentiu-se feliz de uma maneira singular, como jamais havia se sentido.
Aquela maneira tão singular era física. Em meio ao denso verde do dossel das árvores, com o azul intenso do céu entre as folhas, com uma brisa mantendo sua pele fresca, e o perfume suave das flores deliciando-a sempre que o sentia, com o farfalhar das folhas, o canto das centenas de pássaros e o murmúrio distante das ondas na beira do mar, todos os seus sentidos estavam acalentados, nutridos e satisfeitos, e se ela tivesse podido parar de pensar, teria sido totalmente envolvida pelo êxtase. Mas, é claro, era para pensar que estava ali.
E quando olhou pela luneta e viu a flutuação incessante do sraf, das partículas de Sombra, para longe da terra, pareceu-lhe que a felicidade, a vida e a esperança também estavam flutuando para longe junto com elas. Mary não conseguia encontrar nenhuma explicação.
Trezentos anos, os mulefas tinham dito: era há esse tempo todo que as árvores vinham ficando debilitadas. Dado o fato de que as partículas de Sombra passavam igualmente através de todos os mundos, presumivelmente a mesma coisa também estava acontecendo no universo de Mary e em todos os outros.
Trezentos anos atrás a Real Sociedade havia sido criada: a primeira verdadeira sociedade científica em seu mundo. Quando Newton estivera fazendo suas descobertas sobre a óptica e a gravitação. Trezentos anos antes, no mundo de Lyra, alguém havia inventado o aletiômetro.
Na mesma época, naquele estranho mundo por onde havia passado para chegar até ali, a faca sutil havia sido inventada.
Ela se deitou nas tábuas de madeira, sentindo a plataforma se mover num ritmo muito suave, muito lento, à medida que a árvore imensa balançava sob a brisa do mar. Levando a luneta ao olho, ela observou a miríade de minúsculas centelhas flutuar em meio às folhas, passando pelas bocas abertas das florescências, em meio às ramagens maciças, movendo-se contra o vento, numa correnteza lenta e deliberada que parecia quase consciente. O que havia acontecido 300 anos atrás? Seria isso a causa da correnteza de Pó, ou seria exatamente o contrário? Ou será que ambas as coisas eram resultado de uma causa totalmente diferente? Ou será que simplesmente não estavam absolutamente ligadas?
A flutuação era hipnótica. Como seria fácil cair num transe e deixar sua mente vagar para longe junto com as partículas que fluíam flutuando... Antes que ela se desse conta do que estava fazendo e porque seu corpo estava calmo, aquietado, isso foi exatamente o que aconteceu. Ela de repente despertou de estalo e descobriu que estava fora de seu corpo e entrou em pânico.
Estava um pouco acima da plataforma e alguns centímetros fora dela, em meio aos galhos. E alguma coisa tinha acontecido com o vento de Pó: em vez daquela flutuação lenta, ele estava correndo como as águas de um rio numa enchente.
Teria ganhado velocidade ou será que o tempo estava se movendo de maneira diferente para ela, agora que estava fora de seu corpo? Qualquer dos dois que fosse, ela teve consciência do mais terrível dos perigos, pois a enchente estava ameaçando arrastá-la e carregá-la completamente para longe dali, e era imensa.
Ela abriu os braços para se agarrar a qualquer coisa sólida, mas não tinha braços. Não conseguiu contato com nada. Agora estava quase em cima daquela queda abominável e seu corpo estava cada vez mais distante e fora de alcance, adormecido de forma tão egoísta abaixo dela. Tentou gritar e despertar: nem um som. O corpo continuou dormindo, e o eu que observava estava sendo levado embora para muito longe do dossel das folhas e para o céu aberto.
E, por mais que ela lutasse, não conseguia oferecer nenhuma resistência. A força que a carregava era serena e poderosa como água jorrando sobre uma comporta: as partículas de Pó estavam fluindo junto, como se elas também estivessem jorrando sobre alguma beira invisível.
E levando-a para longe de seu corpo.
Ela lançou uma corda de salvação mental para aquele eu físico e tentou se lembrar da sensação de estar dentro dele: todas as sensações que consistiam em estar viva. Exatamente como era o toque da tromba, de ponta macia, de sua amiga Atai acariciando seu pescoço. O sabor de bacon com ovos. O esforço triunfante em seus músculos quando ela se impulsionava, subindo uma parede de rocha. A dança delicada de seus dedos no teclado de um computador. O cheiro de café sendo torrado. O calor de sua cama numa noite de inverno.
E, gradualmente, ela parou de se mover, a corda de salvação se manteve firme e ela sentiu o peso e a força da correnteza empurrando na direção oposta, enquanto se mantinha parada ali no céu.
E então aconteceu uma coisa estranha. Pouco a pouco (à medida que ela reforçava aquelas memórias de sentidos, acrescentando outras: o sabor de uma Margarita com gelo picado, que havia tomado na Califórnia, estar sentada debaixo dos limoeiros no pátio de um restaurante em Lisboa, limpar o gelo do para-brisa de seu carro), ela sentiu o vento de Pó amainar. A pressão estava diminuindo.
Mas só sobre ela: por toda parte ao redor, acima e abaixo, a grande enchente corria forte como nunca. De alguma forma havia um pequenino retalho de quietude em torno dela, onde as partículas estavam resistindo ao fluxo. Elas eram conscientes! Tinham sentido sua ansiedade e respondido a ela. Então começaram a carregá-la de volta para seu corpo abandonado e quando estava perto o suficiente para vê-lo de novo, tão pesado, tão seguro, um soluço silencioso sacudiu seu coração.
E então ela mergulhou de volta em seu corpo e despertou.
Respirou fundo sentindo-se tremer. Pressionou as mãos e as pernas contra as pranchas ásperas de madeira da plataforma e, um minuto antes quase tendo enlouquecido de medo, naquele instante sentiu-se de novo tomada por uma profunda e lenta sensação de êxtase por estar de novo unida a seu corpo, à terra e a tudo o que importava.
Finalmente sentou-se e tentou avaliar a situação. Seus dedos encontraram a luneta e ela a levou ao olho, apoiando a mão trêmula com a outra.
Não havia dúvida de que o fluxo lento de flutuação em toda a amplidão do céu tinha se intensificado tornando-se uma enchente. Não havia nada para ouvir e nada para sentir, e, sem a luneta, nada para ver, mas mesmo depois que tirou a luneta do olho aquela sensação de inundação rápida permaneceu vivida, junto com uma outra coisa em que não havia reparado devido ao terror de estar fora de seu corpo: o profundo e impotente pesar que se espalhava pelo ar.
As partículas de Sombra sabiam o que estava acontecendo e estavam pesarosas.
E ela própria era parcialmente matéria de Sombra. Parte dela estava sujeita àquela maré que estava se movendo através do cosmos. Como também estavam os mulefas e os seres humanos em todos os mundos e todos os tipos de seres conscientes, onde quer que estivessem.
E, a menos que descobrisse o que estava acontecendo, eles poderiam todos acabar por se ver derivando rumo ao total apagamento, todos eles. De repente, ela desejou ardentemente estar em terra de novo. Guardou a luneta no bolso e começou a longa escalada para descer até o solo.


O Padre Gomez atravessou a janela quando a luz do entardecer se tornava mais oblíqua e mais suave. Viu os grandes grupos de árvores-das-rodas e as estradas serpenteando através da pradaria, exatamente como Mary tinha visto, do mesmo ponto, algum tempo antes. Mas o ar estava limpo, sem névoa, pois havia chovido um pouco antes e ele podia ver mais longe do que ela tinha visto, em particular, ele podia ver o cintilar de um mar distante e algumas formas brancas em movimento que poderiam ser velas. Levantou a mochila mais alto nos ombros e seguiu na direção delas para ver o que poderia descobrir.
Era agradável caminhar na calma do longo entardecer naquela estrada lisa, com o som de alguns animais semelhantes a cigarras cantando na relva alta e com o sol suave em seu rosto. O ar estava fresco e agradavelmente perfumado, completamente limpo dos vapores imundos de nafta, querosene, ou lá o que fosse, que tinham pairado tão pesadamente na atmosfera de um dos mundos por onde ele havia passado: o mundo ao qual seu alvo, a tentadora em pessoa, pertencia.
Ao pôr-do-sol, ele chegou a um pequeno promontório à beira de uma baía de águas rasas, a maré estava alta, porque só havia uma faixa estreita de areia macia e branca acima da linha da água.
E, flutuando nas águas calmas da baía, havia uma dúzia ou mais... o Padre Gomez teve que parar e pensar com cuidado. Uma dúzia ou mais de enormes pássaros brancos como neve, cada um do tamanho de um barco a remo, com longas asas retas que se arrastavam na água deixando uma esteira atrás deles: asas muito longas, com 1,80m ou mais de comprimento. Seriam realmente pássaros? Tinham penas e as cabeças e bicos não eram muito diferentes das de cisnes, mas aquelas asas ficavam situadas uma na frente da outra, certamente...
De repente, eles o avistaram. Cabeças se viraram bruscamente e, instantaneamente, todas aquelas asas se levantaram bem alto, exatamente como as velas de um iate, e todas elas se inclinaram para receber o impulso da brisa, rumando para terra.
O Padre Gomez ficou impressionado com a beleza daquelas asas-velas, com a maneira como se flexionavam e ajustavam tão perfeitamente e com a velocidade dos pássaros. Então ele viu que também estavam remando: tinham pernas debaixo d’água, situadas não na frente e atrás como as asas, mas lado a lado, e, com as asas e as pernas se movendo juntas, tinham uma extraordinária velocidade e graça de movimento na água.
Quando o primeiro chegou à costa, veio andando pesadamente pela areia seca, diretamente para o padre. Estava sibilando cheio de maldade, estocando com a cabeça para frente, como um punhal, enquanto vinha bamboleando, subindo pela praia, e o bico abocanhava e estalava. E o bico também tinha dentes, como uma série de ganchos afiados encurvados.
O Padre Gomez estava a cerca de 90 metros da beira da água, num longo promontório coberto de relva, e teve tempo de sobra para botar a mochila no chão, tirar o rifle, carregá-lo e atirar.
A cabeça do pássaro explodiu numa neblina de vermelho e branco e a criatura morta continuou andando desajeitadamente, dando vários passos, antes de tombar sobre o peito. Ainda levou um minuto ou mais para morrer, as pernas chutavam, as asas subiam e desciam e o grande pássaro se debateu, dando volta após volta, num círculo sangrento, chutando para o alto a relva áspera, até que uma longa expiração borbulhante de seus pulmões acabou com um gorgolejante jorro vermelho, e ele tombou imóvel.
Os outros pássaros tinham parado assim que o primeiro caiu e ficaram imóveis, observando-o e observando o homem também. Havia uma inteligência rápida, feroz nos olhos deles. Olhavam do homem para o pássaro morto e daí para o rifle, e do rifle para o rosto dele.
Ele levantou o rifle levando-o ao ombro de novo e os viu reagir, movendo-se para trás desajeitadamente, juntando-se num grupo. Eles tinham compreendido.
Eram seres belos e fortes, grandes e de costas largas, na verdade, eram como barcos vivos. Se sabiam o que era a morte, pensou o Padre Gomez, e se podiam compreender a ligação entre a morte e ele, então havia a base para um acordo útil entre eles. Depois que tivessem realmente aprendido a temê-lo, fariam exatamente o que ele mandasse.

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Boa leitura :)