17 de fevereiro de 2017

26. O abismo

O céu deixou seu negrume e encontrou um mais fresco amanhecer e a alva luz se alegra no céu limpo da noite clara...
Willian Blake

Estava escuro, de um negrume envolvente, fazendo pressão tão forte sobre os olhos de Lyra que ela quase sentia o peso dos milhares de toneladas de rocha acima deles. A única luz de que dispunham vinha da cauda luminosa da libélula de Lady Salmakia, e mesmo essa estava começando a perder a força, pois os pobres insetos não tinham encontrado o que comer no mundo dos mortos e a libélula do cavaleiro havia morrido pouco antes. Assim, enquanto Tialys sentava-se no ombro de Will, Lyra segurava a libélula da pequena dama nas mãos, e Salmakia a acalmava e falava baixinho com a criatura trêmula, alimentando-a primeiro com migalhas de biscoito e depois com seu próprio sangue. Se Lyra a tivesse visto fazer isso, teria oferecido o seu, uma vez que possuía maior quantidade, mas as forças que tinha estavam todas dedicadas a pôr um pé com firmeza diante do outro e evitar as partes mais baixas do rochedo acima.
A harpia Sem-Nome os conduzira pelo interior de um sistema de cavernas que os levaria, dizia ela, ao ponto mais próximo no mundo dos mortos a partir do qual poderiam abrir uma janela para um outro mundo. Atrás deles vinha a coluna interminável de fantasmas. O túnel estava cheio de sussurros, pois os que vinham mais à frente encorajavam os que vinham atrás, enquanto os fortes de coração encorajavam os fracos, e os velhos davam esperança aos jovens.
— Ainda falta muito, Sem-Nome? — perguntou Lyra, baixinho. — Porque esta pobre libélula está morrendo e então sua luz se apagará.
A harpia parou e virou-se para dizer:
— Apenas siga-me. Se não puder enxergar, ouça. Se não puder ouvir, sinta.
Os olhos dela brilhavam ferozmente na escuridão. Lyra assentiu e disse:
— Está bem, mas não estou tão forte como costumava ser e não sou corajosa, pelo menos, não muito. Por favor, não pare. Eu vou seguir você, todos nós vamos. Por favor, continue, Sem-Nome.
A harpia virou-se de volta para frente e seguiu adiante, a luminescência da libélula estava ficando mais fraca a cada minuto e Lyra sabia que logo desapareceria completamente.
Mas enquanto cambaleava para seguir adiante, uma voz falou bem a seu lado — uma voz muito familiar.
— Lyra... Lyra, minha menina...
E ela se virou radiante.
— Sr. Scoresby! Ah, mas estou tão contente de ouvir sua voz! E é mesmo o senhor, pelo que estou vendo... Ah, mas eu queria tanto poder tocar no senhor!
A luz fraca, ela conseguiu distinguir o vulto esguio e o sorriso irônico do aeróstata texano e sua mão se estendeu para frente por vontade própria, em vão.
— Eu também, minha querida. Mas preciso que me ouça, eles estão armando alguma confusão lá fora e você é o alvo, não me pergunte como. Este é o menino com a faca?
Will estivera olhando para ele, ansioso para ver aquele velho companheiro de Lyra, mas, naquele instante, seus olhos passaram direto por Lee para olhar para o fantasma ao lado dele. Lyra viu imediatamente quem era e ficou maravilhada com aquela visão adulta de Will — o mesmo queixo pontudo, o mesmo jeito de levantar a cabeça.
Will ficou mudo, mas seu pai disse:
— Escute, não temos tempo para falar a respeito disso, apenas faça exatamente o que eu disser. Pegue a faca agora e encontre o lugar onde cortaram um cacho de cabelos de Lyra.
O tom de sua voz estava angustiado, aflito, e Will não perdeu tempo perguntando por quê. Lyra, os olhos arregalados de pavor, levantou a libélula com uma das mãos e apalpou os cabelos com a outra.
— Não — disse Will — afaste sua mão, assim não consigo ver.
E sob a luz fraca ele conseguiu ver o ponto: pouco acima da têmpora, havia uma pequena mecha de cabelos que estava mais curta do que o resto.
— Quem fez isso? — perguntou Lyra. — E...
— Psiu, calada — disse Will, e perguntou ao fantasma do pai: — O que devo fazer?
— Corte o cabelo dela todo, bem rente, raspando o couro cabeludo. Junte os fios de cabelo com muito cuidado, todos os fios. Não perca nenhum. Então abra outro mundo, qualquer um serve, e ponha o cabelo no outro mundo e feche a abertura. Faça isso agora, imediatamente.
A harpia estava observando, os fantasmas atrás deles estavam se aglomerando sem parar, chegando cada vez mais perto. Lyra podia ver as faces pálidas na semiobscuridade. Assustada e confusa, ela ficou parada, mordendo o lábio, enquanto Will fazia o que seu pai tinha mandado, seu rosto bem perto da ponta da faca, sob a luz fraca da libélula. Ele cortou um pequeno espaço vazio na pedra de um outro mundo, colocou ali todos os pequenos fios de cabelos dourados e recolocou a pedra antes de fechar a janela. E então o solo começou a tremer. De algum lugar muito profundo veio o som de um rugido, rangente, como se o centro da Terra inteiro estivesse girando sobre si mesmo, como uma vasta roda de azenha, e pequenos fragmentos de rocha começaram a cair do teto do túnel.
O solo balançou bruscamente para um lado. Will agarrou o braço de Lyra e eles se seguraram um no outro enquanto a rocha sob seus pés começava a se mover e deslizar, e pedaços soltos de pedra passaram por eles despencando e arranhando suas pernas e pés.
As duas crianças, protegendo os galivespianos, se agacharam, cobrindo a cabeça com os braços, e então, num horrível movimento deslizante, viram-se sendo carregados para baixo e para a esquerda, e se agarraram um no outro ferozmente, demasiado assustados, sem fôlego e abalados até para gritar. Seus ouvidos estavam cheios do som do rugido de milhares de toneladas de rocha despencando e rolando para baixo junto com eles.
Finalmente o movimento parou, embora por toda parte ao redor deles pedras menores ainda estivessem despencando e rolando por uma encosta que um minuto antes não estivera ali. Lyra estava caída sobre o braço esquerdo de Will. Com a mão direita ele procurou a faca: ainda estava em seu cinto.
— Tialys? Salmakia? — chamou Will com a voz trêmula.
— Estamos aqui, estamos vivos, os dois — respondeu a voz do cavaleiro ao lado da orelha dele.
A atmosfera estava carregada de poeira e do cheiro de cordite de rocha despedaçada. Era difícil respirar e impossível enxergar: a libélula estava morta.
— Sr. Scoresby? — chamou Lyra. — Não conseguimos ver nada... O que aconteceu?
— Estou aqui — respondeu Lee, bem perto. — Acho que a bomba explodiu e acho que errou o alvo.
— Bomba? — exclamou Lyra assustada, mas em seguida chamou — Roger, você está aí?
— Estou — veio o pequeno sussurro. — O Sr. Parry, ele me salvou. Eu ia cair e ele me segurou.
— Olhem — disse o fantasma de John Parry. — Mas segurem-se bem na rocha e não se movam.
A poeira estava baixando e de algum lugar vinha luz: uma luz trêmula, tênue, estranha e dourada, como uma chuva luminosa de névoa caindo por toda parte ao redor deles. Foi o bastante para incendiar o coração deles de medo, pois iluminava o que estava à esquerda deles, o lugar para onde ela caía — ou fluía, como um rio sobre a borda de uma cachoeira. Era um vasto vazio negro, como uma fenda que descia para a escuridão mais profunda. A luz dourada fluía para dentro dele e se apagava. Eles podiam ver o outro lado, mas ficava muito mais distante do que um ponto onde Will poderia ter atirado uma pedra. À direita, uma encosta de pedras de arestas irregulares, frouxa e precariamente equilibrada, se erguia alta nas sombras carregadas de poeira.
As crianças e seus companheiros estavam se agarrando ao que não era sequer uma protuberância na rocha — apenas uns afortunados pontos de apoio para as mãos e os pés — na beira daquele abismo e não havia outra saída, exceto seguir adiante, pela encosta, em meio às rochas despedaçadas e os rochedos precariamente equilibrados que, ao que parecia, o menor toque faria despencar direto para o abismo.
E atrás deles, à medida que a poeira assentou, mais e mais fantasmas olhavam com horror para o abismo. Estavam agachados na encosta, demasiado assustados até para se mexer. Só as harpias não demonstravam medo, tinham aberto as asas e voado alto, vasculhando a distância mais à frente e mais para trás, voando de volta para tranquilizar os que ainda estavam dentro do túnel, voando para mais adiante para procurar uma saída. Lyra verificou: pelo menos o aletiômetro estava em segurança. Controlando o medo, olhou ao redor, encontrou o rostinho de Roger e disse:
— Então vamos lá, todos nós ainda estamos aqui e ninguém se machucou. E agora, pelo menos, podemos enxergar. De modo que vamos tratar de ir andando, vamos tratar de ir andando. Não podemos seguir adiante por nenhum outro caminho, a não ser contornando toda a borda desse... — Ela apontou para o abismo. — Portanto, temos apenas que tratar de seguir em frente. Eu juro que Will e eu continuaremos indo até conseguirmos chegar ao outro lado. De modo que não tenham medo, não desistam, não fiquem para trás. Digam aos outros. Não posso olhar para trás o tempo todo porque tenho que olhar com cuidado para onde estou indo, de modo que tenho que confiar em vocês e ter certeza de que nos seguirão e estarão bem atrás de nós, está bem?
O pequenino fantasma assentiu. E assim, num silêncio pasmo, a coluna de mortos começou sua jornada acompanhando a borda do abismo. Quanto tempo levou, nem Lyra nem Will podiam calcular, como foi assustador e perigoso jamais poderiam se esquecer. A escuridão abaixo era tão profunda que parecia puxar o olhar para dentro dela e uma horrenda tonteira apoderou-se da mente deles.
Sempre que podiam, olhavam fixamente para frente, para aquela pedra, aquele ponto de apoio, aquela protuberância, aquele monte de cascalho solto e mantinham os olhos afastados da garganta, mas ela sugava, seduzia e eles não podiam deixar de olhar rapidamente para ela, e então sentiam o equilíbrio oscilar, o olhar perder a clareza e uma náusea terrível apertar-lhes a garganta.
De vez em quando, os vivos olhavam para trás e viam a fila infinita de mortos saindo serpenteando da fenda por onde tinham passado: mães apertando o rosto de seus bebês contra o peito, pais mais idosos andando pesada e lentamente, crianças pequenas agarradas às saias da pessoa na frente, meninos e meninas da idade de Roger mantendo-se firmes e cuidadosos, eram tantos deles... E todos seguindo Will e Lyra, como ainda esperavam, em direção ao ar livre.
Mas alguns não confiavam neles. Aglomeravam-se bem perto logo atrás deles e as duas crianças sentiram suas mãos frias em seus corações e dentro de suas entranhas, e ouviram seus sussurros malvados:
— Onde fica o mundo superior? Quanto ainda falta?
— Estamos com medo aqui!
— Não deveríamos ter vindo, pelo menos lá no mundo dos mortos tínhamos um pouco de luz e alguma companhia, isto aqui é muito pior!
— Vocês fizeram uma coisa errada ao vir para nosso mundo! Deveriam ter ficado em seu próprio mundo e esperado para morrer antes de descerem para vir nos perturbar!
— Com que direito estão nos conduzindo? Vocês são apenas crianças! Quem lhes deu autoridade para isso?
Will queria se virar e censurá-los abertamente, mas Lyra o segurou pelo braço,” eles estavam infelizes e assustados”, argumentou ela. Então Lady Salmakia falou, e sua voz clara e calma foi muito longe no grande vazio.
— Amigos, sejam corajosos! Fiquem juntos e continuem avançando! O caminho é difícil, mas Lyra o encontrará. Sejam pacientes e tenham ânimo, nós os conduziremos para fora daqui, não tenham medo!
Lyra se sentiu fortalecida ao ouvir aquelas palavras e essa era a verdadeira intenção da pequenina dama. E assim prosseguiram na árdua caminhada, esforçando-se dura e penosamente.
— Will — chamou Lyra, depois de alguns minutos — está ouvindo esse vento?
— Estou — respondeu Will. — Mas não estou sentindo vento nenhum. E vou lhe dizer uma coisa sobre esse buraco lá embaixo. É o mesmo tipo de coisa que vejo quando corto uma janela. O mesmo tipo de borda. Tem alguma coisa especial nesse tipo de borda, depois que você toca nela nunca mais esquece. E posso vê-la ali embaixo, bem no lugar onde a rocha despenca e some na escuridão. Mas aquele espaço grande ali, aquilo não é um outro mundo como todos os outros. É diferente. Não gosto dele. Gostaria de poder fechá-lo.
— Você não fechou todas as janelas que abriu.
— Não, não fechei algumas delas, porque não pude. Mas sei que deveria ter fechado. As coisas dão errado se elas são deixadas abertas. E uma grande como essa... — Ele fez um gesto para baixo, não querendo olhar. — Está errado. Alguma coisa ruim vai acontecer.
Enquanto os dois conversavam, uma outra conversa estivera se desenrolando a pouca distância de onde estavam: o Cavaleiro Tialys estava falando em voz baixa com os fantasmas de Lee Scoresby e John Parry.
— Então o que está dizendo, John? — perguntou Lee. — Está dizendo que não devemos sair para o ar livre? Amigo, cada uma das partículas em mim está louca para se unir de novo ao resto do universo dos vivos!
— Sim, e eu também — respondeu o pai de Will. — Mas creio que se aqueles de nós que estão habituados a combater pudessem resistir e ficar, poderíamos conseguir entrar na batalha combatendo ao lado de Lorde Asriel. E se fizéssemos isso no momento certo, faria a maior diferença.
— Fantasmas? — questionou Tialys, tentando esconder o ceticismo em sua voz, mas sem conseguir. — Como poderiam lutar?
— Não poderíamos ferir seres vivos, isso é absolutamente verdade. Mas o exército de Lorde Asriel vai combater outros tipos de seres também.
— Aqueles Espectros — observou Lee.
— Era exatamente nisso que eu estava pensando. Eles atacam os dimons, não é? E nossos dimons já se foram há muito tempo. Vale a pena tentar, Lee.
— Bem, estarei com você, meu amigo.
— E o senhor, cavaleiro — disse o fantasma de John Parry para Tialys: — Estive falando com os fantasmas de seu povo. Vai viver tempo suficiente para ver novamente o mundo, antes de morrer e voltar como fantasma?
— Isso é verdade, nossa vida é curta, se comparada com a de vocês. Tenho mais alguns dias de vida pela frente — respondeu Tialys — e Lady Salmakia um pouco mais de tempo, talvez. Mas, graças ao que essas crianças estão fazendo, nosso exílio como fantasmas não será permanente. Tenho me orgulhado muito por ajudá-los.
Eles seguiram adiante. E aquela queda abominável bocejava o tempo todo e um pequeno escorregão, um passo sobre uma pedra solta, um descuido ao segurar o ponto de apoio, lançaria você lá para baixo, para todo o sempre, pensou Lyra, tão longe que você morreria de fome antes de jamais chegar ao fundo e então seu pobre fantasma continuaria caindo e caindo dentro de uma garganta infinita, sem ninguém para ajudar, sem mãos que pudessem se estender para tirá-lo de lá, consciente para sempre e caindo para sempre... Ah, aquilo seria muito pior que o mundo cinzento silencioso que estavam deixando para trás, não seria?
Então uma coisa estranha aconteceu com sua mente. O pensamento sobre a queda induziu uma espécie de vertigem em Lyra e ela balançou. Will estava logo na frente dela, mas só que um pouco afastado demais para que ela pudesse estender a mão e tocá-lo, senão poderia ter segurado a mão dele, mas naquele momento ela estava mais consciente de Roger e uma pequena centelha de vaidade se acendeu por um instante em seu coração. Certa vez, no telhado da Faculdade Jordan, tinha havido uma ocasião em que só para assustá-lo ela tinha desafiado sua vertigem e caminhado sobre a beirada da calha de pedra.
Ela olhou para trás para recordá-lo daquilo naquele instante. Era a Lyra de Roger, cheia de graça e de ousadia, não precisava ir se arrastando como um inseto. Mas a voz sussurrante do garotinho disse:
— Lyra, tenha cuidado... lembre-se, você não está morta como a gente...
E pareceu acontecer tão lentamente, mas não houve nada que ela pudesse fazer: seu peso se deslocou, as pedras se moveram debaixo de seus pés e, sem conseguir se proteger, ela começou a escorregar. No primeiro momento foi irritante e, logo depois, foi cômico: ela pensou, mas que besteira!
Mas à medida que ela de fato não conseguiu se segurar em coisa alguma, enquanto as pedras rolavam e despencavam abaixo dela, à medida que foi deslizando para baixo em direção à borda, ganhando velocidade, o horror da situação apoderou-se dela com violência. Ela ia cair. Não havia nada para impedi-la. Já era tarde demais.
Seu corpo foi sacudido por uma convulsão de terror. Ela nem se deu conta dos fantasmas que se atiraram no chão abaixo dela para tentar segurá-la, apenas para vê-la passar rapidamente através deles como uma pedra na neblina. Ela não sabia que Will estava gritando seu nome tão alto que o abismo ressoava, fazendo eco. Em vez disso, todo o seu ser era um vórtice que rugia de medo. Depressa, cada vez mais depressa, ela foi escorregando e rolando, caindo, caindo, e alguns fantasmas não puderam suportar ver aquilo: cobriram os olhos e gritaram alto.
Will estava eletrizado pelo medo. Ficou observando, tomado pela angústia, enquanto Lyra descia, escorregando, escorregando cada vez mais, sabendo que não podia fazer nada e sabendo que tinha que olhar. Tão incapaz de ouvir o gemido desesperado que saía de seus próprios lábios quanto ela. Mais dois segundos — mais um segundo — e ela estaria na borda, não conseguiria parar, estaria lá, estava caindo...
E, saindo da escuridão, num movimento rápido e circular para baixo, surgiu aquela criatura cujas garras, não fazia muito tempo, tinham aberto lanhos em seu couro cabeludo, a harpia Sem-Nome, com rosto de mulher, asas de pássaro, e aquelas mesmas garras se fecharam cerradas em torno do pulso da menina.
Juntas elas continuaram o mergulho para baixo, o peso adicional quase demais para as asas fortes da harpia, mas elas bateram, e bateram, e bateram, e as garras seguraram firme e, devagar, pesadamente, devagar, pesadamente, a harpia veio carregando a criança para cima e para cima, tirando-a do abismo e a levou frouxa e desmaiada para os braços estendidos de Will.
Ele a abraçou com força, apertando-a contra o peito, sentindo o bater descontrolado do coração de Lyra contra suas costelas. Naquele instante, ela não era Lyra e ele não era Will, ela não era uma menina e ele não era um menino. Eles eram os dois únicos seres humanos na vasta garganta da morte. Ficaram abraçados, agarrados um no outro, e os fantasmas se agruparam ao redor, sussurrando palavras de consolo, abençoando a harpia. Os dois mais próximos eram o pai de Will e Lee Scoresby, e como desejaram poder abraçá-la também, e Tialys e Salmakia falaram com Sem-Nome, elogiando-a, chamando-a de a salvadora de todos, de a grande generosa, abençoando sua gentileza.
Tão logo Lyra conseguiu se mexer, ainda trêmula, estendeu os braços para a harpia e abraçou seu pescoço, beijando e beijando o rosto devastado. Ela não conseguia falar. Todas as palavras, toda a confiança, toda a vaidade tinham-lhe sido arrancadas.
Ficaram parados ali por alguns minutos. Depois que o terror começou a diminuir, puseram-se em marcha novamente, Will segurando firme a mão de Lyra em sua mão boa, e seguiram cautelosamente, verificando a firmeza do solo a cada passo, antes de porem qualquer peso nele, um processo tão lento e cansativo que pensaram que iriam morrer de fadiga, mas não podiam descansar, não podiam parar. Como poderia alguém descansar com aquela pavorosa garganta ali, logo abaixo?
E depois de mais uma hora de árdua caminhada, ele disse a ela:
— Olhe ali adiante. Acho que há uma saída...
Era verdade: a encosta estava se tornando menos íngreme e era possível até subir um pouco, subir e se afastar da beira. E adiante: aquilo não era uma concavidade na parede do penhasco? Poderia realmente ser uma saída?
Lyra olhou bem nos olhos fortes e brilhantes de Will e sorriu. Continuaram a escalada difícil, usando os pés e as mãos, indo para cima, mais para cima, a cada passo se afastando mais do abismo. E à medida que iam subindo, descobriram que o solo ia ficando mais firme, os apoios para as mãos mais seguros, os pontos de apoio para os pés com menos probabilidade de rolar e torcer seus tornozelos.
— Já devemos ter escalado um bom pedaço agora — disse Will. — Eu poderia fazer uma tentativa com a faca e ver o que encontro.
— Ainda não — disse a harpia. — Ainda falta um pedaço do caminho. Este é um lugar ruim para abrir. Tem um lugar melhor mais acima.
Eles prosseguiram em silêncio, mão, pé, peso para testar, impulso, mão, pé... Estavam com os dedos esfolados, os joelhos e quadris tremendo por causa do esforço, a cabeça doía e zumbia de exaustão. Escalaram os últimos metros até a base do penhasco, onde uma passagem estreita seguia um pouco mais adiante para a sombra.
Lyra observou com os olhos doloridos enquanto Will tirava a faca e começava a procurar no ar vazio, tateando, puxando de volta, procurando, tateando de novo.
— Ah — disse ele.
— Você achou uma fenda?
— Acho que sim...
— Will — chamou o fantasma do pai dele — pare um instante. Ouça o que vou dizer.
Will baixou a faca e se virou. Com todo aquele esforço, não tinha podido nem pensar em seu pai, mas era bom saber que ele estava ali. De repente ele se deu conta de que iam se separar pela última vez.
— O que vai acontecer quando o senhor sair? — perguntou Will. — Vai simplesmente desaparecer?
— Ainda não. O Sr. Scoresby e eu temos uma ideia. Alguns de nós vão permanecer aqui por mais um tempo e precisaremos que nos deixe entrar no mundo de Lorde Asriel, porque ele poderia precisar de nossa ajuda. Além disso — prosseguiu em tom sombrio, olhando para Lyra — terão que seguir para lá também, se quiserem tornar a encontrar seus dimons. Porque foi para lá que eles foram.
— Mas, Sr. Parry — disse Lyra — como sabe que nossos dimons foram para o mundo de meu pai?
— Eu era um xamã quando estava vivo. Aprendi a ver coisas. Pergunte a seu aletiômetro, ele vai confirmar o que digo. Mas lembre-se disso a respeito de dimons — disse ele, e sua voz tinha um tom intenso e enfático. — O homem que conheceu como Sr. Charles Latrom tinha que voltar periodicamente a seu próprio mundo, ele não podia viver permanentemente no meu. Os filósofos da Guilda da Torre degli Angeli, que viajaram entre os mundos durante 300 anos ou mais, descobriram que a mesma coisa era verdade e, gradualmente, em resultado disso, o mundo deles foi se enfraquecendo e se degradando. Depois houve o que aconteceu comigo. Eu era um soldado, era um oficial do Corpo de Fuzileiros da Marinha Real e deixei a carreira militar para ganhar a vida tornando-me um explorador e guiando expedições, estava em excelente forma física e era tão saudável quanto é possível que um ser humano seja. Então saí de meu mundo totalmente por acaso e não consegui mais encontrar o caminho de volta. Eu fiz muitas coisas e aprendi realmente muito no mundo onde me encontrava, mas dez anos depois de ter chegado lá, estava mortalmente doente. E este é o motivo de todas essas coisas: seu dimon só poderá viver plenamente sua vida no mundo em que nasceu. Em outro mundo ele acabará adoecendo e morrendo. Nós podemos viajar, se houver aberturas, para outros mundos, mas só podemos viver em nosso próprio mundo. O grande empreendimento de Lorde Asriel fracassará no final pelo mesmo motivo: temos que construir a república do céu no lugar onde estamos porque para nós não há outro lugar. Will, meu filho, você e Lyra podem sair agora, para descansar um pouco, estão precisando e merecem isso, mas depois devem voltar aqui para a escuridão comigo e com o Sr. Scoresby para uma última jornada.
Will e Lyra trocaram um olhar. Então ele cortou uma janela e foi a coisa mais bonita que eles jamais tinham visto.
O ar noturno encheu seus pulmões, fresco, limpo e leve, os olhos deles se banquetearam com o dossel de estrelas brilhantes e com o brilho da água em algum lugar mais abaixo, e havia bosques de árvores imensas, altas como castelos, salpicando a vastidão da savana.
Will aumentou a janela alargando-a tanto quanto pôde, andando na relva para a esquerda e para a direita, tornando-a grande o bastante para que seis, sete, oito pudessem passar através dela andando lado a lado, saindo da terra dos mortos.
Os primeiros fantasmas tremeram de esperança e o entusiasmo foi se propagando, como uma ondulação sobre a água, percorrendo a longa fileira atrás deles, tanto crianças pequenas como pais idosos olhando para o alto e para frente radiantes e maravilhados, enquanto as primeiras estrelas que viam em séculos brilhavam com esplendor, através da janela, para seus pobres olhos famintos.
O primeiro fantasma a deixar o mundo dos mortos foi Roger. Ele deu um passo à frente, virou-se para trás para olhar para Lyra, então deu uma risada de surpresa quando se viu virando-se de volta para a noite, para a luz das estrelas, para o ar...
e então desapareceu, deixando atrás de si uma pequenina explosão de felicidade tão vivida que Will se lembrou das borbulhas numa taça de champanhe.
Os outros fantasmas o seguiram, e Will e Lyra caíram exaustos na relva carregada de orvalho, cada nervo em seus corpos abençoando o cheiro agradável e aromático da terra fértil, o ar noturno, as estrelas.

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