17 de fevereiro de 2017

25. Saint-Jean-les-Eaux

Um bracelete de cabelos luminosos ao redor do osso.
John Donne

As cataratas de Saint-Jean-les-Eaux despencavam entre os picos de rocha na extremidade leste de um contraforte dos Alpes e a usina geradora ficava abraçada à encosta da montanha bem acima. Era uma região selvagem, uma região desolada, hostil e maltratada, e ninguém teria construído coisa nenhuma ali, não fosse pela promessa de alimentar os imensos geradores anbáricos com a energia das milhares de toneladas de água que rugiam descendo pelo despenhadeiro.
Era a noite seguinte à prisão da Sra. Coulter e o tempo estava tempestuoso. Junto ao paredão vertical de pedra da usina geradora, um zepelim reduziu a velocidade até ficar semiestacionário sob as rajadas violentas de vento. Os holofotes de busca abaixo do aeróstato faziam com que parecesse estar de pé sobre várias pernas de luz e gradualmente se abaixando, para se deitar.
Mas o piloto não estava nada satisfeito, o vento era varrido em contracorrentes e rajadas cruzadas pelas arestas da montanha. Além disso, os cabos, as torres, os transformadores estavam todos próximos demais: ser lançado para o meio deles, com um zepelim cheio de gás inflamável, seria instantaneamente fatal. O granizo martelava obliquamente a grande carcaça rígida do dirigível, fazendo um barulho que quase abafava o estrépito e o rugido do esforço dos motores, e obscurecia a visão do solo.
— Aqui não — gritou o piloto, acima do ruído. — Teremos que contornar o contraforte.
O Padre MacPhail observou furioso enquanto o piloto empurrava o acelerador para frente e corrigia o ângulo de voo dos motores. O zepelim subiu com um solavanco e passou sobre a borda da montanha. Aquelas pernas de luz se encompridaram de repente, e pareceram tentar tatear o caminho descendo pelo cume, as extremidades inferiores perdidas no redemoinho de granizo e chuva.
— Não pode chegar mais perto da usina que isso? — perguntou o Presidente, inclinando-se para frente para que sua voz chegasse até o piloto.
— Não se o senhor quiser aterrissar — respondeu o piloto.
— Sim, queremos aterrissar. Então está bem, vamos pousar abaixo do cume.
O piloto deu ordens à tripulação para se preparar para atracar. Como o equipamento que eles iam descarregar era não só pesado como delicado, era importante que o aeróstato estivesse com as amarras bem firmes. O Presidente tornou a se recostar, tamborilando os dedos no braço do assento, mordendo o lábio, mas sem dizer nada e deixando que o piloto trabalhasse sem ser incomodado.
De seu esconderijo nas anteparas transversais no fundo da cabine, Lorde Roke observava tudo. Várias vezes durante o voo, seu vulto pequenino indistinto passou por trás da malha de metal, claramente visível para qualquer um, se tivessem virado a cabeça, mas de maneira a ouvir o que estava acontecendo, ele tinha que ir e se posicionar em um lugar onde poderia ser visto. O risco era inevitável.
Ele chegou mais perto, ouvindo com dificuldade através do rugido dos motores, do ribombar do granizo misturado com a chuva, do uivar estridente do vento nos cabos e do bater de pés calçando botas nos passadiços de metal. O engenheiro de voo gritou algumas coordenadas para o piloto, que as confirmou, e Lorde Roke voltou a se esconder nas sombras, segurando-se firme nas escoras e barras de metal enquanto o zepelim mergulhava e se inclinava sacudido pela turbulência.
Finalmente, percebendo pelo movimento que o dirigível estava quase ancorado, foi caminhando de volta pelo revestimento da cabine até o local onde ficavam os assentos, a estibordo.
Ali havia homens passando em ambas as direções: tripulantes, técnicos, padres. Muitos de seu dimons também eram cachorros, cheios de curiosidade. Do outro lado do corredor, a Sra. Coulter estava sentada, desperta e em silêncio, seu dimon dourado observando tudo de seu colo e destilando maldade.
Lorde Roke esperou uma oportunidade e então saltou atravessando o corredor como um dardo para o assento da Sra. Coulter e um instante depois estava lá em cima escondido pela sombra de seu ombro.
— O que eles estão fazendo? — murmurou ela.
— Aterrissando. Estamos perto da usina geradora.
— Você vai ficar comigo ou trabalhar sozinho? — sussurrou.
— Vou ficar com você. Terei que me esconder debaixo de seu casaco.
Ela estava usando um sobretudo pesado de pele de carneiro, desconfortavelmente quente na cabine aquecida, mas com as mãos algemadas, não podia tirá-lo.
— Vamos, venha agora — disse ela, olhando ao redor, e ele saltou para dentro do casaco na altura do peito, encontrando um bolso forrado de pele onde podia ficar sentado em segurança. O macaco dourado solicitamente ajeitou o laço de seda da gola da Sra. Coulter, cobrindo-o com o casaco, aos olhos de todo mundo parecendo um exigente costureiro preparando sua modelo favorita, enquanto se assegurava de que Lorde Roke estivesse completamente escondido pelas dobras do sobretudo.
Fez isso bem a tempo. Nem um minuto depois, um soldado armado com um rifle veio ordenar à Sra. Coulter que desembarcasse do dirigível.
— Tenho que ficar com estas algemas? — perguntou ela.
— Não me disseram que as retirasse — respondeu. — Levante-se, por favor.
— Mas é tão difícil me movimentar se não posso me segurar nas coisas para me apoiar. Estou dolorida e com os músculos enrijecidos, passei a maior parte do dia de hoje sentada aqui, sem me mexer, e o senhor sabe que não tenho nenhuma arma, pois já me revistou. Vá perguntar ao Presidente se realmente é necessário me manter algemada. Acha que vou tentar fugir para o meio do mato?
Lorde Roke era imune ao charme da Sra. Coulter, mas interessava-se por ver seu efeito sobre os outros. O guarda era jovem: eles deveriam ter mandado um velho guerreiro experiente.
— Bem — disse o guarda — tenho certeza que não vai, madame, mas não posso fazer o que não me deram ordens para fazer. A senhora compreende, tenho certeza. Por favor, levante-se, madame, se tropeçar, eu segurarei seu braço.
A Sra. Coulter se levantou e Lorde Roke a sentiu se mover desajeitadamente para frente. Ela era o ser humano mais gracioso que o galivespiano já vira na vida: aquela falta de jeito era fingida. Quando iam chegando à escada no alto do costado, Lorde Roke a sentiu tropeçar e gritar assustada, e sentiu o tranco quando o braço do guarda a segurou. Ele ouviu também a mudança nos sons ao redor deles, o uivar do vento, a rotação dos motores girando em ritmo constante para gerar energia para as luzes, vozes vindas de algum lugar próximo, dando ordens. Eles desceram a escada do costado, a Sra. Coulter se apoiando pesadamente no guarda. Ela estava falando baixinho, e Lorde Roke só conseguiu ouvir a resposta dele.
— O sargento, madame, ali adiante, ao lado do caixote grande, é ele quem está com as chaves. Mas não tenho coragem de pedir, madame, sinto muito.
— Ah, então está bem — disse ela com um suspiro sedutor de desapontamento. — De qualquer maneira, muito obrigada.
Lorde Roke ouviu o som de pés calçados com botas se afastando, caminhando sobre a rocha, e ela sussurrou:
— Você ouviu o que ele disse das chaves?
— Diga-me onde o sargento está. Preciso saber onde e a que distância.
— A cerca de dez de meus passos de distância. À direita. Um homem grande. Posso ver as chaves num molho, no cinto dele.
— Não adianta se eu não souber qual é a chave. Você os viu fechar as algemas?
— Vi. É uma chave curta e grossa, com uma fita adesiva preta em volta, na parte de cima.
Lorde Roke desceu devagar, agarrando primeiro com uma mão depois com a outra, em meio à lã grossa do sobretudo, até alcançar a bainha, na altura dos joelhos dela. Ali ele se segurou bem e olhou em torno. Eles tinham montado uma base e fixado um holofote, que lançava um clarão sobre os rochedos molhados.
Mas quando olhou para baixo, para localizar os pontos de sombra, viu o clarão começar a se balançar para o lado sob uma forte rajada de vento. Ouviu um grito e a luz se apagou de repente. Pulou para o chão imediatamente e com o impulso saltou para frente sob o granizo intenso que caía, em direção ao sargento, que tinha se aproximado num movimento brusco, para tentar segurar o holofote que caía. Nessa confusão, Lorde Roke saltou sobre a perna do homenzarrão, quando passou girando diante dele, agarrou-se ao algodão do tecido de camuflagem das calças — já pesado e encharcado pela chuva — e enterrou uma ponta de espora na carne logo acima da bota.
O sargento deu um berro enrouquecido e caiu desajeitadamente, agarrando a perna, tentando respirar, tentando gritar pedindo ajuda. Lorde Roke se soltou e saltou para longe do corpo que caía.
Ninguém havia percebido: o ruído do vento, dos motores e o martelar incessante do granizo e da chuva encobriram totalmente o grito do homem, e na escuridão seu corpo não podia ser visto. Mas havia outros homens por perto e Lorde Roke teve que trabalhar rapidamente. Ele saltou para junto do quadril do homem caído, onde o molho de chaves estava numa poça de água gelada, e foi afastando as enormes setas de aço, com uma espessura igual a uma vez e meia o seu braço e com a metade de sua altura de comprimento, até encontrar a chave que tinha a fita preta. E então teve que lutar com o fecho do chaveiro, o tempo todo correndo o risco perpétuo do granizo, que para um galivespiano era mortal: blocos de gelo tão grandes quanto seus dois punhos juntos. E então uma voz acima dele disse:
— O senhor está bem, Sargento?
O dimon do soldado estava rosnando e esfregando o focinho no do sargento, que havia caído em estado semiletárgico. Lorde Roke não podia esperar: um salto e um chute e o outro homem caiu ao lado do sargento. Puxando o peso com enorme esforço, lutando e arquejando, Lorde Roke finalmente conseguiu abrir o chaveiro e então teve que levantar seis outras chaves, tirando-as do caminho antes que a chave com a fita adesiva preta estivesse livre. Agora, a qualquer segundo, eles conseguiriam acender de novo o holofote, mas, mesmo na semiobscuridade, dificilmente deixariam de ver dois homens caídos inconscientes...
E, enquanto ele arrastava a chave para fora do chaveiro, elevou-se um grito. Ele puxou o peso da seta maciça com toda a força que tinha, empurrando, dando puxões, levantando, movendo-se apoiado nas mãos e nos joelhos, arrastando, e escondeu-se ao lado de um pequeno pedregulho, justo no momento em que chegavam pés correndo e vozes gritavam pedindo luz.
— Foram baleados?
— Não ouvi nada...
— Estão respirando?
Então o holofote, novamente montado e firme sobre a base, tornou a se acender.
Lorde Roke foi apanhado sem nenhuma cobertura, tão visível quanto uma raposa diante dos faróis de um carro. Ele se manteve absolutamente imóvel, os olhos se movendo para a esquerda e para a direita, e depois que se assegurou que a atenção de todo mundo estava concentrada nos dois homens que haviam sido derrubados tão misteriosamente, com grande esforço puxou a chave para cima do ombro e correu, contornando poças e pedregulhos até alcançar a Sra. Coulter.
Um segundo depois, ela havia destrancado as algemas e as largado silenciosamente no chão. Lorde Roke saltou para a bainha de seu casaco e subiu correndo até o ombro dela.
— Onde está a bomba? — perguntou ele, junto à sua orelha.
— Eles apenas acabaram de começar a descarregá-la. É aquele caixote grande ali adiante, no chão. Não posso fazer nada enquanto não a tirarem do caixote e mesmo depois disso...
— Está bem — disse ele — fuja. Esconda-se. Eu fico aqui vigiando. Corra!
Ele desceu com um pulo para a manga do casaco e saltou para longe. Sem fazer nenhum ruído, ela foi se afastando da luz, lentamente, de início, de maneira a não chamar a atenção do guarda, e depois se agachou e correu para a escuridão fustigada pela chuva mais acima na encosta, o macaco dourado correndo à sua frente para escolher o caminho.
Às suas costas ouviu o rugido contínuo dos motores, misturado com gritos, a voz poderosa do Presidente tentando impor alguma ordem na situação. Ela se lembrou da dor prolongada, horrorosa, e das alucinações que havia sofrido depois de levar uma ferroada da espora do Cavaleiro Tialys e não invejou o despertar dos dois homens.
Mas logo estava em terreno mais alto, escalando com dificuldade as rochas molhadas, e tudo o que conseguia ver atrás de si era o clarão oscilante do holofote refletido pela enorme carcaça arredondada do zepelim, e pouco depois o holofote se apagou e tudo o que podia ouvir era o rugido do motor, lutando inutilmente contra a força do vento e o rugido da catarata mais abaixo. Do outro lado da borda do desfiladeiro, os engenheiros da usina hidroanbárica estavam lutando para trazer um cabo de alta tensão até a bomba.
O problema da Sra. Coulter não era como escapar daquela situação com vida: isso era uma questão secundária. O problema era como tirar o cabelo de Lyra de dentro da bomba antes que eles a detonassem. Lorde Roke tinha queimado o cabelo do envelope depois que ela fora presa, deixando que o vento levasse as cinzas para longe no céu noturno, e depois conseguira dar um jeito de entrar no laboratório e observar enquanto eles colocavam o resto do pequenino cacho de cabelos louro-escuros na câmara ressonante aprontando-a. Ele sabia exatamente onde estava e como abrir a câmara, mas a luz intensa e as superfícies reluzentes no laboratório, para não mencionar as constantes idas e vindas dos técnicos, tornaram impossível que pudesse fazer qualquer coisa com relação a isso enquanto estivesse lá.
De modo que teriam que retirar o cacho de cabelo depois que a bomba estivesse montada.
E isso seria ainda mais difícil, por causa do que o Presidente pretendia fazer com a Sra. Coulter. A energia da bomba originava-se de cortar o elo ligando o ser humano a seu dimon e isso significava o abominável processo de seccionamento, as cabines de tela de liga de manganês e titânio, e a guilhotina prateada. Ele iria cortar a ligação de toda uma vida entre ela e o macaco dourado, e usar a energia liberada.
A Sra. Coulter tinha uma terrível familiaridade com uma parte da estrutura: as cabines de tela metálica, a lâmina prateada no alto. Elas estavam numa das extremidades do equipamento. O resto era-lhe desconhecido, não conseguia ver nenhuma lógica do modo de funcionamento ordenando as bobinas, os vasos, as longas fileiras de isoladores, a armação em treliça da tubulação. Apesar disso, em algum lugar em toda aquela complexidade estava o pequeno cacho de cabelos de que tudo dependia.
À sua esquerda, a encosta desaparecia em declive na escuridão e bem longe, lá embaixo, havia uma luz branca, fraca e trêmula, e o estrondo das águas das cataratas de Saint-Jean-les-Eaux.
Houve um grito. Um soldado deixou cair seu rifle e cambaleou para a frente, depois caiu no chão esperneando e se debatendo de dor. Em resposta, o Presidente olhou para o céu, pôs as mãos em concha em volta da boca e soltou um berro penetrante.
O que ele estava fazendo?
Um instante depois a Sra. Coulter descobriu. De todas as coisas improváveis, uma bruxa desceu voando e pousou ao lado do Presidente, enquanto ele gritava para se fazer ouvir por causa do vento.
— Vasculhe os arredores! Há algum tipo de criatura ajudando a mulher. Já atacou vários de meus homens. Você pode ver no escuro. Encontre-a e mate-a.
— Há alguma coisa se aproximando — disse a bruxa, num tom que chegou muito claramente até o abrigo da Sra. Coulter. — Posso ver ao norte.
— Não se preocupe com isso. Encontre a criatura e destrua-a — ordenou o Presidente. — Não pode estar muito longe. E procure a mulher também. Vá!
A bruxa saltou para o ar.
De repente, o macaco dourado agarrou a mão da Sra. Coulter e apontou. Lá estava Lorde Roke, deitado em terreno descoberto, num pequeno retângulo de musgo. Como poderiam não tê-lo visto? Mas alguma coisa havia acontecido, pois ele não estava se mexendo.
— Vá e traga-o aqui — disse ela, e o macaco, agachando-se rente ao chão, correu de uma rocha para outra, dirigindo-se para o pequenino retângulo de musgo. Seu pelo dourado logo foi escurecido pela chuva e ficou encharcado, colado ao corpo, tornando-o menor e mais difícil de ver, mas ao mesmo tempo terrivelmente visível.
Enquanto isso, o Padre MacPhail tinha tornado a se virar para a bomba. Os engenheiros da usina geradora tinham trazido o cabo até junto dela e os técnicos estavam ocupados prendendo as braçadeiras e preparando os terminais.
A Sra. Coulter perguntou a si mesma o que ele pretendia fazer, agora que sua vítima tinha escapado. Então o Presidente virou-se para olhar por sobre o ombro e ela viu a expressão de seu rosto. Era tão dura e intensa que ele parecia mais uma máscara que um homem. Os lábios se moviam dizendo uma prece, seus olhos estavam voltados para o alto, muito abertos enquanto a chuva batia neles, e no todo ele parecia uma ameaçadora pintura espanhola de um santo no êxtase do martírio. A Sra. Coulter sentiu uma terrível pontada de medo, porque sabia exatamente o que ele pretendia: ele ia se sacrificar. A bomba funcionaria quer ela fizesse parte dela ou não.
Movendo-se rapidamente de rocha em rocha, o macaco dourado alcançou Lorde Roke.
— Minha perna esquerda está quebrada — disse o galivespiano calmamente — O último homem pisou em mim. Escute com atenção...
Enquanto o macaco o carregava para longe das luzes, Lorde Roke explicou exatamente onde ficava a câmara ressonante e como abri-la. Eles estavam praticamente debaixo dos olhos dos soldados, mas, passo a passo, de sombra em sombra, o dimon foi se esgueirando com seu pequenino fardo. A Sra. Coulter, seguindo-os com o olhar e mordendo o lábio, ouviu uma lufada de ar e sentiu uma pancada pesada — não em seu corpo, mas na árvore. Uma flecha estava cravada no tronco, tremulando, a menos de um palmo de seu braço esquerdo.
Imediatamente ela rolou para longe, antes que a bruxa pudesse disparar outra, e jogou-se rolando pela encosta em direção ao macaco.
E então tudo começou a acontecer ao mesmo tempo, rápido demais: houve uma rajada de tiros e uma nuvem de fumaça de cheiro acre espalhou-se em rolos pela encosta, embora ela não visse chamas. O macaco dourado, vendo a Sra. Coulter sendo atacada, colocou Lorde Roke no chão e saltou para defendê-la, justo no instante em que a bruxa descia voando, de faca em punho. Lorde Roke arrastou-se para trás, apoiando-se contra o pedregulho mais próximo, e a Sra. Coulter atracou-se em combate corpo a corpo com a bruxa. Elas lutaram furiosamente entre os pedregulhos, enquanto o macaco dourado tratava, rapidamente, de arrancar todas as agulhas do galho de pinheiro nubígeno da bruxa.
Nesse meio tempo, o Presidente estava enfiando seu dimon lagarto fêmea na menor das cabines de tela. Ela se contorceu, gritou, esperneou e mordeu, mas ele a derrubou com um golpe violento da mão e bateu a porta fechando-a rapidamente. Os técnicos estavam fazendo os ajustes finais, checando seus medidores e calibradores.
Vinda de lugar nenhum, uma gaivota desceu voando com um grito selvagem e agarrou o galivespiano com sua garra. Era o dimon da bruxa. Lorde Roke lutou bravamente, mas o pássaro o segurava com muita força e então a bruxa conseguiu se soltar das mãos da Sra. Coulter, agarrou seu galho de pinheiro nubígeno e saltou no ar para ir se juntar a seu dimon. A Sra. Coulter lançou-se na direção da bomba, sentindo a fumaça atacar suas narinas e garganta como se fossem garras: gás lacrimogêneo. Os soldados, a maioria deles, tinham sido derrubados ou saíram cambaleando, sufocados (e de onde tinha vindo o gás, ela se perguntou?), mas agora, à medida que o vento dispersava o gás, estavam começando a se reagrupar de novo. A grande barriga reforçada do zepelim se avolumava sobre a bomba, retesando seus cabos sob a força do vento, os lados da carcaça prateada escorrendo água.
Mas então um som vindo de muito alto fez os ouvidos da Sra. Coulter tinirem: um grito tão alto e horrorizado que até mesmo o macaco dourado agarrou-se nela assustado. E um segundo depois, despencando num redemoinho de membros brancos, seda negra e galhos verdes, a bruxa caiu bem aos pés do Padre MacPhail, seus ossos se esmigalhando audivelmente na pedra.
A Sra. Coulter correu, movendo-se rápida como uma flecha para ver se Lorde Roke havia sobrevivido à queda. Mas o galivespiano estava morto. Sua espora direita profundamente enfiada no pescoço da bruxa.
A bruxa, contudo, ainda estava viva, se bem que moribunda, e sua boca se mexeu estremecendo para dizer:
— Alguma coisa vindo... alguma outra coisa... vindo...
Não fazia nenhum sentido. O Presidente já estava passando por cima do corpo dela para alcançar a cabine de tela maior. Seu dimon estava correndo para cima e para baixo pelas paredes da outra, suas pequenas garras fazendo a tela prateada tinir, sua voz gritando por piedade.
O macaco dourado saltou sobre o Padre MacPhail, mas não para atacá-lo: ele subiu pelas costas do homem e pelo ombro até alcançar o complexo centro de fios e tubulação, a câmara ressonante. O Presidente tentou agarrá-lo, mas a Sra. Coulter pendurou-se no braço do homem e tentou puxá-lo para trás. Ela não conseguia mais enxergar: a chuva entrava em seus olhos e ainda havia gás no ar.
E por toda parte ao redor havia rajadas de balas: o que estava acontecendo?
Os holofotes balançavam de tal modo sob o vento que nada parecia ser firme, nem mesmo as rochas negras das encostas da montanha. O Presidente e a Sra. Coulter lutaram em combate corpo a corpo, enfiando as unhas, socando, rasgando, mordendo, e ela estava cansada e ele era forte, mas ela também estava desesperada e poderia ter conseguido puxá-lo dali, mas parte dela estava observando seu dimon enquanto ele manipulava as manivelas, as patas negras ferozes colocando o mecanismo rapidamente numa posição, depois em outra, puxando, torcendo, enfiando a mão para dentro... Então veio um golpe que a acertou na têmpora. Ela ficou atordoada e o Presidente conseguiu se soltar e se atirou sangrando para dentro da cabine, fechando a porta atrás de si.
E o macaco tinha aberto a câmara — uma porta de vidro com pesadas dobradiças, e estava enfiando a mão lá dentro — lá estava o cacho de cabelos: seguro entre almofadas de borracha num fecho de metal! Ainda mais coisas para desfazer, e a Sra. Coulter estava lutando para se levantar, com as mãos trêmulas. Ela sacudiu a tela prateada com toda a sua força, olhando para cima, para a lâmina, os terminais faiscando, o homem lá dentro. O macaco estava desaparafusando o fecho e o Presidente, seu rosto uma máscara de sinistra exultação, estava juntando e torcendo fios.
Houve um clarão de luz intensa, o som de um estampido escoiceante Práac! — e o corpo do macaco foi lançado para cima, voando alto no ar. Com ele foi uma pequena nuvem dourada: seriam os cabelos de Lyra? Seria seu próprio pelo?
Fosse lá o que fosse, desapareceu voando imediatamente na escuridão. A mão da Sra. Coulter tinha se contraído, apertando com tanta força que ficou agarrada à tela, deixando-a meio caída, meio pendurada, enquanto sua cabeça zumbia e seu coração batia disparado.
Mas alguma coisa havia acontecido com sua visão. Uma clareza terrível tinha se apoderado de seus olhos, a capacidade de ver até os mais ínfimos detalhes que importavam no universo: preso a uma das almofadas do fecho na câmara ressonante havia um único fio de cabelo louro-dourado. Ela deu um grito lancinante de angústia e sacudiu e sacudiu a cabine, tentando soltar o fio de cabelo com a pouca força que lhe restava. O Presidente passou as mãos no rosto, esfregando para afastar a água da chuva. Sua boca se mexeu como se estivesse falando, mas ela não conseguiu ouvir nem uma palavra. Ela tentou arrancar a tela com violência, impotente, e depois arremessou todo o seu peso contra a máquina, no instante em que ele juntava dois fios criando uma fagulha. Em silêncio absoluto, a lâmina prateada brilhante desceu rapidamente.
Alguma coisa explodiu, em algum lugar, mas a Sra. Coulter não tinha mais condições de sentir.
Surgiram mãos que a levantaram: as mãos de Lorde Asriel. Não havia mais nada com que se surpreender, a nave da intenção estava atrás dele, equilibrada na encosta e em posição perfeitamente horizontal. Ele a tomou nos braços e a carregou até a nave, ignorando as rajadas de balas, os rolos de fumaça, os gritos de pavor e incompreensão.
— Ele está morto? A bomba explodiu? — ela conseguiu perguntar.
Lorde Asriel embarcou na nave sentando ao lado dela e a pantera branca também saltou para dentro, trazendo o macaco ainda atordoado na boca. Lorde Asriel assumiu os controles e a nave mais uma vez saltou no ar. Com os olhos atordoados pela dor, a Sra. Coulter olhou para a encosta da montanha abaixo.
Havia homens correndo aqui e ali, como formigas, alguns jaziam mortos, enquanto outros se arrastavam com dificuldade pelas rochas, o enorme cabo da usina geradora que descia serpenteando em meio ao caos era a única coisa com uma meta definida à vista, seguindo em direção à bomba reluzente onde o corpo do Presidente jazia amassado dentro da cabine.
— Lorde Roke? — perguntou Lorde Asriel.
— Morto — murmurou ela.
Ele apertou um botão e um lança-chamas jorrou em direção ao zepelim que sacudia e balançava. Um instante depois o aeróstato inteiro floresceu numa rosa de fogo branco, engolindo a nave da intenção, que se manteve móvel e intacta dentro dela. Lorde Asriel manobrou a nave afastando-se sem pressa, e eles observaram enquanto o zepelim em chamas caía devagar, bem devagar sobre aquele cenário inteiro, bomba, cabo, soldados e tudo o mais, e tudo começou a desmoronar numa confusão de fumaça e chamas, descendo pela encosta, ganhando velocidade e incinerando as árvores resinosas à medida que passava, até mergulhar nas águas brancas das cataratas, que num redemoinho carregaram tudo para a escuridão.
Lorde Asriel mexeu nos controles de novo e a nave da intenção começou a se afastar rapidamente em direção ao norte. Mas a Sra. Coulter não conseguia despregar os olhos da cena, ficou olhando para trás durante muito tempo, contemplando o fogo com os olhos cheios de lágrimas, até que não passasse de uma linha vertical cor de laranja riscada na escuridão, coroada de fumaça e vapor, e depois mais nada.

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