17 de fevereiro de 2017

24. A Sra. Coulter em Genebra

Qual a mãe, tal é sua filha.
Ezequiel 10,14

A Sra. Coulter esperou até anoitecer antes de se aproximar da Faculdade St. Jerome. Depois que escureceu, ela manobrou a nave da intenção descendo através das nuvens e seguiu lentamente pela margem do lago mantendo-se na altura das copas das árvores.
O prédio da Faculdade era uma construção que se destacava entre os outros prédios antigos de Genebra, e logo ela encontrou o pináculo, a escuridão vazada dos claustros, a torre quadrada onde ficavam os alojamentos do Presidente do Tribunal Consistorial de Disciplina. Tinha visitado a Faculdade três vezes antes, sabia que as reentrâncias e os espigões das chaminés no telhado ofereciam uma variedade de esconderijos, mesmo para algo tão grande quanto a nave da intenção.
Voando lentamente sobre as telhas que cintilavam, molhadas pela chuva recente, ela entrou devagar com a nave num pequeno vão.
Entre um telhado de inclinação muito acentuada e o paredão vertical da torre. O lugar só era visível do campanário da Capela da Santa Penitência, nas vizinhanças, serviria perfeitamente.
Ela pousou a nave delicadamente, deixando seus seis pés e pernas encontrarem seus pontos de apoio e se ajustarem de modo a deixar a cabine horizontal. Estava começando a amar aquela máquina: respondia a seus comandos com a mesma rapidez com que ela conseguia pensar e era tão silenciosa, podia pairar sobre a cabeça de alguém, perto o bastante para ser tocada, sem que a pessoa jamais soubesse que estava lá. Ao longo do dia depois que a roubara, a Sra. Coulter tinha aprendido tudo sobre os controles, mas ainda não tinha ideia de qual era o combustível que a movia, e isso era a única coisa a respeito de que se preocupava: não tinha nenhum meio de saber quando o combustível ou as baterias acabariam.
Depois de se assegurar que a nave estava bem firme e que o teto era sólido o bastante para sustentá-la, tirou o capacete e desembarcou. Seu dimon já estava puxando com força uma das pesadas telhas antigas, para soltá-la. Ela foi ajudá-lo e logo tinham soltado e tirado meia dúzia delas, abrindo um espaço, depois ela quebrou e arrancou as ripas nas quais tinham estado fixadas, fazendo um buraco grande o suficiente para permitir sua passagem através dele.
— Entre e examine o terreno — sussurrou ela, e o dimon saltou pelo buraco para a escuridão.
Ela podia ouvir o ruído de suas garras enquanto se movia cuidadosamente sobre o assoalho do sótão e depois a face negra franjada de dourado apareceu na abertura. Ela compreendeu imediatamente e o seguiu, entrando e esperando até que seus olhos se habituassem ao escuro. Na semiobscuridade, gradualmente viu um sótão comprido, onde sombras escuras de armários, mesas, estantes e peças de mobília de todo tipo tinham sido guardadas.
A primeira coisa que fez foi empurrar um armário alto para cobrir o buraco aberto no lugar onde as telhas haviam estado. Então foi andando nas pontas dos pés até a porta na parede na extremidade oposta do sótão e girou a maçaneta. Estava trancada, é claro, mas ela tinha um grampo e a tranca era simples. Três minutos depois, ela e seu dimon estavam no fundo de um longo corredor, onde uma claraboia empoeirada lhes permitia ver uma escada estreita que descia na outra ponta.
E cinco minutos depois disso, tinham aberto uma janela na despensa, ao lado da cozinha, dois andares abaixo, e saltado para o beco. Os portões da Faculdade e a guarita ficavam logo adiante, dobrando a esquina, e, como ela disse ao macaco dourado, era importante chegar da maneira ortodoxa, qualquer que fosse a maneira como eles pretendessem ir embora.
— Tire as mãos de cima de mim — disse ela calmamente ao guarda — e mostre alguma cortesia, ou mandarei esfolar você. Diga ao Presidente que a Sra. Coulter chegou e que deseja vê-lo imediatamente.
O homem recuou e seu dimon, uma cadelinha pinscher que estivera arreganhando os dentes para o bem-comportado macaco dourado, imediatamente se encolheu e enfiou tanto quanto pôde o toco de rabo entre as pernas.
O guarda girou a manivela de um telefone e, menos de um minuto depois, um jovem padre de rosto simpático entrou correndo na guarita, esfregando as palmas das mãos na batina, caso ela quisesse dar-lhe um aperto de mão. Ela não quis.
— Quem é você? — perguntou.
— Frade Louis — respondeu o homem, acalmando seu dimon coelha. — Convocador do Secretariado do Tribunal Consistorial. Por favor, faria a gentileza de...
— Não vim aqui para parlamentar com um secretário — declarou ela. — Leve-me ao Padre MacPhail. E faça isso já.
O homem inclinou-se numa mesura de submissão e levou-a consigo. Ao vê-la pelas costas, o guarda deixou escapar um suspiro de alívio. Depois de tentar puxar conversa duas ou três vezes, Frade Louis desistiu e conduziu-a em silêncio até os aposentos do Presidente, na torre. O Padre MacPhail estava fazendo suas orações, e a mão do pobre Frade Louis tremia violentamente quando bateu à porta. Eles ouviram um suspiro e um gemido, depois passadas pesadas cruzaram o assoalho.
Os olhos do Presidente se arregalaram quando viu quem era e ele deu um sorriso feroz.
— Sra. Coulter — disse, oferecendo a mão. — Estou muito contente por vê-la. Meu gabinete é frio e nossa hospitalidade humilde, mas entre, entre.
— Boa noite — disse ela, seguindo-o para o interior do aposento, frio e desolado, de paredes de pedra, permitindo que ele se desmanchasse em atenções e lhe oferecesse uma cadeira. — Obrigada — disse ela para o Frade Louis, que permanecia no aposento — gostaria de um copo de chocolate.
Nada havia sido oferecido e ela sabia que era um insulto tratá-lo como se fosse um criado, mas a atitude dele era tão subserviente que merecia isso. O Presidente assentiu e Frade Louis teve que se retirar para atender ao pedido, muito a contragosto.
— Sabe, é claro, que está presa — declarou o Presidente, sentando na outra cadeira e acendendo uma luminária de mesa.
— Ah, mas por que estragar nossa conversa antes mesmo de termos começado? — perguntou a Sra. Coulter. — Vim para cá voluntariamente, assim que consegui fugir da fortaleza de Lorde Asriel. O fato é, Presidente, que tenho uma enorme quantidade de informações sobre as forças dele e sobre a criança, e vim até aqui para dá-las ao senhor.
— A criança, então. Comece pela criança.
— Minha filha agora está com 12 anos. Muito brevemente ela se aproximará do vértice da curva da adolescência e então será tarde demais para que qualquer um de nós possa impedir a catástrofe, a natureza e a oportunidade se unirão como centelha em madeira seca. Graças à sua intervenção, isso agora é muito mais provável. Espero que esteja satisfeito.
— Era seu dever trazê-la para cá, para ficar sob nossos cuidados. Em vez disso, preferiu fugir e esconder-se numa caverna na montanha... embora como uma mulher de sua inteligência pudesse ter a esperança de se manter escondida seja um mistério para mim.
— Provavelmente há muita coisa que seja um mistério para o senhor, Senhor Lorde Presidente, a começar pelas relações entre uma mãe e sua filha. Se pensou por um instante que eu entregaria minha filha aos cuidados... cuidados!... de uma corporação de homens com uma obsessão fervorosa pela sexualidade, homens de unhas sujas, fedendo a suor azedo, homens cujas imaginações furtivas se arrastariam sobre o corpo dela como baratas, se pensou que eu exporia minha filha a isso, Lorde Presidente, o senhor é mais estúpido do que pensa que eu sou.
Bateram à porta antes que ele pudesse responder, e o Frade Louis entrou com dois copos de chocolate numa bandeja de madeira. Ele colocou a bandeja sobre a mesa com uma reverência nervosa, sorrindo para o Presidente, na esperança de ser convidado a ficar, mas o Padre MacPhail balançou a cabeça em direção à porta e o rapaz se retirou relutantemente.
— Então o que pretendia fazer? — perguntou o Presidente.
— Eu ia mantê-la em segurança até que o perigo tivesse passado.
— E que perigo seria esse? — perguntou ele, passando-lhe um copo.
— Ah, acho que o senhor sabe de que estou falando. Em algum lugar há uma tentadora, uma serpente, por assim dizer, e eu tinha que impedir que elas se encontrassem.
— Há um menino com ela.
— Sim. E se não tivesse interferido, ambos estariam sob meu controle. Nas atuais circunstâncias, eles poderiam estar em qualquer lugar. Pelo menos não estão com Lorde Asriel.
— Não tenho dúvida de que Lorde Asriel esteja procurando por eles. O garoto tem uma faca de um poder extraordinário. Só por isso valeria a pena persegui-los.
— Tenho conhecimento disso — disse a Sra. Coulter. — Eu consegui quebrar a faca e ele conseguiu consertá-la. — Ela estava sorrindo. Seria possível que ela aprovasse aquele menino desgraçado?
— Nós sabemos — ele retrucou secamente.
— Ora, ora — comentou ela. — Frei Pavel deve estar sendo mais rápido. Quando o conheci, ele teria levado no mínimo um mês para ler isso.
Ela bebericou o chocolate, que estava ralo e fraco, como era típico daqueles padres enfadonhos, pensou, impor sua abstinência hipócrita também aos visitantes.
— Fale-me de Lorde Asriel — disse o Presidente. — Conte-me tudo.
A Sra. Coulter se recostou confortavelmente na cadeira e começou a contar a ele não tudo, mas ele jamais acreditou, nem por um segundo que contaria tudo. A Sra. Coulter falou sobre a fortaleza, sobre os aliados, sobre os anjos, sobre as minas e sobre as fábricas de fundição.
O Padre MacPhail permaneceu sentado sem mover um músculo, seu dimon lagarto absorvendo e recordando cada palavra.
— E como conseguiu chegar aqui? — perguntou.
— Roubei um giróptero. Fiquei sem combustível e tive que abandoná-lo no campo, não muito longe daqui. O resto do caminho fiz a pé.
— Lorde Asriel está efetivamente procurando a menina e o menino?
— É claro.
— Presumo que esteja atrás daquela faca. Sabe se tem um nome? Os avantesmas-do- penhasco do norte a chamam de destruidora-de-deus — prosseguiu ele, indo até a janela e olhando para baixo, para os claustros. — É isso que Asriel está pretendendo fazer, não é? Destruir a Autoridade? Há algumas pessoas que afirmam que Deus já está morto. Presumivelmente Asriel é uma dessas, se tem a ambição de matá-lo.
— Bem, onde está Deus — perguntou a Sra. Coulter — se está vivo? E por que ele não fala mais? No princípio do mundo, Deus andava no jardim e falava com Adão e Eva. Então começou a se retirar, e somente Moisés ouvia sua voz. Mais tarde, na época de Daniel, estava idoso, e era o Deus dos Antigos. Onde está ele agora? Ainda está vivo, com alguma idade inconcebível, decrépito e demente, incapaz de pensar ou de agir, e incapaz de morrer, uma imensidão apodrecida? E se esta for a condição em que se encontra, não seria a mais misericordiosa das coisas, a mais verdadeira prova de seu amor por Deus, ir procurá-lo e oferecer-lhe a dádiva da morte?
A Sra. Coulter sentia uma alegria libertadora e calma enquanto falava. Perguntou a si mesma se conseguiria escapar com vida, mas era inebriante falar daquela maneira com aquele homem.
— E o Pó? — perguntou ele. — Das profundezas de sua heresia, qual é sua visão do Pó?
— Não tenho nenhuma visão do Pó — respondeu ela. — Não sei o que é. Ninguém sabe.
— Compreendo. Muito bem, eu comecei recordando-a de que está presa. Creio que está na hora de encontrarmos um lugar para a senhora dormir. Vai ficar muito confortável, ninguém vai machucá-la, mas não vai fugir. E conversaremos mais amanhã.
Ele tocou uma campainha e Frade Louis entrou quase que imediatamente.
— Leve a Sra. Coulter para o melhor quarto de hóspedes — ordenou o Presidente. — E deixe-a trancada nele.
O melhor quarto de hóspedes era velho, maltratado, e a mobília era ordinária, mas pelo menos estava limpo. Depois que a tranca girou às suas costas, a Sra. Coulter imediatamente olhou em volta procurando o microfone e encontrou um na luminária requintada e outro debaixo do estrado da cama. Desligou os dois e então teve uma surpresa horrível.
Observando-a de cima do tampo de uma cômoda atrás da porta estava Lorde Roke.
Ela deu um grito e estendeu a mão para a parede para se equilibrar. O galivespiano estava sentado de pernas cruzadas, inteiramente à vontade, e nem ela nem o macaco dourado o tinham visto. Depois que o bater disparado de seu coração se acalmou e sua respiração voltou ao normal, ela disse:
— E quando o senhor teria me feito a cortesia de me avisar que estava aqui, milorde? Antes que eu me despisse, ou depois?
— Antes — respondeu ele. — Diga a seu dimon para se acalmar, caso contrário o imobilizarei.
Os dentes do macaco dourado estavam arreganhados e todo o seu pelo estava em pé. A maldade ardente de sua expressão era o bastante para fazer qualquer pessoa se acovardar, mas Lorde Roke apenas sorria. Suas esporas reluziam sob a luz fraca. O pequenino espião se levantou e se espreguiçou.
— Acabei de falar com meu agente na fortaleza de Lorde Asriel — prosseguiu. — Lorde Asriel apresenta seus cumprimentos e pede que o avise assim que descobrir quais são as intenções dessa gente.
Ela sentia dificuldade para respirar, como se Lorde Asriel a tivesse golpeado violentamente numa luta. Seus olhos se arregalaram e ela sentou lentamente na cama.
— Veio para cá para me espionar ou para ajudar? — perguntou.
— As duas coisas, e é sorte sua que eu esteja aqui. Assim que chegou, eles puseram em funcionamento algum aparelho anbárico nos porões. Não sei o que é, mas há uma equipe de cientistas trabalhando nele agora, neste momento. Você parece tê-los deixado empolgados.
— Não sei se devo ficar lisonjeada ou preocupada. Para falar francamente, estou exausta e vou dormir. Se estiver aqui para ajudar, pode ficar de vigia. Poderia começar olhando para o outro lado.
Ele fez uma mesura e virou-se para a parede até ela acabar de se lavar na pia de louça lascada afixada à parede, se enxugar com a toalha fina e tirar a roupa e se deitar. Seu dimon revistou o quarto, examinando o armário, o arame atrás da moldura do quadro, as cortinas, a vista dos claustros que se via pela janela. Lorde Roke o observou a cada centímetro que se moveu. Finalmente o macaco dourado juntou-se à Sra. Coulter e eles adormeceram imediatamente.
Lorde Roke não havia contado a ela tudo o que tinha sabido através de Lorde Asriel. Os aliados tinham estado acompanhando o voo de todos os tipos de seres no ar acima das fronteiras da república e tinham notado uma concentração do que poderia ter sido anjos, e poderia ter sido algo inteiramente diferente, a oeste.
Haviam mandado patrulhas para investigar, mas até o momento não tinham descoberto nada: o que quer que fosse que estivesse concentrado lá, tinha se embrulhado numa neblina impenetrável. Contudo, o espião achou melhor não preocupar a Sra. Coulter com aquilo, ela estava exausta. Melhor deixá-la dormir, decidiu, e se movimentou silenciosamente pelo quarto, ouvindo através da porta, olhando pela janela, desperto e alerta.
Uma hora depois de ela ter vindo para o quarto, ele ouviu um ruído abafado do lado de fora da porta: um leve arranhar e um sussurro. No mesmo instante, uma luz fraca surgiu no vão da porta. Lorde Roke foi para o canto mais afastado e se posicionou atrás de uma das pernas da cadeira em que a Sra. Coulter tinha posto suas roupas.
Passou-se um minuto e então a chave girou, muito silenciosamente, na fechadura. A porta se abriu dois centímetros e meio, não mais que isso, e então a luz se apagou.
Lorde Roke podia enxergar bastante bem na luz esmaecida que passava através das cortinas finas, mas o intruso estava precisando esperar até que seus olhos se adaptassem. Finalmente a porta se abriu mais, muito lentamente, e o jovem padre, Frade Louis, entrou.
Ele fez o sinal-da-cruz e foi andando, pé ante pé, até a cama. Lorde Roke preparou-se para saltar para o ataque, mas o padre apenas ficou ouvindo o som regular da respiração da Sra. Coulter, examinou-a atentamente para se certificar de que estava dormindo e então virou-se para a mesa-de-cabeceira. Ele cobriu a lâmpada da lanterna à bateria com a mão e a acendeu, deixando um pequeno raio de luz passar através dos dedos. Examinou a mesinha tão de perto que seu nariz quase tocou a superfície, mas o que quer fosse que estivesse procurando, não encontrou. A Sra. Coulter tinha posto algumas coisas ali antes de se deitar: um par de moedas, um anel, o relógio de pulso, mas Frade Louis não estava interessado naquilo.
Ele tornou a se virar para ela e então viu o que estava procurando, deixando escapar um leve sibilar por entre os dentes. Lorde Roke pôde constatar seu desapontamento: o objeto da busca era o medalhão pendurado no cordão de ouro no pescoço da Sra. Coulter.
Lorde Roke se moveu silenciosamente pelo rodapé em direção à porta. O padre tornou a se benzer, pois ia ter de tocar nela. Prendendo a respiração, inclinou-se sobre a cama — e o macaco dourado se mexeu. O rapaz ficou imóvel, com as mãos estendidas. Seu dimon coelha tremia a seus pés, absolutamente inútil: ela poderia pelo menos ter ficado de vigia para o pobre homem, pensou Lorde Roke.
O macaco se virou, dormindo, e depois ficou quieto novamente.
Depois de um minuto, parado como uma estátua de cera, Frade Louis baixou as mãos trêmulas até o pescoço da Sra. Coulter. Manuseou desajeitadamente o cordão durante tanto tempo que Lorde Roke pensou que o dia fosse raiar antes que ele conseguisse abrir o fecho, mas finalmente conseguiu puxar o medalhão delicadamente e se levantou.
Lorde Roke, rápido e silencioso como um camundongo, tinha saído pela porta antes que o padre se virasse. Esperou no corredor escuro e quando o rapaz saiu pé ante pé e trancou a porta, o galivespiano começou a segui-lo. Frade Louis seguiu para a torre e, quando o Presidente abriu sua porta, Lorde Roke passou rapidamente e seguiu para o genuflexório no canto do aposento. Ali encontrou uma saliência coberta pelas sombras onde se agachou e ficou ouvindo.
O Padre MacPhail não estava sozinho: o aletiometrista, Frei Pavel, estava trabalhando com seus livros e uma outra pessoa estava parada nervosamente junto à janela. Era o Dr. Cooper, o teólogo experimental de Bolvangar. Ambos levantaram o olhar.
— Bom trabalho, Frade Louis — disse o Presidente. — Traga-o aqui, sente-se, mostre-me, mostre-me. Excelente trabalho!
Frei Pavel afastou alguns de seus livros e o jovem padre colocou o cordão de ouro sobre a mesa. Os outros se inclinaram para olhar enquanto o Padre MacPhail desajeitadamente tentava abrir o fecho. O Dr. Cooper lhe ofereceu um canivete e então houve um estalido baixo.
— Ah! — suspirou o Presidente.
Lorde Roke subiu para o tampo da mesa de maneira a poder ver. Sob a luz do lampião de nafta havia um reflexo de brilho dourado-escuro: era uma mecha de cabelos, e o Presidente a estava torcendo entre os dedos, enrolando-a de um lado para o outro.
— Temos certeza de que é da menina? — perguntou.
— Eu tenho certeza — afirmou a voz cansada de Frei Pavel.
— E o que temos é o bastante, Dr. Cooper?
O homem de rosto pálido se inclinou todo sobre a mesa e tomou a mecha de cabelos dos dedos do Padre MacPhail. Então levantou-a junto à luz.
— Ah, é sim — respondeu. — Um único fio de cabelo seria o bastante. Isso aqui é muita coisa.
— Fico muito satisfeito em saber — disse o Padre MacPhail. — Agora, Frade Louis, deve colocar o medalhão de volta no pescoço da boa senhora.
O padre se curvou ligeiramente, abatido: ele tinha esperado que sua tarefa estivesse concluída. O Presidente colocou o cacho de cabelos de Lyra num envelope e fechou o medalhão, levantando a cabeça e olhando em volta enquanto o fazia, e Lorde Roke teve que se esconder rapidamente.
— Senhor Presidente — disse Frade Louis — é claro que cumprirei suas ordens, mas posso saber para que precisa do cabelo da menina?
— Não, Frade Louis, porque isso o afligiria. Deixe essas questões por nossa conta. Trate de ir andando.
O rapaz pegou o medalhão e se foi, reprimindo seu ressentimento. Lorde Roke pensou em voltar com ele e em acordar a Sra. Coulter, exatamente quando ele estivesse tentando colocar de volta o cordão, de modo a ver o que ela faria, mas era mais importante descobrir o que aquelas pessoas estavam planejando.
Quando a porta fechou, o galivespiano voltou para seu canto nas sombras e ficou ouvindo.
— Como sabia que ela possuía isso? — perguntou o cientista.
— Toda vez que mencionava a menina — explicou o Presidente — sua mão tocava o medalhão. Muito bem, dentro de quanto tempo poderá estar pronto?
— É uma questão de horas — respondeu o Dr. Cooper.
— E o cabelo? O que vai fazer com ele?
— Vamos colocar o cabelo na câmara ressonante. O senhor compreende, cada indivíduo é singular, e a organização de partículas genéticas absolutamente distinta... Bem, assim que a análise for completada, as informações serão codificadas em uma série de pulsos anbáricos e transferidas para o dispositivo que faz a pontaria. Ele localiza a origem do material, do cabelo, onde quer que ela esteja. É um processo que na verdade utiliza a heresia de Barnard-Stokes, o conceito de múltiplos mundos...
— Não se preocupe, Doutor. Frei Pavel já me disse que a menina está em um outro mundo. Por favor, prossiga. A potência da bomba é direcionada através do cabelo?
— É. Para cada um dos fios de cabelo dos quais estes foram cortados. É exatamente isso.
— Então, quando for detonada, a menina será destruída, não importa onde esteja?
O cientista respirou fundo, pesadamente, e então, com relutância, disse:
— Sim. — Ele engoliu em seco e prosseguiu: — A potência de energia necessária é enorme. A energia anbárica. Exatamente como uma bomba atômica precisa de uma potência altamente explosiva para iniciar a fissão do urânio e fazer com que desenvolva-se a reação em cadeia, este artefato precisa de uma corrente colossal para liberar a energia muito maior do processo seccional. Estava me perguntando...
— E não importa de onde seja detonada, certo?
— Não. A ideia é exatamente essa. Qualquer lugar serve.
— E está totalmente pronta?
— Agora que temos o cabelo, está. Mas a quantidade de energia, compreende...
— Eu já cuidei disso. A usina geradora hidroanbárica em Saint-Jean-les-Eaux foi requisitada para nosso uso exclusivo. Lá se produz energia suficiente, não acha?
— Sim — respondeu o cientista.
— Então partiremos imediatamente. Por favor, vá preparar o equipamento, Dr. Cooper. Tome as providências para que esteja pronto para ser transportado o mais rápido possível. O tempo muda muito rapidamente na montanha e há uma tempestade se aproximando.
O cientista pegou o envelope contendo os cabelos de Lyra e nervosamente fez uma mesura ao se retirar. Lorde Roke saiu com ele, sem fazer ruído, como uma sombra.
Tão logo estavam fora do alcance dos ouvidos do gabinete do Presidente, o galivespiano partiu para o ataque. O Dr. Cooper, abaixo dele, na escada, sentiu uma pontada de dor penetrante no ombro e estendeu a mão para segurar o corrimão, mas seu braço estava estranhamente fraco e ele escorregou e desceu rolando todo o lance seguinte de escada, indo parar semiconsciente na base da escada.
Com alguma dificuldade, Lorde Roke arrancou o envelope da mão do homem que se crispava em espasmos, pois tinha a metade de seu tamanho, e seguiu pelas sombras em direção ao quarto onde a Sra. Coulter dormia. A fenda entre a porta e o chão era larga o bastante para que ele se arrastasse para dentro do quarto.
Frade Louis tinha vindo e ido embora, mas não havia ousado tentar colocar o cordão em volta do pescoço da Sra. Coulter: estava a seu lado sobre o travesseiro.
Lorde Roke apertou a mão dela para acordá-la. Embora estivesse profundamente exausta, ela concentrou a atenção nele imediatamente, e sentou na cama, esfregando os olhos.
Ele explicou o que havia acontecido e deu-lhe o envelope.
— Deve destruí-lo imediatamente — disse-lhe — um único fio seria suficiente, foi o que o homem disse.
Ela olhou para o pequeno cacho de cabelos louro-escuros e sacudiu a cabeça.
— É tarde demais para isso — declarou. — Isto é apenas a metade da mecha que cortei do cabelo de Lyra. Ele deve ter guardado uma parte.
Lorde Roke chiou de raiva.
— Foi quando ele olhou em volta! — exclamou. — Droga! Tive que me mexer depressa para sair do campo de visão dele... deve ter sido quando ele guardou a outra parte...
— E não há maneira de saber onde pode ter guardado — disse a Sra. Coulter. — Apesar disso, se conseguirmos encontrar a bomba...
— Psiu!
Era o macaco dourado pedindo silêncio. Estava agachado junto à porta, ouvindo, e então eles também ouviram: passadas pesadas, vindo apressadas em direção ao quarto.
A Sra. Coulter empurrou o envelope e a mecha de cabelo para Lorde Roke, que os pegou e saltou para o alto do armário. Então ela se deitou ao lado de seu dimon enquanto a chave girava ruidosamente na fechadura.
— Onde está? O que você fez com o cabelo? Como atacou o Dr. Cooper? — perguntou a voz áspera do Presidente, enquanto a luz iluminava a cama.
A Sra. Coulter levantou um braço para cobrir os olhos e fez um esforço para sentar na cama.
— O senhor realmente gosta de divertir seus hóspedes — comentou ela com a voz sonolenta. — Esse jogo é uma nova invenção? O que tenho que fazer? E quem é o Dr. Cooper?
O guarda da guarita entrou com o Padre MacPhail e vasculhou os cantos do quarto e debaixo da cama com uma lanterna. O Presidente ficou ligeiramente desconcertado: os olhos da Sra. Coulter estavam pesados de sono e ela mal podia enxergar ofuscada pelo clarão da luz do corredor. Era evidente que não tinha saído da cama.
— Você tem um cúmplice — acusou ele. — Alguém atacou um convidado da faculdade. Quem é seu cúmplice? Quem veio com você? Onde está ele?
— Não tenho a menor ideia a respeito do que o senhor está falando. E o que é isso... ?
A mão dela, que tinha apoiado na cama para se levantar, havia encontrado o medalhão no travesseiro. Ela parou, pegou o medalhão, olhou para o Presidente com os olhos sonolentos arregalados e Lorde Roke assistiu a um soberbo desempenho de atriz, quando disse, com a voz carregada de perplexidade:
— Mas isso é o meu... o que está fazendo aqui? Padre MacPhail, quem esteve aqui em meu quarto? Alguém tirou isso de meu pescoço. E... onde está o cabelo de Lyra? Havia uma mecha de cabelo de minha filha aqui dentro. Quem tirou? Por quê? O que está acontecendo?
E agora ela estava ficando de pé, os cabelos desalinhados, a voz cheia de paixão — visivelmente tão confusa quanto o próprio Presidente. O Padre MacPhail deu um passo para trás e pôs a mão na cabeça.
— Alguma outra pessoa deve ter vindo com você. Tem que ter um cúmplice — insistiu ele, a voz estridente raspando o ar como uma lixa. — Onde está escondido?
— Não tenho nenhum cúmplice — retrucou ela furiosa. — Se há algum assassino invisível aqui neste lugar, só posso imaginar que seja o Diabo em pessoa. Imagino que ele deva se sentir muito à vontade.
O Padre MacPhail ordenou ao guarda:
— Leve-a para os porões. Trate de acorrentá-la. Sei exatamente o que podemos fazer com esta mulher, deveria ter pensado nisso assim que ela apareceu.
Ela olhou em volta agitadamente e, por uma fração de segundo, seus olhos encontraram os olhos de Lorde Roke, reluzindo na escuridão perto do teto. Ele compreendeu a expressão dela imediatamente e entendeu exatamente o que queria que fizesse.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)