17 de fevereiro de 2017

23. Sem saída

E conhecereis a verdade e a verdade os libertará.
São João 8:32

— Will, o que você acha que as harpias vão fazer quando libertarmos os fantasmas? — perguntou Lyra. Pois as criaturas estavam gritando cada vez mais alto e voando mais perto e a cada instante que se passava havia um numero cada vez maior delas, como se a escuridão estivesse se reunindo em pequenos coágulos de malignidade e dando-lhes asas. Os fantasmas ficavam olhando para cima, temerosos.
— Estamos chegando perto? — Lyra gritou para Lady Salmakia.
— Agora não estamos longe — respondeu ela, voando em círculos acima deles. — Você poderia vê-lo, se subisse naquela pedra.
Mas Lyra não queria perder tempo. Estava tentando de todo o coração se controlar e apresentar uma cara alegre para Roger, mas, na sua mente, a todo momento, estava aquela imagem terrível de Pan cachorrinho pequenino, abandonado no molhe, enquanto a neblina se fechava ao seu redor, e ela mal estava conseguindo impedir-se de chorar bem alto. Mas tinha que conseguir, tinha que se mostrar confiante para Roger, como sempre havia sido.
Quando afinal se encontraram cara a cara, aconteceu muito de repente. Em meio à pressão da multidão de todos os fantasmas, lá estava ele, as feições familiares pálidas, mas sua expressão tão cheia de contentamento quanto um fantasma podia ter. Ele correu para abraçá-la.
Mas passou como fumaça fria através dos braços de Lyra e embora ela sentisse a mãozinha dele agarrar seu coração, não tinha força para se segurar. Eles nunca mais voltariam a se tocar de verdade.
Mas ele podia sussurrar e a voz dele disse:
— Lyra, eu nunca imaginei que voltaria a ver você, pensei que mesmo se você descesse até aqui, depois que tivesse morrido, estaria muito mais velha, seria adulta e não falaria comigo...
— Por que eu não haveria de falar?
— Porque eu fiz a coisa errada quando Pan conseguiu soltar meu dimon do dimon pantera de Lorde Asriel! Deveríamos ter fugido, não deveríamos ter tentado lutar contra ela! Deveríamos ter corrido para junto de você! Então ela não teria podido capturar meu dimon de novo, e quando o rochedo deslizou, ela estaria comigo!
— Mas isso não foi culpa sua, seu bobo! — retrucou Lyra. — Fui eu que levei você para lá, para começar, e deveria ter deixado você voltar com as outras crianças e os gípcios. A culpa foi minha. Eu lamento tanto, Roger, de verdade, foi minha culpa, se não fosse por mim você não teria estado lá...
— Bem — disse ele — não sei não. Talvez eu tivesse sido morto de alguma outra maneira. Mas não foi culpa sua, Lyra, entenda.
Ela se sentiu começando a acreditar nisso, mas, de qualquer maneira, era de partir o coração ver o pobre coitadinho gelado, tão perto e, ao mesmo tempo, tão fora de seu alcance. Tentou agarrar o pulso dele, contudo seus dedos se fecharam no ar vazio, mas ele compreendeu e sentou ao lado dela. Os outros fantasmas recuaram um pouco, deixando-os sozinhos, e Will também se afastou, para sentar e cuidar de sua mão. Estava sangrando de novo e, enquanto Tialys voava ferozmente atacando os fantasmas para obriga-los a se afastarem, Salmakia ajudou Will a cuidar do ferimento. Mas Lyra e Roger nem tomaram conhecimento de nada disso.
— E você não está morta — declarou ele. — Como conseguiu vir até aqui se ainda está viva? E onde está Pan?
— Ah, Roger... eu tive que deixar o Pan na outra margem... foi a pior coisa que já tive que fazer na vida, doeu tanto, você sabe como dói, e ele ficou lá parado, só olhando. Ah, eu me senti como uma assassina, Roger, mas eu tive que fazer aquilo, senão não poderia ter vindo!
— Eu estive fazendo de conta que estava conversando com você o tempo todo desde que morri — disse ele. — Estive desejando que pudesse falar com você e desejando tanto... Apenas desejando que pudesse sair daqui, eu e todos os outros mortos, porque este é um lugar terrível, Lyra, é sem esperança, nada muda depois que você morre, e aquelas coisas voadoras... Você sabe o que elas fazem? Elas esperam até que você esteja descansando... nunca se pode dormir direito, você só meio que dá uma cochilada... e então elas chegam bem perto de você, sem fazer barulho, e cochicham todas as coisas ruins que você fez quando estava vivo, de modo que não possa se esquecer delas. Elas sabem de todas as piores coisas a seu respeito. Sabem como fazer com que você se sinta horrível, só de pensar em todas as coisas estúpidas e más que fez algum dia. E todos os pensamentos invejosos e cruéis que você teve, elas conhecem todos, e fazem com que sinta muita vergonha e deixam você com nojo de si mesmo... Mas não se pode escapar delas.
— Bem — interrompeu ela — escute.
Baixando a voz e curvando o corpo para chegar mais perto do pequeno fantasma, exatamente como costumavam fazer quando estavam planejando suas travessuras na Jordan, ela prosseguiu:
— Você provavelmente não sabe, mas as bruxas, você se lembra de Serafina Pekkala, as bruxas têm uma profecia a respeito de mim. Elas não sabem que eu sei... ninguém sabe. Nunca falei a respeito disso com ninguém antes. Mas quando estava em Trollesund e Farder Coram, o gípcio, me levou para ver o Cônsul das Bruxas, o Dr. Lanselius, ele me fez passar por uma espécie de teste. Disse que eu tinha que sair até o quintal da casa e escolher, dentre vários galhos de pinheiro-nubígeno, o que tivesse sido usado por Serafina Pekkala, para mostrar que eu realmente sabia ler o aletiômetro relatou.
“Bem, eu fiz isso e depois voltei depressa, porque estava frio e só levou um segundo, foi fácil. O cônsul estava conversando com Farder Coram e eles não sabiam que eu estava ouvindo o que diziam. Ele disse que as bruxas tinham uma profecia a respeito de mim, que eu iria fazer alguma coisa incrível e importante, e que isso iria acontecer num outro mundo... Só que nunca falei disso e acho que devo até ter esquecido disso, pois havia tantas outras coisas acontecendo. De modo que, meio que saiu de minha cabeça. Nunca conversei a respeito disso, nem com Pan, porque acho que ele teria rido na minha cara.
“Mas depois, quando a Sra. Coulter me capturou e me manteve num estado de transe, fiquei sonhando e sonhando com isso, e sonhei com você. E me lembrei que Mãe Costa, da família dos príncipes dos gípcios, do povo das águas, você se lembra, foi no barco deles que entramos a bordo, em Jerico, com Simon e Hugh, e eles...
— Claro! E quase navegamos com ele até Abingdon! Aquilo foi a melhor de todas as coisas que fizemos, Lyra! Nunca vou me esquecer daquilo, mesmo se estiver morto aqui embaixo por mil anos...
— Certo, mas escute, quando fugi da Sra. Coulter da primeira vez, sabe, eu encontrei os gípcios de novo e eles cuidaram de mim e... Ah, Roger, mas tem tanta coisa que eu descobri, você ficaria besta de espanto... mas esta é a coisa importante: foi Mãe Costa que me contou, ela disse que tenho óleo-de-bruxa na alma, ela disse que sou uma pessoa do fogo — afirmou. — E o que acho que isto significa é que ela estava, assim, meio que me preparando para a profecia das bruxas. Eu sei que tenho alguma coisa importante a fazer e o Dr. Lanselius, o cônsul, disse que era vital que eu nunca descobrisse qual é o meu destino antes que acontecesse, entende, que nunca deveria fazer perguntas a respeito dele... De modo que nunca fiz. Nunca nem pensei no que poderia ser. Nunca perguntei, nem mesmo ao aletiômetro.
“Mas agora, eu acho que sei. E encontrar você de novo é apenas uma espécie de prova. O que tenho que fazer, Roger, o destino que tenho que cumprir é que tenho que ajudar todos os fantasmas a saírem da terra dos mortos para sempre. Eu e Will, nós temos que salvar todos vocês. Tenho certeza de que é isso. Deve ser. E por causa de Lorde Asriel, por causa de uma coisa que meu pai disse... A morte vai morrer, ele disse. Porém, não sei o que vai acontecer. Você não deve contar a eles ainda, prometa. Tenho medo que possa não aguentar até lá.
— Mas — ele estava desesperado para falar, de modo que ela parou. — Isso é exatamente o que eu queria contar a você! — exclamou. — Eu disse a eles, a todos os outros mortos, eu disse a eles que você viria! Exatamente como veio e salvou as crianças de Bolvangar! Eu falei: se alguém puder, esse alguém é Lyra. Eles desejaram que fosse verdade, queriam acreditar em mim, mas, na verdade, nunca acreditaram, dava para perceber. Para começar — continuou ele — todas as crianças que chegam aqui, todas sem exceção, começam dizendo: aposto que meu pai vai vir me buscar, ou aposto que minha mãe, assim que souber onde estou, virá me buscar pra me levar de volta pra casa. Se não é o pai ou a mãe, são os amigos, ou o avô, mas alguém virá para salvá-los. Só que ninguém nunca vem. De modo que ninguém acreditou em mim quando eu disse que você viria. Só que eu estava certo!
— Estava — disse ela — bem, mas eu não poderia ter vindo sem o Will. Aquele ali é o Will, e aqueles outros são o Cavaleiro Tialys e a Lady Salmakia. Tenho tanta coisa para contar a você, Roger...
— Quem é Will? De onde ele veio?
Lyra começou a explicar, sem nem perceber como sua voz tinha mudado, como se sentava mais ereta e como até seus olhos ficavam diferentes, quando contava a história de seu encontro com Will e da luta pela faca sutil. Como poderia ter sabido? Mas Roger percebeu, com a inveja triste e silenciosa dos mortos imutáveis.
Enquanto isso, Will e os galivespianos estavam um pouco afastados, conversando em voz baixa.
— O que vocês vão fazer, você e a menina? — perguntou Tialys.
— Abrir este mundo e deixar os fantasmas saírem. É para isto que tenho a faca.
Will nunca tinha visto tamanho espanto no rosto de duas pessoas, quanto mais aquelas pessoas cuja boa opinião era importante para ele. Tinha adquirido um grande respeito por aqueles dois. Eles ficaram sentados em silêncio por alguns instantes e então Tialys disse:
— Isso vai desfazer tudo. É o maior golpe que se poderia infligir. A Autoridade vai ficar sem nenhum poder depois disso.
— Como eles poderiam jamais prever isso? — comentou a pequena dama.
— Vai pegá-los completamente desprevenidos!
— E depois, o quê? — perguntou Tialys a Will.
— E depois? Bem, depois nós teremos que sair e encontrar nossos dimons, imagino. Não pense em depois. Basta pensar em agora. Eu não falei nada para os fantasmas, caso aconteça... caso aconteça de não funcionar. De modo que também não digam nada. Agora vou procurar um mundo que eu possa abrir, e aquelas harpias estão nos vigiando. De maneira que, se quiserem ajudar, podem ir e tratar de distraí-las enquanto faço isso.
Imediatamente os galivespianos incitaram suas libélulas a subir para a escuridão acima, onde as harpias se aglomeravam como um bando de moscas varejeiras. Will observou os grandes insetos atacando-as destemidamente, diante de todo mundo, como se as harpias fossem moscas e eles pudessem abocanhá-las com suas mandíbulas, por maiores que fossem. Pensou em como aquelas criaturas cintilantes adorariam quando o céu estivesse aberto e elas pudessem novamente dar voos rasantes, a toda a velocidade, sobre águas límpidas.
Então ele pegou a faca. E imediatamente as palavras que as harpias haviam lançado contra ele voltaram — as zombarias sobre sua mãe — e ele parou. Guardou a faca e tentou limpar sua mente.
Tentou de novo, com o mesmo resultado. Podia ouvi-las vociferando acima, a despeito da ferocidade dos galivespianos, elas eram tantas que dois cavaleiros voadores sozinhos podiam fazer muito pouco para detê-las. Bem, era assim que as coisas iam ser. Não iriam ficar nem um pouco mais fáceis. De maneira que Will deixou sua mente relaxar e se distanciar, e apenas ficou sentado ali, segurando a faca com os dedos frouxos, até que sentiu que estava pronto novamente.
Dessa vez a faca penetrou e cortou o ar — e encontrou uma rocha. Ele tinha aberto uma janela naquele mundo para o subsolo de um outro mundo. Fechou a janela e tentou de novo.
E a mesma coisa aconteceu, embora ele soubesse que era um mundo diferente. Tinha aberto janelas antes e encontrara-se acima do solo de um outro mundo, de modo que não deveria ter-se surpreendido ao descobrir que estava no subsolo, para variar, mas era desconcertante.
Na vez seguinte, tateou cuidadosamente, da maneira como tinha aprendido, deixando que a ponta da faca procurasse a ressonância que revelava um mundo em que o solo estava no mesmo lugar. Mas o toque estava errado em todos os lugares onde procurou com a ponta da faca. Não havia nenhum mundo, em lugar nenhum, onde pudesse cortar e abrir uma saída, em toda parte onde tocava, encontrava rocha sólida.
Lyra tinha percebido que alguma coisa estava errada e levantou-se de um salto, interrompendo sua conversa íntima com o fantasma de Roger, para correr para o lado de Will.
— O que foi? — perguntou baixinho.
Ele contou a ela e acrescentou:
— Vamos ter que ir para algum outro lugar antes que eu consiga encontrar um mundo para onde possa cortar uma abertura. E aquelas harpias não vão nos deixar. Você contou aos fantasmas o que estávamos planejando?
— Não. Só para Roger, e disse a ele que mantivesse segredo. Ele sempre faz qualquer coisa que eu peça. Ah, Will, estou com medo, estou com tanto medo. Podemos nunca sair. Imagine se ficarmos presos aqui para sempre?
— A faca pode cortar através da rocha. Se precisarmos, simplesmente abriremos um túnel. Vai levar muito tempo e espero que a gente não tenha que fazer isso, mas podemos fazer. Não se preocupe.
— Claro. Você tem razão. Claro que podemos.
Mas ela achava que ele parecia estar tão doente, com o rosto contraído de dor, com olheiras escuras em volta dos olhos e a mão dele estava tremendo, os dedos sangrando de novo, parecia estar tão mal quanto ela se sentia. Não poderiam continuar por muito mais tempo sem seus dimons. Ela sentiu seu próprio espírito tremer em seu corpo e apertou bem os braços em volta do corpo, sentindo uma falta desesperada de Pan.
Mas, nesse meio tempo, os fantasmas estavam se agrupando e se aproximando cada vez mais, coitados, e as crianças, especialmente, não conseguiam deixar Lyra em paz.
— Por favor — disse uma menina — não vai se esquecer de nós quando for embora, não é?
— Não — respondeu Lyra — nunca.
— Vai falar a eles a respeito de nós?
— Prometo. Qual é o seu nome?
Mas a pobre da menina ficou constrangida e envergonhada: tinha se esquecido.
Deu-lhe as costas, escondendo o rosto, e um menino falou:
— Acho que é melhor esquecer. Eu me esqueci do meu. Alguns não estão aqui há muito tempo e ainda sabem quem são. Há algumas crianças que estão aqui há milhares de anos. Não são mais velhas que nós e esqueceram quase tudo. Exceto a luz do sol. Ninguém esquece isso. E o vento.
— Isso — disse um outro — fale para nós a respeito disso!
E um número cada vez maior deles começou a gritar para que Lyra lhes falasse sobre as coisas de que se lembrava, o sol, o vento e o céu, e das coisas de que tinham se esquecido, tipo como brincar, e ela se virou para Will e cochichou:
— O que devo fazer, Will?
— Fale para eles.
— Estou com medo. Depois do que aconteceu lá atrás, as harpias...
— Fale a verdade. Nós manteremos as harpias à distância.
Ela olhou para ele, hesitante. Na verdade, estava louca de apreensão. Virou-se de volta para os fantasmas que, em massa, vinham se aproximando cada vez mais.
— Por favor! — sussurravam. — Você acabou de vir do mundo! Conte para nós, conte! Fale sobre o mundo.
Havia uma árvore, não muito longe — apenas um tronco morto com seus galhos, brancos como ossos, estendidos no ar frio cinzento — e como Lyra estava se sentindo fraca e porque não achava que pudesse conseguir andar e falar ao mesmo tempo, dirigiu-se para lá, para ter um lugar onde sentar. A multidão de fantasmas se comprimiu e se empurrou para abrir espaço. Quando estavam quase chegando à árvore, Tialys pousou na mão de Will e indicou que Will deveria baixar a cabeça para ouvir.
— Elas estão voltando — disse baixinho — aquelas harpias. Um número cada vez maior delas. Fique com a faca preparada. A dama e eu as manteremos à distância pelo máximo de tempo que pudermos, mas talvez você precise lutar.
Sem preocupar Lyra, Will afrouxou a faca em sua bainha e manteve a mão bem perto dela. Tialys decolou de novo e então Lyra alcançou a árvore e sentou numa das raízes grossas.
Tantos vultos de mortos se aglomeravam à sua volta, insistindo esperançosos, com os olhos arregalados, que Will teve que fazê-los recuar para abrir espaço, mas deixou que Roger ficasse perto, porque ele olhava fixamente para Lyra, ouvindo cheio de paixão.
E Lyra começou a falar sobre o mundo que conhecia.
Contou-lhes a história de como ela e Roger tinham subido até o telhado da Faculdade Jordan e encontrado o corvo com a pata quebrada, e como tinham cuidado dele até ficar bom e estar pronto para voltar a voar, e como tinham explorado as Adegas de vinho nos porões, todas cobertas de poeira e teias de aranha, e bebido um bocado de Canary, ou podia ter sido Tokay, não sabia dizer qual dos dois, e como tinham ficado embriagados. E o fantasma de Roger ficou ouvindo, orgulhoso e desesperado, balançando a cabeça e sussurrando:
— Sim, sim! Isso foi exatamente o que aconteceu, isto é verdade mesmo!
Então contou a eles sobre a grande batalha entre as crianças da cidade de Oxford e os filhos dos oleiros.
Primeiro descreveu os Barreiros, tomando cuidado para incluir tudo de que conseguia se lembrar, os largos tanques de tintura de cor ocre, o cabo do reboque, os fornos que pareciam imensas colmeias de tijolos. Falou a eles sobre os salgueiros-chorões nas margens do rio com as folhas todas prateadas por baixo, e falou de como, quando o sol brilhava por mais de dois dias, a argila começava a rachar em belas e enormes placas, com rachaduras profundas entre elas, e como era a sensação de enfiar os dedos nas rachaduras apertadas e, lentamente, levantar uma grande placa de argila seca, tentando conservá-la tão grande quanto podia, sem quebrá-la. A parte de baixo, ainda molhada e pegajosa, era ideal para atirar nas pessoas.
E descreveu os odores naqueles lugares: a fumaça dos fornos, o cheiro de mofo de folhas apodrecidas do rio, quando o vento soprava de sudoeste, o cheiro gostoso das batatas assadas que os oleiros costumavam comer, e o som da água deslizando escorregadia sobre as calhas. Que a conduziam aos tanques de lavagem, e a sucção lenta e forte quando você tentava puxar o pé para fora do chão, e o bater pesado e molhado das pás das rodas nas comportas, na água cheia de argila.
Enquanto falava, estimulando todos os sentidos deles, os fantasmas se acotovelaram mais, chegando cada vez mais perto, se alimentando de suas palavras, recordando a época em que tinham carne, pele, nervos e sentidos, e desejando que ela nunca mais parasse.
Então ela contou como os filhos dos oleiros sempre declaravam guerra às crianças da cidade, mas como eram lentos e embotados, com barro no cérebro, e como as crianças da cidade, em comparação, eram espertas e rápidas como pardais, e como, certo dia, todas as crianças da cidade e todas as crianças de todas as faculdades tinham engolido as rivalidades, acertando uma trégua, e planejado e feito um ataque vindo de três direções contra os Barreiros, encurralando os filhos dos oleiros na beira do rio, atirando incontáveis grandes punhados de argila uns nos outros, ocupando e derrubando o castelo de barro que eles haviam construído, transformando as fortificações em mísseis, até que o ar, o solo e a água estivessem total e absolutamente misturados, e todas as crianças estivessem exatamente iguais: cobertas de barro dos pés à cabeça, nenhum deles se lembrava de um dia melhor em toda a sua vida.
Quando acabou, ela olhou para Will, exausta. Então teve um choque. Além dos fantasmas, silenciosos e por toda parte, e de seus companheiros, próximos e vivos, também havia uma outra plateia, porque os galhos da árvore estavam repletos daquelas formas escuras de pássaros, seus rostos de mulher olhando fixamente para ela, solenes e fascinados. Lyra se levantou, assustada, de repente, mas elas não se moveram.
— Você — disse, desesperada — você me atacou antes, quando tentei lhe contar uma coisa. O que está impedindo você agora? Vamos, venha e me despedace com suas garras, e faça de mim um fantasma!
— Esta é a última coisa que faremos — disse a harpia no centro, que era a própria Sem-Nome. — Escute-me. Milhares de anos atrás, quando os primeiros fantasmas vieram para cá, a Autoridade nos concedeu o poder de ver o pior em todo mundo, e nos alimentamos do pior desde então, até nosso sangue estar rançoso e fedido disso e nossos corações enojados. Mas, mesmo assim, era só o que tínhamos para nos alimentar. Era tudo o que tínhamos. E agora descobrimos que vocês estão planejando abrir um caminho para o mundo da superfície e conduzir todos os fantasmas para fora, para o ar...
E sua voz áspera foi abafada por um milhão de sussurros, à medida que todos os fantasmas que podiam ouvir gritavam de alegria e esperança, mas todas as harpias gritaram e bateram as asas até que os fantasmas se calaram de novo.
— Sim — gritou Sem-Nome — querem levá-los para fora! O que nós faremos agora? Vou lhe contar o que vamos fazer: de agora em diante, não vamos mais controlar nenhum de nossos impulsos. Vamos ferir e profanar, rasgar e despedaçar todo fantasma que entrar e os deixaremos loucos de medo, de remorso e de ódio por si próprios. Isto aqui agora é um deserto, nós o tornaremos um inferno!
Todas as harpias sem exceção berraram e escarneceram e muitas delas levantaram voo da árvore seguindo direto para cima dos fantasmas, fazendo com que se dispersassem apavorados. Lyra agarrou-se ao braço de Will e disse:
— Eles revelaram nosso plano e agora não vamos mais poder fazer o que tínhamos planejado, eles vão nos odiar, vão pensar que os traímos! Tornamos as coisas piores, não melhores!
— Fique calada — disse Tialys. — Não se desespere. Chame-os de volta e faça com que nos ouçam.
De modo que Will gritou:
— Voltem aqui! Voltem aqui, todos vocês! Voltem e ouçam!
Uma a uma as harpias, com os rostos ávidos e famintos, tingido, pelo desejo de sofrimento, se viraram e voaram de volta para a árvore e os fantasmas também se aproximaram. O cavaleiro deixou sua libélula aos cuidados de Salmakia e sua silhueta pequenina e tensa, vestida de verde e de cabelos escuros, saltou sobre um pedregulho onde todos poderiam vê-lo.
— Harpias — disse ele — podemos lhes oferecer algo melhor que isso. Respondam às minhas perguntas com sinceridade e ouçam o que vou dizer, depois tomem a decisão. Quando Lyra falou com vocês do lado de fora do paredão, vocês a atacaram. Por que fizeram aquilo?
— Mentiras! — gritaram todas as harpias. — Mentiras e fantasias!
— Contudo, quando ela falou ainda há pouco, vocês ouviram, todas vocês, e ficaram quietas e em silêncio. Mais uma vez, por que foi isso?
— Porque era verdade — disse Sem-Nome. — Porque ela falou a verdade. Porque ouvir a verdade nos nutriu. Porque estava nos alimentando. Porque não pudemos nos impedir de fazer isso. Porque era verdade. Porque não tínhamos nenhuma ideia de que pudesse haver alguma coisa que não fosse maldade. Porque ouvir nos trouxe notícias do mundo e do sol, do vento e da chuva. Porque era verdade.
— Então — propôs Tialys — vamos fazer um acordo. Em vez de verem somente a maldade, a crueldade e a cobiça dos fantasmas que vêm aqui para baixo, de agora em diante vocês terão o direito de pedir a cada fantasma que lhes conte a história de sua vida e eles terão que contar a verdade sobre o que viram e tocaram, ouviram, amaram e conheceram no mundo. Cada um desses fantasmas tem uma história, cada um deles que descer no futuro terá coisas verdadeiras para contar a vocês sobre o mundo. E vocês terão o direito de ouvi-los e eles terão que contar.
Lyra ficou maravilhada com a coragem do pequenino espião. Como ousava falar com aquelas criaturas como se tivesse poderes para dar-lhes direitos? Qualquer uma delas poderia tê-lo abocanhado num segundo, despedaçado com suas garras ou carregado para o alto e depois deixado que despencasse no chão de maneira que se arrebentasse em pedaços. E, no entanto lá estava ele, orgulhoso e destemido, fazendo um acordo com elas! E elas ouviram e conferenciaram, os rostos se virando uns para os outros, as vozes baixas.
Todos os fantasmas ficaram observando, temerosos e calados. Então Sem-Nome virou-se de volta.
— Isso não é suficiente — disse ela. — Queremos mais que isso. Tínhamos uma tarefa de acordo com a antiga dispensação. Cumpríamos diligentemente a vontade e as ordens da Autoridade e, por causa disso, éramos honradas. Odiadas e temidas, mas também respeitadas e honradas. O que acontecerá com nossa honra agora? Por que os fantasmas haveriam de nos dar atenção, se simplesmente pudessem sair e voltar para o mundo? Temos nosso orgulho, e não se deve prescindir disso. Precisamos de um lugar honroso! Precisamos ter um dever e uma tarefa a cumprir, isso nos trará o respeito que merecemos!
Elas se agitaram nos galhos, resmungando e levantando as asas. Mas um instante depois Salmakia saltou para ir se juntar ao cavaleiro e gritou para elas:
— Vocês têm toda a razão. Todo mundo deve ter uma tarefa a fazer que seja importante, uma tarefa que lhes traga honra, que possam desempenhar com orgulho. De modo que esta é a tarefa, e é uma tarefa que só vocês podem desempenhar, porque são as guardiãs e as protetoras deste lugar. A tarefa de vocês será guiar os fantasmas do local de desembarque, na margem do lago, durante todo o caminho pela terra dos mortos, até a nova abertura para o mundo. Em troca, eles lhes contarão suas histórias como pagamento justo e certo por essa orientação. Assim lhes parece correto?
Sem-Nome olhou para suas irmãs e elas assentiram. Então disse:
— E teremos o direito de recusar guiá-los se mentirem ou se esconderem alguma coisa, ou se não tiverem nada para nos contar. Se viveram no mundo, eles deveriam ver e tocar, ouvir, amar e aprender coisas. Faremos uma exceção no caso de crianças muito pequenas que não tiveram tempo de aprender coisa nenhuma, mas caso contrário, se descerem até aqui sem trazer nada, nós não os levaremos até a saída.
— Isto é justo — declarou Salmakia e os outros viajantes concordaram. E assim fizeram um acordo. E em troca da história de Lyra, que já tinham ouvido, as harpias se ofereceram para levar os viajantes e sua faca até uma parte da terra dos mortos onde o mundo superior estava próximo. Ficava a uma grande distância, passando por túneis e cavernas, mas elas os guiariam fielmente e todos os fantasmas poderiam segui-los.
Mas antes que pudessem começar, uma voz gritou, tão alto quanto um sussurro pode gritar. Era o fantasma de um homem magro com uma voz passional, raivosa, e ele gritou:
— O que vai acontecer? Quando deixarmos o mundo dos mortos, vamos viver de novo? Ou vamos desaparecer como nossos dimons? Irmãos e irmãs, não devemos seguir esta criança a lugar nenhum enquanto não soubermos o que vai acontecer conosco!
Os outros repetiram a pergunta:
— Sim, diga-nos para onde vamos. Diga-nos o que esperar! Não iremos enquanto não soubermos o que vai acontecer conosco!
Lyra virou-se para Will em desespero, mas ele disse:
— Diga a verdade. Pergunte ao aletiômetro e conte a eles o que o aletiômetro responder.
— Está bem.
Ela tirou o instrumento dourado da bolsa. A resposta veio imediatamente. Lyra guardou o aletiômetro e se levantou.
— Isto é o que vai acontecer — declarou — e é verdade, absolutamente verdade. Quando saírem daqui, todas as partículas que os constituem se desprenderão e flutuarão se dispersando, exatamente como aconteceu com seus dimons. Se já viram pessoas morrerem, sabem como é. Mas seus dimons não são simplesmente nada agora, eles fazem parte de tudo. Todos os átomos que eles eram fazem parte do ar e do vento, das árvores, da terra e de todas as coisas vivas. Eles nunca desaparecerão. Apenas fazem parte de tudo. E é exatamente o que vai acontecer com vocês, juro, dou a vocês minha palavra de honra. Vocês vão se dispersar, é verdade, mas estarão lá fora ao ar livre, novamente fazendo parte de tudo que está vivo.
Ninguém falou. Aqueles que tinham visto como os dimons se dissolviam estavam recordando isso e aqueles que não tinham estavam imaginando, e ninguém falou até que uma jovem mulher se adiantou. Ela havia morrido como mártir séculos antes. Olhou para todos em volta e disse:
— Quando estávamos vivos, disseram-nos que quando morrêssemos iríamos para o céu. E disseram que o céu era um lugar de alegria e glória, e que passaríamos a eternidade em companhia dos santos e dos anjos louvando o Todo-poderoso, em estado de êxtase. Isso é o que nos diziam. E foi o que levou alguns de nós a dar nossas vidas, e outros a passar anos orando em isolamento e solidão, enquanto toda a alegria de viver ia se perdendo, abandonada ao nosso redor, sem que jamais nos déssemos conta. Porque a terra dos mortos não é um lugar de recompensa nem um lugar de punição. É um lugar de nada. Os bons vêm para cá da mesma forma que os maus, e todos nós definhamos aqui nessa escuridão para sempre, sem nenhuma esperança de libertação ou de alegria, de sono, de descanso ou de paz.
“Mas agora esta criança veio nos oferecer uma saída e eu vou segui-la. Mesmo que isso signifique o apagamento total, amigos, eu o receberei de braços abertos, porque não será nada, estaremos vivos de novo em mil folhas de relva, e em um milhão de folhas, estaremos caindo nas gotas de chuva e soprando na brisa fresca, estaremos brilhando no orvalho sob a luz das estrelas e da lua, lá fora no mundo físico que é nosso verdadeiro lar e sempre foi. De maneira que recomendo e insisto: venham com a criança para sairmos para o céu!”
Mas seu fantasma foi empurrado, afastado com violência pelo fantasma de um homem que parecia um monge: magro e pálido, mesmo depois de morto, com olhos escuros ardentes. Ele se persignou e murmurou uma prece, depois disse:
— Esta é uma mensagem amarga, uma brincadeira triste e cruel. Será que não enxergam a verdade? Esta menina não é uma criança. É uma agente do próprio Satanás! O mundo em que vivíamos era um vale de depravação e de lágrimas. Nada ali podia nos satisfazer. Mas o Todo-poderoso nos concedeu este lugar abençoado por toda a eternidade, este paraíso, que para as almas caídas parece desolado e árido, mas que os olhos da fé veem tal como é, transbordante de leite e mel e ressoando com os doces hinos dos anjos. Isto é o céu, verdadeiramente! O que esta menina má promete nada mais é que mentira. Ela quer conduzi-los para o Inferno! Sigam-na e estarão se expondo por vontade própria a um grande perigo. Meus companheiros e eu, aqueles de fé verdadeira, permaneceremos aqui em nosso paraíso abençoado e passaremos a eternidade cantando louvores ao Todo-poderoso, que nos concedeu juízo para distinguir a mentira da verdade.
Mais uma vez se persignou e então ele e seus companheiros se afastaram tomados pelo horror e pela repugnância.
Lyra sentia-se confusa. Será que estava enganada? Estaria cometendo algum grande erro? Ela olhou em volta: escuridão e desolação por toda parte. Mas já havia sido enganada antes pela aparência das coisas, confiando na Sra. Coulter, por causa de seu belo sorriso e seu encanto de perfume sedutor. Era tão fácil se enganar com as coisas, e sem seu dimon para orientá-la, talvez também estivesse enganada a respeito da presente situação.
Mas Will estava sacudindo seu braço. Depois tomou o rosto dela nas mãos e o segurou de modo bruto.
— Você sabe que isso não é verdade — declarou — exatamente como é capaz de sentir isso. Não dê atenção ao que ele disse! Eles todos também sabem que ele está mentindo, e estão contando conosco. Vamos, vamos tratar de ir embora.
Ela assentiu. Tinha que confiar em seu corpo e na verdade do que seus sentidos lhe diziam, sabia que Pan teria confiado.
E assim eles se puseram em marcha, e os milhões de fantasmas começaram a segui-los. Atrás deles, muito distante para que as crianças pudessem ver, outros habitantes do mundo dos mortos tinham ouvido o que estava acontecendo e estavam vindo se juntar à grande marcha. Tialys e Salmakia voaram até lá atrás para olhar, e ficaram radiantes ao ver fantasmas de seu próprio povo acompanhando, e de todos os outros tipos de seres conscientes que algum dia haviam sido punidos pela Autoridade com o exílio e a morte. Entre eles havia seres que não pareciam absolutamente humanos, seres como os mulefas, que Mary Malone teria reconhecido, e também fantasmas ainda mais estranhos.
Mas Will e Lyra não tinham forças para olhar para trás, tudo o que conseguiam fazer era seguir adiante atrás das harpias e ter esperança.
— Estamos quase chegando, Will? — sussurrou Lyra. — Isso está quase acabando?
Ele não sabia dizer. Mas estavam tão fracos e doentes que respondeu:
— Sim, está quase acabando, estamos quase chegando. Logo estaremos fora daqui.

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