4 de fevereiro de 2017

22. A traição

ELA despertou com um homem sacudindo seu braço. Então Pantalaimon acordou com um pulo e rosnou, e ela reconheceu Thorold. Ele segurava uma lamparina a nafta na mão trêmula.
— Senhorita, senhorita, levante depressa! Não sei o que fazer. Ele não deixou ordens. Acho que ele enlouqueceu.
— O quê? O que está havendo?
— Lorde Asriel, senhorita. Ele esteve quase delirando desde que a senhorita foi dormir. Nunca vi meu amo tão descontrolado. Arrumou muitos instrumentos e várias baterias num trenó, atrelou os cachorros e partiu. Mas levou o menino, senhorita!
— Roger? Ele levou o Roger?
— Ele me disse para acordar e vestir o menino, e nem pensei em perguntar nada, nunca fiz isso. O menino ficou perguntando pela senhorita, mas Lorde Asriel queria ele sozinho. Lembra quando a senhorita chegou? Quando ele viu quem era, não queria acreditar, e ficou mandando a senhorita ir embora?
A cabeça de Lyra estava tão cheia de pensamentos e temores que ela mal conseguia pensar.
— Sei! Sei! — afirmou.
— Era porque ele precisava de uma criança para terminar a experiência, senhorita! E Lorde Asriel tem um jeitinho todo especial de conseguir o que quer; é só pedir e...
Agora a cabeça de Lyra estava cheia de trovões, como se ela estivesse tentando evitar que certa informação chegasse ao seu consciente.
Tinha saído da cama e ia vestir suas roupas quando caiu no chão de repente. Um agudo grito de desespero a envolveu. O grito saíra dela, mas era maior do que ela; era como se o desespero é que estivesse gritando. Pois ela havia se lembrado das palavras dele: a energia que une o corpo ao dimon é imensamente poderosa; e para servir de ponte entre os dois mundos era preciso uma descarga de energia fenomenal...
Ela acabava de perceber o que fizera.
Tinha lutado para chegar até ali para levar algo a Lorde Asriel, pensando saber o que ele queria; e não era o aletiômetro. Tudo que ele queria era uma criança.
E ela tinha levado Roger para ele!
Por isso ele tinha gritado quando viu Lyra: “Não mandei buscá-la!”; ele mandara buscar uma criança, e o destino lhe trouxera sua própria filha — era o que ele havia pensado, até ver Roger. Ah, que angústia terrível! Ela pensava que estava salvando Roger e o tempo todo estava trabalhando para trair o amigo... Lyra estremecia, aos soluços. Aquilo não podia ser verdade!
Thorold tentou acalmá-la, mas não sabia o motivo para tanto sofrimento, e tudo que podia fazer era ficar dando uns tapinhas nervosos no ombro dela.
— Iorek... — ela soluçou, afastando o criado. — Onde está Iorek Byrnison? O urso? Ainda está lá fora?
O velho deu de ombros, sem saber responder.
— Me ajude! — ela pediu, tremendo de fraqueza e medo. — Traga meus agasalhos. Tenho que ir. Agora! Rápido!
Ele pousou a lamparina e fez o que ela pedia. Quando dava ordens naquele tom imperioso, ela ficava muito parecida com o pai, embora tivesse o rosto molhado de lágrimas e os lábios trêmulos. Enquanto Pantalaimon andava de um lado para outro sacudindo a cauda com força, a pelagem quase faiscando, Thorold correu para trazer as peles dela, rígidas e fedorentas, e ajudar Lyra a se agasalhar. Assim que todos os botões estavam fechados, ela correu para a porta, e sentiu o frio atingir sua garganta como uma espada e congelar as lágrimas em seu rosto.
— Iorek! — ela se pôs a gritar. — Iorek Byrnison! Venha, preciso de você!
Houve uma erupção de neve, um ruído de metal, e o urso apareceu a seu lado; estivera dormindo tranquilamente sob a neve que caía. Na luz da lamparina que Thorold segurava junto à janela, Lyra viu a cabeça comprida e sem rosto, as frestas escuras dos olhos, o brilho de pelos brancos sob o metal preto-avermelhado, e teve vontade de abraçá-lo, procurando consolo no elmo de ferro, na pele de pontas de gelo.
— Que foi? — ele perguntou.
— Temos que alcançar Lorde Asriel. Ele levou o Roger e vai... não consigo nem pensar nisso... Ah, Iorek, eu lhe imploro, temos que ir depressa, meu querido!
— Então vamos — ele retrucou.
Lyra saltou para as costas do urso. Não havia necessidade de perguntar o caminho; o rastro do trenó levava para a planície, e Iorek partiu no encalço dele. Seu movimento fazia agora parte de Lyra, de modo que se equilibrar havia se tornado uma coisa automática para ela. Ele corria mais depressa do que nunca pelo espesso manto de neve sobre o solo rochoso, e as placas da sua armadura roçavam umas nas outras num ritmo regular.
Atrás deles, os outros ursos vinham mais devagar, puxando o lançador de fogo. O caminho estava claro, pois a lua estava alta, e sua luz, derramando-se sobre o mundo nevado, era tão clara como tinha sido no balão: um mundo de prata brilhante e negrume total. O rastro do trenó de Lorde Asriel ia direto para uma serra de picos pontiagudos, formas aguçadas e estranhas que sobressaíam num céu tão negro quanto o veludo que embrulhava o aletiômetro.
Não havia sinal do trenó — ou havia um levíssimo movimento na encosta do pico mais alto? Lyra tentou enxergar, forçando os olhos, e Pantalaimon voou o mais alto que pôde para espiar com sua visão clara de coruja.
— É Lorde Asriel, sim, ele está chicoteando furiosamente os cães, e tem uma criança com ele...
Lyra sentiu Iorek Byrnison diminuir a velocidade; alguma coisa tinha chamado sua atenção. Ele erguia a cabeça, virando-a para a esquerda e para a direita.
— Que é? — ela quis saber.
Ele não disse. Estava escutando com atenção, mas ela nada conseguia ouvir. Mas então ouviu alguma coisa: um ruído misterioso e muito distante de coisa roçando e estalando. Era um som que ela já ouvira: o som da Aurora Boreal. Um véu de brilho tinha caído do nada e pendia cintilante no céu austral. Todos aqueles bilhões e trilhões de partículas carregadas invisíveis, e possivelmente também — ela pensou — de Pó, formavam uma radiância descendo da atmosfera superior. Nessa noite, a Aurora Boreal ia ser bem mais brilhante e extraordinária do que qualquer outra que Lyra já vira, como se soubesse do drama que se desenrolava lá embaixo e quisesse iluminá-lo com os mais impressionantes efeitos especiais. Mas nenhum dos ursos estava olhando para cima: tinham a atenção voltada para a terra.
Então não havia sido a Aurora que atraíra a atenção de Iorek! O urso agora estava imóvel, e Lyra escorregou das costas dele, sabendo que ele precisava de liberdade de movimentos para poder se orientar. Alguma coisa o preocupava.
Lyra olhou em volta e para trás, para a vastidão plana que levava à casa de Lorde Asriel, olhou para as montanhas que tinham atravessado mais cedo, e nada viu. A Aurora Boreal ficou mais intensa; os primeiros véus tremularam e deslizaram para um lado, e cortinas irregulares se dobraram e se desdobraram acima deles, aumentando em tamanho e brilho a cada minuto; espirais e arabescos se retorciam de um horizonte a outro, e tocavam o próprio zênite com arcos de luz. Ela escutava com mais clareza do que nunca o portentoso canto sibilado de vastas forças inalcançáveis.
— As feiticeiras! — exclamou uma voz de urso.
Lyra se virou, com alegria e alívio, mas um focinho pesado a empurrou pelas costas e a jogou no chão; sem fôlego para se levantar, a menina ficou caída, ofegante e trêmula, pois no lugar onde ela estivera de pé havia agora a pena verde de uma flecha; a ponta e o cabo estavam enterrados na neve.
“Impossível!”, ela pensou, mas era verdade, pois outra flecha bateu ruidosamente na armadura de Iorek, que estava de pé acima dela.
Não eram as feiticeiras de Serafina Pekkala; eram de outro clã. Ficaram voando em círculos, mais de uma dúzia delas, dando rasantes para atirar uma flecha e tornando a subir depressa, e Lyra xingou muito, dizendo todos os palavrões que sabia.
Iorek Byrnison deu ordens rápidas. Era evidente que os ursos tinham prática em lutar contra feiticeiras, pois no mesmo instante eles se colocaram em posição defensiva, e as feiticeiras passaram ao ataque. Elas só conseguiam acertar no alvo se atirassem de perto, e para não desperdiçar flechas elas mergulhavam, atiravam a flecha e no mesmo instante subiam. Mas quando chegavam ao ponto mais baixo do mergulho, tendo as mãos ocupadas com o arco e a flecha, elas ficavam vulneráveis, e os ursos saltavam para o alto com as garras estendidas e puxavam as feiticeiras para o chão. Várias foram derrubadas assim, e logo liquidadas.
Lyra ficou abaixada junto a uma rocha, observando. Algumas feiticeiras atiraram nela, mas erraram o alvo; e então Lyra, olhando para cima, viu que a maior parte do grupo se destacava e ia embora.
Se ela ficou aliviada com isso, o alívio não durou mais que uns instantes: da direção que as feiticeiras tinham tomado vinham muitas outras, e com elas no céu havia um grupo de luzes brilhantes; e vindo do outro lado da planície de Svalbard, sob a radiância da Aurora Boreal, ela ouviu um som que abominava: o pulsar de um motor a gás. O zepelim estava chegando, trazendo a bordo a Sra. Coulter e sua tropa.
Iorek rosnou uma ordem e os ursos tomaram outra formação. Lyra ficou observando enquanto eles preparavam o lançador de fogo. A linha de frente da esquadrilha de feiticeiras também viu isso e a saraivada de flechas recomeçou, mas os ursos confiavam em suas armaduras e trabalharam depressa para montar o aparelho: um braço comprido que se estendia para o alto em ângulo e uma cuia com um metro de diâmetro; e um grande tanque de ferro coberto de fumaça e vapor.
Enquanto ela observava, surgiu uma labareda brilhante, e uma equipe de ursos bem treinados se pôs em ação. Dois deles baixaram o braço do lançador de fogo, outro jogou pás de fogo dentro da cuia e veio a ordem de disparo; o enxofre flamejante foi lançado para o céu escuro. As feiticeiras estavam tão juntas no céu acima deles que três delas caíram no primeiro tiro, mas logo ficou claro que o verdadeiro alvo era o zepelim. O piloto nunca tinha visto um lançador de fogo, ou então subestimava o poder da arma, pois continuou voando diretamente para os ursos, sem subir ou se desviar.
Então eles entenderam que o zepelim também tinha uma arma poderosa: uma metralhadora montada no nariz da gôndola. Lyra viu centelhas voando da armadura de alguns ursos, e os viu se enrodilharem para se proteger, antes de ouvir o ruído das balas. Ela gritou com medo.
— Eles estão seguros — disse Iorek Byrnison. — Essas balas de brinquedo não conseguem furar uma armadura.
O lançador de fogo funcionou de novo: dessa vez uma massa de enxofre em chamas foi jogada para o alto e atingiu a gôndola, explodindo numa cascata de brasas. O zepelim fez uma curva para a esquerda e se afastou num grande arco antes de voltar para o grupo de ursos que trabalhavam depressa junto ao lançador de fogo. Enquanto o zepelim se aproximava, o braço da arma descia; a metralhadora cuspiu balas, e dois ursos caíram, arrancando um rugido baixo de Iorek Byrnison; quando a aeronave estava quase acima deles, um urso gritou uma ordem, e o braço do aparelho foi erguido.
Dessa vez, o enxofre foi lançado contra o balão de gás do zepelim. A estrutura rígida segurava uma cobertura de seda impermeabilizada que continha o hidrogênio, e, embora ela fosse suficientemente forte para resistir a pequenos golpes, o peso de toda aquela carga de mineral em chamas foi demais: a seda se rasgou de um lado a outro e o enxofre e o hidrogênio se encontraram, numa catástrofe de chamas.
No mesmo instante, a seda ficou transparente; todo o esqueleto do zepelim ficou visível, escuro contra o inferno vermelho e amarelo, e flutuou no ar pelo que parecia ser um tempo impossivelmente longo antes de cair devagar, quase com relutância. Pequenas figuras, escuras contra a neve e o fogo, saíram dele cambaleando ou correndo, e as feiticeiras desceram para ajudar a afastá-las das chamas. Em menos de um minuto, o zepelim tinha se tornado uma massa de metais retorcidos, fumaça e algumas chamas esparsas.
Mas os soldados a bordo, e os outros também (embora Lyra estivesse longe demais para identificar a Sra. Coulter, sabia que ela estava lá), não perderam tempo; com a ajuda das feiticeiras, eles arrastaram e armaram a metralhadora e continuaram o combate em terra firme.
— Vamos — disse Iorek. — Eles vão aguentar muito tempo.
Ele rugiu, e um grupo de ursos se destacou e atacou o flanco direito dos tártaros. Lyra sentia a vontade que ele tinha de estar lá também, mas os nervos dela gritavam para que partissem, e sua mente estava cheia de imagens de Roger e Lorde Asriel; e Iorek Byrnison sabia, pois deu as costas à luta e começou a subir a montanha, deixando seus ursos combatendo os tártaros.
Enquanto subiam, Lyra forçava os olhos para enxergar à frente, mas nem mesmo o olhar de coruja de Pantalaimon conseguia identificar qualquer movimento no flanco da montanha que eles estavam subindo. Mas as marcas do trenó de Lorde Asriel estavam claras, e Iorek as seguia rapidamente, saltando através da neve, fazendo-a subir atrás de si. O que acontecia atrás deles era exatamente isto: algo que havia ficado para trás. Lyra sentia que estava deixando o mundo para trás, de tão distante e decidida que estava, de tão alto que estavam subindo, de tão estranha e misteriosa era a luz que os banhava.
— Iorek, você vai encontrar Lee Scoresby?
— Vivo ou morto, vou encontrar.
— E se vir Serafina Pekkala...
— Eu conto a ela o que você fez.
— Obrigada, Iorek — ela disse.
Por algum tempo, ficaram em silêncio. Lyra entrou numa espécie de transe que não era dormir nem estar acordada, quase um estado de sonho consciente no qual ela sonhava que estava sendo carregada por ursos para uma cidade nas estrelas.
Ia contar isso a Iorek Byrnison quando ele parou.
— Os rastros continuam em frente, mas eu não posso — disse ele.
Lyra saltou para o chão e parou ao lado dele. Estavam de pé na beira de um abismo. Era difícil dizer se se tratava de uma fenda no gelo ou uma fissura na rocha, mas isso não fazia diferença. O que importava era que o precipício mergulhava na escuridão.
E o rastro do trenó de Lorde Asriel chegava até a borda... e ia em frente, por uma ponte de neve compactada.
Era evidente que a ponte tinha sentido o peso do trenó, pois havia nela uma rachadura junto à outra borda do abismo, e a superfície da ponte perto da rachadura tinha cedido quase meio metro. Poderia suportar o peso de uma criança, mas nunca o de um urso de armadura.
E o rastro de Lorde Asriel atravessava a ponte e subia a montanha do outro lado. Se Lyra continuasse, teria que ir sozinha. Ela falou para Iorek Byrnison:
— Tenho que atravessar. Obrigada por tudo que fez por mim. Não sei o que vai acontecer quando eu alcançar Lorde Asriel. Podemos morrer todos, mesmo que eu não chegue até lá. Mas se eu voltar, virei fazer uma visita para agradecer mais uma vez, Rei Iorek Byrnison.
Ela colocou a mão na cabeça dele, e ele assentiu delicadamente.
— Adeus, Lyra da Língua Mágica — disse.
Com o coração apertado e dolorido, ela colocou um pé na ponte. A neve estalou sob seu peso, e Pantalaimon voou para pousar na outra extremidade da ponte e encorajá-la a prosseguir. Ela deu um passo após outro, perguntando-se a cada passo se não seria melhor correr até o outro lado e dar um pulo para a margem ou ir devagar como estava fazendo, pisando de leve. Na metade do percurso, ela ouviu outro estalido da neve; perto de seus pés, um pedaço de gelo despencou no abismo, e a ponte cedeu mais alguns centímetros.
Ela ficou imóvel. Pantalaimon, em forma de leopardo, estava agachado, pronto para saltar e agarrá-la.
A ponte aguentou. Ela deu outro passo, mais outro, e então sentiu que alguma coisa cedia sob seus pés e saltou para a borda com toda a força que tinha. Aterrissou de barriga na neve e no mesmo instante a ponte inteira caía no abismo.
Pantalaimon tinha as garras cravadas nas peles do agasalho da menina.
Depois de um minuto, ela abriu os olhos e rastejou para longe da borda. Já não havia caminho de volta. Ela ficou de pé e levantou a mão para o urso que a observava. Iorek Byrnison ficou de pé nas patas traseiras para se despedir, e então desceu a montanha correndo, para ir ajudar seus guerreiros na batalha contra a Sra. Coulter e os soldados do zepelim. Lyra estava sozinha.

Um comentário:

  1. Alone, alone, alone... o último capítulo está bem ao lado, ansiosa pelo final!

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Boa leitura :)