17 de fevereiro de 2017

22. Os sussurrantes

Basto como o Outono, as folhas juncam de valumbrosa, as plácidas ribeiras, sobre as quais densa arcadas sempre enramam de bela entrúpia os altos arvoredos.
John Milton, Canto I

A primeira coisa que Will fez foi botar Lyra sentada e então pegou o potinho de unguento de musgo-sanguíneo e examinou a ferida em sua cabeça. Estava sangrando muito, como é habitual em feridas no couro cabeludo, mas o corte não era fundo. Ele rasgou uma tira da fralda da camisa e limpou a ferida, depois passou um pouco do unguento no corte, tentando não pensar no estado de imundície da garra que o fizera. Os olhos de Lyra estavam vidrados e ela estava branca como giz.
— Lyra! Lyra! — chamou e a sacudiu de leve. — Agora vamos, temos que ir embora.
Ela estremeceu dos pés à cabeça, respirou fundo, ainda trêmula, e seus olhos se concentraram nele, cheios de um intenso desespero.
— Will... eu não sei mais fazer direito, não consigo mais! Não sei mais contar mentiras! Achava que era tão fácil, mas não funcionou, é a única coisa que sei fazer e não funciona!
— Não é a única coisa que sabe fazer. Você sabe ler o aletiômetro, não sabe? Vamos lá, vamos ver onde estamos. Vamos procurar Roger.
Ele a ajudou a se levantar e pela primeira vez olharam ao redor para a terra onde ficavam os espíritos.
Encontravam-se numa grande planície que se estendia para muito longe na neblina. A luz que lhes permitia enxergar era uma luminescência baça, que parecia existir por toda parte com igual intensidade, de modo que não havia realmente sombras nem luz de verdade e tudo era de uma mesma cor encardida.
De pé no chão daquele espaço imenso estavam adultos e crianças fantasmas de pessoas — tantos que Lyra não seria capaz nem de calcular seu número. Pelo menos a maioria estava de pé, embora alguns estivessem sentados e outros deitados sem energia, ou adormecidos. Ninguém estava se mexendo, nem correndo, nem brincando, embora muitos deles se virassem para olhar para aqueles recém-chegados com uma curiosidade temerosa nos olhos arregalados.
— Fantasmas — sussurrou ela. — Ê aqui que estão todos eles, os espíritos de todo mundo que morreu...
Sem dúvida era porque ela não tinha mais Pantalaimon, mas o fato é que se manteve agarrada, colada ao braço de Will, e ele ficou satisfeito com isso. Os galivespianos tinham saído voando adiante, e Will conseguia ver suas formas pequeninas e coloridas dardejando e fazendo voos rasantes sobre as cabeças dos fantasmas, que olhavam para cima e os seguiam maravilhados, mas o silêncio era imenso e opressivo, a luz cinza o enchia de medo e a presença calorosa de Lyra a seu lado era a única coisa que lhe passava a sensação de vida.
Atrás deles, do lado de fora do paredão, os gritos das harpias ainda ecoavam ao longo da costa. Alguns, dentre aquele povo-fantasma, estavam olhando para o alto apreensivamente, mas um número maior deles olhava fixamente para Will e Lyra e então começaram a se aproximar todos juntos. Lyra se encolheu e recuou, ainda não tinha forças, por enquanto, para encará-los como gostaria de fazer e foi Will quem falou primeiro.
— Vocês falam nossa língua? — perguntou. — Podem falar?
Mesmo tremendo de frio, assustados e cheios de dor como estavam, ele e Lyra tinham mais autoridade do que toda aquela massa de mortos juntos. Aqueles pobres fantasmas tinham muito pouca força e ao ouvir a voz de Will, a primeira voz clara que havia soado ali em toda a memória dos mortos, muitos deles se adiantaram, prontos para responder.
Mas só conseguiam sussurrar. Um som pálido, não mais que um sopro suave, era tudo o que conseguiam emitir. E, enquanto avançavam, empurrando-se uns aos outros e desesperados, os galivespianos voaram baixo e começaram a dardejar, ziguezagueando na frente deles para impedi-los de chegar perto demais. As crianças fantasmas olharam para cima com uma expressão de anseio apaixonado, e Lyra imediatamente soube por que: achavam que as libélulas eram dimons, estavam desejando de todo coração que pudessem novamente ter seus próprios dimons.
— Ah, mas eles não são dimons — Lyra não pôde se conter, cheia de compaixão — e se meu dimon estivesse aqui, vocês poderiam todos fazer carinho nele, juro...
E estendeu as mãos para as crianças. Os fantasmas adultos se mantiveram mais atrás, indiferentes ou temerosos, mas as crianças todas se aproximaram em massa. Tinham a mesma substância que uma névoa espessa, pobrezinhas, e as mãos de Lyra as atravessavam completamente, assim como as de Will. Elas continuaram vindo, se aglomerando, leves e sem vida, para se aquecer no sangue que fluía e nos corações que batiam forte dos dois viajantes, e tanto Will quanto Lyra sentiram uma sucessão de delicadas sensações de ligeiros toques frios, à medida que os fantasmas passavam atravessando seus corpos, aquecendo-se no caminho. As duas crianças vivas sentiram que, pouco a pouco, estavam começando a morrer também, não tinham uma reserva infinita de vida e de calor para dar e já estavam com tanto frio, mas as multidões fazendo pressão e avançando pareciam que nunca iriam parar. Finalmente Lyra teve que implorar a eles que parassem. Ela levantou as mãos e disse:
— Por favor, gostaríamos de poder tocar todos vocês, mas viemos aqui para procurar uma pessoa e preciso que me digam onde ele está e como posso encontrá-lo. Ah, Will — disse ela encostando a cabeça na dele — gostaria de saber o que fazer!
Os fantasmas estavam fascinados com o sangue na testa de Lyra. Brilhava vividamente como um fruto de azevim na semiobscuridade e vários deles tinham passado através dele, ansiando pelo contato com algo tão vibrantemente vivo. Uma menina fantasma, que quando estava viva devia ter tido nove ou dez anos, levantou a mão timidamente para tentar tocar nele, depois recuou temerosa, mas Lyra disse:
— Não tenha medo, a gente não veio aqui para machucar vocês, falem com a gente, se puderem!
A menina fantasma falou, mas sua voz frágil, pálida, foi apenas um sussurro.
— Foram as harpias que fizeram isso? Elas atacaram e machucaram você?
— Machucaram — respondeu Lyra — mas se é só isso que podem fazer, não estou nem um pouco preocupada.
— Ah, mas não é... elas fazem coisa pior...
— O quê? O que elas fazem?
Mas pareciam relutantes em contar a ela. Sacudiram a cabeça e mantiveram-se calados, até que um menino disse:
— Não é tão ruim pra eles que já estão aqui há centenas de anos, porque você fica cansado depois desse tempo todo, elas não conseguem mais te meter tanto medo.
— É com os novos que elas gostam mais de falar — disse a primeira menina. — É tão... Ah, é tão horrível. Elas... eu não posso contar a você.
As vozes deles não eram mais altas que o som de folhas secas caindo. E eram apenas as crianças que falavam, os adultos pareciam todos ter mergulhado numa letargia antiga que poderiam nunca mais se mexer ou falar.
— Escutem — pediu Lyra — por favor, escutem. Nós viemos aqui, eu e meus amigos, porque temos que encontrar um menino chamado Roger. Ele não está aqui há muito tempo, só há algumas semanas, de modo que não deve ter conhecido muita gente, mas se souberem onde ele está...
Mas, ao mesmo tempo em que falava, ela sabia que poderiam ficar ali até se tornarem velhos, procurando por toda parte e olhando cada rosto e, ainda assim, poderiam nunca ver mais que uma minúscula fração dos mortos. Lyra sentiu o desespero descer sobre seus ombros, tão pesado como se a harpia estivesse empoleirada ali. Contudo, ela cerrou os dentes e tentou manter o queixo erguido. “Nós chegamos aqui”, pensou, “de qualquer maneira, isso já é uma parte que está feita.”
A primeira menina fantasma estava dizendo alguma coisa naquele pequeno sussurro perdido.
— Quer saber por que queremos encontrar o menino? — perguntou Will. — Bem, Lyra quer falar com ele. Mas também tem uma pessoa que eu quero encontrar. Eu quero encontrar meu pai, John Parry. Ele também está aqui, em algum lugar, e quero falar com ele antes de voltar para o mundo. Assim, por favor, se puder, peça a Roger e peça a John Parry para virem falar com Lyra e com Will. Peça a eles...
Mas, de repente, todos os fantasmas lhes deram as costas e saíram correndo, inclusive os adultos, como folhas secas espalhadas por uma súbita rajada de vento. Num instante o espaço em volta das crianças ficou vazio e então eles ouviram por que: gritos, berros, guinchos altos e agudos vinham do ar acima, e então as harpias estavam em cima deles, com rajadas de fedor pútrido, asas batendo e aqueles berros roucos, escarnecendo, zombando, gargalhando, chacoteando.
Lyra encolheu-se no chão imediatamente, cobrindo as orelhas, e Will, de faca em punho, agachou-se sobre ela. Podia ver Tialys e Salmakia voando rapidamente na direção deles, mas ainda estavam a alguma distância e ele teve apenas um instante para observar as harpias enquanto giravam em círculos e mergulhavam. Viu suas faces humanas abocanharem o ar, como se estivessem comendo insetos, e ouviu as palavras que estavam gritando palavras de escárnio, palavras imundas, tudo sobre sua mãe, palavras que faziam tremer seu coração, mas parte de sua mente estava absolutamente fria e separada, pensando, calculando, observando. Nenhuma delas queria chegar sequer perto da faca.
Para ver o que aconteceria, ele se levantou. Uma delas — podia ter sido a própria Sem-Nome — teve que se desviar pesadamente para sair do caminho, porque ela estivera mergulhando baixo, pretendendo fazer um voo rasante logo acima de sua cabeça. As asas pesadas bateram desastradamente e foi por um triz que ela conseguiu mudar de direção. Will poderia ter estendido o braço e cortado fora sua cabeça com a faca.
Mas, a essa altura, os galivespianos tinham chegado e os dois estavam prontos para atacar, mas Will chamou:
— Tialys! Venha cá! Salmakia venha me ajudar!
Os dois pousaram em seus ombros e ele disse:
— Observem. Vejam o que elas fazem. Elas só chegam perto e gritam. Acho que foi um erro, quando ela acertou Lyra. Não acho que queiram realmente nos tocar. Podemos ignorá-las.
Lyra olhou para cima, os olhos arregalados. Os monstros voavam fazendo círculos sobre a cabeça de Will, às vezes, a apenas cerca de 30 centímetros de distância, mas sempre davam uma guinada desviando-se para o lado ou para o alto no último momento. Ele podia sentir que os espiões estavam loucos para entrar em combate e as asas das libélulas tremendo de desejo de sair dardejando velozmente pelo ar com seus cavaleiros letais, mas eles se contiveram: viram que Will estava certo.
E aquilo teve um efeito sobre os fantasmas também: vendo Will de pé sem medo e ileso, eles começaram a se movimentar de volta, na direção dos viajantes.
Observavam as harpias cautelosamente, mas, apesar disso, a atração de carne e sangue frescos, daquelas batidas fortes de coração, era demais para resistirem.
Lyra se levantou para se juntar a Will. A ferida tinha aberto de novo e sangue fresco escorria descendo por sua face, mas ela o limpou com as costas da mão.
— Will — disse — estou tão feliz por termos vindo aqui juntos...
Ele ouviu uma inflexão na voz dela e viu uma expressão em seu rosto que conhecia e de que gostava mais do que qualquer coisa que jamais conhecera: mostravam que ela estava pensando em fazer alguma coisa arriscada, mas que ainda não estava pronta para falar disso.
Ele balançou a cabeça, para mostrar que tinha compreendido. A menina fantasma disse:
— Por aqui, venham conosco, vamos encontrá-los!
E os dois sentiram a mais estranha das sensações, como se pequeninas mãos fantasmas estivessem se enfiando lá dentro e puxando-lhes as costelas para fazer com que as seguissem.
E assim eles iniciaram a travessia da imensa planície deserta, e as harpias voaram em círculos cada vez mais alto, acima deles, gritando incessantemente.
Mas mantiveram-se à distância e os galivespianos voaram logo acima deles, vigilantes.
Enquanto iam caminhando, os fantasmas conversaram com eles.
— Não me leve a mal — disse uma menina fantasma — mas onde estão seus dimons? Desculpe a pergunta. Mas...
Presente na consciência de Lyra, em cada um dos segundos que se passavam, estava seu querido Pantalaimon abandonado. Para ela não era fácil falar, de modo que foi Will quem respondeu:
— Deixamos nossos dimons do lado de fora — explicou — onde é mais seguro para eles. Vamos buscá-los depois. Você tinha um dimon?
— Tinha — disse a menina fantasma — o nome dele era Sanling... Ah, eu o amava...
— E ele já tinha fixado uma forma definitiva? — perguntou Lyra.
— Não, ainda não. Ele achava que ia ser um pássaro e eu esperava que não, porque gostava dele bem peludo, à noite, em minha cama. Mas cada vez mais ele era um pássaro. Como se chama o seu dimon?
Lyra disse a ela e os fantasmas se aproximaram em bloco, novamente animados. Todos eles queriam falar sobre seus dimons, cada um deles.
— O meu se chamava Matapan...
— Costumávamos brincar de esconde-esconde, ela mudava de forma como um camaleão e eu não conseguia vê-la, era tão rápida...
— Uma vez machuquei meu olho e não conseguia ver e ele me guiou o caminho inteiro, até chegar em casa...
— Ele não queria se fixar numa forma só, mas eu queria crescer e costumávamos discutir...
— Ela gostava de se enroscar em minha mão e dormir...
— Eles ainda estão lá, em algum outro lugar? Nós os veremos de novo?
— Não. Quando você morre, seu dimon simplesmente se apaga como a chama de uma vela. Eu vi isso acontecer. Mas não vi o meu Castor, nem pude me despedir...
— Eles não estão em lugar nenhum. Têm que estar em algum lugar. Meu dimon ainda está lá em algum lugar, sei que ele está!
Os fantasmas se acotovelando estavam animados e impacientes, os olhos brilhantes e as faces calorosas, como se estivessem tomando vida emprestada dos viajantes.
— Alguém aqui vem do meu mundo, onde não temos dimons? — perguntou Will.
Um menino fantasma magro, mais ou menos de sua idade, assentiu e Will virou-se para ele.
— Pois é — veio a resposta. — Não compreendíamos o que eram dimons, mas sabíamos como era estar sem eles. Tem gente aqui de todos os tipos de mundos.
— Eu conheci o vulto de minha morte — disse uma garota — eu o conheci durante todo o tempo em que estive crescendo. Quando os ouvia falar sobre dimons, pensava que queriam dizer alguma coisa parecida com nossa morte. “Minha tarefa está terminada, não precisa mais se preocupar com isso” foi a última coisa que ele me disse e então foi embora para sempre. Quando estava comigo, eu sabia que sempre havia alguém em quem podia confiar, alguém que sabia para onde a gente estava indo e o que fazer. Mas agora não tenho mais ele. Não sei mais o que vai acontecer.
— Não tem nada que vai acontecer! — disse uma outra pessoa.
— Nada, para sempre!
— Você não sabe — rebateu uma outra. — Eles vieram, não foi? Ninguém nunca soube que isso iria acontecer.
Ela estava se referindo a Will e Lyra.
— Esta é a primeira coisa que já aconteceu aqui — disse um menino fantasma. — Talvez agora tudo vá mudar.
— O que vocês fariam, se pudessem? — perguntou Lyra.
— Subir de novo para o mundo!
— Mesmo se isso significasse que só iriam poder ver o mundo uma única vez, mesmo assim iriam querer fazer isso?
— Queremos! Queremos! Queremos!
— Bem, de qualquer maneira, tenho que encontrar Roger — disse Lyra, entusiasmadíssima com sua nova ideia, mas o primeiro a saber deveria ser Will.
No solo da planície infindável, houve um vasto movimento lento entre os incontáveis fantasmas. As crianças não podiam ver, mas Tialys e Salmakia, voando acima, observaram as pequenas figuras pálidas todas se movendo com um efeito que se parecia com a migração de imensos bandos de pássaros ou rebanhos de renas. No centro do movimento estavam as duas crianças que não eram fantasmas, seguindo adiante em ritmo constante, sem liderar e sem seguir, mas de alguma forma concentrando o movimento numa intenção de todos os mortos.
Os espiões, seus pensamentos voando ainda mais ligeiros que suas impetuosas montarias dardejantes, trocaram um olhar e conduziram as libélulas a pousar lado a lado num galho seco e murcho.
— E nós temos dimons, Tialys? — perguntou a dama.
— Desde que embarcamos naquele barco, me senti como se meu coração tivesse sido arrancado e arremessado, ainda batendo, para a margem do lago — disse ele. — Mas não foi, ainda está pulsando aqui em meu peito. De modo que alguma coisa minha ficou lá com o dimon da garotinha e alguma coisa sua também, Salmakia, porque seu rosto e suas mãos estão pálidos e tensos. De maneira que, sim, temos dimons, sejam lá o que forem. Talvez as pessoas no mundo de Lyra sejam os únicos seres vivos que sabem que os têm. Talvez seja por isso que foi um deles quem iniciou a revolta.
Ele desmontou da libélula e a amarrou bem, e então pegou o magneto ressonante. Mas mal tinha começado a tocar quando parou.
— Não há resposta — comentou em tom sombrio.
— Então estamos fora do alcance de tudo?
— Fora do alcance de qualquer ajuda, com certeza. Bem, sabíamos que estávamos vindo para a terra dos mortos.
— O menino iria com ela até o fim do mundo.
— Você acha que a faca de Will vai abrir o caminho de volta?
— Tenho certeza que ele acredita que sim. Mas, ah, Tialys, eu não sei.
— Ele é muito jovem. Bem, eles dois são crianças. Você sabe, se ela não sobreviver a isto, a questão se ela escolherá a coisa certa quando estiver diante da tentação deixará de existir. Não terá mais importância.
— Você acha que ela já fez a escolha? Quando escolheu deixar seu dimon na margem do lago? Será que aquela foi a escolha que ela tinha que fazer?
O cavaleiro olhou para baixo, para os milhões que se moviam lentamente no solo da terra dos mortos, todos se deslocando atrás da centelha viva e brilhante de Lyra da Língua Mágica. Podia apenas distinguir seu cabelo, a coisa mais clara na escuridão parcial e ao lado, a cabeça do menino, de cabelos pretos, forte e sólida.
— Não — respondeu Tialys — ainda não. Isso ainda está por vir, seja lá o que for.
— Então devemos cuidar para que ela chegue lá a salvo.
— Os dois. Eles agora estão estreitamente ligados, unidos.
Lady Salmakia sacudiu as rédeas leves de teia de aranha e sua libélula imediatamente levantou voo, arremessando-se do galho rápida como um dardo e, ganhando velocidade, foi descendo em direção às crianças, com o cavaleiro vindo logo atrás.
Mas não pararam junto delas, depois de fazer um voo rasante para se assegurarem de que estavam bem, seguiram voando adiante, em parte porque as libélulas estavam impacientes e em parte porque queriam descobrir até onde aquele lugar desolador se estendia.
Lyra os viu passar num lampejo rápido acima e foi tomada por uma forte sensação de alívio de que ainda houvesse alguma coisa que dardejava e brilhava com beleza. Então, não conseguindo mais guardar sua ideia em segredo, virou-se para Will, mas tinha que cochichar. Chegou os lábios junto da orelha dele e, numa borbulhante torrente de animação, ele a ouviu dizer:
— Will, quero que a gente leve todas essas pobres crianças-fantasmas mortas para fora daqui, os adultos também, podíamos libertar todos! Vamos encontrar o Roger e seu pai e depois, vamos abrir o caminho para o mundo lá fora e libertar todos!
Ele se virou e deu a ela um largo e verdadeiro sorriso, tão caloroso e feliz que Lyra sentiu alguma coisa tropeçar e quase cambalear em seu íntimo, pelo menos, foi essa a impressão que teve, mas, sem Pantalaimon, não podia perguntar a si mesma o que aquilo queria dizer. Podia ter sido uma nova maneira de seu coração bater. Profundamente surpreendida, disse a si mesma para tratar de andar em linha reta e parar de se sentir tonta, atordoada. E assim eles seguiram adiante. O sussurro Roger estava se espalhando mais depressa do que eles conseguiam se mexer, as palavras “Roger — Lyra veio — Roger — Lyra está aqui” eram passadas de um fantasma para outro como a mensagem elétrica que uma célula do corpo transmite para a célula ao lado. E Tialys e Salmakia, avançando em velocidade de cruzeiro lá no alto, montados em suas incansáveis libélulas, e vasculhando com o olhar tudo o que havia ao redor enquanto voavam, finalmente perceberam um novo tipo de movimento. A alguma distância havia uma pequena rotação de atividade. Chegando mais perto em voo rasante, viram-se ser ignorados, pela primeira vez, porque alguma coisa mais interessante estava dominando a atenção de todos os fantasmas. Estavam falando excitadamente em seus sussurros quase silenciosos, estavam apontando, estavam persuadindo alguém a avançar. Salmakia desceu voando baixo, mas não pôde pousar: a aglomeração era grande demais e nenhuma das mãos ou ombros deles suportaria seu peso, mesmo se ousassem tentar. Ela viu um menino fantasma ainda bem criança, com um rosto honesto e infeliz, atordoado e perplexo com o que estavam lhe dizendo, e gritou para ele:
— Roger? Você é Roger?
Ele levantou a cabeça, confuso, nervoso, e assentiu. Salmakia voou de volta para junto de seu companheiro e juntos seguiram rapidamente para onde estava Lyra. Era uma longa distância e de difícil navegação, mas observando os padrões de movimento, finalmente a encontraram.
— Lá está ela — disse Tialys, e gritou: — Lyra! Lyra! Seu amigo está lá!
Lyra levantou a cabeça e estendeu a mão para a libélula. O grande inseto pousou imediatamente, seu colorido vermelho-e-amarelo reluzindo como esmalte, e as asas transparentes retesadas e imóveis de cada lado. Tialys equilibrou-se enquanto ela o erguia trazendo-o à altura de seus olhos.
— Onde? — perguntou, arquejando de excitação. — Está muito longe?
— Uma hora de caminhada — respondeu o cavaleiro. — Mas ele sabe que você está a caminho. Os outros contaram a ele e já confirmamos que era ele. Trate de ir andando e logo se encontrará com ele.
Tialys viu Will fazer um esforço para ficar de pé ereto e se obrigar a encontrar mais alguma energia. Lyra já estava carregada de energia e encheu os galivespianos de perguntas: como parecia estar Roger? Tinham falado com eles? Parecia satisfeito? As outras crianças sabiam do que estava acontecendo e estavam ajudando, ou estavam apenas atrapalhando?
E assim por diante. Tialys tentou responder a todas com sinceridade e paciência e, passo a passo, a menina viva se aproximou do menino que havia conduzido para a morte.

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