17 de fevereiro de 2017

21. As harpias

Odeio coisas inventadas, pura fantasia... tudo deveria ter como base a verdade do fatos.
Byron

Tanto Will como Lyra acordaram tomados por um forte sentimento de apreensão: sentiam-se como presos condenados na manhã do dia marcado para a execução. Tialys e Salmakia estavam cuidando de suas libélulas, trazendo-lhes mariposas capturadas a laço perto da lamparina anbárica sobre o barril de gasolina, lá fora, moscas tiradas de teias de aranha e água num prato de latão. Quando viu a expressão no rosto de Lyra e a maneira como Pantalaimon, sob a forma de camundongo, estava se apertando contra seu peito, Lady Salmakia deixou de lado o que estava fazendo e foi falar com ela. Enquanto isso, Will saiu do casebre para dar uma volta lá fora.
— Vocês ainda podem modificar sua decisão — disse Salmakia.
— Não, não podemos. Nós já decidimos — retrucou Lyra, ao mesmo tempo obstinada e temerosa.
— E se nós não voltarmos?
— Vocês não precisam vir — recordou Lyra.
— Não vamos abandonar vocês.
— Então, e se vocês não voltarem?
— Teremos morrido fazendo alguma coisa importante.
Lyra ficou em silêncio. Na verdade, não havia olhado direito para a pequenina dama antes, mas agora podia vê-la muito claramente, na luz fumegante da lamparina de nafta, colocada sobre a mesa a apenas um braço de distância. O rosto dela era calmo e gentil, não era bonito, nem delicadamente atraente, mas era exatamente o tipo de rosto que você ficaria contente de ver se estivesse doente, infeliz, ou com medo. A voz dela era baixa e expressiva, com uma corrente de riso e de felicidade fluindo sob a superfície límpida. Em toda a vida de que pudesse se recordar, nunca ninguém tinha lido para Lyra quando ia para a cama, ninguém tinha lhe contado histórias, nem cantado cantigas de ninar para ela, antes de dar-lhe um beijo e apagar a luz. Mas naquele momento, de repente, pensou que se algum dia houvesse uma voz capaz de envolvê-la em segurança e aquecê-la com amor, seria uma voz como a de Lady Salmakia, e sentiu um desejo profundo no coração de ter um filho seu para ninar, acalmar, para quem cantar, um dia, numa voz como aquela.
— Bem — disse Lyra, e descobriu que estava com um nó na garganta, de modo que engoliu em seco e encolheu os ombros.
— Veremos — disse a pequenina dama, e retomou suas tarefas.
Depois de terem comido o pão fino e seco e tomado o chá amargo que era tudo o que as pessoas tinham para lhes oferecer, eles agradeceram a seus anfitriões, pegaram suas mochilas e partiram, seguindo pela cidade de casebres em direção à beira do lago. Lyra olhou ao redor, procurando pelo vulto de sua morte, e, de fato, lá estava ele, caminhando educadamente um pouco mais adiante, mas ele não quis se aproximar, embora volta e meia olhasse para trás para ver se o estavam seguindo.
O dia estava carregado de uma neblina sombria. Parecia mais o anoitecer do que dia, e colunas e tiras compridas daquele nevoeiro subiam desalentadoramente das poças no caminho, ou se enrascavam como amantes abandonados nos cabos anbáricos acima. Eles não viram pessoas, apenas uns poucos vultos de mortes, mas as libélulas voavam baixo, rapidamente, pelo ar úmido como se estivessem costurando aquilo tudo com fios invisíveis e era uma alegria para os olhos observar suas cores vivas dardejando de um lado para outro.
Pouco depois, chegaram aos limites onde acabava o aglomerado de casebres e seguiram adiante, acompanhando a margem de um riacho moroso, em meio a moitas de galhos nus e secos. Ocasionalmente, ouviam o coaxar rouco ou um espirrar de água, quando algum anfíbio se assustava, mas o único animal que viram foi um sapo, grande como o pé de Will, que só conseguia sacudir-se num doloroso arfar lateral como se estivesse terrivelmente ferido. Ele estava caído no meio da trilha, tentando sair do caminho e olhando para eles como se soubesse que tinham a intenção de machucá-lo.
— Seria um ato de misericórdia matá-lo — disse Tialys.
— Como sabe? — perguntou Lyra. — Ele pode gostar de ainda estar vivo, apesar de tudo.
— Se o matássemos, o estaríamos levando conosco — disse Will. — Ele quer ficar aqui. Já matei coisas vivas demais. Mesmo uma poça de água estagnada e imunda pode ser melhor do que estar morto.
— Mas e se estiver sentindo dor? — perguntou Tialys.
— Se pudesse nos dizer, saberíamos. Mas, como não pode, não vou matá-lo. Isso seria levar em consideração os nossos sentimentos em vez de os sentimentos do sapo.
Eles seguiram adiante. Pouco depois, o som diferente que suas passadas faziam indicou que havia um espaço aberto por perto, embora o nevoeiro estivesse ainda mais cerrado. Pantalaimon transformara-se num lêmure, com os maiores olhos que ele pôde conseguir, agarrado ao ombro de Lyra, encostado em seus cabelos cobertos de gotículas peroladas de neblina, espreitando e examinando tudo ao redor e não conseguindo ver nada além dela. E ainda continuava tremendo e tremendo sem parar.
De repente, todos eles ouviram uma pequena onda quebrar. O ruído foi baixo, mas veio de muito perto. As libélulas retornaram com seus cavaleiros para junto das crianças, e Pantalaimon enfiou-se por dentro da camisa colando-se ao peito de Lyra, enquanto ela e Will chegavam mais perto um do outro, pisando com cuidado no solo escorregadio.
E então chegaram à praia. A água oleosa, cheia de espuma, estava lisa, diante deles, uma ondulação ocasional quebrava languidamente nos seixos. O caminho fazia uma curva para a esquerda e, um pouco mais adiante, mais como um espessamento da neblina que como um objeto sólido, um molhe de madeira se projetava estranhamente sobre a água. Os pilares estavam apodrecidos e as tábuas verdes de limo, e não havia mais nada, nada além dele, o caminho acabava onde o molhe começava e onde o molhe acabava, começava a neblina.
O vulto da morte de Lyra, os tendo guiado até ali, fez uma mesura para ela, e saiu andando para a neblina, e desapareceu antes que ela pudesse lhe perguntar o que fazer a seguir.
— Escute — disse Will.
Havia um som lento, lá fora, na água invisível: um ranger de madeira e um suave e regular espadanar de água. Will pôs a mão sobre a faca enfiada na bainha no cinto e se adiantou caminhando pelo molhe pisando com cuidado nas tábuas meio apodrecidas. Lyra o seguiu logo atrás. As libélulas se empoleiraram nos dois pilares de atracação cobertos de ervas, parecendo guardiões heráldicos, e as crianças pararam na ponta do molhe, esforçando-se para ver através do nevoeiro e tendo que limpar os cílios das gotas que se acomodavam neles. O único som era aquele lento ranger e espadanar que, cada vez mais, estava se aproximando.
— Vamos desistir de ir! — implorou Pantalaimon baixinho.
— Temos que ir — cochichou Lyra em resposta.
Ela olhou para Will. A expressão de seu rosto era dura, implacável e impaciente: ele não desistiria. E os galivespianos, Tialys no ombro de Will, Salmakia no de Lyra, pareciam calmos e vigilantes. As asas das libélulas estavam cobertas de pérolas de gotículas de umidade da neblina, como teias de aranha, e, volta e meia, tinham que batê-las rapidamente para limpá-las, pois as gotas deviam fazer com que ficassem pesadas, pensou Lyra. Ela esperava que houvesse comida para elas na terra dos mortos. Então, de repente, o barco apareceu.
Era um barco a remo muito antigo, maltratado, remendado, carcomido, e a pessoa que estava remando era tão velha que sua idade era inimaginável, um homem encolhido numa túnica de tecido grosseiro para fazer sacos, com um cinto de corda, deformado e encurvado, as mãos esqueléticas permanentemente retorcidas em volta dos remos e seus olhos claros e úmidos muito fundos entre as dobras de rugas de pele acinzentada. Ele soltou um remo e estendeu a mão retorcida para cima, para a argola de ferro no pilar de atracação, no canto do molhe, e com a outra mão manobrou o remo para encostar o barco nas pranchas.
Não houve necessidade de falar. Will embarcou primeiro e então Lyra se adiantou para embarcar também.
Mas o barqueiro levantou a mão.
— Ele não — disse, num sussurro rouco.
— Quem?
— Ele.
Estendeu um dedo cinza-amarelado, apontando diretamente para Pantalaimon, cuja forma castanho-avermelhada de arminho, com pelagem de verão, imediatamente adquiriu a cor branca alvíssima de inverno.
— Mas ele sou eu! — exclamou Lyra.
— Se você vier, ele terá que ficar.
— Mas não podemos! Nós morreríamos!
— Não é isso o que você quer?
E então, pela primeira vez, Lyra realmente se deu conta do que estava fazendo. Aquela era a verdadeira consequência. Ela ficou parada ali, consternada, trêmula, e abraçou seu dimon tão apertado que ele gemeu de dor.
— Eles... — disse Lyra, em tom desamparado, então se calou: não era justo argumentar que os outros três não teriam que abrir mão de nada. Will olhava para ela apreensivamente. Ela correu os olhos observando tudo o que havia ao seu redor, o lago, o molhe, a trilha irregular, as poças de água estagnada, os arbustos mortos e ensopados... O seu Pan, sozinho ali: como ele poderia viver sem ela? Ele tremia dentro da camisa de Lyra, contra sua pele nua, a pelagem dele precisando do calor dela. Impossível! Nunca!
— Ele vai ter que ficar se você vier — repetiu o barqueiro.
Lady Salmakia agitou as rédeas e sua libélula voou rapidamente do ombro de Lyra e foi pousar na amurada do barco, onde Tialys foi se juntar a ela. Os dois disseram alguma coisa para o barqueiro. Lyra ficou observando como um preso condenado vigia o movimento no fundo da sala do tribunal, que poderia ser um mensageiro trazendo o perdão. O barqueiro inclinou-se para ouvir e então sacudiu a cabeça.
— Não — disse ele. — Se ela vier, ele tem que ficar.
— Mas isso não está certo. Nós não temos que deixar para trás uma parte de nós. Por que Lyra tem? — disse Will.
— Ah, mas vocês deixam — disse o barqueiro. — A infelicidade dela é que pode ver e falar com a parte que tem de deixar. Vocês não saberão até estarem na água e então, será tarde demais. Mas todos vocês têm de deixar essa parte de vocês aqui. Não há passagem para a terra dos mortos para seres como ele.
“Não”, pensou Lyra, e Pantalaimon pensou com ela: “Nós não passamos por tudo o que passamos em Bolvangar para isto, não, como jamais poderemos voltar a nos encontrar?”
E ela olhou para trás de novo, para a costa malcheirosa e sombria, tão desolada e fria, arruinada por doenças e veneno, e pensou em seu querido Pan, esperando ali sozinho, o companheiro de seu coração vendo-a desaparecer na neblina e explodiu numa tempestade de lágrimas. Seus soluços desesperados não tinham eco, porque a neblina os abafava, mas ao longo da costa em inúmeras lagoas e brejos, em tristes tocos quebrados de árvores, os animais feridos que se escondiam ali ouviram seu grito sentido, saído do fundo do coração, e se encolheram mais junto do solo, com medo de tamanha paixão.
— Se ele pudesse vir — gritou Will, desesperado para acabar com a imensa tristeza de Lyra, mas o barqueiro sacudiu a cabeça.
— Ele pode entrar no barco mas, se entrar, o barco fica aqui — disse ele.
— Mas como ela vai poder tornar a encontrá-lo?
— Eu não sei.
— Quando viermos embora, vamos voltar por aqui?
— Vir embora?
— Nós vamos voltar. Vamos até a terra dos mortos e vamos voltar.
— Não por aqui.
— Então, de alguma outra maneira, mas vamos voltar.
— Eu já levei milhões e nenhum voltou.
— Então seremos os primeiros. Encontraremos uma maneira de sair. E, já que vamos fazer isso, seja gentil, barqueiro, tenha compaixão, deixe que ela leve seu dimon.
— Não — disse ele, e sacudiu a cabeça velhíssima. — Não é uma regra que se possa violar. É uma lei como esta... — apanhou um punhado de água na mão em concha e então inclinou a mão para que a água escorresse de volta. — A lei que faz com que a água caia de volta no lago, é uma lei como esta. Não posso inclinar a mão e fazer com que a água flua para o alto. Da mesma forma, não posso levar o dimon dela para a terra dos mortos. Quer ela venha ou não, ele tem que ficar.
Lyra não podia ver nada: seu rosto estava enterrado no pelo de gato de Pantalaimon. Mas Will viu Tialys desmontar de sua libélula e se preparar para saltar sobre o barqueiro e em parte concordou com a intenção do espião, mas o ancião tinha visto Tialys e virou a cabeça antiquíssima para dizer:
— Há quantos séculos vocês acham que estou transportando pessoas para a terra dos mortos? Vocês pensam que se alguma coisa pudesse me ferir já não teria acontecido? Pensam que as pessoas que levo vêm comigo de boa vontade? Elas se debatem e gritam, tentam me subornar, elas me ameaçam e lutam, nada funciona. Você não pode me ferir, pode ferroar à vontade. É melhor consolar a criança, ela virá, não percam tempo comigo.
Will tinha dificuldade em olhar. Lyra estava fazendo a coisa mais cruel que já fizera, odiando a si mesma, odiando o que fazia, sofrendo por Pan, e com Pan, e por causa de Pan, tentando botá-lo no chão, no solo frio da trilha, soltando suas unhas de gato de suas roupas, chorando e chorando. Will tapou as orelhas: era um som triste demais para se suportar ouvir. Uma vez após outra ela afastou seu dimon, empurrando-o para longe de si, e a cada vez ele chorava e tentava se agarrar a ela.
Ela podia voltar atrás. Ela podia dizer não, essa é uma péssima ideia, não devemos fazer isso. Ela podia ser leal ao laço profundo e sincero, de coração e de vida, que a unia a Pantalaimon, ela podia pôr isso em primeiro lugar, podia tirar todo o resto de sua mente... Mas não podia.
— Pan, ninguém fez isso antes — sussurrou com a voz trêmula — mas Will disse que vamos voltar e juro, Pan, eu amo você, eu juro que vamos voltar... eu vou voltar... cuide-se, meu querido, você vai ficar bem... nós vamos voltar... e se eu tiver que passar todos os minutos de minha vida procurando para tornar a encontrar você, eu passo, não vou parar de procurar até encontrar, não vou descansar, não vou... Ah, Pan, Pan querido, eu tenho, eu tenho que...
E ela o empurrou para longe de si, de modo que ele se agachou, infeliz, com frio e assustado, no solo lamacento.
Que animal ele era agora, Will não sabia mais dizer. Parecia tão pequenino, um filhote, um bebê, alguma coisa indefesa e derrotada, um ser tão mergulhado na infelicidade que era mais infelicidade do que um ser. Os olhos dele não deixavam o rosto de Lyra e Will pôde observá-la se obrigar a não desviar o olhar, a não fugir da culpa, e admirou sua honestidade e sua coragem, ao mesmo tempo em que se sentia dilacerado pelo choque da separação deles. Havia tantas correntes vividas de sentimento entre eles que a própria atmosfera lhe parecia carregada de eletricidade.
E Pantalaimon não disse “Por quê?”, porque ele sabia, e não perguntou a Lyra se amava Roger mais do que ele, porque conhecia a verdadeira resposta para isso também. E sabia que, se falasse, ela não conseguiria resistir, de modo que o dimon se manteve em silêncio de maneira a não afligir o ser humano que o estava abandonando, e agora, estavam ambos fingindo que isso não lhes traria sofrimento, que não demoraria muito para que estivessem novamente juntos, que era melhor que fosse assim. Mas Will sabia que a garotinha estava praticamente arrancando o coração do peito. Ela desceu do molhe e entrou no barco. Era tão leve que o barco quase nem balançou. Sentou-se ao lado de Will e seus olhos continuaram cravados em Pantalaimon, que continuava parado, tremendo, na ponta do molhe ligada à terra, mas, quando o barqueiro soltou a argola de ferro e baixou seus remos para afastar o barco, o cachorrinho dimon veio correndo aflito, desamparado, até a outra ponta sobre a água, as unhas das patinhas macias batendo muito suavemente nas tábuas de madeira macia, e parou, e ficou olhando, só olhando enquanto o barco se afastava e desaparecia na neblina. Lyra deu um grito tão dolorido e cheio de paixão que, mesmo naquele mundo amortecido e carregado de neblina, levantou um eco, mas é claro que não era um eco, era a outra parte dela gritando em resposta da terra dos vivos, enquanto Lyra se afastava rumo à terra dos mortos.
— Meu coração, Will... — gemeu ela, e se agarrou nele, o rosto molhado, contorcido de dor.
E assim, a profecia que o Reitor da Universidade Jordan fizera para o Bibliotecário, de que ela cometeria uma grande traição e que aquilo seria uma experiência terrível, se cumpriu.
Mas Will também descobriu uma agonia enorme crescendo em seu íntimo e, em meio àquela dor, viu que os dois galivespianos estavam juntos, abraçados um ao outro, exatamente como ele e Lyra estavam fazendo, sofrendo com a mesma angústia.
Parte de sensação era física. Parecia que uma mão de ferro havia agarrado seu coração e que o estava puxando para fora, pelo meio das costelas, de modo que apertou as mãos contra aquele ponto e tentou em vão segurá-lo lá dentro. Era uma dor muito mais profunda e muito pior do que a dor de perder os dedos. Mas também era mental: alguma coisa secreta e pessoal estava sendo arrastada para fora, sendo exposta, num lugar onde não queria de forma alguma estar, e Will quase foi derrubado por uma mistura de dor, vergonha, medo e remorso, porque ele mesmo tinha causado aquilo. Mas era pior que isso. Era como se ele tivesse dito: “Não, não me mate, estou com medo, mate minha mãe em vez de me matar, ela não importa, eu não a amo”, e ela o tivesse ouvido dizer isso, e fingido que não tinha ouvido para poupá-lo, para impedir que sofresse e, de qualquer maneira, tivesse se oferecido para ir em seu lugar porque o amava. Ele se sentia mal a esse ponto. Não havia nada que fosse pior sentir.
De modo que Will ficou sabendo que todas aquelas coisas faziam parte de se ter um dimon e, qualquer que fosse seu dimon, ele também havia sido deixado para trás, com Pantalaimon, naquela costa tóxica e desolada. O pensamento ocorreu a Will e Lyra no mesmo instante e eles trocaram um olhar cheio de lágrimas. E pela segunda vez em suas vidas, mas não pela última, cada um deles viu na face do outro a sua própria expressão.
Apenas o barqueiro e as libélulas pareciam indiferentes à viagem que estavam fazendo. Os grandes insetos estavam plenamente vivos e intensamente coloridos com brilho e beleza, mesmo na neblina pesada, sacudindo as asas transparentes para se livrar da umidade, e o ancião em sua túnica de pano de saco se inclinava para frente e para trás, apoiando os pés nus no fundo do barco coberto de poças de limo.
A viagem durou mais tempo do que Lyra queria calcular. Embora parte dela estivesse em carne viva de angústia, imaginando Pantalaimon abandonado na margem do lago, uma outra parte estava se adaptando à dor, medindo sua própria força, curiosa para ver o que aconteceria e onde iriam desembarcar.
O braço de Will a envolvia com força, segurando-a, mas ele também estava olhando para o que estava adiante, esforçando-se para tentar enxergar alguma coisa em meio à escuridão cinzenta e úmida e ouvir qualquer outra coisa além do espadanar dos remos. E, logo depois, algo de fato mudou: um penhasco ou uma ilha erguia-se adiante. Eles ouviram o som sendo abafado antes de verem a neblina escurecer.
O barqueiro levantou um dos remos para virar o barco um pouco para a esquerda.
— Onde estamos? — perguntou a voz do Cavaleiro Tialys, pequenina, mas forte como sempre, embora nela houvesse uma ponta de dolorosa estridência, como se ele também estivesse sofrendo e sentindo dor.
— Perto da ilha — respondeu o barqueiro. — Mais cinco minutos e estaremos desembarcando.
— Que ilha? — perguntou Will. Viu que sua voz também soava cansada, tão tensa que mal a reconhecia.
— O portão para a terra dos mortos fica nesta ilha — explicou o barqueiro. — Todo mundo vem para cá, reis, rainhas, assassinos, poetas, crianças, todo mundo passa por aqui e ninguém volta.
— Nós vamos voltar — sussurrou Lyra em tom feroz.
O homem não disse nada, mas seus olhos velhíssimos estavam cheios de pena.
À medida que foram se aproximando, viram galhos de ciprestes e de teixos que se projetavam baixos sobre a água, verde-escuros, densos e tristes. A terra se elevava numa encosta íngreme e as árvores cresciam tão juntas umas das outras que nem um furão conseguiria passar entre elas e, diante deste pensamento, Lyra deixou escapar um pequeno soluço, pois Pan teria mostrado a ela como poderia tê-lo feito muito bem, mas agora não podia, talvez nunca mais pudesse outra vez.
— Estamos mortos? — perguntou Will para o barqueiro.
— Não faz diferença — respondeu ele. — Alguns vieram para cá sem jamais acreditarem que estavam mortos. Insistiram durante todo o caminho em que estavam vivos, que era um erro, que alguém pagaria por isso, não fez diferença. Outros ansiavam por estarem mortos quando estavam vivos, pobres almas, vidas cheias de dor ou grande infortúnio, mataram-se em busca de uma chance de terem um abençoado descanso e descobriram que nada havia mudado, exceto para pior, e que dessa vez não havia saída, você não pode se fazer voltar à vida. E houve outros tão fracos e doentes, bebês pequenos, às vezes, que mal tinham nascido entre os vivos antes de descerem aos mortos. Já remei este barco com um bebê pequeno, chorando em meu colo, muitas, muitas vezes, bebês que jamais souberam a diferença entre estar lá em cima e aqui embaixo. E os velhos também, os ricos são os piores, rosnando, xingando e me amaldiçoando, me insultando e berrando: o que eu pensava que era? Eles não tinham ganho e juntado todo o ouro que podiam coletar? Eu não aceitaria um pouco agora, para levá-los de volta para a costa? Iriam mandar a polícia atrás de mim, tinham amigos poderosos, conheciam o Papa e o Rei disso e o Duque daquilo, tinham posição para garantir que eu seria punido, castigado... Mas eles souberam a verdade no fim: a única posição em que estavam era no meu barco, indo para a terra dos mortos, e quanto aos reis e papas, também acabariam por aqui, quando chegasse a vez deles, mais cedo do que desejavam. Eu os deixo gritar e delirar à vontade, não podem me fazer mal, no fim eles se calam — concluiu. — De modo que, se não sabem se estão mortos ou não, e a garotinha jura de pés juntos que vai tornar a sair para o mundo dos vivos, não vou dizer nada que os contradiga. O que vocês são, logo saberão.
O tempo todo ele estivera remando em ritmo regular ao longo da costa e naquele momento recolheu os remos, ajeitando-os dentro do barco e estendendo a mão para a direita para segurar o primeiro pilar de madeira que se erguia da água ao lado.
Ele puxou o barco paralelamente a um cais estreito e o manteve parado para que saltassem. Lyra não queria desembarcar: enquanto estivesse perto do barco, então Pantalaimon conseguiria pensar nela com clareza, porque era como ele a vira pela última vez, mas, quando se afastasse do barco, ele não saberia mais como visualizá-la. De modo que ela hesitou, mas as libélulas levantaram voo e Will desembarcou, pálido e apertando o peito, e, assim, ela teve que ir também.
— Obrigada — disse para o barqueiro. — Quando você voltar, se vir meu dimon, diga a ele que o amo mais que tudo na terra dos vivos ou dos mortos e que juro que vou voltar para ele, mesmo que ninguém tenha feito isso antes, juro que vou.
— Está bem, eu digo a ele — disse o barqueiro. Ele foi embora, o barco se afastou e o som de suas remadas foi gradualmente sumindo na neblina. Os galivespianos voltaram voando, tendo se afastado apenas um pouco, e se empoleiraram nos ombros das crianças como antes, ela no de Lyra, ele no de Will. E assim ficaram, os viajantes, na margem da terra dos mortos. Diante deles não havia nada, exceto neblina, embora pudessem ver por seu escurecimento que um grande paredão se erguia mais à frente.
Lyra tremeu de frio. Tinha a impressão de que sua pele havia se transformado em renda e que a umidade e o ar gelado podiam passar através dela, entrando e saindo por suas costelas, queimando com o ardor de frio intenso na ferida aberta onde estivera Pantalaimon. Apesar disso, pensou ela, Roger devia ter se sentido assim quando mergulhara pela encosta da montanha abaixo, tentando se agarrar a seus dedos desesperados. Eles permaneceram em silêncio e ouviram. O único som era um gotejar incessante de água das folhas e quando levantaram a cabeça para olhar para cima sentiram uma ou duas gotas baterem geladas em suas faces.
— Não podemos ficar aqui — disse Lyra.
Eles se afastaram do cais, mantendo-se juntos, e foram seguindo para a parede cinzenta. Blocos gigantescos de pedras verdes de limo antiquíssimo erguiam-se mais alto na neblina do que podiam ver. E, agora que estavam mais perto, podiam ouvir o som de gritos vindos de trás da parede, embora fosse impossível dizer se eram vozes humanas gritando: eram gritos e gemidos altos, estridentes e lamentosos, que pairavam no ar como filamentos flutuantes de águas-vivas, provocando dor onde quer que tocassem.
— Tem uma porta — disse Will, numa voz rouca, tensa.
Era uma porta dos fundos de madeira maltratada, sob uma laje de pedra. Antes que Will pudesse levantar a mão para abri-la, um daqueles gritos estridentes e agudos soou muito próximo, causando um choque desagradável aos ouvidos deles e assustando-os horrivelmente.
Imediatamente os galivespianos levantaram voo, dardejando pelo ar, as libélulas, como pequenos cavalos de guerra, prontas para a batalha. Mas a coisa que desceu voando as varreu para o lado com um golpe brutal da sua asa e então pousou pesadamente sobre uma saliência de rochedo que se projetava logo acima da cabeça das crianças. Tialys e Salmakia se reagruparam e acalmaram suas montarias assustadas.
A coisa era um grande pássaro do tamanho de um abutre, com o rosto e seios de mulher. Will tinha visto quadros de seres como ela, e a palavra harpia lhe veio à mente, tão logo a viu com clareza. Seu rosto era liso e sem rugas, mas envelhecido muito além da idade das bruxas: aquele rosto havia visto milhares de anos se passarem, e a crueldade e infelicidade de todos eles tinham moldado a expressão odiosa de suas feições. Mas, à medida que os viajantes puderam vê-la mais claramente, tornou-se ainda mais repulsiva. As órbitas de seus olhos estavam coalhadas de um limo imundo e o vermelho de seus lábios coberto por camadas de crostas ressecadas, como se tivesse vomitado sangue antiquíssimo, incontáveis vezes. Os cabelos negros emaranhados, imundos, desciam até os ombros, as garras pontiagudas agarravam a pedra ferozmente, as asas escuras poderosas estavam fechadas ao longo de seu dorso e um bafo de fedor pútrido flutuava no ar toda vez que se mexia. Will e Lyra, ambos nauseados e cheios de dor, tentaram ficar de pé bem eretos e encará-la.
— Mas vocês estão vivos! — disse a harpia, a voz estridente zombando deles.
Will constatou que a odiava e a temia mais do que a qualquer ser humano que tivesse conhecido.
— Quem é você? — perguntou Lyra, que sentia tanta repulsa quanto Will. A guisa de resposta, a harpia gritou. Ela abriu a boca e lançou um jato de ruído diretamente para o rosto deles, de modo que a cabeça dos dois tiniu e eles quase caíram para trás. Will agarrou Lyra e os dois se abraçaram enquanto o grito se transformava em selvagens gargalhadas zombeteiras e estrepitosas, que foram respondidas por outras vozes de harpias na neblina ao longo da costa. O som de zombaria cheio de ódio recordava Will da crueldade impiedosa de crianças num pátio de recreio, mas aqui não havia professores para controlar as coisas, ninguém a quem pedir ajuda, nenhum lugar onde se esconder.
Ele pôs a mão sobre a faca em seu cinto e a olhou bem nos olhos, embora sua cabeça estivesse zumbindo e a força absoluta de seu grito o deixasse tonto.
— Se estiver tentando nos deter — desafiou — então melhor estar pronta para lutar além de gritar. Porque vamos entrar por aquela porta.
A boca nojenta da harpia se mexeu de novo, mas dessa vez foi para franzir os lábios num arremedo de beijo. Então ela disse:
— Sua mãe está sozinha. Enviaremos pesadelos para ela. Gritaremos com ela quando estiver dormindo!
Will não se mexeu, porque pelo canto do olho podia ver Lady Salmakia se movendo delicadamente ao longo de um galho onde a harpia agora estava empoleirada. Sua libélula, com as asas trêmulas, estava sendo mantida no chão por Tialys e então aconteceram duas coisas: a dama saltou sobre a harpia e girou para enfiar sua espora bem fundo na perna escamosa do monstro e Tialys arremessou a libélula para o alto. Em menos de um segundo Salmakia tinha se afastado rodopiando e saltado do galho, diretamente para o dorso de sua montaria azul-elétrica, e se elevava no ar.
O efeito na harpia foi imediato. Um outro grito quebrou o silêncio, muito mais alto do que antes, e ela bateu as asas escuras com tanta força que Will e Lyra foram empurrados pelo vento e cambalearam. Mas ela se agarrou na pedra com as garras e seu rosto estava tingido de vermelho-escuro de raiva, os cabelos tinham se levantado de sua cabeça como uma crista de serpentes. Will puxou a mão de Lyra e os dois tentaram correr para a porta, mas a harpia lançou-se sobre eles tomada de fúria e só recuou de seu mergulho quando Will se virou, enfiando Lyra atrás de si e de faca em punho. Os galivespianos partiram para atacar a harpia imediatamente, dardejando perto de seu rosto e depois se afastando rapidamente de novo, sem conseguir acertar um golpe, mas distraindo-a de modo que bateu as asas desajeitadamente e tombou parcialmente no chão.
Lyra gritou:
— Tialys! Salmakia! Parem, parem!
Os espiões puxaram as rédeas de suas libélulas e voaram raso sobre a cabeça das crianças. Outras formas escuras estavam se agrupando na neblina e os gritos zombeteiros de mais uma centena de harpias soavam, vindos de mais além na costa. A primeira estava sacudindo as asas, sacudindo o cabelo, esticando uma perna de cada vez e flexionando suas garras. Não estava ferida, Lyra havia reparado.
Os galivespianos pairaram no ar por um instante e depois mergulharam de volta na direção de Lyra, que estava com as duas mãos abertas, estendidas para que pousassem. Salmakia percebeu o que Lyra tinha querido dizer e falou para Tialys:
— Ela tem razão. Por algum motivo, não podemos feri-la.
Lyra perguntou:
— Senhora, qual é o seu nome?
A harpia sacudiu as asas bem abertas e os viajantes quase desmaiaram com os odores fétidos de imundície e podridão que saíam dela.
— Sem-Nome! — gritou.
— O que quer conosco? — perguntou Lyra.
— O que você pode me dar?
— Poderíamos contar onde estivemos e talvez ficasse interessada, não sei. Vimos coisas estranhas de todos os tipos no caminho para cá.
— Ah, e está se oferecendo para me contar uma história?
— Se quiser.
— Talvez eu queira. Mas e depois?
— Poderia nos deixar passar por aquela porta e encontrar o espírito que viemos aqui procurar, espero que deixe, de qualquer maneira. Se puder nos fazer a gentileza.
— Então tente — disse Sem-Nome.
E a despeito de sua náusea e sofrimento, Lyra achou que tinha acabado de receber o ás, a carta de trunfo no baralho.
— Ah, tenha cuidado — cochichou Salmakia, mas a mente de Lyra já estava correndo adiante, repassando a história que havia contado na noite anterior, modelando, cortando partes, dando retoques e acrescentando: pais mortos, tesouro de família, naufrágio, fuga...
— Bem — disse, acomodando-se em seu estado de espírito de contar histórias — na verdade, começou quando eu era um bebê. Meu pai e minha mãe eram o Duque e a Duquesa de Abingdon, compreende, e eram riquíssimos. Meu pai era um dos conselheiros do rei e o rei, pessoalmente, costumava vir se hospedar conosco, ah, o tempo todo. Costumavam caçar na floresta. A casa, lá onde eu nasci, era a maior casa de todo o sul da Inglaterra. Chamava-se...
Sem dar sequer um grito de advertência, a harpia lançou-se sobre Lyra, com as garras estendidas. Lyra teve tempo apenas de se abaixar, mas mesmo assim uma das garras se enfiou em seu couro cabeludo e arrancou uma mecha de cabelos.
— É mentira! Mentira! — gritava a harpia. — Mentira!
Ela voou num círculo se posicionando de novo, pronta para se lançar diretamente sobre o rosto de Lyra, mas Will puxou a faca e se atirou no caminho. Sem-Nome deu uma guinada saindo de seu alcance bem a tempo, e Will rapidamente arrastou Lyra para a porta, porque ela estava paralisada pelo choque e meio cega por causa do sangue que escorria em seu rosto. Will não tinha ideia de onde estavam os galivespianos, mas a harpia estava voando para atacá-los de novo e berrando, berrando com raiva e ódio:
— Mentira! Mentira! Mentira!
E parecia que sua voz estava vindo de todos os lados, e que a palavra ecoava batendo no paredão e voltando, em meio à neblina, abafada e modificada, de modo que ela parecia estar gritando o nome de Lyra, de tal maneira que Lyra e Mentira eram a mesma coisa.
Will estava com a menina apertada contra o peito, com o ombro curvado para protegê-la, e a sentia tremer e soluçar contra seu corpo, mas então enfiou a faca na madeira podre da porta e cortou fora a tranca, dando um golpe rápido com a lâmina.
Então ele e Lyra, com os espiões ladeando-os montados em suas libélulas dardejantes, entraram tropeçando no reino dos espíritos enquanto o grito da harpia era duplicado e reduplicado por outros na costa coberta pela neblina atrás deles.

2 comentários:

  1. Não gostei dessa frase no inicio

    ResponderExcluir
  2. Chorei com a separação do Pan e da Lyra...

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)