4 de fevereiro de 2017

21. As boas-vindas de Lorde Asriel

LYRA cavalgava um urso jovem e forte, e Roger viajava montado em outro, enquanto Iorek caminhava incansavelmente à frente; atrás deles ia um grupo armado com um lançador de fogo, defendendo a retaguarda.
O caminho era longo e difícil: o interior de Svalbard, montanhoso, com picos irregulares e desfiladeiros profundos cortados por ravinas e vales de paredes íngremes; e o frio, intenso. Lyra recordou os trenós velozes e macios dos gípcios a caminho de Bolvangar; como aquela viagem parecia agora rápida e confortável! O ar aqui era o mais penetrante e frio que ela já conhecera; ou podia ser que o urso que ela montava não fosse tão ágil quanto Iorek Byrnison; ou talvez ela estivesse cansada até a alma. De qualquer maneira, foi uma viagem desesperadamente difícil.
Ela pouco sabia sobre para onde estavam indo, ou a que distância ficava; tudo que sabia era o que o urso ancião Soren Eisarson lhe contara enquanto preparavam o lançador de fogo.
Ele participara das negociações sobre as condições do encarceramento de Lorde Asriel e se lembrava muito bem.
Ele disse que, no início, os ursos de Svalbard consideravam Lorde Asriel igual a qualquer dos outros políticos, reis ou baderneiros que tinham sido exilados para aquela ilha distante. Os prisioneiros eram importantes, senão teriam sido mortos por seu próprio povo; podiam ser valiosos para os ursos um dia, se seus destinos políticos mudassem e eles voltassem a governar suas terras; portanto, podia valer a pena não tratá-los com crueldade ou desrespeito.
Então Lorde Asriel tinha achado as condições em Svalbard nem melhores, nem piores do que as de centenas de outros exilados antes dele. Mas certas coisas faziam seus carcereiros terem mais medo dele do que dos outros prisioneiros; havia um ar de mistério e de perigo espiritual que envolvia qualquer coisa relacionada ao Pó; eles tinham visto o pânico evidente daqueles que haviam levado Lorde Asriel até lá; e havia as comunicações particulares entre a Sra. Coulter e Iofur Raknison.
Além disso, os ursos nunca tinham visto alguém com a natureza orgulhosa e autoritária de Lorde Asriel. Ele dominava até mesmo Iofur Raknison, discutindo com firmeza e eloquência, e convenceu o urso-rei a permitir que ele próprio escolhesse o lugar onde ia morar.
O primeiro que lhe deram era baixo demais; ele disse que precisava de um lugar no alto, acima da fumaça e da poluição das minas de fogo e dos ferreiros. Deu aos ursos um projeto para o alojamento que desejava e lhes disse onde devia ser construído; ele os subornou com ouro e bajulou e intimidou Iofur Raknison; de boa vontade, achando graça, os ursos começaram a trabalhar. Em pouco tempo, uma casa foi construída numa ponta de terra virada para o norte: uma construção ampla e sólida, com lareiras que queimavam grandes blocos de carvão retirados da terra e carregados por ursos, e com grandes janelas de vidro de verdade.
Ali ele vivia, um prisioneiro agindo como um rei.
E então se dedicou a reunir o material para um laboratório.
Com furiosa concentração, mandou buscar livros, instrumentos, agentes químicos, todo tipo de ferramentas e aparelhos. E de um jeito ou de outro, recebeu tudo que pedira — uma parte abertamente, outra contrabandeada pelos visitantes que ele insistia ter direito de receber. Por terra, mar e ar, Lorde Asriel reuniu seu material, e aos seis meses de prisão já possuía todo o equipamento que queria.
E então começou a trabalhar, pensando, planejando e calculando, esperando a única coisa que precisava para completar o trabalho que tanto assustava o Conselho de Oblação. E essa coisa estava cada vez mais próxima.
A primeira visão que Lyra teve da prisão de seu pai veio quando Iorek Byrnison fez todos pararem no sopé de um rochedo para que as crianças esticassem as pernas, que estavam ficando perigosamente frias e rígidas.
— Olhe lá para cima — ele disse.
Uma ladeira coberta de rochas e gelo de uma antiga avalanche, onde uma trilha tinha sido trabalhosamente aberta, levava ao topo de um penhasco destacado em silhueta contra o céu. Não havia Aurora, mas as estrelas brilhavam. O penhasco era negro e hostil, mas no topo havia um prédio espaçoso, de onde jorrava luz em todas as direções — não o brilho enfumaçado e inconstante das lamparinas a gordura de peixe, nem a luz branca e chocante dos holofotes anbáricos, e sim a luz cálida da nafta.
As janelas de onde a luz emergia também mostravam o formidável poder de Lorde Asriel. O vidro era um material caro, que em grandes extensões ajudava a manter o calor nessas regiões inóspitas; assim, esse material evidenciava dinheiro e influência, muito mais do que o palácio vulgar de Iofur Raknison.
Montaram nos ursos pela última vez, e Iorek os guiou encosta acima até a casa. Havia um pátio coberto de neve, rodeado por um muro baixo; quando Iorek empurrou o portão, eles ouviram uma campainha tocar em algum lugar dentro da casa.
Lyra desceu do urso. Mal conseguia ficar de pé. Ajudou Roger a desmontar também e, um apoiando o outro, os dois se dirigiram para a porta, atravessando a neve que chegava até seus quadris.
Ah, como lá dentro devia estar quentinho! Ah, como ia ser bom descansar em paz!
Ela estendeu a mão para a corda da sineta, mas a porta se abriu antes que pudesse pegá-la.
Havia um pequeno vestíbulo mal iluminado, que servia para manter o ar quente dentro de casa, e parado sob a lamparina estava uma pessoa que ela reconheceu: Thorold, o criado de Lorde Asriel, com seu dimon-pinscher Anfang.
Com um gesto cansado, Lyra empurrou o capuz para trás.
— Quem... — Thorold começou, mas logo a reconheceu, e continuou: — Não é Lyra? A pequena Lyra? Estou sonhando?
Ele estendeu a mão para trás para abrir a porta interna.
Um salão com um fogo de carvão ardendo numa plataforma de pedra, a cálida luz de nafta brilhando nos tapetes, nas poltronas de couro, na madeira encerada... Lyra não via isso desde que deixara a Faculdade Jordan, e sentiu a garganta apertada.
A pantera branca, dimon de Lorde Asriel, rosnou.
Ali estava o pai de Lyra, seu rosto moreno e forte, a princípio intenso, triunfante e ansioso. E então a cor desapareceu; ele arregalou os olhos, horrorizado, ao reconhecer a filha.
— Não! Não!
Cambaleou para trás e se agarrou à prateleira sobre a lareira. Lyra não conseguia se mover.
— Saia! — Lorde Asriel gritou. — Dê meia-volta e saia, vá embora! Não mandei buscá-la!
Ela não conseguia falar. Por duas vezes abriu a boca e então conseguiu dizer:
— Não, não, eu vim porque...
Ele parecia apavorado; não parava de sacudir a cabeça e ergueu as mãos como se esse gesto pudesse fazê-la desaparecer. Ela não conseguia acreditar naquilo.
Deu um passo à frente para tranquilizá-lo, e Roger veio ficar ao seu lado, ansioso. Os seus dimons saíram voejando, e um momento depois Lorde Asriel passou a mão pela testa e se controlou um pouco. A cor começou a voltar ao seu rosto enquanto ele contemplava as duas crianças.
— Lyra — disse. — É mesmo Lyra?
— Sou, sim, tio Asriel — ela respondeu, achando que aquele não era o momento para falar de seu verdadeiro parentesco. — Vim lhe trazer o aletiômetro, da parte do Reitor da Jordan.
— Ah, sim, naturalmente — disse ele. — Quem é este aí?
— É Roger Parslow — ela explicou. — É ajudante de cozinha na Faculdade Jordan. Mas...
— Como foi que chegou aqui?
— Eu estava contando, Iorek Byrnison está lá fora, ele nos trouxe aqui. Veio comigo desde Trollesund, e nós enganamos Iofur...
— Quem é Iorek Byrnison?
— Um urso de armadura. Ele nos trouxe aqui.
— Thorold! — ele chamou. — Prepare um banho para esses dois e alguma comida. Depois eles vão precisar dormir. As roupas deles estão imundas; arranje alguma coisa para eles usarem. Faça isso agora, enquanto eu converso com esse urso.
Lyra sentiu a cabeça rodar. Talvez fosse o calor, talvez alívio. Ela observou o criado fazer uma reverência e sair do salão, e Lorde Asriel sair para o vestíbulo e fechar a porta atrás de si, e então ela se deixou cair na poltrona mais próxima.
Parecia que, no instante seguinte, Thorold estava falando com ela.
— Venha comigo, senhorita.
Ela se obrigou a levantar e foi com Roger para um banheiro aquecido, onde toalhas macias estavam penduradas num varal aquecido e uma banheira de água quente soltava vapor à luz de nafta.
— Vá você primeiro — disse Lyra. — Vou me sentar lá fora para conversarmos.
Então Roger, fazendo careta por causa da água quente, entrou na banheira e tomou banho. Eles tinham nadado sem roupa muitas vezes, brincando no Ísis ou no Cherwell com outras crianças, mas agora era diferente.
— Estou com medo do seu tio — disse Roger através da porta aberta. — Quer dizer, do seu pai.
— É melhor continuar chamando ele de meu tio. Eu também tenho medo dele, às vezes.
— Quando a gente entrou, ele não me viu. Só viu você. E ficou apavorado, até me ver. Então se acalmou de repente.
— Ele ficou chocado, só isso — disse Lyra. — Qualquer pessoa ficaria, vendo alguém que não esperava ver. A última vez que ele me viu foi depois daquele caso da Sala Privativa. Deve ter sido mesmo um choque.
— Não, foi mais que isso — Roger insistiu. — Ele estava olhando para mim como um lobo ou coisa assim.
— Você está imaginando coisas.
— Não estou. Tenho mais medo dele do que tinha da Sra. Coulter, a verdade é esta.
Enquanto ele jogava água em cima do corpo, Lyra pegou o aletiômetro.
— Quer que eu pergunte ao leitor de símbolos sobre isso? — perguntou.
— Bom, sei lá. Algumas coisas eu prefiro não saber. Parece que tudo que ouvi depois que os Gobblers chegaram em Oxford, tudo foi ruim. Tudo no futuro depois de cinco minutos tem sido ruim. Como agora, este banho está gostoso, e no futuro daqui a cinco minutos vai ter uma toalha quentinha. E enquanto eu me enxugo, vou pensar numa comida gostosa cinco minutos depois, mas só vou até aí. Depois de comer, talvez dentro de cinco minutos eu possa estar dormindo numa cama confortável. Mas depois disso, não sei, Lyra. Nós vimos coisas horríveis, não foi? E ainda vem mais, com certeza. Então acho melhor não saber o que está no futuro. Prefiro o presente.
— Está certo. Às vezes sinto isso também — disse ela em tom cansado.
Assim, embora ficasse com o aletiômetro na mão por mais algum tempo, era apenas como um amuleto; não mexeu nos ponteiros e não percebeu que o ponteiro grande se mexia.
Pantalaimon observava em silêncio.
Depois que ambos tomaram banho e comeram pão com queijo, bebendo vinho com água quente, o criado Thorold disse:
— O menino deve ir para a cama. Vou mostrar o caminho. Srta. Lyra, Lorde Asriel pede que vá ao encontro dele na Biblioteca.
Lyra encontrou Lorde Asriel num aposento com janelas largas que davam para o mar congelado bem abaixo deles. Havia um fogo de carvão numa ampla lareira e uma lamparina a nafta com a chama bem baixa, de modo que havia poucos obstáculos entre os ocupantes da sala e a paisagem escura e estrelada lá fora. Lorde Asriel, reclinado numa grande poltrona a um lado da lareira, indicou que ela ocupasse a outra poltrona, de frente para ele.
— Seu amigo Iorek Byrnison está descansando lá fora — informou. — Ele prefere o frio.
— Ele lhe contou a luta com Iofur Raknison?
— Não com detalhes. Mas entendi que agora ele é o rei de Svalbard. Isso é verdade?
— Claro que é. Iorek nunca mente.
— Parece que ele se nomeou seu guardião...
— Não. John Faa disse a ele para tomar conta de mim, e ele está obedecendo. Está seguindo as ordens de John Faa.
— Como é que John Faa entrou nessa história?
— Eu lhe conto se o senhor me contar uma coisa — ela propôs. — O senhor é meu pai, não é?
— Sou. E daí?
— Daí que devia ter me contado antes. Não devia esconder esse tipo de coisa das pessoas, porque elas se sentem idiotas quando descobrem, e isso é crueldade. Que diferença faria se eu soubesse que era sua filha? O senhor podia ter me contado há muitos anos. Podia ter me contado e pedido para eu guardar segredo, e eu guardaria, pois mesmo sendo muito criança, eu teria feito isso se o senhor me pedisse. Eu teria tanto orgulho que nada arrancaria isso de mim, se o senhor me pedisse para guardar segredo. Mas o senhor não. Contou a outras pessoas, mas não a mim.
— Quem lhe contou?
— John Faa.
— Ele falou da sua mãe?
— Falou, sim.
— Então não resta muita coisa para eu contar. Acho que não quero ser interrogado e condenado por uma garota insolente. Quero saber o que você viu e fez na sua viagem para cá.
— Eu lhe trouxe o maldito aletiômetro, não trouxe? — Lyra explodiu. Estava quase chorando. — Cuidei dele desde que saí da Jordan, escondi bem escondido e me preocupei, passando por tudo que nos aconteceu. E aprendi como é que se usa e carreguei ele por todo o maldito caminho, quando podia simplesmente entregar ele e ficar em segurança, e o senhor nem diz obrigado, nem mostra qualquer sinal de estar feliz em me ver. Não sei por que resolvi fazer isso. Mas fiz, não desisti, mesmo no palácio fedorento de Iofur Raknison, com todos aqueles ursos me cercando, eu não desisti, sozinha, e enganei ele, fazendo ele lutar com Iorek para que eu pudesse vir até aqui por sua causa... E quando o senhor me viu, quase desmaiou, como se eu fosse alguma coisa horrível que o senhor nunca mais queria ver. O senhor não é humano, Lorde Asriel. Não é meu pai. Meu pai não me trataria assim. Os pais amam as filhas, não amam? O senhor não me ama, e eu não amo o senhor, e pronto. Eu amo Farder Coram, amo Iorek Byrnison. Amo um urso de armadura mais do que amo o meu pai. E aposto que Iorek Byrnison me ama mais que o senhor.
— Você mesma me disse que ele está só obedecendo ordens de John Faa. Se vai ficar sentimental, não vou perder meu tempo conversando com você.
— Então pegue o seu maldito aletiômetro, e eu vou voltar com Iorek.
— Para onde?
— Para o Palácio. Ele pode lutar contra a Sra. Coulter e o Conselho de Oblação quando eles aparecerem. Se ele perder, eu também vou morrer, mas não me importo. Se ele vencer, vamos mandar buscar Lee Scoresby, e eu vou embarcar no balão dele e...
— Quem é Lee Scoresby?
— Um aeróstata. Ele nos trouxe aqui e então caímos. Pronto, aqui está o aletiômetro. Está em perfeito estado.
Ele não fez menção de pegar o instrumento, então ela o colocou na grade de bronze que rodeava a frente da lareira.
— Bom, acho que é minha obrigação dizer que a Sra. Coulter está a caminho de Svalbard e assim que souber o que aconteceu a Iofur Raknison ela virá para cá. Num zepelim, com muitos soldados, e vão matar nós todos por ordem do Magisterium.
— Não vão nos alcançar — ele disse calmamente.
Estava tão calmo e relaxado que parte da raiva dela se desfez.
— O senhor não tem como saber — ela disse, meio em dúvida.
— Mas sei.
— Então tem outro aletiômetro?
— Não preciso de um aletiômetro para isso. Agora quero saber da sua viagem para cá, Lyra. Comece do princípio. Quero saber tudo.
Ela contou. Começou na noite em que se escondeu na Sala Privativa, depois falou no sequestro de Roger pelos Gobblers e o tempo que passou com a Sra. Coulter, e tudo que tinha acontecido.
Era uma longa história, e quando terminou, ela disse:
— Só tem uma coisa que eu quero saber, e acho que tenho esse direito, como tinha o direito de saber quem eu sou de verdade. E como não me contou aquilo, vai me contar isso como compensação. Pronto: o que é Pó? E por que todo mundo tem tanto medo dele?
Ele a encarou como se quisesse adivinhar se ela compreenderia o que ele ia dizer. Lyra pensou: ele nunca havia olhado seriamente para ela; até então tinha sido sempre como um adulto observando as gracinhas de uma criança. Mas parece que ele achou que ela estava pronta.
— Pó é o que faz o aletiômetro funcionar — disse.
— Ah... Achei que fosse mesmo! Que mais? Como foi que descobriram isso?
— De certo modo, a Igreja sempre soube. Durante séculos, eles vêm fazendo sermões sobre Pó, só que não usam este nome. Mas, há alguns anos, um moscovita chamado Boris Mikhailovitch Rusakov descobriu um novo tipo de partícula elementar. Você já ouviu falar em elétrons, fótons, neutrinos e o resto? Receberam o nome de partículas elementares porque não podem ser divididas: não há nada dentro delas além delas mesmas. Bem, esse novo tipo de partícula era realmente elementar, mas era muito difícil de ser medido porque não reagia de modo normal. A coisa mais difícil para Rusakov foi entender por que a nova partícula parecia se juntar onde havia seres humanos, como se fosse atraída por nós. E especialmente por adultos. Pelas crianças também, mas não tanto, até seus dimons fixarem sua forma. Durante os anos de puberdade, elas começam a atrair Pó com mais força, e ele pousa nelas como pousa nos adultos.
“Ora, todas as descobertas desse tipo, por terem influência nas doutrinas da Igreja, têm que ser anunciadas pelo Magisterium em Gênova. E essa descoberta de Rusakov era tão improvável e estranha que o Inspetor do Tribunal Consistorial de Disciplina suspeitou que Rusakov estivesse possuído pelo diabo. Fizeram um exorcismo no laboratório e interrogaram Rusakov segundo as regras da Inquisição, mas afinal tiveram que aceitar o fato de que ele não estava mentindo ou tentando enganá-los: o Pó realmente existia.
“Assim surgiu o problema de decidir o que era isso. E devido à natureza da Igreja só poderiam ter escolhido uma coisa: o Magisterium decidiu que o Pó era a evidência física do pecado original. Sabe o que é pecado original?”
Ela torceu os lábios. Era como estar de volta à Jordan, sendo sabatinada sobre alguma coisa que mal tinham lhe ensinado.
— Mais ou menos — respondeu.
— Não sabe, não. Vá até a prateleira atrás da escrivaninha e me traga a Bíblia.
Lyra obedeceu e entregou ao pai o grande livro de capa preta.
— Você se lembra da história de Adão e Eva?
— Claro. Ela não devia comer o fruto, mas foi tentada pela serpente e comeu.
— Que foi que aconteceu então?
— Hum... Eles foram expulsos. Deus expulsou os dois do paraíso.
— Deus tinha dito para eles não comerem o fruto, senão eles iam morrer. Eles estavam nus no paraíso, eram como crianças, seus dimons tinham a forma que desejassem ter. Mas ouça o que aconteceu.
Ele procurou o Capítulo Terceiro do Gênesis e leu:
“E a mulher disse à serpente: ‘Nós comemos do fruto das árvores que estão no paraíso. Mas do fruto da árvore que está no meio do paraíso Deus mandou que não o comêssemos, e nem o tocássemos, para que não suceda que morramos.’
Porém a serpente disse à mulher: ‘Vós de nenhum modo morrereis. ‘Pois Deus sabe que, em qualquer dia que comerdes dele, os vossos olhos se abrirão, e vossos dimons assumirão suas formas verdadeiras, e sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal.’
Viu, pois, a mulher que (o fruto da) árvore era bom para comer, e formoso aos olhos, e uma árvore desejável para revelar a forma verdadeira do dimon de alguém; e tirou do fruto dela, e comeu; e deu a seu marido, que também comeu.
E os olhos de ambos se abriram; e eles viram a forma verdadeira de seus dimonse falaram com eles.
“Mas quando o homem e a mulher conheceram seus próprios dimons, viram que uma grande transformação neles se efetuara, pois até aquele momento parecia que eles eram como todas as criaturas da terra e do céu, e não havia diferença entre eles.
E eles enxergaram a diferença, e conheceram o bem e o mal; e envergonharam-se. E coseram folhas de figueira para cobrir sua nudez...”
Ele fechou o livro.
— E foi assim que o pecado chegou ao mundo — disse. — O pecado, a vergonha e a morte. Ele surgiu no momento em que os dimons de Adão e Eva se tornaram imutáveis.
— Mas... — Lyra lutou para encontrar as palavras que queria. — Mas isso não é verdade, é? Não é como química ou engenharia, não é esse tipo de verdade, é? Adão e Eva nunca existiram, não é? O Catedrático de Cassington me disse que era só uma espécie de conto de fadas.
— A Cátedra de Cassington tradicionalmente é dada a um livre-pensador; a função dele é desafiar a fé dos Catedráticos. Naturalmente ele tinha que dizer isso. Mas pense em Adão e Eva como um número imaginário, como a raiz quadrada de menos um: a gente nunca vê uma prova concreta de que ele existe, mas quando incluímos esse número nas nossas equações, podemos calcular todo tipo de coisa que seria impossível imaginar sem ele. De qualquer maneira, essa história é o que a Igreja vem ensinando há milhares de anos. E quando Rusakovb descobriu o Pó, finalmente havia uma prova física de que alguma coisa acontecia quando a inocência se transformava em experiência. Aliás, a Bíblia nos deu também o nome “Pó”; no princípio deram o nome de Partículas de Rusakov, mas logo alguém observou um curioso versículo no final do Capítulo Terceiro do Gênesis, quando Deus amaldiçoa Adão por ter comido o fruto.
Ele tornou a abrir a Bíblia e mostrou a Lyra. Ela leu:
“Comerás o pão com o suor do teu rosto até que voltes à terra, de que foste tomado: porque tu és pó, e em pó te hás de tornar...”
Lorde Asriel continuou:
— Os estudiosos da Igreja sempre ficaram confusos com a tradução desse versículo. Alguns dizem que não deveria ser “ao pó retornarás”, mas sim “serás sujeito ao pó”, e outros dizem que o versículo inteiro é uma espécie de trocadilho com as palavras “terra” e “pó”, e que ele significa na verdade que Deus está admitindo que sua própria natureza é parcialmente pecaminosa. Não há um consenso; não se consegue chegar a uma conclusão, porque esse texto foi modificado. Mas a palavra servia bem demais, e é por isso que as partículas ficaram conhecidas como Pó.
— E quanto aos Gobblers? — Lyra quis saber.
— O Conselho Geral de Oblação... A quadrilha da sua mãe. Foi muita esperteza dela identificar a oportunidade de formar sua própria base de poder, mas ela é uma mulher esperta, como você já deve ter percebido. É vantajoso para o Magisterium permitir que floresça todo tipo de diferentes organizações. Podem jogar umas contra as outras; se uma der certo, podem fingir que a apoiaram o tempo todo, e se ela fracassar, eles podem fingir que era uma organização clandestina que nunca foi autorizada.
“Sabe, sua mãe sempre desejou o poder. No princípio, tentou conseguir poder pela maneira normal, por meio do casamento, mas isso não funcionou, como você deve ter ouvido contar. Então ela teve que recorrer à Igreja. Naturalmente ela não podia seguir o caminho que um homem seguiria, ser padre e subir na hierarquia da Igreja, então teve que fazer uma coisa alternativa: teve que criar sua própria ordem, seus próprios canais de influência, e trabalhar com isso. Foi uma boa jogada se especializar no Pó. Todo mundo tinha medo dele, ninguém sabia o que fazer; e quando ela se ofereceu para dirigir uma investigação, o Magisterium ficou tão aliviado que eles a apoiaram com dinheiro e recursos de todo tipo.”
— Mas eles estavam cortando... — Lyra não conseguiu dizer o resto; as palavras ficaram bloqueadas em sua garganta. — O senhor sabe o que estavam fazendo! Por que a Igreja deixou que fizessem uma coisa como essa?
— Havia um precedente. Já ocorrera uma coisa parecida. Sabe o que significa a palavra castração? Significa remover os órgãos sexuais de um menino para que ele nunca desenvolva as características de um homem. Um castrado tem a voz fina pelo resto da vida, e é por isso que a Igreja permitia isso: era útil nos coros da Igreja. Alguns castrati se tornaram grandes cantores, artistas maravilhosos. Muitos se tornaram apenas meio-homens, balofos e temperamentais. Alguns morreram por causa da operação. Mas a Igreja não se importou com a ideia de um pequeno corte, entende? Havia um precedente. E agora seria muito mais higiênico do que os métodos antigos, quando não existia anestesia nem curativos esterilizados. Agora a operação seria muito mais suave.
— Não é, não! — Lyra exclamou com ferocidade. — Não é não!
— Não. Claro que não. É por isso que tiveram que se esconder no Extremo Norte, na distância e na escuridão. E por isso a Igreja ficou tão contente em ter alguém como a sua mãe tomando conta. Quem iria imaginar tais coisas de uma mulher tão encantadora, tão bem relacionada, tão simpática e educada? Mas por se tratar de uma operação obscura e clandestina, ela era alguém que o Magisterium poderia negar conhecer, se fosse necessário.
— Mas de quem foi a ideia de fazer esse corte?
— Foi dela. Ela adivinhou que as duas coisas que acontecem na adolescência poderiam estar ligadas: a mudança no dimon e o fato de que o Pó começa a pousar. Talvez, se o dimon fosse separado do corpo, pudéssemos não ser sujeitos ao Pó, ao pecado original. A questão era se seria possível separar o dimon do corpo sem matar a pessoa. Mas ela viajou por muitos lugares e viu muitas coisas. Viajou pela África, por exemplo. Os africanos conseguem criar um escravo chamado zumbi. Ele não tem vontade própria; trabalha dia e noite sem fugir e sem reclamar. Parece um cadáver...
— É uma pessoa sem seu dimon!
— Exatamente. Assim, ela descobriu que era possível separar os dois.
— E... Tony Costa me contou sobre os fantasmas horríveis que existem nas florestas do Norte. Imagino que devem ser o mesmo tipo de coisa.
— Isso mesmo. De qualquer maneira, o Conselho Geral de Oblação cresceu por causa de ideias como esta e da obsessão da Igreja com o pecado original.
O dimon de Lorde Asriel vibrou as orelhas, e ele pousou a mão na bela cabeça do animal.
— Outra coisa acontecia quando faziam o corte, porém eles não perceberam — ele continuou. — A energia que liga o corpo ao dimon é imensamente poderosa; quando o corte é feito, toda essa energia se dissipa numa fração de segundo. Eles não perceberam, pois confundiram com choque, ou trauma, ou raiva, e treinaram para não sentir aquilo. Então deixaram de ver o que essa energia podia fazer e nunca pensaram em aproveitá-la...
Lyra não conseguia ficar quieta; levantou-se, caminhou até a janela e ficou contemplando a escuridão. Eles eram cruéis demais! Por mais que fosse importante descobrir sobre o pecado original, era crueldade demais o que tinham feito a Tony Makarios e todos os outros.
Nada justificava isso.
— E o que o senhor estava fazendo? — ela perguntou. — Também cortou alguém?
— Estou interessado em coisa completamente diferente. Acho que o Conselho de Oblação não avança o suficiente; eu quero ir à própria fonte do Pó.
— À fonte? De onde ele vem, então?
— Do outro universo que conseguimos ver através da Aurora Boreal.
Lyra se virou outra vez para a sala. Seu pai estava recostado na poltrona, relaxado e poderoso, os olhos tão ferozes quanto os de seu dimon. Ela não o amava, não conseguia confiar nele, mas não podia deixar de admirá-lo, admirar o luxo extravagante que ele reunira naquela imensidão desolada, admirar o poder da ambição dele.
— O que é esse outro universo? — perguntou.
— Um dos incontáveis bilhões de mundos paralelos. As feiticeiras sabem sobre eles há séculos, mas os primeiros teólogos a provarem matematicamente a existência deles foram excomungados, há uns setenta anos ou mais. No entanto, é verdade; não há como negar.
“Mas ninguém pensava que um dia seria possível atravessar de um universo para outro. Isso violaria leis fundamentais, nós achávamos. Bem, estávamos errados. Aprendemos a enxergar o mundo lá em cima; ora, se a luz consegue atravessar, nós também conseguimos. E tivemos que aprender a enxergar esse outro mundo, Lyra, assim como você aprendeu a usar o aletiômetro.
“Ora, esse mundo e todos os outros universos surgiram como resultado da possibilidade. Veja o exemplo de jogar uma moeda para o alto: pode dar cara ou coroa, e antes que ela caia não sabemos como vai cair. Se der cara, isso significa que a possibilidade de dar coroa está destruída, mas até aquele momento as duas possibilidades eram iguais.
“Mas em outro mundo ela cai coroa. E quando isso acontece, os dois mundos se separam. Estou usando o exemplo de uma moeda para tornar a coisa mais simples. Na verdade, essas destruições de possibilidade acontecem do mesmo modo no nível das partículas elementares: em dado momento, várias coisas são possíveis; no momento seguinte, apenas uma acontece e o resto não existe. Porém surgiram outros mundos, onde elas acontecem.
“E eu pretendo ir a esse mundo por trás da Aurora Boreal, porque acho que é de lá que vem o Pó do nosso universo. Você viu aqueles slides que mostrei aos Catedráticos na Sala Privativa; viu o Pó jorrando neste mundo, vindo da Aurora Boreal. Você mesma viu aquela cidade. Se a luz pode atravessar a barreira entre os universos, se o Pó pode, se nós conseguimos ver aquela cidade, então podemos construir uma ponte e atravessar. É preciso uma descarga de energia fenomenal, mas tenho como fazer isso. Em algum lugar está a origem de todo o Pó, toda morte, pecado, miséria, destruição no mundo! Os seres humanos não conseguem ver qualquer coisa sem querer destruí-la, Lyra. Este é que é o pecado original. E eu vou acabar com ele. A morte vai morrer.”
— Foi por isso que prenderam o senhor aqui?
— É. Estão apavorados. E com razão.
Ele ficou de pé, imitado pelo seu próprio dimon — orgulhoso, lindo e letal. Lyra ficou imóvel. Tinha medo do pai, admirava-o profundamente e achava que ele estava inteiramente louco, mas quem era ela para julgar?
— Vá para a cama — ele ordenou. — Thorold vai lhe mostrar onde dormir.
Ele se virou para sair.
— O senhor está esquecendo o aletiômetro — ela avisou.
— Ah, é. Na verdade, não preciso mais dele. De qualquer maneira, não ia ser útil sem os livros. Sabe, acho que o Reitor da Jordan estava dando o aletiômetro para você. Ele pediu mesmo que você o trouxesse para mim?
— Sim, ora! — ela exclamou.
Mas parou para pensar e concluiu que, na verdade, o Reitor não tinha lhe pedido para fazer isso; ela imaginava que era o que ele pretendia.
— Não — corrigiu. — Não sei. Pensei que...
— Bem, eu não o quero. Ele é seu, Lyra.
— Mas...
— Boa noite, garota.
Sem palavras, admirada demais com isso para exprimir uma sequer das dezenas de perguntas que lhe enchiam a mente, ela pegou o aletiômetro e o embrulhou no veludo preto.
Então sentou perto do fogo e ficou vendo Lorde Asriel se afastar.

3 comentários:

  1. Mundo paralelos? O livro começava com um tema e me pareceu terminar em outro... que virada na história...

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  2. Luamara feiticeira dimon dragão11 de março de 2017 14:02

    Ainh......Deu até tontura.

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  3. Oq será q o reitor ia fala sério to com medo de com vai se desenrolar essa história
    E lorde asriel é tão ... babaca o idiota nem liga pra lyra e essa ponte com energia me lembra do desastre q foi Frankenstein sinto altas merdas
    Odeio suspense eu n aguentooooo

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Boa leitura :)