4 de fevereiro de 2017

20. À outrance

LUTAS entre ursos eram comuns em ocasiões de grandes rituais. Mas era raro um urso matar outro, e, quando isso acontecia, em geral era por acidente, ou quando um urso interpretava mal os sinais de outro, como foi o caso de Iorek Byrnison. Casos de assassinato, como aconteceu com Iofur, que matou o próprio pai, eram ainda mais raros.
Mas ocasionalmente surgiam circunstâncias em que a única maneira de resolver uma disputa era por meio de um combate mortal. E para isso havia todo um cerimonial.
Assim que Iofur anunciou que Iorek Byrnison estava a caminho e haveria um confronto, o campo de combate foi varrido e alisado, e fabricantes de armaduras vieram das minas de fogo para verificar a armadura de Iofur. Cada pino foi examinado, cada elo foi testado, e as placas foram polidas com a areia mais fina. A mesma atenção foi dada às garras de Iofur; a folha de ouro foi raspada e cada garra — com quase 20 centímetros — foi afiada e afilada até se tornar
uma arma mortal. Lyra observava tudo com uma crescente sensação de náusea na boca do estômago, pois Iorek Byrnison não receberia todos esses cuidados. Ele vinha marchando sobre o gelo há cerca de 24 horas, sem alimento ou descanso; podia estar ferido por causa da queda do balão. E ela havia preparado essa luta para ele sem que ele soubesse! Em certo momento, depois que Iofur Raknison testou o potencial das suas garras num leão-marinho recém-abatido lhe cortando a pele como se fosse papel, e a força de seus murros no crânio do animal (com dois murros, ele o rachou como se fosse um ovo), Lyra teve que inventar uma desculpa e pedir licença a Iofur para ir chorar de medo.
Até Pantalaimon, que normalmente conseguia alegrar a menina, pouco tinha a dizer de otimista. Tudo que ela podia fazer era consultar o aletiômetro, que lhe disse que Iorek estava a uma hora de lá e repetiu que ela devia confiar nele; ela também (e isso foi mais difícil de decifrar) ganhou uma repreensão por fazer duas vezes a mesma pergunta.
A essa altura, a notícia tinha se espalhado, e o campo de combate já estava tomado pelos ursos. Os ursos de posição mais elevada ocupavam os melhores lugares, e havia um local especial para as ursas — inclusive as esposas de Iofur, naturalmente. Lyra tinha uma curiosidade enorme a respeito das ursas, pois sabia muito pouco sobre elas, mas não era hora de ficar por ali fazendo perguntas. Em vez disso, ela ficou perto de Iofur Raknison e observou os cortesãos em volta dele exibindo sua posição acima dos ursos comuns; ela tentou adivinhar o significado das variadas plumas, medalhas e condecorações que todos pareciam usar.
Lyra percebeu que alguns dos mais graduados levavam pequenos bonecos, como a boneca de trapos de Iofur, talvez para agradá-lo imitando um hábito que ele iniciara. A menina ficou satisfeita quando percebeu que, ao verem que Iofur não estava usando o seu boneco, eles ficaram sem saber o que fazer com os deles. Deveriam jogar fora? Os bonecos já não eram bem-vistos? Como deveriam agir?
Pois ela começava a perceber que aquele era o estado de espírito reinante na corte: eles não tinham certeza daquilo que eram. Não eram como Iorek Byrnison, puros, seguros e absolutos; havia um constante manto de insegurança envolvendo todos eles, enquanto observavam uns aos outros e observavam Iofur.
E observavam Lyra, também, com evidente curiosidade. Ela permanecia discretamente ao lado de Iofur, sem dizer nada, baixando os olhos sempre que um urso olhava para ela.
A essa altura, a névoa se dissipara e o ar estava claro; e, por um capricho da sorte, o breve intervalo de claridade por volta do meio-dia coincidiu com a hora em que Lyra achava que Iorek ia chegar. Tremendo, parada num montinho de neve na borda do campo de combate, ela ergueu os olhos para a leve claridade no céu e desejou com todo o coração avistar uma esquadrilha de vultos negros e elegantes descendo para levá-la, ou ver a cidade escondida da Aurora Boreal, onde ela poderia andar em segurança pelas largas avenidas à luz do sol, ou ainda os braços generosos de Mãe Costa, sentir o cheiro amigo de carne e comida que envolviam Lyra na presença dela...
Quando Lyra deu por si, estava chorando, vertendo lágrimas que congelavam quase de imediato e que ela arrancava do rosto dolorosamente. Estava com muito medo. Os ursos, que não choravam, não conseguiam entender o que estava acontecendo com ela; achavam que era um processo humano qualquer, sem significado. E naturalmente Pantalaimon não podia consolar Lyra como costumava fazer, embora ela mantivesse a mão no bolso segurando com firmeza o pequeno ratinho; ele, por sua vez, acariciava os dedos dela com o focinho.
Perto dela, os ferreiros estavam fazendo os ajustes finais na armadura de Iofur Raknison. Coberto de aço polido, as placas lisas enfeitadas com fios de ouro, ele parecia uma grande torre de metal brilhante; o elmo cobria a parte superior da cabeça numa cintilante carapuça cinza-prateada, com fendas na altura dos olhos, e a parte inferior do corpo era protegida por um saiote de malha de metal bem ajustado. Foi quando viu isso que Lyra tomou consciência de que tinha traído Iorek Byrnison, pois Iorek não possuía nenhuma dessas coisas: a armadura dele só protegia as costas e os lados. Ela olhou para Iofur Raknison, tão dinâmico e poderoso, e sentiu uma dor profunda, como uma mistura de culpa e de medo. Disse então:
— Com licença, Majestade. O senhor se lembra do que eu lhe disse antes...
Sua voz trêmula soava fina e fraca. Iofur Raknison virou a cabeça poderosa, tirando sua atenção do alvo que três ursos estavam segurando na sua frente para que ele o rasgasse com suas garras mortais.
— Que é? Que é?
— O senhor se lembra que eu disse que era melhor eu ir falar com Iorek Byrnison primeiro, e fingir que...
Mas antes que ela conseguisse terminar a frase, os ursos na torre de vigia deram um sinal. Todos os outros, sabendo de que se tratava aquilo, também começaram a rugir com triunfante agitação.
Tinham avistado Iorek.
— Por favor? — disse Lyra em desespero. — Eu consigo enganar ele, o senhor vai ver.
— Certo, certo. Vá. E encoraje ele!
Iofur Raknison mal conseguia falar de tanta raiva e excitação.
Lyra se afastou dele e atravessou o campo de combate vazio e deserto, deixando suas pequenas pegadas na neve; e os ursos do outro lado abriram caminho para que ela passasse. À medida que os corpanzis se afastavam, o horizonte se abria, escuro na palidez da luz do dia.
Onde estava Iorek Byrnison? Ela não conseguia enxergar; mas a torre de vigia era alta, e eles conseguiam ver coisas que ela ainda não podia ver. Tudo que ela podia fazer era avançar caminhando pela neve.
Ele viu Lyra antes que ela o visse; com um ruído forte de metal e uma chuva de neve, Iorek Byrnison estava ao seu lado.
— Ah, Iorek! Eu fiz uma coisa horrível! Meu amigo, você vai ter que lutar com Iofur Raknison, e não está preparado! Está cansado e faminto, e a sua armadura...
— Que coisa horrível você fez?
— Contei a ele que você estava chegando, porque li isso no leitor de símbolos, e ele está desesperado para ser como uma pessoa e ter um dimon, desesperado. Então enganei ele, dizendo que sou seu dimon e que ia abandonar você para ser dele, mas para isso acontecer ele teria que lutar com você. Senão, meu querido Iorek, eles nunca iriam deixar você lutar, iam botar fogo em você antes de você chegar perto...
— Você enganou Iofur Raknison?
— Foi. Fiz ele concordar em lutar em vez de matar você como um renegado, e o vencedor vai ser rei dos ursos. Tive que fazer isso, porque...
— Lyra Belacqua? Não, você é Lyra da Língua Mágica — ele declarou. — Tudo que eu quero é lutar com ele. Vamos lá, pequeno dimon.
Ela contemplou Iorek Byrnison em sua armadura marcada pelo tempo, alto e feroz, e sentiu que o coração ia explodir de orgulho.
Caminharam lado a lado em direção ao palácio de Iofur, onde o campo de combate ocupava toda a base da muralha. Os ursos estavam em posição nos parapeitos, rostos pálidos enchiam todas as janelas, e os corpos pesados formavam uma densa parede branca, marcada de pontinhos pretos de olhos e focinhos. Os mais próximos se afastaram para um lado, formando duas filas, entre as quais Iorek Byrnison e seu dimon passaram. Os olhos de todos os ursos estavam fixos neles.
Iorek parou na borda do campo de combate; na borda oposta estava Iofur Raknison. O rei desceu do monte de neve e os dois se encararam a poucos metros de distância.
Lyra estava tão perto de Iorek que conseguia sentir um tremor dentro dele, como um grande dínamo gerando poderosa energia anbárica. Ela tocou de leve no pescoço dele, na borda do elmo, e disse:
— Boa luta, meu querido Iorek. Você é o verdadeiro rei, e ele não é. Ele não é nada.
Então ela recuou.
— Ursos! — rugiu Iorek Byrnison. Das muralhas do palácio veio um eco, espantando os pássaros de seus ninhos. — Eis os termos deste combate: se Iofur Raknison me matar, ele será rei para sempre, livre de desafio ou disputa. Se eu matar Iofur Raknison, serei o seu rei. Minha primeira ordem a todos vocês será derrubar este palácio, esta casa perfumada de falsidade e purpurina, e jogar o ouro e o mármore no mar. O metal do urso é o ferro. Não é ouro. Iofur Raknison poluiu Svalbard. Eu vim para purificá-la. Iofur Raknison, eu desafio você!
Então Iofur se aproximou alguns passos, como se mal conseguisse se controlar.
— Ursos! — rugiu por sua vez. — Iorek Byrnison voltou a meu convite. Eu o atraí para cá. Sou eu quem tem que ditar os termos do combate, que são: se eu matar Iorek Byrnison, a carne dele será retalhada e servida aos avantesmas-dos-penhascos. A cabeça vai ficar exposta em cima do meu palácio. Ele será esquecido. Será crime grave falar o nome dele...
Ele prosseguiu, e depois cada um dos dois tornou a falar. Era uma fórmula, um ritual fielmente obedecido. Lyra olhava para os dois, tão diferentes: Iofur tão brilhante e poderoso, imenso em sua força e saúde, em sua armadura esplêndida, orgulhoso e fidalgo; e Iorek, menor — embora ela nunca tivesse imaginado que ele um dia ia parecer pequeno — e mal equipado, a armadura amassada e enferrujada. Mas a armadura dele era a sua alma; ele a tinha fabricado, e ela lhe servia perfeitamente. Armadura e urso eram uma coisa só. Iofur não estava contente com a sua armadura; ele queria também outra alma. Estava inquieto, enquanto Iorek estava imóvel.
E ela estava consciente de que todos os outros ursos também faziam essa comparação.
Mas Iorek e Iofur eram mais do que apenas dois ursos: eram dois tipos de vida, dois futuros, dois destinos. Iofur tinha começado a levar os ursos numa direção, e Iorek iria levá-los em outra, e no mesmo instante em que um futuro morria, outro começaria a existir.
Enquanto o ritual do combate caminhava rumo à segunda fase, os dois começaram a dar passos inquietos na neve, se aproximando aos poucos, balançando a cabeça. Entre os espectadores não havia o menor movimento, mas todos os olhos seguiam os dois.
Finalmente os combatentes ficaram imóveis e silenciosos, se observando de frente através da largura do campo de combate.
Então, com um rugido e uma chuva de neve, ambos os ursos avançaram no mesmo momento. Como duas grandes massas de pedra, equilibradas em picos vizinhos e soltas por um terremoto, que rolam as encostas ganhando velocidade, saltando acima de abismos e reduzindo árvores a gravetos até colidirem uma com a outra com tanta força que ambas são esmigalhadas, se transformando em pó e lascas de pedra — foi assim o encontro dos dois ursos. O estrondo ressoou no ar e voltou como eco. Mas eles não foram destruídos como aconteceria com a pedra; ambos caíram de lado, e o primeiro a se levantar foi Iorek. Ele girou e agarrou Iofur, cuja armadura havia ficado danificada e que não conseguia levantar a cabeça com facilidade. Iorek foi direto ao ponto vulnerável no pescoço do outro, passou as garras pela pele branca e então as fincou debaixo da borda do elmo de Iofur e o puxou para a frente.
Sentindo o perigo, Iofur rosnou e se sacudiu como Lyra tinha visto Iorek se sacudir na beira d’água, enviando lençóis de água para o alto; Iorek caiu longe, e com um horrível guinchar de metal retorcido, Iofur ficou ereto, esticando o aço das placas das costas apenas com sua força bruta. Então, como uma avalanche, ele se jogou sobre Iorek, que ainda tentava se levantar.
Lyra ficou sem ar só de ver a força da queda. Certamente o chão estremeceu sob ela.
Como Iorek poderia sobreviver a isso? Ele estava lutando para girar o corpo e conseguir fincar os pés no chão, mas estava com os pés para cima e Iofur tinha enfiado os dentes em algum lugar perto da garganta dele. Pingos de sangue quente voavam pelo ar: um deles caiu no casaco de Lyra, e ela segurou o pano apertado na mão como um sinal de amor.
Então Iorek enfiou as patas traseiras nos elos do saiote de Iofur e puxou, rasgando-o; a frente inteira caiu, e Iofur se jogou para um lado para examinar o estrago, permitindo que Iorek ficasse de pé.
Por um instante os dois ursos ficaram afastados, recuperando o fôlego. Iofur agora tinha a malha de aço para atrapalhar, pois em vez de proteção ela se transformara num obstáculo; ainda estava presa a ele, e era arrastada pelo chão pendurada entre as pernas. No entanto, Iorek estava em pior situação: sangrava muito pela ferida no pescoço e ofegava intensamente.
Mas saltou sobre Iofur antes que o rei conseguisse se desvencilhar do saiote de malha de aço e o derrubou numa cambalhota, atacando em seguida a parte nua do pescoço onde a borda do elmo estava empenada. Iofur o jogou longe, e então os dois colidiram outra vez, fazendo voar esguichos de neve em todas as direções e às vezes ficava difícil acompanhar os lances da batalha.
Lyra assistia, mal ousando respirar e apertando as mãos com tanta força que chegavam a doer. Ela pensou ter visto Iofur abrindo um buraco na barriga de Iorek, mas isso não devia ser verdade, porque logo em seguida, depois de outra explosão de neve, os dois ursos estavam de pé nas patas traseiras como dois boxeadores, e Iorek tentava arranhar o rosto de Iofur com suas garras poderosas, enquanto Iofur atacava de volta com a mesma selvageria.
Lyra estremecia a cada golpe. Como se um gigante estivesse girando um martelo, e esse martelo tivesse cinco pinos de aço...
Ferro batia em ferro, dente batia em dente, respirações ofegavam, pés trovejavam na neve revolta e suja de sangue, formando uma espécie de lama vermelha.
A essa altura, a armadura de Iofur estava em estado lastimável, as placas rasgadas e empenadas, as incrustações de ouro arrancadas ou cobertas de sangue, e o capacete fora arrancado. A armadura de Iorek estava em melhores condições, apesar de sua feiura: amassada, mas intacta, suportando os murros possantes do urso-rei e desviando aquelas garras brutais.
Por outro lado, Iofur era maior e mais forte que Iorek, que estava cansado, faminto e tinha perdido mais sangue. Ele estava ferido na barriga, em ambos os braços e no pescoço, enquanto Iofur sangrava somente na mandíbula. Lyra daria tudo para ajudar seu querido amigo, mas nada podia fazer.
E as coisas agora estavam ruins para Iorek. Ele estava mancando; cada vez que colocava a pata dianteira esquerda no chão, dava para ver que ela não aguentava o peso dele. Nunca a usava para atacar, e os golpes de sua mão direita também eram bem fracos, comparados aos murros poderosos que ele dera poucos minutos antes.
Iofur havia percebido isso e começou a provocar Iorek, chamando-o de mão-quebrada, filhote desmamado, enferrujado, candidato a morto e outras coisas, enquanto o atacava por todos os lados com socos que Iorek não conseguia evitar. Iorek teve que recuar, um passo de cada vez, e se agachar sob a chuva de murros do sarcástico urso-rei.
Lyra chorava. O seu querido, o seu amigo corajoso, o seu defensor destemido estava prestes a morrer, e ela não ia lhe fazer a traição de não assistir, pois, se ele olhasse para ela, tinha que ver olhos brilhantes de amor e confiança, não um rosto escondido covardemente ou costas voltadas para ele por medo.
Então, ela ficou assistindo, mas as lágrimas não deixavam que ela enxergasse o que estava realmente acontecendo; talvez fosse mesmo algo impossível de ver. Iofur certamente não enxergava.
Porque Iorek estava recuando apenas para encontrar solo firme e seco e uma rocha sobre a qual se apoiar, e o inútil braço esquerdo estava, na verdade, forte e em condição de lutar.
Não se pode enganar um urso; mas, como Lyra lhe mostrara, Iofur não queria ser um urso, queria ser um homem, e Iorek estava conseguindo enganá-lo.
Finalmente ele encontrou o que procurava: uma pedra firmemente ancorada na terra. Iorek se encostou nela, tensionando as pernas e esperando a oportunidade.
Que chegou quando Iofur se ergueu na frente dele, urrando sua vitória e virando a cabeça, provocantemente, para o lado esquerdo de Iorek, aparentemente o lado mais fraco.
Foi então que Iorek atacou. Como uma onda que vem aumentando sua força através de milhares de quilômetros de oceano e que causa pouca agitação em águas profundas, mas que, quando chega ao raso, se eleva no ar aterrorizando as pessoas, antes de cair sobre a terra com força irresistível — assim Iorek Byrnison se ergueu contra Iofur, explodindo para o alto em cima dos pés plantados na rocha seca e dilacerando com um feroz movimento da mão esquerda o queixo desprotegido de Iofur Raknison.
Foi um golpe terrível, que arrancou a parte inferior da mandíbula, que voou pelo ar espalhando respingos de sangue pela neve a muitos metros de distância.
A língua vermelha de Iofur ficou pendurada sobre a garganta exposta. O urso-rei, de repente, perdera os dentes, a voz, a luta. Iorek não precisava de mais nada; avançando, enfiou os dentes na garganta de Iofur e se sacudiu de um lado para outro, erguendo do solo o corpo enorme e batendo com ele no chão como se Iofur fosse uma foca na beira d’água.
Então fez força para cima, e a vida de Iofur Raknison se evaporou entre seus dentes.
Havia ainda um ritual a ser cumprido. Iorek abriu o peito desprotegido do rei morto, arrancando a pele para expor as costelas estreitas, brancas e vermelhas, como o esqueleto de um barco virado; enfiou a mão entre as costelas, arrancou o coração de Iofur — vermelho, soltando vapor — e o comeu ali mesmo, na frente dos súditos de Iofur.
Houve então aclamações, alvoroço, pandemônio, os ursos avançando em massa para homenagear o matador de Iofur. A voz de Iorek Byrnison soou acima do clamor:
— Ursos! Quem é o seu rei?
E o brado retornou num rugido, como se fosse todos os seixos do mundo, açoitados pelas ondas de uma tempestade no mar.
— Iorek Byrnison!
Os ursos sabiam o que tinham a fazer; cada enfeite, medalha e faixa foi jogado fora e pisoteado com desprezo, para logo ser esquecido. Agora eram ursos de Iorek, ursos de verdade, não semi-humanos inseguros, conscientes apenas de uma torturante inferioridade.
Correram para o Palácio e começaram a atirar grandes blocos de mármore do alto das torres, soltando as pedras das ameias com suas mãos poderosas e as arremessando por cima dos rochedos para o ancoradouro centenas de metros abaixo.
Iorek ignorou tudo isso e soltou as placas da armadura para cuidar dos ferimentos; antes, porém, que começasse, Lyra estava a seu lado, batendo com os pés na neve vermelha e gritando para os ursos pararem de destruir o Palácio, pois havia prisioneiros lá dentro. Eles não ouviram, mas Iorek sim, e quando ele rugiu, eles pararam no mesmo instante.
— Prisioneiros humanos? — ele quis saber.
— É, sim, que Iofur Raknison botou nas masmorras. Eles têm que sair e se abrigar em algum lugar, senão vão morrer nas ruínas do Palácio...
Iorek deu ordens rápidas e alguns ursos correram para dentro do Palácio para soltar os prisioneiros. Lyra se virou para Iorek.
— Deixe que eu cuido de você, quero ter certeza de que não está muito ferido, meu querido Iorek, ah, eu queria ter uns curativos ou coisa assim! Este corte na barriga está horrível...
Um urso colocou no chão, aos pés de Iorek, um bocado de uma massa verde rígida, congelada.
— Musgo-de-sangue — Iorek explicou. — Enfie isto dentro das feridas, Lyra. Cubra com a pele e então segure um pouco de neve em cima até a massa congelar.
Ele não deixou que os ursos cuidassem dele, apesar da ansiedade deles; as mãos de Lyra eram hábeis, e ela estava desesperada para ajudar. Assim, a garotinha se inclinou sobre o grande urso-rei, enfiando o musgo-de-sangue, puxando a pele por cima e congelando o ferimento até parar de sangrar. Quando terminou, tinha as luvas empapadas de sangue de Iorek, mas os ferimentos estavam tratados.
E, a essa altura, os prisioneiros tinham saído, num grupo de cerca de uma dúzia de homens tremendo e piscando muito. Lyra achou que não havia motivo para falar com o Professor, pois ele estava louco; ela gostaria de saber quem eram os outros homens, mas havia muitas coisas urgentes a fazer. E não queria distrair Iorek, que dava ordens breves que enviavam ursos correndo para todos os lados, mas ela estava preocupada com Roger, Lee Scoresby e as feiticeiras, estava com fome e cansada... Achou que a melhor coisa a fazer naquele momento era ficar fora do caminho.
Assim, encontrou um canto sossegado do campo de combate, se enroscou em Pantalaimon como filhote de lobo para aquecê-la e empilhou neve em cima de si como um urso faria; e adormeceu.


Alguma coisa cutucava seu pé, e uma voz de urso desconhecida disse:
— Lyra da Língua Mágica, o rei quer falar com você.
Ela acordou quase congelada e não conseguiu abrir os olhos, pois as pálpebras tinham endurecido de frio; mas Pantalaimon derreteu o gelo dos cílios com pequenas lambidas, e ela logo conseguiu ver à luz da lua o jovem urso que havia falado. Tentou ficar de pé, mais caiu por duas vezes. O urso ofereceu:
— Suba em mim.
E se agachou para que ela alcançasse as costas largas; pendurada, quase caindo, ela conseguiu ficar montada enquanto ele a levava para um vale profundo onde muitos ursos estavam reunidos.
E entre eles havia uma figurinha que correu para ela e cujo dimon deu um salto para saudar Pantalaimon.
— Roger! — ela gritou.
— Iorek Byrnison me fez ficar aqui fora na neve enquanto vinha buscar você. Nós caímos do balão, Lyra! Depois que você caiu, nós fomos carregados por muitos e muitos quilômetros, e então o Sr. Scoresby esvaziou mais um pouco o balão e nós batemos numa montanha e caímos por uma ladeira como nunca se viu. Não sei onde o Sr. Scoresby foi parar, nem as feiticeiras. Só eu e Iorek Byrnison. Ele veio direto para cá, procurando você. E aqui me falaram do combate...
Lyra olhou em volta. Sob a direção de um urso mais velho, os prisioneiros humanos estavam construindo um abrigo de madeira e retalhos de lona. Pareciam felizes por ter um trabalho a fazer. Um deles batia numa pederneira para acender o fogo.
— Temos comida — disse o jovem urso que havia despertado Lyra.
Uma foca recém-abatida estava sobre a neve. O urso a abriu com uma garra e mostrou a Lyra onde encontrar os rins. Ela comeu um deles, cru: era quente, macio e mais delicioso do que se poderia imaginar.
— Coma a gordura também — disse o urso, arrancando um pedaço para ela. Tinha sabor de creme temperado com avelãs.
Roger não estava muito animado, mas seguiu o exemplo dela. Os dois comeram gulosamente e, em poucos minutos, Lyra estava inteiramente acordada e começando a sentir calor. Limpando a boca, ela olhou em volta, mas Iorek Byrnison não estava à vista.
— Iorek Byrnison está conversando com seus conselheiros — informou o jovem urso. — Quer falar com você depois que você tiver se alimentado. Venha comigo.
Ele os levou por cima de uma elevação na neve até um lugar onde os ursos estavam começando a construir uma parede de blocos de gelo. Iorek estava sentado no centro de um grupo de ursos mais velhos e se levantou para recebê-la.
— Lyra da Língua Mágica, venha ouvir o que estão me dizendo — chamou.
Não explicou a presença dela aos outros ursos, ou talvez eles já soubessem sobre ela; mas lhe ofereceram um lugar e trataram Lyra com imensa cortesia, como se ela fosse uma rainha. Ela sentiu um orgulho enorme de se sentar ao lado de seu amigo Iorek Byrnison, sob a Aurora Boreal que cintilava graciosamente no céu polar, e participar da conversa dos ursos.
O que acontecia era que o domínio de Iofur Raknison sobre eles tinha sido como um feitiço; alguns culpavam a influência da Sra. Coulter, que visitara Iofur e lhe dera muitos presentes, antes até do exílio de Iorek, embora este não soubesse disso. Um dos ursos contou:
— Ela deu a Iofur Raknison uma droga para dar a Hjalmur Hjalmurson para que ele ficasse louco.
Lyra calculou que Hjalmur Hjalmurson era o urso que Iorek tinha matado e por causa disso sido exilado. Então a Sra. Coulter estava por trás daquilo também! E havia mais:
— Existem leis humanas proibindo certas coisas que ela planejava fazer, mas as leis humanas não vigoram em Svalbard. Ela queria montar aqui outra estação como Bolvangar, só que pior, e Iofur ia permitir isso, contra todos os costumes dos ursos; pois já tivemos humanos nos visitando, ou prisioneiros, mas nunca morando ou trabalhando aqui. Aos poucos, ela ia aumentar seu poder sobre Iofur Raknison e o dele sobre nós, até virarmos escravos dela, fazendo tudo que ela ordenasse, e nosso único dever ia ser tomar conta da abominação que ela ia criar...
Quem falava era um urso velho. Seu nome era Soren Eisarson, e ele era um conselheiro que tinha sofrido muito sob as ordens de Iofur Raknison.
— O que ela está fazendo agora, Lyra? — Iorek Byrnison perguntou. — Quando souber da morte de Iofur, quais serão os planos dela?
Lyra pegou o aletiômetro. Estava escuro demais para enxergar, e Iorek pediu que trouxessem luz.
— Que foi que aconteceu com o Sr. Scoresby e as feiticeiras? — Lyra perguntou, enquanto esperavam.
— As feiticeiras foram atacadas por feiticeiras de outro clã. Não sei se eram aliadas dos mutiladores de crianças, mas estavam patrulhando nossos céus em grande número e atacaram durante a tempestade. Não vi o que aconteceu a Serafina Pekkala. Quanto a Lee Scoresby, o balão tornou a subir depois que eu caí com o menino, e ele foi dentro. Mas o seu leitor de símbolos vai lhe contar o destino deles.
Um urso chegou puxando um trenó no qual havia um tabuleiro cheio de carvão em brasa, e jogou um galho resinoso dentro dele. O galho pegou fogo no mesmo instante, e nesta luz Lyra girou os ponteiros do aletiômetro e perguntou sobre Lee Scoresby.
Pela resposta, ele ainda estava no ar, levado pelos ventos em direção a Nova Zembla, escapara dos avantesmas-dos-penhascos e tinha lutado contra as feiticeiras do outro clã.
Lyra contou a Iorek, que balançou a cabeça, satisfeito.
— Se está no ar, está em segurança — disse. — E quanto à Sra. Coulter?
A resposta foi complicada, com o ponteiro indo de um símbolo a outro numa sequência que deixou Lyra pensando durante muito tempo. Os ursos estavam curiosos, mas reprimidos pelo respeito por Iorek Byrnison e o dele por Lyra, enquanto ela os esquecia e mergulhava no transe aletiométrico.
A mensagem dos símbolos era desalentadora.
— Está dizendo que ela... Ela soube que estávamos voando para cá e conseguiu um zepelim de transporte armado com metralhadoras, acho que é isso, e está voando para Svalbard agora mesmo. Ela ainda não sabe que Iofur Raknison foi derrotado, é claro, mas logo saberá, porque... Ah, sim, porque algumas feiticeiras vão ficar sabendo pelos avantesmas-dos-penhascos e vão contar a ela. Acho que há espiões no ar por toda parte, Iorek. Ela vinha para... para fingir ajudar Iofur Raknison, mas, na verdade, ia tomar o poder dele com um exército de tártaros que está vindo por mar, e eles chegarão em poucos dias.
“E assim que puder ela vai até onde Lorde Asriel está preso e vai mandar matar ele. Porque... Agora está ficando claro: uma coisa que eu nunca tinha entendido, Iorek! É por isso que ela quer matar Lorde Asriel: porque ela sabe o que ele vai fazer e tem medo, quer fazer ela mesma e obter o controle antes dele... Deve ser sobre a cidade no céu, só pode ser! Ela está tentando chegar lá primeiro! E agora ele está dizendo outra coisa...”
Ela se inclinou sobre o instrumento, muito concentrada enquanto o ponteiro ia de um lado para outro. Ele se movia quase depressa demais para a vista: Roger, olhando por cima do ombro dela, nem conseguia ver o ponteiro parar, e só percebia um diálogo rápido entre os dedos de Lyra movendo os ponteiros menores e o ponteiro grande respondendo, uma linguagem tão extraordinária quanto a própria Aurora Boreal.
Finalmente ela descansou o instrumento no colo e, piscando e suspirando, saiu da profunda concentração.
— Sim, entendo o que ele está dizendo — afirmou. — Ela está de novo atrás de mim. Quer alguma coisa que eu tenho, porque Lorde Asriel também quer. Precisam disso para esse... Para essa experiência, seja lá o que for...
Ela parou e respirou profundamente. Alguma coisa a incomodava, e ela não sabia o que era. Tinha certeza de que aquela coisa tão importante era o próprio aletiômetro, porque, afinal de contas, a Sra. Coulter tentara ficar com ele, e que mais poderia ser? Mas não era isso, pois o aletiômetro tinha outra maneira de se referir a si mesmo.
— Imagino que seja o aletiômetro — disse, em tom de tristeza. — Foi o que eu pensei o tempo todo. Tenho que entregar ele a Lorde Asriel antes que ela apareça. Se ela pegar o aletiômetro, todos nós morreremos.
Ao dizer isso, ela se sentiu tão cansada, tão exausta e triste que morrer teria sido um alívio. Mas o exemplo de Iorek Byrnison impedia que ela admitisse isso. Guardou o aletiômetro e se sentou de costas retas.
— A que distância ela está? — Iorek perguntou.
— A poucas horas. Acho que é melhor levar o aletiômetro para Lorde Asriel o mais depressa possível.
— Vou com você — decidiu Iorek.
Ela não discutiu. Enquanto Iorek dava ordens e organizava um grupo armado para ir com eles na parte final da viagem para o norte, Lyra ficou imóvel, poupando sua energia; sentia que durante a última leitura alguma coisa se perdera nela. Fechou os olhos e dormiu; mais tarde eles a acordaram, e partiram.

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