17 de fevereiro de 2017

20. A escalada

Eu cheguei lá porque subi devagar, porque me agarrei aos galhos finos que crescem entre mim e a felicidade.
Emily Dickinson

Os mulefas faziam muitos tipos de cordas, cabos e cordões, e Mary Malone passou uma manhã inspecionando e testando os que a família de Atai tinha armazenados antes de escolher o que queria. O princípio de torcer as extremidades em direções opostas e enrolar não havia se popularizado no mundo deles, de modo que todos os tipos de cabos, cordões e cordas eram trançados, mas eram fortes e flexíveis, e Mary logo encontrou exatamente o que queria.
O que você está fazendo?, perguntou Atai.
Os mulefas não tinham um termo para descrever a ação de alçar-se, escalar, subir trepando, de modo que Mary teve que gesticular um bocado e fazer muitos rodeios, dando explicações indiretas. Atai ficou horrorizada.
Ir até lá e entrar na parte alta das árvores?
Eu preciso ver o que está acontecendo, explicou Mary. Agora você pode me ajudar a preparar as cordas.
Certa ocasião, na Califórnia, Mary havia conhecido um matemático que passava todos os fins de semana subindo em árvores, escalando seus galhos. Mary tinha alguma prática de alpinismo e ouvira avidamente enquanto ele falava sobre as técnicas e o equipamento, e havia decidido experimentar aquilo assim que tivesse uma oportunidade. É claro, nunca havia imaginado que iria estar escalando árvores em um outro universo e fazer a escalada solitária também não lhe agradava muito, mas não havia alternativa quanto a isso. O que podia fazer era tomar todas as providências, antecipadamente, para fazê-lo da maneira mais segura possível. Escolheu um rolo de corda suficientemente longo para passar sobre um dos galhos de uma árvore alta e chegar de volta ao chão, e forte o bastante para suportar várias vezes o seu peso. Então cortou um grande número de pedaços de corda menores, mas muito resistentes, e fez laços com eles: laçadas curtas unindo dois chicotes em nó de pescador, que podiam servir de pontos de apoio para os pés e para as mãos depois que os amarrasse à corda principal.
Depois, havia o problema de como conseguir lançar a corda por sobre o galho para começar. Uma ou duas horas de experiências com um cordão fino e resistente e um pedaço de galho flexível resultaram em um arco, o canivete suíço cortou algumas flechas, com folhas rijas no lugar de penas, para dar-lhes estabilidade em voo, e, finalmente, depois de um dia de trabalho, Mary estava pronta para começar. Mas o sol estava se pondo e suas mãos estavam cansadas, de modo que comeu e foi dormir, preocupada, enquanto os mulefas falavam incessantemente a seu respeito, em seus suaves sussurros musicais. Logo que amanheceu, a primeira coisa que fez foi se preparar para lançar a flecha por sobre um galho. Alguns dos mulefas se reuniram para observar, preocupados com a segurança dela. Uma escalada era algo tão estranho e exótico para seres com rodas que a simples ideia os horrorizava. Em seu íntimo, Mary sabia exatamente como se sentiam. Tratou de engolir seu nervosismo e amarrou uma ponta do cordão mais fino e mais leve a uma das flechas e a lançou voando para o alto com o arco.
Mary perdeu a primeira flecha: ela se enfiou na casca da árvore a meio caminho e não se desprendia. Ela perdeu a segunda porque, embora tivesse voado por sobre o galho, não caiu longe o bastante para ser alcançada do solo do outro lado e, quando a puxou de volta, a flecha se enganchou no galho e se quebrou. O longo cordão caiu de volta preso ao pedaço da flecha quebrada, e Mary tentou de novo com a terceira e última flecha e, desta vez, funcionou.
Puxando o cordão, cuidadosa e firmemente de maneira a não prendê-lo e parti-lo, ela puxou e alçou a corda preparada por sobre o galho até que ambas as pontas estivessem no chão. Então as amarrou a um dos arcobotantes maciços de uma das raízes, tão grosso de circunferência quanto seus quadris, de modo que deveria ser bastante sólido, pensou. Seria bom que realmente fosse. O que não podia dizer de onde estava no solo, é claro, era de que tipo de galho a coisa inteira, inclusive ela, estaria dependendo para se sustentar. Ao contrário de escaladas em rochas, em que você pode prender a corda em pinos cravados na face da rocha, mais ou menos a cada metro, de modo a nunca estar sujeito a grandes quedas, aquela operação envolvia uma extensão muito longa de corda solta e uma queda realmente muito grande, se alguma coisa saísse errada. Para se proporcionar um pouco mais de segurança, ela trançou três pequenas cordas formando um arnês e passou-o em volta de ambas as pontas penduradas da corda principal, com um nó corredio cuja laçada podia apertar no momento em que começasse a escorregar. Mary pôs o pé na alça da primeira laçada e começou a escalada. Ela alcançou a copa da árvore em menos tempo do que havia esperado. A escalada foi simples, a corda não maltratou suas mãos e, embora não tivesse querido pensar sobre o problema de como subir ao topo do primeiro galho, descobriu que as fissuras na casca a ajudavam a ter um sólido ponto de apoio e a se sentir segura. De fato, apenas 15 minutos depois de ter deixado o solo, estava de pé no primeiro galho e planejando a rota que seguiria para chegar ao próximo.
Tinha trazido consigo mais dois rolos de corda, pretendendo fazer uma rede de cabos fixos para substituir os pinos e esteios, os “amigos” e outras peças de equipamento com que contava quando estava escalando uma parede de rocha.
Amarrá-las fixando-as nos lugares adequados custou-lhe alguns minutos e depois que estava segura com as laçadas atadas a elas, escolheu o que parecia ser o galho mais promissor, enrolou sua corda sobressalente de novo e seguiu adiante.
Depois de dez minutos de escalada cuidadosa, encontrou-se na parte mais espessa da copa da árvore. Podia tocar nas folhas longas e correr a mão de ponta a ponta, encontrou uma flor após outra de um tom branco-cinzento-amarelado, todas absurdamente pequenas, cada uma produzindo a coisa pequenina, do tamanho de uma moeda, que mais tarde se tornaria uma daquelas grandes nozes, duras como ferro.
Alcançou um ponto confortável onde três galhos se dividiam fazendo uma forquilha, amarrou bem a corda, prendeu seu arnês e descansou. Através dos espaços entre as folhas podia ver o mar azul, límpido e cintilante, até o horizonte, e na outra direção, por sobre o ombro direito, avistava a sucessão de pequenas elevações na pradaria castanho-dourada, toda listrada pelas estradas negras.
Havia uma brisa suave, que levantava um leve perfume das flores e farfalhava as folhas duras, e Mary imaginou uma imensa e indistinta benevolência levantando-a, como um par de mãos gigantescas. Enquanto estava deitada na forquilha, sentiu uma espécie de felicidade que só uma vez antes havia sentido, e não tinha sido quando fizera seus votos de freira. Afinal, acabou sendo trazida de volta para seu estado normal de consciência por uma cãibra no tornozelo direito, que estava apoiado de mau jeito no canto da forquilha. Ela mudou de posição e voltou sua atenção para a tarefa, ainda estonteada pela sensação de contentamento oceânico que a rodeava.
Mary havia explicado aos mulefas como tinha que manter as placas de laca de seiva separadas, a um palmo de distância, para poder ver o sraf, e, imediatamente, eles tinham compreendido o problema e feito um tubo curto de bambu, fixando as placas cor de âmbar nas extremidades, como se fosse um telescópio. Essa luneta estava enfiada no bolso de sua blusa e naquele momento ela a tirou do bolso. Quando olhou através dela, viu aquelas cintilações douradas flutuando, o sraf, as Sombras, o Pó de Lyra, como uma vasta nuvem de minúsculos seres flutuando com o vento. A maior parte deles se deslocava ao acaso, como partículas de poeira num raio de luz do sol, ou moléculas num copo de água.
A maior parte.
Mas, quanto mais ela olhava, mais começou a ver um outro tipo de movimento. Subjacente ao deslocamento ao acaso, havia um movimento universal mais profundo, mais lento, indo da terra para o mar. Bem, aquilo era curioso.
Prendendo-se a um de seus cabos fixos, ela se arrastou em direção à ponta de um galho horizontal, examinando bem de perto todos os capítulos de flor que conseguiu encontrar. E, finalmente, começou a entender o que estava acontecendo. Ficou observando e esperou até estar perfeitamente segura, e então deu início ao processo cuidadoso, demorado e cansativo de descida.
Mary encontrou os mulefas em estado de desespero, tendo sofrido com milhares de preocupações pela amiga que estava tão distante do solo. Atai ficou especialmente aliviada e, nervosamente, apalpou o corpo inteiro de Mary com a tromba, emitindo relinchos suaves de prazer por encontrá-la a salvo, e rapidamente a carregou pelo povoado acompanhada por mais ou menos uns outros 12.
Tão logo chegaram ao cume da colina, um chamado circulou entre os que estavam no povoado e, quando finalmente chegaram ao monte, o pódio onde se falava em público, era tão grande o apinhado de gente que Mary calculou que houvesse muitos visitantes de outros povoados, que tinham vindo para ouvir o que ela iria dizer. Ela desejou que tivesse melhores notícias para dar a eles.
O velho zalif, Sattamax, subiu à plataforma e a recebeu calorosamente, e Mary respondeu com toda a cortesia mulefa de que pôde se lembrar. Tão logo os cumprimentos se concluíram, ela começou a falar.
Hesitante e expressando-se com muitos rodeios, ela disse:
Meus bons amigos, estive no alto da copa de suas árvores e examinei com cuidado e de perto as folhas crescendo, as flores novas e as nozes. Verifiquei que há uma corrente de sraf fluindo, bem alto, acima das copas das árvores, prosseguiu ela, e se move contra o vento. O ar se move vindo do mar, em direção à terra, para o interior, mas o sraf está, lentamente, se movendo na direção oposta. Vocês conseguem ver isso do chão? Porque eu não consegui.
Não, respondeu Sattamax. Esta é a primeira vez que ouvimos falar disso.
Bem, prosseguiu ela, as árvores estão filtrando o sraf à medida que vai passando através delas e parte dele é atraído para as flores. Pude observar isso acontecendo: as flores são viradas para cima e se o sraf estivesse caindo, em linha reta, para baixo, entraria nas pétalas e as fertilizaria como o pólen das estrelas. Mas o sraf não está caindo, está se deslocando para fora, em direção ao mar. Quando uma flor calha de estar virada para a terra, o sraf pode entrar nela. E por isso que ainda existem nozes crescendo. Mas a maioria delas está virada para cima e o sraf simplesmente passa flutuando sobre elas, sem entrar. As flores devem ter evoluído desta maneira porque, no passado, todo o sraf devia cair descendo em linha reta. Alguma coisa aconteceu com o sraf, não com as árvores. E só se pode ver essa corrente de muito alto, e é por este motivo que nunca tiveram conhecimento dela. De modo que, se querem salvar as árvores e a vida mulefa, devemos descobrir por que o sraf está fazendo isso. Ainda não consegui pensar numa maneira de fazê-lo, mas tentarei. Ela viu muitos deles esticando o pescoço para olhar para o alto tentando ver aquela corrente de Pó. Mas do solo não se podia vê-la: ela própria tinha olhado através da luneta, mas tudo o que conseguiu ver foi o azul intenso do céu. Eles ficaram conversando por muito tempo, tentando se recordar de alguma menção ao vento de sraf entre suas lendas e histórias, mas não havia nenhuma. Tudo o que sempre souberam era que o sraf vinha das estrelas, como sempre viera.
Finalmente, perguntaram se ela tinha quaisquer outras ideias e Mary respondeu:
Eu preciso fazer mais observações. Preciso descobrir se o vento sempre sopra nessa direção ou se ele se altera, como as correntes de ar, durante o dia e a noite. De modo que preciso passar mais tempo nas copas das árvores e dormir lá e observar durante a noite. Precisarei da ajuda de vocês para construir algum tipo de plataforma de modo que eu possa dormir em segurança. Mas realmente precisamos de mais observações.
Os mulefas, práticos e ansiosos para descobrir, imediatamente se ofereceram para construir qualquer coisa de que ela precisasse. Eles conheciam a técnica de utilização de polias e cordame e pouco depois um deles sugeriu uma forma de alçar Mary com facilidade até o dossel das árvores de maneira a poupá-la do esforço e do perigo da escalada.
Felizes por terem algo a fazer, imediatamente começaram a reunir os materiais, trançando, amarrando vergas de velame e cordas e cabos, sob a orientação dela, e a organizar tudo de que ela precisaria para a observação no topo da árvore.


Depois de falar com o casal idoso na plantação de oliveiras, o Padre Gomez perdeu a pista da mulher. Passou vários dias procurando e fazendo perguntas em todas as direções nos arredores, mas a mulher parecia ter desaparecido completamente.
Ele nunca teria desistido, embora aquilo fosse desanimador, o crucifixo pendurado no cordão em volta de seu pescoço e o rifle às suas costas eram símbolos gêmeos de sua absoluta determinação de completar a tarefa. Mas teria levado muito mais tempo, se não tivesse sido pela diferença de clima. No mundo em que estava, o tempo era quente e seco, e ele estava sentindo cada vez mais sede, e, vendo um pedaço de rocha molhada no alto de uma base de penhasco, subiu até lá para ver se ali havia uma nascente. Não havia, mas no mundo das árvores-das-rodas, acabara de cair um temporal, e foi assim que ele encontrou a janela e descobriu para onde Mary tinha ido.

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Boa leitura :)