11 de fevereiro de 2017

2. Entre as bruxas

A bruxa Serafina Pekkala, que tinha resgatado Lyra e as outras crianças da estação experimental de Bolvangar e voado com ela para a ilha de Svalbard, estava profundamente preocupada. Nas perturbações atmosféricas que se seguiram à fuga de Lorde Asriel do exílio em Svalbard, ela e suas companheiras foram lançadas à grande distância da ilha, percorrendo muitos quilômetros por cima do mar congelado. Algumas delas conseguiram permanecer junto ao balão danificado de Lee Scoresby, o aeróstata texano, mas Serafina foi lançada para o alto, para dentro da neblina que logo veio escoando pelo buraco que a experiência de Lorde Asriel rasgara no céu.
Ao encontrar-se novamente capaz de controlar seu voo, o seu primeiro pensamento foi para Lyra, pois Serafina não sabia coisa alguma da luta entre o falso urso-rei e o verdadeiro, Iorek Byrnison, nem do que acontecera a Lyra depois disso.
Então pôs-se a procurá-la, voando em seu galho de pinheiro-nubígeno pelo ar nevoento e tingido de dourado, acompanhada por seu dimon Kaisa, o ganso cinzento. Voltaram um pouco para o sul, na direção de Svalbard, viajando durante várias horas sob um céu turbulento, com luzes e sombras estranhas.
Serafina Pekkala sabia, pela sensação perturbadora da luz em sua pele, que aquilo vinha de outro mundo.
Depois de algum tempo Kaisa disse:
— Veja, é o dimon de uma bruxa, extraviado...
Serafina Pekkala olhou através das nuvens de neblina e viu uma andorinha-do-mar voando em círculos nos abismos de luz brumosa, aos gritos; então fez uma curva e voou naquela direção.
Vendo isso, a andorinha-do-mar ganhou altura, assustada, mas Serafina Pekkala sinalizou amizade e ela desceu para perto deles. Serafina Pekkala perguntou:
— De que clã você é?
— Taymyr — disse ela. — Minha bruxa foi capturada. Nossos companheiros foram afastados! Estou perdida...
— Quem capturou a sua bruxa?
— A mulher do dimon-macaco de Bolvangar... Ajude-me! Ajude-nos! Estou com tanto medo!
— O seu clã era aliado dos cortadores de crianças?
— Sim, até descobrirmos o que eles estavam fazendo... Depois da luta em Bolvangar eles nos expulsaram, mas a minha bruxa ficou prisioneira... Ela está num navio... Que é que eu posso fazer? Ela está me chamando e não consigo encontrá-la! Ah, ajude, ajude-me!
— Silêncio — pediu Kaisa, o dimon-ganso. — Escutem lá embaixo.
Desceram mais, escutando com ouvidos aguçados, e Serafina Pekkala logo distinguiu o ruído, que a névoa abafava, de um motor a gás.
— Não conseguiriam dirigir um barco numa névoa como esta — disse Kaisa. — Que é que estão fazendo?
— É um motor menor do que o de um barco — disse Serafina Pekkala. Enquanto ela falava, veio um novo som de outra direção: um urro bestial, baixo e fremente, como alguma imensa criatura marítima clamando das profundezas. O rugido durou vários segundos, depois parou abruptamente.
— A sirene de neblina do navio — identificou Serafina Pekkala. Voando baixo, em círculos acima da água, eles tentaram ouvir de novo o som do motor. De súbito o encontraram, pois a neblina parecia ter trechos de densidades diferentes, e a bruxa subiu como um dardo, bem a tempo de esconder-se de uma lancha que vinha se aproximando devagar através do envoltório de ar úmido. Sua esteira era baixa e oleosa, como se a água relutasse em subir.
Ficaram voando em círculos, o dimon-andorinha-do-mar bem perto, como uma criança agarrada à mãe, e observaram o timoneiro ajustar ligeiramente o curso enquanto a sirene de neblina tornava a se fazer ouvir. Havia uma luz na proa, mas só iluminava a neblina alguns metros à frente. Serafina Pekkala perguntou ao dimon desgarrado:
— Você disse que algumas bruxas ainda estão ajudando esta gente?
— Acho que sim... Algumas bruxas revoltadas de Volgorsk... A não ser que elas tenham fugido também — disse ele. — Que é que você vai fazer? Vai procurar a minha bruxa?
— Vou. Mas por enquanto fique aqui com Kaisa.
Serafina Pekkala voou na direção da lancha, deixando os dimons lá no alto, fora de vista, e pousou logo atrás do timoneiro. A dimon-gaivota dele grasnou, e o homem virou-se para olhar.
— Demorou, hein? — disse ele. — Vá lá para a frente e nos guie para encostarmos a bombordo.
Ela decolou imediatamente. Tinha funcionado: eles ainda tinham algumas bruxas a ajudá-los, e o homem pensou que ela fosse uma delas. O bombordo ficava à esquerda, ela se lembrava, e sua luz era vermelha. Ela procurou na neblina até encontrar a luz baça do bombordo do navio a menos de cem metros. Voltou correndo e pairou acima da lancha, gritando instruções ao timoneiro, que diminuiu a velocidade e atracou junto à escada que descia do convés do navio até logo acima da água. O timoneiro gritou e um marinheiro jogou uma corda, enquanto outro descia depressa pela escada para prender acorda na embarcação.
Serafina Pekkala voou para a amurada do navio e abrigou-se nas sombras junto aos botes salva-vidas. Não via outra bruxa, mas elas provavelmente estariam patrulhando os céus, Kaisa saberia o que fazer. Abaixo, um passageiro deixava a lancha e subia pela escada. A figura estava envolta em peles, encapuzada, anônima, mas assim que ela chegou ao convés, um macaco-dourado subiu agilmente para a amurada e olhou em volta com olhar feroz, os olhos azuis irradiando malevolência. Serafina sentiu-se sem fôlego: a figura era a Sra. Coulter.
Um homem de traje escuro correu para o convés para recebê-la, e olhou em volta como se esperasse mais alguém.
— Lorde Boreal... — começou a dizer.
— Ele seguiu para outro local. Já começaram a tortura?
— Sim, Sra. Coulter — foi a resposta. — Mas...
— Mas eu mandei que esperassem! — ela interrompeu. — Agora vão me desobedecer? Talvez este navio esteja precisando de mais disciplina.
Ela empurrou o capuz para trás. Serafina Pekkala viu claramente o rosto dela à luz amarelada: orgulhosa, passional e, para a bruxa, bem jovem.
— Onde estão as outras bruxas? — quis saber.
O homem do navio explicou:
— Partiram todas, senhora. Voltaram voando para casa.
— Mas uma bruxa nos guiou para atracarmos — disse a Sra. Coulter. — Para onde ela foi?
Serafina encolheu-se, obviamente o marinheiro da lancha não tinha conhecimento do novo estado de coisas. O clérigo olhou em volta, confuso, mas a Sra. Coulter estava impaciente demais, e depois de um olhar apressado acima e ao longo do convés ela sacudiu a cabeça e, com seu dimon, cruzou a porta aberta que criava um nimbo amarelado no ar. O homem seguiu-a. Serafina Pekkala olhou em volta de si para determinar a sua posição. Estava escondida atrás de um canal de ventilação na área estreita de convés entre a amurada e a superestrutura central do navio; e nesse nível, de frente para a proa e abaixo da ponte e da chaminé, havia um salão com janelas — não escotilhas — dando para três lados. Era onde as pessoas tinham entrado. A luz jorrava das janelas sobre a amurada perolada pela neblina, permitindo entrever vagamente o mastro de proa e a escotilha do porão coberta por uma lona. Tudo estava encharcado e começando a congelar. Ninguém conseguiria enxergar Serafina Pekkala onde ela estava, mas se ela quisesse ver mais coisas teria que deixar seu esconderijo.
Isso era ruim. Com seu ramo de pinheiro-nubígeno ela podia fugir, e com sua faca e seu arco podia lutar. Escondeu o ramo atrás do tubo de ventilação e esgueirou-se pelo convés até chegar à primeira janela. O vidro estava embaçado e era impossível ver através dele, e Serafina tampouco conseguia ouvir vozes.
Tornou a voltar para as sombras.
Havia uma única coisa a fazer; ela relutava, pois era algo desesperadamente arriscado e a deixaria exausta; mas parecia que não havia escolha. Era um tipo de magia que ela podia fazer para tornar-se invisível. Naturalmente, a verdadeira invisibilidade era impossível: tratava-se de magia mental, um tipo de discrição sustentada com intensidade que podia fazer a pessoa ficar, não invisível, mas simplesmente despercebida. Mantendo o grau de intensidade correto, ela poderia atravessar uma sala cheia de gente, ou andar ao lado de um caminhante solitário, sem ser vista.
De modo que agora ela preparou a mente e levou toda a sua concentração para o trabalho de alterar o modo como se postava para desviar completamente a atenção. Precisou de alguns minutos até adquirir confiança. Fez um teste saindo do esconderijo no caminho de um marinheiro que vinha pelo convés com uma sacola de ferramentas; ele deu um passo de lado para evitá-la, sem olhar para ela um instante sequer.
Ela estava preparada. Foi até a porta do salão profusamente iluminado e abriu-a, encontrando o aposento deserto.
Deixou a porta externa apenas encostada, para que pudesse fugir por ela se fosse preciso, e viu uma porta no outro extremo abrindo-se para uma escada que descia para as entranhas do navio. Ela desceu e se encontrou num corredor estreito, iluminado por lâmpadas anbáricas, com canos à mostra pintados de branco, que seguia ao longo do comprimento do casco, com portas nos dois lados.
Ela avançou sem ruído, escutando, até que ouviu vozes.
Parecia que havia uma reunião.
Abriu a porta e entrou.
Havia cerca de uma dúzia de pessoas sentadas em volta de uma grande mesa. Uma ou duas ergueram os olhos por um instante, fitaram-na distraidamente e esqueceram-na no mesmo instante. Ela ficou quieta perto da porta, observando.
A reunião era presidida por um ancião em trajes de cardeal, e os outros pareciam clérigos, à exceção da Sra. Coulter, que era a única mulher presente. A Sra. Coulter colocara suas peles sobre as costas da cadeira e tinha as faces rubras pelo calor do interior do navio.
Serafina Pekkala olhou em volta com cuidado e viu mais uma pessoa: um homem de rosto magro, com um dimon-sapo, sentado a uma mesa num canto coberta de livros com encadernação de couro e folhas soltas de papel amarelado. A princípio ela pensou que se tratasse de um secretário, até ver o que ele estava fazendo: tinha os olhos fixos num instrumento dourado, como um relógio grande ou uma bússola, e a cada instante anotava o que via. Depois abria um dos livros, percorria trabalhosamente o índice e procurava um trecho, antes de escrever também isso e voltar para o instrumento. Serafina tornou a prestar atenção na discussão ao ouvir a palavra “bruxa”.
— Ela sabe alguma coisa sobre a criança — disse um dos clérigos. — Já confessou que sabe. Todas as bruxas sabem alguma coisa sobre ela.
— Não sei o que a Sra. Coulter sabe — disse o Cardeal. — Será que há alguma coisa que ela deveria ter nos contado antes?
— Vai ter que falar mais claro — disse a Sra. Coulter em tom gelado. — Esquece-se de que sou uma mulher, Eminência, portanto não tão sutil quanto um príncipe da Igreja. Qual é essa verdade que eu deveria saber sobre a criança?
A expressão do Cardeal era muito significativa, mas ele nada disse. Houve uma pausa, e então outro clérigo disse, em tom quase de desculpas:
— Parece que existe uma profecia. Diz respeito à criança, entende, Sra. Coulter? Todos os sinais se cumpriram. As circunstâncias do nascimento dela, para começar. Os gípcios também sabem alguma coisa sobre ela, falam dela em termos de óleo-de-bruxa e fogo-fátuo, sobrenatural, entende? Daí ela ter conseguido levar os homens gípcios para Bolvangar. E além disso houve a façanha extraordinária de depor o urso-rei Iofur Raknison. Não é uma criança comum. Frei Pavel talvez possa nos contar mais...
Ele olhou de relance para o homem de rosto magro que lia o aletiômetro; ele pestanejou, esfregou os olhos e olhou para a Sra. Coulter.
— A senhora deve estar sabendo que este é o único aletiômetro que sobrou, além daquele que está com a criança — disse. — Todos os outros foram adquiridos e destruídos por ordem do Magisterium. Fiquei sabendo por este instrumento que a criança ganhou o dela do Reitor da Universidade Jordan, e que aprendeu sozinha a decifrá-lo, e que consegue usá-lo sem os livros. Se fosse possível duvidar do aletiômetro eu o faria, pois acho simplesmente inconcebível alguém usar o instrumento sem os livros. São décadas de estudo diligente para uma pessoa alcançar algum tipo de compreensão; ela começou a ler o instrumento poucos dias depois de ganhá-lo, e agora tem um domínio quase completo. Não se compara a nenhum sábio humano que eu possa lembrar.
— Onde ela está agora, Frei Pavel? — perguntou o Cardeal.
— No outro mundo — disse Frei Pavel. — É tarde demais.
— A bruxa sabe! — bradou outro homem, cujo dimon-almiscareiro mastigava incessantemente um lápis. — Está tudo no lugar, exceto o depoimento da bruxa! Digo que devemos torturá-la outra vez!
— Que profecia é essa? — perguntou a Sra. Coulter, que estava ficando cada vez mais furiosa. — Como ousam esconder isso de mim?
Era visível o poder que ela exercia sobre eles. O olhar raivoso do macaco dourado percorreu a mesa e ninguém o encarou. Só o Cardeal não se perturbou. Seu dimon, uma arara, ergueu uma pata e coçou a cabeça.
— A bruxa insinuou uma coisa extraordinária — disse o Cardeal. — Não ouso crer no que acho que significa. Se for verdade, isso nos traz a mais terrível responsabilidade já tomada por homens e mulheres. Mas torno a perguntar, Sra. Coulter, o que é que a senhora sabe sobre a criança e o pai dela?
A Sra. Coulter tinha o rosto pálido de fúria.
— Como ousa me interrogar? — cuspiu. — E como ousa esconder de mim o que descobriu com a bruxa? E, finalmente, como ousa imaginar que estou escondendo alguma coisa? Pensa que estou do lado dela? Ou acha talvez que estou do lado do pai dela? Talvez pense que eu deveria ser torturada como a bruxa. Bem, estamos todos sob o seu comando, Eminência. Basta estalar os dedos e pode mandar me matar. Mas mesmo procurando em cada pedacinho da minha carne não iria encontrar uma resposta, porque nada sei dessa profecia, nada mesmo. E exijo que me conte o que o senhor sabe. A minha filha, a minha própria filha, concebida em pecado e nascida em desonra, mas ainda assim minha filha, e o senhor esconde de mim aquilo que tenho todo o direito de saber.
— Por favor! — fez outro clérigo, nervoso. — Por favor, Sra. Coulter... A bruxa ainda não falou; ela nos dirá mais coisas. O próprio Cardeal Sturrock disse que ela só insinuou.
— E se ela não revelar? — retorquiu a Sra. Coulter. — E então? Nós adivinhamos, é isso? Nós nos intimidamos, desistimos e tentamos adivinhar?
Frei Pavel respondeu:
— Não, porque é esta a pergunta que estou preparando para fazer ao aletiômetro. Havemos de encontrar a resposta, seja pela bruxa, seja pelos livros de símbolos.
— E quanto tempo isso vai levar?
Ele franziu a testa com uma expressão de cansaço e disse:
— Um tempo considerável. É uma pergunta imensamente complexa.
— Mas a bruxa poderia nos dizer imediatamente — disse a Sra. Coulter. E pôs-se de pé. Como se a temessem, quase todos os homens a imitaram. Apenas o Cardeal e Frei Pavel continuaram sentados.
Serafina Pekkala recuou, fazendo uma força imensa para manter-se invisível. O macaco dourado rangia os dentes, e seu pelo brilhante estava todo arrepiado. A Sra. Coulter colocou-o em seu ombro.
— Então vamos perguntar a ela — comandou.
Virou-se e saiu para o corredor. Os homens seguiram-na apressados, empurrando-se, e passaram por Serafina Pekkala, que só teve tempo de dar um passo rápido para o lado, a mente num torvelinho. O último a sair foi o Cardeal.
Serafina demorou alguns segundos para acalmar-se, pois sua agitação estava começando a deixá-la visível. Ela então seguiu os clérigos pelo corredor até um aposento menor, nu, branco e quente, onde todos estavam agrupados em torno de uma figura terrível: uma bruxa firmemente amarrada a uma cadeira de aço, com agonia espelhando-se no rosto cinzento e as pernas retorcidas e quebradas.
A Sra. Coulter postou-se junto a ela. Serafina ficou perto da porta, sabendo que não conseguiria ficar invisível por muito tempo mais; aquilo era demasiado difícil.
— Fale-nos da garota, bruxa — disse a Sra. Coulter.
— Não!
— Você vai sofrer.
— Já sofri o suficiente.
— Ah, ainda virá mais sofrimento. Temos mil anos de experiência, nessa nossa Igreja. Podemos prolongar seu sofrimento infinitamente. Fale-nos da garota — disse a Sra. Coulter, estendendo a mão para quebrar um dedo da bruxa.
O dedo partiu-se facilmente, com um estalido. A bruxa gritou, e por um segundo Serafina Pekkala ficou visível a todos, e um ou dois clérigos olharam para ela, confusos e assustados, mas ela tornou a recuperar o controle e eles voltaram aprestar atenção na tortura.
A Sra. Coulter estava dizendo:
— Se não responder, vou quebrar outro dedo seu, depois outro. Que é que sabe sobre a criança? Diga!
— Está bem! Por favor, por favor, chega!
— Então responda.
Houve outro estalido e dessa vez a bruxa irrompeu em soluços. Serafina Pekkala mal conseguia conter-se. Então vieram as palavras, num grito:
— Não, não! Chega, eu lhe imploro! A criança que viria... As bruxas sabiam quem ela era antes de vocês... Descobrimos o nome dela...
— Sabemos o nome dela. Que nome é este que você está dizendo?
— O nome verdadeiro dela! O nome do destino dela!
— Qual é esse nome? Fale! — ordenou a Sra. Coulter.
— Não... não...
— E como? Vocês descobriram como?
— Havia um teste... Se ela conseguisse pegar um determinado galho de pinheiro-nubígeno entre muitos outros, ela seria a criança que viria, e aconteceu na casa do nosso Cônsul em Trollesund, quando a criança chegou com os gípcios... A criança com o urso...
A voz dela falhou.
A Sra. Coulter soltou uma pequena exclamação de impaciência, e ouviu-se outro estalido alto, e um gemido.
— Mas qual era a profecia a respeito dessa criança? — continuou a Sra. Coulter, a voz agora metálica e fremente de ânsia. — E que nome é esse que vai esclarecer o destino dela?
Serafina Pekkala aproximou-se do grupo de homens que rodeavam a bruxa, e nenhum deles sentiu a presença dela junto a seus cotovelos.
Ela precisava dar um fim ao sofrimento daquela bruxa, e logo, mas o esforço de manter-se invisível era enorme. Ela tremia ao tirar a faca da cintura. A bruxa soluçava:
— Ela é aquela que veio antes, e desde então vocês a odiaram e temeram! Bem, agora ela voltou, e vocês não conseguiram encontrá-la... Ela esteve lá em Svalbard, estava com Lorde Asriel, e vocês a perderam. Ela escapou, e será...
Antes, porém, que ela pudesse terminar, houve uma interrupção. Através da porta aberta uma andorinha-do-mar entrou voando, enlouquecida de terror, e pôs-se abater as asas ao cair com força no chão; ergueu-se com esforço e voou para o peito da bruxa torturada, apertando-se contra ela, acariciando-a, piando, guinchando, e a bruxa gritou:
— Yambe-Akka! Venha a mim, venha a mim!
Ninguém entendeu, além de Serafina Pekkala. Yambe-Akka era a deusa que aparecia para uma bruxa quando ela estava prestes a morrer. E Serafina estava preparada. Tornou-se visível e deu um passo para a frente sorrindo alegremente, porque Yambe-Akka era alegre e feliz, e sua visita era um presente de alegria. A bruxa avistou-a e ergueu para ela o rosto manchado de lágrimas, e Serafina inclinou-se para beijá-lo enquanto enfiava suavemente sua faca no coração da bruxa. O dimon-andorinha-do-mar ergueu os olhos baços e desapareceu.
E agora Serafina Pekkala teria que abrir caminho lutando. Os homens ainda estavam chocados, incrédulos, mas a Sra. Coulter recuperou o sangue-frio quase de imediato.
— Agarrem-na! Não a deixem fugir! — gritou.
Mas Serafina já estava junto à porta, com uma flecha preparada em seu arco. Ergueu o arco e soltou a flecha em menos de um segundo, e o Cardeal caiu no chão em espasmos.
Ela chegou ao corredor, virou-se, fez pontaria, disparou outra flecha; outro homem caiu, enquanto o ruído alto de um sino enchia o navio. Ela subiu a escada e saiu para o convés. Dois marinheiros barraram-lhe a passagem e ela disse:
— Lá embaixo! A prisioneira está solta! Ajudem!
Isso foi suficiente para deixá-los confusos, e eles estacaram, indecisos, dando-lhe tempo para passar por eles e pegar o pinheiro-nubígeno escondido atrás do tubo de ventilação.
— Atirem nela! — fez a voz da Sra. Coulter.
No mesmo instante três rifles dispararam. As balas bateram no metal e ricochetearam para dentro da neblina, e Serafina saltou sobre o galho e fê-lo subir como uma de suas flechas. Segundos depois ela estava no céu, em segurança no meio da neblina, e então um grande ganso surgiu do meio dos bancos de névoa cinzenta e chegou ao seu lado.
— Para onde? — perguntou.
— Para longe, Kaisa, para longe — ela disse. — Quero tirar o fedor dessa gente do meu nariz.
Na realidade ela não sabia aonde ir ou o que fazer em seguida. Mas uma coisa ela sabia com certeza: havia uma flecha em sua aljava que encontraria o alvo na garganta da Sra. Coulter.
Viraram para o sul, distanciando-se daquela neblina com seu perturbador brilho de outro mundo, e enquanto voavam uma pergunta começou a formular-se com mais clareza na mente de Serafina: o que era que Lorde Asriel estava fazendo? Porque todos os acontecimentos que tinham revirado o mundo tinham sua origem nas misteriosas atividades de Lorde Asriel.
O problema era que as costumeiras fontes de conhecimento da bruxa eram naturais. Ela conseguia seguir qualquer animal, pegar qualquer peixe, encontrar as cerejas mais raras e conseguia ler os sinais nas entranhas da marta-do-pinheiro, ou decifrar a sabedoria nas escamas de uma perca, ou interpretar os avisos no pólen do açafrão; mas todos esses eram filhos da natureza e lhe revelavam suas verdades naturais. Para conseguir saber sobre Lorde Asriel ela teria que ir a outro lugar.
No porto de Trollesund, o cônsul das bruxas, Dr. Lanselius, mantinha contato com o mundo de homens e mulheres, e Serafina Pekkala voou rapidamente para lá através da neblina, para ver o que ele poderia lhe contar. Antes de ir à casa dele, ela voou em círculos sobre o porto, onde restos de névoa deslizavam fantasmagoricamente sobre a água gelada, e observou um rebocador guiar para o porto um grande navio com bandeira africana. Havia muitos outros navios ancorados do lado de fora do porto — ela nunca vira tantos navios juntos.
Quando o curto dia findava, ela aterrissou no jardim dos fundos da casa do cônsul. Bateu na vidraça e o próprio Dr. Lanselius abriu a porta com um dedo nos lábios.
— Serafina Pekkala, saudações — disse. — Entre depressa, e seja bem-vinda. Mas é melhor não ficar muito tempo. — Ofereceu-lhe uma cadeira junto à lareira, olhou de relance através das cortinas de uma janela que dava para a rua e perguntou: — Toma um pouco de vinho?
Enquanto bebericava o Tokay dourado, ela contou o que tinha visto e ouvido a bordo do navio.
— Acha que eles compreenderam o que ela falou sobre a criança? — ele perguntou.
— Não completamente, eu acho. Mas sabem que ela é importante. Quanto àquela mulher, tenho medo dela, Dr. Lanselius. Vou matá-la, eu acho, mas mesmo assim tenho medo dela.
— Eu também — fez ele.
E Serafina escutou o que ele lhe contou dos boatos que tinham varrido a cidade.
No meio da confusão de boatos alguns fatos começaram a emergir com clareza.
— Dizem que o Magisterium está reunindo o maior exército já visto, e esta é a vanguarda. E há boatos desagradáveis sobre alguns dos soldados, Serafina Pekkala. Ouvi contar de Bolvangar, e o que estavam fazendo lá, cortando os dimons das crianças, a maior maldade que já ouvi. Bem, parece que existe um regimento de guerreiros que foram tratados da mesma maneira. Conhece a palavra “zumbi”? Eles nada temem porque não têm mente. Há alguns aqui na cidade agora. As autoridades os mantêm escondidos, mas os boatos correm, e os habitantes estão apavorados.
— E as bruxas dos outros clãs, que notícias há delas? — perguntou Serafina Pekkala.
— A maioria voltou para suas casas. Todas as bruxas estão esperando, Serafina Pekkala, com medo no coração, o que acontecerá em seguida.
— E o que ouviu sobre a Igreja?
— Estão inteiramente confusos. Eles não sabem o que Lorde Asriel pretende fazer.
— Nem eu — disse ela. — E não consigo nem imaginar o que seja. O que é que o senhor pensa que ele está pretendendo, Dr. Lanselius?
Ele esfregou delicadamente a cabeça da sua dimon-serpente com o polegar.
— Ele é um Catedrático — disse, depois de um momento. — Mas a cátedra não é a sua maior paixão. Tampouco ser estadista é a sua paixão. Conheci-o uma vez, e achei que ele tinha uma natureza ardente e poderosa, mas não despótica. Não acredito que ele queira governar... Não sei, Serafina Pekkala. Imagino que o criado dele poderia lhe dizer. É um homem chamado Thorold, e foi aprisionado com Lorde Asriel na casa em Svalbard. Pode valer a pena uma visita até lá para ver se ele pode lhe dizer alguma coisa; mas naturalmente ele pode ter ido para o outro mundo com seu amo.
— Obrigada. É uma boa ideia... Vou fazer isso. E agora.
Ela despediu-se do cônsul e saiu voando através da escuridão crescente para encontrar-se com Kaisa nas nuvens.


A viagem de Serafina para o Norte foi dificultada pela confusão no mundo à sua volta. Todos os povos do Ártico estavam em pânico, assim como os animais, não apenas por causa da neblina e das variações magnéticas, mas também pelos estranhos estalidos no gelo e movimentos do solo. Era como se a própria Terra estivesse despertando lentamente de um longo sonho de estar congelada.
Nessa confusão — em que súbitos raios de misterioso brilho vazavam através de rasgões nas torres de neblina e então desapareciam com a mesma rapidez, em que rebanhos do boi-almiscarado típico do Ártico eram tomados pelo impulso de galopar para o sul e então virar repentinamente para o oeste ou novamente para o norte, em que rígidas formações de gansos desintegravam-se num tumulto de grasnidos quando os campos magnéticos que orientavam seu voo oscilavam e partiam-se em todas as direções — Serafina Pekkala voava para o norte, para a casa no promontório nas terras desertas de Svalbard.
Ali ela encontrou Thorold, o criado de Lorde Asriel, lutando contra um grupo de avantesmas-dos-penhascos. Ela percebeu o movimento antes de se aproximar o suficiente para ver o que estava acontecendo: asas como de couro e um malévolo grasnar ressoando no pátio coberto de neve, e uma figura solitária, envolta em peles, disparando um rifle no meio da confusão, tendo a seu lado um esquálido dimon-cão rosnando e tentando morder cada vez que uma daquelas coisas nojentas voava suficientemente baixo. Serafina não conhecia o homem, mas um avantesma-dos-penhascos era sempre um inimigo. Ela fez um círculo alto e disparou uma dúzia de flechas no grupo em tumulto. Com guinchos e muita algazarra, o bando — desorganizado demais para ser considerado uma tropa — virou-se, viu o novo adversário e fugiu em confusão. No minuto seguinte os céus estavam novamente desertos, e os guinchos assustados ecoavam nas montanhas distantes até desaparecerem no silêncio.
Serafina pousou no pátio e saltou sobre a neve pisoteada e manchada de sangue. O homem empurrou o capuz para trás, ainda segurando o rifle cautelosamente, porque às vezes uma bruxa era inimiga, e ela viu um homem idoso, de rosto comprido, cabelos grisalhos e olhar firme.
— Sou amiga de Lyra — ela disse. — Espero que possamos conversar. Veja, baixei meu arco.
— Onde está a criança? — ele perguntou.
— Em outro mundo. Estou preocupada com a segurança dela. E preciso saber o que Lorde Asriel está fazendo.
Ele baixou o rifle.
— Então entre — convidou. — Veja, baixei meu rifle.
Depois da troca de formalidades, eles entraram na casa. Kaisa deslizava pelos céus, vigiando, enquanto Thorold fazia café e Serafina lhe contava o seu envolvimento com Lyra.
— Ela sempre foi uma criança com força de vontade — ele disse, quando estavam sentados à mesa de carvalho à luz de um lampião de nafta. — Eu a via todo ano, quando Lorde Asriel visitava a universidade dele. Eu gostava dela, sabe, não conseguia evitar. Mas o lugar dela no esquema geral das coisas eu não sei.
— O que Lorde Asriel estava planejando fazer?
— Não acha que ele me contou, acha, Serafina Pekkala? Sou só o criado dele. Lavo as roupas dele, preparo suas refeições, cuido da casa. Posso ter ficado sabendo de uma ou duas coisinhas durante os anos que passei com Lorde Asriel, mas só acidentalmente. Ele não confiava em mim mais do que confiava no seu pote de sabão de barba.
— Então me conte essas uma ou duas coisinhas que soube acidentalmente — ela insistiu.
Thorold era um homem velho, mas saudável e vigoroso, e sentia-se lisonjeado com a atenção dessa bruxa jovem e bela, como qualquer homem ficaria. Mas era também esperto, e sabia que a atenção não era realmente para ele, mas para o que ele sabia; e era honesto, de modo que não adiou indevidamente aquilo que tinha a dizer.
— Não sei exatamente o que ele está fazendo, porque os detalhes filosóficos estão além do meu alcance. Mas posso lhe dizer o que é que move Lorde Asriel, embora ele não saiba que eu sei. Percebi isso em uma centena de pequenos sinais. Corrija-me se eu estiver enganado, mas as bruxas têm deuses diferentes dos nossos, não é verdade?
— Sim, é verdade.
— Mas sabe alguma coisa sobre o nosso Deus? O Deus da Igreja, aquele que chamam de Autoridade?
— Conheço, sim.
— Bem, Lorde Asriel nunca se sentiu à vontade, por assim dizer, com as doutrinas da Igreja. Já vi um ar de desagrado no rosto dele quando falam de sacramentos, penitência, redenção e coisas assim. Entre o nosso povo, desafiar a Igreja significa a morte, mas no peito de Lorde Asriel vem crescendo uma revolta desde que comecei a trabalhar para ele, é isso que eu sei.
— Uma revolta contra a Igreja?
— Em parte, sim. Houve uma época em que ele pensou em usar a força, mas desistiu disso.
— Por quê? A Igreja era forte demais?
— Não, isso não deteria o meu amo — disse o velho criado. — Olhe, isso pode lhe parecer estranho, Serafina Pekkala, mas conheço aquele homem melhor do que qualquer esposa, melhor do que uma mãe poderia conhecer. Ele tem sido meu amo e meu objeto de estudo há 40 anos. Não consigo acompanhá-lo nas alturas do seu pensamento assim como não consigo voar, mas posso ver aonde ele está indo, mesmo que não possa segui-lo. Não. Acredito que ele desistiu de uma revolta contra a Igreja não porque a Igreja fosse forte demais, mas porque ela é fraca demais para valer a pena lutar.
— Então... o que é que ele está fazendo?
— Acho que está iniciando uma guerra mais elevada. Acho que está pretendendo uma revolta contra o poder mais alto de todos. Ele foi procurar a morada da própria Autoridade, e vai destruí-la. É o que eu penso. Meu coração estremece quando digo isso, senhora. Mal ouso pensar sobre isso. Mas não consigo imaginar outra coisa que faça sentido para o que ele está fazendo.
Serafina ficou quieta por um momento, absorvendo o que Thorold lhe contara. Antes que ela dissesse alguma coisa, ele continuou:
— É claro que qualquer pessoa disposta a uma façanha grandiosa como essa seria alvo da ira da Igreja. Nem é preciso dizer. Seria a mais gigantesca das blasfêmias, é o que diriam. Ele seria levado a um Tribunal Consistorial e condenado à morte num piscar de olhos. Nunca falei sobre isso antes, e não tornarei a falar; até com a senhora eu teria medo de falar, se a senhora não fosse uma bruxa, fora do alcance do poder da Igreja; nenhuma outra coisa faz sentido, e isso faz. Ele vai encontrar e matar a própria Autoridade!
— Isso é possível? — Serafina quis saber.
— A vida de Lorde Asriel sempre foi cheia de coisas que eram impossíveis. Eu não gostaria de dizer que existe alguma coisa que ele não conseguiria fazer, porém, diante disto tudo, Serafina Pekkala, eu diria que sim, ele está louco. Se os anjos não conseguiram, como um homem pode ousar pensar nisso?
— Anjos? Quem são?
— Seres de puro espírito, diz a Igreja. A Igreja ensina que alguns anjos se rebelaram antes da criação do mundo, e foram expulsos do paraíso para o inferno. Eles fracassaram, entende? Não conseguiram o que queriam. E tinham o poder dos anjos. Lorde Asriel é apenas um homem, com poderes humanos, nada mais que isso. Mas a sua ambição é ilimitada. Ele ousa fazer o que homens e mulheres sequer ousam pensar. E veja o que ele já fez: rasgou o céu, abriu caminho para outro mundo. Quem mais já fez isso? Quem mais poderia pensar nisso? De modo que uma parte de mim, Serafina Pekkala, diz que ele é louco, mau, perturbado. Mas outra parte pensa: ele é Lorde Asriel, não é como os outros homens. Quem sabe... Se isso algum dia fosse possível, seria feito por ele e por ninguém mais.
— E o que você vai fazer, Thorold?
— Vou ficar esperando aqui. Vou cuidar desta casa até ele voltar e me dar outra ordem, ou até eu morrer. E agora vou lhe fazer a mesma pergunta, senhora.
— Vou me certificar de que a criança está segura — ela revelou. — Pode ser que eu tenha que passar por esta região outra vez, Thorold. Fico feliz em saber que você ainda estará por aqui.
— Não vou arredar pé daqui — ele assegurou.
Ela recusou a comida que ele ofereceu e despediu-se.
Dentro de um minuto ela reuniu-se ao seu dimon-ganso, e o dimon manteve silêncio ao lado dela enquanto voavam num curso sinuoso acima das montanhas enevoadas. Ela estava profundamente perturbada, e não havia necessidade de explicar isso: cada folha de erva, cada poça gelada, cada mosquitinho de sua terra natal vibrava em seus nervos chamando-a de volta. Ela temia por eles, mas temia por si própria também, pois estava tendo que mudar; eram problemas humanos que ela estava investigando, aquilo era um assunto humano, o deus de Lorde Asriel não era o dela. Será que estava se tornando humana? Será que estava perdendo sua condição de bruxa? Se estava, não poderia fazer isso sozinha.
— Vamos para casa — disse. — Precisamos conversar com as nossas irmãs, Kaisa. Esses acontecimentos são grandes demais para nós.
E ambos atravessaram velozmente as nuvens de neblina em direção ao lago Enara e ao seu lar.


Nas cavernas das florestas ao lado do lago, encontraram as outras do seu clã, e Lee Scoresby também. O aeróstata tinha lutado para manter sua embarcação flutuando depois da queda de Svalbard, e as bruxas o guiaram para aterra delas, onde ele havia começado a consertar o estrago na cesta e no balão de gás.
— Senhora, fico muito feliz em vê-la — saudou ele. — Alguma notícia da menininha?
— Nenhuma, Sr. Scoresby. Gostaria de juntar-se a nós no Conselho esta noite, para nos ajudar a debater o que fazer?
O texano pestanejou surpreso, pois jamais se soubera que um homem tivesse participado de um conselho de bruxas.
— Será uma grande honra — respondeu. — Pode ser que eu tenha uma ou duas sugestões.
Durante todo o dia chegaram bruxas, como flocos de neve negra nas asas de uma tempestade, enchendo os céus com o fremir da sua seda e o cicio do ar através das agulhas de seus galhos de pinheiro-nubígeno. Os homens que caçavam nas florestas gotejantes ou pescavam entre os pedaços de gelo a se derreter ouviram através da neblina o sussurro espalhado pelo céu, e se o céu estivesse claro eles ergueriam os olhos para ver as bruxas voando como farrapos de escuridão na correnteza de uma maré secreta.
À noite os pinheiros em volta do lago estavam iluminados por uma centena de fogueiras, e a maior fogueira de todas estava montada na frente da caverna de reuniões. Ali, depois que se alimentaram, as bruxas se reuniram. Serafina Pekkala sentava-se no centro, com uma coroa de pequenas flores vermelhas aninhada em seus cabelos louros. À sua esquerda, sentava-se Lee Scoresby e, à sua direita, uma visitante: a Rainha das bruxas de Latvia, cujo nome era Ruta Skadi.
Ela chegara apenas uma hora antes, para surpresa de Serafina. Serafina achava que a Sra. Coulter era bonita, para uma vida-curta, mas Ruta Skadi era tão linda quanto a Sra. Coulter, com uma dimensão extra — o mistério, o sobrenatural. Ela fizera transações com espíritos, e isso era visível. Era viva e apaixonada, com grandes olhos negros; dizia-se que o próprio Lorde Asriel tinha sido seu amante. Usava pesados brincos de ouro e, nos cabelos negros e cacheados, uma coroa ornamentada com um anel de presas de tigres-da-neve. Kaisa, dimon de Serafina, tinha ouvido do dimon de Ruta Skadi que ela própria matara os tigres para castigar a tribo tártara que os adorava, porque os homens dessa tribo tinham deixado de honrá-la quando ela visitou o território deles. Sem seus deuses-tigres, a tribo decaiu, por medo e melancolia, e implorou a ela que lhes permitisse adorá-la em lugar dos tigres, mas foram recusados com desprezo; ela lhes perguntou: que benefício poderia trazer a ela a adoração deles? Afinal de contas, isso não tinha ajudado os tigres. Assim era Ruta Skadi: linda, orgulhosa e impiedosa.
Serafina não tinha certeza do motivo da vinda dela, mas deu-lhe boa acolhida, e a etiqueta exigia que ela se sentasse à direita de Serafina. Quando estavam todas reunidas, Serafina começou a falar:
— Irmãs! Vocês sabem por que nos reunimos: precisamos decidir o que fazer a respeito desses novos acontecimentos. O universo está partido, e Lorde Asriel abriu o caminho deste mundo para outro. Devemos nos preocupar com isso, ou viver nossa vida como fizemos até agora, cuidando dos nossos próprios assuntos? Além disso há a questão da menina Lyra Belacqua, chamada Lyra da Língua Mágica pelo Rei Iorek Byrnison. Ela escolheu o galho de pinheiro-nubígeno correto, na casa do Dr. Lanselius: é a criança que sempre esperamos, e agora ela desapareceu. Temos dois convidados, que irão nos oferecer suas ideias. Primeiro ouviremos a Rainha Ruta Skadi.
Ruta Skadi ficou de pé. Seus braços brancos brilhavam à luz do fogo, os olhos cintilavam com tanta intensidade que até a bruxa mais distante distinguia as expressões em seu rosto vívido.
— Irmãs! — ela começou. — Vou lhes dizer o que está acontecendo, e contra quem devemos lutar. Pois há uma guerra iminente. Não sei quem vai ficar do nosso lado, mas sei contra quem devemos lutar. É o Magisterium, a Igreja: durante toda a sua História, que para nós não é muito tempo, mas para os vidas-curtas significa muitas e muitas gerações, ela tentou reprimir e controlar todos os impulsos naturais. Quando não consegue controlá-los, ela os corta. Algumas de vocês têm conhecimento do que fizeram em Bolvangar. Aquilo foi horrível, mas não é o único lugar, nem a única prática deles. Irmãs, vocês só conhecem o norte; eu viajei pelas terras do sul. Lá existem Igrejas, acreditem, que cortam crianças também, não de igual maneira, mas de uma forma igualmente horrível: cortam fora os órgãos sexuais, sim, de meninas e meninos, para que não possam sentir prazer. É isso que a Igreja faz, e toda a Igreja é igual: quer controlar, destruir, obliterar cada sensação agradável. Se vier uma guerra e a Igreja estiver de um lado, nós temos que estar do outro lado, por mais estranhos que sejam os aliados com quem tivermos que nos envolver.
“O que proponho é que os nossos clãs se unam e sigam para o norte para explorar este novo mundo e ver o que podemos descobrir lá. Se não se consegue encontrar a criança no nosso mundo, é porque ela já terá ido atrás de Lorde Asriel. E Lorde Asriel é a chave de tudo, acreditem. Ele já foi meu amante, e eu de boa vontade uniria minhas forças às dele, porque ele odeia a Igreja e tudo que ela faz. É isso o que tenho a dizer.”
Ruta Skadi falou apaixonadamente, e Serafina admirou seu poder e sua beleza. Quando a rainha latviana se sentou, Serafina voltou-se para Lee Scoresby.
— O Sr. Scoresby é amigo da criança, portanto amigo nosso também — disse. — Gostaria de nos oferecer suas ideias, senhor?
O texano ficou de pé, magro como um chicote e muito cortês. Parecia não ter consciência da estranheza da ocasião, mas tinha. Seu dimon-lebre Hester estava agachado ao lado dele, orelhas estiradas para trás, coladas nas costas, os olhos dourados entrecerrados.
— Senhora, primeiro tenho que agradecer a todas vocês pela bondade com que me trataram, e pela ajuda que deram a um aeróstata castigado pelos ventos que sopraram de outro mundo. Não vou abusar muito da sua paciência. Quando eu estava indo para o norte, para Bolvangar, com os gípcios, a menina Lyra me falou de uma coisa que tinha acontecido na universidade onde ela morava em Oxford: Lorde Asriel mostrou aos outros Catedráticos a cabeça cortada de um homem chamado Stanislaus Grumman, e com isso convenceu-os a lhe dar algum dinheiro para voltar para o Norte e investigar o que tinha acontecido.
Ele continuou:
— Ora, a criança tinha tanta certeza do que tinha visto, que eu não quis questioná-la demais. Mas o que ela disse me trouxe à memória alguma coisa, porém não conseguia lembrar exatamente o que era. Sabia que era sobre esse tal Dr. Grumman. E só na viagem de Svalbard para cá eu me lembrei o que era. Foi um velho caçador de Tungusk quem me contou. Parece que Grumman conhecia o paradeiro de um objeto que dá proteção a quem quer que o carregue. Não quero fazer pouco da magia que vocês, bruxas, dominam, mas essa coisa, fosse o que fosse, tinha um tipo de poder que ultrapassa qualquer coisa de que eu já tenha ouvido falar. E fiquei pensando que poderia adiar a minha volta para o Texas e procurar o Dr. Grumman, pois estou preocupado com aquela menina. Acho que ele não está morto, entendem? Acho que Lorde Asriel estava enganando aqueles Catedráticos.
Fez uma pausa antes de prosseguir.
— De modo que vou procurar por ele em Nova Zembla, que é o último lugar onde ouvi falar dele vivo. Não consigo ver o futuro, mas consigo ver muito bem o presente. E estou com vocês nessa guerra, se é que as minhas balas valem alguma coisa. Mas é esta a tarefa que vou empreender, senhora — concluiu ele, virando-se mais uma vez para Serafina Pekkala: — Vou procurar Stanislaus Grumman, descobrir o que ele sabe e, se conseguir encontrar o tal objeto, vou levá-lo para Lyra.
Serafina perguntou:
— O senhor já foi casado, Sr. Scoresby? Tem filhos?
— Não, senhora, não tenho filhos, embora gostasse de ser pai. Mas entendo a sua pergunta, e a senhora tem razão: aquela garotinha teve má sorte com os pais verdadeiros, e talvez eu possa compensar. Alguém tem que fazer isso, e eu estou disposto a fazê-lo.
— Obrigada, Sr. Scoresby — ela disse.
Serafina Pekkala retirou a coroa e desprendeu dela uma das pequenas flores vermelhas, que permaneciam frescas, como se fossem recém-colhidas, enquanto ela as usasse.
— Leve isto com você — disse. — E sempre que precisar da minha ajuda, segure-a e me chame; vou escutar, não importa onde o senhor esteja.
— Ora, obrigado, senhora — disse ele, surpreso. Pegou a florzinha e guardou-a com cuidado no bolso da camisa.
— E vamos chamar um vento para ajudá-lo achegar a Nova Zembla — disse-lhe Serafina Pekkala. — Agora, irmãs, quem gostaria de falar?
Iniciou-se o conselho propriamente dito. As bruxas eram democratas até certo ponto; todas as bruxas, até mesmo as mais jovens, tinham o direito de falar, mas só a rainha tinha o direito de decidir. O debate durou a noite toda, com muitas vozes veementes a favor da guerra declarada imediatamente, e outras pedindo cautela — e algumas poucas, as mais sábias, sugerindo que se enviasse uma missão a todos os outros clãs para chamá-los a unir-se pela primeira vez.
Ruta Skadi concordava com isso, e Serafina mandou imediatamente as mensageiras. Quanto ao que ela própria deveria fazer, Serafina escolheu vinte das suas melhores guerreiras e ordenou que se preparassem para voar para o norte com ela, para aquele mundo novo que Lorde Asriel tinha aberto, para procurar Lyra.
— E você, Rainha Ruta Skadi? — Serafina perguntou finalmente. — Quais são os seus planos?
— Vou procurar Lorde Asriel, e ouvir dos lábios dele o que ele está fazendo. E parece que ele também foi para o norte. Posso fazer a primeira parte da viagem com você, irmã?
— Pode, e será bem-vinda — disse Serafina, feliz em ter a companhia dela.
Assim ficou decidido.
Logo depois que o conselho terminou, porém, uma bruxa idosa procurou Serafina Pekkala e disse:
— É melhor conversar com Juta Kamainen, Rainha. Ela é cabeça-dura, mas pode ter alguma coisa importante a dizer.
A jovem bruxa Juta Kamainen — isto é, jovem pelos padrões das bruxas, pois tinha pouco mais de cem anos de idade — mostrava-se embaraçada e de má vontade, e seu dimon-tordo estava agitado, voando do ombro para a mão dela e em círculos acima de sua cabeça antes de voltar a pousar por um breve instante em seu ombro. As bochechas da bruxa eram gorduchas e vermelhas: ela possuía uma natureza viva e passional. Serafina não a conhecia muito bem.
— Rainha, conheço o humano Stanislaus Grumman — disse a jovem bruxa, incapaz de permanecer em silêncio sob o olhar de Serafina. — Já o amei. Mas agora o odeio com tanto fervor, que se o encontrar vou matá-lo. Não ia contar, mas a minha irmã me obrigou.
Olhou com raiva para a bruxa idosa, que retribuiu com um olhar de compaixão: conhecia o amor.
— Bem, se ele ainda estiver vivo, vai ter que ficar vivo até o Sr. Scoresby o encontrar — declarou Serafina. — É melhor vir conosco para o novo mundo, assim não haverá perigo de você matá-lo antes. Esqueça, Juta Kamainen. O amor nos faz sofrer. Mas a nossa missão é maior do que a vingança. Lembre-se disso.
— Sim, Rainha — fez a jovem bruxa com humildade.
E Serafina Pekkala, suas 21 companheiras e a Rainha Ruta Skadi da Latvia prepararam-se para voar para o novo mundo, onde bruxa alguma jamais estivera.

2 comentários:

  1. N gostei dessa rainha ela disse q foi amante de lorde asriel e eu n gosto dele e o jeito dela me lembra a sr. Coulter prevejo altas tretass

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  2. Concordo plenamente Bibi =\

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Boa leitura :)