4 de fevereiro de 2017

19. O cativeiro

OS ursos levaram Lyra por uma trilha que subia até o topo do penhasco, onde a neblina era ainda mais espessa do que na praia. Os guinchos dos avantesmas-dos-penhascos e o barulho das ondas ficavam mais fracos à medida que ela subia, e finalmente o único som era o incessante piar dos pássaros marítimos. Subiram em silêncio, vencendo rochedos e geleiras, e embora Lyra não deixasse de examinar, de olhos arregalados, a neblina cinza que os envolvia, e forçasse os ouvidos tentando escutar o ruído da chegada de seus amigos, ela parecia ser o único ser humano em Svalbard, e Iorek poderia muito bem estar morto.
O urso-sargento não falou com ela até atingirem terreno plano. Ali mandou que todos parassem. Pelo som das ondas, Lyra calculou que tinham chegado ao topo do penhasco e não ousou sair correndo para não cair no precipício.
— Olhe para cima — disse o urso, no momento em que uma brisa afastava a pesada cortina de névoa.
De qualquer maneira, a luz do dia era pouca, mas Lyra olhou assim mesmo, e se viu diante de uma enorme construção de pedra. Era tão alta quanto a parte mais alta da Faculdade Jordan, porém muito mais compacta, e toda entalhada com cenas de batalhas mostrando os ursos vitoriosos e os escraelingues se rendendo, tártaros acorrentados trabalhando como escravos nas minas de fogo, zepelins chegando de todas as partes do mundo trazendo presentes e tributos ao rei dos ursos, Iofur Raknison.
Pelo menos foi o que o urso-sargento disse que os entalhes representavam; ela própria não conseguia ver essas coisas, pois cada protuberância e reentrância da fachada ornamentada estava ocupada por mergulhões e gaivotas rapineiras que piavam, gritavam e voejavam constantemente em círculos, e cujas fezes tinham coberto todo o prédio com espessas manchas de um branco sujo.
Os ursos pareciam não ver a sujeira; obrigaram Lyra a atravessar o enorme arco, pisando no chão congelado, imundo com as fezes dos pássaros. Havia um pátio, escadarias e vários portões, e em cada um deles havia ursos de armadura que exigiam a senha para lhes dar passagem. Suas armaduras eram claras e brilhantes, e todos usavam plumas nos elmos. Lyra não conseguia deixar de comparar cada urso que via com Iorek Byrnison, e ele sempre se saía melhor; era mais forte, mais gracioso, e sua armadura era um instrumento de batalha de verdade, com cor de ferrugem, manchas de sangue e marcas de luta, e não uma armadura de enfeite, elegante e polida como a maioria das que ela estava vendo agora.
À medida que penetravam no prédio, a temperatura aumentava, e outra coisa também aumentava: o cheiro no palácio de Iofur era insuportável — gordura de foca rançosa, sangue, dejetos de todo tipo. Lyra tirou o capuz para sentir menos calor, mas não conseguiu deixar de torcer o nariz; esperava que os ursos não entendessem as expressões do rosto humano. A cada poucos metros, havia alças de ferro prendendo lamparinas a gordura de peixe, e naquela luz fraca nem sempre era fácil enxergar onde ela estava pisando.
Finalmente pararam diante de uma pesada porta de ferro. Um urso-guarda puxou a enorme tranca, e o sargento de repente virou a cabeça, empurrando Lyra pelas costas, e ela foi jogada através da porta. Antes que ela conseguisse ficar de pé, ouviu a porta sendo trancada atrás de si.
A escuridão era total, mas Pantalaimon virou um vaga-lume e lançou um brilho minúsculo em volta deles. Estavam numa cela estreita com paredes úmidas, e a mobília era apenas um banco de pedra; no canto mais distante, havia uma pilha de trapos que ela imaginou ser a cama. Isso era tudo que ela conseguia ver.
Lyra se sentou, com Pantalaimon no ombro, e tateou nas roupas em busca do aletiômetro.
— Ele tem levado muita pancada, Pan. Espero que ainda funcione — cochichou.
Pantalaimon voou para o pulso dela e ficou ali brilhando enquanto Lyra preparava a mente. Uma parte dos seus pensamentos achava incrível que ela pudesse estar em terrível perigo e mesmo assim mergulhar na calma necessária para ler o aletiômetro; mas aquilo agora fazia parte dela de tal maneira que as perguntas mais complicadas se destacavam com seus símbolos com a mesma naturalidade com que seus músculos moviam seus braços; mal precisava pensar neles.
Ela moveu os ponteiros e pensou:
“Onde está Iorek?”
A resposta foi imediata:
“A um dia de distância, levado pelo balão depois da queda; mas está vindo depressa.”
“E Roger?”
“Com Iorek.”
“O que Iorek Byrnison vai fazer?”
“Ele pretende forçar a entrada do palácio e libertar você, apesar de todas as dificuldades.”
Ela guardou o aletiômetro, ainda mais ansiosa do que antes.
— Eles não vão permitir, não é mesmo? São muitos. Eu queria ser uma feiticeira, Pan, aí você poderia ir até ele, levar e trazer recados, e a gente poderia fazer um bom plano...
Então ela levou o maior susto de sua vida, quando uma voz masculina perguntou, a poucos passos dela:
— Quem é você?
Ela deu um salto e um grito de medo. Pantalaimon imediatamente virou morcego, guinchando, e voou em volta da cabeça dela enquanto ela recuava até a parede.
— Hein? Quem está aí? — insistiu o homem. — Fale! Fale!
— Vire vaga-lume de novo, Pan. Mas não chegue perto demais — ela pediu, com voz trêmula.
O pontinho de luz dançou pelo ar e voejou em volta da cabeça do homem. Afinal, não era uma pilha de trapos: era um homem de barba grisalha acorrentado à parede, com olhos que cintilavam à luz de Pantalaimon e cabelos sujos que lhe chegavam aos ombros. Seu dimon, uma serpente de aparência exausta, estava deitado no colo dele e ocasionalmente lançava a língua para Pantalaimon.
— Qual é o seu nome? — ela perguntou.
— Jotham Santelia — ele respondeu. — Sou Professor Regius de Cosmologia na Universidade de Glouscester. Quem é você?
— Lyra Belacqua. Por que está preso?
— Maldade e inveja... De onde você vem? Hein?
— Da Faculdade Jordan.
— O quê? De Oxford?
— É.
— Aquele safado do Trelawney ainda está lá? Hein?
— O Catedrático de Palmeriano? Está sim — ela disse.
— Está mesmo? Hein? Deviam ter forçado a demissão dele há muito tempo. Plagiador desleal! Moleque!
Lyra emitiu um som neutro.
— Ele já publicou seu trabalho sobre os fótons de raio gama? — perguntou o Professor, erguendo o rosto para Lyra.
Ela recuou.
— Não sei — disse. Então, por puro hábito, começou a inventar. — Não, agora me lembro. Ele disse que ainda precisava verificar certos cálculos. E... disse que ia escrever sobre o Pó também. É isso.
— Safado! Ladrão! Traidor! Vigarista! — bradou o velho.
Ele tremia com tanta violência que Lyra achou que ele ia ter um ataque. Seu dimon deslizou lentamente do colo do Professor, que dava murros nas pernas, cuspindo uma chuva de saliva.
— É, eu sempre achei que ele era ladrão. E vigarista, e tudo mais — disse Lyra.
Se era improvável que surgisse em sua cela uma garotinha que conhecia o próprio homem que era a sua obsessão, o Professor Regius não percebeu. Ele estava mesmo louco — o que não era de estranhar, coitado; mas podia ter alguma informação útil para Lyra.
Ela se sentou ao lado dele cautelosamente, não suficientemente perto para que ele a tocasse, mas o bastante para que a minúscula luz de Pantalaimon o iluminasse claramente.
— Uma coisa que o Professor Trelawney dizia para se gabar era que conhecia muito bem o rei dos ursos...
— Para se gabar? Hein? Ele é mesmo um metido! Um fanfarrão! E um preguiçoso! Nem uma única linha de pesquisa ele fez! Foi tudo pirateado de homens melhores que ele!
— É, tem razão — disse Lyra em tom veemente. — E quando ele faz alguma pesquisa, faz tudo errado.
— Sim! Sim! Perfeitamente! Não tem talento nem imaginação, é uma fraude do princípio ao fim!
— Por exemplo, aposto que o senhor sabe mais que ele sobre os ursos — disse Lyra.
— Ursos! Rá! Eu poderia escrever um tratado sobre eles! Foi por isso que me prenderam, sabia?
— Por quê?
— Porque sei demais sobre eles, e eles não ousam me matar. Não têm coragem, por mais que tenham vontade. Eu sei, entende? Tenho amigos. Sim, amigos poderosos!
— É, e aposto que o senhor é um professor maravilhoso, tendo tanto conhecimento e com tanta experiência de ensinar...
Mesmo nas profundezas da loucura dele, ainda brilhava uma centelha de bom senso, então ele olhou para a menina com atenção, quase como se suspeitasse de sarcasmo por parte dela. Mas ela havia passado a vida inteira lidando com professores idosos e desconfiados e retribuiu o olhar dele com um olhar de admiração que o convenceu e acalmou.
— Professor... — disse ele. — Ensinar... É, eu poderia ensinar. Se eu tivesse um bom aluno, acenderia uma fogueira na mente dele!
— Porque o seu conhecimento não deveria simplesmente desaparecer — Lyra continuou, em tom encorajador. — Devia ser passado adiante, para que as pessoas se lembrem do senhor.
— É, sim — concordou ele, com seriedade. — Você é muito esperta, garota. Qual é o seu nome?
— Lyra — ela tornou a dizer. — Pode me ensinar sobre os ursos?
— Os ursos... — ele ecoou, em tom de dúvida.
— Eu realmente gostaria de aprender sobre cosmologia, o Pó e tudo mais, mas não sou suficientemente inteligente para isso. E podíamos começar com os ursos e progredir até o Pó, quem sabe?
Ele assentiu outra vez.
— É, acho que tem razão. Existe uma correspondência entre o microcosmo e o macrocosmo! As estrelas estão vivas, menina. Sabia disso? Tudo lá em cima é vivo, e existem grandes propósitos lá fora! O universo está cheio de intenções, entende? Tudo acontece com um propósito. O seu é me recordar isto. Muito bom, muito bom; no meu desespero eu tinha esquecido. Ótimo! Excelente, minha menina!
— Então: já viu o Rei Iofur Raknison?
— Ah, se vi! Vim para cá a convite dele, sabia? Ele ia me nomear Vice-chanceler. Seria um tapa de luva no Régio Instituto do Polo Ártico, hein? Hein? E naquele safado do Trelawney! Ah!
— Que foi que aconteceu?
— Fui traído por homens indignos. Entre eles Trelawney, é claro. Ele estava aqui, sabia? Em Svalbard. Espalhou mentiras e calúnias sobre a minha capacidade. Calúnias! Invenções! Quem foi que descobriu a prova definitiva da hipótese de Barnard-Stokes, hein? Hein? Sim, o velho Santelia. Trelawney não conseguiu aceitar isso. Mentiu do princípio ao fim. Iofur Raknison mandou me jogar aqui. Um dia vou sair, você vai ver. Vou ser Vice-chanceler, ora se vou. E Trelawney vai me procurar, implorando piedade! Quero ver o Régio Instituto do Polo Ártico recusar meus textos! Ah! Vou denunciar todos eles!
— Acho que Iorek Byrnison vai acreditar no senhor, quando ele voltar... — disse Lyra.
— Iorek Byrnison? Não adianta esperar por isso. Aquele lá nunca vai voltar.
— Ele está vindo.
— Então vai ser morto. Ele não é urso, entende? É um renegado. Como eu. Um degredado, entende? Sem direito a qualquer privilégio de um urso.
— Se Iorek Byrnison voltasse e desafiasse Iofur Raknison para uma luta...
— Ah, não iam permitir isso — disse o Professor em tom decidido. — Iofur nunca irá se rebaixar reconhecendo o direito de Iorek Byrnison de lutar com ele. Iorek não tem mesmo esse direito; ele pode ser uma foca, ou um leão-marinho, mas não um urso. Seria morto com lançadores de fogo antes de chegar perto. Não há esperança. Não existe piedade.
— Ah... — suspirou Lyra, com o desespero pesando no peito. — E os outros prisioneiros dos ursos, sabe onde ficam?
— Outros prisioneiros?
— Assim como... Lorde Asriel.
De repente o Professor mudou inteiramente; ficou encolhido contra a parede e sacudiu a cabeça com nervosismo.
— Psiu! Fale baixo! Podem ouvir!
— Por que não podemos falar do Lorde Asriel?
— Proibido! Muito perigoso! Iofur Raknison não permite que o nome dele seja mencionado!
— Por quê? — Lyra perguntou, chegando mais perto e cochichando também, para não assustá-lo.
— Manter Lorde Asriel prisioneiro é uma tarefa especial dada a Iofur pelo Conselho de Oblação — cochichou de volta o velho. — A Sra. Coulter em pessoa veio visitar Iofur e lhe ofereceu todo tipo de recompensas para ele manter Lorde Asriel fora do caminho. Sei disso porque na época, entende, eu ainda tinha a confiança de Iofur. Conheci a Sra. Coulter! É verdade. Tivemos uma longa conversa. Iofur estava encantado com ela. Não parava de falar nela. Faria qualquer coisa por ela. Se ela quer que Lorde Asriel fique preso a mil quilômetros de distância, assim será. Qualquer coisa pela Sra. Coulter, qualquer coisa. Ele vai dar o nome dela à capital do seu país, sabia disso?
— Então ele não deixa ninguém visitar Lorde Asriel?
— Não! Nunca! Mas ele também tem medo de Lorde Asriel, entende? Iofur está jogando uma partida difícil: está mantendo Lorde Asriel em confinamento para agradar à Sra. Coulter, mas deixa Lorde Asriel ter todo o equipamento que quiser, para agradá-lo. Este jogo não pode durar muito. É um equilíbrio instável. Agradar aos dois lados. Hein? A estrutura dessa situação vai desmontar logo, logo. Sei disso de fonte segura.
— É mesmo? — fez Lyra, distraída, pensando furiosamente sobre o que ele acabara de dizer.
— É, sim. A língua do meu dimon sente o sabor da probabilidade, entende?
— É, a minha também. Quando é que nos alimentam, Professor?
— Nos alimentam?
— Devem colocar comida, senão morreríamos de fome. E o chão está cheio de ossos. Imagino que sejam de foca, não são?
— Foca... Não sei. Pode ser.
Lyra se levantou e tateou até a porta. Não havia maçaneta, naturalmente, nem fechadura, e não havia uma só fresta por onde passasse a luz. Ela encostou o ouvido, mas nada escutou. Depois ouviu o ruído das correntes do ancião quando ele se virou para o outro lado e dormiu.
Ela tateou de volta ao banco. Pantalaimon, cansado de emitir luz, virara um morcego, o que para ele era ótimo; ficou voejando, guinchando baixinho, enquanto Lyra, sentada, roía as unhas.
De repente, sem o menor aviso, ela recordou o que tinha ouvido o Catedrático de Palmeriano dizer na Sala Privativa tanto tempo antes. Alguma coisa vinha cutucando sua mente desde que Iorek Byrnison mencionara pela primeira vez o nome de Iofur, e agora ela se lembrava: o Professor Trelawney tinha dito que aquilo que Iofur Raknison queria mais que tudo era um dimon.
É claro que na hora ela não havia entendido o que ele queria dizer; ele tinha falado em panserbjornes em vez de usar a palavra inglesa, então ela não sabia que estavam falando de ursos e não podia imaginar que Iofur Raknison não era um homem. E um homem naturalmente teria seu dimon, então aquilo não fazia sentido.
Mas agora era óbvio. Somando tudo que ela havia ouvido sobre o urso-rei, o resultado era: o poderoso Iofur Raknison desejava mais que tudo ser um humano e ter seu próprio dimon. E ao pensar isso ela imaginou um plano: um modo de fazer o que Iofur Raknison normalmente jamais teria feito; um modo de conduzir Iorek Byrnison ao trono a que tinha direito; um modo, em suma, de chegar ao lugar onde tinham aprisionado Lorde Asriel e entregar a ele o aletiômetro.
Essa ideia esvoaçou e brilhou delicadamente, como uma bolha de sabão, e ela temia encará-la de frente, para não destruí-la. Mas estava familiarizada com todo tipo de ideias, e a deixou rebrilhar, olhando para outro lado e pensando em outra coisa.
Estava quase dormindo quando os ferrolhos foram corridos ruidosamente e a porta foi aberta. A luz jorrou para dentro, e ela ficou de pé no mesmo instante, com Pantalaimon escondido rapidamente no bolso.
Assim que o urso-guarda baixou a cabeça para levantar a posta de carne de foca e jogá-la para dentro, ela estava ao lado dele, dizendo.
— Me leve a Iofur Raknison. Vai ter problemas se não fizer isso. É urgente.
Ele deixou a carne cair da boca e ergueu os olhos. Não era fácil ler a expressão de um urso, mas ele parecia zangado.
— É sobre Iorek Byrnison — ela falou depressa. — Sei de uma coisa sobre ele, e o rei precisa saber.
— Diga o que é e eu mando avisar — disse o urso.
— Isso não seria certo. Ninguém pode saber antes do rei — ela disse. — Sinto muito, não quero ser grosseira, mas você sabe, a lei diz que o rei tem que ficar sabendo primeiro.
Talvez ele fosse burro; de qualquer maneira, fez uma pausa e depois jogou a carne dentro da cela antes de dizer:
— Está bem. Vem comigo.
Levou-a para o ar livre, o que a agradou muito. A névoa se dissipara e estrelas brilhavam acima do pátio cercado de muros altos. O guarda falou alguma coisa com outro urso, que veio falar com ela.
— Não pode falar com Iofur Raknison quando bem entender — disse. — Vai ter que esperar até ele querer falar com você.
— Mas o que eu tenho para dizer a ele é urgente — ela argumentou. — É sobre Iorek Byrnison. Tenho certeza de que Sua Majestade ia querer saber, mas ao mesmo tempo não posso contar a outra pessoa, entende? Não seria apropriado. Ele ia ficar furioso se soubesse que nós não agimos de acordo com a etiqueta.
Aquilo tudo parecia fazer sentido, ou então deixou o urso suficientemente confuso para obrigá-lo a raciocinar. Lyra tinha certeza de que sua interpretação estava correta: Iofur Raknison havia feito tantas mudanças que nenhum dos ursos sabia como proceder, e ela poderia explorar essa insegurança para chegar a ele.
Assim, o urso foi consultar o urso acima dele, e não demorou para que Lyra fosse novamente levada para dentro do Palácio, mas dessa vez para os aposentos reais. Aquela parte era tão suja quanto a outra, e o ar era até mais irrespirável do que o da cela, porque todos os fedores naturais estavam misturados a uma camada pesada de perfume adocicado.
Mandaram que ela esperasse no corredor, depois na antessala, depois junto a uma porta enorme, enquanto ursos discutiam, debatiam e iam apressados de um lado para outro. E ela teve tempo para olhar em volta e contemplar a ridícula decoração: as paredes eram cobertas de trabalhos em gesso dourado, algumas partes já descascando ou se desmanchando por causa da umidade, e os tapetes floridos estavam imundos.
Finalmente a porta enorme foi aberta por dentro. Um clarão de luz de meia dúzia de candelabros, um tapete roxo e mais perfume adocicado pairando no ar; e as caras de uma dezena de ursos, todos olhando para ela, nenhum deles de armadura, mas todos com o mesmo tipo de enfeites: colar dourado, cocar de plumas roxas, uma faixa carmim na cintura.
Curiosamente, havia também pássaros no aposento: andorinhas-do-mar e gaivotas rapineiras se empoleiravam na moldura de gesso das paredes e mergulhavam para bicar os pedaços de peixe que caíam do ninho dos outros pássaros nos candelabros.
E num tablado no extremo oposto do aposento, ela viu um trono enorme. Era feito de granito, para ser forte e maciço, mas, como todas as coisas no palácio de Iofur, ele era decorado com arabescos e festões dourados que pareciam purpurina numa montanha.
Sentado no trono estava o maior urso que ela já vira. Iofur Raknison era mais alto e mais corpulento até que Iorek, e sua cara tinha muito mais movimento e era mais expressiva, com uma espécie de humanidade que ela nunca tinha visto em Iorek. Quando Iofur olhou para ela, era como se ela visse um homem olhando de dentro dos olhos dele, o tipo de homem que ela conhecera na casa da Sra. Coulter — um político hábil, acostumado ao poder. Ele usava uma pesada corrente de ouro em volta do pescoço e nela um penduricalho chamativo, e suas garras — com uns bons 20 centímetros cada uma — eram folheadas a ouro. O efeito era de enorme força, energia e esperteza; ele era suficientemente corpulento para carregar aquelas joias de tamanho absurdo; nele, elas não pareciam ridículas, e sim bárbaras e magníficas.
Ela ficou em dúvida. De repente, sua ideia parecia tola demais.
Mas se adiantou, pois era obrigada a isso, e então viu que Iofur segurava algo no colo, como um ser humano seguraria um gato — ou o seu dimon.
Era uma grande boneca estufada, um manequim com rosto humano parado e morto. Estava vestida como a Sra. Coulter gostava de se vestir, e se parecia um pouco com ela. Iofur estava fingindo que tinha um dimon! Então Lyra viu que estava salva.
Ela se aproximou do trono e fez uma profunda reverência, com Pantalaimon quieto e imóvel em seu bolso.
— Nossas saudações, grande Rei — ela disse em voz baixa. — Quer dizer, minhas saudações, não as dele.
— Não as de quem? — Iofur perguntou.
Tinha a voz mais fina do que ela imaginara, mas cheia de sutilezas e tons expressivos. Enquanto falava, ele balançava a mão diante da boca para espantar as moscas que se juntavam ali.
— De Iorek Byrnison, Majestade. Tenho uma coisa muito importante e secreta para lhe contar, e acho que, na verdade, devia fazer isso em particular.
— É alguma coisa sobre Iorek Byrnison?
Ela se aproximou, pisando cuidadosamente no chão coberto de sujeira de pássaros, e afastou as moscas que zumbiam junto ao seu rosto.
— Alguma coisa sobre dimons — disse, para que apenas ele ouvisse.
A cara dele mudou de expressão. Ela não conseguiu decifrar a nova expressão, mas não havia dúvida de que ele estava imensamente interessado. De repente, ele se inclinou para a frente, fazendo com que ela saltasse de lado, e rugiu uma ordem para os outros ursos. Todos eles fizeram uma reverência e recuaram em direção à porta. Os pássaros, que tinham se alvoroçado com o rugido, piavam e voavam baixo antes de se acomodarem novamente em seus ninhos.
Quando só ficaram Iofur Raknison e Lyra na sala do trono, ele olhou ansiosamente para ela.
— Então? Diga quem é você. Que história é essa de dimons?
— Eu sou um dimon, Majestade — ela disse.
Ele ficou imóvel.
— De quem? — quis saber.
— De Iorek Byrnison.
Foi a coisa mais perigosa que ela já falara na vida. Via claramente que só o espanto dele o impedia de matá-la ali mesmo. Então não perdeu tempo.
— Por favor, Majestade, me deixe contar tudo primeiro, antes de me matar. Vim até aqui correndo perigo, como o senhor bem sabe, e nada do que eu tenho a dizer pode prejudicar o senhor. Aliás, eu quero é ajudar, e foi por isso que vim. Iorek Byrnison foi o primeiro urso a conseguir um dimon, mas devia ter sido o senhor. Eu prefiro muito mais ser seu dimon do que dele, por isso eu vim.
— Como? — ele perguntou ofegante. — Como é que um urso consegue um dimon? E por que ele? E como é que você consegue ficar tão longe dele?
As moscas caíam da boca do urso como minúsculas palavras.
— Isso é fácil. Eu posso me afastar dele porque sou como os dimons das feiticeiras. Sabe que eles podem se afastar centenas de quilômetros de suas donas? Pois é a mesma coisa. E ele me conseguiu em Bolvangar. O senhor já deve ter ouvido falar em Bolvangar, porque a Sra. Coulter deve ter-lhe falado disso, mas ela provavelmente não lhe contou tudo que eles faziam lá.
— Cortavam...
— Sim, a intercisão; isso é uma parte. Mas eles faziam muitas outras coisas lá, como por exemplo implantes de dimons. E experiências com animais. Quando Iorek Byrnison soube disso, se ofereceu como voluntário para uma experiência, para ver se conseguiam fazer um dimon para ele. Eles conseguiram, e o dimon sou eu. Meu nome é Lyra. Os dimons dos humanos têm forma de animais, então o dimon de um urso tem forma humana. E eu sou o dimon dele. Posso ler a mente dele e saber exatamente o que ele está fazendo, onde está e...
— Onde é que ele está?
— Em Svalbard. Está vindo para cá o mais rápido possível.
— Por quê? O que ele quer? Deve estar louco! Vão acabar com ele.
— Ele quer a mim, está vindo me buscar. Mas não quero ser dimon dele, Iofur Raknison, quero ser sua. Porque, depois que eles viram como um urso fica poderoso com dimon, o pessoal em Bolvangar resolveu não repetir a experiência. Iorek Byrnison é o único urso a ter dimon. Com a minha ajuda, ele poderia levantar todos os ursos contra o senhor. É para isso que ele vem a Svalbard.
O urso-rei rugiu de ódio. O rugido foi tão alto que os lustres de cristal tilintaram, todos os pássaros no grande salão piaram e os ouvidos de Lyra zumbiram.
Mas ela conseguiu se sair bem.
— É por isso que gosto mais do senhor — disse a Iofur Raknison. — Porque o senhor é entusiasmado, forte e inteligente também. Eu tinha que abandonar Iorek Byrnison e vir lhe contar, porque não quero que ele governe os ursos. Tem que ser o senhor. E existe um modo de me tirar dele e me fazer seu dimon, mas o senhor não sabe disso e, se não for avisado, pode fazer com ele o que costuma fazer com ursos renegados; quer dizer, não lutar com ele, mas matar com lançadores de fogo ou coisa assim. E se fizesse isso, eu ia apagar como uma luz e morreria com ele.
— Mas você... Como é que...
— Eu posso realmente me tornar seu dimon, mas só se o senhor derrotar Iorek Byrnison numa luta dos dois. Então a força dele vai passar para o senhor, e a minha mente vai fluir para dentro da sua, e seremos como uma pessoa, pensando os pensamentos um do outro; e o senhor vai poder me mandar a qualquer lugar para espionar, ou me deixar ficar aqui ao seu lado, como preferir. E eu ia ajudar a chefiar os ursos para conquistar Bolvangar, se o senhor quiser, e obrigar que eles façam mais dimons para os seus ursos favoritos; ou, se preferir ser o único urso com dimon, poderíamos destruir Bolvangar para sempre. Nós dois juntos, Iofur Raknison, poderíamos fazer qualquer coisa!
Durante todo o tempo, ela segurava Pantalaimon no bolso com a mão trêmula, e ele estava o mais imóvel possível na menor forma de rato que conseguia assumir.
Iofur Raknison andava de um lado para outro com ar de explosiva excitação.
— Uma luta entre nós dois? — dizia. — Eu tenho que lutar com Iorek Byrnison? Impossível! Ele é um renegado! Como pode ser isso? Como é que posso lutar com ele? É a única maneira?
— É a única maneira — Lyra ecoou.
Ela queria que não fosse, porque Iofur Raknison parecia maior e mais feroz a cada minuto. Por maior que fosse o seu afeto por Iorek e por mais forte que fosse sua confiança nele, ela não conseguia acreditar que ele pudesse derrotar este gigante entre gigantes. Mas era a única esperança que eles tinham; ser destruído a distância por lançadores de fogo não era uma esperança.
Iofur Raknison se virou de repente.
— Então prove! Prove que você é um dimon!
— Está bem — disse ela. — Posso fazer isso, é fácil. Posso descobrir alguma coisa que o senhor sabe e ninguém mais; qualquer coisa que só um dimon conseguiria descobrir.
— Então me diga qual foi a primeira criatura que matei.
— Para isso vou ter que ficar sozinha. Quando eu for seu dimon, o senhor vai poder ver como é que faço isso, mas até lá tem que ser segredo.
— Vá para a sala atrás desta aqui e volte quando souber a resposta.
Lyra abriu a porta e entrou num aposento iluminado por uma tocha e contendo apenas um armário de mogno com enfeites de prata sujos. Ela tirou o aletiômetro e perguntou: “Onde está Iorek agora?”
“A quatro horas de distância, e correndo mais ainda.”
“Como é que posso dizer a ele o que eu fiz?”
“Tem que ter confiança nele.”
Ela pensou ansiosamente no cansaço que ele certamente teria. Mas então refletiu que não estava fazendo aquilo que o aletiômetro acabava de lhe dizer: confiar nele.
Deixou de lado este pensamento e fez a pergunta que Iofur Raknison queria. Qual era a primeira criatura que ele havia matado?
Veio a resposta: o próprio pai dele.
Ela fez outras perguntas e descobriu que quando jovem, em sua primeira expedição de caça, Iofur estava sozinho no gelo quando encontrou um urso solitário. Os dois discutiram e lutaram, e Iofur matou o outro. Mais tarde, quando soube que se tratava de seu próprio pai (pois os ursos eram criados pela mãe e raramente viam o pai), ele escondeu a verdade, portanto ninguém sabia disso além do próprio Iofur Raknison.
Ela guardou o aletiômetro, pensando em como lhe dizer isto.
— Como se fosse um elogio! — sussurrou Pantalaimon. — É só o que ele quer.
Então Lyra abriu a porta e encontrou Iofur Raknison esperando, com expressão de triunfo, esperteza, apreensão e cobiça.
— E aí?
Ela se ajoelhou diante dele e encostou a cabeça na pata dianteira esquerda dele, pois todos os ursos eram canhotos.
— Peço o seu perdão, Iofur Raknison! Não sabia que era tão forte e grandioso!
— Que é isso? Responda a minha pergunta!
— A primeira criatura que o senhor matou foi o seu próprio pai. Acho que o senhor é um novo deus, Iofur Raknison. Só pode ser. Só um deus teria poder para fazer isso.
— Você sabe! Consegue ver!
— Sim, porque eu sou um dimon.
— Me diga mais uma coisa. Que foi que Lady Coulter me prometeu quando esteve aqui?
Mais uma vez Lyra foi para a outra sala e consultou o aletiômetro antes de voltar com uma resposta.
— Ela lhe prometeu que ia fazer o Magisterium em Gênova concordar que o senhor fosse batizado como cristão, mesmo não tendo dimon. Bem, infelizmente ela não fez isso, Iofur Raknison, e para ser sincera acho que eles nunca concordarão se o senhor não tiver um dimon; acho que ela sabia disso e não lhe contou a verdade. Mas, de qualquer maneira, quando o senhor me tiver como dimon, poderá ser batizado se quiser, pois ninguém poderá ser contra. O senhor poderá exigir isso, e eles não vão poder recusar.
— Sim... É verdade. Ela disse isso mesmo. É tudo verdade. E ela me enganou? Eu confiei nela, e ela me enganou?
— Foi, sim. Mas ela não tem mais importância. Com sua licença, Iofur Raknison, espero que não fique zangado por eu dizer isso, mas Iorek Byrnison está a quatro horas daqui, e talvez fosse melhor o senhor dar ordens aos guardas para que não ataquem ele. Se pretende lutar com ele, ele vai ter que chegar até o Palácio.
— É...
— E quando ele chegar, talvez seja melhor eu fingir que ainda pertenço a ele e que me perdi. Ele não vai descobrir. Eu vou fingir. O senhor vai contar aos outros ursos que eu sou dimon de Iorek e que vou pertencer ao senhor quando o senhor lutar com ele e vencer?
— Não sei... O que devo fazer?
— Acho melhor não contar. Quando estivermos unidos, o senhor e eu, poderemos pensar no que é melhor, e então chegar a uma decisão. Agora o que o senhor precisa fazer é explicar a todos os outros ursos por que vai lutar com Iorek como se ele fosse um urso comum, mesmo sendo um renegado. Porque eles não vão entender e temos que inventar um motivo para isso. De qualquer maneira, eles vão obedecer, mas se tiverem um motivo, vão admirar o senhor ainda mais.
— É. O que devemos dizer a eles?
— Diga... Diga a eles que para tornar seu reino inteiramente seguro, o senhor mesmo chamou Iorek Byrnison de volta para lutar com ele, e o vencedor vai governar os ursos para sempre. Entenda: se disser que a ideia da vinda dele foi sua, eles vão ficar mesmo impressionados. Vão pensar que o senhor consegue chamar Iorek de longe. Vão pensar que o senhor consegue fazer qualquer coisa.
— É...
O grande urso estava domado; Lyra sentia o poder que tinha sobre ele quase como uma embriaguez, e se Pantalaimon não tivesse mordiscado sua mão para lembrar o perigo que todos corriam, ela poderia facilmente ter passado dos limites.
Mas voltou a ter bom senso e recuou um passo para observar e esperar enquanto os ursos, sob as ordens agitadas de Iofur, preparavam o campo de combate para Iorek Byrnison; e enquanto isso Iorek, sem saber de coisa alguma, se aproximava depressa daquilo que — ela gostaria de poder contar a ele — era um combate de vida ou morte.

4 comentários:

  1. Planos astutos e desesperados...

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  2. Luamara feiticeira dimon dragão11 de março de 2017 13:13

    E é mais um pra minha lista.

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  3. Essa é a pirralha mais inteligente q eu conheço
    sabe pensar em um campo de batalha

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Boa leitura :)