17 de fevereiro de 2017

19. Lyra e sua morte

Sentia raiva de meu amigo; dei a conhecer minha raiva e assim ela teve fim.
Willian Blake

Aqui e ali, fogueiras tinham sido acesas entre as ruínas. A cidade era uma confusão, sem ruas, sem praças e sem espaços abertos, exceto onde um prédio havia desabado. Umas poucas igrejas ou prédios públicos ainda erguiam-se sobre o resto, embora estivessem esburacados ou com as paredes rachadas e, em um caso, um pórtico inteiro havia desmoronado sobre suas colunas. Entre os esqueletos das ruínas das construções de pedra, um amontoado desordenado de barracos e casebres tinha sido erguido com pedaços de vigas de madeira, latões de gasolina ou latas de biscoitos destroçados, chapas de polietileno, pedaços de compensado ou de madeira maciça. Os espíritos que tinham vindo com eles estavam seguindo apressados para a cidade e, de todas as direções, havia mais espíritos chegando, tantos que pareciam os grãos de areia que escorrem em direção ao buraco de uma ampulheta. Os espíritos se encaminharam direto para a esquálida confusão da cidade, como se soubessem exatamente para onde estavam indo, e Lyra e Will estavam prontos para segui-los, mas então foram detidos.
Um vulto saiu do vão de uma porta remendada e disse:
— Esperem, esperem.
Uma luz fraca brilhava atrás dele e não era fácil distinguir suas feições, mas sabiam que não era um espírito. Como eles, estava vivo. Era um homem magro que poderia ter qualquer idade, vestido num terno sujo, desbotado e esgarçado, e segurava um lápis e um maço de papéis que mantinha presos com um grande clipe. O prédio de onde havia saído tinha o aspecto de um posto de alfândega numa fronteira raramente visitada.
— O que é este lugar? — perguntou Will. — E por que não podemos entrar?
— Vocês não estão mortos — respondeu o homem em tom cansado. — Têm que esperar na área de transição. Sigam adiante pela rua à esquerda e entreguem estes papéis ao funcionário que controla o portão.
— Mas, perdoe-me, senhor — disse Lyra — espero que não se aborreça com minha pergunta, mas como podemos ter chegado até aqui se não estamos mortos? Porque aqui é o mundo dos mortos, não é?
— Isso aqui é um subúrbio do mundo dos mortos. Por vezes, os vivos vêm para cá, por engano, mas têm de esperar na área de transição antes de poderem seguir.
— Esperar quanto tempo?
— Até morrerem.
Will sentiu a cabeça ficar zonza. Viu que Lyra estava pronta para discutir e, antes que ela pudesse falar, disse:
— Poderia apenas nos explicar o que acontece depois? Quero dizer, esses espíritos que vêm para cá, eles ficam nesta cidade para sempre?
— Não, não — respondeu o funcionário. — Isso aqui é apenas um porto de trânsito. Daqui eles seguem adiante de barco.
— Para onde? — perguntou Will.
— Isso é uma coisa que não posso lhe dizer — respondeu o homem, e um sorriso amargo puxou para baixo os cantos de sua boca. — Agora têm que ir andando. Vocês têm que ir para a área de transição.
Will recebeu os papéis que o homem estava estendendo e então pegou Lyra pelo braço e fez com que se afastasse dali.
As libélulas agora voavam vagarosamente e Tialys explicou que precisavam descansar, de modo que elas se empoleiraram na mochila de Will e Lyra deixou que os espiões sentassem em seus ombros. Pantalaimon, em forma de leopardo, olhou para eles enciumado, mas não disse nada. Eles seguiram adiante pela trilha estreita, contornando os casebres miseráveis e as poças de esgoto e observando o fluxo interminável de espíritos que chegavam e entravam sem impedimentos na cidade.
— Temos que conseguir chegar até a água, como todos eles — disse Will. — E talvez as pessoas nessa área de trânsito nos digam como. De qualquer maneira, não parecem estar com raiva, nem ser perigosos. É estranho. E estes papéis...
Eram simplesmente pedaços de papel arrancados de um bloco, com palavras escritas ao acaso, a lápis, e depois riscadas. Era como se aquelas pessoas estivessem fazendo um jogo e esperando para ver quando os viajantes contestariam sua autoridade ou desistiriam e cairiam na gargalhada. E, no entanto, tudo parecia tão real.
Estava ficando mais escuro e mais frio, e era difícil ter uma ideia distinta da passagem do tempo. Lyra achava que tinham caminhado durante meia hora, mas talvez tivesse sido o dobro, o aspecto do lugar não mudava. Finalmente chegaram a um pequena cabana de madeira, parecida com a outra, onde tinham parado antes, onde uma lâmpada fraca estava acesa pendurada num fio descoberto acima da porta.
Quando se aproximaram, um homem vestido quase que exatamente como o outro saiu com um pedaço de pão com manteiga numa das mãos e, sem dizer uma palavra, examinou os papéis e balançou a cabeça em sinal de assentimento. Ele devolveu os papéis e estava prestes a entrar, quando Will perguntou:
— Por favor, para onde devemos ir agora?
— Devem ir procurar algum lugar para ficar — respondeu o homem, com alguma gentileza. — Devem apenas perguntar. Todo mundo está esperando, exatamente como vocês.
Ele lhes deu as costas e fechou a porta por causa do frio, e os viajantes penetraram no coração do agrupamento de casebres onde as pessoas vivas tinham que ficar.
Era muito semelhante à parte principal da cidade: pequenos casebres mal-ajambrados, que haviam sido reparados dúzias de vezes, remendados com pedaços de plástico ou de chapas de ferro corrugado, apoiando-se estranhamente uns contra os outros ao longo de becos estreitos e lamacentos. Em alguns lugares, um cabo de eletricidade descia em laçadas de uma arandela e fornecia energia suficiente para acender uma ou duas lâmpadas nuas, dispostas em fila sobre os casebres próximos. Contudo, a maior parte da pouca luz que havia vinha das fogueiras. Seu brilho enfumaçado bruxuleava em reflexos vermelhos sobre os pedaços e retalhos de material de construção, como se fossem as derradeiras chamas remanescentes de alguma grandiosa conflagração, permanecendo vivas por pura malevolência.
Mas, à medida que Will, Lyra e os galivespianos se aproximaram e conseguiram enxergar mais detalhes, puderam ver que havia inúmeros — muitos mais — realmente muitos vultos, sentados no escuro sozinhos ou encostados nas paredes ou em pequenos grupos, conversando em voz baixa.
— Por que essas pessoas não estão dentro de casa? — perguntou Lyra. — Está frio.
— Não são pessoas — disse Lady Salmakia. — Não são nem espíritos. São alguma outra coisa, mas não sei o quê.
Os viajantes chegaram ao primeiro grupo de casebres, que era iluminado por uma daquelas grandes lâmpadas elétricas, de luz fraca, balançando ligeiramente num fio sob o vento frio e Will pôs a mão sobre a faca em seu cinto. Havia um grupo daquelas coisas com forma de pessoas do lado de fora, agachadas sobre os calcanhares e jogando dados e, quando as crianças se aproximaram, eles se levantaram: eram cinco, todos homens, os rostos nas sombras e as roupas velhas e sujas.
— Como se chama esta cidade? — perguntou Will.
Não houve resposta. Alguns deles deram um passo atrás e todos os cinco chegaram mais perto uns dos outros, como se eles estivessem com medo. Lyra sentiu a pele se arrepiar e todos os minúsculos pelos em seus braços ficarem em pé, embora não soubesse dizer por quê. Enfiado dentro de sua camisa, Pantalaimon tremia e sussurrava:
— Não, não, Lyra, não, vamos embora, vamos voltar, por favor...
As “pessoas” não fizeram nenhum movimento e, finalmente, Will deu de ombros e disse:
— Bem, de qualquer maneira, boa noite para vocês — e seguiu adiante.
Receberam uma reação semelhante de todos os outros vultos com quem falaram e, o tempo todo, a apreensão deles foi crescendo.
— Will, eles são Espectros-— perguntou Lyra baixinho. — Será que já estamos bastante crescidos para ver Espectros?
— Acho que não. Se fossem, nos atacariam, mas eles próprios parecem estar com medo. Não sei o que são.
Uma porta se abriu e a luz se espalhou sobre o solo enlameado. Um homem — um homem de verdade, um ser humano — apareceu no vão da porta, observando-os se aproximarem. O pequeno grupo de vultos em torno da porta se afastou dando um ou dois passos para trás, como se em sinal de respeito, e eles viram o rosto do homem: imperturbável, inofensivo e gentil.
— Quem são vocês? — perguntou.
— Viajantes — respondeu Will. — Não sabemos onde estamos. Que cidade é esta?
— Aqui é a área de trânsito — respondeu o homem. — Vieram de muito longe?
— Sim, viemos de muito longe e estamos cansados — respondeu Will. — Poderíamos comprar alguma comida e pagar por um abrigo?
O homem estava olhando para algum ponto atrás deles na escuridão e então veio para o lado de fora e olhou em volta para mais além, como se alguém estivesse faltando. Então virou-se para os estranhos vultos parados ali por perto e perguntou:
— E vocês viram alguma morte?
Eles sacudiram a cabeça e as crianças ouviram um murmúrio dizendo:
— Não, não, nenhuma.
O homem voltou para a porta. Atrás dele, no vão da porta, havia rostos olhando para fora: uma mulher, duas crianças pequenas, um outro homem. Todos estavam nervosos e apreensivos.
— Morte? — questionou Will. — Não estamos trazendo morte.
Mas isso parecia ser exatamente o que os estava preocupando, porque depois que Will falou, houve um suspiro baixo e temeroso dos vivos e até mesmo os vultos do lado de fora se encolheram, se afastando um pouco.
— Com licença — disse Lyra, dando um passo adiante, em sua melhor forma, falando muito educadamente, como se a governanta da Faculdade Jordan estivesse lhe lançando um olhar furioso. — Não pude deixar de reparar, mas esses cavalheiros aqui, estão mortos? Desculpe-me por perguntar, se estiver sendo indelicada, mas de onde viemos isso é muito estranho e nunca vimos ninguém como eles antes. Se estiver sendo mal-educada, realmente gostaria que me perdoassem. Mas sabem, em meu mundo, nós temos dimons, todo mundo tem um dimon e ficaríamos chocados se víssemos alguém sem um, exatamente como vocês estão chocados ao nos ver. E agora que estivemos viajando, Will e eu, este é Will e eu sou Lyra, descobri que existem algumas pessoas que parecem não ter dimons, como Will, que não tem, e fiquei assustada até que descobri que, na verdade, são pessoas comuns como eu. Assim talvez seja por isso que alguém de seu mundo poderia ficar meio nervoso quando nos vê, se pensam que somos diferentes.
O homem disse:
— Lyra? E Will?
— Sim senhor — disse humildemente.
— E estes são seus dimons. — perguntou ele, apontando para os espiões no ombro dela.
— Não — respondeu Lyra, e sentiu-se tentada a dizer: “Eles são nossos criados”, mas achava que Will teria considerado aquilo uma péssima ideia, de modo que disse: — Eles são nossos amigos, o Cavaleiro Tialys e Lady Salmakia, pessoas muito importantes e inteligentes, que estão viajando conosco. Ah, e este é meu dimon — disse, tirando o camundongo Pantalaimon do bolso. — O senhor compreende, somos inofensivos e prometemos que não vamos lhes fazer mal. Realmente precisamos de comida e de um abrigo. Amanhã iremos embora. Prometo.
Todo mundo esperou. O nervosismo do homem diminuiu um pouco com o tom humilde de Lyra e os espiões tiveram o bom senso de parecerem modestos e inofensivos. Depois de uma pausa, o homem disse:
— Bem, embora seja estranho, suponho que os nossos sejam tempos estranhos... Podem entrar, sejam bem-vindos...
Os vultos do lado de fora assentiram, um ou dois fizeram peque nas mesuras e se afastaram respeitosamente enquanto Will e Lyra caminhavam em direção ao calor e à luz. O homem fechou a porta atrás deles e enganchou um arame num prego para mantê-la fechada.
Era um único aposento, iluminado por uma lamparina à nafta limpo, porém mal-ajambrado. As paredes de compensado eram decoradas com fotografias de artistas, recortadas de revistas sobre cinema, e cor um desenho feito com marcas de dedos sujos de fuligem. Havia um fogão de ferro encostado numa parede, com uma armação para secar roupas bem defronte, onde algumas camisas puídas soltavam vapor, e, no console, havia um relicário de flores de plástico, conchas, frascos de perfume coloridos e outras bugigangas de mau gosto, todas rodeando um quadro de um elegante esqueleto de cartola e óculos escuros. O casebre estava lotado: além do homem, da mulher e das duas crianças pequenas, havia um bebê num berço, um homem mais idoso e, num canto, sob uma pilha de cobertores, uma senhora muito idosa estava deitada observando tudo com olhos faiscantes num rosto enrugado como seus cobertores amassados.
Enquanto Lyra olhava para ela, teve um choque: os cobertores se mexeram e um braço muito magro emergiu, numa manga de camisa preta, e então apareceu um outro rosto, de homem, tão velho, que era quase um esqueleto. De fato, ele se parecia mais com o esqueleto no quadro que com um ser humano e então Will também o viu, e todos os viajantes se deram conta juntos que ele era um daqueles vultos sombrios e bem-educados, como os que estavam lá fora. E todos se sentiam tão perplexos como o homem ficara quando os viu primeiro. Na verdade, todas as pessoas no pequeno casebre abarrotado — todas, menos o bebê, que estava dormindo — ficaram sem saber o que dizer. Foi Lyra quem conseguiu se recuperar primeiro.
— É muito gentil de sua parte — disse ela — muito obrigada, boa noite, estamos muito contentes de estar aqui. E, como disse, lamentamos ter chegado sem nenhuma morte, se essa é a maneira normal de fazer as coisas. Mas procuraremos não incomodar, na medida do possível. Sabem, estamos procurando a terra dos mortos e foi assim que acabamos chegando aqui. Mas não sabemos onde fica, nem se isso aqui faz parte dela, nem como chegar lá nem nada. De modo que se puderem nos dizer alguma coisa a respeito disso, ficaríamos muito gratos.
As pessoas no casebre ainda os estavam olhando fixamente, mas as palavras de Lyra tranquilizaram um pouco a atmosfera e a mulher os convidou a sentarem-se à mesa, puxando um banco. Will e Lyra colocaram as libélulas adormecidas no alto de uma prateleira num canto escuro, onde Tialys disse que descansariam até o dia seguinte, e então os galivespianos se juntaram a eles na mesa.
A mulher estivera preparando um cozido de carne e legumes, e descascou mais um par de batatas, cortando-as em pedaços para aumentar a quantidade de comida, insistindo com o marido que oferecesse aos viajantes alguma coisa para beber, enquanto acabava de cozinhar. Ele trouxe uma garrafa de aguardente límpida, de cheiro forte, que pareceu a Lyra semelhante à genebra dos gípcios, e os dois espiões aceitaram um copo, do qual se serviram com suas pequeninas taças.
Lyra teria esperado que a família ficasse olhando mais para os galivespianos, mas a curiosidade deles estava igualmente concentrada, pensou, nela e em Will.
Não demorou muito a perguntar por quê.
— Vocês são as primeiras pessoas que jamais vimos sem o espectro da morte — explicou o homem, cujo nome, descobriram, era Peter. — Isto é, desde que viemos para cá, sabe. Éramos como vocês, viemos para cá antes de estarmos mortos, por alguma casualidade ou acidente. Temos que esperar até que nossa morte nos diga que está na hora.
— A sua morte diz a você? — perguntou Lyra.
— Diz. O que descobrimos quando viemos para cá, ah, isso faz muito tempo para a maioria de nós, mas descobrimos que todos nós trazíamos o espectro de nossa morte conosco. Foi aqui que descobrimos. Tinha estado conosco o tempo todo, só que não sabíamos. Sabe, todo mundo tem sua morte. Ela nos acompanha a todos os lugares, durante a vida inteira, está sempre por perto. Os espectros de nossas mortes, eles estão lá fora, tomando ar, eles entram de vez em quando. O da vovó está lá com ela, ele está bem perto dela, muito perto.
— Isso não assusta o senhor, ter sua morte por perto o tempo todo? Perguntou Lyra.
— Por que me assustaria? Se ela está por perto, você pode ficar de olho nela. Eu ficaria muito mais nervoso se não soubesse onde está.
— E todo mundo tem sua própria morte? — perguntou Will, com surpresa e admiração.
— Mas claro que tem, no momento em que você nasce, sua morte vem ao mundo junto com você e é sua morte que o leva embora.
— Ah — exclamou Lyra — é disso que precisamos saber, por que estamos tentando encontrar o mundo dos mortos e não sabemos como chegar lá. Então para onde vamos, quando morremos?
— Sua morte bate em seu ombro, pega sua mão e diz: venha comigo, está na hora. Pode acontecer quando você está doente, com uma febre, ou quando se engasga com um pedaço de pão seco, ou quando cai de um prédio alto, no meio de seu sofrimento e de suas dificuldades, ela vem gentilmente procurar você e diz: agora vamos com calma, calma, criança, venha comigo, e você vai com ela num barco que atravessa o lago coberto de neblina. O que acontece lá, ninguém sabe. Ninguém nunca voltou para contar.
A mulher disse a uma das crianças para chamar as mortes e dizer que entrassem, e ela correu até a porta e falou com os vultos. Will e Lyra observaram maravilhados, e os galivespianos chegaram mais perto um do outro, enquanto os vultos de mortes — um para cada membro da família vinham entrando pela porta: vultos pálidos, indistintos, com roupas gastas, simplesmente desbotados, silenciosos e desinteressantes.
— Esses são as mortes de vocês? — perguntou Tialys.
— São sim, senhor — respondeu Peter.
— Sabe quando dirão que está na hora de ir?
— Não. Mas a gente sabe que estão por perto e isso é um consolo.
Tialys não disse nada, mas era evidente que não achava que aquilo fosse consolo nenhum. Os vultos de mortes ficaram parados, educadamente, encostados na parede, e era estranho ver como ocupavam pouco espaço e perceber como atraíam pouca atenção. Lyra e Will logo se viram ignorando-os totalmente, embora Will pensasse: “aqueles homens que matei... suas mortes estavam bem perto, ao lado deles o tempo todo... eles não sabiam e eu não sabia...”
A mulher, Martha, serviu o cozido em pratos esmaltados lascados, e pôs um pouco numa tigela para que os vultos de mortes dividissem entre si. Eles não comeram, mas o cheiro gostoso os deixou satisfeitos. Logo depois a família inteira e seus convidados estavam comendo com grande apetite e Peter perguntou as crianças de onde vinham e como era o mundo delas.
— Eu vou contar a vocês — disse Lyra.
Quando disse isso, quando assumiu o comando, parte dela sentiu uma pequena corrente de prazer jorrar e subir em seu peito, como as borbulhas no champanhe.
E sabia que Will estava observando e sentiu-se feliz pelo fato de ele poder vê-la fazer o que ela sabia fazer melhor, fazendo-o por ele e por todos.
Começou falando sobre seus pais. Eles eram um duque e uma duquesa, muito importantes e ricos, que tinham sido afastados de suas propriedades por um inimigo político e jogados na prisão. Mas tinham conseguido escapar, descendo por uma corda, com o bebê, Lyra, nos braços do pai e tinham recuperado a fortuna da família, mas, pouco depois, tinham sido atacados e assassinados por criminosos. Lyra teria sido morta também, e cozida e comida, se Will não a tivesse resgatado bem a tempo e levado de volta para os lobos, na floresta onde ele estava sendo criado pelos lobos. Will tinha caído no mar, da amurada do navio de seu pai, quando ainda era bebê e fora levado pelas ondas para uma praia deserta, onde uma loba o amamentara e o mantivera vivo.
As pessoas engoliram aqueles absurdos com plácida credulidade, e mesmo as mortes chegaram mais perto para ouvir, aboletando-se no banco ou deitando no chão por perto, olhando para ela com rostos suaves e corteses, enquanto ela ia inventando e contando a história de sua vida com Will na floresta.
Ele e Lyra tinham ficado com os lobos durante algum tempo e então tinham se mudado para Oxford, para trabalhar na cozinha da Universidade Jordan. Lá haviam conhecido Roger e quando a Jordan foi atacada pelos filhos dos fabricantes de tijolos que moravam perto dos Barreiros, tiveram que fugir às pressas, de modo que Will e Roger capturaram uma das barcaças dos gípcios e velejaram nela, descendo pelo Tâmisa, quase sendo capturados na Eclusa de Abington, e depois tinham sido postos a pique pelos piratas de Wapping, nas vizinhanças das docas de Londres, tendo que nadar até estarem em segurança num clíper, um veleiro de três mastros que estava de partida rumo a Hang Chow, na China, para vender mercadorias e comprar chá. E no clíper tinham conhecido os galivespianos, que eram estrangeiros vindos da Lua, tendo sido soprados para a terra por uma violenta tempestade vinda da Via Láctea. Eles haviam se refugiado no cesto de vigia de um dos mastros e ela, Will e Roger costumavam se revezar para ir até lá em cima visitá-los, só que um dia, Roger escorregou e mergulhou caindo nas mãos de Davy Jones, o espírito maligno do mar. Eles tentaram convencer o capitão a voltar com o navio e procurar por ele, mas era um homem duro e violento que só estava interessado no lucro que obteria chegando rapidamente à China e os pusera a ferros. Mas os galivespianos tinham trazido uma lixa para eles e...
E assim por diante. De vez em quando, ela se virava para Will ou para os espiões para pedir confirmação, e Salmakia acrescentava um ou dois detalhes ou Will balançava a cabeça, concordando, e a história foi se desenrolando até acabar no ponto em que as crianças e seus amigos da Lua tinham que encontrar o caminho para chegar à terra dos mortos de modo a poderem descobrir, através de seus pais, o segredo de onde a fortuna da família havia sido enterrada.
— E se, em nossa terra, conhecêssemos nossas mortes — disse ela — como vocês conhecem aqui, provavelmente seria mais fácil, mas acho que realmente tivemos muita sorte em conseguir encontrar o caminho até aqui, de modo a podermos ouvir seus conselhos. E muito obrigada por serem tão gentis e ouvirem, e por nos darem esta refeição, que estava realmente muito gostosa — concluiu. — Mas, sabem, o que precisamos agora, ou talvez amanhã de manhã, é encontrar uma maneira de atravessar o lago até o lugar para onde os mortos vão e ver se também podemos chegar lá. Por acaso existem barcos que possamos, quem sabe, alugar?
A expressão dos outros era de dúvida. As crianças, coradas de cansaço, olharam com olhos sonolentos do rosto de um adulto para outro, mas nenhum deles pôde sugerir onde poderiam encontrar um barco.
Então veio uma voz de alguém que não tinha falado antes. Das profundezas das roupas de cama no canto veio uma voz seca, quebradiça e anasalada — não era uma voz de mulher, não era a voz de um ser vivo: era a voz do vulto da morte da avó.
— A única maneira de atravessarem o lago e irem até a terra dos mortos — disse ele, e estava apoiado no cotovelo, apontando com um dedo magro para Lyra — é com suas próprias mortes. Devem chamar suas mortes. Ouvi falar de gente como vocês, que mantêm o vulto da morte à distância. Não gostam deles e por cortesia eles se mantêm escondidos. Mas nunca estão muito longe. Sempre que você vira a cabeça, o vulto de sua morte se esconde atrás de você. Para onde quer que olhem, eles se escondem. Podem se esconder numa xícara de chá. Ou numa gota de orvalho. Ou num sopro de vento. Não é como acontece comigo e com a Magda, aqui — disse ele, e beliscou-lhe a face enrugada e ela afastou a mão dele. — Nós vivemos juntos com gentileza e amizade. Esta é a resposta, é isso, isso é o que vocês têm que fazer, dar as boas-vindas, fazer amizade, ser gentis, convidar os vultos de suas mortes a se aproximarem de vocês e ver o que conseguem fazer para que ele concordem em ajudá-los.
As palavras dele caíram na mente de Lyra como pedras muito pesadas e Will também sentiu o peso mortal delas.
— Como deveríamos fazer isso? — perguntou.
— Você tem apenas que desejar isso, fazer esse pedido e estará feito.
— Um momento — disse Tialys.
Todos os olhos voltaram-se para ele e aquelas mortes deitadas no chão se ergueram, apoiadas nos cotovelos, para virar seus rostos suaves e inexpressivos para aquele rosto pequenino e apaixonado. Tialys estava de pé, ao lado de Salmakia, com a mão sobre o ombro dela. Lyra sabia o que ele estava pensando: ia dizer que aquilo tinha ido longe demais, que deveriam voltar, que estavam levando aquela tolice irresponsavelmente longe demais. De modo que se adiantou.
— Por favor, se me dão licença — disse para o homem chamado Peter — mas eu e nosso amigo, o cavaleiro, precisamos ir até lá fora um minuto, porque ele precisa falar com seus amigos na Lua através de meu instrumento especial. Não vamos demorar.
E ela o pegou cuidadosamente, evitando as esporas, e o levou para fora da casa, para o escuro, onde um pedaço de chapa de ferro corrugado no telhado batido pelo vento frio fazia um som melancólico.
— Você tem que parar — disse ele, enquanto ela o colocava num barril de gasolina virado, sob a luz fraca de uma daquelas lâmpadas elétricas que balançava em seu fio mais acima. — Já fomos longe demais. Chega.
— Mas fizemos um acordo — disse Lyra.
— Não, não. Não de chegar a esses extremos.
— Está bem. Então nos deixem. Podem voar de volta. Will pode cortar uma janela para o mundo de vocês, ou para qualquer mundo que quiserem, e vocês poderão seguir voando e estar em segurança, não faz mal, nós não nos importamos.
— Você tem consciência do que está fazendo?
— Tenho.
— Não tem. Você é uma criança sem consideração, irresponsável e mentirosa. Inventar fantasias é algo que é tão fácil para você que todo o seu caráter, a sua natureza estão tomados pela desonestidade e você não admite a verdade nem mesmo quando ela está bem na sua frente, olhando para a sua cara. Bem, se não consegue vê-la, vou lhe dizer francamente: você não pode, você não deve arriscar sua morte. Tem que voltar conosco agora. Vou chamar Lorde Asriel e poderemos estar a salvo na fortaleza em algumas horas.
Lyra sentiu um grande soluço de raiva crescer como uma onda em seu peito e bateu o pé, não conseguindo se manter parada.
— Você não sabe — exclamou — você simplesmente não sabe o que tenho em minha cabeça ou em meu coração, sabe? Eu não sei se seu povo tem filhos, talvez vocês ponham ovos ou coisa assim, não ficaria surpreendida, porque você não é gentil, você não é generoso, não tem consideração com os outros, nem mesmo cruel você é: isso seria melhor, se fosse cruel, porque significaria que nos levou a sério, que não nos seguiu e concordou conosco apenas quando lhe convinha... Ah, eu realmente não posso confiar em você! Você disse que iria ajudar e que faríamos isso juntos, e agora quer nos impedir, você é quem é desonesto, Tialys.
— Eu não permitiria que um filho meu falasse comigo dessa maneira insolente e arrogante como está falando, Lyra, não a castiguei antes porque...
— Então vá em frente! Me dê um castigo, já que pode! Pegue as drogas de suas esporas e enfie bem fundo, vá em frente! Tome, aqui está minha mão, faça logo! Você não tem ideia do que está em meu coração, seu egoísta orgulhoso, você não tem nenhuma ideia de como me sinto triste e má, e de como lamento o que aconteceu com meu amigo Roger... você mata pessoas com a maior facilidade, assim — ela estalou os dedos — elas não têm importância para você, mas para mim, é um tormento e um grande sofrimento o fato de nunca ter me despedido de meu amigo Roger e quero pedir desculpas, dizer como me sinto e tentar corrigir o melhor que puder... você nunca compreenderia, apesar de todo o seu orgulho, apesar de toda a sua esperteza de adulto... e se eu tiver que morrer para fazer o que é correto, então, vou morrer e vou estar feliz enquanto morro. Já vi coisas piores. De modo que se quiser me matar, seu homem duro, seu homem forte, seu portador de veneno, seu cavaleiro, faça, vá em frente, pode me matar. Então eu e Roger poderemos brincar na terra dos mortos para sempre e rir de você, criatura infeliz.
O que Tialys poderia ter feito naquele momento não era difícil de ver, pois ele estava ardendo de raiva dos pés à cabeça, uma raiva furiosa e passional, que o fazia tremer, mas não teve tempo de se mover antes que uma voz falasse atrás de Lyra, e ambos sentiram o frio descer e envolvê-los.
Lyra fez meia-volta, sabendo o que veria e apavorada, a despeito de toda a sua bravata.
O vulto da morte estava muito perto dela, sorrindo gentilmente, seu rosto exatamente igual ao de todos os outros que tinha visto, mas esse era o dela, o vulto de sua própria morte, e Pantalaimon aninhado em seu peito uivou e tremeu, e sua forma de arminho saltou agarrando-se no pescoço dela e tentou empurrá-la, afastando-a da morte. Mas, ao fazer isso, ele simplesmente chegava mais perto e, percebendo, Pan tornou a se enroscar, encolhendo-se contra o corpo dela, em volta do pescoço quente e o pulso forte de seu coração.
Lyra apertou-o contra si e enfrentou o vulto francamente. Não conseguia se lembrar do que ele havia dito e pelo canto do olho podia ver Tialys montando rapidamente o magneto ressonante, em plena atividade.
— Você é minha morte, não é? — perguntou.
— Sou, minha querida — respondeu ele.
— Mas não vai me levar ainda, vai?
— Você me quis, me chamou. Estou sempre aqui.
— Sim, mas... eu chamei, é verdade, mas... eu quero ir à terra dos mortos, isso é verdade. Mas não morrer. Não quero morrer. Adoro estar viva e adoro meu dimon e... Dimons não descem até lá, não é? Eu os vi desaparecerem e simplesmente se apagarem quando as pessoas morrem. Existem dimons na terra dos mortos?
— Não — respondeu ele. — Seu dimon desaparece no ar e você desaparece debaixo da terra.
— Então quero levar meu dimon comigo quando for à terra dos mortos — disse ela com firmeza. — E quero voltar de lá. Alguma vez já aconteceu de pessoas fazerem isso?
— Isso nunca aconteceu, em muitas e muitas eras. Um dia, finalmente, você irá para a terra dos mortos, sem nenhum esforço, sem nenhum risco, fará uma jornada segura e calma em companhia de sua própria morte, de seu amigo especial e devotado, que esteve a seu lado em todos os momentos de sua vida, que a conhece melhor que voe mesma.
— Mas Pantalaimon é meu amigo especial e devotado! Não conheço você, Senhor Morte, conheço Pan e amo Pan, e se algum dia ele... se algum dia nós...
O vulto da morte estava assentindo. Ele parecia interessado e gentil, mas Lyra não conseguia se esquecer nem por um segundo quem ele era: o espectro de sua própria morte e ali, tão perto.
— Eu sei que será um esforço seguir adiante agora — disse ela mais controladamente — e perigoso, mas quero ir, Senhor Morte, eu quero sinceramente. E Will também. Nós dois tivemos pessoas que nos foram tomadas cedo demais e precisamos reparar nossos erros, eu pelo menos eu preciso.
— Todo mundo deseja poder falar novamente com aqueles que se foram para a terra dos mortos. Por que deveria haver uma exceção para você?
— Porque — começou ela, mentindo — porque tem uma coisa que preciso fazer lá, não apenas ver meu amigo Roger. Uma outra coisa. Foi uma tarefa de que fui encarregada por um anjo e que mais ninguém pode fazer, só eu. É importante demais para esperar até que eu morra da maneira natural, tem que ser feita agora. Sabe, o anjo me ordenou. Foi por isso que viemos aqui, eu e Will. Nós temos que ir.
Atrás dela Tialys guardou seu instrumento e ficou sentado observando a menina argumentando e implorando à sua própria morte para ser levada para onde ninguém deveria ir.
O vulto da morte cocou a cabeça e levantou as mãos espalmadas, mas nada seria capaz de deter as palavras de Lyra, nada poderia desviar ou diminuir seu desejo, nem mesmo o medo: ela tinha visto coisa pior que a morte, afirmava, e, de fato, tinha.
De modo que afinal sua morte disse:
— Se nada é capaz de convencê-la a desistir, então tudo o que posso dizer é: venha comigo e eu a levarei até lá, para a terra dos mortos. Eu serei seu guia. Posso lhe mostrar o caminho para entrar, mas para sair de novo, você terá que se virar sozinha.
— E meus amigos também — disse Lyra. — Meu amigo Will e os outros.
— Lyra — disse Tialys — contrariando todos os instintos, nós iremos com você. Estava furioso com você um minuto atrás. Mas você torna difícil...
Lyra sabia que aquele era um momento para buscar conciliação e ficou feliz por fazer isso, tendo conseguido o que queria.
— Eu sei — disse ela — sinto muitíssimo, Tialys, mas se não tivesse ficado com raiva de mim, nunca teríamos encontrado este cavalheiro para nos levar. De modo que estou feliz por você estar aqui, você e a dama, realmente estou muito grata a vocês por estarem conosco.
De maneira que Lyra convenceu sua própria morte a guiá-la e aos outros até a terra para onde Roger tinha ido, bem como o pai de Will, Tony Makarios e tantos outros, e sua morte disse-lhe que descesse ao cais quando o primeiro raio de luz da alvorada surgisse no céu e que estivesse pronta para partir. Mas Pantalaimon estava tremendo, sacudido por calafrios, e nada que Lyra fizesse foi capaz de acalmá-lo e fazê-lo parar de tremer, ou calar o gemido baixinho que ele não conseguia conter. De modo que ela dormiu um sono inquieto e interrompido, no chão do casebre, junto com todos os outros, e o vulto de sua morte ficou sentado e atento a seu lado.

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Boa leitura :)