17 de fevereiro de 2017

18. Os subúrbios dos mortos

Oh, quem dera fosse possível, que ao menos uns dois dias pudéssemos passar a consultar os mortos...
John Webster

Lyra acordou antes do amanhecer, com Pantalaimon tremendo de frio em seu peito, e se levantou para andar um pouco e se aquecer enquanto a luz cinza começava a infiltrar-se no céu. Nunca tinha visto tamanho silêncio, nem mesmo no Ártico coberto de neve, não havia o mínimo oscilar de vento e o mar estava tão parado que nem a menor ondulação quebrava na areia, o mundo parecia em estado de suspensão entre inspirar e expirar. Will estava deitado encolhido, dormindo profundamente, com a cabeça sobre a mochila para proteger a faca. O manto havia escorregado descobrindo seu ombro e ela tornou a cobri-lo, ajeitando-o, fazendo de conta que estava tomando cuidado para evitar tocar em seu dimon, e que tinha a forma de uma gata, enrascada e encolhida exatamente como ele. “Ela deve estar aqui em algum lugar”, pensou. Carregando Pantalaimon ainda sonolento, ela se afastou de Will e sentou na encosta de uma duna de areia a certa distância de modo que a voz deles não o acordasse.
— Esse povo pequenino — disse Pantalaimon.
— Não gosto deles — declarou Lyra em tom decidido. — Acho que deveríamos fugir deles assim que pudermos. Acho que se os apanharmos com uma rede ou coisa parecida, Will pode cortar uma abertura e fechar, e pronto, estaremos livres.
— Nós não temos uma rede — retrucou Pan — nem nada parecido. De qualquer maneira, aposto que são espertos demais para isso. Ele está nos vigiando agora.
Pantalaimon tinha assumido a forma de um falcão ao dizer isso e seus olhos eram mais aguçados que os dela. A escuridão do céu estava se transformando, de minuto em minuto, no mais pálido azul etéreo e quando ela olhou para a areia mais abaixo, a primeira ponta de sol acabava de subir acima da linha do mar, ofuscando-a. Como estava no alto da duna, a luz a alcançou alguns segundos antes de tocar a praia e ela a observou fluir ao seu redor e seguir na direção de Will, e então viu o vulto de um palmo de altura do Cavaleiro Tialys, de pé ao lado da cabeça de Will, nítido e absolutamente desperto, vigiando-os.
— A questão é que eles não podem nos obrigar a fazer o que querem — observou Lyra. — Têm que nos seguir. Aposto que estão cheios disso.
— Se eles nos apanhassem — comentou Pan, referindo-o se a ele e Lyra — e estivessem com os ferrões prontos para nos espetar, Will teria que fazer o que eles mandassem.
Lyra pensou a respeito daquilo. Lembrava-se vividamente do grito terrível de dor da Sra. Coulter, das convulsões com os olhos revirados, da medonha língua pendurada, com a saliva escorrendo, da boca do macaco dourado, à medida que o veneno entrava em sua corrente sanguínea... E aquilo fora apenas um arranhão, como recentemente haviam recordado em algum ponto à sua mãe. Will teria que ceder e fazer o que eles quisessem.
— Mas vamos supor que eles acreditassem que Will não cederia — argumentou ela — vamos supor que eles acreditassem que Will fosse tão impiedoso que seria capaz de simplesmente nos ver morrer. Talvez fosse melhor ele fazer com que acreditem nisso, se puder.
Lyra tinha trazido o aletiômetro consigo e agora que estava bastante claro para enxergar, pegou seu adorado instrumento e colocou-se sobre o pano de veludo aberto em seu colo. Pouco a pouco, foi mergulhando naquele estado de transe em que as muitas camadas de significado se esclareciam para ela e onde podia ver as teias intricadas de conexões que ligavam todas elas. À medida que seus dedos encontravam os símbolos, sua mente formulou as palavras: como podemos nos livrar dos espiões?
Então o ponteiro começou a girar de um lado para o outro no mostrador, mais rápido do que jamais o vira se mover antes — tão depressa, na verdade, que ela receou pela primeira vez que perderia alguns de seus giros e paradas, mas, alguma parte de sua consciência os estava contando e viu imediatamente o significado do que o movimento dizia.
O aletiômetro dizia:
Não tente, porque a vida de vocês depende deles.
Aquilo foi uma surpresa, e uma surpresa não muito feliz. Mas ela prosseguiu e perguntou:
Como podemos chegar à terra dos mortos?
A resposta veio:
Desçam. Sigam a faca. Sigam adiante. Sigam a faca.
E finalmente ela perguntou, hesitante, meio envergonhada:
Isso é a coisa certa a fazer?
Sim, disse o aletiômetro imediatamente. Sim.
Ela suspirou, saindo de seu transe, enfiou os cabelos atrás das orelhas, sentindo o calor do sol começar a aquecer seu rosto e ombros. Agora também havia sons no mundo: os insetos estavam despertando e uma brisa muito suave agitava, de leve, as folhas de relva crescendo mais acima na duna. Ela guardou o aletiômetro e foi andando de volta para perto de Will, com Pantalaimon fazendo-se tão grande quanto podia assumindo a forma de um leão, na esperança de amedrontar os galivespianos.
O homem estava usando seu magneto ressonante e quando acabou, Lyra perguntou:
— Estava falando com Lorde Asriel?
— Com um representante dele — respondeu Tialys.
— A gente não vai para lá.
— Foi o que eu disse a ele.
— E o que ele disse?
— Isso foi apenas para meus ouvidos, não para os seus.
— Como quiser — retrucou. — Você é casado com aquela dama?
— Não. Somos colegas.
— Tem filhos?
— Não.
Tialys continuou a desmontar e guardar seu magneto ressonante enquanto o fazia, Lady Salmakia acordou, bem ali pertinho, levantando-se graciosa e lentamente até estar sentada na pequena depressão que fizera na areia macia. As libélulas ainda dormiam, amarradas com cordas finas como teias de aranha, as asas úmidas de orvalho.
— Existem pessoas grandes em seu mundo ou são todas pequenas como vocês? — perguntou Lyra.
— Sabemos como lidar com pessoas grandes — retrucou Tialys, não muito prestativamente, e foi falar em voz baixa com a dama. Eles falavam baixo demais para que Lyra pudesse ouvir, mas gostou de observá-los beber gotas de orvalho das folhas de grama para matar a sede.
— A água deve ser diferente para eles, Pantalaimon: imagine só, gotas do tamanho de seu punho! Deve ser difícil entrar nelas, devem ter uma espécie de capa elástica, como um balão.
A essa altura Will também estava acordando, ainda demonstrando cansaço. A primeira coisa que fez foi procurar os galivespianos, que retribuíram seu olhar, totalmente concentrados nele.
Ele desviou o olhar e virou-se para Lyra.
— Eu quero lhe contar uma coisa — disse ela. — Chegue aqui, afaste-se...
— Se vocês se afastarem de nós — disse a voz límpida de Tialys — têm que deixar a faca. Se não quiserem deixar a faca, terão que conversar aqui.
— Não podemos ter privacidade? — reagiu Lyra indignada. — Não queremos que ouçam o que vamos dizer!
— Então afastem-se, mas deixem a faca.
Não tinha importância, afinal, não havia mais ninguém nas proximidades e, certamente, os galivespianos não poderiam usá-la. Will enfiou a mão na mochila para pegar o cantil e dois biscoitos, passando um para Lyra, e afastou-se com ela subindo pela encosta da duna.
— Eu perguntei ao aletiômetro — Lyra contou a Will — e ele disse que não deveríamos tentar fugir do povo pequenino, porque eles vão salvar nossa vida. De modo que pode ser que tenhamos que continuar com eles.
— Você disse a eles o que íamos fazer?
— Não! E também não pretendo contar. Porque apenas iriam contar para Lorde Asriel naquele violino que fala e ele iria para lá para nos impedir. De modo que temos que ir e não falar sobre o assunto na frente deles.
— Mas, eles são espiões — argumentou Will. — Devem ser bons em ouvir às escondidas. De modo que talvez seja melhor não mencionarmos mais o assunto. Sabemos para onde vamos. Assim, apenas vamos tratar de ir e não falar nisso, e eles terão que aceitar isso e vir junto.
— Eles não podem nos ouvir agora. Estão longe demais. Will, eu também perguntei como chegar lá. Ele disse para seguir a faca, só isso.
— Parece fácil — disse ele. — Mas aposto que não é.
— Sabe o que Iorek me disse?
— Não.
— Ele disse... quando fui me despedir, ele disse que seria muito difícil para você, mas que achava que conseguiria. Mas não me disse por quê...
— A faca quebrou porque eu pensei em minha mãe — explicou ele. — De maneira que tenho que tirá-la de minha mente, não pensar mais nela. Mas... É como quando alguém diz: não pense em um crocodilo, e você pensa, não consegue deixar de pensar...
— Bem, na noite passada você conseguiu cortar uma janela sem problemas — argumentou Lyra.
— É verdade, mas porque estava cansado, acho. Bem, veremos. Disse apenas para seguir a faca?
— Isso foi tudo o que ele disse.
— Então podíamos tratar de ir agora. Só que não me resta muita comida. Deveríamos encontrar alguma coisa para levar conosco, pão e frutas ou coisa assim. De modo que primeiro vou encontrar um mundo onde possamos arranjar comida e depois começaremos a procurar o caminho de verdade.
— Está bem — concordou Lyra, bastante feliz por estar de partida novamente, com Pan e Will, viva e acordada.
Os dois caminharam de volta para onde os espiões esperavam, sentados, muito atentamente ao lado da faca, com suas mochilas nas costas.
— Gostaríamos de saber o que vocês pretendem — disse Salmakia.
— Bem, de qualquer maneira, não vamos ao encontro de Lorde Asriel — disse Will. — Temos uma outra coisa a fazer antes.
— E vão nos dizer o que é, já que é evidente que não podemos impedi-los de fazê-lo?
— Não — respondeu Lyra — porque vocês iriam contar a eles. Terão de vir junto conosco, sem saber para onde estamos indo. É claro que poderiam desistir disso e voltar para lá.
— Absolutamente não — declarou Tialys.
— Queremos algum tipo de garantia — disse Will. — Vocês são espiões, de modo que certamente devem ser desonestos, faz parte da profissão. Precisamos saber que podemos confiar em vocês. Na noite passada estávamos todos cansados demais e não tínhamos condições de pensar no assunto, mas não haveria nada que os impedisse de esperar até que tivéssemos dormido e então nos dessem uma ferroada, deixando-nos imobilizados, chamando em seguida Lorde Asriel naquele magneto. Poderiam fazer isso facilmente. De modo que precisamos de uma garantia concreta de que não farão. Uma promessa não basta.
Os dois galivespianos tremeram de raiva diante desse insulto à sua honra. Tialys, fazendo um esforço para se controlar, disse:
— Não aceitamos exigências unilaterais. Você tem que nos dar algo em troca. Você tem de nos dizer quais são suas intenções e eu lhe entregarei o magneto ressonante, que ficará a seus cuidados. Você deverá me permitir usá-lo quando eu quiser enviar uma mensagem, mas sempre saberá quando isso acontecer e não poderemos usá-lo sem que você esteja de acordo. Esta será nossa garantia. E agora você nos dirá para onde vão e por quê.
Will e Lyra trocaram um olhar para confirmar.
— Está bem — disse Lyra — isso é justo. De modo que vou contar para onde estamos indo: estamos indo para o mundo dos mortos. Não sabemos onde fica, mas a faca o encontrará. Isso é o que vamos fazer.
Os dois espiões estavam olhando para ela com incredulidade, boquiabertos. Então Salmakia piscou os olhos e disse:
— O que você diz não faz sentido. Os mortos estão mortos, isso é tudo. Não existe nenhum mundo dos mortos.
— Eu também pensei que isso fosse verdade — disse Will. — Mas agora não tenho certeza. Pelo menos com a faca poderemos descobrir.
— Mas por quê?
Lyra olhou para Will e o viu balançar a cabeça, concordando.
— Pois bem — começou ela. — Antes que eu conhecesse Will, muito antes de ficar adormecida, deixei esse meu amigo em uma situação de perigo e ele foi morto. Eu pensei que estava salvando a vida dele, só que estava apenas tornando tudo muito pior. E enquanto estive dormindo, sonhei com ele e pensei que talvez pudesse corrigir meu erro, se fosse ao lugar para onde ele foi e dissesse como lamento e pedisse desculpas. E Will quer encontrar o pai dele, que morreu exatamente quando tinha acabado de encontrá-lo. Como podem ver, Lorde Asriel não pensaria nisso. Nem a Sra. Coulter. Se fôssemos até Lorde Asriel, teríamos que fazer o que ele quer, e ele não pensaria absolutamente em Roger... esse é o meu amigo que morreu... isso não teria nenhuma importância para ele. Mas é importante para mim. Para nós. De modo que isso é o que queremos fazer.
— Menina — disse Tialys — quando morremos tudo acaba. Não existe nenhuma outra vida. Você já viu a morte. Já viu corpos de pessoas mortas e viu o que acontece com um dimon quando a morte vem. Ele desaparece. O que mais pode haver para se viver depois disso?
— Nós vamos lá e vamos descobrir — respondeu Lyra. — E agora que já contamos a vocês, pode me entregar seu magneto ressonante.
Ela estendeu a mão e Pantalaimon, sob a forma de leopardo, levantou-se com imponência, o rabo balançando lentamente, para reforçar a exigência dela.
Tialys tirou a mochila das costas e colocou-a na palma da mão de Lyra. Era surpreendentemente pesada, não para ela, é claro, mas ficou maravilhada com a força de Tialys.
— E quanto tempo acha que essa expedição vai levar? — perguntou o cavaleiro.
— Não sabemos — respondeu Lyra. — Não sabemos nada sobre isso, exatamente como vocês. Simplesmente teremos que ir e ver.
— Para começar — disse Will — temos que arranjar mais água e mais comida, algo que seja fácil de carregar. De modo que vou procurar um mundo onde possamos conseguir isso e então partiremos.
Tialys e Salmakia montaram em suas libélulas e tiveram que controlá-las para mantê-las no chão. Os grandes insetos estavam impacientes para voar, mas o domínio de seus cavaleiros era absoluto e Lyra, observando-os à luz do dia pela primeira vez, viu a extraordinária fineza dos arreios e rédeas de seda cinza, os estribos prateados e as minúsculas selas.
Will pegou a faca e uma forte tentação levou-o a buscar o ponto de toque conhecido de seu próprio mundo: ainda estava com o cartão de crédito, poderia comprar os alimentos com que estava habituado, poderia até telefonar para a Sra. Cooper e pedir notícias de sua mãe. A faca chocou-se com um som desagradável como o de uma unha arranhando uma pedra áspera e seu coração quase parou. Se quebrasse a lâmina de novo, seria o fim. Depois de alguns instantes, tentou de novo. Em vez de tentar não pensar em sua mãe, disse para si mesmo: “Sim, eu sei que ela está lá, mas só que não vou olhar nessa direção enquanto faço isso...”
E dessa vez funcionou. Encontrou um novo mundo e deslizou a faca para cortar uma janela e, alguns momentos depois, todos eles estavam parados no que parecia ser um pátio de fazenda em algum país do norte, como a Holanda ou a Dinamarca, onde o pátio de lajes de pedra estava bem varrido e limpo e havia uma fileira de portas de baias abertas. O sol brilhava através de um céu parcialmente nublado e havia o cheiro de alguma coisa queimando no ar, bem como de alguma coisa menos agradável. Não se ouvia nenhum som de vida humana, embora um zumbido alto, tão intenso e vigoroso que parecia uma máquina, viesse dos estábulos.
Lyra foi até lá olhar e voltou imediatamente, parecendo pálida.
— Tem quatro — ela engoliu em seco, pôs a mão na garganta, depois se recuperou — quatro cavalos mortos. E milhões de moscas...
— Olhe — mostrou Will, engolindo em seco — ou talvez seja melhor não olhar.
Ele estava apontando para os pés de framboesa que delimitavam a horta. Tinha acabado de ver um par de pernas de homem, uma com um sapato e uma sem, projetando-se da parte mais fechada dos arbustos.
Lyra não quis olhar, mas Will foi até lá ver se o homem ainda estava vivo e se precisava de ajuda. Voltou sacudindo a cabeça, parecendo assustado. Os dois espiões já estavam na porta da casa, que estava aberta. Tialys voltou rapidamente e disse:
— Lá dentro o cheiro está melhor — e então voou de volta para o umbral, enquanto Salmakia fazia o reconhecimento mais adiante nas outras instalações.
Will seguiu o cavaleiro. Encontrou-se numa grande cozinha quadrada, um lugar antiquado, com peças de porcelana branca num armário de cozinha de madeira, uma mesa de pinho limpa e um fogão de lenha apagado, com uma chaleira preta fria. A porta ao lado dava para uma despensa com duas prateleiras cheias de maçãs que enchiam o ar com sua fragrância. O silêncio era opressivo.
— Will, este aqui é o mundo dos mortos? — perguntou Lyra baixinho.
O mesmo pensamento havia ocorrido a Will. Mas ele respondeu:
— Não, eu acho que não. É um mundo onde não estivemos antes. Olhe, vamos tratar de apanhar tudo o que pudermos carregar. Tem uma espécie de pão de centeio, isso vai ser bom levar, é leve, e tem queijo...
Quando tinham recolhido o máximo que podiam carregar, Will colocou uma moeda de ouro numa gaveta na grande mesa de pinho.
— Qual é o problema? — perguntou Lyra, ao ver Tialys levantar as sobrancelhas. — Sempre se deve pagar pelo que se leva.
Naquele momento Salmakia entrou pela porta de trás pousando com a libélula sobre a mesa com um cintilar de azul-elétrico.
— Há homens vindo para cá — disse ela — estão a pé e armados. Estão a apenas alguns minutos de distância. E há uma aldeia em chamas depois dos campos.
E, enquanto ela falava, eles começaram a ouvir o som de botas marchando no cascalho, uma voz dando ordens e o tilintar de metal.
— Então devemos ir — disse Will.
Ele tateou no ar com a ponta da faca. A lâmina parecia estar deslizando sobre uma superfície muito lisa, como um espelho, e então ela penetrou lentamente até que ele pôde cortar. Mas era resistente como um tecido grosso e, depois que acabou de fazer a abertura, Will piscou surpreendido e assustado: pois o mundo para o qual tinha aberto a janela era igual em todos os detalhes ao mundo onde estavam.
— O que está acontecendo? — perguntou Lyra.
Os espiões estavam olhando pela janela, perplexos. Mas era mais que perplexidade o que sentiam. Exatamente como o ar havia resistido à faca, alguma coisa naquela abertura oferecia resistência, impedindo a passagem deles.
Will teve que fazer força contra alguma coisa invisível e depois ajudar a puxar Lyra atrás dele, e os galivespianos praticamente não conseguiam fazer nenhum progresso. Tiveram que pousar as libélulas nas mãos das crianças e, mesmo depois disso, foi como puxá-las contra a resistência de uma pressão no ar, as asas transparentes se dobraram e se retorceram e os pequeninos cavaleiros tiveram que acariciar suas cabeças e sussurrar para acalmar seu medo.
Mas, depois de alguns segundos de esforço, todos eles haviam passado pela abertura e Will encontrou a borda da janela (embora fosse impossível de ver) e a fechou, prendendo o som dos soldados em seu próprio mundo.
— Will — chamou Lyra, ele se virou e viu que havia uma outra pessoa na cozinha com eles.
Seu coração deu um pulo. Era o homem que tinha acabado de ver, menos de dez minutos antes, absolutamente morto em meio aos arbustos, com a garganta cortada.
Era um homem de meia-idade, magro, com a aparência de alguém que passava a maior parte do tempo ao ar livre. Mas agora parecia quase enlouquecido, ou paralisado, de choque. Os olhos dele estavam tão arregalados que se podia ver o branco ao redor de toda a íris, ele agarrava a beira da mesa com a mão trêmula.
Will ficou satisfeito de ver que sua garganta estava intacta. O homem abriu a boca para falar, mas as palavras não saíram Tudo o que conseguiu fazer foi apontar para Will e Lyra. Lyra tomou a iniciativa:
— Perdoe-nos por estarmos em sua casa, mas tivemos que fugir dos homens que estavam chegando. Sinto muito se assustamos o senhor. Eu sou Lyra e este é Will, e estes são nossos amigos, o Cavaleiro Tialys e Lady Salmakia. Poderia nos dizer qual é seu nome e onde estamos?
Aquele pedido, com palavras tão normais, pareceu fazer com que o homem recuperasse a razão e um calafrio sacudiu seu corpo como se ele estivesse despertando de um sonho.
— Eu estou morto — disse ele. — Estou caído lá fora, morto. Sei que estou. Vocês não estão mortos. O que está acontecendo? Deus do céu, eles me cortaram a garganta. O que está acontecendo?
Lyra deu um passo chegando mais perto de Will quando o homem disse “Estou morto” e Pantalaimon correu para se esconder em seu peito, sob a forma de camundongo. Quanto aos galivespianos, estavam lutando para controlar suas libélulas, pois os grandes insetos pareciam sentir aversão ao homem e voavam dardejando de um lado para outro na cozinha, em busca de uma saída. Mas o homem não lhes deu atenção. Ainda estava tentando compreender o que havia acontecido.
— O senhor é um espírito? — perguntou Will cautelosamente.
O homem estendeu a mão e Will tentou apertá-la, mas seus dedos se fecharam no ar. Um formigamento frio foi tudo o que Will sentiu. Quando viu aquilo acontecer, o homem olhou para sua própria mão apavorado. O choque inicial estava começando a passar e ele podia sentir pena de seu estado lastimável.
— É verdade — disse — eu estou morto... estou morto e vou para o inferno...
— Não diga isso — disse Lyra — nós iremos juntos. Como se chama?
— Eu era Dirk Jansen — respondeu — mas já não... eu já não sei o que fazer... Não sei para onde ir...
Will abriu a porta, o pátio da fazenda parecia igual, a horta atrás da cozinha não havia se modificado, o mesmo sol encoberto brilhava. E lá estava o corpo do homem, intocado.
Um pequeno gemido escapou da garganta de Dirk Jansen, como se não houvesse mais como negar. As libélulas escapuliram rapidamente pela porta e voaram raso sobre o solo, depois dispararam para o alto, mais velozes do que pássaros. O homem estava olhando em volta, desamparado, levantando as mãos, depois baixando-as, gemendo baixinho.
— Não posso ficar aqui... Não posso ficar — estava dizendo. — Mas esta não é a fazenda que conheci. Está tudo errado. Tenho que ir.
— Para onde o senhor vai? — perguntou Lyra.
— Descer a estrada. Não sei. Não posso ficar aqui...
Salmakia veio voando e se empoleirou na mão de Lyra. As pequeninas garras da libélula a espetavam enquanto a dama falava:
— Tem gente saindo da aldeia... gente como este homem... todos estão andando na mesma direção.
— Então iremos com eles — decidiu Will, e enfiou a alça da mochila no ombro.
Dirk Jansen já estava passando por seu próprio corpo, desviando os olhos. Era quase como se estivesse bêbado, parando, seguindo adiante, ziguezagueando ora para a direita ora para a esquerda, tropeçando em pequenos sulcos e nas pedras no caminho que seus pés tinham conhecido tão bem. Lyra foi atrás de Will e Pantalaimon transformou-se num gavião e voou o mais alto que pôde, fazendo Lyra sufocar um grito.
— Eles têm razão — disse Pan quando desceu. — Há fileiras de pessoas, todas saindo da aldeia. Gente morta...
E logo eles também as avistaram: eram em torno de 20 pessoas, mais ou menos, homens, mulheres e crianças, todos andando do mesmo modo que Dirk Jansen, inseguros e em estado de choque. A aldeia ficava a uns 800 metros de distância e as pessoas vinham andando na direção deles, juntas umas das outras, pelo meio da estrada. Quando Dirk Jansen viu os outros espíritos, saiu correndo, cambaleante, e eles estenderam as mãos para cumprimentá-lo.
— Mesmo se não souberem para onde estão indo, estão todos indo para lá juntos — observou Lyra. — É melhor irmos com eles.
— Você acha que eles tinham dimons aqui neste mundo? — perguntou Will.
— Não sei. Se visse um deles em seu mundo, saberia que era um espírito?
— É difícil dizer. Eles não parecem exatamente normais. Tinha um homem que eu costumava ver na minha cidade e ele costumava ficar perambulando do lado de fora das lojas, sempre segurando a mesma velha sacola de plástico, e nunca falava com ninguém nem entrava. E ninguém nunca olhava para ele. Eu costumava fingir que ele era um espírito, um fantasma. Eles se parecem um pouco com ele. Talvez meu mundo seja cheio de espíritos e eu nunca tenha percebido.
— Não acho que o meu seja — disse Lyra em tom de dúvida.
— De qualquer maneira, este deve ser o mundo dos mortos. Essas pessoas acabaram de ser mortas, os soldados devem ter feito isso... e aqui estão elas e é exatamente igual ao mundo em que estiveram vivas. Pensei que fosse ser muito diferente...
— Bem, está escurecendo. Olhe!
Ela estava agarrando o braço dele. Will parou e olhou em volta, e viu que Lyra tinha razão. Não muito tempo antes de ele ter encontrado a janela em Oxford e tê-la atravessado, entrando no outro mundo de Cittàgazze, tinha havido um eclipse do sol e, como milhões de outros, Will ficara parado do lado de fora ao meio-dia observando enquanto a luz forte do dia fora escurecendo e enfraquecendo, até que uma espécie de estranho crepúsculo havia coberto as casas, as árvores, o parque. Tudo estava nítido como se em plena luz do dia, mas havia menos luz para ver as coisas, como se as forças de um sol moribundo estivessem se esgotando.
O que estava acontecendo agora era parecido, mas mais estranho, porque os contornos das coisas também estavam perdendo definição e começando a ficar borrados.
— A gente não está ficando cego, não é isso — disse Lyra, assustada — porque a questão não é que a gente não possa ver as coisas, é que as coisas estão desbotando...
A cor lentamente estava desaparecendo do mundo. Um cinza fosco, esverdeado, tinha substituído o verde intenso das árvores e da grama, uma cor de areia acinzentada substituía o amarelo forte de um campo de milho, um cinza-avermelhado cobria os tijolos de uma bela casa de fazenda. As próprias pessoas, agora mais próximas, tinham começado a perceber isso também e estavam apontando e se segurando nos braços uns dos outros tentando se acalmar. As únicas coisas de cores intensas na paisagem inteira eram o vermelho e amarelo brilhante e o azul-elétrico das libélulas e seus pequeninos cavaleiros, e Will, Lyra e Pantalaimon, que em forma de gavião voava em círculos logo acima.
Agora eles estavam chegando perto das primeiras pessoas e era evidente: eram todas espíritos. Will e Lyra deram um passo para ficarem mais perto um do outro, mas não havia nada a temer, pois os espíritos estavam muito mais assustados do que eles e estavam recuando não querendo se aproximar. Will gritou para eles:
— Não tenham medo. Não vamos machucar vocês. Para onde estão indo?
Eles olharam para o homem mais velho do grupo, como se fosse o guia.
— Estamos indo para onde todos vão — disse ele. — Parece que eu sei, mas não me lembro de ter aprendido. Parece que fica mais adiante na estrada. Saberemos quando chegarmos lá.
— Mamãe — chamou uma criança — por que está ficando escuro de dia?
— Fique quieta, querida, não se preocupe — disse a mãe. — Não vai adiantar nada se preocupar. Acho que estamos mortos.
— Mas para onde estamos indo? — perguntou a criança. — Eu não quero estar morta, mamãe!
— Estamos indo visitar o vovô — disse a mãe aflita.
Mas a criança não aceitou o consolo e chorou muito sentida. Os outros no grupo olhavam para a mãe, uns com simpatia, outros com irritação, mas não havia nada que pudessem fazer para ajudar e todos continuaram andando, desconsoladamente, em meio à paisagem que ia perdendo as cores, enquanto os gritos débeis da criança continuavam se repetindo sem parar. O Cavaleiro Tialys tinha falado com Salmakia antes de seguir adiante e se afastar rapidamente, voando pouco acima da superfície, e Will e Lyra acompanharam a libélula com olhos ávidos por suas cores vivas e vigor à medida que foi se tornando cada vez menor. A pequenina dama veio voando e empoleirou seu inseto na mão de Will.
— O cavaleiro foi observar o que há mais adiante — disse ela. — Achamos que a paisagem esteja perdendo as cores porque as pessoas a estão esquecendo. Quanto mais se afastarem de suas casas, mais escuro ficará.
— Mas por que acha que continuam indo? — perguntou Lyra. — Se eu fosse um espírito, gostaria de ficar nos lugares que conheço, não sair vagando por aí e me perder.
— Eles se sentem infelizes lá — arriscou Will, procurando uma resposta. — É o lugar onde acabaram de morrer. Têm medo de lá.
— Não, eles são impulsionados a seguir em frente por alguma coisa — disse a dama. — Algum instinto os está atraindo para seguir adiante pela estrada.
E, de fato, os espíritos estavam se movendo de maneira mais determinada, agora que tinham perdido de vista a aldeia. O céu estava escuro, como se uma violenta tempestade estivesse se armando, mas não havia nada da atmosfera carregada de eletricidade que costuma vir antes de uma tempestade. Os espíritos continuaram caminhando em passo regular e confiante, e a estrada seguia reto, em frente, atravessando uma paisagem que era quase desprovida de qualquer traço característico.
De vez em quando, um deles lançava um olhar para Will ou para Lyra, ou para as cores intensas da libélula e sua cavaleira, como se estivessem curiosos. Finalmente o homem mais velho disse:
— Vocês aí, você, menino, e você, menina. Vocês não estão mortos. Não são espíritos. Para que estão vindo por aqui?
— Viemos parar aqui acidentalmente — respondeu Lyra, antes que Will pudesse falar. — Não sei como aconteceu. Estávamos tentando fugir daqueles homens e simplesmente parece que acabamos vindo parar aqui.
— Como saberão que chegaram ao lugar para onde têm que ir? — perguntou Will.
— Acredito que nos dirão — disse o espírito em tom confiante. — Vão separar os pecadores dos justos, creio. Agora não adianta mais rezar. Agora é tarde demais para isso. Deveriam ter feito isso quando estavam vivos. Agora não adianta nada.
Era bastante fácil perceber em que grupo ele esperava ser incluído e bastante evidente também que não acreditava que o grupo seria grande. Os outros espíritos o ouviram com ansiedade, mas ele era o único guia conselheiro que possuíam, de modo que o seguiram sem discutir.
E continuaram andando, caminhando penosamente em silêncio sob um céu que finalmente tinha escurecido até chegar a um cinza chumbo fosco e permaneceu nessa cor sem escurecer mais. Os vivos viram-se olhando para a esquerda e para a direita, para cima e para baixe em busca de alguma coisa que fosse clara ou animada ou alegre e, sempre, só encontraram desapontamento até que uma pequenina centelha apareceu adiante e se aproximou deles voando velozmente.
Era o Cavaleiro, e Salmakia instigou sua libélula a disparar voando ao seu encontro, com um grito de prazer. Os dois conversaram reservadamente, depois voltaram depressa para junto das crianças.
— Há uma cidade mais adiante — relatou Tialys. — Parece com um campo de refugiados, mas é bastante óbvio que aquilo está lá há séculos, ou mais. E creio que mais além há um mar ou um lago, mas está totalmente coberto pela neblina. Consegui ouvir os gritos de pássaros. Há centenas de pessoas chegando a todo minuto, vindas de todas as direções, pessoas como estas, espíritos...
Os espíritos estavam ouvindo enquanto ele falava, embora sem muita curiosidade. Pareciam ter se acomodado numa espécie de transe de desinteresse e Lyra teve vontade de sacudi-los, de insistir para que se esforçassem, para que despertassem, e buscassem uma saída.
— Como vamos ajudar essas pessoas, Will? — perguntou.
Ele não tinha sequer a mais remota ideia. Enquanto seguiam adiante, começaram a avistar movimento no horizonte à esquerda e à direita, e, bem adiante deles, uma fumaça de cor suja estava subindo lentamente para acrescentar sua escuridão à atmosfera feia e deprimente. O movimento era de gente, ou espíritos: em filas, aos pares, em grupos, ou sozinhos, mas todos de mãos vazias, centenas de milhares de homens, mulheres e crianças estavam vagando pela planície em direção à fonte da fumaça.
O terreno agora era de encosta em declive e, cada vez mais, parecendo ser um aterro de depósito de lixo. O ar estava carregado e cheio de fumaça, e também de outros cheiros: o cheiro acre de substâncias químicas, de matéria vegetal em decomposição, de esgoto. E, à medida que iam descendo, o cheiro ficava pior. Não havia um retalho de solo limpo que se pudesse ver e as únicas plantas que cresciam por toda parte eram ervas fétidas e um mato áspero acinzentado.
Mais adiante deles, acima da água, estava a neblina. Erguia-se como um penhasco fundindo-se com o céu sombrio e de algum lugar em seu interior vinham aqueles gritos de pássaros de que Tialys havia falado. Bem no meio, entre os montes de lixo e a neblina, estava a primeira cidade dos mortos.

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Boa leitura :)