4 de fevereiro de 2017

18. Gelo e neblina

LEE Scoresby arrumou algumas mantas sobre Lyra. Ela ficou encolhida junto a Roger, e os dois dormiram enquanto o balão viajava rumo ao Polo. De vez em quando, o aeróstata conferia seus instrumentos, mascava o charuto que ele não podia acender com o hidrogênio tão perto e se encolhia mais dentro de suas peles.
— Esta garotinha é bem importante, não é? — perguntou, depois de vários minutos.
— Mais do que ela saberá — respondeu Serafina Pekkala.
— Quer dizer que vamos ter muita perseguição armada? Entenda, estou falando como um homem prático, que tem que ganhar a vida. Não posso me dar ao luxo de ser preso ou morto sem alguma espécie de compensação combinada antecipadamente. Não estou tentando denegrir essa expedição, pode acreditar, madame. Mas John Faa e os gípcios me pagaram uma quantia suficiente para cobrir meu tempo, minhas habilidades e o desgaste do balão, e é só. Não incluía seguro contra atos de guerra. E pode ficar sabendo, madame, que quando desembarcarmos Iorek Byrnison em Svalbard, isso vai ser uma declaração de guerra.
Ele cuspiu com delicadeza um pedacinho do charuto para fora da cestinha.
— Então eu gostaria de saber o que esperar em matéria de tumultos e confusões — concluiu.
— Pode haver luta — admitiu Serafina Pekkala. — Mas o senhor já lutou antes.
— Claro, quando me pagam. Mas o caso é que pensei que isso era um contrato normal de transporte, e foi assim que cobrei. Agora, depois daquela confusão lá embaixo, estou pensando até onde vai a minha obrigação de fornecer transporte. Se sou obrigado a arriscar minha vida e meu equipamento numa guerra entre os ursos, por exemplo. Ou se essa garotinha tem em Svalbard inimigos tão mal-humorados quanto os lá de Bolvangar. Menciono isso apenas como um assunto trivial numa conversa.
A feiticeira respondeu:
— Sr. Scoresby, gostaria de poder responder a sua pergunta. Só posso dizer que todos nós, humanos, feiticeiras e ursos, já estamos numa guerra, embora nem todos saibamos disso. Encontrando perigo em Svalbard ou saindo de lá sem um arranhão, o senhor está recrutado, é um soldado.
— Bom, acho isso meio precipitado. Acho que a pessoa devia ter direito de escolher se quer brigar ou não.
— Nisso não temos mais escolha do que em nascer ou não nascer.
— Ah, mas gosto de escolher — ele insistiu. — Gosto de escolher os trabalhos que faço, os lugares a que vou, a comida que como e as pessoas com quem me sento para conversar. Não gostaria de poder escolher de vez em quando?
Serafina Pekkala pensou um pouco, depois disse:
— Talvez a palavra “escolher” tenha significados diferentes para nós dois, Sr. Scoresby. As feiticeiras nada possuem, então não estamos interessadas em preservar valores ou ter lucro, e quanto a escolher entre uma coisa e outra, quando se vive por muitas centenas de anos, se aprende que toda oportunidade voltará. Nós temos necessidades diferentes. O senhor precisa consertar seu balão e mantê-lo em boas condições, e isso toma tempo e trabalho, eu entendo; mas se nós queremos voar, tudo que precisamos fazer é cortar um galho de pinheiro-nubígeno; qualquer um serve, e ainda restam muitos. Não sentimos frio, então não precisamos de roupas quentes. Não temos moeda de troca a não ser a ajuda mútua; se uma feiticeira precisa de alguma coisa, outra feiticeira lhe dará. Se há uma guerra, não pensamos no custo como um dos fatores para decidir se é correto lutar nela, nem temos qualquer conceito de honra, como os ursos, por exemplo. Para um urso um insulto é uma coisa mortal; para nós é só... inconcebível. Como é que se pode insultar uma feiticeira? E que importância teria se alguém fizesse isso?
— Bom, até aí eu vou. Se alguém me ataca fisicamente, eu revido, mas se alguém me xinga, não ligo a mínima. Mas, madame, está entendendo o meu dilema, eu espero. Sou um simples aeróstata e gostaria de terminar minha vida com conforto. Comprar uma fazendinha, algumas cabeças de gado, uns cavalos... Nada de grandioso, a senhora está percebendo. Nada de palácio, escravos ou montes de ouro. Só o vento da noite nas árvores e um charuto, e um copo de bourbon. O problema é que isso custa dinheiro. Então faço meus voos em troca de dinheiro, e depois de cada trabalho eu mando algum ouro para o Banco Wells Fargo, e, quando tiver o suficiente, madame, vou vender este balão e comprar uma passagem num vapor para Port Galveston, e nunca mais saio do chão.
— Há outra diferença entre nós, Sr. Scoresby. Uma feiticeira prefere desistir de respirar do que desistir de voar. Voar é sermos inteiramente nós mesmas.
— Estou entendendo, madame, e tenho inveja da senhora, mas não tenho as suas fontes de satisfação. Para mim, voar é só um trabalho, e eu sou só um técnico. Podia muito bem estar regulando válvulas num motor a gás ou montando circuitos anbáricos. Mas escolhi isso, entende? Foi uma escolha minha. E é por isso que acho meio chata essa ideia de uma guerra da qual ninguém tinha me falado.
— A briga de Iorek Byrnison com o rei também faz parte de tudo isso — disse a feiticeira. — Esta menina está destinada a ter um papel nisso.
— A senhora fala de destino como se fosse uma coisa fixa, e eu não sei se gosto disso mais do que gosto de uma guerra em que me alistaram sem eu saber. Onde é que está meu livre-arbítrio, quer me dizer? — ele argumentou. — E esta criança parece que tem mais livre-arbítrio do que qualquer pessoa que já conheci. Está querendo me dizer que ela é uma espécie de brinquedo de corda fazendo um papel que ela própria não pode mudar?
— Todos nós somos sujeitos aos fados, mas todos temos que fingir que não somos, para não morrermos de desespero — disse a feiticeira. — Existe uma profecia curiosa sobre esta menina: ela está destinada a provocar o fim do destino. Mas tem que fazer isso sem saber o que está fazendo, como se fosse por sua própria natureza e não por força do seu destino. Se souber o que tem que fazer, tudo fracassará; a morte vai varrer todos os mundos e será o triunfo do desespero, para sempre. Os universos vão se tornar apenas máquinas interligadas, cegas e vazias de pensamentos, de sentimentos, de vida...
Os dois olharam para Lyra, cujo rosto adormecido (o pouco que conseguiam enxergar dentro do capuz) mostrava uma expressão obstinada.
— Acho que parte dela sabe disso — comentou o aeróstata. — De qualquer maneira, ela parece preparada. E o garoto? Sabe que ela veio até aqui para salvar o garoto daqueles bandidos? Eram amiguinhos em Oxford ou coisa assim. Sabia disso?
— Sabia. Lyra está carregando uma coisa de imenso valor, e parece que os fados estão usando a menina como mensageira para ela levar esse objeto ao pai. Então ela veio até aqui para encontrar o amigo, sem saber que ele foi trazido para o Norte pelos fados para que ela pudesse vir atrás e trazer uma coisa para seu pai.
— É assim que a senhora vê as coisas, é?
Pela primeira vez, a feiticeira parecia insegura.
— É o que parece... mas não podemos ler a escuridão, Sr. Scoresby. É mais que possível que eu esteja errada.
— E que foi que botou a senhora nisso, se é que posso perguntar?
— O que quer que eles estivessem fazendo em Bolvangar, nossos corações nos diziam que era errado. Lyra é inimiga deles, então somos amigos dela. Não conseguimos enxergar mais que isso. E também a amizade do meu clã pelo povo gípcio, desde que Farder Coram salvou minha vida. Estamos fazendo isso a pedido deles. E eles têm laços de obrigação para com Lorde Asriel.
— Entendo. Então vão rebocar o balão até Svalbard por amizade aos gípcios; essa amizade vai fazer vocês nos levarem de volta? Ou vou ter que esperar um vento bom e enquanto isso depender da indulgência dos ursos? Mais uma vez, madame, quero dizer que estou perguntando só para passar o tempo.
— Se pudermos ajudar o senhor a voltar para Trollesund, Sr. Scoresby, faremos isso. Mas não sabemos o que vamos encontrar em Svalbard. O novo rei dos ursos fez muitas mudanças; os velhos hábitos caíram em desgraça; pode ser uma aterrissagem difícil. E não sei como Lyra vai conseguir chegar ao pai. Nem sei o que Iorek Byrnison pretende fazer, só sei que o destino dele está ligado ao dela.
— Também não sei, madame. Acho que ele se ligou à garotinha como uma espécie de protetor. Ela ajudou a pegar de volta a armadura dele, entende? Quem é que sabe o que os ursos sentem? Mas se um urso algum dia amou um ser humano, ele ama essa menina. Quanto a pousar em Svalbard, isso nunca foi fácil. Mas se eu puder contar com vocês para um puxãozinho na direção certa, vou me sentir mais tranquilo; e se puder retribuir de algum modo, é só dizer. Mas, só por curiosidade, pode me dizer de que lado eu estou nesta guerra invisível?
— Nós dois estamos do lado de Lyra.
— Ah, quanto a isso não há dúvida.
A viagem prosseguia. As nuvens impediam que se soubesse a velocidade em que iam. Normalmente o balão ficava imóvel em relação ao vento, se movendo na velocidade com que o ar se movia; mas agora, puxado pelas feiticeiras, o balão se movia através do ar, e não com ele, e resistia ao movimento, pois sua forma redonda não tinha a aerodinâmica de um zepelim.
Como resultado, a cestinha balançava de um lado para outro, muito mais do que num voo normal.
Lee Scoresby não estava preocupado com seu conforto, e sim com seus instrumentos, e passou algum tempo se certificando de que eles estavam bem presos. Segundo o altímetro, estavam a quase 10 mil pés de altura. A temperatura era de 20 graus negativos. Ele já pegara mais frio que isso, mas não muito, e não queria sentir mais frio agora; então, desenrolou a lona que usava como barraca de emergência e a estendeu diante das crianças adormecidas para desviar o vento, antes de se deitar com as costas apoiadas nas costas de seu velho companheiro de batalha, Iorek Byrnison, e adormecer.


Quando Lyra acordou, a lua estava alta no céu, e tudo em volta coberto de prata, desde a superfície das nuvens lá embaixo até os pingentes de gelo nas cordas do balão.
Roger dormia, assim como Lee Scoresby e o urso. Ao lado da cesta, porém, a feiticeira-rainha voava serenamente.
— Quanto tempo falta para Svalbard? — Lyra perguntou.
— Se não encontrarmos vento, estaremos acima de Svalbard daqui a umas 12 horas.
— Onde é que vamos pousar?
— Depende das condições do tempo. Vamos tentar evitar os rochedos. Lá vivem criaturas que atacam qualquer coisa que se move. Se pudermos, vamos deixar vocês no interior, longe do palácio de Iofur Raknison.
— O que vai acontecer quando eu encontrar Lorde Asriel? Ele vai querer voltar para Oxford? Também não sei se devo contar a ele que eu sei que ele é o meu pai. Ele pode querer fingir que ainda é meu tio. Nem conheço ele direito.
— Ele não vai querer voltar para Oxford, Lyra. Parece que há uma coisa a ser feita em outro mundo, e Lorde Asriel é o único que consegue atravessar o abismo entre esse mundo e o nosso. Mas ele precisa da ajuda de uma coisa.
— O aletiômetro! — Lyra exclamou. — Quando o Reitor da Jordan me deu o aletiômetro, achei que ele queria dizer alguma coisa sobre Lorde Asriel, mas não teve chance. Eu sabia que ele não queria envenenar Lorde Asriel de verdade. Ele vai ler o aletiômetro para ver como fazer a ponte? Aposto que eu podia ajudar. Com certeza, agora consigo ler os símbolos tão bem quanto qualquer pessoa.
— Não sei — disse Serafina Pekkala. — Não sabemos como ele vai fazer isso, e qual será a tarefa dele. Há poderes que falam conosco e poderes acima deles; e há segredos até para os mais elevados.
— O aletiômetro me diria! Eu podia ler agora...
Mas estava frio demais; ela não conseguiria segurá-lo. Enrolou-se nas peles e puxou bem o capuz contra o vento frio, deixando apenas uma fenda para enxergar. Bem à frente e um pouco abaixo deles, a corda comprida presa ao anel do balão era puxada por seis ou sete feiticeiras sentadas em seus galhos de pinheiro-nubígeno. As estrelas tinham o brilho frio dos diamantes.
— Não está com frio, Serafina Pekkala?
— Nós sentimos frio, mas não ligamos para ele, porque não podemos ficar doentes. E se nos agasalharmos contra o frio não sentiremos outras coisas, como a sensação do brilho das estrelas, ou a música da Aurora Boreal, ou, melhor que tudo, a sensação sedosa do luar em nossa pele. Vale a pena sentir frio.
— Eu conseguiria ter essas sensações?
— Não. Você morreria se tirasse os agasalhos. Fique bem agasalhada.
— Quanto tempo vivem as feiticeiras, Serafina Pekkala? Farder Coram diz que são centenas de anos. Mas você não parece velha.
— Tenho mais de 300 anos. Nossa feiticeira-mãe mais idosa tem quase mil anos. Um dia Yambe-Akka virá buscá-la. Um dia ela virá me buscar também. É a deusa dos mortos. Ela vem sorrindo, com muita bondade, e a gente fica sabendo que está na hora de morrer.
— Existem feiticeiros também, ou só feiticeiras?
— Existem homens que nos servem, como o Cônsul em Trollesund. E existem homens que tomamos como amantes ou maridos. Você é muito novinha, Lyra, jovem demais para entender, mas vou lhe dizer assim mesmo e mais tarde você vai compreender: os homens passam diante de nossos olhos como borboletas, criaturas que só duram uma estação. Nós os amamos; eles são corajosos, orgulhosos, belos, inteligentes; e morrem quase de repente. Eles morrem tão depressa que nosso coração fica constantemente cheio de dor. Damos à luz os filhos deles, que serão feiticeiras se forem mulheres, e humanos, se forem homens; e então, num piscar de olhos, eles já partiram, caíram, morreram, se perderam. Nossos filhos também. Quando um menino está crescendo, ele acha que é imortal. A mãe dele sabe que ele não é. Cada vez fica mais doloroso, até que finalmente a gente fica com o coração partido. Talvez seja nesse momento que Yambe-Akka vem nos buscar. Ela é mais antiga que a tundra. Talvez para ela a vida de uma feiticeira seja tão curta quanto a dos homens é para nós.
— A senhora amava Farder Coram?
— Sim. Ele sabe disso?
— Não sei, mas sei que ele ama a senhora.
— Quando ele me salvou, era jovem, forte, cheio de orgulho e beleza. Eu me apaixonei imediatamente. Eu teria mudado minha natureza, teria renunciado à sensação das estrelas e à música da Aurora; nunca mais teria voado. Eu teria renunciado a tudo num instante, sem hesitar, para ser uma esposa gípcia e morar num barco, cozinhar para ele, compartilhar seu leito e ter seus filhos. Mas não se pode mudar o que a gente é, só o que a gente faz. Eu sou uma feiticeira; ele é humano. Fiquei com ele tempo suficiente para ter um filho dele...
— Ele nunca me disse isso! É uma menina? Uma feiticeira?
— Não. Um menino, e ele morreu na grande epidemia de quarenta anos atrás, a doença que veio do Oriente. Pobre criança, ela entrou e saiu desta vida como uma faísca. E isso dilacerou meu coração, como sempre acontece. E o de Coram também. E então veio o chamado para que eu voltasse para o meu próprio povo, porque Yambe-Akka tinha levado minha mãe, portanto, eu era a rainha do clã. Então parti, como era meu dever.
— Nunca mais viu Farder Coram?
— Nunca mais. Ouvi falar das façanhas dele; soube que foi ferido pelos escraelingues com uma flecha envenenada e mandei ervas e encantos para ajudar na cura, mas não estava suficientemente forte para ir visitá-lo. Soube que depois disso ele ficou muito enfraquecido, e sua sabedoria cresceu, ele leu e estudou muito. Fiquei muito orgulhosa dele, mas me mantive afastada, pois era uma época de perigos para o meu clã, com ameaças de guerra entre as feiticeiras, e além disso achei que ele iria me esquecer e arranjar uma esposa humana...
— Ele nunca faria isso — Lyra retrucou. — A senhora devia ir até ele. Ele ainda ama a senhora, eu sei disso.
— Mas ele ficaria envergonhado pela sua idade, e eu não quero que ele se sinta assim.
— Talvez seja verdade. Mas devia pelo menos mandar um recado. É o que eu acho.
Serafina Pekkala ficou um longo tempo sem dizer coisa alguma. Pantalaimon se transformou numa andorinha e voou até o galho dela por um segundo, reconhecendo que talvez eles tivessem sido insolentes. Lyra perguntou então:
— Por que as pessoas têm dimons, Serafina Pekkala?
— Todo mundo pergunta isso, e ninguém sabe a resposta. Desde que os seres humanos existem, os dimons existem também. É o que nos torna diferentes dos animais.
— É! Somos mesmo diferentes deles... Como os ursos. Eles são estranhos, não são? Parecem uma pessoa, e de repente fazem uma coisa tão estranha ou tão selvagem que a gente acha que nunca vai conseguir entender um urso... Mas sabe o que Iorek me disse? Ele disse que a armadura dele era para ele o que um dimon é para uma pessoa. Ele disse que é a alma dele. Mas nisso também somos diferentes, porque ele mesmo fez a sua armadura. Tiraram a primeira armadura dele quando ele foi para o exílio, ele encontrou um pouco de ferro-celeste e fez uma nova. É como fazer uma alma nova. Nós não podemos fazer nossos dimons. Então as pessoas em Trollesund fizeram ele ficar bêbado e roubaram a armadura, eu descobri onde estava, e ele pegou de volta... Mas eu queria saber por que ele está voltando para Svalbard. Vão atacar ele. Podem até matar... Eu adoro o Iorek. Gosto tanto dele que queria que ele não tivesse vindo.
— Ele lhe contou quem é?
— Só me contou o nome. E isso foi o Cônsul em Trollesund quem nos contou.
— Ele é nobre. É um príncipe. Aliás, ele seria agora o rei dos ursos se não tivesse cometido um grande crime.
— Ele me disse que o rei se chama Iofur Raknison.
— Iofur Raknison se tornou rei quando Iorek Byrnison foi exilado. É claro que Iofur também é um príncipe, senão não poderia governar. Mas ele tem a esperteza dos humanos; faz alianças e tratados. Ele não vive como os ursos em fortalezas de gelo, e sim num palácio recém-construído; fala em trocar embaixadores com nações humanas e explorar as minas de fogo com ajuda de engenheiros humanos... Ele é muito habilidoso e sutil. Dizem alguns que ele levou Iorek ao ato que o condenou ao exílio, e outros dizem que, mesmo que isso não seja verdade, ele encoraja que pensem que é, pois isso aumenta sua reputação de esperteza e sutileza.
— Afinal, que foi que Iorek fez? Sabe, uma das razões de amar Iorek é o meu pai, pelo fato de ele estar sendo punido por alguma coisa que ele fez. Acho que os dois são parecidos. Iorek me contou que matou outro urso, mas nunca disse como foi.
— A luta foi por uma ursa. O macho que Iorek matou não queria mostrar os sinais de rendição, mesmo estando claro que Iorek era o mais forte. Apesar de todo o seu orgulho, os ursos nunca deixam de reconhecer a superioridade de outro urso e se render a ela, mas, por um motivo qualquer, esse urso não fez isso. Tem gente que diz que Iofur Raknison influenciou a mente dele, ou então lhe deu ervas embriagantes para comer. De qualquer maneira, o urso jovem insistiu, e Iorek Byrnison permitiu que seu temperamento o dominasse. O caso não foi difícil de julgar, pois ele podia ferir, mas não matar.
— Quer dizer que se não fosse isso ele seria o rei... — disse Lyra. — Eu ouvi o Catedrático de Palmeriano na Jordan falar alguma coisa sobre Iofur Raknison, porque ele tinha estado no Norte e conhecido ele. Ele falou... Eu queria tanto me lembrar... Acho que ele tomou o poder por meio de um truque, ou coisa assim... Mas, sabe, Iorek me disse uma vez que não se consegue enganar um urso e me mostrou que eu não conseguia enganar ele. Parece que os dois foram enganados, ele e o outro urso. Talvez só os ursos consigam enganar outro urso, talvez as pessoas não consigam. A não ser... Aquela gente em Trollesund, aquelas pessoas enganaram ele, não foi? Quando deixaram ele bêbado e roubaram a armadura?
— Quando os ursos agem como gente, talvez possam ser enganados — disse Serafina Pekkala. — Quando agem como ursos, talvez não possam. Normalmente um urso não beberia álcool; Iorek Byrnison bebeu para esquecer a vergonha do exílio, e foi só isso que permitiu que as pessoas em Trollesund o enganassem.
— É, sim — Lyra concordou. Achava que era isso mesmo. Admirava Iorek quase ilimitadamente e ficou feliz com a confirmação da nobreza dele. — A senhora foi muito inteligente. Eu jamais saberia disso se a senhora não tivesse me contado. Acho que deve ser mais inteligente do que a Sra. Coulter.
A viagem continuava. Lyra mascou um pouco de carne de foca que encontrou no bolso. Depois de algum tempo, perguntou:
— Serafina Pekkala, o que é o Pó? Porque acho que toda essa confusão é por causa do Pó, só que ninguém me diz o que é isso.
— Eu não sei — afirmou Serafina Pekkala. — As feiticeiras nunca se preocuparam com o Pó. Só posso lhe dizer que onde há padres, há medo do Pó. A Sra. Coulter não é um padre, naturalmente, mas é uma poderosa agente do Magisterium e foi ela quem criou o Conselho de Oblação e convenceu a Igreja a financiar Bolvangar, por causa do interesse dela no Pó. Não conseguimos entender os sentimentos dela. Mas há muitas coisas que nunca conseguimos entender. Vemos os tártaros fazendo buracos no crânio e ficamos curiosas, achamos estranho. Então esse Pó deve ser uma coisa estranha. Ficamos curiosas, mas não nos preocupamos nem cortamos coisas para descobrir o que é. Deixamos isso para a Igreja.
— A Igreja? — ecoou Lyra.
Uma coisa tinha lhe voltado: a lembrança de conversar com Pantalaimon, nos Pântanos, sobre o que podia estar movendo o ponteiro do aletiômetro, e eles tinham pensado na ventoinha no altar principal da Faculdade Gabriel, e em como as partículas elementares empurravam as pequenas hélices. O Intercessor tinha sido bem claro sobre a ligação entre as partículas elementares e a religião.
— Pode ser... Afinal, a maioria das coisas da Igreja é mantida em segredo — disse. — Mas a maioria das coisas da Igreja é velha, e o Pó não é velho, pelo que sei. Será que Lorde Asriel vai poder me contar...?
Tornou a bocejar.
— Acho melhor me deitar, senão vou congelar — disse a Serafina Pekkala. — Senti bastante frio lá no chão, mas nunca tanto frio assim. Acho que com um pouco mais eu morreria.
— Então deite e se enrole nas mantas.
— É, vou fazer isso. Se eu tivesse que morrer, ia preferir morrer aqui em cima do que lá embaixo. Quando nos botaram debaixo daquela coisa de cortar, achei que estava na hora... Nós dois achamos... Ah, aquilo foi muito cruel. Mas agora vamos dormir. Nos chame quando chegarmos — pediu.
E se deitou na pilha de mantas, desajeitada e dolorida em todas as partes do corpo com a intensidade profunda do frio, o mais perto que pôde do adormecido Roger.
E assim os quatro viajantes seguiram caminho, dormindo no balão encrustrado de gelo, rumo às rochas e geleiras, as minas de fogo e as fortalezas de gelo de Svalbard.


Serafina Pekkala chamou o aeróstata, que acordou de imediato, dormente de frio, mas sabendo, pelo movimento da cesta, que alguma coisa estava errada: ela balançava intensamente, sacudida pelos ventos fortes que açoitavam o balão, e as feiticeiras que puxavam a corda mal conseguiam controlá-lo. Se soltassem a corda, o balão seria arrastado, e a julgar pela bússola ele seria levado na direção de Nova Zembla, a quase 150 quilômetros por hora.
— Onde é que nós estamos? — ele gritou.
Lyra ouviu a pergunta. Estava semidesperta, com um pouco de medo por causa do movimento, e com tanto frio que seu corpo inteiro estava dormente.
Não conseguiu entender a resposta da feiticeira, mas pela fenda no capuz ela viu, à luz de uma lanterna anbárica, Lee Scoresby se agarrar a um cabo e puxar uma corda que subia e entrava dentro do próprio balão. Ele deu um puxão forte e levantou o olhar para a escuridão, antes de enrolar a corda numa ranhura do anel de suspensão.
— Estou tirando um pouco do gás — ele gritou para Serafina Pekkala. — Vamos descer. Estamos alto demais!
A feiticeira gritou alguma coisa em resposta, mas Lyra novamente não conseguiu entender. Roger também estava despertando; os estalos da cesta eram suficientes para acordar qualquer um — isso sem falar nos solavancos. Os dimons de Roger e Pantalaimon estavam agarrados um ao outro em forma de sagui, e Lyra se concentrou em ficar deitada, imóvel, controlando o medo.
— Tudo bem — disse Roger, parecendo muito mais animado que ela. — Assim que a gente descer vamos fazer uma fogueira para nos aquecer. Tenho uns fósforos no bolso. Roubei da cozinha em Bolvangar.
O balão estava mesmo descendo, pois um segundo depois eles foram envolvidos por uma nuvem espessa e congelante; de repente tudo ficou escuro. Era como a névoa mais forte que Lyra já havia visto. Depois de um instante, ouviram outro grito de Serafina Pekkala, e o aeróstata desenrolou a corda e a soltou. A corda subiu rapidamente, e mesmo com todo o barulho da cesta e do vento Lyra ouviu, ou sentiu, um forte som vindo de algum lugar acima dela.
Lee Scoresby a viu arregalar os olhos.
— É a válvula do gás — ele gritou. — Funciona com uma mola e prende o gás lá dentro. Quando eu puxo para baixo, o gás escapa por cima, e a gente desce.
— Já estamos...
Ela não terminou, pois uma coisa horrível aconteceu: uma criatura com metade do tamanho de um homem e com asas de couro e garras recurvas estava rastejando pela lateral da cestinha na direção de Lee Scoresby. A coisa tinha a cabeça chata, olhos esbugalhados e uma enorme boca de sapo, de onde saíam lufadas de um fedor insuportável. Lyra não teve tempo sequer de gritar antes que Iorek Byrnison levantasse a pata e jogasse longe a coisa, que caiu para fora da cesta e desapareceu com um guincho.
— Avantesma-dos-penhascos — resmungou Iorek Byrnison sucintamente.
No momento seguinte, Serafina Pekkala apareceu e, agarrada à lateral da cesta, falou em tom urgente:
— Os avantesmas-dos-penhascos estão nos atacando. Vamos pousar o balão, e então vamos ter que nos defender. Eles estão...
Mas Lyra não ouviu o resto do que foi dito, porque houve um som de coisa rasgada e tudo virou de lado. Então um golpe terrível arremessou os três humanos contra a lateral do balão onde a armadura de Iorek Byrnison estava empilhada. Iorek estendeu a pata para segurá-los, por causa dos solavancos da cesta. Serafina Pekkala desaparecera. O barulho era assustador: acima de qualquer outro som, vinham os guinchos dos avantesmas-dos-penhascos, e Lyra os via passar e sentia seu cheiro terrível.
Então ocorreu outro solavanco, tão repentino que jogou todos no chão outra vez, e a cesta começou a cair com uma velocidade apavorante, girando todo o tempo. Parecia que tinham se soltado do balão e estavam em queda livre; então aconteceu outra série de solavancos e batidas, a cesta sendo jogada rapidamente de um lado para outro como se estivesse rebatendo entre paredes de pedra.
A última coisa que Lyra viu foi Lee Scoresby atirando com sua pistola de cano longo diretamente na cara de um avantesma-dos-penhascos; ela então fechou os olhos com força e se agarrou ao pelo de Iorek Byrnison com muito medo. Uivos, guinchos, o açoite e o assobio do vento, os estalos da cesta parecendo um animal torturado, tudo isso enchia o ar com um terrível barulho.
Então aconteceu o maior solavanco de todos, que a jogou para fora da cesta. Todo o ar de seus pulmões foi expulso quando ela aterrissou tão embolada que não sabia onde era em cima e onde era embaixo; e seu rosto, dentro do capuz bem puxado, estava cheio de pó: cristais secos e frios...
Era neve; ela havia caído numa faixa de neve solta. Estava tão atordoada que mal conseguia pensar. Ficou imóvel por alguns segundos antes de cuspir a neve da boca num gesto sem energia, e então, com a mesma falta de energia, soprou até formar um pequeno espaço para respirar.
Nada parecia estar doendo muito; ela se sentia apenas sem fôlego. Cautelosamente tentou mexer mãos, pés, braços, pernas, e erguer a cabeça.
Conseguia enxergar muito pouco, pois seu capuz ainda estava cheio de neve. Com esforço, como se cada uma de suas mãos pesasse uma tonelada, ela limpou a neve e olhou para fora. Viu um mundo cinzento — cinzentos claros, cinzentos escuros e pretos —, onde lufadas de névoa vagavam como fantasmas.
Os únicos sons eram os guinchos distantes dos avantesmas-dos-penhascos bem acima, e o estrondo de ondas batendo em rochedos a certa distância.
— Iorek! — ela gritou com voz fraca e trêmula, e tentou novamente, mas ninguém respondeu. — Roger! — chamou, com o mesmo resultado.
Parecia que estava sozinha no mundo, mas isso naturalmente ela nunca estava, e Pantalaimon veio surgindo de dentro do agasalho dela como um rato para lhe fazer companhia.
— Verifiquei o aletiômetro, e ele está inteiro — ela disse.
— Estamos perdidos, Pan! — ela exclamou. — Viu aqueles avantesmas-dos-penhascos? E o Sr. Scoresby atirando neles? Deus nos ajude se eles descerem aqui...
— É melhor tentarmos encontrar a cesta, talvez — disse ele.
— É melhor não gritarmos — ela acrescentou. — Fiz isso há pouco, mas é melhor não, para eles não ouvirem. Queria saber onde estamos.
— Podemos não gostar de saber — ele observou. — Podemos estar no fundo de um abismo sem caminho para cima, e com os avantesmas-dos-penhascos lá no alto para nos caçarem quando a névoa dissipar.
Ela tateou em volta, depois de descansar por vários minutos mais, e descobriu que aterrissara numa fenda entre dois rochedos cobertos de gelo. A névoa congelante encobria tudo; de um lado havia o barulho das ondas a uns 50 metros, julgando pelo som, e de cima ainda vinham os guinchos dos avantesmas-dos-penhascos, embora parecessem estar diminuindo um pouco. Ela não enxergava mais do que 2 ou 3 metros, e até mesmo os olhos de coruja de Pantalaimon eram inúteis.
Com dificuldade, escorregando e deslizando pelas pedras ásperas, ela se afastou das ondas e subiu um pouco a praia, encontrando apenas rochas e neve, e nenhum sinal do balão ou de algum de seus ocupantes.
— Não podem ter desaparecido todos — ela sussurrou.
Pantalaimon, em forma de gato, andava um pouco à frente dela e encontrou quatro sacos de areia rebentados, o conteúdo espalhado e já congelando.
— Lastro — Lyra informou. — Ele deve ter jogado fora para poder subir novamente...
Ela engoliu em seco para limpar o nó na garganta, ou o medo em seu peito, ou ambos.
— Ah, meu Deus, estou apavorada — confessou. — Espero que todos estejam bem.
Pantalaimon então veio para os braços dela e em forma de rato se esgueirou para dentro do seu capuz, onde ficaria escondido. Ela ouviu um ruído, alguma coisa arranhando a pedra, e se virou para ver o que era.
— Ior...!
Mas não chegou a dizer a palavra inteira, pois não se tratava de Iorek Byrnison. Era um urso desconhecido, usando uma armadura polida e coberta de orvalho congelado, com uma pluma no elmo.
Ele ficou imóvel a uns 2 metros de distância, e ela pensou que estava realmente perdida. O urso abriu a boca e rugiu. Dos rochedos veio um eco que fez aumentar o ruído dos guinchos no céu. Outro urso surgiu da névoa, e mais outro. Lyra ficou imóvel, apertando seus pequenos punhos humanos.
Os ursos não se moveram até o primeiro deles falar:
— Seu nome?
— Lyra.
— De onde você vem?
— Do céu.
— Num balão?
— Sim.
— Venha conosco. Você é nossa prisioneira. Agora mexa-se. Depressa.
Exausta e apavorada, Lyra começou a caminhar, aos tropeções, pelas pedras ásperas e escorregadias, seguindo o urso e se perguntando se a sua esperteza conseguiria livrá-la daquela situação.

2 comentários:

  1. É uma sintuação ruim atrás de outra...

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  2. Luamara feiticeira dimon dragão11 de março de 2017 12:55

    É mesmo.

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Boa leitura :)