17 de fevereiro de 2017

17. Óleo e laca

... ora a serpente era a mais astuta de todos os animais de campos que o Senhor Deus tinha feito.
Gênesis 2,3

Mary Malone estava construindo um espelho. Não por vaidade, pois tinha muito pouca vaidade, mas porque queria testar uma ideia que tivera. Queria tentar capturar as Sombras e, sem os instrumentos de seu laboratório, tinha que improvisar com os materiais de que dispunha.
A tecnologia dos mulefas praticamente não empregava metais. Eles faziam coisas extraordinárias com pedra, madeira, cordas, conchas e chifre, mas os poucos metais de que dispunham eram arrancados a marteladas de pepitas, em estado bruto, de cobre e de outros metais que encontravam na areia do rio, e nunca eram usados para fazer ferramentas. Eram usados para ornamentos. Por exemplo, na celebração do casamento, o casal mulefa trocava tiras de cobre reluzente, que eram dobradas de maneira a fazer um anel em volta de um de seus chifres, com um significado muito semelhante ao de uma aliança. De modo que ficaram fascinados com o canivete do exército suíço que era o objeto mais precioso que Mary possuía.
A zalif que era sua amiga pessoal, chamada Atai, soltou uma exclamação espantada, certo dia quando Mary abriu o canivete, mostrou todos os acessórios e explicou o melhor que pôde, com seu vocabulário limitado, para que serviam. Um dos acessórios era uma lupa em miniatura com a qual começou a queimar um desenho num galho seco e foi isso que a fez começar a pensar nas Sombras. Naquela ocasião, estavam pescando, mas o rio estava com as águas baixas e os peixes deveriam estar em outro lugar, de modo que deixaram as redes estendidas na água, sentaram na margem coberta de relva e ficaram conversando, até que Mary viu o galho seco, que tinha uma superfície branca e lisa. Ela queimou o desenho — uma simples margarida — na madeira e encantou Atai, mas, à medida que a linha fina de fumaça foi subindo do ponto onde a luz do sol focalizada tocava a madeira, Mary pensou: Se isso se tornasse um fóssil e um cientista o encontrasse daqui a dez milhões de anos, ainda poderiam encontrar Sombras rodeando-o porque eu trabalhei nele.
Ela mergulhou num estado de torpor e devaneio induzido pelo sol até que Atai perguntou:
Com o que está sonhando?
Mary tentou explicar de que tratava seu trabalho, sua pesquisa, o laboratório, a descoberta das partículas de Sombra, a revelação fantástica de que eram conscientes e sentiu o relato da experiência inteira se apoderar dela novamente, de tal modo que desejou profundamente estar de volta em meio ao seu equipamento.
Não esperava que Atai acompanhasse sua explicação, em parte por causa de seu domínio imperfeito da língua deles, mas em parte porque os mulefas pareciam tão práticos, tão fortemente enraizados no mundo físico do dia-a-dia, e muito do que estava falando era matemática, mas Atai a surpreendeu ao dizer:
Sim, sabemos de que você está falando, nós chamamos de... e então ela usou uma palavra que soou como a palavra que usavam para dizer luz. Mary perguntou:
Luz?, e Atai respondeu:
Não luz, mas... e disse a palavra mais devagar para que Mary aprendesse, explicando: como a luz batendo na água quando faz pequenos círculos, ao pôr-do-sol, e a luz batendo sai em flocos brilhantes, nós chamamos desse nome, mas é um faz-parece.
Faz-parece era o termo que eles empregavam para metáfora, Mary havia descoberto. De modo que disse:
Não é realmente luz, mas você vê e parece com aquela luz batendo na água ao pôr-do-sol?
E Atai respondeu:
Sim. Todos os mulefas têm isso. Você tem também. Foi assim que soubemos que você era como nós e não como os animais de pasto, que não têm isso. Apesar de você ter uma aparência tão estranha e horrível. Você é como nós porque você tem — e de novo veio aquela palavra que Mary não conseguia ouvir de maneira suficientemente clara para repetir: algo como sraf, ou sarf, acompanhada por um ligeiro movimento da tromba para a esquerda.
Mary ficou excitada. Tinha que se controlar e se manter calma de maneira a encontrar as palavras certas.
O que vocês sabem a respeito disso? De onde vem?
De nós e do óleo, — foi a resposta de Atai, e Mary sabia que estava se referindo ao óleo nas grandes rodas feitas daquelas nozes.
De vocês?
Depois que já somos crescidos. Mas sem as árvores isso simplesmente desapareceria de novo. Com as rodas e o óleo, fica conosco. Depois que já somos crescidos...
Mais uma vez Mary teve que se controlar para não se tornar incoerente. Uma das coisas que havia começado a desconfiar com relação às Sombras era que crianças e adultos reagiam de maneira diferente a elas, ou atraíam tipos diferentes de atividade de Sombra. Lyra não tinha dito que os cientistas de seu mundo haviam descoberto algo assim com relação ao Pó, que era o nome que davam às Sombras? Aqui estava a mesma coisa novamente.
E estava relacionado ao que as Sombras tinham lhe dito na tela do computador, pouco antes de ela partir de seu próprio mundo: qualquer que fosse aquela questão, estava relacionada com a grande mudança na história humana simbolizada pela história de Adão e Eva, com a Tentação, a Queda, o Pecado Original. Em suas investigações com crânios fósseis, seu colega Oliver Payne tinha descoberto que cerca de 30 mil anos atrás, havia ocorrido um grande aumento no número de partículas de Sombra associadas aos restos mortais de seres humanos. Alguma coisa havia acontecido naquela ocasião, algum desenvolvimento na evolução, para tornar o cérebro humano um canal ideal para ampliar seus efeitos.
Mary perguntou a Atai:
Há quanto tempo existem mulefas?
E Atai respondeu:
Trinta e três mil anos.
Àquela altura ela já era capaz de interpretar as expressões de Mary, ou pelo menos as mais óbvias, e deu uma risada ao ver o queixo de Mary cair. O riso deles era tão franco e cheio de alegria, tão contagiante, que Mary geralmente não se continha e ria também, mas naquele momento permaneceu séria e espantada, e disse:
Como pode saber com tanta exatidão? Vocês têm uma história de todos esses anos?
Ah, sim, temos, disse Atai. A partir do momento que tivemos o sraf, tivemos memória e despertar. Mas, antes disso, não sabíamos nada.
O que aconteceu que deu o sraf a vocês?
Descobrimos como usar as rodas. Um dia um ser sem nome descobriu uma noz e começou a brincar, e enquanto ela brincava ela...
— Ela?
Ela, sim. Não tinha nome antes disso. Ela viu uma serpente se enroscando através do buraco na esfera e a serpente disse...
A serpente falou com ela?
Não! Não! Isso é faz-parece. A história conta que a serpente disse: O que você sabe? De que se lembra? O que vê adiante? E ela disse: Nada, nada, nada. De modo que a serpente disse: Enfie o pé no buraco do fruto onde eu estava brincando e se tomará sábia. Então ela enfiou o pé no lugar onde a serpente estivera. E o óleo penetrou em seu pé e fez com que ela visse com mais clareza do que antes e a primeira coisa que ela viu foi o sraf. Era uma coisa tão estranha e agradável que quis compartilhar imediatamente com todos os seus parentes. De modo que ela e seu parceiro pegaram as primeiras e descobriram que sabiam quem eram, sabiam que eram mulefas e não animais de pasto. Eles deram nome um ao outro. Chamaram a si mesmos de mulefas. Deram nome à árvore-das-sementes e a todas as criaturas e plantas. Porque ficaram diferentes, disse Mary. Sim, ficaram. E seus filhos também, porque à medida que mais nozes caíam, eles mostraram a seus filhos como usá-las. E quando as crianças ficavam crescidas, começavam a gerar o sraf também, e quando estavam bastante grandes para usar as rodas, o sraf voltava com o óleo e ficava com eles. De modo que viram que tinham que plantar mais árvores-de-rodas, por causa do óleo, mas a casca das nozes era tão dura que raramente germinavam. E os primeiros mulefas viram o que deveriam fazer para ajudar as árvores, que era usar as rodas para circular e quebrá-las, de modo que mulefas e árvores-de-rodas sempre viveram juntos.
Mary compreendeu de imediato cerca de um quarto do que Atai estava dizendo, mas depois, fazendo perguntas e deduções, descobriu o resto de maneira bastante precisa, e seu domínio da língua também estava aumentando a cada minuto.
Quanto mais aprendia, mais difícil as coisas se tornavam, pois cada coisa nova que descobria sugeria meia dúzia de perguntas, cada uma conduzindo a uma direção diferente.
Mas ela forçou sua mente a continuar seguindo a questão do sraf porque era a mais importante, e fora por isso que tinha pensado no espelho. Fora a comparação do sraf com os reflexos de luz na água que lhe sugerira o espelho. A luz refletida como clarão do sol sobre o mar era polarizada: era possível que as partículas de Sombra, quando se comportassem como ondas de luz, também pudessem ser polarizadas.
Não posso ver o sraf como você pode, explicou, mas gostaria de fazer um espelho com a laca-de-seiva, porque acho que poderia me ajudar a ver.
Atai ficou animada com essa ideia e, imediatamente, elas recolheram a rede e começaram a juntar as coisas de que Mary iria precisar.
Como prova de que a sorte lhes sorria, havia três belos peixes na rede. A laca-de-seiva era um produto de uma outra árvore, muito menor, que os mulefas cultivavam para este propósito. Ao ferver e dissolver a seiva no álcool, que faziam com suco de frutas destilado, os mulefas preparavam uma substância com uma consistência semelhante à do leite e de uma cor âmbar delicada, que utilizavam como verniz. Chegavam a passar até 20 mãos numa base de madeira ou de concha, deixando que cada mão curtisse sob um pano molhado antes de aplicar a seguinte e, gradualmente, iam criando uma superfície de grande dureza e brilho. Geralmente a tornavam opaca com a aplicação de vários óxidos, mas por vezes a deixavam transparente e aquilo era o que interessara Mary: porque a laca transparente de tonalidade âmbar tinha a mesma curiosa propriedade do mineral conhecido como espato-de-islândia. Ela dividia os raios de luz em dois, de modo que quando se olhava através dela via-se duplo.
Mary não tinha muita certeza do que queria fazer, só sabia que se fizesse várias tentativas com diferentes abordagens pelo tempo que fosse necessário, sem se preocupar e sem se impacientar, acabaria descobrindo. Lembrou-se de citar as palavras do poeta Keats para Lyra e de sua compreensão imediata de que aquele era seu estado de espírito quando lia o aletiômetro — era disso que Mary precisava.
De modo que começou tratando de encontrar um pedaço mais ou menos achatado de madeira semelhante ao pinho e de lixar a superfície com arenito (como não havia metal, não havia plainas) até deixá-la o mais lisa e plana que pôde. Aquele era o método usado pelos mulefas e funcionava bastante bem, desde que se dedicasse tempo e esforço.
Então ela visitou a plantação de laca com Atai, tendo explicado cuidadosamente o que pretendia fazer, e pediu permissão para retirar um pouco de seiva. Os mulefas tiveram prazer em concordar, mas estavam ocupados demais para lhe dar atenção. Com a ajuda de Atai, ela extraiu uma quantidade da seiva pegajosa e resinosa e, então, seguiu-se o longo processo de ferver, dissolver, ferver de novo, até que o verniz estivesse pronto para ser usado.
Os mulefas usavam mechas de uma fibra de uma outra planta semelhante a algodão para aplicá-lo e, seguindo as instruções de um artesão, ela entregou-se ao trabalho paciente de pintar e repintar, uma vez após a outra, o seu espelho, sem ver quase nenhuma diferença a cada vez, uma vez que a camada de laca era tão fina, mas, deixando-as secar sem pressa e descobrindo que, gradualmente, a espessura estava aumentando. Mary passou mais de 40 mãos — perdeu a conta de quantas — mas, quando afinal sua laca acabou, a superfície estava com pelo menos cinco milímetros de espessura. Depois da última camada, vinha o trabalho de dar polimento: um dia inteiro esfregando a superfície, delicadamente, em suaves movimentos circulares, até que seus braços começaram a doer e sua cabeça a latejar e ela não tinha mais condições de trabalhar.
Então ela dormiu.
Na manhã seguinte, o grupo foi trabalhar numa capoeira que chamavam de madeira-de-nó, para verificar se os brotos estavam crescendo conforme planejado quando haviam sido plantados, apertando os trançados de modo que os galhos adquirissem as formas adequadas. Eles apreciavam muito a ajuda de Mary nessa tarefa, pois sozinha ela podia penetrar em espaços mais estreitos que os mulefas e, com suas duas mãos, trabalhar em espaços mais apertados.
Só quando esse trabalho foi concluído e voltaram ao povoado foi que Mary pôde começar a fazer sua experiência — ou melhor, sua brincadeira, uma vez que não tinha uma ideia muito clara do que estava fazendo. Primeiro tentou usar a folha de laca simplesmente como um espelho, mas, por falta de um fundo prateado, tudo o que conseguia ver era um tênue duplo reflexo na madeira.
Então pensou que do que precisava realmente era da laca sem a madeira, mas sentiu-se desanimada diante da ideia de fazer outra folha de laca, e, de qualquer modo, como conseguiria deixá-la lisa sem uma superfície para servir de base?
Ocorreu-lhe a ideia de simplesmente ir cortando fora a madeira de modo a deixar só a laca. Aquilo também levaria tempo, mas pelo menos tinha o canivete suíço. E ela então começou a cortar lascas muito delicadamente a partir da borda, tomando o maior cuidado para não arranhar a laca por trás, mas, finalmente, conseguindo remover a maior parte do pinho, e deixando uma desordem de restos e lascas de madeira colados de maneira irremovível na placa de verniz claro e duro.
Ela se perguntou o que aconteceria se deixasse de molho na água. Será que a laca amoleceria se ficasse molhada? Não, respondeu seu mestre artesão, ela permanecerá dura para sempre, mas por que não fazer assim? — e ele lhe mostrou um líquido, que era mantido numa tigela de pedra, que corroeria qualquer pedaço de madeira em apenas algumas horas. Pelo cheiro e pelo aspecto, Mary achou que parecia ser um ácido.
Aquilo praticamente não danificaria em nada a laca, disse o artesão, e, qualquer dano que houvesse, ela poderia reparar com bastante facilidade. Ele estava intrigado com o projeto de Mary e a ajudou a aplicar, delicadamente, o ácido na madeira, explicando como o preparavam, moendo, dissolvendo e destilando um mineral que encontravam nas margens de alguns lagos rasos que ela ainda não visitara. Gradualmente a madeira amoleceu e se soltou, e Mary ficou com uma placa de laca transparente amarelo-acastanhada, mais ou menos do tamanho da página de um livro.
Ela poliu o reverso da mesma forma que fizera com a parte de cima, até que ambos os lados estivessem lisos e polidos como o mais refinado dos espelhos.
E quando olhou através dele...
Não viu nada em particular. Era perfeitamente límpido, mas mostrava-lhe uma imagem dupla, a da direita bem perto da que ficava à esquerda e cerca de 15 graus para cima.
Ela se perguntou o que aconteceria se olhasse através de duas placas, uma sobre a outra.
Então pegou o canivete suíço novamente e tentou riscar uma linha na placa de modo a poder cortá-la em dois pedaços. Depois de várias tentativas e de muito trabalho, usando uma pedra lisa para manter o canivete afiado, ela conseguiu riscar uma linha de sulco profundo o bastante para arriscar tentar partir a placa.
Colocou um galho fino sob o sulco riscado e empurrou com força para baixo a placa de laca, como vira um vidraceiro fazer para cortar uma vidraça, e funcionou: agora ela tinha duas placas.
Ela as juntou e olhou através delas. A coloração âmbar estava mais densa e, como um filtro fotográfico, realçava certas cores e apagava outras, dando uma aparência ligeiramente diferente à paisagem. A coisa curiosa era que a dupla imagem havia desaparecido e tudo era de novo uma coisa, mas não havia nenhum sinal de Sombras.
Mary foi separando as duas peças, observando como a aparência das coisas mudava à medida que o fazia. Quando estavam afastadas cerca de um palmo, algo curioso aconteceu: a coloração âmbar desapareceu e tudo parecia ter sua cor normal, mas em tom mais lustroso e mais vivido. Naquele ponto Atai aproximou-se para ver o que ela estava fazendo. Agora já pode ver srafi?, perguntou.
Não, mas posso ver outras coisas, respondeu Mary, e tentou mostrar a ela.
Atai estava interessada, mas apenas por educação, sem nem um pouco do sentimento de descoberta que animava Mary, e logo a zalif se cansou de olhar através das pequenas placas de laca e se acomodou na relva para cuidar da manutenção de suas rodas. Por vezes, os mulefas cuidavam das garras uns dos outros, por pura sociabilidade, e, uma ou duas vezes, Atai havia convidado Mary a cuidar das suas. Mary, por sua vez, deixava Atai arrumar seu cabelo, apreciando como a tromba macia o levantava e deixava cair, acariciando e massageando seu couro cabeludo.
Ela percebeu que Atai queria fazer isso agora, de modo que largou as duas placas de laca e passou as mãos sobre a superfície incrivelmente lisa e macia das garras de Atai, aquela superfície mais macia e escorregadia que se encaixava na borda inferior do buraco central e servia de mancal quando a roda girava. Os contornos se encaixavam com perfeição, é claro, e quando Mary passou a mão pelo interior da roda não sentiu nenhuma diferença de textura: era como se os mulefas e as nozes realmente fossem um único ser que, por um milagre, podiam se separar e depois se encaixar unindo-se de novo.
Esse contato acalmava Atai e, portanto, Mary também. Sua amiga era jovem e solteira, e não havia jovens machos naquele grupo, de modo que ela teria que se casar com um zalif de fora, mas, contatos com outros grupos não eram fáceis, e por vezes Mary achava que Atai se preocupava com seu futuro. De maneira que não se incomodava com o tempo que passava com ela e naquela ocasião estava contente por limpar os buracos da roda de toda a poeira e fuligem que ali se acumulavam, e espalhar gentilmente o óleo perfumado sobre as garras de sua amiga, enquanto a tromba de Atai se levantava arrumando seus cabelos.
Quando Atai estava satisfeita, voltou a encaixar suas rodas e se afastou para ajudar na preparação da refeição da noite. Mary retomou suas placas de laca e quase que imediatamente fez a descoberta.
Ela levantou as duas placas, mantendo-as a uma distância de um palmo uma da outra, de modo que mostrassem a imagem nítida e clara que vira anteriormente, mas alguma coisa havia acontecido.
Enquanto olhava através delas, viu um enxame de cintilações douradas rodeando a silhueta de Atai. As cintilações só eram visíveis através de uma pequena parte da laca e então Mary se deu conta do porquê: naquele ponto havia pegado na superfície com os dedos cobertos de óleo.
— Atai! — chamou. — Depressa! Volte aqui!
Atai se virou e veio rodando.
— Deixe-me tirar um pouco de óleo — pediu Mary — só o bastante para passar sobre as placas de laca.
De boa vontade, Atai deixou que ela tornasse a passar os dedos pelos buracos das rodas e observou curiosamente enquanto Mary cobria uma das placas com um filme da substância suave e límpida.
Então ela juntou e pressionou as placas uma contra a outra, e as fez girar, para espalhar o óleo de maneira uniforme e, mais uma vez, as levantou mantendo-as a uma distância de um palmo uma da outra.
E quando olhou através delas, tudo estava diferente. Ela podia ver Sombras. Se Mary tivesse estado na Sala Privativa da Faculdade Jordan quando Lorde Asriel havia projetado os fotogramas que tinha feito com a emulsão especial, teria reconhecido o efeito. Por toda parte para onde olhava havia partículas de ouro, exatamente como Atai havia descrito: cintilações de luz, flutuando e se deslocando, por vezes movendo-se numa corrente de intenção, um fluxo com direção e propósito. Em meio a tudo aquilo estava o mundo que ela via a olho nu: a relva, o rio, as árvores, mas onde quer que visse um ser consciente, um dos mulefas, a luz era mais espessa e mais cheia de movimento. A luz de maneira alguma obscurecia suas formas, ao contrário, tornava-as mais nítidas.
Eu não sabia que era bonito, disse Mary para Atai.
Ora, mas é claro que é, respondeu sua amiga. É estranho imaginar que você não pudesse ver. Olhe para o pequenino...
Ela indicou uma das crianças pequenas brincando na relva alta, saltando desajeitadamente atrás de gafanhotos, parando de repente para examinar uma folha, tropeçando e caindo, logo se levantando depressa outra vez, para ir correndo dizer alguma coisa para sua mãe, se distraindo novamente com um pedaço de galho partido, tentando apanhá-lo, descobrindo formigas em sua tromba e gritando cheio de agitação... Havia uma névoa dourada em volta dele, da mesma forma que em volta dos abrigos, das redes de pesca, da fogueira acesa — contudo, a dele era mais forte, embora não muito. Porém, ao contrário da névoa que envolvia as outras coisas, a dele era cheia de pequenas correntes rodopiantes de intenção, que se moviam em círculos, em redemoinhos que, de repente, paravam de se mover e ficavam flutuando, se deslocando no ar até desaparecer, enquanto outros nasciam.
Por outro lado, já ao redor de sua mãe, as partículas douradas cintilantes eram muito mais intensas, e as correntes em que se moviam eram mais tranquilas e mais fortes. Ela estava preparando a comida, espalhando farinha numa pedra achatada, fazendo o pão fino que se parecia com pão sírio ou tortilhas, ao mesmo tempo vigiando seu filho, e as Sombras ou o srafon ou Pó que a banhava parecia a mais perfeita imagem de responsabilidade e de sábia atenção e cuidado.
Então finalmente você consegue ver, disse Atai. Bem, agora deve vir comigo.
Mary olhou para sua amiga sem compreender. O tom de Atai era estranho: era como se estivesse dizendo: “Finalmente você está pronta, estivemos esperando, agora as coisas têm que mudar!”
E outros estavam aparecendo, vindo do outro lado da colina, saindo de seus abrigos, vindo da margem do rio: membros do grupo, mas estranhos também, mulefas que ela não conhecia e que olhavam curiosamente para onde ela estava.
O som de suas rodas na terra batida era baixo e constante.
Para onde devo ir?, perguntou Mary. Por que todos eles estão vindo para cá?
Não se preocupe, disse Atai, venha comigo, não vamos machucar você.
Aquela reunião parecia ter sido planejada há muito tempo, pois todos eles sabiam para onde ir e o que esperar. Havia um monte, uma pequena elevação, numa das extremidades do povoado, que tinha uma forma simétrica e era coberto de terra batida compactada, com rampas em cada um dos cantos, e o grupo de mulefas — mais ou menos uns 50, no mínimo, Mary calculava — estava se dirigindo para ele. A fumaça das fogueiras onde se cozinhava pairava no ar do entardecer e o sol que se punha espalhava seu tipo particular de névoa dourada sobre tudo, e Mary sentia o cheiro de milho assando, e o cheiro agradável característico dos mulefas — parte óleo, parte carne de temperatura relativamente alta e constante, um cheiro doce parecido com o de cavalos. Atai insistiu para que ela seguisse para o monte.
O que está acontecendo? Conte-me!, pediu Mary.
Não, não... Não eu. Sattamax vai falar...
Mary não conhecia o nome Sattamax e o zalif que Atai indicou era um estranho para ela. Era mais velho do que qualquer um que tivesse visto até então: na base de sua tromba havia uns tufos de fios brancos dispersos e ele se movia com dificuldade, como se tivesse artrite. Todos os outros se movimentavam com cuidado em torno dele e quando Mary deu uma espiada através das placas de laca, viu por que: a nuvem de Sombras do velho zalif era tão rica e complexa que a própria Mary sentiu-se tomada por um grande respeito, embora soubesse muito pouco sobre o que aquilo significava. Quando Sattamax estava pronto para falar, o resto do grupo ficou em silêncio. Mary parou bem perto do monte, Atai manteve-se junto dela, para tranquilizá-la, mas podia perceber todos os olhos cravados nela e se sentia como se fosse uma aluna nova, no primeiro dia de aula.
Sattamax começou a falar. Sua voz era grave, com tons ricos e variados, os gestos de sua tromba, pequenos e graciosos.
Estamos todos aqui reunidos para dar as boas-vindas à estrangeira Mary. Aqueles dentre nós que já a conhecem têm motivos para ser gratos a ela por suas atividades desde que chegou para viver entre nós. Esperamos até que ela tivesse algum domínio de nossa língua. Com a ajuda de muitos de nós, mas especialmente da zalif Atai, a estrangeira Mary agora pode nos compreender. Mas havia uma outra coisa que ela precisava compreender e isso era o sraf. Ela sabia de sua existência, mas não podia vê-lo como nós, até que fez um instrumento através do qual pôde olhar. E agora que conseguiu, está pronta para aprender mais sobre o que deve fazer para nos ajudar. Mary, suba até aqui, venha ficar junto comigo.
Ela se sentia atordoada, embaraçada, perplexa e confusa, mas fez o que tinha que fazer e subiu, posicionando-se ao lado do velho zalif. Achou que era melhor falar, de modo que começou:
Todos vocês fizeram com que eu me sentisse como uma amiga. São gentis e hospitaleiros. Eu venho de um mundo onde a vida é muito diferente, mas alguns de nós têm conhecimento do sraf, como vocês, e estou grata pela ajuda que me deram para fazer este vidro através do qual posso vê-lo. Se, de alguma maneira, eu puder ajudá-los, terei muito prazer em fazê-lo.
Ela falou de maneira muito mais desajeitada do que quando conversava com Atai e ficou temerosa de não ter sido muito clara no que dissera. Era difícil saber para onde se virar quando se tinha que gesticular ao mesmo tempo em que se falava, mas eles pareceram compreender.
Sattamax de novo tomou a palavra.
É bom ouvi-la falar. Esperamos que possa nos ajudar. Se não puder, não sei como sobreviveremos. Os tualapi matarão todos nós. Há mais deles do que jamais houve e, a cada ano que passa, o número deles aumenta. Alguma coisa em nosso mundo saiu de seu eixo. Durante a maioria dos 33 mil anos desde que os mulefas existem, sempre cuidamos da terra. Tudo era equilibrado. As árvores prosperavam, os animais de pasto eram saudáveis e, mesmo que de vez em quando os tualapi atacassem, a proporção entre quantos de nós e quantos deles existiam permanecia constante. Mas há 300 anos as árvores começaram a adoecer. Nós as observamos com preocupação e tratamos delas com grande cuidado, mas mesmo assim descobrimos que estavam produzindo menos nozes e perdendo suas folhas fora da estação, algumas delas morreram imediatamente, algo que jamais havia acontecido. Toda a nossa memória reunida não foi capaz de encontrar uma causa para isso. Sem dúvida, tudo isso aconteceu lentamente, mas também é lento o ritmo de nossa vida. Não sabíamos disso até que você viesse. Tínhamos visto borboletas e pássaros, mas eles não têm sraf. Você tem, por mais estranha que possa nos parecer, mas é rápida e age de imediato, como os pássaros, como as borboletas. Você percebeu que havia necessidade de alguma coisa para ajudá-la a ver sraf e no mesmo instante, com os materiais que conhecemos há milhares de anos, inventou um instrumento para fazer isso. Comparada conosco, você pensa e age com a velocidade de um pássaro. É assim que nos parece, e é por isso que sabemos que nosso ritmo parece lento para você. Mas esse fato é nossa única esperança. Você pode ver coisas que não podemos, consegue ver conexões, possibilidades e alternativas que são invisíveis para nós, exatamente como o sraf era invisível para você. E embora não possamos ver uma maneira de sobreviver, esperamos que você possa. Esperamos que você descubra rapidamente a causa da doença das árvores e encontre uma cura, esperamos que invente um meio de lidarmos com os tualapi, que são tão numerosos e tão fortes. E esperamos que possa fazê-lo brevemente, caso contrário todos nós morreremos.
Houve um murmúrio de acordo e aprovação do grupo. Todos eles olhavam para Mary e ela se sentia, mais do que nunca, como a nova aluna numa escola que aguardasse com convicção e grandes esperanças seu bom desempenho.
Também sentia-se estranhamente lisonjeada: a imagem de si mesma como sendo rápida e ágil como um pássaro era nova e agradável, porque sempre havia pensado em si mesma como determinada e vagarosa. Mas junto com isso veio o sentimento de que eles haviam percebido as coisas de maneira terrivelmente errada, se a viam desse modo, que absolutamente não compreendiam, ela não tinha a menor possibilidade de satisfazer aquela esperança desesperada que alimentavam.
Mas, da mesma maneira, tinha. Eles estavam esperando.
Sattamax, disse, mulefas, vocês depositaram sua confiança em mim e farei o melhor que puder. Vocês têm sido gentis e a vida de vocês é boa e bonita, de modo que tentarei com todo o meu empenho ajudar vocês, e agora que vi o sraf, sei o que estou fazendo. Obrigada por confiarem em mim.
Eles assentiram, murmuraram e a acariciaram com suas trombas, enquanto ela descia. Estava amedrontada com o que havia concordado em fazer.
Exatamente naquele momento no mundo de Cittàgazze, o padre assassino, Padre Gomez, vinha caminhando com esforço, subindo por uma trilha difícil e irregular nas montanhas, entre os troncos retorcidos das oliveiras. A luz do entardecer passava obliquamente entre as folhas prateadas e a atmosfera estava cheia do ruído de grilos e cigarras.
Mais adiante ele podia avistar uma pequenina casa de fazenda, abrigada entre os vinhedos, onde uma cabra balia e um riacho corria descendo pelos rochedos cinzentos. Havia um homem idoso cuidando de alguma tarefa ao lado da casa e uma mulher idosa conduzindo a cabra na direção de um banco e um balde.
Na aldeia, a alguma distância mais para trás, haviam-lhe dito que a mulher que estava seguindo tinha passado por ali e que havia falado em subir para as montanhas, talvez aquele casal de velhos a tivesse visto. No mínimo poderia haver queijo e azeitonas para comprar e água da nascente para beber. O Padre Gomez estava muito habituado a viver frugalmente e havia tempo de sobra.

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