4 de fevereiro de 2017

17. As feiticeiras

LYRA gemia e tremia incontrolavelmente, como se tivesse sido retirada de uma água tão fria que quase congelara seu coração. Pantalaimon simplesmente encontrara um lugarzinho junto à pele nua dentro das roupas de Lyra, acalmando a menina com o seu amor, mas durante todo o tempo ele estava consciente da Sra. Coulter, ocupada em preparar uma bebida ou algo assim, e principalmente do macaco dourado, cujos dedinhos tinham percorrido o corpo de Lyra quando só Pantalaimon poderia ter percebido e tinham sentido a sacola de lona pendurada na cintura dela.
— Sente-se um pouco, querida, e beba isto — disse a Sra. Coulter.
Seu braço carinhoso rodeou os ombros de Lyra e a levantou. Lyra ia resistir, mas relaxou imediatamente, quando Pantalaimon lhe transmitiu um pensamento: “Só ficaremos em segurança se soubermos fingir.” Ela abriu os olhos e percebeu que eles estavam cheios de lágrimas, e para sua própria surpresa e vergonha começou a chorar incontrolavelmente.
A Sra. Coulter, com frases de consolo, colocou a bebida nas mãos do macaco enquanto enxugava os olhos de Lyra com um lencinho perfumado.
— Chore à vontade, querida — disse, com sua voz suave.
Lyra então resolveu parar assim que conseguisse. Ela fez o que pôde para conter as lágrimas, apertou os lábios e engoliu os soluços que ainda lhe sacudiam o peito.
Pantalaimon fazia o mesmo: enganá-los, enganá-los. Ele se tornou um rato e foi de mansinho farejar timidamente a bebida na mão do macaco. Não havia nada de estranho: um chá de camomila, só isso. Ele voltou para o ombro de Lyra e sussurrou:
— Beba.
Ela se sentou e pegou a xícara quente com as duas mãos, bebericando e soprando para esfriar o chá. Mantinha os olhos baixos. Tinha que representar melhor do que jamais fizera na vida.
— Lyra, querida — murmurou a Sra. Coulter lhe acariciando os cabelos. — Pensei que tínhamos perdido você para sempre! Que foi que aconteceu? Você se perdeu? Alguém tirou você do apartamento?
— Foi — Lyra sussurrou.
— Quem fez isso, querida?
— Um homem e uma mulher.
— Convidados da festa?
— Acho que sim. Disseram que a senhora precisava de uma coisa que estava no andar térreo, e eu fui buscar. Eles me agarraram e me levaram num carro. Mas quando pararam, eu fugi depressa e me escondi, e eles não me acharam. Mas eu não sabia onde estava...
Outro soluço a interrompeu, agora mais fraco, e ela podia fingir que ele tinha sido provocado pela história que estava contando.
— E fiquei perdida, tentando encontrar o caminho de volta, mas então os Gobblers me pegaram... E me puseram numa camionete com outras crianças e me levaram para um lugar, uma casa muito grande, não sei onde era.
A cada segundo que se passava, a cada frase inventada, ela se sentia um pouco mais forte. E agora que estava fazendo algo difícil e habitual e nunca muito previsível, que era mentir, ela tornou a sentir uma espécie de segurança, o mesmo senso de complexidade e controle que o aletiômetro lhe dava. Tinha que tomar cuidado para não dizer alguma coisa obviamente impossível; devia ser vaga em certas partes e inventar detalhes aceitáveis em outras; em suma, tinha que ser uma artista.
— Quanto tempo você ficou na casa? — quis saber a Sra. Coulter.
A viagem de Lyra pelos canais e o tempo que ela passara com os gípcios tinham levado semanas; ela precisava justificar esse tempo. Então inventou uma viagem com os Gobblers para Trollesund, e depois uma fuga, cuja invenção lhe deu a oportunidade de mencionar muitos detalhes de suas observações da cidade; e algum tempo trabalhando como criada no Bar de Einarsson, e então algum tempo trabalhando para uma família de fazendeiros no interior, depois presa pelos samoiedes e levada para Bolvangar.
— E eles iam... iam cortar...
— Psiu, querida. Vou descobrir o que está acontecendo.
— Mas por que iam fazer isso? Nunca fiz nada errado! Todas as crianças têm medo do que acontece lá, e ninguém sabe o que é. Mas é horrível. É a pior coisa... Por que estão fazendo isso, Sra. Coulter? Por que são tão cruéis?
— Pronto, pronto... Você está em segurança, minha querida. Nunca farão isso com você. Agora que a encontrei, nunca mais estará em perigo. Ninguém vai lhe fazer mal, querida Lyra; ninguém jamais vai magoá-la...
— Mas fazem isso com outras crianças! Por quê?
— Ah, meu amor...
— É o Pó, não é?
— Eles lhe disseram isso? Os médicos disseram isso?
— As crianças sabem. Todas falam sobre isso, mas ninguém sabe direito! E quase fizeram aquilo comigo... A senhora tem que me dizer! A senhora agora não pode mais esconder!
— Lyra... Lyra, querida, são coisas complicadas, o Pó e o resto. Não é assunto para uma criança se preocupar. Mas os médicos fazem isso pelo bem da própria criança, meu amor. O Pó é uma coisa ruim, uma coisa errada, uma coisa má e perversa. Os adultos e seus dimons estão infectados de Pó tão profundamente que para eles é tarde demais. Mas uma simples operação numa criança faz com que fiquem a salvo. O Pó não vai mais se prender a elas. Elas ficam seguras e felizes e...
Lyra pensou no pequeno Tony Makarios; inclinou-se para a frente e parecia que ia vomitar. A Sra. Coulter a soltou.
— Você está bem, minha querida? Vá ao banheiro...
Lyra engoliu em seco e esfregou os olhos.
— Não precisam fazer isso com a gente — disse. — Podiam nos deixar em paz. Aposto que Lorde Asriel não deixaria eles fazerem isso, se soubesse o que está acontecendo. Se ele tem o Pó e a senhora também, e o Reitor da Jordan e todos os adultos também, deve estar certo. Quando eu sair, vou contar isso a todas as crianças do mundo. De qualquer maneira, se é uma coisa tão boa, por que a senhora impediu que fizessem comigo? Se fosse uma coisa boa, a senhora devia ter deixado. Devia ficar feliz.
A Sra. Coulter sacudiu a cabeça e sorriu um sorriso triste e sábio.
— Querida, certas coisas boas doem um pouco, e naturalmente outras pessoas ficam perturbadas se você fica... Mas não significa que levem seu dimon para longe de você. Meu Deus, muitos adultos aqui fizeram essa operação. As enfermeiras parecem bastante felizes, não parecem?
Lyra pestanejou; de repente entendia a estranha apatia e falta de curiosidade das enfermeiras, o modo como seus pequenos dimons pareciam sonâmbulos.
Ela pensou: não diga nada. E ficou de boca fechada.
— Minha querida, ninguém sonharia em fazer uma cirurgia numa criança sem realizar testes antes. E ninguém, nem em mil anos, conseguiria afastar uma criança e seu dimon! Tudo que acontece é um pequeno corte, e então fica tudo bem. Para sempre! Entende, quando a pessoa é criança, o dimon dela é um amigo e companheiro maravilhoso, mas na idade que chamamos de puberdade, a idade que você logo terá, querida, os dimons trazem todo tipo de pensamentos e sentimentos perturbadores, e é isso que deixa o Pó entrar. Uma pequena operação antes disso faz com que a criança nunca se perturbe. E o dimon continua com ela, só que... desligado. Como um... como um maravilhoso bichinho de estimação, por exemplo. O melhor bichinho de estimação do mundo! Você não gostaria disso?
Ah, que hipócrita perversa, quantas mentiras deslavadas ela dizia! E mesmo se Lyra não soubesse que eram mentiras (Tony Makarios, os dimons nas caixas de vidro...), ela teria odiado aquela ideia: sua alma querida, o caro companheiro do seu coração, cortado dela e reduzido a um bichinho de estimação? Lyra quase fervia de ódio, e em seus braços Pantalaimon se transformou num gato-do-mato, a mais feia e perversa de todas as suas formas, e rosnou.
Mas nada disseram. Lyra segurou Pantalaimon com força e deixou a Sra. Coulter acariciar seus cabelos.
— Beba seu chá — disse a Sra. Coulter em tom carinhoso. — Vou mandar preparar uma cama para você aqui. Não é preciso voltar para o dormitório com as outras garotas, agora que tenho de volta minha pequena secretária. A minha favorita! A melhor secretária do mundo. Reviramos Londres inteira atrás de você, sabia, minha querida? E a polícia procurou em todas as cidades. Ah, senti tanta saudade! Nem sei dizer como estou feliz por ter encontrado você!
Durante todo esse tempo, o macaco dourado não parara quieto, num minuto empoleirado na mesa balançando o rabo, no outro minuto agarrado à Sra. Coulter, falando baixinho em seu ouvido, no minuto seguinte andando de um lado para outro com a cauda ereta. Ele estava mostrando a impaciência que a Sra. Coulter sentia e que finalmente ela não conseguiu mais controlar.
— Lyra, minha querida — disse. — Acho que o Reitor da Jordan lhe deu uma coisa antes de você ir embora. Estou certa? Ele lhe deu um aletiômetro. O problema é que o instrumento não era dele, ele apenas tomava conta. É uma coisa valiosa demais para ficar por aí. Só existem dois ou três no mundo inteiro, sabia? Acho que o Reitor lhe deu o aletiômetro na esperança de que ele caísse nas mãos de Lorde Asriel. Ele lhe disse para não me contar, não foi?
Lyra torceu a boca.
— É, estou vendo que sim. Bom, não tem importância, querida, porque você não me contou, certo? Então não quebrou sua promessa. Mas escute, querida, é uma coisa que devia ser guardada com cuidado. É tão rara e delicada que infelizmente não podemos deixar que corra riscos.
— Por que Lorde Asriel não pode ter essa coisa? — Lyra perguntou.
— Por causa do que ele está fazendo. Você sabe que ele foi exilado porque pretende fazer uma coisa errada e perigosa. Ele precisa do aletiômetro para terminar seu plano, mas pode acreditar, minha querida, a última coisa que alguém devia fazer é dar o aletiômetro a ele. Infelizmente o Reitor da Jordan estava enganado. Mas agora que você sabe, não seria melhor me dar para guardar? Você ficaria livre de ter que carregar isso por aí e da preocupação de tomar conta dele. E você deve ter ficado mesmo curiosa, querendo saber para que servia uma coisa boba e velha como essa...
Lyra se perguntou como foi que tinha um dia achado aquela mulher fascinante e inteligente.
— Então, se você está com ele agora, querida, é melhor me dar para eu tomar conta. Está pendurado na sua cintura, não está? É, foi inteligente guardar assim...
Ela levantou a saia de Lyra e começou a desamarrar o cinto de lona. Lyra ficou tensa. O macaco dourado estava agachado no pé da cama, tremendo de ansiedade, as mãozinhas pretas junto à boca. A Sra. Coulter puxou o cinto da cintura de Lyra e desabotoou a sacola. Tinha a respiração ofegante. Ela tirou o embrulho de veludo negro e desdobrou o pano, encontrando a lata que Iorek Byrnison tinha feito.
Pantalaimon era novamente um gato pronto para saltar. Lyra puxou as pernas, afastando-as da Sra. Coulter, e apoiou os pés no chão, para que ela também pudesse correr quando chegasse a hora.
— Que é isso? — perguntou a Sra. Coulter, como se achasse graça. — Que lata engraçada! Você colocou ele aí dentro para ficar seguro, minha querida? Todo esse musgo... Você foi cuidadosa, não foi? Outra lata, dentro da primeira! E soldada! Quem fez isso, minha querida?
Ela estava preocupada demais em abrir a lata para esperar a resposta. Tirou da bolsa um canivete com várias ferramentas, abriu uma lâmina e enfiou sob a tampa.
No mesmo instante, um zumbido furioso encheu o quarto.
Lyra e Pantalaimon ficaram imóveis. A Sra. Coulter, admirada e curiosa, puxou a tampa, e o macaco dourado se debruçou para ver de perto.
Então, como uma centelha, a forma negra da mosca-espiã saiu da lata e colidiu com força com o focinho do macaco.
O animal gritou e se jogou para trás; naturalmente, a Sra. Coulter também estava sentindo a dor e o medo do macaco e gritou junto com ele, e então o pequeno demônio mecânico se voltou para ela e partiu em direção ao seu rosto.
Lyra não hesitou; quando Pantalaimon saltou para a porta, ela foi atrás, abriu-a e correu como nunca tinha corrido na vida.
— O alarme de incêndio! — Pantalaimon grunhiu, correndo na frente dela.
Ela viu um alarme na parede e quebrou o vidro com um soco desesperado. E tornou a sair correndo na direção dos dormitórios, acionando todos os alarmes que encontrava, e então os corredores começaram a se encher de pessoas olhando em volta à procura do incêndio.
A essa altura, ela estava perto da cozinha; Pantalaimon lhe mandou um pensamento e ela entrou correndo. Momentos depois, tinha aberto todos os bicos de gás e jogado um fósforo aceso no bico mais próximo. Depois pegou um saco de farinha e o jogou com força de encontro à beirada da mesa, explodindo o saco e enchendo o ar de branco, pois ouvira dizer que a farinha no ar explode perto do fogo.
Depois, saiu correndo para seu próprio dormitório. Os corredores agora estavam cheios, com crianças correndo para todos os lados, muito excitadas, pois a história do plano de fuga havia se espalhado. As mais velhas estavam indo para os depósitos onde as roupas ficavam guardadas, levando com elas as mais novas. Os adultos tentavam controlar tudo, e nenhum deles sabia o que estava acontecendo. Por toda parte havia pessoas gritando, empurrando, chorando.
Lyra e Pantalaimon atravessaram tudo aquilo, seguindo sempre na direção do dormitório; assim que chegaram lá ouviram uma explosão surda que sacudiu o prédio.
As outras meninas tinham fugido, o lugar estava deserto. Lyra arrastou a mesa de cabeceira para o canto, subiu nela, puxou suas roupas do teto, procurou o aletiômetro, estava bem seguro. Vestiu-se depressa, puxando o capuz para encobrir o rosto, e então Pantalaimon, uma andorinha junto à porta, avisou:
— Agora!
Ela correu para fora. Por sorte algumas crianças que já haviam encontrado agasalhos estavam correndo pelo corredor na direção da entrada principal, e ela se juntou ao grupo, suando, o coração disparado, sabendo que tinha que fugir ou então morreria.
Porém, o caminho estava bloqueado; o incêndio na cozinha se espalhara, e a explosão — por causa do gás ou da farinha — tinha derrubado parte do telhado. As pessoas subiam por cima das vigas retorcidas para chegar ao frio cortante do ar livre. O cheiro de gás era forte.
Então houve outra explosão, mais forte que a primeira. O impacto derrubou muita gente, e gritos de medo e dor encheram o ar.
Lyra lutou para se levantar, com Pantalaimon gritando “Por aqui! Por aqui!”, e com esforço subiu pelos destroços. O ar estava gelado, e ela esperava que as crianças tivessem conseguido encontrar suas roupas; seria o cúmulo conseguir fugir da Estação para morrer de frio!
Agora as chamas estavam altas. Quando ela chegou ao telhado sob o céu noturno, viu as labaredas lambendo as bordas de um grande buraco na lateral do prédio. Havia uma multidão de crianças e adultos junto à entrada principal, mas dessa vez os adultos estavam mais agitados e as crianças estavam mais assustadas — muito mais assustadas.
— Roger! Roger! — Lyra gritou, e Pantalaimon, com a visão aguçada de uma coruja, avisou que já o tinha visto.
No momento seguinte, eles se encontraram.
— Diga a todos que venham comigo! — Lyra gritou no ouvido dele.
— Eles não vão... Estão apavorados...
— Conte o que eles fazem com as crianças que desaparecem! Cortam os dimons delas com uma faca enorme. Conte o que você viu esta tarde, os dimons que nós soltamos! Diga que isso vai acontecer com elas também se não fugirem!
Roger estava horrorizado, mas conseguiu se controlar e correu para o grupo de crianças mais próximo. Lyra fez o mesmo, e logo as crianças se agarravam aos seus dimons.
— Venham comigo! — Lyra gritou. — Está vindo ajuda! Temos que sair daqui! Vamos, corram!
As crianças ouviram e obedeceram, correndo pela praça na direção da avenida de luzes.
Atrás delas, os adultos gritavam, e houve um estrondo quando outra parte do prédio desabou. As centelhas subiram no ar, e as chamas incharam com o som como o de roupa rasgada. Porém, acima de todo esse ruído, se ouviu outro som, terrivelmente próximo e violento. Lyra nunca o tinha ouvido antes, mas soube imediatamente do que se tratava: era o uivo dos dimons-lobas dos guardas tártaros. Ela sentiu uma onda de fraqueza da cabeça aos pés, e muitas crianças ficaram como que pregadas no chão, apavoradas, pois correndo surgiu o primeiro dos guardas tártaros, rifle empunhado e a sombra enorme e cinzenta do seu dimon logo atrás.
Então surgiu outro, e mais outro. Estavam todos de armadura, os olhos invisíveis por trás das fendas dos elmos. Os únicos olhos à vista eram os orifícios redondos e negros da ponta do cano dos rifles e os olhos amarelos e brilhantes dos dimons-lobas acima das bocarras cheias de saliva.
Lyra hesitou. Não tinha imaginado como aquelas lobas eram apavorantes. E agora que conhecia a tranquilidade com que as pessoas de Bolvangar desobedeciam ao grande tabu, ela se apavorou com a ideia daqueles dentes...
Os tártaros fizeram uma barreira na frente da entrada da avenida de luzes, com seus dimons ao lado, disciplinados e treinados como eles. Logo haveria uma segunda barreira, pois vinham mais guardas, e mais ainda atrás desses. Lyra pensou, desesperada: crianças não podem lutar contra soldados. Não era como as batalhas nos Barreiros de Oxford, quando ela arremessava bolas de lama nos filhos dos oleiros.
Ou talvez fosse! Ela se lembrava de ter jogado um punhado de lama no rosto largo de um menino da olaria que a atacava; ele havia parado para tirar a lama dos olhos e então os aliados dela o atacaram.
Na ocasião, ela estava no meio do barro; agora estava no meio da neve.
Exatamente como tinha feito naquela tarde, mas agora com grande ansiedade, ela fez uma bola de neve e jogou a primeira no soldado mais próximo.
— Joguem nos olhos! — ela gritou, e jogou outra bola de neve.
Outras crianças a imitaram, e então o dimon de alguém teve a ideia de voar ao lado das bolas e garantir que elas fossem diretamente para dentro das fendas dos elmos. Logo todos faziam isso, e em poucos momentos os tártaros estavam cambaleantes, praguejando e tentando tirar a neve pela fenda estreita em frente aos olhos.
— Vamos! — Lyra gritou, e saiu em disparada pelo portão para a avenida de luzes.
Todas as crianças foram atrás dela, evitando as lobas e correndo o quanto podiam pela avenida em direção à escuridão que as esperava.
Um oficial gritou uma ordem, e todos os rifles foram destravados ao mesmo tempo; houve outro grito e um silêncio tenso, tudo que se ouvia eram os passos e a respiração ofegante das crianças em fuga.
Os soldados estavam fazendo pontaria. Não iam errar.
Mas antes que o primeiro tiro fosse disparado, um grito de um dos tártaros quebrou o silêncio e exclamações de surpresa começaram a ser ouvidas aqui e ali.
Lyra parou e, quando se virou, viu um homem caído na neve, com uma flecha de ponta de penas cinzentas enfiada nas costas. Ele se contorcia e tossia, cuspindo sangue, e os outros soldados olhavam em volta procurando quem havia atirado a flecha, mas o arqueiro não estava à vista.
Então uma flecha veio voando do céu e atingiu outro homem na nuca. Ele caiu. O oficial gritou, e todos olharam para o céu escuro.
— Feiticeiras! — disse Pantalaimon.
E eram mesmo: figuras elegantes voando lá em cima, o ar zunindo por entre folhas dos galhos de pinheiro-nubígeno em que elas voavam. Enquanto Lyra observava, uma das figuras deu um rasante e soltou uma flecha; outro homem caiu.
Então todos os tártaros levantaram os rifles e atiraram para o alto, para nada — sombras, nuvens —, enquanto mais flechas choviam sobre eles.
Mas o oficial comandante, vendo que as crianças fugiam, mandou um destacamento atrás delas. Algumas crianças gritaram, depois outras, e finalmente todas pararam, apavoradas pela figura monstruosa que saíra da escuridão e vinha sobre elas.
— Iorek Byrnison! — Lyra gritou, o peito quase explodindo de alegria.
O urso de armadura parecia não ter consciência de outra coisa além do seu alvo de ataque; passou por Lyra como um raio e caiu sobre os tártaros, espalhando soldados, dimons e rifles para todos os lados. Então parou e girou, com força e flexibilidade, e desfechou dois socos, um para cada lado, nos guardas mais próximos.
Um dimon-loba pulou sobre ele; Iorek rasgou sua carne em pleno ar, e o dimon caiu sobre a neve com o sangue espirrando como se fosse fogo e ficou se contorcendo e uivando até desaparecer. Seu humano morreu imediatamente.
O oficial tártaro, ao enfrentar esse ataque duplo, não hesitou, gritou uma longa ordem, e o corpo de guarda se dividiu em dois: um para o contra-ataque às feiticeiras e o grupo maior para dominar o urso. Os soldados foram incrivelmente corajosos; se ajoelharam em grupos de quatro e dispararam seus rifles como se estivessem fazendo um treinamento, e não se moveram nem mesmo quando viram Iorek vindo em sua direção. No momento seguinte, estavam mortos.
Iorek atacou outra vez, enquanto as balas voavam à sua volta como moscas, sem lhe fazer mal. Lyra levava as crianças para a escuridão que havia depois da avenida de luzes. Elas deviam se afastar, pois, por mais perigosos que fossem os tártaros, muito mais perigosos eram os adultos de Bolvangar.
Então ela gritou, gesticulou e empurrou para que as crianças avançassem. Enquanto as luzes ficavam para trás, lançando sombras compridas na neve, Lyra sentia o coração se alegrar no frio e na pureza da escura noite do Ártico, assim como Pantalaimon, que agora era uma lebre feliz em poder correr pela neve.
— Aonde é que nós vamos? — alguém perguntou.
— Lá na frente só tem neve! — disse outro.
— Está vindo um grupo de resgate — Lyra lhes contou. — São uns cinquenta gípcios. Aposto que alguns são parentes de vocês. Todas as famílias gípcias que perderam uma criança mandaram alguém.
— Eu não sou gípcio — disse um menino.
— Não faz diferença. Vão levar você também.
— Para onde? — alguém perguntou em tom agressivo.
— Para casa — Lyra respondeu. — Foi para isso que eu vim, para salvar vocês, e trouxe os gípcios até aqui para levarem vocês para casa. Só temos que andar mais um pouquinho. O urso estava com eles, então não devem estar longe.
— Viram aquele urso? — falou um menino. — Quando ele rasgou aquele dimon, o homem morreu como se tivessem arrancado o coração dele.
— Eu nunca soube que os dimons podem ser mortos — disse outra criança.
Agora todos estavam falando; a agitação e o alívio destravaram a língua de todos. Não tinha importância que conversassem, contanto que continuassem andando.
— É verdade que eles fazem aquilo lá dentro? — perguntou uma menina.
— É, sim — Lyra confirmou. — Nunca pensei que um dia ia ver uma pessoa sem um dimon. Mas no caminho daqui encontramos um menino sozinho, sem dimon. Ele não parava de perguntar por ele, onde ele estava, se ele ia conseguir achá-lo. O nome dele era Tony Makarios.
— Eu conheço! — disse alguém.
— É, levaram ele há uma semana...
— Bom, cortaram e tiraram o dimon dele — Lyra revelou, sabendo que isso os afetaria. — E ele morreu logo depois. E todos os dimons que eles cortam eles guardam em caixas de vidro numa casinha lá atrás.
— É verdade, e Lyra soltou eles durante o treinamento de incêndio — disse Roger.
— É, eu vi! — disse Billy Costa. — Primeiro eu não sabia o que eram, mas vi quando foram embora voando com aquele ganso.
— Mas por que fazem isso? — um menino quis saber. — Por que tiram os dimons das pessoas? Isso é tortura! Por que fazem isso?
— Por causa do Pó? — sugeriu alguém.
Mas o garoto riu com zombaria.
— O Pó! — ecoou. — Isso não existe! Eles inventaram! Eu não acredito nesse Pó.
— Ei, vejam o que está acontecendo com o zepelim! — avisou alguém.
Todos olharam para trás. Além das luzes, onde o combate ainda prosseguia, o enorme corpo da aeronave não estava mais flutuando serenamente, preso ao mastro; a extremidade oposta estava afundando e atrás dela se erguia um globo que parecia ser...
— O balão de Lee Scoresby! — Lyra exclamou, batendo palmas.
As outras crianças estavam muito admiradas. Lyra as levou para a frente, pensando como o aeróstata tinha conseguido trazer seu balão tão longe. Era óbvio o que ele estava fazendo, e era uma ótima ideia: encher seu balão com o gás do balão deles, para poder fugir ao mesmo tempo em que impedia a perseguição!
Algumas das crianças estavam tremendo e gemendo de frio, e seus dimons também choravam.
— Vamos, não parem de andar, senão vão congelar — Lyra disse.
Pantalaimon, irritado com o queixume dos dimons, se transformou num lobinho e rosnou para o dimon-esquilo que estava deitado no ombro de sua humana gemendo baixinho.
— Entre dentro do casaco dela! Fique maior e aqueça ela! — ordenou. O dimon da menina, assustado, obedeceu imediatamente.
O problema era que seda carbonífera não era quente como pelos de verdade, por mais que fosse acolchoada. Algumas crianças pareciam novelos ambulantes, de tão cheias de roupas, mas eram roupas feitas em fábricas e laboratórios cuja preocupação não era o frio intenso, e elas não esquentavam o suficiente. Os agasalhos de peles que Lyra usava tinham aparência suja e cheiravam mal, mas conservavam o calor.
— Se não encontrarmos logo os gípcios, eles não vão durar muito — ela cochichou a Pantalaimon.
— Então não deixe ninguém parar. Se alguém se deitar, está perdido. Sabe o que Farder Coram disse...
Farder Coram tinha contado muitas histórias de suas viagens ao Norte. Também a Sra. Coulter — supondo que as histórias dela fossem verdadeiras. Mas ambos foram muito claros num ponto: era preciso continuar em movimento.
— Falta muito? — perguntou um menininho.
— Ela só está fazendo a gente andar até aqui para nos matar — disse uma menina.
— Prefiro aqui do que lá — disse outra criança.
— Eu não! Na Estação é quentinho, tem comida, bebida e tudo.
— Mas está pegando fogo!
— O que vamos fazer aqui fora? Aposto que vamos morrer de fome...
A cabeça de Lyra estava cheia de perguntas sinistras esvoaçando como as feiticeiras, ligeiras e inatingíveis, e em algum lugar, logo além de onde ela conseguia alcançar, havia uma euforia e uma emoção que ela não compreendia.
Mas que lhe deu uma onda de energia, e ela puxou uma menina de dentro de um trecho de neve solta e empurrou um menino que havia parado, gritando para todos:
— Não parem! Sigam as pegadas do urso! Ele veio com os gípcios, então o rastro dele vai nos levar até onde eles estão! Continuem andando!
A neve começava a cair em grandes flocos; logo iria encobrir inteiramente as pegadas de Iorek Byrnison. Agora que as luzes de Bolvangar estavam fora de vista e o incêndio produzia apenas um leve brilho no céu, a única luz vinha do reflexo fraco do chão coberto de neve. Nuvens espessas escondiam o céu, então não havia lua nem Aurora Boreal; mas com atenção as crianças conseguiam distinguir as pegadas fundas de Iorek Byrnison na neve. Lyra encorajava, intimidava, batia, carregava, xingava, levantava e arrastava crianças conforme fosse necessário, e Pantalaimon, pelo estado do dimon de cada criança, ensinava o que era preciso fazer em cada caso.
Ela repetia consigo mesma, sem parar: vou conseguir salvar as crianças; vim até aqui para isso e vou conseguir, droga!
Roger seguia o exemplo dela, e Billy Costa, que enxergava melhor que a maioria, guiava o grupo. Logo a nevasca era tão forte que eles tinham que se agarrar uns aos outros para não se perderem, e Lyra pensou: talvez, se todos nos deitarmos bem juntos... se fizermos buracos na neve...
Ela começava a ouvir coisas: o ronco de um motor, não o ruído pesado de um zepelim mas um som mais alto, como o zumbido de um marimbondo. O ruído ia e vinha.
E uivos, uivos de... seriam cães? Cães de trenó? Este som também vinha de muito longe, abafado por milhões de flocos de neve e levado por pequenas rajadas de vento. Podiam ser os cães dos trenós dos gípcios ou os espíritos selvagens que viviam na tundra, ou até mesmo os dimons libertados chorando por suas crianças perdidas.
Ela estava vendo coisas... Não existiam luzes na neve? Deviam ser fantasmas também... a não ser que tivessem andado em círculo e estivessem de volta a Bolvangar.
Mas eram fachos amarelados de pequenas lamparinas, e não o brilho branco de luzes anbáricas. E estavam se movimentando, e os uivos estavam mais próximos; sem saber se estava acordada ou dormindo, Lyra viu que estava rodeada de figuras conhecidas, e homens usando agasalhos de peles estavam amparando-a: os braços poderosos de John Faa a tiraram do chão, e Farder Coram estava rindo de felicidade; e através da neve que caía ela via gípcios colocando as crianças nos trenós, cobrindo-as com mantas de peles, dando a elas carne de foca para mascar. E Tony Costa estava ali, abraçando Billy várias vezes. E Roger...
— Roger vem conosco — ela disse a Farder Coram. — Era ele que eu sempre quis salvar. Vamos voltar para a Jordan no final. Mas que barulho...
Era outra vez o tal ruído de motor, como uma mosca-espiã enlouquecida e dez mil vezes maior.
De repente, houve um golpe que a jogou longe, e Pantalaimon não pôde defendê-la, porque o macaco dourado...
A Sra. Coulter...
O macaco dourado lutava com Pantalaimon, mordia e arranhava, e Pantalaimon mudava de forma tão depressa que era difícil acompanhar, e não parava de atacar: ferroava, arranhava, mordia. Enquanto isto, a Sra. Coulter, cujo rosto emoldurado pelas peles era uma máscara de sentimentos intensos, arrastava Lyra para um trenó motorizado, e Lyra lutava tanto quanto o seu dimon. A neve que caía era tão intensa que elas pareciam estar isoladas, e os faróis anbáricos do trenó mostravam apenas os flocos caindo pesadamente.
— Socorro! — Lyra gritou para os gípcios que nada conseguiam enxergar. — Me ajudem! Farder Coram! Lorde Faa! Ah, Deus, socorro!
A Sra. Coulter bradou uma ordem na língua dos tártaros do Norte. E eles surgiram, um pelotão armado de rifles, os dimons-lobas rosnando ao lado deles. O chefe viu a Sra. Coulter lutando e levantou Lyra com uma das mãos como se ela fosse uma boneca, jogando-a dentro do trenó onde ela caiu, fraca e tonta.
Um rifle disparou, depois outro: os gípcios tinham percebido o que estava acontecendo.
Mas é perigoso atirar num alvo que não se pode ver; os tártaros, agora formando um grupo em volta do trenó, podiam atirar à vontade, mas os gípcios não ousavam, por medo de atingir Lyra.
Ah, que amargura ela sentia! E que cansaço!
Ainda tonta, com a cabeça zunindo, ela se ergueu e viu Pantalaimon ainda lutando desesperadamente com o macaco, seus dentes de carcaju fincados nos braços dourados, sem mudar de forma, apenas resistindo. E quem era aquele?
Não era Roger?
Sim, Roger, atacando a Sra. Coulter com punhos e pés, batendo a cabeça contra a dela, até ser derrubado por um tártaro como se fosse uma mosca. Era tudo fantasmagórico: branco, preto, um clarão verde, sombras, luzes disparadas...
De repente, um vulto negro tapou os flocos que caíam: Iorek Byrnison, com o ruído de ferro roçando em ferro. No momento seguinte, as grandes mandíbulas e as garras afiadas se puseram em ação...
Então alguma coisa poderosa a levantou, e ela puxou Roger com ela, arrancando-o das mãos da Sra. Coulter, os dimons das duas crianças em forma de pássaros voejando assustados enquanto um pássaro maior voava em torno deles, e então Lyra viu, no ar a seu lado, uma feiticeira, uma daquelas figuras negras e elegantes que ela vira no céu, mas agora bem perto; e havia um arco nas mãos nuas da feiticeira, que estendeu os braços pálidos e nus (naquele frio!) para retesar o arco e enviar uma flecha para dentro da fenda dos olhos do elmo de um tártaro a um metro de distância...
A flecha entrou pela fenda e saiu do outro lado, e o dimon-loba do soldado desapareceu em pleno salto, antes de seu humano atingir o chão.
Lyra e Roger foram então erguidos no ar, se agarrando, com dedos cada vez mais fracos, a um galho de pinheiro-nubígeno, onde a jovem feiticeira estava sentada, tensa e graciosamente equilibrada; ela então se inclinou para a esquerda, de onde alguma coisa enorme surgia, e então o solo.
Eles caíram na neve junto à cesta do balão de Lee Scoresby.
— Pule para dentro e traga o seu amigo — falou o texano. — Viu aquele urso?
Lyra viu três feiticeiras segurando uma corda passada em volta de uma pedra, prendendo o balão à terra.
— Entra aí! — ela gritou para Roger, apressando-se a subir pela borda da cesta e cair do lado de dentro.
Logo em seguida Roger caiu por cima dela, e então um poderoso som entre um rugido e um rosnado sacudiu o próprio chão.
— Vamos, Iorek! Embarque, velho amigo! — gritou Lee Scoresby. E o urso entrou na cesta, produzindo um terrível ruído de madeira forçada.
Neste momento, o aeróstata baixou o braço como sinal, e as feiticeiras soltaram a corda. O balão se ergueu imediatamente, subindo no ar cheio de neve numa velocidade que Lyra mal podia acreditar. Depois de um instante, o solo desapareceu na neblina, e eles subiram cada vez mais rápido; ela achava que foguete nenhum teria conseguido subir tão depressa. Estava deitada, agarrada a Roger, no chão da cesta, empurrada pela aceleração.
Lee Scoresby gracejava, ria e soltava berros selvagens de alegria; Iorek Byrnison retirava calmamente sua armadura, enfiando uma garra nas emendas para abri-las e arrumando as peças numa pilha. O ruído do ar que passava através de folhas de pinheiro-nubígeno denunciava que as feiticeiras lhes faziam companhia.
Aos poucos, Lyra recuperou o fôlego, o equilíbrio e o ritmo do coração. Ela se sentou e olhou em volta.
A cesta era muito maior do que ela imaginara. Ao longo da borda, havia fileiras de instrumentos filosóficos e pilhas de mantas de peles, garrafas de ar e uma variedade de outras coisas pequenas demais ou complicadas demais para se distinguirem no meio da névoa espessa que eles estavam atravessando na subida.
— Isto é nuvem? — ela quis saber.
— É. Enrole o seu amigo numas mantas antes que ele vire um boneco de gelo. Está frio aqui, e vai ficar ainda mais frio.
— Como foi que nos achou?
— As feiticeiras. Há uma feiticeira que quer conversar com você. Quando passarmos das nuvens, vamos ver nossa direção e então podemos sentar para bater um papo.
— Iorek, obrigada por ter vindo! — disse Lyra ao urso.
O urso grunhiu e se acomodou para lamber o sangue dos pelos. Seu peso fazia a cestinha ficar inclinada para um lado, mas isso não tinha a menor importância. Roger estava arisco, mas Iorek Byrnison não lhe deu mais atenção do que daria a um floco de neve. Lyra se contentou em ficar de pé agarrada à borda da cesta (que lhe batia embaixo do queixo), observando a nuvem com olhos arregalados.
Poucos segundos depois, o balão ultrapassou a nuvem e, ainda subindo rapidamente, ganhou os céus.
Que visão!
Diretamente acima deles, o balão enorme; acima e à frente deles flamejava a Aurora Boreal, com mais brilho e grandiosidade do que ela jamais tinha visto. A Aurora estava em toda a volta, ou quase, e eles praticamente faziam parte dela. Grandes riscos incandescentes estremeciam e se repartiam como asas de anjos; cascatas de gloriosa luminosidade desciam de penhascos invisíveis para formar lagos turbilhonantes ou tombar como enormes cascatas.
Lyra ficou maravilhada; então olhou para baixo, e o que viu era ainda mais maravilhoso. Até onde a vista alcançava, até o próprio horizonte em todas as direções, tudo era um ondulado mar de brancura. Picos suaves e abismos vaporosos se erguiam ou se abriam aqui e ali, mas no todo aquilo parecia uma massa de gelo sólida.
E dessa imensa brancura ela viu surgirem, sozinhas, aos pares ou em grupos maiores, pequenas sombras negras, aquelas figuras de tamanha elegância — as feiticeiras em seus galhos de pinheiro-nubígeno.
Voavam velozes, sem esforço, para cima e na direção do balão, se inclinando para os lados para direcionar o voo. E uma delas, a arqueira que tinha salvado Lyra da Sra. Coulter, veio voar perto da cesta, e Lyra pôde vê-la com clareza pela primeira vez.
Era jovem — mais jovem que a Sra. Coulter — e clara, de olhos verdes e brilhantes; usava, como todas as feiticeiras, faixas de seda negra, mas sem casaco, capuz ou luvas. Parecia não sentir frio. Levava na testa uma coroa simples de pequenas flores vermelhas. Ela cavalgava seu galho de pinheiro-nubígeno como se fosse um garanhão e parecia estar contendo-o a um metro de Lyra.
— Lyra?
— Sim! E você é Serafina Pekkala?
— Sou.
Lyra entendeu por que Farder Coram a amava e por que aquilo estava lhe despedaçando o coração, embora até um momento antes ela não soubesse essas coisas. Ele estava ficando velho; era um velho enfraquecido, e ela ficaria jovem durante muitas gerações.
— Está com o leitor de símbolos? — perguntou a feiticeira em voz tão parecida com o canto selvagem da própria Aurora Boreal que Lyra mal conseguia entender o sentido por causa da doçura do som.
— Estou, sim. Está no meu bolso, bem seguro.
Um forte rufar de asas anunciou a chegada do dimon-ganso cinzento, que logo estava deslizando ao lado dela. Ele disse alguma coisa e então se afastou para planar num círculo largo em volta do balão — que ainda não tinha parado de subir.
— Os gípcios destruíram Bolvangar — contou Serafina Pekkala. — Mataram 22 guardas e nove membros da equipe, e incendiaram tudo que ainda sobrava de pé. Vão arrasar completamente o lugar.
— E a Sra. Coulter?
— Nenhum sinal dela.
— E as crianças? Recuperaram todas as crianças em segurança?
— Todas. Todas estão a salvo.
Ela soltou um grito estridente, e outras feiticeiras voaram na direção do balão.
— Sr. Scoresby, a corda, por favor — ela pediu.
— Madame, fico muito agradecido. Ainda estamos subindo. Acho que ainda vamos subir por algum tempo. Quantas vão precisar puxar para nos levar para o norte?
— Somos fortes — foi a única resposta dela.
Lee Scoresby estava prendendo uma corda forte ao anel de ferro coberto de couro que segurava as cordas que prendiam o balão, e de onde a própria cestinha estava suspensa.
Depois de prendê-la com segurança, ele jogou a outra ponta para fora e imediatamente seis feiticeiras voaram até ela, agarraram a corda e começaram a puxar, dirigindo seus galhos de pinheiro-nubígeno no rumo da Estrela Polar.
Quando o balão começou a se mover naquela direção, Pantalaimon veio se empoleirar na borda da cesta como uma andorinha. O dimon de Roger chegou perto para olhar, mas logo voltou para baixo, pois Roger estava dormindo profundamente, assim como Iorek Byrnison. Só Lee Scoresby estava acordado, mascando calmamente um charuto fino e observando seus instrumentos.
— Então, Lyra, sabe por que está indo em busca de Lorde Asriel? — perguntou Serafina Pekkala.
Lyra ficou atônita.
— Para levar o aletiômetro para ele, é claro! — respondeu.
Nunca tinha pensado naquilo, era óbvio. Então recordou seu primeiro motivo, tão antigo que ela quase se esquecera dele.
— Ou... Para ajudá-lo a fugir. É isso. Vamos ajudá-lo a sair de lá.
Mas enquanto falava, achava isso absurdo. Fugir de Svalbard! Impossível!
— Pelo menos tentar — disse, corajosamente. — Por quê?
— Acho que preciso lhe contar umas coisas — disse Serafina Pekkala.
— Sobre o Pó? — foi a primeira coisa que Lyra quis saber.
— Sim, entre outras coisas. Mas agora você está cansada e vai ser uma viagem longa. Conversamos quando você acordar.
Lyra bocejou. Foi um bocejo de cair o queixo e explodir os pulmões, durando quase um minuto, ou pelo menos pareceu, e por mais que Lyra tentasse, não conseguiu resistir ao ataque do sono. Serafina Pekkala estendeu a mão por cima da borda da cesta e tocou nos olhos dela; Lyra caiu no fundo da cesta enquanto Pantalaimon voava em direção a ela e, na forma de arminho, se acomodou em seu lugar de dormir: junto ao pescoço dela.
A feiticeira cavalgava seu galho numa velocidade regular ao lado da cestinha, e assim viajaram para o norte, em direção a Svalbard.

4 comentários:

  1. A Sra. Coulter deve estar muito brava agora O-O"

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  2. Luamara feiticeira dimon dragão11 de março de 2017 12:39

    Amei as feiticeiras💓

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  3. Será que só eu quando leio as vezes esqueço que a lyra tem doze anos? Ela é muito madura...Mas amo esse jeito dela =D

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    1. Pois é, dá muito pra imaginá-la mais velha! Eu pensava assim no começo, mas com o tempo me acostumei, deu pra vê-la com os 12 anos que tem

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Boa leitura :)