17 de fevereiro de 2017

16. A nave da intenção

Da cúpula lustrosa pendurados por magia sutil descem brilhantes em fileiras diversas, como estrelas, candelabros e lâmpadas fornidas de asfalto e nafta que de si produzem luz...
John Milton, Canto I

— Minha filha! Minha filha! Onde está ela? O que vocês fizeram? Minha Lyra, melhor seria se arrancassem as fibras de meu coração, ela estava segura comigo, segura, e agora, onde está ela?
O grito da Sra. Coulter ressoou no pequeno gabinete no alto da torre adamantina. Ela estava amarrada a uma cadeira, os cabelos desgrenhados, as roupas rasgadas, os olhos desesperados, e seu dimon macaco se debatia e lutava no chão preso por uma corrente de elos de prata.
Lorde Asriel estava sentado ali perto, escrevendo num pedaço de papel, sem dar nenhuma atenção. Um ordenança estava postado a seu lado, olhando nervosamente para a mulher. Quando Lorde Asriel lhe entregou o papel, ele bateu continência e saiu apressado, seu dimon terrier colado nos calcanhares, com o rabo entre as pernas.
Lorde Asriel virou-se para a Sra. Coulter.
— Lyra? Francamente, não me interessa — disse, a voz baixa e rouca. — Aquela criança miserável deveria ter ficado onde foi deixada e feito o que lhe mandavam fazer. Não posso mais desperdiçar tempo nem recursos com ela, se ela se recusa a ser ajudada, que arque com as consequências.
— Você não está falando sério, Asriel, senão não teria...
— Estou falando seriíssimo, cada palavra. A confusão que ela provocou é totalmente fora de proporção com relação a seus méritos. Uma menina inglesa comum, não muito inteligente...
— Mas ela é! — rebateu a Sra. Coulter.
— Está bem, esperta, mas não intelectualmente inteligente, impulsiva, desonesta, ambiciosa...
— Corajosa, generosa, carinhosa.
— Uma criança absolutamente comum, sem nenhuma qualidade que a distinga...
— Absolutamente comum? Lyra? Ela é singular. Pense no que ela já fez. Pode não gostar dela, se quiser, Asriel, mas não ouse falar com ares condescendentes sobre sua filha. E ela estava segura comigo, até...
— Você tem razão — disse ele, se levantando. — Ela é singular. Ter conseguido domesticar e amolecer você, isso não é feito corriqueiro. Ela conseguiu lhe tirar seu veneno, Marisa. Ela lhe arrancou os dentes. Seu ardor se apagou numa garoa de piedade sentimental. Quem poderia imaginar? A agente impiedosa da Igreja, a perseguidora fanática de crianças, a inventora de máquinas horrendas para seccioná-las e vasculhar as entranhas aterrorizadas de seus pequenos seres em busca de qualquer prova de pecado... e então aparece uma pirralha, insolente, malcriada e ignorante, de unhas sujas, e você cacareja e abre as asas como uma galinha chocadeira. Bem, admito: a menina deve ter algum dom que eu nunca vi. Mas se tudo o que esse dom faz é transformar você em mãe dedicada, é um dom um bocado enfadonho, pequeno e insignificante. E agora é melhor você tratar de ficar calada. Mandei chamar meus comandantes de estado-maior para uma conferência urgente e, se não puder se controlar e parar com essa gritaria, vou mandar amordaçá-la.
A Sra. Coulter era mais parecida com sua filha do que imaginava. Sua resposta àquelas palavras foi cuspir na cara de Lorde Asriel. Ele limpou o rosto calmamente e disse:
— Uma mordaça também acabaria com esse tipo de comportamento.
— Ah, por favor, corrija-me se eu estiver errada, Asriel — retrucou — alguém que exibe a seus oficiais subordinados uma prisioneira amarrada numa cadeira é, evidentemente, um príncipe de cortesia. Desamarre-me, senão vou obrigar você a me amordaçar.
— Como quiser — respondeu ele, e pegou um lenço de seda numa gaveta, mas antes que pudesse amarrá-lo sobre a boca da Sra. Coulter, ela sacudiu a cabeça.
— Não, não — pediu — Asriel, não faça isso, estou implorando, por favor, não me humilhe.
Lágrimas de raiva escorreram de seus olhos.
— Muito bem, vou desamarrar você, mas ele vai ficar acorrentado — disse, e colocou o lenço de volta na gaveta antes de cortar as cordas com um canivete. Ela esfregou os punhos, se levantou, se espreguiçou e, só então, percebeu o estado em que estavam suas roupas e cabelos. Estava abatida e pálida, ainda havia resquícios do veneno dos galivespianos em seu corpo, provocando dores terríveis em suas articulações, mas não ia deixar que ele visse isso.
— Pode se lavar ali dentro — disse Lorde Asriel, apontando para um pequeno aposento, pouco maior que um armário.
Ela pegou seu dimon acorrentado, cujos olhos malévolos lançaram um olhar furioso para Lorde Asriel por sobre seu ombro, e entrou para se lavar e se arrumar. O ordenança entrou para anunciar:
— Sua Majestade o Rei Ogunwe e Lorde Roke.
O general africano e o galivespiano entraram: o Rei Ogunwe vestindo um uniforme limpo, com um ferimento na têmpora coberto por um curativo, e Lorde Roke planando rapidamente até pousar na mesa, montado em seu falcão azul. Lorde Asriel os cumprimentou calorosamente e ofereceu vinho. O pássaro deixou que seu cavaleiro desmontasse e depois voou para a arandela junto da porta, enquanto o ordenança anunciava o terceiro dos comandantes supremos, um anjo chamado Xaphania. Ela era de hierarquia muito mais alta que Baruch ou Balthamos e visível, através de uma luz tremeluzente, desconcertante, que parecia vir de algum outro lugar.
Nesse momento a Sra. Coulter reapareceu, mais arrumada, e todos os três comandantes lhe fizeram uma mesura, se ela ficou surpreendida com a aparência deles, não deu sinal, mas inclinou a cabeça retribuindo o cumprimento e sentou-se calmamente com o macaco acorrentado nos braços. Sem perder tempo, Lorde Asriel pediu:
— Diga-me o que aconteceu, Rei Ogunwe.
O africano, um homem forte, de voz grave, relatou:
— Matamos 17 guardas suíços e destruímos dois zepelins. Perdemos cinco homens e um giróptero. A menina e o menino fugiram. Capturamos Lady Coulter, a despeito de sua resistência corajosa, e a trouxemos para cá. Espero que ela sinta que a tratamos com cortesia.
— Estou muito contente com a maneira com que o senhor me tratou, majestade — disse ela, com uma ligeiríssima ênfase nas palavras o senhor.
— Os outros girópteros sofreram algum estrago? Temos feridos? — perguntou Lorde Asriel.
— Algum estrago e alguns feridos, mas nada sério.
— Bom. Muito obrigado, Rei, seus homens se saíram muito bem. Lorde Roke, quais são as notícias?
O galivespiano respondeu:
— Meus espiões estão com o menino e a menina em um outro mundo. As duas crianças estão bem e em segurança, apesar de a menina ter sido mantida drogada, dormindo, durante vários dias. O menino perdeu a possibilidade de usar a faca durante os eventos na caverna, por causa de algum acidente, a faca se partiu em pedaços. Mas agora está inteira de novo, graças ao animal do norte, de seu mundo, Lorde Asriel, um urso gigante, um ferreiro muito habilidoso. Tão logo a faca foi consertada, o garoto cortou uma passagem para um outro mundo, onde eles estão agora. Meus espiões estão com eles, é claro, porém há uma dificuldade: enquanto o menino tiver a faca, não pode ser compelido a fazer nada, contudo, se o matassem quando estivesse dormindo, a faca seria inútil para nós. Por enquanto, o Cavaleiro Tialys e Lady Salmakia irão com eles para onde forem, de modo que pelo menos saibamos onde estão. Eles parecem ter um plano, de qualquer maneira, estão se recusando a vir para cá.
— Eles estão em segurança nesse outro mundo onde estão agora? — perguntou Lorde Asriel.
— Estão numa praia próxima de uma floresta de árvores samambaias. Não há nenhum sinal de vida animal nas redondezas. Neste exato momento, o menino e a menina estão dormindo, falei com o Cavaleiro Tialys há menos de cinco minutos.
— Muito obrigado — disse Lorde Asriel. — Agora que seus dois agentes estão seguindo as crianças, evidentemente não temos mais espiões no Magisterium. Teremos que confiar no aletiômetro. Pelo menos...
Então a Sra. Coulter falou, para a surpresa de todos.
— Não posso falar com relação aos outros órgãos da Igreja — disse — mas no que diz respeito ao Tribunal Consistorial de Disciplina, o leitor em quem confiam é Frei Pavel Rasek. E ele é competente, mas lento. Não saberão onde Lyra está por pelo menos mais algumas horas.
— Obrigado, Marisa — disse Lorde Asriel. — Por acaso você tem alguma ideia do que Lyra e esse garoto pretendem fazer a seguir?
— Não — respondeu ela — nenhuma. Conversei com o menino e ele pareceu ser uma criança teimosa, e uma criança muito habituada a guardar seus segredos. Não posso imaginar o que vá fazer. Quanto a Lyra, ela é absolutamente imprevisível.
— Milorde — disse o Rei Ogunwe — poderíamos saber se a senhora agora faz parte deste conselho de estado-maior? E se fizer, qual é sua função? Se não fizer, não deveria ser levada para outro lugar?
— Ela é nossa prisioneira e minha convidada, e, na qualidade de ex-agente da Igreja, pode ter informações que seriam úteis.
— E revelará alguma coisa por sua livre e espontânea vontade? Ou precisará ser torturada? — perguntou Lorde Roke, observando-a francamente enquanto falava.
A Sra. Coulter deu uma gargalhada.
— Eu imaginava que os comandantes de Lorde Asriel fossem mais bem informados e que soubessem que não deveriam esperar obter a verdade através de tortura — declarou.
Lorde Asriel não pôde deixar de apreciar sua insinceridade descarada.
— Eu garantirei o comportamento da Sra. Coulter — disse ele. — Ela sabe o que acontecerá se nos trair, embora não vá ter oportunidade de fazer isso. Contudo, se algum dos senhores tiver qualquer dúvida, por favor, que se manifeste agora, sem receio.
— Eu tenho — disse o Rei Ogunwe — mas duvido do senhor, não dela.
— Por quê? — disse Lorde Asriel.
— Se ela o tentasse, não resistiria. Foi correto capturá-la, mas errado convidá-la a participar deste conselho. Trate-a com a maior cortesia, ofereça-lhe todo o conforto, mas faça com que seja levada para algum outro lugar e fique longe dela.
— Bem, eu o convidei a falar — comentou Lorde Asriel — e devo aceitar sua censura. Sua presença é mais valiosa para mim do que a dela, Rei. Mandarei que seja levada daqui.
Ele estendeu a mão para a campainha, mas antes que pudesse tocar, a Sra. Coulter falou.
— Por favor — disse em tom urgente — primeiro ouçam-me. Eu posso ajudar. Estive mais próxima do coração do Magisterium do que qualquer outra pessoa que vocês possam vir a encontrar. Eu sei como eles pensam, posso prever como vão agir. Estão se perguntando por que deveriam confiar em mim, o que me fez deixá-los? É simples: eles vão matar minha filha. No momento em que descobri quem ela é, o que ela é, as profecias que as bruxas fazem a respeito dela, soube que tinha que abandonar a Igreja, soube que era inimiga deles e eles eram meus inimigos, eu não sabia o que vocês eram, nem o que eu era para vocês, isso era um mistério, mas sabia que tinha que me posicionar contra a Igreja, contra tudo em que eles acreditavam e, se necessário, contra a Autoridade. Eu...
Ela parou de falar. Todos os comandantes estavam ouvindo atentamente. Então ela olhou para Lorde Asriel, encarando-o olhos nos olhos, e pareceu estar falando somente para ele, a voz baixa apaixonada, os olhos brilhantes faiscando.
— Eu fui a pior mãe do mundo. Permiti que minha única filha fosse levada para longe de mim quando era um bebê pequeno, porque não me interessava por ela, a única coisa que me interessava era satisfazer minha ambição. Não pensei nela durante anos e as poucas vezes em que pensei, foi apenas para lamentar o constrangimento que seu nascimento me causou — confessou. — Mas a Igreja começou a se interessar pelo Pó e por crianças, e alguma coisa despertou em meu coração, e me lembrei que era mãe e que Lyra era... minha filha — disse. — E como havia uma ameaça, eu a salvei dessa ameaça. Agora, já em três ocasiões, interferi para tirá-la de perigo. Primeiro quando o Conselho de Oblação começou seu trabalho: fui à Faculdade Jordan e a levei para morar comigo, em Londres, onde podia mantê-la a salvo do Conselho... pelo menos era o que eu esperava. Mas ela fugiu. — Depois de uma pausa, ela continuou. — A segunda vez foi em Bolvangar, quando a encontrei bem a tempo, sob a lâmina... sob a lâmina da... Meu coração quase parou... Era o que eles, nós, tínhamos feito com as outras crianças, mas quando foi com a minha... Ah, vocês não podem nem conceber o horror daquele momento, espero que nunca venham a sofrer o que sofri naquela ocasião... Mas consegui libertá-la, eu a tirei de lá, eu a salvei pela segunda vez. Mas mesmo quando estava fazendo isso, ainda me sentia fazendo parte da Igreja, uma servidora, uma servidora leal, devotada e fiel, porque estava trabalhando a serviço da Autoridade.
“E então tomei conhecimento da profecia das bruxas. De alguma forma, em algum momento, brevemente, Lyra será tentada, como Eva foi tentada, isso é tudo o que dizem. Que forma esta tentação terá, não sei, mas afinal, ela está crescendo. Não é difícil imaginar. E agora que a Igreja sabe disso também, eles vão matá-la. Se tudo depende dela, poderiam se arriscar a deixá-la viver? Ousariam correr o risco de que ela recuse essa tentação, qualquer que seja?
“Não, eles estão determinados a matá-la. Se pudessem, voltariam ao Jardim do Éden para matar Eva, antes que ela fosse tentada. Matar não é difícil para eles, o próprio Calvino ordenou a morte de crianças, eles a matariam com pompa e circunstância, preces, lamentações, salmos e hinos, mas a matariam. Se ela cair nas mãos deles, já estará morta. De modo que, quando ouvi o que a bruxa disse, salvei minha filha pela terceira vez. Eu a levei para um lugar onde a mantive a salvo e onde pretendia ficar.”
— Você a drogou — disse o Rei Ogunwe. — Manteve Lyra inconsciente.
— Fui obrigada a fazer isso — explicou a Sra. Coulter — por que ela me odiava. — Nesse ponto, a voz dela, que estivera carregada de emoção, mas controlada, explodiu num soluço e tremeu enquanto continuava: — Ela sentia medo de mim e me odiava, e teria fugido de minha presença como um passarinho foge de um gato se não a tivesse drogado, deixando-a totalmente inconsciente. Sabe o que isso significa para uma mãe? Mas era a única maneira de mantê-la em segurança! Todo aquele tempo na caverna... adormecida, os olhos fechados, o corpo impotente, seu dimon aninhado em seu pescoço... Oh, eu senti um amor tão grande, uma tamanha ternura, tão profunda, tão profunda... Era minha própria filha, foi a primeira vez que eu pude fazer aquelas coisas por ela, a minha pequenina... Eu dava banho nela e a alimentava, mantendo-a em segurança e agasalhada, cuidando para que seu corpo estivesse nutrido, enquanto dormia... Deitava ao lado dela, à noite, a embalava em meus braços, chorava em seus cabelos, beijava seus olhos fechados, minha pequenina...
Ela não tinha nenhuma vergonha. Falava baixinho, não declamava ou levantava a voz, e quando um grande soluço a sacudia, era abafado, transformando-se quase num pequeno gemido, como se estivesse contendo suas emoções por uma questão de cortesia. O que tornava suas mentiras deslavadas ainda mais eficazes, pensou Lorde Asriel com desagrado, ela mentia até a medula dos ossos. Dirigia suas palavras principalmente para o Rei Ogunwe, sem parecer fazê-lo, e Lorde Asriel percebeu isso também. Não só o rei era seu principal acusador, como também era humano, ao contrário do anjo ou de Lorde Roke, e ela sabia muito bem como influenciá-lo. Na verdade, contudo, foi no galivespiano que ela causou maior impressão. Lorde Roke percebeu nela uma natureza tão próxima da natureza do escorpião como jamais encontrara e tinha pleno conhecimento da força da picada que podia detectar sob seu tom gentil. “Melhor manter os escorpiões onde se pudesse vê-los”, pensou. De modo que ele apoiou o Rei Ogunwe quando este último mudou de opinião e defendeu que ela ficasse, e Lorde Asriel se viu vencido: pois ele agora a queria fora dali, mas já havia concordado em cumprir os desejos de seus comandantes.
A Sra. Coulter olhou para ele com uma expressão de leve e virtuosa preocupação. Estava certo de que mais ninguém podia perceber o brilho de triunfo furtivo nas profundezas de seus belos olhos.
— Então fique — disse ele. — Mas já falou demais. Agora fique calada. Quero considerar esta proposta de uma guarnição na fronteira sul. Os senhores viram o relatório: é factível? É desejável? Depois quero passar em revista o arsenal. E depois quero ouvir Xaphania sobre as disposições das forças angelicais. Primeiro a guarnição. Rei Ogunwe?
O líder africano começou. Eles falaram durante algum tempo e a Sra. Coulter ficou impressionada com a precisão das informações que eles tinham das defesas da Igreja, e a avaliação clara que tinham das forças de seus líderes. Mas agora que Tialys e Salmakia estavam com as crianças, e Lorde Asriel não tinha mais um espião no Magisterium, os conhecimentos deles logo estariam perigosamente desatualizados. Uma ideia veio à mente da Sra. Coulter, e ela e o dimon macaco trocaram um olhar que pareceu uma poderosa centelha anbárica, mas não disse nada, e acariciou seu pelo dourado enquanto ouvia os comandantes.
Então Lorde Asriel disse:
— Agora basta. Este é um problema que teremos que resolver mais adiante. Agora vamos passar em revista o arsenal. Pelo que me informaram, estão prontos para testar a nave da intenção. Vamos até lá para ver.
Ele tirou uma chave de prata de seu bolso e abriu o cadeado da corrente que prendia os pés e mãos do macaco, e cuidadosamente evitou tocar até mesmo a ponta de um pelo dourado.
Lorde Roke montou em seu falcão e acompanhou os outros enquanto Lorde Asriel seguia na frente, descendo a escada da torre e saindo para as muralhas.
Estava soprando um vento frio, mordiscando-lhes as pálpebras, e o falcão azul-escuro voou bem alto numa poderosa lufada, fazendo círculos e gritando no vento forte. Rei Ogunwe vestiu o casaco e pousou sua mão na cabeça de seu dimon na forma de guepardo.
A Sra. Coulter disse humildemente para o anjo:
— Se me permite, senhora, seu nome é Xaphania?
— É — respondeu o anjo.
Sua aparência impressionava a Sra. Coulter exatamente como a de seus companheiros tinha impressionado a bruxa Ruta Skadi, quando os encontrara no céu: ela não estava brilhando, mas resplandecia, embora não houvesse fonte de luz. Era alta, estava nua, tinha asas e seu rosto marcado era mais velho do que o de qualquer ser vivo que a Sra. Coulter jamais tivesse visto.
— É um dos anjos que se rebelaram há muito tempo?
— Sou. E desde então estive vagando entre muitos mundos. Agora prestei juramento de lealdade a Lorde Asriel porque vejo em sua grande empreitada a melhor possibilidade de finalmente destruir a tirania.
— Mas e se fracassarem?
— Então seremos todos destruídos e a crueldade reinará para sempre.
Enquanto elas falavam, seguiam as passadas rápidas de Lorde Asriel pelas muralhas batidas pelo vento em direção a uma imponente escadaria que descia tão profundamente que nem mesmo as luzes brilhando em candeeiros nas paredes podiam revelar o fundo. Passando por eles, o falcão azul desceu rápido, voando em círculos, planando para baixo e mais para baixo na escuridão, com a luz de cada candeeiro fazendo suas penas bruxulearem enquanto passava, até se tomar apenas uma minúscula fagulha e depois nada. O anjo tinha se adiantado pondo-se ao lado de Lorde Asriel, e a Sra. Coulter viu-se descendo ao lado do rei africano.
— Perdoe minha ignorância, majestade — disse ela — mas nunca tinha visto ou ouvido falar em um ser como o homem no falcão azul até a luta na caverna ontem... De onde ele vem? Pode me dizer alguma coisa sobre seu povo? Não gostaria de ofendê-lo por nada no mundo, mas se falar sem saber nada a seu respeito, posso ser involuntariamente indelicada.
— Faz bem em perguntar — respondeu o Rei Ogunwe. — O povo dele é orgulhoso. O mundo deles se desenvolveu de maneira diferente do nosso, nele existem dois tipos de seres conscientes, os humanos e os galivespianos. Os humanos são, em sua maioria, criados da Autoridade e vêm tentando exterminar o povo pequenino desde os tempos mais remotos de que se tem memória. Eles os consideram diabólicos. De modo que os galivespianos ainda não conseguem confiar realmente naqueles que têm nosso tamanho. Mas são guerreiros ferozes e orgulhosos, inimigos mortais e valiosos espiões.
— Todo o povo deles está com vocês ou estão divididos como os humanos?
— Há alguns que estão com o inimigo, mas a maioria está conosco.
— E os anjos? Sabe, até recentemente pensei que anjos fossem uma invenção da Idade Média, que fossem apenas seres imaginários... É desconcertante ver-se falando com um deles, não acha? Quantos estão com Lorde Asriel?
— Sra. Coulter — comentou o rei — essas perguntas são exatamente o tipo de coisa que um espião gostaria de descobrir.
— Belo tipo de espião eu seria, para perguntar assim, de maneira tão transparente — retrucou ela. — Sou uma prisioneira, majestade. Não poderia fugir, mesmo se tivesse um lugar seguro para onde escapar. De agora em diante, sou inofensiva, pode confiar em minha palavra.
— Se me garante isso, fico contente em acreditar — disse o rei. — Os anjos são mais difíceis de compreender que qualquer ser humano. Para começar, não são todos de um mesmo tipo, alguns têm poderes maiores que outros, e existem alianças complexas entre eles, e inimizades antiquíssimas, a respeito das quais sabemos muito pouco. A Autoridade os vem suprimindo desde que ele adquiriu existência.
Ela parou de súbito. Estava genuinamente chocada. O rei africano parou ao lado dela, pensando que estivesse se sentindo mal, e, de fato, o clarão da luz do candeeiro logo acima lançava sombras de assustadora palidez em seu rosto.
— Diz isso de maneira tão casual — comentou ela — como se fosse algo de que eu também devesse ter conhecimento, mas... Como é possível? A Autoridade criou os mundos, não criou? Ele existia antes de tudo. Como pode ele ter adquirido existência?
— Isso é conhecimento angelical — disse Ogunwe. — Alguns de nós ficaram chocados ao saber que a Autoridade não é o criador. Pode ter havido um criador, ou pode não ter havido: não sabemos. Tudo o que sabemos é que a certo ponto a Autoridade assumiu o controle e, desde então, os anjos têm se rebelado e seres humanos também lutaram contra ele. Esta é a última rebelião. Nunca antes seres humanos, anjos e seres de todos os mundos tiveram uma causa comum. Esta é a maior força jamais reunida. Mas ainda assim pode não ser suficiente. Veremos.
— Mas o que pretende Lorde Asriel? O que é este mundo e por que ele veio para cá?
— Ele nos trouxe para cá porque este mundo é vazio. Isto é, vazio de vida consciente. Não somos colonialistas, Sra. Coulter. E não viemos para conquistar, e sim para construir.
— E ele vai atacar o reino do céu?
Ogunwe olhou para ela francamente.
— Não vamos invadir o reino — declarou — mas se o reino nos invadir, é melhor estarem prontos para a guerra, porque estamos preparados. Sra. Coulter, eu sou um rei, mas o feito de que mais me orgulho foi me unir a Lorde Asriel para criar um mundo onde não existam quaisquer reinos. Um mundo sem reis, sem bispos, sem padres. O reino do céu tem sido conhecido por este nome desde que a Autoridade pela primeira vez se colocou acima do resto dos anjos. E não queremos ter nada disso. Este mundo é diferente. Pretendemos ser cidadãos livres da república do céu.
A Sra. Coulter queria falar mais, fazer uma dúzia de perguntas que subiram a seus lábios, mas o rei tinha seguido adiante, não querendo deixar seu comandante esperando, e ela teve que segui-lo.
A escada descia tão fundo, levando tão longe, que quando afinal chegaram ao andar térreo, o céu atrás deles no alto da escadaria estava totalmente invisível. Muito antes de chegarem à metade, ela estava quase sem fôlego, mas não se queixou, e seguiu descendo até que a escadaria se abriu para um imenso salão iluminado por cristais incandescentes, nos pilares que sustentavam o teto. Escadas de mão, pontes de guindastes rolantes, vigas e passadiços cruzavam a escuridão acima, com pequenos vultos se movimentando resolutamente.
Lorde Asriel estava falando com seus comandantes quando a Sra. Coulter os alcançou e, sem esperar para deixá-la descansar, ele prosseguiu, atravessando o grande salão, onde ocasionalmente um vulto brilhante passava voando ligeiro pelo ar ou pousava no chão para dar uma palavra rápida com ele. O ar estava denso e quente. A Sra. Coulter reparou que, provavelmente como cortesia para Lorde Roke, cada pilar tinha uma arandela vazia, na altura de uma cabeça humana, de modo que seu falcão pudesse se empoleirar ali e permitir que o galivespiano fosse incluído nas conversas.
Mas não ficaram no grande salão por muito tempo. No lado mais distante, um assistente abriu uma pesada porta dupla para permitir que passassem, seguindo para a plataforma de uma estrada de ferro. Ali, esperando, havia um pequeno vagão fechado, puxado por uma locomotiva anbárica.
O engenheiro fez uma mesura, e seu dimon macaco recuou para trás de suas pernas ao ver o macaco dourado. Lorde Asriel falou rapidamente com o homem e convidou os outros a entrarem no vagão que, como o salão, era iluminado por aqueles cristais incandescentes, encaixados em luminárias de prata, presas a painéis espelhados de mogno.
Tão logo Lorde Asriel se juntou a eles, o trem começou a se mover, deslizando suavemente para fora da plataforma e entrando num túnel, acelerando rapidamente. Somente o som das rodas no trilho plano dava alguma ideia da velocidade que estavam desenvolvendo.
— Para onde estamos indo? — perguntou a Sra. Coulter.
— Para o arsenal — respondeu Lorde Asriel laconicamente, e virou-se para falar em voz baixa com o anjo.
A Sra. Coulter virou-se para Lorde Roke:
— Diga-me, milorde, seus espiões são sempre enviados em pares?
— Por que pergunta?
— Simples curiosidade. Meu dimon e eu nos vimos diante de um impasse quando os encontramos recentemente naquela caverna e fiquei intrigada ao ver como combatiam bem.
— Por que intrigada? Não esperava que seres de nosso tamanho fossem bons combatentes?
Ela olhou friamente para ele, consciente da ferocidade de seu orgulho.
— Não — retrucou. — Pensei que os venceríamos com facilidade e por muito pouco eles não nos derrotaram. Fico feliz por admitir meu erro. Mas sempre lutam em pares?
— Vocês formam um par, não formam, você e seu dimon. Esperava que lhes concedêssemos a vantagem? — perguntou ele, e seu olhar arrogante, de faiscante limpidez, mesmo sob a luz suave dos cristais, a desafiava a perguntar mais.
Ela baixou o olhar modestamente e não disse nada.
Passaram-se alguns minutos e a Sra. Coulter sentiu que o trem os estava levando para baixo, para ainda mais fundo no coração da montanha. Não podia calcular qual a distância que haviam percorrido, mas quando pelo menos 15 minutos tinham se passado, o trem começou a reduzir a velocidade e, finalmente, pararam numa plataforma onde as luzes anbáricas pareciam muito fortes depois da escuridão do túnel.
Lorde Asriel abriu as portas e eles saltaram para uma atmosfera tão quente e carregada de enxofre que a Sra. Coulter não pôde conter um grito sufocado. O ar ressoava com as pancadas de poderosos martelos e com o guinchar fragoroso de ferro sobre pedra.
Um auxiliar abriu as portas de saída da plataforma e imediatamente o barulho dobrou de intensidade, e o calor os envolveu como uma onda quebrando. O fulgor intenso de uma luz muito quente fez com que protegessem os olhos, somente Xaphania não pareceu incomodada pelo assalto furioso de som, luz e calor. Depois que seus sentidos se ajustaram, a Sra. Coulter olhou em volta, cheia de curiosidade.
Já tinha visto forjas, siderúrgicas e fábricas em seu mundo: as maiores pareciam uma oficina de ferreiro de aldeia diante daquela. Martelos do tamanho de casas eram levantados em um momento até o teto distante e então lançados violentamente para baixo para achatar blocos de ferro do tamanho de troncos de árvores, esmagando-os e transformando-os em placas numa fração de segundo, com uma pancada que fazia a própria montanha tremer, de uma abertura na parede de rocha corria um rio de metal fundido sulfuroso até ser contido por um portão de rocha de diamante, e o fluxo brilhante e fervente corria por canais e comportas, passando sobre diques, até alcançar fileiras e mais fileiras de formas, onde se acomodava para esfriar numa nuvem de fumaça malfazeja, gigantescas máquinas de cortar e cilindros cortavam, dobravam e comprimiam lâminas de ferro com mais de 25 centímetros de espessura como se fosse papel de seda e então aqueles martelos monstruosos as esmagavam, achatando-as de novo, estendendo e comprimindo o metal em camadas, uma sobre a outra, com tamanha força que as diferentes camadas se tornavam uma única camada mais dura, repetidas vezes.
Se Iorek Byrnison pudesse ter visto aquele arsenal, poderia ter admitido que aquelas pessoas sabiam alguma coisa sobre como trabalhar com metal. A Sra. Coulter podia apenas olhar e se maravilhar. Era impossível falar e ser ouvido e ninguém sequer tentou. E agora Lorde Asriel estava gesticulando para o pequeno grupo, para que o seguisse por um passadiço gradeado, suspenso sobre uma galeria ainda maior, abaixo, onde mineiros trabalhavam com picaretas e pás para arrancar os metais reluzentes da rocha matriz. Eles percorreram o passadiço e desceram por um longo corredor de rocha, onde estalactites pendiam fulgurando com estranhas cores e onde as pancadas, os rangidos e as marteladas foram gradualmente desaparecendo. A Sra. Coulter sentiu uma brisa fresca passar sobre seu rosto acalorado. Os cristais que lhes davam luz não estavam mais montados em candeeiros nem envoltos em pilares reluzentes, e sim espalhados no chão, e não havia tochas acesas para aumentar o calor, de modo que, pouco a pouco, o grupo começou a sentir frio novamente, e afinal saíram, muito repentinamente, para o ar livre noturno.
Estavam num lugar onde parte da montanha havia sido coitada fora, criando um espaço largo e aberto como um campo de exercícios. Mais adiante, podiam ver, sob uma luz fraca, enormes portões na encosta da montanha, alguns abertos, outros fechados, e, de uma das portas gigantescas, homens vinham puxando alguma coisa coberta por um oleado.
— O que é aquilo? — perguntou a Sra. Coulter para o rei africano e ele respondeu:
— A nave da intenção.
A Sra. Coulter não tinha nenhuma ideia do que aquilo pudesse significar e observou com intensa curiosidade enquanto eles se preparavam para retirar o oleado. Ela se manteve perto do Rei Ogunwe como se em busca de abrigo e perguntou:
— Como funciona? O que faz?
— É o que vamos ver — respondeu o rei.
Tinha a aparência de uma espécie de complexo aparelho de perfuração, ou a cabine de comando de um giróptero, ou a cabine de um gigantesco guindaste. Tinha uma abóbada de vidro sobre um assento, com pelo menos uma dúzia de alavancas e manivelas enfileiradas diante dele. Repousava sobre seis pernas, cada uma delas articulada e aparafusada num ângulo diferente no corpo, de modo que parecia ao mesmo tempo vigorosa e deselegante, e o corpo em si era uma massa de tubulações, cilindros, pistões, cabos enrolados em anéis, engrenagens, válvulas e calibradores. Era difícil dizer o que era estrutura e o que não era, porque só estava iluminado por trás e a maior parte estava escondida na sombra.
Lorde Roke, montado em seu falcão, tinha planado diretamente acima do aparelho, voando em círculos no alto, examinando-o de todos os lados. Lorde Asriel e o anjo estavam juntos numa animada discussão com os engenheiros e havia homens descendo da própria nave, um carregando uma prancheta, outro um pedaço de cabo.
Os olhos da Sra. Coulter observaram a nave avidamente, memorizando cada peça, fazendo sentido de sua complexidade. E enquanto observava, Lorde Asriel saltou para o assento, prendendo um cinturão de couro sobre a cintura e os ombros, e colocando e ajustando um capacete na cabeça. Seu dimon, a pantera branca, saltou para segui-lo e ele se virou para ajustar alguma coisa ao lado dela.
O engenheiro chamou, Lorde Asriel respondeu, e os homens se afastaram, recuando para a porta.
A nave da intenção se moveu, embora a Sra. Coulter não tivesse muita certeza de como. Era quase como se tivesse estremecido, embora lá estivesse, absolutamente imóvel, ainda equilibrada com uma estranha energia sobre aquelas seis pernas de inseto. Enquanto olhava, a nave se moveu de novo, e então ela viu o que estava acontecendo: várias de suas peças estavam girando, virando de um lado para o outro, vasculhando o céu escuro acima. Lorde Asriel estava totalmente absorvido, ora empurrando uma alavanca, ora checando o mostrador de um instrumento, ajustando os vários controles, e então, de repente, a nave da intenção desapareceu.
De alguma forma tinha saltado para o ar. Estava pairando acima deles agora, alta como o topo da copa de uma árvore, virando lentamente para a esquerda.
Não havia ruído de motor, nenhuma indicação de como se elevava vencendo a gravidade. Simplesmente pairava no ar.
— Ouça — disse o Rei Ogunwe. — Ao sul.
Ela virou a cabeça e esforçou-se para ouvir. Havia um vento que gemia, na curva da face da montanha, e havia os golpes violentos de martelo das prensas que ela sentia através das solas dos pés, e havia o som de vozes vindo da porta iluminada, mas, diante de algum sinal, as vozes se calaram e as luzes foram apagadas. E no silêncio a Sra. Coulter pôde ouvir, muito indistintamente, o chop-chop-chop ritmado dos motores de girópteros nas rajadas de vento.
— Quem são eles? — perguntou em voz baixa.
— Chamarizes — respondeu o rei. — Meus pilotos, voando numa missão cujo objetivo é levar inimigos a segui-los. Observe.
Ela abriu bem os olhos tentando ver alguma coisa através da pesada escuridão com suas poucas estrelas. Acima deles, a nave da intenção se mantinha firme, estacionaria, como se estivesse ancorada e presa com ferrolho naquele mesmo ponto, nenhuma rajada de vento provocava o mais leve efeito nela. Nenhuma luz saía da cabine, de modo que era muito difícil vê-la, e o vulto de Lorde Asriel havia desaparecido completamente de vista.
Então ela avistou o primeiro grupo de luzes voando baixo no céu, no mesmo instante em que o ruído do motor se tornou alto o bastante para ser ouvido constantemente. Seis girópteros voavam em alta velocidade, um deles aparentemente com problemas, pois deixava uma esteira de fumaça atrás de si e voava mais baixo que os outros. Eles vinham voando em direção à montanha, mas num curso que os levaria a passar por ela e seguir adiante. E, atrás deles, em perseguição cerrada, vinha uma variada coleção de objetos voadores. Não era fácil distinguir o que eram, mas a Sra. Coulter viu um pesado giróptero de um tipo estranho, duas aeronaves de asas retas, um enorme pássaro que planava velozmente sem esforço, carregando dois passageiros armados e três ou quatro anjos.
— Um ataque aéreo — comentou o Rei Ogunwe.
Eles estavam se aproximando dos girópteros. Então um feixe de luz irrompeu de uma das aeronaves de asas retas, seguido, um ou dois segundos depois, pelo som, um estampido surdo. Mas o projétil não atingiu seu alvo, o giróptero danificado, pois no mesmo instante que viram a luz e antes que ouvissem o estampido, os observadores na montanha viram um clarão sair da nave da intenção e o projétil explodiu no ar.
A Sra. Coulter mal teve tempo para compreender aquela sequência quase instantânea de luz e som antes que a batalha estivesse em curso. Tampouco a batalha foi fácil de acompanhar, uma vez que o céu estava tão escuro e o movimento da cada um dos objetos voadores era tão rápido, mas uma série de clarões quase silenciosos iluminou a encosta da montanha, acompanhada por silvos curtos como vapor escapando. Cada clarão, de alguma forma, acertou um atacante diferente: o avião se incendiou e explodiu, o pássaro gigante emitiu um grito como o rasgar de uma cortina da altura de uma montanha e despencou para as rochas distantes abaixo e, quanto aos anjos, cada um deles simplesmente desapareceu numa pluma de ar brilhante, uma miríade de partículas cintilando e reluzindo cada vez menos intensamente até que se apagavam como fogos de artifício que se esgotam.
E então fez-se o silêncio. O vento levou embora o som dos girópteros chamarizes, que agora haviam desaparecido atrás do flanco da montanha. Muito distantes vindas de baixo, chamas iluminavam a parte inferior da nave da intenção, de alguma forma ainda pairando no ar e agora se virando lentamente, como se para olhar em torno. A destruição dos participantes do raide aéreo era tão completa que a Sra. Coulter, que já vira muitas coisas chocantes para se deixar impressionar, não pôde deixar de ficar chocada com aquilo. Enquanto olhava para a nave da intenção, esta pareceu tremeluzir ou se deslocar e então ali estava ela, de novo solidamente em terra.
O Rei Ogunwe correu apressado em sua direção, bem como os outros comandantes e os engenheiros, que tinham aberto as portas e deixado a luz iluminar o campo de provas. A Sra. Coulter ficou onde estava, intrigada com o funcionamento da nave da intenção.
— Por que ele está nos mostrando a nave? — perguntou seu dimon em voz baixa.
— Certamente não pode ler nossos pensamentos — respondeu ela, no mesmo tom.
Estavam pensando naquele momento na torre adamantina, quando a centelha de ideia brilhara entre eles. Tinham pensado em fazer uma proposta a Lorde Asriel: de se oferecerem para ir para o Tribunal Consistorial de Disciplina e trabalhar como seus espiões. Ela conhecia todas as alavancas do poder, era capaz de manipular todas. De início, seria difícil convencê-los de sua boa-fé, mas conseguiria fazê-lo. E agora que os espiões galivespianos tinham partido para ir com Will e Lyra, certamente Asriel não resistiria a uma oferta semelhante.
Mas agora, enquanto observavam a estranha máquina voadora, uma outra ideia ocorreu com ainda maior intensidade e ela abraçou o macaco dourado com alegria.
— Asriel — chamou em tom inocente — posso ver como funciona a máquina?
Ele olhou para baixo, a expressão distraída e impaciente, mas também cheia de satisfação. Estava encantado com a nave da intenção: ela sabia que não conseguiria resistir à vontade de exibi-la.
O Rei Ogunwe se afastou e Lorde Asriel estendeu a mão e a puxou para cima, para a cabine de comando. Ajudou-a a se instalar no assento e observou enquanto ela examinava os controles.
— Como funciona? Que energia move a nave?
— As suas intenções — respondeu ele. — Daí o nome. Se você tenciona que se mova para frente, ela se moverá.
— Isto não é resposta. Vamos, diga-me. Que tipo de motor é este? Como voa? Não pude ver nada de aerodinâmico. Mas esses controles... vista por dentro, é quase igual a um giróptero.
Ele estava achando difícil não contar a ela, e, uma vez que era uma decisão que dependia apenas de sua vontade, contou. Estendeu um cabo na extremidade do qual havia um punho de couro, com marcas fundas feitas pelos dentes de seu dimon.
— Seu dimon —explicou — tem que segurar este punho, com os dentes ou com as mãos, pouco importa. E você tem que usar o capacete. Há uma corrente que flui entre eles, e um capacitor amplifica a corrente. Ah, é mais complicado que isso, mas a máquina é fácil de pilotar. Pusemos controles iguais aos de um giróptero porque já estamos familiarizados com eles, mas no final acabaremos não precisando de controles ou instrumentos. É claro, só um ser humano com um dimon pode pilotá-la.
— Compreendo. — E ela o empurrou violentamente, de modo que ele caiu da nave.
No mesmo instante, ela enfiou o capacete na cabeça e o macaco dourado agarrou o punho de couro. Ela pegou e puxou o instrumento que num giróptero inclinaria o aerofólio e empurrou o acelerador para frente e, imediatamente, a nave da intenção saltou para o ar.
Mas ela ainda não tinha perfeito domínio dos controles. A nave ficou parada durante alguns momentos, ligeiramente inclinada, antes que ela encontrasse os controles para fazê-la se mover para frente e, naqueles poucos segundos, Lorde Asriel fez três coisas. Levantou-se de um salto, ergueu a mão para impedir o Rei Ogunwe de ordenar aos soldados que atirassem na nave da intenção e disse:
— Lorde Roke, vá com ela, por favor.
O galivespiano comandou seu falcão azul para que subisse imediatamente, e o pássaro voou direto para a porta ainda aberta da cabine. Os observadores abaixo podiam ver a cabeça da mulher olhando para um lado e para outro, o macaco dourado fazendo o mesmo, e puderam constatar que nenhum dos dois percebeu o corpo pequenino de Lorde Roke saltar de seu falcão para dentro da cabine, bem atrás deles.
Um momento depois, a nave da intenção começou a se mover e o falcão se afastou num círculo e veio pousar no punho de Lorde Asriel. Não mais de dois segundos depois, a nave estava desaparecendo de vista no céu úmido e estrelado.
Lorde Asriel observou com pesarosa admiração.
— Bem, Rei, estava absolutamente certo — disse ele — e eu deveria tê-lo ouvido logo de início. Ela é a mãe de Lyra, eu deveria ter esperado alguma coisa desse tipo.
— Não vai persegui-la? — perguntou o Rei Ogunwe.
— Para que, e destruir uma nave em perfeitas condições? Não, de jeito nenhum.
— Para onde acha que ela vai? Procurar a criança?
— Não inicialmente. Ela não sabe onde encontrá-la. Sei exatamente o que ela vai fazer: vai procurar o Tribunal Consistorial e entregar a nave a eles como prova de boa-fé, e então vai ficar espionando. Será nossa espiã no Tribunal. Ela já tentou todos os outros tipos de duplicidade, esta será uma experiência nova. E tão logo descobrir onde está a garota, irá para lá e nós a seguiremos.
— E quando Lorde Roke contará a ela que foi junto?
— Ah, creio que ele vai preferir fazer disso uma surpresa, não acha?
Os dois riram e seguiram de volta para a oficina, onde um modelo mais novo e mais avançado da nave da intenção aguardava para ser inspecionado por eles.

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