4 de fevereiro de 2017

16. A guilhotina prateada

LYRA imediatamente enfiou a cabeça dentro do abrigo de seu capuz de pele de carcaju e entrou pelas portas duplas com as outras crianças. Teria tempo suficiente para se preocupar com o que ia dizer quando as duas se encontrassem cara a cara; tinha outro problema a resolver primeiro: onde esconder as roupas de modo que pudesse pegá-las sem precisar pedir permissão.
Mas por sorte havia tal desordem no prédio, com os adultos tentando apressar a entrada das crianças para darem lugar aos passageiros do zepelim, que ninguém estava vigiando muito bem. Lyra tirou o casaco, as perneiras e as botas e fez deles a menor trouxa que conseguiu, antes de atravessar os corredores cheios de gente e ir para o seu dormitório.
Rapidamente puxou a mesa de cabeceira para o canto, subiu em cima dela e empurrou uma placa do teto. A placa estava solta, como Roger tinha dito, e lá em cima ela enfiou as botas e as perneiras. Em seguida tirou o aletiômetro da sacola e o enfiou no bolso mais escondido do casaco, antes de guardar também o casaco no esconderijo do teto.
Depois saltou para o chão, empurrou a mesinha para o lugar e cochichou com Pantalaimon:
— Temos que fingir que somos idiotas até ela nos ver, e então dizemos que fomos raptados. E nada sobre os gípcios, e especialmente sobre Iorek Byrnison.
Pois Lyra agora percebia algo que não tinha percebido antes: que todo o medo em sua natureza era atraído para a Sra. Coulter como o ponteiro de uma bússola é atraído pelo Polo. Podia suportar todas as outras coisas que tinha visto, até mesmo a terrível crueldade da intercisão; era suficientemente forte para isto. Mas a ideia daquele rosto delicado e da voz gentil, a imagem do macaco dourado e brincalhão eram suficientes para fazer seu estômago congelar e deixá-la pálida e nauseada.
Mas os gípcios estavam chegando — precisava pensar nisso, pensar em Iorek Byrnison; e não se denunciar.
Voltou para a cantina, de onde vinha muito barulho.
As crianças faziam fila para ganhar leite quente, algumas ainda usando os casacos de seda carbonífera. As conversas eram sobre o zepelim e sua passageira.
— Era ela. Com o dimon-macaco.
— Foi ela quem pegou você também?
— Ela disse que ia escrever para os meus pais e aposto que não escreveu...
— Ela nunca nos contou que as crianças morriam. Nunca falou sobre isso.
— Aquele macaco, ele é o pior. Pegou a minha Karossa e quase matou. Eu fiquei fraco...
Todos tinham tanto medo quanto Lyra. Ela encontrou Annie e as outras e ficou perto delas.
— Escutem, vocês conseguem guardar um segredo?
— Sim!
As três olharam para ela com grande expectativa.
— Existe um plano de fuga. Algumas pessoas vêm nos libertar, vão chegar amanhã à noite. Talvez antes. Nós temos que ficar prontos e, assim que ouvirmos o sinal, pegarmos nossas roupas de frio e corrermos para fora. Nada de esperar. Vamos ter que correr. Mas se não pegarem os agasalhos e as botas, vocês vão morrer de frio.
— Qual vai ser o sinal? — Annie quis saber.
— O alarme de incêndio vai tocar, como tocou hoje. Está tudo planejado. Todas as crianças vão ficar sabendo, mas nenhum dos adultos pode saber. Especialmente ela.
Todos tinham os olhos brilhantes de esperança e entusiasmo. E a mensagem estava se espalhando por toda a cantina: Lyra sentia que a atmosfera havia mudado. Ao ar livre, as crianças estavam alegres, cheias de energia e ansiosas para brincar; então, depois que viram a Sra. Coulter, elas se encheram de um grande medo, quase além do que podiam controlar; mas agora havia uma coragem e um propósito. Lyra se maravilhou com o poder da esperança.
Ficou vigiando a porta aberta, mas com cautela, pronta para baixar a cabeça; ouviram vozes de adultos que se aproximavam, e então a Sra. Coulter em pessoa apareceu por um instante, olhou para dentro da cantina e sorriu para as crianças felizes, com seus copos de leite quente e seus biscoitos, tão quentinhas e bem nutridas. Quase instantaneamente um arrepio percorreu a cantina, e todas as crianças ficaram caladas e imóveis, olhando para ela.
A Sra. Coulter sorriu e seguiu em frente sem uma palavra. Aos poucos, a conversa recomeçou na cantina. Lyra perguntou:
— Onde é que eles ficam?
— Provavelmente na sala de reuniões — disse Annie. — Uma vez nos levaram lá — acrescentou, referindo-se a ela e seu dimon. — Eram uns vinte adultos e um deles estava dando uma palestra. Eu tive que ficar parada lá e fazer o que ele mandava, como ver a distância que o Kyrillion podia ficar de mim, e então ele me hipnotizou e fez outras coisas... É uma sala enorme, com muitas cadeiras e mesas e uma pequena plataforma. Fica atrás da recepção. Ei, aposto que eles vão fingir que o treinamento de incêndio deu certo. Aposto que eles têm medo dela, igual a nós...
Pelo resto do dia Lyra ficou perto das outras meninas, observando, falando pouco, agindo discretamente. Houve ginástica, depois costura, depois o jantar, o recreio no salão — um aposento grande e tristonho, com tabuleiros de jogos, alguns livros velhos e uma mesa de pingue-pongue. Em certo momento, Lyra e os outros perceberam que estava acontecendo alguma emergência, porque os adultos andavam apressados de um lugar para outro ou ficavam parados em grupinhos, conversando com ansiedade. Lyra adivinhou que eles tinham descoberto a fuga dos dimons e tentavam entender como aquilo havia acontecido.
Mas não viu a Sra. Coulter, o que foi um alívio. Quando chegou a hora de dormir, ela já sabia que teria que contar tudo às outras.
— Escute, eles costumam vir ver se estamos mesmo dormindo?
— Uma vez só — disse Bella. — Mas só passam o facho da lanterna, não verificam todas as camas.
— Ótimo. Porque vou dar uma olhada por aí. Há um caminho pelo teto que um garoto me ensinou...
Ela explicou e antes mesmo de terminar foi interrompida por Annie:
— Vou com você!
— É melhor não, porque é melhor que só uma menina fique sumida. Todas podem dizer que estavam dormindo e não me viram sair.
— Mas se eu fosse com você...
— Seria mais fácil sermos apanhadas — Lyra completou.
Os dimons das duas se entreolhavam: Pantalaimon como gato-do-mato e Kyrillion como raposa. Ambos tremiam de leve. Pantalaimon sibilou quase inaudivelmente e mostrou os dentes, e Kyrillion se virou para o outro lado e começou a lamber os próprios pelos despreocupadamente.
— Está certo — se conformou Annie.
Era comum que discussões entre as crianças fossem resolvidas assim, por seus dimons, um deles se curvando à vontade do outro. Os humanos aceitavam o desfecho sem ressentimento, de modo que Lyra sabia que Annie ia fazer o que ela pedisse.
Todas emprestaram peças de roupa para fazer volume sob as cobertas de Lyra como se ela estivesse deitada e prometeram dizer que nada sabiam sobre aquilo tudo. Então Lyra escutou para ter certeza de que ninguém vinha, subiu na mesinha de cabeceira, levantou a placa e se impulsionou para cima.
— Não digam nada! — sussurrou para os três rostos que a observavam.
Então recolocou com cuidado a placa no lugar e olhou em volta.
Estava agachada sobre uma estreita canaleta de metal presa numa grade de metal. As placas do teto eram ligeiramente translúcidas, de modo que passava alguma luz de baixo, e Lyra viu que aquele espaço baixo onde estava — cerca de meio metro de altura — se estendia para todos os lados. Havia canos e tubos de metal por todo lado, e seria fácil perder a direção, mas se ela permanecesse em cima das canaletas e evitasse colocar peso em cima das placas, e contanto que não fizesse barulho, conseguiria atravessar a Estação de uma ponta à outra.
— Igualzinho lá na Jordan, Pantalaimon — ela sussurrou. — A gente espionando a Sala Privativa.
— Se você não tivesse feito aquilo, nada disso teria acontecido — ele cochichou de volta.
— Então tenho que consertar o que fiz, não é?
Ela marcou as direções, calculando aproximadamente onde ficaria a sala de reuniões, e então partiu. Era uma viagem muito difícil; ela precisava engatinhar, pois não caberia ali de outra maneira, e de vez em quando tinha que se espremer sob um tubo de metal grande e quadrado, ou então passar por cima de canos de aquecimento. As canaletas de metal pelas quais ela engatinhava seguiam o topo das paredes internas, pelo que ela podia perceber, e enquanto permanecesse nelas, sentia uma reconfortante solidez; mas elas eram estreitas e tinham bordas pontudas, tanto que ela cortou os nós dos dedos das mãos e um joelho, e em pouco tempo estava toda doída, com cãibras e muito empoeirada.
Porém, sabia mais ou menos onde estava e conseguia ver o volume escuro dos seus agasalhos sobre o teto do dormitório, como um marco para guiá-la de volta. Passou por alguns aposentos vazios, onde as placas não estavam iluminadas por baixo; de vez em quando, ouvia vozes e parava para escutar, mas eram apenas as cozinheiras na cozinha ou as enfermeiras reunidas naquilo que Lyra concluiu ser sua sala de descanso. Elas nada diziam de interessante, então Lyra seguiu em frente.
Finalmente chegou à área onde deveria estar a sala de reuniões, segundo seus cálculos; de fato, havia uma área sem canalização, onde tubos do ar-condicionado e da calefação desciam por um canto e onde todas as placas num espaço amplo e retangular estavam iluminadas. Ela colou o ouvido numa placa e ouviu um murmúrio de vozes adultas masculinas; percebeu que tinha encontrado o lugar que procurava.
Com muito cuidado, ela avançou centímetro a centímetro até ficar o mais perto possível das pessoas. Então se deitou sobre a canaleta de metal e inclinou a cabeça de lado para escutar melhor.
Ouviu sons ocasionais de talheres e de louça: eles estavam jantando enquanto conversavam. Parecia haver quatro vozes, inclusive a da Sra. Coulter. As outras eram masculinas. Pareciam estar discutindo a fuga dos dimons.
— Mas quem está encarregado de supervisionar aquela seção? — perguntou a voz suave e musical da Sra. Coulter.
— Um estudante de pesquisa chamado McKay — disse um dos homens. — Mas existem mecanismos automáticos para impedir esse tipo de coisa...
— Que não funcionaram — interrompeu ela.
— Com todo respeito, eles funcionam, sim, Sra. Coulter. McKay afirma que trancou todas as caixas quando saiu de lá às 11 horas de hoje. A porta externa é claro que não teria sequer sido aberta, pois ele entrou e saiu pela porta interna, como fazia normalmente. É preciso digitar um código no aparelho que controla as fechaduras, e isso fica registrado na memória do aparelho. Se isso não for feito, o alarme toca.
— Mas o alarme não tocou — ela contestou.
— Tocou, sim. Infelizmente ele tocou quando todos estavam do lado de fora tomando parte no treinamento de incêndio.
— Mas quando vocês tornaram a entrar...
— Infelizmente os dois alarmes estão no mesmo circuito; é uma falha de infraestrutura que terá de ser corrigida. Quando o alarme de incêndio foi desligado depois do treinamento, o alarme do laboratório também foi. Mesmo assim o fato teria sido percebido, por causa das verificações normais que são feitas depois de qualquer quebra da rotina; mas a essa altura, Sra. Coulter, a senhora chegou de forma inesperada, e como deve se lembrar, pediu especificamente para ver a equipe do laboratório logo, na sua sala. Consequentemente, passou-se algum tempo até alguém voltar ao laboratório.
— Entendo — disse a Sra. Coulter em tom frio. — Nesse caso, os dimons devem ter sido libertados durante o treinamento. E isso amplia a lista de suspeitos para todos os adultos da Estação. Já pensou nisso?
— A senhora já pensou que isso pode ter sido feito por uma criança? — falou outra voz.
Ela ficou em silêncio, e o homem continuou:
— Cada adulto tinha uma tarefa a cumprir. Cada uma precisava de atenção total, e todas elas foram cumpridas. Não há possibilidade de que alguém da equipe pudesse ter aberto a porta. Nenhuma possibilidade. Então, ou alguém entrou de fora com a intenção de fazer isso, ou uma das crianças conseguiu entrar, abrir a porta e as caixas e voltar para a frente do prédio principal.
— E o que os senhores estão fazendo para descobrir? — ela perguntou. — Aliás, não quero saber. Por favor compreenda, Dr. Cooper, não estou criticando por maldade. Temos que ser extraordinariamente cautelosos. Foi uma falha muito grave colocar os dois alarmes no mesmo circuito. Isso tem que ser corrigido imediatamente. Com certeza, o oficial tártaro encarregado da guarda poderia ajudar na investigação. Menciono isso como mera possibilidade. Aliás, onde estavam os tártaros durante o treinamento? Imagino que já tenha pensado nisso.
— Já pensei, sim — disse o homem em tom cansado. — O corpo de guarda estava inteiramente ocupado patrulhando. Todos os homens. Eles mantêm registro de tudo, meticulosamente.
— Tenho certeza de que vocês estão fazendo o possível — disse ela. — Bem, é isso. Uma pena. Mas vamos mudar de assunto. Quero saber sobre o novo seccionador.
Lyra sentiu um arrepio de medo. Aquilo só podia significar uma coisa.
— Ah, houve um grande progresso — disse o médico, aliviado ao ver que a conversa tomava outro rumo. — Com o primeiro modelo, nós não conseguíamos anular inteiramente o risco da morte do paciente por choque, mas isso foi muito aperfeiçoado.
— Os escraelingues faziam isso muito melhor à mão — disse o homem que ainda não tinha falado.
— Séculos de prática — disse o outro homem.
— Mas, durante algum tempo, a única opção era simplesmente usar a força — disse o principal interlocutor. — Por mais que isso perturbasse os operadores adultos. Todos se lembram que tivemos que dispensar um bom número deles por problemas de ansiedade causada pela tensão. Mas o primeiro grande progresso foi o uso da anestesia combinado com o bisturi anbárico de Maystadt. Conseguimos reduzir a menos de 5% o risco de morte por choque operatório.
— E o novo instrumento? — a Sra. Coulter quis saber.
Lyra estava tremendo. O sangue pulsava em seus ouvidos, e Pantalaimon apertava seu corpo de arminho de encontro a ela, enquanto sussurrava:
— Psiu, Lyra, eles não vão fazer isso, nós não vamos deixar...
— Sim, foi uma curiosa descoberta do próprio Lorde Asriel que nos deu a pista para esse novo método. Ele descobriu que uma liga de manganês e titânio tinha a propriedade de isolar o corpo e o dimon. Aliás, o que anda acontecendo com Lorde Asriel?
— Talvez você não tenha ficado sabendo, mas Lorde Asriel está sob sentença de morte pendente. Uma das condições do exílio dele em Svalbard era desistir totalmente da sua obra filosófica. Infelizmente ele conseguiu obter livros e material, e levou suas pesquisas heréticas até o ponto em que é potencialmente perigoso deixá-lo vivo. De qualquer maneira, parece que o Tribunal Consistorial de Disciplina começou a debater a questão da sentença de morte, e a probabilidade é de que ele seja executado. Mas quanto ao seu instrumento novo, doutor, como é que ele funciona?
— Ah, sim... Sentença de morte? Meu Deus! Ah, sim, me desculpe, o novo instrumento. Estamos pesquisando o que acontece quando a intercisão é feita com o paciente consciente, e é claro que isso não podia ser feito pelo processo de Maystadt. Então desenvolvemos uma espécie de guilhotina, pode-se dizer. A lâmina é feita com uma liga de manganês e titânio, e a criança é colocada num compartimento, como uma cabine, de tela feita da mesma liga, com o dimon num compartimento igual, ligado ao primeiro. A lâmina cai entre eles, cortando o elo entre os dois. Então se tornam entidades separadas.
— Eu gostaria de assistir — ela declarou. — E espero que seja logo. Mas agora estou cansada, acho que vou para a cama. Quero ver todas as crianças amanhã. Vamos descobrir quem foi que abriu aquela porta.
Houve o som de cadeiras empurradas, cumprimentos e uma porta sendo fechada. Então Lyra ouviu os outros tornarem a se sentar e continuarem a conversa, mas em tom mais baixo.
— O que Lorde Asriel está planejando?
— Acho que ele tem uma ideia inteiramente nova da natureza do Pó. O caso é esse. É profundamente herética, entendem, e o Tribunal Consistorial de Disciplina não pode permitir outra interpretação além da autorizada. Além disso, ele quer fazer experiências...
— Experiências? Com o Pó?
— Psiu, fale mais baixo...
— Acha que ela vai fazer um relatório negativo?
— Não, não. Acho que você lidou muito bem com ela.
— A atitude dela me preocupa...
— Não é uma atitude filosófica?
— Exatamente. É interesse pessoal. Não gosto de usar esta palavra, mas é quase sinistro.
— Você está exagerando.
— Mas você se lembra das primeiras experiências, quando ela estava tão ansiosa para ver as separações...
Lyra não conseguiu se controlar: um gemido escapou de seus lábios e ao mesmo tempo ela estremeceu, e seu pé esbarrou numa trave.
— Que foi isso?
— Foi no teto!
— Depressa!
O som de cadeiras afastadas, pés correndo, uma mesa empurrada pelo chão. Lyra tentou se arrastar para longe dali, mas havia pouco espaço, e ela não conseguiu se mover mais que alguns metros quando a placa ao seu lado foi erguida de repente, e ela deparou com o rosto assustado de um homem. Estava tão perto que ela via todos os pelos do bigode dele. Ele ficou tão espantado quanto ela, porém tinha mais liberdade de movimentos e conseguiu enfiar a mão pelo buraco e agarrar o braço dela.
— Uma criança!
— Não deixe que fuja...
Lyra enfiou os dentes na mão grande e sardenta do homem. Ele gritou, mas não soltou o braço dela, mesmo quando os dentes lhe rasgaram a pele. Pantalaimon rosnava e cuspia, mas isso não adiantava, o homem era muito mais forte que ela; puxou-a até que ela teve que soltar a trave à qual se agarrava com o outro braço, e metade do seu corpo caiu pelo buraco.
Ela ainda não tinha emitido um único som. Enroscou as pernas na borda aguçada de metal e lutou de cabeça para baixo, arranhando, mordendo, socando e cuspindo com enorme fúria. Os homens ofegavam e resmungavam de dor ou cansaço, mas não paravam de puxá-la para baixo.
E de repente ela perdeu as forças.
Era como se uma estranha mão tivesse penetrado onde nenhuma mão tinha o direito de ir e arrancado dela algo profundo e precioso.
Ela se sentiu fraca, tonta, enjoada e frouxa com o choque.
Um dos homens estava segurando Pantalaimon.
Ele tinha agarrado o dimon de Lyra com suas mãos humanas, e o coitado do Pan tremia, quase louco de horror e agonia. Em forma de gato-do-mato, seu pelo ora ficava opaco de fraqueza, ora brilhava anbaricamente de terror... Ele se curvava para a sua Lyra, que estendia ambas as mãos em sua direção.
Os dois ficaram imóveis. Estavam presos.
Ela sentia aquelas mãos... Aquilo não era correto... Era proibido tocar... Era errado...
— Ela estava sozinha?
Um homem estudava o espaço acima do teto.
— Parece que sim...
— Quem é ela?
— A garota nova.
— Aquela que os caçadores samoiedes...
— É.
— Será que foi ela... os dimons...
— Pode muito bem ter sido. Mas não sozinha.
— Será que devíamos contar...
— Acho que isso ia nos deixar mal, não é?
— Concordo. É melhor ela não ficar sabendo.
— Mas o que vamos fazer?
— Ela não pode voltar para junto das outras crianças.
— Impossível!
— Só podemos fazer uma coisa, eu acho.
— Agora?
— Tem que ser. Não podemos deixar para amanhã. Amanhã ela vai querer assistir.
— Podíamos fazer nós mesmos. Não há necessidade de envolver outras pessoas.
O homem que parecia ser o chefe, aquele que não estava segurando Lyra nem Pantalaimon, batia nos dentes com a unha. Seus olhos nunca estavam parados; iam de um lado para o outro rapidamente. Finalmente ele assentiu com um gesto de cabeça.
— Agora. Façam agora. Senão ela vai falar. O choque vai impedir pelo menos isso. Ela não vai se lembrar de quem é, o que viu, o que ouviu... Vamos.
Lyra não conseguia falar; mal conseguia respirar. Teve que permitir que a carregassem através da Estação pelos corredores brancos e desertos, passando por aposentos onde lâmpadas anbáricas zumbiam, pelos dormitórios onde as crianças dormiam com seus dimons ao lado, compartilhando seus sonhos; a cada segundo do caminho, ela só enxergava Pantalaimon e ele se debruçava para ela, olhos nos olhos.
Então uma porta foi aberta através de uma grande roda; houve um sibilo de ar, e eles entraram numa câmara bastante iluminada, com azulejos brancos brilhando e aço inoxidável.
O medo que ela sentia era quase uma dor física — aliás, se tornou mesmo uma dor física quando empurraram Lyra e Pantalaimon na direção de uma grande gaiola de tela prateada, acima da qual uma grande lâmina prateada estava prestes a separá-los para todo o sempre.
Ela finalmente conseguiu gritar. O som repercutiu ruidosamente nas superfícies azulejadas, mas a porta pesada tinha se fechado com um sibilo; ela podia gritar para sempre, mas nenhum som escaparia dali.
Mas Pantalaimon, em resposta, havia se desvencilhado daquelas mãos odiosas — ele era leão, era águia: atacou aqueles homens selvagemente com as garras, batendo as grandes asas, depois virou lobo, urso, gato-do-mato, rosnando, arranhando, uma sucessão de transformações rápidas demais para o olho, e o tempo todo saltando, esvoaçando, evitando as mãos desajeitadas que agarravam o vazio.
Mas eles também tinham seus dimons. Não eram dois contra três, eram dois contra seis.
Um texugo, uma coruja e um babuíno se juntaram aos esforços para dominar Pantalaimon, enquanto Lyra gritava:
— Por quê? Por que logo vocês estão fazendo isso? Vocês têm que nos ajudar. Não deviam estar ajudando a eles!
Ela chutava e mordia com mais raiva, até que o homem que a segurava deu um grito e a soltou por um momento — e ela se viu livre, e Pantalaimon pulou para ela como um raio. Ela o apertou contra o peito, e ele enfiou as garras de gato-do-mato na carne dela, e a dor era agradável.
— Nunca! Nunca! Nunca! — ela gritou, e se encostou à parede para defendê-lo até a morte de ambos.
Mas eles caíram sobre ela novamente, três homens grandes e brutais, e ela era apenas uma criança apavorada; eles lhe arrancaram Pantalaimon, a jogaram num lado da gaiola de tela e levaram o dimon, ainda lutando, para o outro lado. Havia uma barreira de tela entre eles, mas ele ainda fazia parte dela, ainda estavam unidos. Por mais um segundo, ele ainda era a alma dela.
Então, acima dos grunhidos dos homens e do próprio choro, Lyra ouviu um som de zumbido e viu um dos homens (com o nariz sangrando) mexendo nos botões de um painel. Os outros dois ergueram os olhos, e ela seguiu o olhar deles. A grande lâmina prateada ia suspendendo lentamente, refletindo o brilho da luz. O último instante de vida completa ia ser o pior de todos.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou uma voz leve e musical.
A voz dela. Tudo ficou imóvel.
— O que vocês estão fazendo? E quem é esta criança...
Ela não completou a pergunta, pois nesse instante reconheceu Lyra. Através das lágrimas, Lyra a viu se desequilibrar e se apoiar numa cadeira; o tão lindo e impassível rosto ficou, por um instante, contorcido e aterrorizado.
— Lyra! — ela conseguiu dizer.
No mesmo instante, o macaco dourado se afastou dela num salto e arrancou Pantalaimon de dentro da gaiola de tela, ao mesmo tempo em que Lyra caía para fora da outra gaiola.
Pantalaimon se soltou das patas solícitas do macaco e foi se aninhar nos braços de Lyra.
— Nunca, nunca — ela sussurrou.
Ele se apertou bem contra ela, e os dois assim ficaram, como náufragos estremecendo numa costa desolada. Ela mal ouviu a Sra. Coulter falando com os homens e sequer conseguiu interpretar o tom da voz da mulher. Então todos saíram daquele lugar pavoroso, a Sra. Coulter amparando Lyra pelo corredor, entraram por outra porta, um quarto de dormir, luz suave, perfume no ar.
A Sra. Coulter a colocou delicadamente sobre a cama. O braço de Lyra apertava tanto Pantalaimon que ela tremia com o esforço. Uma carinhosa mão lhe acariciou a testa.
— Minha querida criança — disse a voz doce. — Como foi que você veio parar aqui?

7 comentários:

  1. Capítulo muito louco. Amei. Mas não sei o por que, queria que essa mulher fosse do bem...

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  2. Luamara feiticeira dimon dragão11 de março de 2017 12:17

    Eu também.fiquei aterrorizada é assustador.

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  3. Eu nao acho que o Lorde Asriel seja do bem também, nem mesmo Jonh Faa ou Farder Coram, por mais que os aprecie, na real, não há um bem ou um mal, creio que o partido que a Lyra tomar será bem diferente do dos pais.

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  4. Fora o fato que no início do livro diz que Lyra vai ser traída... só fico imaginando que não vai ser pela Sra. Coulter e sim por que menos esperamos..

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    1. Falaram Q ela ia trair alguem dahh tanto q a lyra fico indignada e disse q nunca traio nimguem e podia ate pergunta pras pssoa mas n tinha ninguém pra pergunta naquela hora!!!
      E eu acho q confundira educação fisica com ginastica né?

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    2. Não, na época em que o livro foi lançado chamavam educação física de ginástica, tanto que conheço idosos que até hoje quando vão para a academia falam que vão fazer ginástica kkk
      E é verdade, falaram que ela é quem ia trair, não ser traída...

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    3. E não se faz ginástica na academia?

      O ponto lá em cima é que em inglês o que chamamos de educação física é "ginastic"

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Boa leitura :)