4 de fevereiro de 2017

15. Os dimons nas caixas de vidro

NÃO era do temperamento de Lyra ficar parada remoendo os problemas; ela era uma criança impulsiva e prática, e além disso não tinha muita imaginação. Ninguém que tivesse imaginação pensaria seriamente que era possível percorrer toda aquela distância e salvar seu amigo Roger; ou, se pensasse, uma criança com imaginação pensaria logo em várias razões por que aquilo seria impossível. Para ser uma mentirosa experiente não é preciso ter grande imaginação. Muitos mentirosos não têm imaginação; é isso que faz com que suas mentiras sejam convincentes.
Assim, agora que estava nas mãos do Conselho de Oblação, Lyra não se permitiu ficar doente de preocupação pelo que teria acontecido aos gípcios. Eram todos bons lutadores, e mesmo Pantalaimon tendo dito que viu John Faa ser atingido, ele podia ter se enganado; se não estivesse enganado, John Faa podia não estar seriamente ferido. Ela ter caído nas mãos dos samoiedes tinha sido uma falta de sorte, mas os gípcios logo viriam libertá-la; se eles não conseguissem, nada impediria Iorek Byrnison de tirá-la de lá; e então eles voariam para Svalbard no balão de Lee Scoresby e libertariam Lorde Asriel.
Para ela era tudo simples.
Assim, na manhã seguinte, quando acordou no dormitório, ela estava curiosa e pronta para enfrentar o que o dia lhe trouxesse. E ansiosa para ver Roger — principalmente ansiosa para vê-lo antes que ele a visse.
Não precisou esperar muito. As crianças de todos os dormitórios eram acordadas às 7h30 pelas enfermeiras que tomavam conta delas; se vestiam e iam se juntar às outras na cantina, para o café da manhã.
E lá estava Roger.
Ele estava sentado com outros cinco garotos numa mesa perto da porta. A fila para pegar a comida passava bem perto dele. Lyra, então, deu um jeito de deixar cair um guardanapo e se abaixou para apanhá-lo, de modo que Pantalaimon pudesse falar com Salcília, o dimon de Roger. Ela estava na forma de um pintassilgo e bateu as asas com tanta agitação que Pantalaimon teve que virar um gato e saltar sobre ela, prendendo-a no chão para poder cochichar no ouvido dela. Por sorte essas pequenas confusões entre os dimons das crianças eram comuns, e ninguém prestou atenção, mas Roger empalideceu; Lyra nunca tinha visto uma pessoa ficar tão branca. Ele ergueu os olhos para ela, que lhe deu um olhar neutro e distante; a cor voltou ao rosto dele, e ele se encheu de esperança, excitação e alegria; foi Pantalaimon quem, sacudindo Salcília com firmeza, conseguiu impedir que Roger desse um grito e um pulo para abraçar sua melhor amiga, sua companheira de aventuras, Srta. Lyra.
Lyra desviou os olhos, agindo com o maior desprezo que pôde fingir, fazendo cara de impaciência para as suas novas amigas verem. As quatro garotas pegaram suas bandejas com flocos de milho e torradas e se sentaram juntas, numa confraria instantânea, excluindo todas as outras pessoas para poderem fofocar sobre elas.
Não se consegue manter num só lugar um grupo grande de crianças se elas não tiverem alguma coisa para fazer, e de certo modo Bolvangar era como uma escola, com atividades programadas, tais como ginástica e “arte”. Meninos e meninas não se misturavam, a não ser no recreio e na hora das refeições, então foi só no meio da manhã, depois de uma hora e meia de costura sob a supervisão de uma das enfermeiras, que Lyra teve chance de conversar com Roger. Mas tinha que parecer natural, essa era a dificuldade. Todas as crianças tinham mais ou menos a mesma idade, e era a idade em que meninos conversam com meninos e meninas com meninas, todos eles fazendo a maior questão de ignorar o sexo oposto.
Ela teve outra chance na cantina, quando as crianças foram lanchar. Lyra enviou Pantalaimon como mosca para conversar com Salcília na parede ao lado da sua mesa enquanto ela e Roger ficavam em grupos separados. É difícil conversar enquanto a atenção do seu dimon está em outro lugar, então Lyra fingia estar revoltada e melancólica enquanto bebericava o leite com as outras meninas. Metade da sua atenção estava na conversa de zumbidos entre os dois dimons, e ela não prestava muita atenção às companheiras de mesa, mas, em dado momento, ouviu uma menina de cabelos louros e brilhantes dizer um nome que lhe deu um sobressalto.
Era o nome de Tony Makarios. Quando sua atenção se voltou para isso, Pantalaimon teve que diminuir a conversa com o dimon de Roger, e ambas as crianças ficaram escutando o que a menina estava dizendo.
— Não, eu sei por que levaram ele — dizia a garota, enquanto as outras chegavam mais perto para ouvir. — Foi porque o dimon dele não mudava. Eles achavam que ele era mais velho do que parecia, ou coisa assim, e ele não era mesmo um garoto novo. Mas, na verdade, o dimon quase nunca mudava porque o Tony quase nunca pensava. Eu o vi mudar. O nome dele era Rateira...
— Por que eles estão tão interessados em dimons? — Lyra perguntou.
— Ninguém sabe — disse a loura.
— Eu sei — disse um rapaz que estava escutando. — O que eles fazem é matar o seu dimon para ver se você morre.
— Bom, então por que eles fazem isso com várias crianças? — alguém contestou. — Só precisavam fazer uma vez, não é?
— Eu sei o que eles fazem — disse a primeira menina.
Ela agora era o centro das atenções de todos. Porém, como as crianças não queriam que algum adulto soubesse do que estavam falando, elas tinham que fingir indiferença e distração enquanto ouviam com curiosidade apaixonada.
— Como é que sabe? — alguém perguntou.
— Porque eu estava com ele quando vieram buscá-lo. A gente estava na rouparia — ela explicou.
Estava vermelha como um pimentão. Se estava esperando que fizessem gracinhas e ficassem implicando, ficou aliviada, pois todas as crianças estavam preocupadas e nenhuma sequer sorriu. Ela continuou:
— A gente estava bem quieto, e então a enfermeira entrou, aquela da voz açucarada. E ela disse: “Vem, Tony, sei que você está aí, não vamos machucar você...” E então ele perguntou: “O que vai acontecer?” E ela disse: “A gente vai botar você para dormir e fazer uma pequena operação, e então você vai acordar muito bem.” Mas Tony não acreditou. Ele falou...
— Os buracos! — alguém exclamou, interrompendo. — Fazem um buraco na cabeça da gente, como os tártaros! Aposto!
— Cala a boca! Que mais que a enfermeira disse? — outra criança perguntou.
A essa altura, havia mais de uma dúzia de crianças em volta da mesa de Lyra, seus dimons igualmente curiosos, todos tensos, de olhos arregalados. A loura continuou:
— Tony queria saber o que iam fazer com a Rateira, entendem? E a enfermeira disse: “Bom, ela vai dormir também, na hora em que você dormir.” E Tony disse: “Vocês vão matar ela, não vão? Sei que vão. Todos nós sabemos que é isso que acontece.” E a enfermeira disse: “Claro que não. É só uma pequena operação. Um cortezinho. Não vai nem doer, mas a gente vai fazer você dormir só por segurança.”
A cantina inteira estava em silêncio. A enfermeira de plantão tinha saído por um instante, e a portinhola para a cozinha estava fechada, de modo que ninguém podia ouvir de lá.
— Que tipo de corte? — perguntou um menino com a voz assustada. — Ela disse que tipo de corte era?
— Ela disse que era uma coisa para fazer ele ficar mais adulto. Disse que todo mundo tinha que passar por aquilo, e que esse era o motivo dos dimons dos adultos não mudarem como os nossos fazem. Então eles levam um corte que faz eles terem a mesma forma para sempre, e é assim que as pessoas ficam adultas.
— Mas...
— Quer dizer...
— Então todos os adultos levam esse corte?
— E os...
De repente, todas as vozes se calaram como se elas próprias tivessem sido cortadas, e todos os olhos se viraram na direção da porta. A Enfermeira Clara estava ali, com ar tranquilo e normal, e ao lado dela estava um homem de jaleco branco que Lyra ainda não tinha visto.
— Bridget McGinn — ele chamou.
A lourinha se levantou, estremecendo. Seu dimon-esquilo estava agarrado ao seu peito.
— Sim? — ela falou, com uma voz que mal se ouvia.
— Termine o seu leite e venha com a Enfermeira Clara — ele instruiu. — O resto de vocês pode ir para as suas aulas.
Obedientemente, as crianças colocavam sua louça no carrinho de aço inoxidável e saíam em silêncio. Ninguém olhou para Bridget McGinn a não ser Lyra, que viu o rosto da outra branco de medo.
O resto da manhã foi ocupado com exercícios de ginástica. Na Estação, havia uma sala de ginástica, pois era impossível ficar fazendo ginástica ao ar livre durante a longa noite polar, e os grupos de crianças se revezavam sob a supervisão de uma enfermeira. As crianças tinham que formar times e jogar bola; Lyra, que nunca em sua vida havia brincado assim, no princípio não sabia o que fazer. Mas era rápida e atlética, e uma líder natural, e logo estava se divertindo. Os gritos das crianças, a torcida dos dimons, tudo isso enchia o pequeno ginásio e logo afastava os pensamentos de temor — o que, naturalmente, era exatamente o propósito dos exercícios.


Na hora do almoço, quando as crianças estavam novamente na cantina, Lyra sentiu Pantalaimon dar um pio de reconhecimento e quando se virou viu que era Billy Costa parado bem atrás dela.
— O Roger me disse que você estava aqui — ele cochichou.
— Seu irmão está vindo aí, mais John Faa e um bando de gípcios — ela disse. — Vieram buscar você.
Ele quase soltou uma exclamação de alegria, mas disfarçou provocando um acesso de tosse.
— E você tem que me chamar de Lizzie, nunca de Lyra — ela continuou. — E tem que me contar tudo que sabe, certo?
Os dois se sentaram juntos, com Roger por perto. Era mais fácil fazer isso na hora do almoço, com a cantina cheia; as crianças passavam mais tempo indo e vindo por entre as mesas e havia sempre um grupo junto à portinhola. Sob o barulho de talheres, Billy e Roger contaram a ela tudo que sabiam. Billy tinha ouvido uma enfermeira dizer que as crianças que faziam a operação costumavam ser levadas para locais mais ao sul, o que podia explicar como Tony Makarios acabou perdido. Mas Roger tinha uma coisa ainda mais interessante para contar.
— Achei um esconderijo — disse.
— Onde?
— Está vendo aquele retrato? — Ele mostrou o grande painel da praia tropical. — Olhe para o canto de cima à direita, está vendo aquela placa no teto?
O teto era feito de grandes placas retangulares presas numa armação de tiras de metal, e o canto da placa acima do painel fotográfico estava levemente erguido.
— Eu vi aquilo e achei que as outras placas podiam ser soltas também; experimentei, e são mesmo. É só levantar. Eu e um garoto experimentamos uma noite no dormitório, antes de levarem ele. Tem um espaço lá em cima, e a gente pode rastejar lá dentro...
— Até onde dá para rastejar?
— Sei lá. Só avançamos um pouco. Imaginamos que quando chegasse a hora poderíamos nos esconder lá em cima, mas com certeza iriam nos encontrar.
Lyra não encarava aquilo como um esconderijo, mas como uma passagem. Era a melhor coisa que ela havia ouvido desde que chegara! Mas antes que pudessem conversar mais, um médico bateu com uma colher na mesa para pedir silêncio, depois começou a falar:
— Escutem, crianças! Prestem bastante atenção. De vez em quando, nós fazemos um treinamento contra incêndio. É muito importante que todos consigam se vestir e sair do prédio sem pânico. Esta tarde vamos fazer um treinamento. Quando o sino tocar, vocês têm que parar o que estiverem fazendo e obedecer ao que o adulto mais próximo mandar. Guardem bem o caminho para o local para onde serão levados. É o lugar aonde deverão ir se houver um incêndio de verdade.
“Bem, é uma ideia”, pensou Lyra.
Durante o início da tarde, Lyra e outras quatro garotas foram testadas em busca de Pó. Os médicos não disseram que era isso que estavam fazendo, mas era fácil adivinhar. Elas foram levadas uma a uma para um laboratório, e naturalmente isso as deixou com muito medo.
Lyra pensou: que crueldade morrer sem poder atacá-los! Mas ao que parecia eles não iam fazer a tal operação por enquanto.
— Queremos fazer umas medições — o médico explicou.
Era difícil diferenciar aquelas pessoas: todos os homens se pareciam, com seus jalecos brancos, suas pranchetas e seus lápis, e as mulheres também se pareciam, pois os uniformes e aquele estranho ar de neutralidade e apatia faziam com que todas parecessem irmãs.
— Já fui medida ontem — Lyra disse.
— Ah, mas hoje são outras medidas. Fique sobre aquela placa de metal. Ah, primeiro tire os sapatos. Segure o seu dimon, se quiser. Olhe para a frente, isso mesmo, para aquela luzinha verde. Boa menina...
Uma luz piscou. O médico virou o rosto dela para um lado e para outro, e a cada vez alguma coisa estalava e uma luz piscava.
— Ótimo. Agora venha até esta máquina e coloque a mão dentro do tubo. Prometo que não vai doer. Estique os dedos. Assim.
— O que o senhor está medindo? — ela perguntou. — É Pó?
— Quem foi que lhe falou de Pó?
— Uma das meninas, não sei o nome dela. Ela disse que a gente estava cheia de Pó. Eu não estou, pelo menos eu acho que não. Tomei banho ontem.
— Ah, é outro tipo de pó. Não dá para ver a olho nu. É uma poeira especial. Agora feche a mão. Isso mesmo. Ótimo. Agora vá tateando dentro do tubo até encontrar uma espécie de argola. Achou? Segure a argola. Agora pode botar sua outra mão aqui, em cima deste globo de cobre. Ótimo. Vai sentir uma cosquinha leve, nada para se preocupar, é só uma leve corrente anbárica...
Pantalaimon, na forma de um gato-do-mato, muito tenso e cauteloso, se movia em volta dos aparelhos com olhares cheios de suspeita, voltando sempre para se esfregar em Lyra.
A essa altura, ela estava segura de que não iriam fazer a operação nela imediatamente, e também de que seu disfarce como Lizzie Brooks estava a salvo, então arriscou uma pergunta.
— Por que vocês tiram os dimons das pessoas?
— Como assim? Quem lhe falou sobre isso?
— Uma garota, não sei o nome dela. Ela disse que vocês tiram os dimons das pessoas.
— Bobagem...
Mas ele estava nervoso. Ela continuou:
— Porque vocês levam as crianças uma por uma, e elas nunca voltam. E algumas acham que vocês simplesmente matam elas, e outras pessoas acham outras coisas, e essa garota me disse que vocês tiram os...
— Não é verdade. Quando levamos as crianças, é porque chegou a hora de irem para outro lugar. Elas estão crescendo. Acho que sua amiga está com medo sem necessidade. Nada disso! Nem pense nisso. Quem é a sua amiga?
— Eu só cheguei ontem, não sei o nome de ninguém.
— Como é que ela é?
— Esqueci. Acho que tinha cabelos castanhos... bem claros, eu acho... Não sei.
O médico foi falar em voz baixa com a enfermeira. Enquanto os dois conversavam, Lyra observava os dimons deles. O da enfermeira era um lindo pássaro, calmo e desinteressado como o cão da Enfermeira Clara, e o do médico era uma mariposa grande e pesada. Nenhum dos dois se movia. Estavam acordados, pois os olhos do pássaro estavam abertos e as antenas da mariposa se moviam de vez em quando, mas não estavam vivazes como seria de se esperar. Talvez não estivessem mesmo ansiosos ou curiosos.
Finalmente o médico voltou e prosseguiu com o exame, pesando Lyra e Pantalaimon separadamente, examinando-a atrás de uma tela especial, contando os batimentos do coração, colocando-a sob um pequeno bocal que sibilava e soltava um cheiro de ar fresco.
No meio de um dos testes, um sino começou a tocar sem parar.
— O alarme de incêndio — disse o médico, suspirando. — Muito bem, Lizzie, acompanhe a Enfermeira Betty.
— Mas os agasalhos dela estão no prédio do dormitório, doutor. Ela não pode sair assim. Acha que devíamos ir lá primeiro?
Contrariado pela interrupção do exame, ele respondeu com irritação:
— Acho que o treinamento é para que surja exatamente esse tipo de detalhe. Que atrapalhação!
Lyra mais que depressa interveio:
— Ontem quando eu cheguei a Enfermeira Clara botou as minhas roupas num armário naquele primeiro quarto onde ela me examinou. O do lado. Eu podia usar as minhas roupas.
— Boa ideia! Vamos, então — aprovou a enfermeira.
Com secreta excitação, Lyra se apressou a seguir a enfermeira e recuperou seus agasalhos de pele, as perneiras e as botas, e se vestiu depressa, enquanto a enfermeira colocava sua roupa de seda carbonífera.
Então saíram apressadas. Na grande praça em frente ao principal grupo de construções havia umas cem pessoas, entre adultos e crianças: algumas ansiosas, outras irritadas, muitas apenas confusas.
— Está vendo? Vale a pena fazer isso para ver o caos que seria se o incêndio fosse de verdade — dizia um adulto.
Alguém estava soprando um apito e balançando os braços, mas ninguém prestava atenção. Lyra avistou Roger e fez um gesto para que ele se aproximasse; Roger puxou Billy Costa pelo braço e logo os três estavam juntos naquela confusão de crianças correndo.
— Ninguém vai notar se a gente der uma olhada por aí — Lyra sugeriu. — Vão levar anos para contar todo mundo, e podemos dizer que seguimos alguém e nos perdemos.
Esperaram até que a maioria dos adultos estivesse olhando para outro lado, e então Lyra pegou um pouco de neve, fez uma bola e a jogou no meio da multidão; num instante todas as crianças estavam fazendo isso, e o ar estava cheio de bolas de neve voando. Gritos e risadas abafaram completamente os gritos dos adultos que tentavam restabelecer a ordem, e num instante as três crianças dobraram a esquina de uma das construções, ficando fora da vista dos outros. Havia tanta neve que eles não conseguiam se mover depressa, mas isso parecia não ter importância, pois ninguém os seguiu. Lyra e os dois meninos escalaram o telhado curvo de um dos túneis e se encontraram numa estranha paisagem lunar de protuberâncias e reentrâncias, tudo coberto de branco sob o céu negro e iluminado pelos reflexos das luzes em volta da praça.
— O que estamos procurando? — Billy quis saber.
— Sei lá. Estamos só olhando — Lyra respondeu, guiando-os até um prédio baixo e quadrado, um pouco separado dos outros, com uma fraca luz anbárica no canto.
Eles ainda podiam ouvir a confusão do treinamento, mas os sons pareciam distantes. Era evidente que as crianças estavam aproveitando ao máximo sua liberdade, e Lyra esperava que elas continuassem assim por algum tempo. Ela rodeou a construção quadrada, procurando uma janela. O teto estava apenas a pouco mais de 2 metros do chão e, ao contrário dos outros, não era ligado ao resto da Estação por um túnel.
Não havia janela, e sim uma porta. Um cartaz acima dela dizia, em letras vermelhas:

EXPRESSAMENTE PROIBIDA A ENTRADA.

Lyra estendeu a mão para tentar abrir a porta, mas antes que pudesse girar a maçaneta Roger exclamou:
— Veja! Um pássaro! Ou...
A exclamação terminou em tom de dúvida, porque a criatura que descia do céu negro não era um pássaro; era alguém que Lyra já conhecia.
— O dimon da feiticeira!
O ganso bateu as enormes asas, erguendo uma chuva de neve quando pousou.
— Saudações, Lyra — disse. — Segui você até aqui, embora você não tenha me visto. Fiquei esperando que você aparecesse aqui fora. O que está acontecendo?
Ela lhe contou e perguntou:
— Onde estão os gípcios? John Faa está bem? Eles conseguiram afastar os samoiedes?
— A maioria deles está a salvo. John Faa está ferido, mas não gravemente. Os homens que a levaram eram caçadores que costumam atacar caravanas, e aos pares eles conseguem viajar mais depressa do que com um grupo grande. Os gípcios ainda estão a um dia de viagem daqui.
Os dois meninos observavam temerosos o dimon-ganso e a naturalidade com que Lyra se dirigia a ele, pois é claro que nunca tinham visto um dimon sem seu humano, e pouco sabiam sobre feiticeiras. Lyra lhes disse:
— Escutem, é melhor vocês irem vigiar, certo? Billy, você vai por aquele lado, e Roger, vigie por onde viemos. Não temos muito tempo.
Eles correram para fazer o que ela pediu, e então Lyra se virou outra vez para a porta.
— Por que está tentando entrar aí? — perguntou o dimon-ganso.
— Por causa do que eles fazem aí dentro. Eles cortam... — ela baixou a voz — ... cortam fora os dimons das pessoas. Das crianças. E acho que talvez isso seja feito aí dentro. Pelo menos tem alguma coisa aí dentro, e eu ia olhar. Mas está trancado...
— Eu posso abrir — disse o ganso.
Ele bateu as asas uma ou duas vezes, jogando neve na porta; e Lyra escutou alguma coisa girar na fechadura.
— Entre com cuidado — disse o dimon.
Lyra abriu a porta com esforço por causa da neve e se esgueirou para dentro. O dimon-ganso entrou com ela. Pantalaimon estava agitado e temeroso, mas não queria que o dimon da feiticeira visse seu medo, então voou para o peito de Lyra e se escondeu dentro do casaco dela.
Assim que os olhos de Lyra se acostumaram ao escuro, ela viu o motivo daquela agitação.
Numa série de caixas de vidro em prateleiras nas paredes, estavam todos os dimons das crianças seccionadas: formas fantasmagóricas de gatos, pássaros, ratos e outras criaturas, todos perplexos, assustados e pálidos como fumaça.
O dimon da feiticeira soltou uma exclamação de raiva, e Lyra apertou Pantalaimon contra si, dizendo:
— Não olhe! Não olhe!
— Onde estão as crianças desses dimons? — o ganso perguntou, tremendo de raiva.
Lyra contou seu encontro com o pequeno Tony Makarios e olhou por cima do ombro para os pobres dimons encarcerados, que apertavam os focinhos pálidos contra o vidro. Lyra escutava gritos abafados de dor e sofrimento. Na luz fraca de uma lâmpada anbárica de baixo poder, ela viu em frente a cada caixa um nome num cartão, e havia uma caixa vazia com o nome de Tony Makarios. Havia outras quatro ou cinco caixas vazias com nomes.
— Quero soltar esses pobrezinhos! — disse com fúria. — Vou quebrar o vidro e soltar todos eles...
E olhou em volta procurando alguma coisa para quebrar o vidro, mas não encontrou.
— Espere — disse o dimon-ganso.
Ele era o dimon de uma feiticeira e muito mais velho que ela, e mais forte. Ela foi obrigada a obedecer.
— Temos que fazer de um jeito que eles pensem que alguém se esqueceu de trancar o lugar e fechar as caixas — ele explicou. — Acha que seu disfarce vai durar muito tempo se encontrarem vidro quebrado e pegadas na neve? Você tem que ficar em segurança até a chegada dos gípcios. Agora faça exatamente o que eu digo: pegue um punhado de neve e, quando eu mandar, sopre um pouquinho em cima de cada caixa.
Ela correu para fora. Roger e Billy ainda estavam montando guarda, e ainda dava para ouvir o barulho de gritos e risadas na arena, pois tinha se passado pouco mais de um minuto.
Ela encheu as duas mãos de neve solta e voltou para dentro para fazer o que o dimon-ganso havia mandado. Enquanto ela soprava um pouco de neve sobre cada caixa, o ganso dava um estalinho com a garganta e a tranca de cada caixa se abria.
Depois de destrancar todas, ela abriu a frente da primeira e a figura pálida de uma andorinha se lançou para fora, mas caiu no chão, sem conseguir voar. O ganso se inclinou e a colocou de pé carinhosamente, com o bico, e a andorinha virou uma ratazana cambaleante e confusa. Pantalaimon saltou para o chão para consolá-la.
Lyra trabalhou depressa, e em poucos minutos todos os dimons estavam livres. Alguns tentavam falar, e rodeavam os pés dela e até tentavam bicar suas perneiras, embora o tabu os impedisse. Ela sabia a razão: os pobrezinhos sentiam falta do calor sólido e pesado do corpo dos seus humanos; como Pantalaimon teria feito, eles ansiavam por se achegarem a um coração pulsando.
— Agora depressa, Lyra, você tem que voltar correndo e se misturar às outras crianças — disse o ganso. — Seja corajosa, filha. Os gípcios estão vindo o mais depressa possível. Tenho que ajudar esses coitados a encontrarem seus humanos... — Ele se aproximou dela e disse baixinho: — Mas nunca tornarão a ser unos. Estão separados para sempre. É a coisa mais cruel que já vi... Pode deixar suas pegadas, eu vou cobri-las. Agora corra...
— Ah, por favor, antes de ir... As feiticeiras... Elas voam mesmo, não é? Eu não estava sonhando quando vi feiticeiras voando?
— Elas voam, minha filha. Por quê?
— Elas poderiam puxar um balão?
— Claro que sim, por quê?
— Serafina Pekkala vem também?
— Não tenho tempo para explicar a política das nações das feiticeiras. Existem grandes poderes envolvidos, e Serafina Pekkala deve cuidar dos interesses do seu clã. Mas pode ser que isso que está acontecendo aqui seja parte de tudo que está acontecendo em toda parte. Lyra, precisa voltar para lá. Corra, corra!
Ela correu, e Roger, que observava de olhos arregalados os dimons pálidos que saíam da construção, foi até ela através da neve.
— Eles são... É como a cripta da Jordan... São dimons!
— Sim, fale baixo. Não conte a Billy. Não conte a ninguém. Vamos voltar.
Atrás deles, o ganso batia as asas com força, jogando neve sobre as pegadas das crianças; os dimons perto dele se amontoavam com gemidos de sofrimento e saudade. Depois de cobrir as pegadas, o ganso reuniu o grupo de dimons pálidos. Ele falou alguma coisa, e um por um eles mudaram de forma, embora isso lhes custasse um grande esforço, até serem todos pássaros; e como filhotinhos eles seguiram o dimon da feiticeira, voejando, caindo e correndo pela neve atrás dele, e finalmente, com grande dificuldade, levantando voo. Subiram numa fila irregular, pálida e fantasmagórica contra o céu escuro, aos poucos ganhando altura, embora alguns voassem sem direção, enquanto outros perdiam altura; mas o grande ganso cinzento tomou conta de todos e os colocou no rumo certo, e finalmente sumiram todos na escuridão.
Roger puxava o braço de Lyra.
— Depressa, eles estão quase prontos — ele disse.
Saíram correndo aos tropeços pela neve ao encontro de Billy, que acenava da esquina do prédio principal. As crianças tinham se cansado, ou então os adultos haviam conseguido colocar ordem na bagunça, porque havia uma fila começando na porta principal, com muitos empurrões e discussões. Lyra e os outros dois se misturaram às outras crianças, mas não antes de Lyra dizer:
— Espalhem entre as crianças que é para elas se prepararem para fugir. Precisam saber onde estão as roupas de frio, ficar prontas para pegar as roupas e correr assim que dermos o sinal. E isso tem que ser um segredo mortal, entenderam?
Billy assentiu, e Roger perguntou:
— Qual será o sinal?
— O alarme de incêndio — disse Lyra. — Quando chegar a hora, eu vou fazer ele disparar.
Esperaram a contagem. Se alguém do Conselho de Oblação tivesse alguma coisa a ver com uma escola, teria preparado melhor o treinamento: como não estavam divididas em grupos, eles tinham que procurar o nome de cada criança na lista completa, que evidentemente não estava em ordem alfabética; e nenhum dos adultos estava acostumado a controlar crianças.
Então houve muita confusão, embora todas permanecessem em fila.
Lyra observava tudo. Aquelas pessoas não sabiam trabalhar; eram descuidadas em certas coisas; ficavam reclamando do treinamento, não sabiam onde deviam ficar as roupas de frio, não conseguiam fazer as crianças formarem uma fila decente; e essa falta de cuidado poderia ser vantajosa para ela.
Estava tudo quase terminado quando houve outra interrupção, que do ponto de vista de Lyra foi a pior possível.
Ela ouviu o som ao mesmo tempo que os outros. Todos começaram a olhar para o céu escuro em busca do zepelim, cujo motor a gás pulsava no ar imóvel.
A única sorte foi que ele vinha da direção oposta ao caminho do ganso. Mas era o único consolo; logo a nave estava visível, e um murmúrio de nervosismo percorreu a multidão. O corpo roliço, leve e prateado deslizou acima da avenida de luzes, e suas próprias luzes clareavam o solo.
O piloto diminuiu a velocidade e iniciou o complicado processo de ajustar a altura. Lyra percebeu a função do mastro: amarrar a aeronave. Enquanto os adultos levavam as crianças para dentro, com todas olhando para cima e apontando, a equipe de terra subia a escada do mastro, se preparando para receber os cabos de atracação. Os motores roncavam e a neve subia do solo, e os rostos dos passageiros apareciam nas janelas da cabine.
Lyra olhou e o que viu não lhe deixou dúvidas. Pantalaimon se agarrou a ela, virou um gato-do-mato e sibilou de ódio, porque, olhando pela janela com curiosidade, estava o lindo rosto da Sra. Coulter, tendo no colo o seu dimon dourado.

3 comentários:

  1. Viiiiiish... Essa via ter que ser uma fuga espetacular...

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  2. Luamara feiticeira diminuir dragão11 de março de 2017 12:02

    Melhor que Cahill vs Vesper ? Impossível.

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Boa leitura :)