11 de fevereiro de 2017

15. Musgo-sanguíneo

“Adiante”, instruiu o aletiômetro. “Para frente, para cima”. De modo que eles continuaram a subir. As bruxas voavam acima para escolher o melhor o caminho, pois o terreno cheio de colinas logo deu lugar a aclives mais íngremes e solo pedregoso, e enquanto o sol subia em direção ao meio dia, os viajantes se embrenhavam numa região inóspita de solo seco e desbarrancado, grandes rochedos e vales pontilhados de grandes pedras, onde não crescia uma única folha verde e onde o estrídulo dos insetos era o único som.
Seguiram em frente, conversando pouco, parando somente para beber uns goles da água de seus cantis de pele de cabra. Por algum tempo Pantalaimon voou acima da cabeça de Lyra, até que se cansou e transformou-se num pequenino cabrito montês de pés firmes e orgulhoso de seus chifres, saltando por entre as rochas enquanto Lyra subia trabalhosamente. Will seguia, melancólico, apertando os olhos por causa da claridade, ignorando a dor que aumentava em sua mão, e finalmente chegando a um estado em que mover-se era bom e ficar parado era ruim, de modo que ele sofria mais descansando do que em marcha.
E, desde que o feitiço das bruxas para estancar a hemorragia tinha fracassado, ele achava que elas estavam olhando para ele com medo, também, como se ele fosse marcado por alguma maldição mais forte do que o poder delas.
Em certo momento, chegaram a um laguinho, um pedaço de azul intenso com pouco mais de 25 metros de diâmetro, em meio às rochas vermelhas. Pararam ali por algum tempo para beber e encher os cantis, e para banhar os pés doloridos na água gelada. Ficaram alguns minutos e seguiram em frente, e logo depois, quando o sol estava mais quente e mais alto, Serafina Pekkala deu um rasante para falar com eles. Estava nervosa.
— Tenho que deixar vocês por algum tempo — declarou. — Lee Scoresby precisa de mim. Não sei por quê. Mas ele não me chamaria se não precisasse de ajuda. Vão em frente, eu os encontro...
— O Sr. Scoresby? — fez Lyra, agitada e ansiosa. — Mas onde...
Serafina, porém, já tinha partido, sumindo de vista antes que Lyra conseguisse completar a pergunta.
Automaticamente Lyra ia pegar o aletiômetro para perguntar o que tinha acontecido com Lee Scoresby, mas desistiu, pois tinha prometido não fazer coisa alguma além de guiar Will. A menina olhou para ele. Will estava sentado por perto, a mão descansando sobre o joelho, ainda pingando sangue devagar, o rosto crestado de sol e pálido sob o bronzeado.
— Will, sabe por que você tem que encontrar o seu pai? — ela quis saber.
— É o que eu sempre quis saber. Minha mãe disse que eu ia levar o manto do meu pai. É só isso que eu sei.
— Que significa isso, levar o manto dele? O que será esse manto?
— Uma missão, eu acho. Seja o que for que ele anda fazendo, tenho que continuar por ele. Não faz o menor sentido.
Ele enxugou o suor dos olhos com a mão direita. O que o menino não podia dizer era que ansiava pelo pai como uma criança perdida anseia pelo lar. Essa comparação não teria lhe ocorrido, pois o lar era para ele o lugar onde ele tomava conta da mãe, não o lugar onde outras pessoas tomavam conta dele, mas já fazia cinco anos desde aquela manhã de sábado no supermercado quando a brincadeira de se esconder dos inimigos tornara-se desesperadamente real, cinco anos era muito tempo em sua vida, e seu coração ansiava por ouvir as palavras: “Muito bem, muito bem, meu filho; ninguém no mundo teria feito melhor; estou orgulhoso de você. Agora venha descansar...”
Will ansiava tanto por isso que mal sabia que ansiava, aquilo simplesmente fazia parte do modo como as coisas eram. Portanto, não conseguia expressar isso para Lyra agora, embora ela conseguisse ler tudo nos olhos dele — e isso era novidade nela, também: ser tão perceptiva. O fato era que em relação a Will ela estava desenvolvendo outro sentido, como se ele simplesmente estivesse mais nítido do que qualquer outra pessoa que ela conhecia. Tudo nele era claro, próximo e imediato.
E teria até dito isso a ele, mas nesse momento uma bruxa pousou.
— Vem vindo gente atrás de nós — informou. — Estão bem longe, mas avançando depressa. Devo chegar mais perto e espiar?
— Sim, faça isso — disse Lyra. — Mas voe baixo, e se esconda, não deixe que vejam você.
Will e Lyra ficaram de pé com esforço e seguiram em frente com dificuldade.
— Já senti frio muitas vezes, mas nunca tinha sentido tanto calor. Faz calor assim no seu mundo? — perguntou ela, para afastar o pensamento dos perseguidores.
— Não onde eu morava. Normalmente, não. Mas o clima está mudando. O verão tem sido mais quente do que costumava ser. Dizem que as pessoas interferiram na atmosfera colocando nela produtos químicos, e o clima está ficando fora de controle.
— É, colocaram mesmo, e está ficando mesmo — Lyra concordou. — E nós aqui bem no meio disso tudo.
Ele estava com calor e sede demais para responder, e ambos continuaram a subir, ofegantes. Pantalaimon agora era um grilo, sentado no ombro de Lyra, cansado demais para saltar ou voar. De vez em quando, as bruxas avistavam do alto uma nascente distante demais para Lyra e Will atingirem, e voavam até lá para encher os cantis deles. As crianças teriam morrido sem água, e onde estavam era tudo seco, qualquer nascente que conseguisse aflorar logo afundava outra vez entre as rochas. E assim seguiram, enquanto a tarde findava.


A bruxa que voltou para espionar chamava-se Lena Feldt. Ela voava baixo, de um penhasco a outro, e quando o sol se punha, tingindo de vermelho-sangue as rochas, chegou ao laguinho azul e encontrou uma tropa de soldados acampados.
Mas ao primeiro olhar ela ficou sabendo mais do que gostaria: aqueles soldados não tinham dimons. E não eram do mundo de Will, nem do mundo de Cittàgazze, onde os dimons das pessoas ficavam dentro delas, e onde elas mesmo assim pareciam vivas: aqueles homens eram do mundo dela mesma, e vê-los sem dimons era um horror grosseiro e nojento. Então, de uma barraca na margem do lago veio a explicação. Lena Feldt viu uma mulher, uma vida-curta, graciosa em suas roupas cáqui de caçadora e tão cheia de vida quanto o macaco dourado que ao seu lado dava cabriolas ao longo da margem.
Lena Feldt escondeu-se entre os rochedos acima do lago e ficou observando enquanto a Sra. Coulter conversava com o oficial comandante, e os homens montavam barracas, faziam fogueiras, ferviam água. A bruxa estivera com Serafina Pekkala resgatando as crianças em Bolvangar, e sentiu uma vontade imensa de atirar na Sra. Coulter ali mesmo, mas alguma boa sorte estava protegendo a mulher, pois a distância era um pouco grande demais para uma flechada, e a bruxa não poderia chegar mais perto — a não ser que se tornasse invisível. Ela então começou a fazer o feitiço para isso.
Foram precisos 10 minutos de profunda concentração.
Finalmente confiante, Lena Feldt desceu a encosta rochosa em direção ao lago, e quando atravessou o acampamento, um ou dois soldados de olhar vazio ergueram os olhos de relance para ela. A bruxa parou do lado de fora da barraca onde a Sra. Coulter tinha entrado e colocou a flecha no arco. Escutou a voz baixa da mulher através da lona e então avançou cautelosamente até a abertura da barraca, que era virada para o lago. Dentro, a Sra. Coulter conversava com um homem que Lena Feldt nunca tinha visto: um homem mais velho, grisalho e corpulento, com uma dimon-serpente enrolada no pulso. Estavam sentados em cadeiras de lona colocadas lado a lado, e ela falava em voz baixa, inclinada para ele:
— Claro que sim, Carlo — dizia. — Vou lhe contar o que quiser. O que é que você deseja saber?
— Como é que você comanda os Espectros? — ele perguntou. — Pensei que fosse impossível, mas eles seguem você como cachorrinhos... Eles têm medo da sua escolta? O que é?
— Simples. Eles sabem que posso lhes dar mais alimento se me deixarem viva do que se me consumirem. Posso levá-los a todas as vítimas que seus corações fantasmagóricos desejarem. Assim que você os descreveu para mim, eu soube que poderia dominá-los, e foi o que aconteceu. E um mundo inteiro estremece sob o poder dessas coisas pálidas! Mas, Carlo, posso contentar você também, sabe? — ela sussurrou. — Gostaria disso?
— Marisa, já é prazer suficiente estar perto de você...
— Não é, não, Carlo, você sabe que não é. Sabe que posso lhe dar ainda mais prazer .
As mãozinhas negras e calosas do dimon dela acariciavam o dimon-serpente. Aos poucos a serpente desenrolou-se e começou a deslizar ao longo do braço do homem em direção ao macaco. O homem e a mulher seguravam taças de vinho dourado, e ela deu um gole na sua e inclinou-se para ele um pouco mais.
— Ah... — fez o homem, enquanto seu dimon deslizava lentamente do seu braço para as mãos do macaco dourado.
O macaco ergueu-a devagar até o rosto e passou a face de leve ao longo da pele cor de esmeralda da serpente. Esta dardejou a língua, e o homem suspirou.
— Carlo, me conte por que está perseguindo o menino — a Sra. Coulter pediu, com a voz tão suave quanto a carícia do macaco. — Por que precisa encontrá-lo?
— Ele tem uma coisa que eu quero. Ah, Marisa...
— O que é, Carlo? O que é que ele tem?
Ele sacudiu a cabeça. Mas estava achando difícil resistir, seu dimon enrolara-se em volta do tórax do macaco e deslizava a cabeça pela pelagem longa e lustrosa, enquanto o macaco corria as mãos ao longo do corpo fluido da serpente.
Lena Feldt observava, parada, invisível, a dois passos de onde eles estavam sentados. Mantinha a corda do arco tensa, a flecha preparada: em menos de um segundo a Sra. Coulter poderia estar morta. Mas a bruxa estava curiosa, ficou parada, imóvel, silenciosa, de olhos bem abertos. Mas enquanto ela observava a Sra. Coulter, não olhou para o laguinho azul atrás de si. Na margem oposta, na escuridão, parecia ter nascido um bosque de árvores fantasmagóricas, um bosque que de vez em quando estremecia como se com uma intenção consciente. Mas não eram árvores, naturalmente e, enquanto Lena Feldt e seu dimon dedicavam toda a sua atenção à Sra. Coulter, uma das figuras pálidas afastou-se das outras e deslizou sobre a superfície do lago gelado sem provocar uma única ondulação na água, até parar a cerca de um metro da pedra onde o dimon de Lena Feldt estava empoleirado.
— Você podia muito bem me contar, Carlo — murmurava a Sra. Coulter. — Você podia sussurrar. Podia fingir que estava falando dormindo, quem poderia culpá-lo por isso? Conte simplesmente o que é que o garoto tem e por que você quer essa coisa. Eu poderia consegui-la para você... Gostaria que eu fizesse isso? É só me contar, Carlo. Não quero essa coisa para mim, eu quero a garota. O que é? Diga-me, e eu lhe trago.
Ele estremeceu de leve. Tinha os olhos fechados. Então disse:
— É uma faca. A faca sutil de Cittàgazze. Nunca ouviu falar dela, Marisa? Algumas pessoas a chamam de teleutaia makhaira, a última de todas as facas. Outras pessoas chamam de Ӕsahӕttr...
— O que é que ela faz, Carlo? Por que é tão especial?
— Ah... a faca que corta qualquer coisa... Nem os seus fabricantes sabiam o que ela pode fazer... Nada, ninguém, matéria, espírito, anjo, ar, nada é invulnerável para a faca sutil. Marisa, ela é minha, você entende?
— Claro, Carlo. Eu prometo. Deixe-me encher a sua taça... E enquanto o macaco dourado percorria com as mãos o corpo da serpente esmeralda, apertando de leve, erguendo, acariciando, enquanto Sir Charles suspirava de prazer, Lena Feldt viu o que estava realmente acontecendo: como o homem tinha os olhos fechados, a Sra. Coulter secretamente colocou na taça dele algumas gotas de um pequeno frasco antes de tornar a enchê-la com vinho.
— Tome, querido — ela sussurrou. — Vamos brindar um ao outro...
Ele já estava embriagado, pegou a taça e bebeu gulosamente, gole após gole. E então, sem qualquer aviso, a Sra. Coulter levantou-se, virou-se e ficou cara a cara com Lena Feldt.
— Ora, bruxa, pensou que eu não sabia como é que vocês ficam invisíveis? — falou.
Lena Feldt estava atônita demais para se mover. Atrás da Sra. Coulter o homem lutava para respirar. O peito ofegava, o rosto estava vermelho e o dimon pendia flacidamente das mãos do macaco, que jogou-o longe com desprezo.
Lena Feldt tentou erguer o arco, mas uma paralisia fatal lhe dominava o ombro, não conseguia se mexer. Isso nunca tinha acontecido antes, ela soltou um gritinho.
— Ah, é tarde demais para isso — disse a Sra. Coulter. — Olhe para o lago, bruxa.
Lena Feldt virou-se e viu seu dimon-calhandra batendo as asas e guinchando como se estivesse numa câmara de vidro sendo esvaziada de ar, o dimon debateu-se e caiu, o bico aberto, em pânico, tentando respirar. O Espectro o tinha envolvido.
— Não! — ela gritou.
Tentou ir até ele, mas foi impedida por um espasmo de náusea. Mesmo naquele estado terrível, Lena Feldt via que a Sra. Coulter tinha mais força na alma do que qualquer outra pessoa que ela conhecia. Não ficou surpresa ao perceber que o Espectro estava sob o poder da Sra. Coulter: ninguém conseguia resistir à sua autoridade. Lena Feldt, angustiada, voltou-se para ela.
— Solte ele! Por favor, solte ele! — implorou.
— Veremos. A criança está com vocês? A menina, Lyra?
— Está!
— E um garoto, também? Um menino com uma faca?
— É... Eu lhe imploro...
— E quantas bruxas são?
— Vinte. Solte ele, solte ele!
— Todas no ar? Ou algumas ficam no chão com as crianças?
— A maioria no ar, três ou quatro sempre no chão... É horrível... Solte ele, ou me mate agora!
— A que distância da montanha eles estão? Estão avançando, ou pararam para descansar?
Lena Feldt contou-lhe tudo. Teria resistido a qualquer tortura, exceto o que estava agora acontecendo com o seu dimon. Quando a Sra. Coulter ficou sabendo tudo que desejava, disse:
— E agora me conte uma coisa. Vocês, bruxas, sabem alguma coisa sobre essa menina. Eu quase fiquei sabendo por uma das suas irmãs, mas ela morreu antes que eu pudesse completar a tortura. Bem, não há ninguém para salvar você agora. Diga-me a verdade sobre a minha filha.
Lena Feldt disse, ofegante:
— Ela será a mãe... Ela será a vida... a mãe... Vai desobedecer... vai...
— Diga o nome dela! Você está contando tudo, menos a coisa mais importante! O nome dela! — gritou a Sra. Coulter.
— Eva! A mãe de todos! Eva, outra vez! A Mãe Eva! — balbuciou Lena Feldt, soluçando.
— Ah! — fez a Sra. Coulter.
E soltou um grande suspiro, como se finalmente o propósito de sua vida estivesse claro. A bruxa percebeu vagamente o que tinha feito, e, vencendo o horror que a envolvia, tentou gritar:
— O que é que vai fazer com ela? O que é que vai fazer?
— Ora, vou ter que destruí-la — respondeu a Sra. Coulter. — Para impedir outra Queda... Por que não vi isso antes? Era grandioso demais para ser percebido...
Ela bateu palmas de leve, como uma criança, de olhos arregalados. Lena Feldt, gemendo, ouviu-a prosseguir:
— Claro que sim. Asriel vai guerrear contra a Autoridade, e então... Claro, claro... Como antes, de novo. E Lyra é Eva. E desta vez ela não vai cair. Vou cuidar disso. Não vai haver Queda...
E a Sra. Coulter endireitou o corpo e estalou os dedos para o Espectro que se alimentava do dimon da bruxa. O pequeno dimon-calhandra ficou caído sobre a pedra, em espasmos, enquanto o Espectro avançava para a própria bruxa e então, o que quer que Lena Feldt tenha suportado foi duplicado e triplicado e multiplicado 100 vezes. Ela sentiu náuseas na alma, um desespero terrível e repugnante, melancolia e cansaço, um cansaço tão profundo que ela pensou que fosse morrer. Seu último pensamento consciente foi nojo da vida: seus sentidos tinham-lhe mentido, o mundo não era feito de energia e delícia, mas de sujeira, traição e lassitude. Viver era horrível e morrer não era melhor, e de um lado a outro do universo essa era a primeira e última e única verdade.
Assim ficou ela, o arco na mão, indiferente, morta em vida. De modo que Lena Feldt deixou de ver ou de se importar com o que a Sra. Coulter fez em seguida.
Ignorando o homem grisalho derreado, inconsciente, na cadeira de lona, e o dimon-serpente de pele opaca enrodilhada no chão, ela chamou o capitão dos soldados e ordenou que se preparassem para uma marcha noturna montanha acima.
Então foi até a beirada do lago e chamou os Espectros. Eles vieram ao seu comando, deslizando como colunas de névoa por cima da água. Ela ergueu os braços e fez com que se esquecessem de que eram presos à terra, de modo que um por um eles se ergueram no ar e flutuaram, como sombras malévolas deslizando na noite, levados pelas correntes de ar em direção a Will, Lyra e as outras bruxas, mas Lena Feldt nada enxergou disso tudo.


Depois que escureceu, a temperatura caiu rapidamente, Will e Lyra comeram o restante do pão seco e foram deitar-se na reentrância formada por um rochedo que assomava, para ficarem aquecidos e tentarem dormir. Lyra, pelo menos, não precisou tentar; em apenas um minuto estava dormindo, enrodilhada em volta de Pantalaimon. Mas Will não conseguia dormir, por mais que tentasse — em parte por causa da mão, que agora latejava até o cotovelo e estava incomodamente inchada, em parte por causa do solo duro, em parte pelo frio, em parte por pura exaustão e em parte por saudade da mãe. Estava preocupado com ela, naturalmente, e achava que estaria mais segura se ele estivesse lá, tomando conta dela, mas queria que ela tomasse conta dele, também, como quando ele era pequeno; queria que lhe fizesse um curativo, cantasse para ele dormir e levasse embora todos os problemas, que o rodeasse de todo o carinho, suavidade e amor maternal de que ele tanto precisava; e isso nunca iria acontecer. Parte dele ainda era um menininho. De modo que ele chorou, mas sem se mexer, para não acordar Lyra.
Mas mesmo assim não conseguia dormir. Estava mais desperto que nunca.
Finalmente estendeu as pernas doloridas e levantou-se cautelosamente, estremecendo, e com a faca na cintura pôs — se a subir a montanha, para acalmar a sua inquietação.
Atrás dele, o dimon-tordo da bruxa de sentinela inclinou a cabeça e a bruxa virou-se em seu posto de vigia para ver Will subindo pelas pedras. Ela pegou seu ramo de pinheiro-nubígeno e alçou voo silenciosamente, não para incomodá-lo, mas para protegê-lo e evitar que ele se machucasse. Ele não percebeu. Sentia tal necessidade de se movimentar que já quase não sentia a dor na mão. Tinha a sensação de que deveria caminhar a noite inteira, o dia inteiro, para sempre, porque nada mais acalmaria aquela febre em seu peito. Então, como se solidário com ele, o vento começara a soprar. Não havia folhas que pudessem ser sacudidas, mas o vento golpeava o corpo de Will, soprando seus cabelos, havia turbulência dentro e fora dele. Ele subiu cada vez mais alto, mal se lembrando de que precisaria encontrar o caminho de volta para Lyra, até chegar a um pequeno platô que parecia estar quase no topo do mundo; em volta dele, em todos os horizontes, não havia montanha mais alta. Ao luar brilhante, as únicas cores eram o negro total e o branco puro, os contornos eram serrilhados e as superfícies eram nuas.
O vento selvagem devia estar trazendo nuvens, pois de repente a lua foi encoberta e a escuridão cobriu toda a paisagem; e eram nuvens espessas, pois nem um raio de luar brilhava através delas. Em menos de um minuto Will encontrou-se em escuridão quase total.
E no mesmo momento sentiu que lhe agarravam o braço direito. Ele gritou com o choque e tentou desvencilhar-se, mas foi em vão. E Will tornou-se selvagem. Tinha a sensação de ter chegado ao fim do mundo, se ali fosse também o fim da sua vida, ele iria lutar e lutar até cair. De modo que pôs-se a girar e chutar, mas a mão não o soltava, como era o braço direito que estava preso, ele não conseguia pegar a faca. Tentou fazer isso com a mão esquerda, mas estava sendo tão sacudido, e sua mão estava tão inchada e dolorida, que não conseguiu, tinha que lutar com uma só mão, machucada, contra um homem adulto.
Enterrou os dentes na mão que lhe prendia o braço, mas o que aconteceu foi que o homem lhe deu um soco estonteante na nuca. Então Will tornou a chutar, alguns dos chutes atingiram o alvo e outros não, e durante todo o tempo ele saltava, girava, empurrava e se debatia, mas não conseguia desvencilhar-se.
Ouvia vagamente a sua própria respiração ofegante junto com os grunhidos e a respiração rascante do homem, então, por puro acaso, conseguiu passar a perna por trás do outro e jogou-se contra o peito dele, e o homem caiu com Will por cima, mas nem por um instante o aperto no braço de Will diminuiu. E Will, rolando com violência no solo pedregoso, sentiu um grande medo apertar-lhe o coração: aquele homem jamais iria soltá-lo, mesmo que o menino conseguisse matá-lo, o cadáver continuaria preso ao seu braço. Mas Will sentia-se enfraquecendo, e agora estava chorando, também, soluçando amargamente enquanto chutava, empurrava e batia no homem com a cabeça e os pés, e sabia que seus músculos logo cederiam. E então percebeu que o homem estava imóvel, embora a mão continuasse agarrando firmemente o braço de Will.
Estava deitado, deixando que Will o surrasse com a cabeça e os joelhos, e assim que percebeu isso Will perdeu o resto das suas forças e caiu ao lado do seu oponente, atordoado, cada nervo em seu corpo retesado e latejante.
Will ergueu o tronco com dificuldade e perscrutou a profunda escuridão, distinguindo um borrão branco no chão ao lado do homem. Era o peito e a cabeça brancos de um grande pássaro, uma águia-pesqueira, um dimon, que estava deitado, imóvel. Will tentou soltar o braço, e o fraco puxão provocou uma reação do homem, cuja mão não tinha afrouxado. Mas ele estava se mexendo: estava tateando a mão direita de Will com sua mão livre. Will arrepiou-se. Então o homem disse:
— Me dê a sua outra mão.
— Tome cuidado — Will pediu.
A mão livre tateou ao longo do braço esquerdo de Will, e as pontas dos dedos deslizaram pelo pulso até a palma inchada e, com enorme delicadeza, pelos dois tocos dos dedos de Will. No mesmo instante a outra mão soltou o menino e ele se sentou.
— Você tem a faca — afirmou. — Você é o portador da faca.
A voz era ressonante, áspera, porém ofegante. Will sentia que o outro estava seriamente ferido. Ele teria machucado aquele adversário oculto?
Will ainda estava deitado nas pedras, inteiramente exausto. Tudo que via era o vulto do homem agachado ao seu lado, mas não conseguia ver-lhe o rosto. O homem estava procurando alguma coisa, e depois de um instante uma sensação maravilhosa e calmante espalhou-se pela mão de Will, partindo dos tocos dos dedos, enquanto o homem massageava sua pele com um unguento.
— O que está fazendo? — Will perguntou.
— Curando o seu machucado. Fique quieto.
— Quem é você?
— Sou o único homem que sabe para que serve a faca. Segure a mão assim. Não se mexa.
O vento soprava mais forte que nunca, e um pingo de chuva bateu no rosto de Will. Ele tremia violentamente, mas apoiou a mão esquerda com a direita enquanto o homem espalhava mais pomada sobre os tocos e enrolava uma faixa de linho em volta da mão.
Assim que o curativo ficou pronto, o homem deixou-se cair de lado e deitou-se.
Will, ainda pasmo com a abençoada insensibilidade na mão, tentou sentar-se e olhar para ele. Mas estava mais escuro do que nunca. Ele estendeu a mão direita e tocou no peito do homem, onde o coração batia como um pássaro contra as grades de uma gaiola.
— Sim — disse o homem em voz rouca. — Tente curar isto.
— Está doente?
— Vou melhorar logo. Você tem a faca, não?
— Sim.
— E sabe usá-la?
— Sei, sei. Mas o senhor é deste mundo? Como é que sabe dela?
O homem sentou-se com esforço.
— Escute — disse. — Não me interrompa. Se você é o portador da faca, tem uma missão maior do que pode imaginar. Um menino... Como é que eles deixaram isto acontecer? Bem, já que tem que ser... Vem aí uma guerra, garoto. A maior que já existiu. Já aconteceu uma coisa parecida, e desta vez o lado certo tem que vencer... Durante todos os milhares de anos da História humana, só tivemos mentiras, propaganda, crueldade e hipocrisia. Está na hora de começar de novo, mas desta vez da maneira certa...
Ele parou de falar para respirar várias vezes, ruidosamente. Depois de um minuto, continuou:
— E a faca... Eles não sabiam o que estavam fazendo, aqueles filósofos antigos. Inventaram uma coisa que podia partir as menores partículas de matéria, e usaram isso para roubar caramelos. Não tinham ideia de que haviam feito a única arma em todos os universos que poderia derrotar o tirano. A Autoridade. Deus. Os anjos rebeldes fracassaram porque não tinham uma coisa assim, mas agora...
— Eu não queria a faca! E ainda não quero! — Will exclamou. — Se o senhor quer, pode ficar com ela! Eu odeio esta faca e odeio o que ela faz...
— Tarde demais. Você não tem escolha: é o portador. A faca o escolheu. E além disso, eles sabem que você está com ela, e se não usá-la contra eles, vão arrancá-la de você e usá-la contra o resto de nós, para sempre.
— Mas por que eu devo lutar contra eles? Já lutei demais, não posso continuar lutando, eu quero...
— Você venceu as suas lutas?
Will ficou em silêncio. Depois disse:
— É, acho que sim.
— Lutou pela faca?
— Sim, mas...
— Então é um guerreiro. É o que você é, conteste qualquer coisa, menos a sua própria natureza.
Will sabia que o homem estava falando a verdade. Mas não era uma verdade agradável, era pesada e dolorosa. O homem parecia saber disso, pois deixou Will baixar a cabeça antes de tornar a falar.
— Existem dois grandes poderes, e eles lutam desde o início dos tempos. Eles disputam, arrancando dos dentes um do outro, cada progresso na vida humana, cada passo nosso no conhecimento, na sabedoria e na decência. Cada pequeno avanço na liberdade humana foi disputado ferozmente entre aqueles que querem aumentar o nosso conhecimento para que sejamos mais sábios e mais fortes, e aqueles que nos querem obedientes, humildes e submissos. E agora esses dois poderes estão se preparando para a guerra. E cada um deles quer essa sua faca mais do que qualquer outra coisa. Você tem que escolher, garoto. Nós dois fomos guiados até aqui: você com a faca e eu para lhe falar dela.
— Não! Você está enganado! — Will exclamou. — Eu não estava procurando nada disso! Não é nada disso que eu estava procurando!
— Você pode achar que não é, mas foi isso que encontrou — disse o homem na escuridão.
— Mas o que devo fazer?
E então Stanislaus Grumman, Jopari, John Parry, hesitou.
Tinha plena consciência do juramento que fizera a Lee Scoresby, e hesitou antes de rompê-lo, mas foi o que fez.
— Você deve ir até Lorde Asriel e dizer-lhe que Stanislaus Grumman mandou você e que você tem a arma de que ele precisa mais do que todas. Gostando ou não, rapaz, você tem um trabalho a fazer. Ignore todo o resto, por mais importante que pareça ser, e vá fazer isso. Vai aparecer alguém para guiá-lo, a noite está cheia de anjos. Agora a sua ferida vai cicatrizar. Espere. Antes de ir, quero ver você direito.
Ele tateou à procura do pacote que estava carregando, tirou alguma coisa, desdobrou várias camadas de lona e depois acendeu um fósforo e com ele acendeu uma pequena lamparina de lata. A essa luz, através do ar ventoso e denso de chuva, os dois se entreolharam.
Will viu olhos ardentes num rosto abatido, dominado pela dor, o queixo forte coberto por uma barba de vários dias, cabelos grisalhos, um corpo curvado e magro envolto numa capa pesada, uma espécie de manto orlado de penas de pássaros diversos.
O xamã viu um garoto ainda mais jovem do que ele tinha imaginado, o corpo magro e trêmulo numa camisa de linho rasgada, e expressão exausta, selvagem e desconfiada, mas iluminada por uma curiosidade feroz, os olhos arregalados sob as sobrancelhas negras e retas, tão parecidas com as da mãe...
E então aconteceu entre ambos a primeira fagulha de outra coisa mais. Mas nesse mesmo momento, enquanto a luz da lamparina iluminava o rosto de John Parry, alguma coisa desceu do céu encoberto e ele caiu morto antes de poder dizer uma palavra, com uma flecha cravada no coração doente. O dimon-águia-pesqueira desapareceu.
Will conseguia apenas olhar, estupefato. Uma faísca cruzou seu campo de visão, e sua mão direita moveu-se como um raio, ele viu que estava segurando um dimon, um tordo de peito vermelho, em pânico.
— Não! Não! — gritou a bruxa Juta Kamainen, e caiu também, apertando o peito, batendo no solo pedregoso e levantando-se outra vez com esforço. Mas Will aproximou-se antes que ela conseguisse se equilibrar, e colocou a faca sutil na garganta dela.
— Por que fez isso? — gritou. — Por que matou ele?
— Porque eu o amava e ele me desprezou! Sou uma bruxa! Eu não perdoo!
E por ser uma bruxa, normalmente ela não teria medo de um menino, mas teve medo de Will. Aquela jovem figura machucada tinha mais força e representava um perigo maior do que ela jamais encontrara num humano, e ela se intimidou.
Deu um passo para trás, ele avançou e agarrou-lhe os cabelos com a mão esquerda, sem sentir dor, sentindo apenas um desespero enorme e esmagador.
— Você não sabe quem ele era! — gritou. — Era o meu pai.
Ela sacudiu a cabeça e sussurrou:
— Não, não! Não pode ser verdade! Impossível!
— Você acha que as coisas têm que ser possíveis? As coisas têm que ser verdadeiras! Ele era o meu pai, e nenhum dos dois sabia, até o segundo em que você o matou! Bruxa, eu espero a minha vida inteira e venho até aqui e finalmente encontro o meu pai, e você mata ele...
Ele sacudiu a cabeça dela como a de uma boneca, e jogou-a sobre o solo, deixando-a quase inconsciente. O pasmo dela era quase maior do que o medo que tinha dele, que era bem grande, e ela se levantou, atordoada, e agarrou a camisa dele, em súplica. Ele afastou a mão dela com brutalidade.
— Que foi que ele lhe fez, para precisar matar ele? — gritou. — Diga-me, se puder!
E ela olhou para o morto. Depois olhou outra vez para Will e sacudiu a cabeça com tristeza.
— Não consigo explicar — disse. — Você é novo demais. Não iria entender. Eu o amava. Só isso. Isso basta.
E antes que Will pudesse impedi-la, caiu de lado, com a mão no punho da faca que acabara de tirar de seu próprio cinto e enfiar no peito. Will não sentiu horror; apenas desolação e perplexidade. Levantou-se devagar e olhou para a bruxa morta, para os cabelos negros, a face corada, os membros macios e pálidos molhados de chuva, os lábios entreabertos como os de uma amante.
— Não compreendo. É estranho demais — disse em voz alta.
Will virou-se para o homem morto, seu pai.
Mil coisas lutavam em sua garganta, e só a chuva forte esfriava o fogo em seus olhos. A pequena lamparina ainda tremeluzia ao vento, e à sua luz Will ajoelhou-se e colocou as mãos no corpo do homem, tocando em seu rosto, seus ombros, seu peito, fechando os seus olhos, afastando da sua testa os cabelos grisalhos e molhados, apertando as mãos contra suas faces ásperas, fechando a boca de seu pai, segurando as suas mãos.
— Pai... Papai, paizinho... Meu pai... Não entendo por que ela fez isso. É estranho demais para mim. Mas o que o senhor queria que eu fizesse, prometo, juro que vou fazer. Vou lutar. Vou ser um guerreiro, vou. Esta faca, vou levá-la para Lorde Asriel, onde quer que ele esteja, e vou ajudar ele a lutar contra o inimigo. Vou fazer isso. Pode descansar agora. Está tudo bem. Pode dormir agora.
Ao lado do morto estava a bolsa de pele de cervo, com a lona dobrada, a lamparina e a pequena caixinha de chifre cheia de unguento de musgo-sanguíneo.
Will recolheu essas coisas, e então viu o manto orlado de penas, sujo e encharcado, mas ainda assim um agasalho. Não teria mais utilidade para o pai, e Will estava tremendo de frio. Desabotoou afivela de bronze que prendia o manto na garganta do homem morto e colocou a bolsa de lona sobre o ombro antes de enrolar-se nele.
Apagou a lamparina e olhou para trás, para as figuras desfocadas do pai, da bruxa e novamente do pai, antes de virar-se e descer a montanha. O ar tempestuoso estava elétrico com sussurros, e no fragor do vento Will ouvia outros sons também: ecos confusos de gritos e cânticos, o clangor de metal contra metal, um poderoso ruflar de asas que em certo momento soou tão próximo que poderia até estar dentro da cabeça dele, e no momento seguinte parecia tão distante que poderia estar em outro planeta. As pedras no chão eram soltas e escorregadias, e foi muito mais difícil descer do que tinha sido subir, mas ele não vacilou.
E quando desceu o último pequeno barranco antes de chegar ao lugar onde Lyra estava dormindo, ele estacou de repente. Havia dois homens simplesmente parados ali, no escuro, como se estivessem esperando. Will levou a mão à faca.
Então um deles falou:
— Você é o menino da faca?
Sua voz tinha a mesma qualidade estranha do ruflar de asas. Fosse quem fosse, não era um ser humano.
— Quem são vocês? — Will perguntou. — São homens, ou...
— Não somos homens, não. Somos os Vigilantes. Bene elim. Em sua língua, anjos.
Will ficou em silêncio. O homem continuou.
— Outros anjos têm outras funções e outros poderes. A nossa missão é simples: precisamos de você. Viemos seguindo o xamã por todo o caminho, na esperança de que ele nos levasse a você, e ele fez isso. E agora viemos para levar você a Lorde Asriel.
— Vocês estiveram com meu pai todo o tempo?
— Cada minuto.
— Ele sabia?
— Não tinha a menor ideia.
— Então por que não detiveram a bruxa? Por que deixaram ela matar o meu pai?
— Antes nós teríamos feito isso, mas a missão dele estava cumprida, depois que ele nos levou até você.
Will não respondeu. Sua cabeça retinia, aquilo não era menos difícil de entender do que todo o resto. Finalmente falou:
— Está bem, eu vou com vocês. Mas primeiro tenho que acordar Lyra.
Eles se afastaram para deixá-lo passar, e ele sentiu uma vibração no ar ao passar perto das duas figuras, mas ignorou isso e concentrou-se em descer a encosta na direção do pequeno abrigo onde Lyra estava dormindo. Mas alguma coisa fez com que estacasse.
Na penumbra, ele viu que as bruxas que protegiam Lyra estavam todas sentadas ou de pé, imóveis. Pareciam estátuas, respiravam, mas mal estavam vivas. Havia também vários corpos vestidos de seda negra caídos no chão, e enquanto contemplava a cena, horrorizado, Will entendeu o que devia ter acontecido: elas tinham sido atacadas no ar pelos Espectros e morrido na queda, indiferentes.
Mas...
— Onde está Lyra? — ele bradou.
A pequena reentrância sob o rochedo estava vazia. Lyra tinha desaparecido.
Havia alguma coisa onde Lyra estivera deitada. Era a pequena mochila de brim, e pelo peso ele soube, sem precisar olhar, que o aletiômetro ainda estava ali dentro.
Will sacudiu a cabeça. Não podia ser verdade, mas era: Lyra tinha sumido, Lyra tinha sido capturada, Lyra estava perdida.
As duas figuras escuras dos bene elim não tinham se movido. Mas disseram:
— Agora tem que vir conosco. Lorde Asriel precisa de você imediatamente. O poder do inimigo cresce a cada minuto. O xamã lhe disse qual é a sua missão. Siga-nos e nos ajude a vencer. Venha conosco. Venha por aqui. Venha agora.
Will olhou para eles, depois para a mochila de Lyra e de novo para eles, e não escutou uma só palavra do que eles disseram.

4 comentários:

  1. Não sei pq, mas pressinto um final muito, muito triste... é estranho...

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  2. O menino mal acaba de encontrar o pai e... cara, que droga

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  3. Luamara feiticeira dimon dragão12 de março de 2017 15:07

    Eu vou precisar de terapia . santo clã das estrelas.

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  4. Sabia que ela seria Eva
    Faleiiiiii

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Boa leitura :)