17 de fevereiro de 2017

15. A forja

... enquanto eu caminhava em meio as chamas do inferno, encantado com os prazeres dos espíritos...
Willian Blake

Naquele momento, os galivespianos estavam conversando a respeito da faca. Tendo feito um duvidoso acordo de paz com Iorek Byrnison, subiram de volta para sua saliência na rocha, para se manter fora do caminho e enquanto o crepitar das chamas crescia e os estalos e os rugidos do fogo enchiam o ar, Tialys disse:
— Não devemos nunca sair do lado dele. Tão logo a faca esteja consertada, devemos nos manter mais perto que uma sombra.
— Ele é vivo demais. Vigia todos os cantos atrás de nós — observou Salmakia. — A garota é mais crédula. Acho que poderíamos conquistá-la. Ela é inocente e ama com facilidade. Poderíamos nos dedicar a ela. Acho que deveríamos fazer isso, Tialys.
— Mas ele tem a faca. É ele quem pode usá-la.
— Ele não vai a lugar nenhum sem ela.
— Mas ela tem que segui-lo, se ele tiver a faca. E creio que, assim que a faca estiver intacta de novo, vão usá-la para fugir de nós. Você viu como ele fez e a impediu de falar quando ia dizer mais alguma coisa? Eles têm algum objetivo secreto, e é muito diferente do que queremos que façam.
— Vamos ver. Mas creio que você tem razão, Tialys. Devemos nos manter perto do menino a qualquer custo.
Ambos tinham observado com algum ceticismo enquanto Iorek Byrnison arrumava suas ferramentas na oficina improvisada. Os poderosos operários nas fábricas de peças de artilharia no subsolo da fortaleza de Lorde Asriel, com seus altos-fornos e laminadores, suas forjas anbáricas e prensas hidráulicas, teriam rido do fogo aberto, do martelo de pedra, da bigorna consistindo em um pedaço da armadura de Iorek. Não obstante isso, o urso havia avaliado as dificuldades, tomado as providências e assumido muito seriamente sua tarefa, e na precisão de seus movimentos os pequenos espiões começaram a ver alguma qualidade que fazia calar seu escárnio.
Quando Lyra e Will entraram trazendo a lenha, Iorek os instruiu sobre como colocar os galhos cuidadosamente na fogueira. Examinava cada galho, virando-o de um lado para outro, e depois dizia a Will ou a Lyra para colocá-lo neste ou naquele ângulo específico, ou para quebrar uma parte e colocá-la separadamente na beira. O resultado foi uma fogueira de extraordinária ferocidade, com toda a sua energia concentrada em um dos lados. A essa altura o calor na caverna era intenso. Iorek continuou a alimentar a fogueira e mandou as crianças fazerem mais duas viagens descendo a trilha para garantir que houvesse combustível suficiente para a operação inteira. Então o urso apanhou uma pequena pedra no chão e pediu a Lyra para procurar mais pedras do mesmo tipo. Explicou que aquelas pedras, quando aquecidas, deixavam escapar um gás que cercaria e envolveria a lâmina, impedindo o ar de entrar em contato com ela, pois se o metal quente entrasse em contato com o ar, o absorveria um pouco e seria enfraquecido por ele. Lyra pôs-se a procurar e, com a ajuda dos olhos de coruja de Pantalaimon, logo tinha juntado uma dúzia de pedras ou mais para entregar. Iorek explicou-lhe como colocá-las e onde, e mostrou a ela exatamente o tipo de corrente de ar que deveria obter, abanando um galho cheio de folhas, para se assegurar de que o gás fluísse de maneira constante sobre a peça trabalhada.
Will foi encarregado de cuidar do fogo, e Iorek passou vários minutos lhe dando instruções e se assegurando de que compreendesse os princípios que deveria usar. Havia uma quantidade de coisas que dependiam de posicionamento exato e Iorek não podia parar para corrigir cada uma delas. Will tinha que compreender todas, pois só assim as faria corretamente. Além disso, ele não deveria esperar que a faca tivesse exatamente o mesmo aspecto depois de consertada. Ficaria mais curta, pois cada pedaço da lâmina partida deveria recobrir ligeiramente o seguinte, de maneira a poderem ser forjados juntos, e a superfície oxidaria um pouco, a despeito do gás da pedra, de modo que parte do jogo de cores se perderia, e sem dúvida o cabo ficaria queimado. Mas a lâmina voltaria a ser igualmente afiada e funcionaria. De modo que Will ficou observando enquanto as chamas rugiam, lambendo os galhos de madeira resinosa e, com os olhos lacrimejando e as mãos chamuscadas, ajustou cada novo galho que foi acrescentando até que o calor estivesse concentrado como Iorek queria.
Enquanto isso, o próprio Iorek amolava e martelava uma pedra do tamanho de um punho, depois de ter rejeitado várias até encontrar uma com o peso certo. Com golpes poderosos foi lhe dando forma e polindo, o cheiro de cordite de pedras espatifadas se juntando à fumaça nas narinas dos dois espiões que observavam lá do alto. Até Pantalaimon estava em ação, tomando a forma de um corvo para poder bater as asas e avivar as chamas fazendo o fogo arder mais depressa.
Finalmente o martelo ficou pronto, com o formato que Iorek queria, e ele colocou os dois primeiros pedaços da lâmina da faca sutil no meio da lenha que ardia com ferocidade no centro da fogueira e disse a Lyra para começar a abanar para dirigir o gás das pedras sobre eles. O urso ficou observando, seu focinho branco comprido e pálido no clarão do fogo, e Will viu a superfície do metal começar a reluzir, ficando incandescente, primeiro vermelha, depois amarela e então branca.
Iorek estava acompanhando isso muito atentamente, a pata estendida pronta para retirar rapidamente os pedaços. Depois de alguns momentos, o metal mudou novamente e a superfície ficou brilhante e faiscante, e fagulhas, exatamente como as de fogos de artifício, saltavam dela, espirrando para o alto.
Então Iorek entrou em ação. A pata direita se moveu, rápida como um dardo, e tirou primeiro um pedaço depois outro, segurando-os entre as pontas de suas garras maciças e colocando-os sobre a placa de ferro que era a chapa das costas de sua armadura. Will sentiu o cheiro das garras queimando, mas Iorek não deu atenção àquilo e, movendo-se com uma velocidade extraordinária, ajustou o ângulo em que os pedaços se sobrepunham e então levantou a pata esquerda bem alto e bateu violentamente com o martelo de ferro.
A ponta da faca saltou na pedra sob o golpe violento. Will estava pensando que todo o resto de sua vida dependia do que acontecesse naquele minúsculo triângulo de metal, aquela ponta que encontrava as frestas no interior dos átomos, e todos os seus nervos tremeram, percebendo cada faísca e cada chama, e o alargamento de todos os átomos na gelosia do metal. Antes que isso começasse, tinha imaginado que apenas uma fornalha de tamanho normal, com todas as ferramentas e equipamento da maior qualidade, poderia dar conta do trabalho naquela lâmina, mas naquele instante se deu conta de que aquelas eram as melhores ferramentas e que o grande talento de Iorek havia construído a melhor fornalha do mundo.
Iorek rugiu acima do clangor:
— Segure-a mantendo-a imóvel em sua mente! Você também tem que forjá-la! Esta tarefa é tão sua quanto minha!
Will sentiu todo o seu ser tremer sob os golpes do martelo de pedra no punho do urso. O segundo pedaço da lâmina também estava se aquecendo e o galho com folhas na mão de Lyra empurrava o gás ao longo de seu comprimento para banhar os dois pedaços em seu fluxo e impedir a entrada do ar corrosivo. Will percebia tudo aquilo e sentia os átomos de metal se ligarem uns aos outros fechando a fratura, mais uma vez formando novos cristais, se fortalecendo e se ordenando na grade invisível à medida que a fusão se efetuava.
— A ponta! — rugiu Iorek. — Mantenha a ponta alinhada!
Ele queria dizer com sua mente, e Will o fez imediatamente, percebendo os minúsculos obstáculos e depois os minúsculos encaixes à medida que as extremidades se alinhavam com perfeição. Então, aquela solda se fez e Iorek se virou para o pedaço seguinte.
— Mais uma pedra — gritou para Lyra, que jogou a primeira para o lado e colocou uma segunda no ponto exato para aquecer.
Will verificou o combustível e quebrou um galho em dois para direcionar melhor as chamas, e Iorek começou a trabalhar novamente com o martelo. Will sentiu uma nova camada de complexidade ser acrescentada à sua tarefa, porque tinha que manter o novo pedaço conectado na posição exata com os dois anteriores, ao mesmo tempo, e compreendia que somente se fizesse isso com absoluta precisão poderia ajudar Iorek a consertá-lo.
E assim o trabalho continuou. Will não tinha ideia de quanto tempo levou, Lyra, por sua vez, começou a sentir os braços doerem, os olhos lacrimejarem, a pele chamuscada e vermelha, e todos os ossos de seu corpo doíam de cansaço, mas, mesmo assim, continuou a colocar cada pedra exatamente como Iorek lhe explicara, e mesmo o exausto Pantalaimon continuava a levantar as asas e a batê-las sobre as chamas.
Quando chegou a hora de fazer a última solda, a cabeça de Will zunia e ele estava tão exausto pelo esforço intelectual que mal conseguiu levantar o galho seguinte para botar na fogueira. Tinha que compreender cada conexão, caso contrário a faca não ficaria inteira e unida, e quando chegasse a hora da conexão mais complicada, a última, que fixaria a lâmina quase terminada na pequena parte que permanecia presa ao cabo — se não conseguisse segurá-las com sua plena consciência, juntamente com todas as outras, então a faca simplesmente se desfaria em pedaços, como se Iorek nunca tivesse começado.
O urso percebeu isso também e fez uma pausa, antes de começar a aquecer o último pedaço. Olhou para Will e em seus olhos Will não conseguia ver nada, nenhuma expressão, apenas um brilho negro sem fundo. Apesar disso, compreendeu: aquilo era trabalho, e era trabalho duro, difícil, mas que estavam à altura de realizá-lo, todos eles.
E isso foi o bastante para Will, de modo que se virou de volta para o fogo e direcionou sua mente para o pedaço quebrado da lâmina no cabo da faca e se preparou para a última e mais difícil parte da tarefa.
E assim, juntos, ele, Iorek e Lyra forjaram a faca, e quanto tempo demorou para que a última solda fosse concluída, não tinha ideia, mas depois que Iorek deu a última martelada, depois que Will sentiu que o último minúsculo alinhamento se fez, à medida que os átomos se ligavam, soldando-se sobre a linha quebrada, deixou-se cair no chão da caverna e permitiu que a exaustão o dominasse. Ali perto, Lyra estava no mesmo estado, os olhos vidrados e vermelhos, irritados, o cabelo cheio de fuligem e de fumaça, e mesmo Iorek estava com a cabeça baixa, pesada, o pelo chamuscado em vários lugares, riscas escuras de cinza marcando seu tom branco-cremoso.
Tialys e Salmakia tinham se revezado, dormindo em turnos, um deles sempre alerta. Agora ela estava acordada e ele dormindo, mas à medida que a lâmina esfriava, passando de vermelha para cinzenta e, finalmente, prateada, e quando Will estendeu a mão para o cabo, ela acordou seu parceiro pondo a mão em seu ombro. Ele imediatamente ficou alerta.
Mas Will não tocou na faca: apenas manteve a palma perto dela pois o calor ainda era intenso demais para sua mão. Os espiões relaxaram na saliência de rocha quando Iorek disse para Will:
— Vamos lá fora.
Então disse para Lyra:
— Fique aqui e não toque na faca.
Lyra ficou sentada perto da bigorna onde a faca estava esfriando e Iorek disse a ela para abafar o fogo e não deixar que se apagasse: ainda faltava uma última operação.
Will seguiu o grande urso até a encosta escura da montanha. O frio veio intenso e instantâneo, depois do calor infernal na caverna.
— Eles não deveriam ter feito aquela faca — disse Iorek, depois de terem caminhado um pouco. — Talvez eu não devesse tê-la consertado. Sinto-me inquieto e nunca me senti inquieto antes, nunca tive dúvidas. Agora estou cheio de dúvidas. Ter dúvidas é uma coisa humana, não é coisa de urso. Se estou me tornando humano, alguma coisa está errada, alguma coisa vai mal. E eu a tornei pior.
— Mas quando o primeiro urso fez a primeira peça de uma armadura, isso também não foi mau, do mesmo modo?
Iorek ficou em silêncio. Continuaram caminhando até alcançarem um grande monte de neve fofa e Iorek se deitou nele, e rolou de um lado para o outro, de frente, de bruços e mergulhando, lançando nuvens de neve bem alto, no ar noturno, até que pareceu que ele próprio era feito de neve, que era a personificação de toda a neve do mundo.
Depois que acabou, rolou de bruços, se levantou e se sacudiu vigorosamente, então, vendo que Will ainda esperava uma resposta para sua pergunta, disse:
— Sim, creio que pode ter sido, também. Mas antes daquele primeiro urso de armadura, não havia outros. Não conhecemos nada anterior a isso. Foi naquela ocasião que o costume começou. Conhecemos nossos costumes, eles são firmes e sólidos, e os seguimos sem fazer mudanças. A natureza do urso é fraca sem os costumes consagrados, como a carne do urso fica desprotegida sem armadura — declarou. — Mas acho que eu saí dos limites da natureza do urso ao consertar esta faca. Creio que fui tão tolo quanto Iofur Raknison. O tempo dirá. Mas estou inseguro e cheio de dúvidas. Agora você tem que me contar: por que a faca quebrou?
Will esfregou a cabeça dolorida com as duas mãos.
— A mulher olhou para mim e eu pensei que ela tivesse o rosto de minha mãe — relatou, tentando se recordar da experiência com toda a honestidade que possuía. — E a faca encontrou um obstáculo, alguma coisa que não conseguiu cortar e, porque minha mente estava empurrando-a para cortar e fazendo força para puxá-la para trás, as duas coisas ao mesmo tempo, ela se partiu. Isso é o que eu acho. A mulher sabia o que estava fazendo, tenho certeza. Ela é muito esperta.
— Quando você fala da faca, você fala de sua mãe e de seu pai.
— Falo? É verdade... acho que falo sim.
— O que vai fazer com ela?
— Não sei.
De repente, Iorek investiu contra Will e o esbofeteou com força com a pata esquerda: com tanta força que Will caiu meio atordoado na neve e saiu rolando e rolando até que acabou parando a alguma distância mais abaixo na encosta com a cabeça zunindo.
Iorek desceu lentamente até onde Will estava se esforçando para se levantar e exigiu:
— Responda e me diga a verdade.
Will sentiu a tentação de dizer: “Você não teria feito isso se eu estivesse com a faca em minha mão.” Mas sabia que Iorek tinha conhecimento disso e que Iorek sabia que ele próprio também tinha conhecimento disso, e que seria uma descortesia e uma estupidez dizê-lo, mas mesmo assim sentiu-se tentado.
Controlou a língua até estar de pé, ereto e encarando Iorek, cara a cara.
— Eu disse que não sabia — explicou, se esforçando muito para manter a voz calma — porque ainda não examinei com clareza exatamente o que vou fazer. O que isso significa. É uma coisa que me dá medo. E também deixa Lyra com medo. Mas, de qualquer maneira, concordei assim que ouvi o que ela disse.
— E o que foi isso?
— Queremos descer à terra dos mortos e falar com o espírito do amigo de Lyra, Roger, aquele que foi morto em Svalbard. E, se realmente existir um mundo dos mortos, então meu pai também estará lá, e se pudermos falar com espíritos, quero falar com ele — explicou, continuando: — Mas estou dividido, estou em conflito, indeciso, porque também quero voltar e cuidar de minha mãe, porque eu poderia fazer isso e também porque meu pai e o anjo Balthamos me disseram que eu deveria ir até Lorde Asriel e oferecer a ajuda da faca a ele, e acho que eles também estavam certos...
— O anjo fugiu — disse o urso.
— Ele não era um guerreiro. Fez o máximo que podia e então chegou um momento em que não podia fazer mais nada. Ele não foi o único a sentir medo, eu também sinto medo. De modo que tenho que refletir sobre tudo isso. Talvez, às vezes a gente não faça a coisa certa porque a coisa errada parece mais perigosa, e não queremos parecer medrosos, de modo que vamos lá e fazemos a coisa errada só porque é perigosa, nos empenhamos mais em não parecer medrosos do que em escolher corretamente. É muito difícil. Foi por isso que não respondi.
— Compreendo — disse o urso.
Eles ficaram parados ali, em silêncio, pelo que pareceu muito tempo, especialmente para Will, que tinha pouca proteção contra o frio intenso. Mas Iorek ainda não havia acabado e Will ainda estava enfraquecido e atordoado por causa da pancada, e não estava muito confiante na firmeza de seus pés, de modo que ficaram onde estavam.
— Bem, eu me comprometi de várias maneiras — disse o urso rei. — É possível que ao ajudar você eu tenha condenado meu reino à destruição definitiva. E é possível que não tenha, e que essa destruição a caminho de qualquer maneira, e é possível que eu a tenha impedido de ocorrer. De modo que estou angustiado, tendo que fazer coisas que não são da natureza do urso e ficar tecendo possibilidades e tendo dúvidas como um ser humano — prosseguiu. — E vou lhe dizer uma coisa. Você já sabe disso, mas não quer saber, e é por isso que vou lhe dizer francamente, de modo que não possa se enganar. Se quiser ser bem-sucedido em sua tarefa, não deve mais pensar em sua mãe. Deve deixá-la de lado, tirá-la da mente. Se sua mente estiver dividida, a faca se quebrará — advertiu. — Agora vou me despedir de Lyra. Você deve esperar na caverna, aqueles dois espiões não vão querer você longe dos olhos deles e eu não quero que estejam ouvindo quando eu estiver falando com ela.
Will ficou sem palavras, embora seu peito e sua garganta parecessem que iam explodir. Afinal conseguiu falar:
— Obrigado, Iorek Byrnison — mas isso foi tudo o que conseguiu dizer. Foi subindo a encosta, andando ao lado de Iorek, em direção à caverna, onde as brasas da fogueira ardiam quentes e brilhantes ainda incandescentes na vasta escuridão em volta.
Chegando lá, Iorek executou os últimos procedimentos para concluir o conserto da faca sutil. Ele a colocou entre as cinzas em brasa mais vivas, até a lâmina ficar incandescente, e Will e Lyra viram uma centena de cores rodopiando nas profundezas enfumaçadas do metal e, quando julgou que o momento estava certo, Iorek disse a Will para pegá-la e mergulhá-la diretamente na neve que havia se acumulado lá fora.
O cabo de pau-rosa estava enegrecido pelo fogo e chamuscado, mas Will enrolou a mão numa camisa dobrada, dando várias voltas, e fez o que Iorek havia mandado. No silvar e no clarão de vapor que subiu, sentiu os átomos finalmente se acomodarem unidos, e soube que a faca estava afiada como antes, a ponta infinitamente aguçada.
Mas, de fato, tinha um aspecto diferente. Estava mais curta e muito menos elegante, e havia uma superfície fosca prateada sobre cada um dos pontos de solda. Ela agora tinha um aspecto feio, parecia estar exatamente como estava, ferida. Depois que esfriou, ele a guardou na mochila e, ignorando os espiões, sentou para esperar por Lyra.
Iorek a levara um pouco mais para cima na encosta, para um ponto fora do raio de visão da caverna, e lá, deixara que ela se sentasse aconchegada no abrigo de seus grandes braços, com Pantalaimon, sob a forma de camundongo, aninhado em seu peito. Iorek inclinou a cabeça para Lyra e passou o focinho nas mãos chamuscadas e cheias de cinza e fumaça. Sem dizer uma palavra, começou a lambê-las e limpá-las, o toque de sua língua foi apagando o ardor das queimaduras e ela se sentiu mais segura do que nunca em sua vida. Mas quando suas mãos estavam livres da fuligem e fumaça, Iorek falou. Ela sentiu sua voz vibrar nas suas costas.
— Lyra da Língua Mágica, que plano é esse de visitar os mortos?
— Isso me veio num sonho, Iorek. Eu vi o espírito de Roger e soube que estava chamando por mim... Você se lembra de Roger, bem, depois que deixamos você, ele foi morto e foi por minha culpa, pelo menos senti que tinha sido. E acho que eu deveria acabar o que comecei, é só isso: devo ir e dizer a ele que sinto muito e, se puder, devo tirá-lo de lá. Se Will puder abrir um caminho até o mundo dos mortos, então devemos fazer isso.
— Poder não é a mesma coisa que dever.
— Mas se você deve e pode fazer, então não há desculpa.
— Enquanto você estiver viva, seu compromisso é com a vida.
— Não, Iorek — disse ela, com delicadeza — nosso compromisso é cumprir nossas promessas, por mais difíceis que sejam. Sabe, vou lhe contar um segredo: estou morrendo de medo. E gostaria muito de nunca ter tido aquele sonho, e que Will nunca tivesse pensado em usar a faca para ir lá. Mas já aconteceu, de maneira que não podemos deixar de ir.
Lyra sentiu Pantalaimon tremendo e o acariciou com as mãos doloridas.
— Mas nós não sabemos como chegar lá — prosseguiu ela. — Não vamos saber coisa nenhuma, enquanto não tentarmos. O que você vai fazer, Iorek?
— Vou voltar para o norte, com meu povo. Não podemos viver nas montanhas. Até mesmo a neve é diferente. Pensei que pudéssemos viver aqui, mas para nós é mais fácil viver no mar, mesmo se estiver quente. Valeu a pena descobrir isso. E, além disso, acho que vão precisar de nós. Sinto que vai haver uma guerra, Lyra da Língua Mágica, sinto cheiro de guerra no ar, ouço seus ruídos. Conversei com Serafina Pekkala antes de vir para cá e ela me disse que ia se juntar a Lorde Faa e aos gípcios. Se houver guerra, vão precisar de nós.
Lyra se endireitou, excitada ao ouvir o nome de seus velhos amigos. Mas Iorek não havia acabado. Ele prosseguiu:
— Se você não descobrir uma maneira de sair do mundo dos mortos, não voltaremos a nos encontrar, porque eu não tenho espírito. Meu corpo permanecerá na terra e depois se tornará parte dela. Mas se acontecer de você e eu sobrevivermos, então você será sempre uma visitante bem-vinda e honrada em Svalbard, e o mesmo se aplica a Will. Ele contou a você o que aconteceu quando nos encontramos?
— Não — respondeu Lyra — disse apenas que tinha sido na margem de um rio.
— Ele me desafiou e me venceu. Pensei que nunca ninguém poderia fazer isso, mas esse garoto ainda criança foi audacioso demais para mim e muito esperto. Não estou nada contente com o fato de que venha a fazer o que está planejando, mas não há mais ninguém em quem eu confiaria para acompanhá-la, exceto este garoto. Vocês dois estão à altura um do outro. Boa viagem, Lyra da Língua Mágica, minha querida amiga.
Ela levantou os braços, abraçou o pescoço dele e apertou o rosto contra seu pelo, sem conseguir falar.
Depois de um minuto, ele se levantou com delicadeza e soltou os braços dela, então se virou e foi se afastando silenciosamente, caminhando para a escuridão.
Lyra achou que o contorno de seu corpo desapareceu quase que imediatamente na brancura do terreno coberto de neve, mas isso poderia ter sido porque seus olhos estavam cheios de lágrimas.


Quando Will ouviu os passos de Lyra vindo pela trilha, olhou para os espiões e disse:
— Não se movam, a faca está aqui, não vou usá-la. Fiquem onde estão.
Ele saiu e encontrou Lyra parada, chorando, com Pantalaimon sob a forma de lobo levantando a cabeça para o céu escuro. Ela estava muito calada. A única luz vinha do reflexo pálido do que restava da fogueira sobre a escarpa de neve e isso, por sua vez, se refletia nas faces molhadas de Lyra, e suas lágrimas encontraram reflexo nos olhos de Will, e assim, aqueles fótons uniram os dois numa teia silenciosa.
— Eu amo tanto o Iorek, Will! — Lyra conseguiu sussurrar, com a voz trêmula. — E ele parecia velho. Parecia estar com fome, velho e triste... Será que agora tudo depende de nós, Will? Não podemos contar com mais ninguém, não é... Somos só nós. Mas ainda não somos crescidos. Somos apenas crianças. Somos jovens demais. Se o pobre Sr. Scoresby está morto e Iorek está velho... Tudo fica dependendo de nós, tudo o que tem de ser feito.
— Vamos conseguir — respondeu ele. — Não vou mais pensar no que já aconteceu. Nós vamos conseguir. Mas, agora, temos que dormir, e se ficarmos neste mundo, aqueles tais dos girópteros podem vir, os tais que os espiões pediram que viessem... Vou cortar uma abertura agora e encontraremos um outro mundo para dormir, e se os espiões vierem conosco, vai ser uma pena, vamos ter que nos livrar deles numa outra oportunidade.
— Está bem — concordou ela, e fungou, limpou o nariz com as costas do punho, depois esfregou os olhos com as palmas das duas mãos. — Vamos fazer isso. Você tem certeza que a faca vai funcionar? Testou a faca?
— Eu sei que vai funcionar.
Com Pantalaimon em forma de tigre, o que, esperavam, desencorajaria os espiões de se aproximar, Will e Lyra voltaram à caverna e pegaram suas mochilas.
— O que vocês estão fazendo? — perguntou Salmakia.
— Vamos para um outro mundo — respondeu Will, pegando a faca. Segurar a faca fez com que se sentisse inteiro novamente, não havia percebido o quanto a amava.
— Mas devem esperar pelos girópteros de Lorde Asriel — disse Tialys, em tom duro.
— Não vamos esperar — retrucou Will. — Se chegar perto da faca, eu mato você. Venham conosco se quiserem, mas não podem nos obrigar a ficar aqui. Nós vamos embora.
— Você mentiu!
— Não — interveio Lyra — eu menti. Will não mente. Você não pensou nisso.
— Mas para onde estão indo?
Will não respondeu. Procurou à sua frente, no ar sombrio, e cortou uma abertura.
Salmakia argumentou:
— Isto é um erro. Vocês deveriam perceber isso e nos escutar. Vocês não pensaram...
— Sim, pensamos sim — retrucou Will — pensamos muito e contaremos a vocês o que pensamos amanhã. Podem vir conosco para onde estamos indo, ou podem voltar para junto de Lorde Asriel.
A janela aberta dava para o mundo para onde Will tinha fugido com Baruch e Balthamos, e onde tinham dormido em segurança: a praia sem fim, quente e úmida, com as árvores gigantescas parecendo samambaias, atrás das dunas.
— Aqui, vamos dormir aqui, aqui está bom — disse.
Deixou que os outros atravessassem e imediatamente fechou a janela. Enquanto Lyra se deitava onde estavam, exausta, Lady Salmakia ficou montando guarda e o cavaleiro abriu seu magneto ressonante e começou a tocar sua mensagem para a escuridão.

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