17 de fevereiro de 2017

14. Saiba o que é

Labuta sem alegria é vil, labuta sem sofrimento é vil.
Sofrimento sem labuta é vil, alegria sem labuta é vil.
John Rushkin

Will e Lyra dormiram a noite inteira e acordaram quando o sol bateu em suas pálpebras. Na verdade, acordaram quase juntos, num intervalo de segundos, com o mesmo pensamento: mas quando olharam em volta o Cavaleiro Tialys estava calmamente montando guarda nas proximidades.
— As forças do Tribunal Consistorial bateram em retirada — disse-lhes. — A Sra. Coulter está nas mãos do Rei Ogunwe e a caminho de Lorde Asriel.
— Como sabe disso? — perguntou Will, sentando-se com o corpo ainda enrijecido. — Você voltou lá pela janela?
— Não. Nós falamos pelo magneto ressonante. Relatei nossa conversa — disse Tialys para Lyra — ao nosso comandante, Lorde Roke, e ele concordaram que fôssemos com vocês encontrar o urso, e que depois que o tiverem visto, deverão vir conosco. De modo que somos aliados, e nós ajudaremos vocês tanto quanto pudermos.
— Ótimo — disse Will. — Então vamos comer juntos. Vocês comem a nossa comida?
— Obrigada, comemos sim — disse Lady Salmakia.
Will tirou da mochila seus últimos pêssegos secos e o pão de centeio dormido, que era tudo o que lhe restava, e dividiu tudo entre eles, embora, é claro, os espiões não comessem muito.
— Quanto à água, parece não haver nenhuma aqui neste mundo comentou Will. — Teremos que esperar até voltarmos para beber.
— Então é melhor fazermos isso logo — disse Lyra. Primeiro, contudo, ela pegou o aletiômetro. Agora podia ver com clareza, ao contrário da noite anterior, mas seus dedos estavam lentos e endurecidos depois de ter dormido tanto. Ela perguntou se ainda havia algum perigo no vale. Não, veio a resposta, todos os soldados se foram e os aldeões estão em suas casas, de modo que eles se prepararam para partir.
A janela parecia estranha na luz forte, ofuscante do deserto, dando para o arbusto frondoso na sombra, um quadrado de vegetação espessa muito verde, pendurada no espaço, como uma pintura. Os galivespianos quiseram examiná-la e ficaram espantadíssimos ao ver como simplesmente não estava lá se olhada por trás, e como apenas passava a existir quando se dava a volta para o outro lado.
— Eu terei que fechá-la depois que atravessarmos — disse Will.
Lyra tentou apertar e juntar as bordas, mas seus dedos não conseguiam encontrá-las, os espiões também não conseguiram, a despeito da delicadeza de suas mãos. Só Will era capaz de sentir exatamente onde estavam as bordas e ele as fechou bem e rapidamente.
— Em quantos mundos se pode entrar com a faca? — perguntou Tialys.
— Tantos quantos existirem — respondeu Will. — Ninguém teria tempo para descobrir quantos.
Ele levantou a mochila nas costas e foi encabeçando o grupo seguindo pelo caminho na floresta. As libélulas ficaram encantadas com o ar fresco e úmido e saíram dardejando como agulhas pelos raios de sol. O movimento das árvores acima estava menos violento e o ar fresco e tranquilo, de modo que foi ainda mais chocante ver os escombros de um giróptero pendurado entre os galhos, com o corpo de seu piloto africano preso pelo cinto com a metade caída para fora pela porta, e encontrar a carcaça carbonizada do zepelim um pouco mais acima — tiras negras de fuligem, esteios e tubulações enegrecidos, vidros quebrados, e depois os corpos: três homens reduzidos a cinzas, seus membros contorcidos e encolhidos como se ainda estivessem ameaçando lutar.
E aqueles eram apenas os que tinham tombado perto da trilha. Havia outros corpos e mais destruição no penhasco acima e entre as árvores mais abaixo.
Chocadas e silenciadas, as duas crianças seguiram em meio à carnificina, enquanto os espiões em suas libélulas olhavam em torno mais friamente, acostumados a combates, reparando em como aquele havia decorrido e em quem tinha sofrido mais perdas.
Quando chegaram ao alto do vale, onde as árvores escasseavam e as cachoeiras com arco-íris começavam, pararam para beber bastante daquela água fria como gelo.
— Espero que a menina esteja bem — disse Will. — Nunca teríamos conseguido tirar você de lá se ela não a tivesse acordado. Ela foi consultar um religioso especialmente para obter aquele pó.
— Ela está bem — disse Lyra — porque eu perguntei ao aletiômetro, ontem à noite. Porém, ela acha que somos demônios. Tem medo de nós. Provavelmente deseja que nunca tivesse se metido nessa coisa toda, mas está bem e em segurança.
Subiram pelo lado das cachoeiras e tornaram a encher o cantil de Will antes de começarem a atravessar o platô em direção à cordilheira para onde o aletiômetro dissera a Lyra que Iorek tinha ido.
E então veio um dia de longa e dura caminhada: nenhum problema para Will, mas um tormento para Lyra, cujas pernas estavam enfraquecidas e fora de forma depois de seu sono prolongado. Mas Lyra teria preferido que lhe cortassem a língua a confessar como se sentia mal: mancando, apertando os lábios, tremendo, ela acompanhou o passo de Will e não disse nada. Só quando sentaram ao meio-dia ela se permitiu um gemido e isso somente quando Will havia se afastado para satisfazer suas necessidades. Lady Salmakia disse:
— Descanse. Não há nenhuma vergonha em estar cansada.
— Mas não quero desapontar Will! E não quero que ele pense que sou fraca e que o estou atrasando.
— Isso é a última coisa que ele pensaria.
— Você não sabe — retrucou Lyra em tom malcriado. — Não conhece Will, do mesmo jeito que não me conhece.
— Mas conheço impertinência quando ouço — disse a pequenina dama calmamente. — Faça o que estou dizendo agora e descanse. Guarde sua energia para a caminhada.
Lyra teve vontade de se rebelar, mas as esporas reluzentes da dama estavam muito nítidas à luz do sol, de modo que se calou.
Seu companheiro, o cavaleiro, estava abrindo o estojo do magneto ressonante e, com a curiosidade vencendo o ressentimento, Lyra ficou observando para ver o que ele fazia. O instrumento parecia um pedaço curto de lápis feito de pedra fosca, de cor preta-acinzentada, deitado sobre uma base de madeira, e o cavaleiro movia rapidamente um pequeno arco, como um arco de violino, sobre a extremidade, enquanto apertava os dedos em vários pontos ao longo da superfície. Os lugares não eram marcados, de modo que ele parecia estar tocando ao acaso, mas pela intensidade de sua expressão e a fluência precisa de seus movimentos, Lyra percebeu que era um processo difícil, exigindo habilidade da mesma forma que quando lia o aletiômetro. Depois de vários minutos, o espião guardou o arco e colocou um par de fones de ouvido, os fones não maiores que a unha do dedo mindinho de Lyra, e foi enrolando, bem apertada, uma das pontas do fio em volta de um gancho numa das extremidades da pedra, esticando o resto até o outro gancho na outra ponta e enrolando em volta daquela.
Através da manipulação dos dois ganchos e da tensão no fio entre eles, ele evidentemente podia ouvir a resposta para sua mensagem.
— Como é que isto funciona? — perguntou ela depois que ele acabou.
Tialys olhou para ela como se para avaliar se estava realmente interessada, depois disse:
— Seus cientistas, como é que os chama, teólogos experimentais, devem conhecer algo que se chama enredamento quântico. Significa que podem existir duas partículas que têm somente propriedades em comum, de modo que o que quer que aconteça com uma, acontece com a outra no mesmo instante, não importa a que distância estejam. Bem, em nosso mundo existe uma maneira de pegar um magneto ou ímã comum, enredar todas as suas partículas e depois dividi-lo em dois, de modo que ambas as partes ressoem juntas. A outra parte deste está com Lorde Roke, nosso comandante. Quando toco neste aqui com meu arco, o outro reproduz os sons com exatidão, e assim nos comunicamos.
Ele guardou todo o equipamento e disse alguma coisa para a dama. Ela veio se juntar a ele e os dois se afastaram um pouco, falando baixo demais para que Lyra pudesse ouvir, embora Pantalaimon tivesse se transformado numa coruja e virado suas grandes orelhas para eles.
Pouco depois, Will voltou e eles seguiram adiante, mais lentamente, à medida que o dia foi passando, e a trilha se tornava mais íngreme e a linha de neve se aproximava. Descansaram mais uma vez no alto do vale, pois Will sabia que Lyra estava quase chegando ao limite de suas forças: estava mancando muito e seu rosto estava pálido.
— Deixe-me ver seus pés — disse ele — porque se estiverem com bolhas, passo um pouco de unguento neles.
E estavam muito empolados e feridos, de modo que ela deixou que ele esfregasse o bálsamo de musgo-sanguíneo, fechando os olhos e rangendo os dentes. Enquanto isso, o cavaleiro estava ocupado e, depois de alguns minutos, guardou seu magneto ressonante e disse:
— Comuniquei nossa posição a Lorde Roke e eles estarão enviando um giróptero para nos buscar assim que tiverem falado com seu amigo.
Will assentiu. Lyra não prestou atenção. Pouco depois ela se endireitou, esgotada, sentou-se e calçou as meias e os sapatos, e mais uma vez retomaram a caminhada. Mais uma hora se passou e a maior parte do vale ficou na sombra, Will começou a se perguntar se encontrariam algum abrigo antes que a noite caísse, e então Lyra deu um grito de alívio e de alegria.
— Iorek! Iorek!
Ela o tinha visto antes de Will. O urso rei ainda estava a alguma distância, o pelo branco se confundindo contra um trecho de neve, mas quando a voz de Lyra ecoou ele virou a cabeça, levantou-a para farejar e desceu aos saltos pela encosta da montanha ao encontro deles.
Ignorando Will, ele abraçou Lyra, encobrindo o rosto dela com seu pelo, grunhindo tão profundamente que Will pôde sentir da cabeça aos pés. Lyra, entretanto, sentiu aquilo com prazer e até esqueceu, por instantes, as bolhas e o cansaço.
— Ah, Iorek, meu querido, estou tão contente de ver você! Nunca imaginei que fosse voltar a encontrar você, depois do ocorrido em Svalbard e de todas as coisas que aconteceram... o Sr. Scoresby está bem? Como vai seu reino? Está aqui sozinho?
Os pequenos espiões tinham desaparecido, em todo caso, agora parecia que só havia eles três na encosta da montanha que escurecia, o menino, a menina e o grande urso branco. Como se nunca tivesse querido estar em nenhum outro lugar, Lyra montou quando Iorek lhe ofereceu as costas e seguiu orgulhosa e feliz enquanto seu amigo querido a carregava para o alto, cobrindo o último trecho do caminho até chegar a sua caverna.
Will, preocupado, não ficou escutando, enquanto Lyra conversava com Iorek, embora ouvisse seu grito de consternação a certo ponto e a ouvisse dizer:
— O Sr. Scoresby... Oh, não! Ah, mas que coisa terrível! De verdade, morto? Você tem certeza, Iorek?
— A bruxa me contou que ele partiu para tentar encontrar um homem chamado Grumman.
Will agora começou a ouvir com mais atenção, pois Baruch e Balthamos tinham lhe contado parte daquilo.
— O que aconteceu? Quem o matou? — perguntou Lyra, com a voz trêmula.
— Ele morreu lutando. Impediu uma companhia inteira de soldados moscovitas de avançar, enquanto o homem escapava. Eu encontrei seu corpo. Morreu com bravura. Eu o vingarei.
Lyra estava chorando copiosamente e Will não sabia o que dizer, pois aquele homem desconhecido morrera para salvar seu pai, e tanto Lyra quanto o urso tinham conhecido e amado Lee Scoresby, e ele não.
Logo Iorek virou para um lado e se dirigiu para a entrada de uma caverna muito escura, fazendo contraste com a neve. Will não sabia onde estavam os espiões, mas tinha certeza absoluta de que estavam por perto. Queria falar discretamente com Lyra, mas não enquanto não pudesse ver os galivespianos e ter certeza de não estar sendo ouvido.
Deixou a mochila na entrada da caverna e sentou-se exausto. Atrás dele o urso estava acendendo fogo e Lyra observava, curiosa, apesar de sua tristeza. Iorek segurou uma pequena pedra de algum tipo de minério de ferro na pata dianteira esquerda e bateu com ela, não mais que três ou quatro vezes, contra uma outra similar, no chão. A cada vez que batia, uma porção de fagulhas irrompiam e iam exatamente para onde Iorek as estava direcionando: uma pilha de gravetos quebrados e mato seco. Pouco depois aquilo estava em chamas e Iorek calmamente colocou uma acha de lenha, depois outra e mais outra até que a fogueira estivesse ardendo bem.
As crianças gostaram, porque fazia muito frio agora, e veio, então, algo ainda melhor: o pernil de alguma coisa que deveria ter sido uma cabra. Iorek comeu sua parte crua, é claro, mas espetou o pedaço inteiro da carne num galho bem pontudo, e colocou-o para assar para os dois.
— É fácil caçar aqui nessas montanhas, Iorek? — perguntou ela.
— Não. Meu povo não pode viver aqui. Eu estava enganado, mas foi um engano de sorte, pois encontrei você. Quais são seus planos agora?
Will olhou em volta, examinando a caverna. Estavam sentados perto da fogueira e a luz do fogo lançava reflexos amarelos e alaranjados no pelo do rei urso. Will não conseguia ver nenhum sinal dos espiões, mas não adiantava: tinha que pedir.
— Rei Iorek — começou ele — minha faca está quebrada...
Então ele lançou um olhar para além de onde o urso estava e disse:
— Não, espere. — Estava apontando para a parede. — Se estiverem me ouvindo — prosseguiu falando mais alto — mostrem-se e façam isso honestamente. Não nos espionem.
Lyra e Iorek Byrnison viraram-se para ver com quem ele estava falando. O homenzinho saiu das sombras e ficou parado calmamente na luz, numa reentrância mais alta que a cabeça das crianças. Iorek rosnou.
— Você não pediu permissão a Iorek Byrnison para entrar na caverna dele — disse Will. — E ele é um rei, e você apenas um espião. Deveria demonstrar mais respeito.
Lyra adorou ouvir aquilo. Olhou para Will cheia de prazer e viu seu rosto feroz, cheio de desprezo. Mas a expressão do cavaleiro, enquanto olhava para Will, era de desagrado.
— Temos sido sinceros e dito a verdade para vocês — disse ele. — Foi um ato desonroso nos enganar.
Will se levantou. Seu dimon, Lyra pensou, teria a forma de uma tigresa, e ela se encolheu diante da fúria que imaginou que o grande animal mostraria.
— Se enganamos vocês, foi porque era necessário — retrucou. — Por acaso teriam concordado em vir aqui se soubessem que a faca estava quebrada? Claro que não. Teriam usado seu veneno para nos deixar inconscientes e teriam pedido ajuda e teriam nos sequestrado e nos levado para Lorde Asriel. De modo que tivemos que enganar você, Tialys, e vai ter que engolir isso.
Iorek Byrnison perguntou:
— Quem é este?
— Espiões — disse Will. — Enviados por Lorde Asriel. Eles nos ajudaram a escapar ontem, mas se estão do nosso lado, não deveriam se esconder e ficar ouvindo nossas conversas. E se fizeram isso, são as últimas pessoas a ter o direito de falar em desonra.
O olhar do espião foi tão furioso que parecia pronto para lutar contra o próprio Iorek, sem nem dar atenção ao desarmado Will, mas Tialys estava numa posição indefensável e sabia disso. Tudo o que podia fazer era baixar a cabeça, fazer uma mesura e pedir desculpas.
— Majestade — disse para Iorek, que imediatamente rugiu.
Os olhos do cavaleiro lançavam faíscas de ódio para Will, de desafio e advertência para Lyra, e de um respeito frio e desconfiado para Iorek. A clareza de suas feições tornava todas essas expressões vividas e fortes, como se uma luz estivesse voltada para ele. A seu lado Lady Salmakia estava saindo da sombra e, ignorando completamente as crianças, fez uma reverência para o urso.
— Perdoe-nos — disse para Iorek. — O hábito de esconder as coisas é difícil de quebrar e meu companheiro, o Cavaleiro Tialys, e eu, Lady Salmakia, estivemos vivendo entre nossos inimigos por tanto tempo que, por uma questão de puro hábito, negligenciamos a obrigação de lhe oferecer a reverência devida. Estamos acompanhando esse menino e essa menina para assegurar que cheguem em segurança aos cuidados de Lorde Asriel. Não temos nenhum outro objetivo e, certamente, não temos quaisquer intenções que lhe possam ser prejudiciais, Rei Iorek Byrnison.
Se Iorek tinha dúvidas de como seres tão pequeninos poderiam fazer-lhe mal, não demonstrou, não só sua expressão era naturalmente difícil de decifrar, como ele também tinha suas próprias regras de etiqueta e a dama tinha falado com grande cortesia e elegância.
— Desçam e venham para junto da fogueira — convidou. — Há bastante comida, mais que de sobra, se estiverem com fome. Will, você tinha começado a falar da faca.
— Sim — disse Will — e pensei que isso nunca poderia acontecer, mas está quebrada. E o aletiômetro disse a Lyra que você poderia consertá-la. Eu ia pedir mais educadamente, mas, indo direto ao ponto, pode consertar a faca, Iorek?
— Mostre-me.
Will sacudiu a bainha tirando todos os pedaços e os arrumou no solo rochoso, empurrando-os aqui e ali, até estarem encaixados em seus lugares certos, de modo que pudesse ver que estavam todos ali. Lyra levantou um galho em chamas e, sob aquela luz, Iorek se abaixou todo para olhar bem de perto cada pedaço, tocando delicadamente com suas garras maciças e levantando para virá-lo primeiro para um lado, depois para o outro e examinar o ponto em que quebrara. Will ficou maravilhado com a destreza daquelas imensas garras negras.
Então Iorek voltou a se endireitar, sentado, a cabeça virada para o alto, para as sombras.
— Posso — disse ele, respondendo exatamente a pergunta e nada mais.
Lyra, sabendo o que ele estava querendo dizer, perguntou:
— Ah, mas você vai consertar, Iorek? Você não pode imaginar como isto é importante, se não pudermos consertá-la, então estaremos numa encrenca desesperadora e não somente nós.
— Eu não gosto dessa faca — disse Iorek. — Tenho medo do que ela pode fazer. Nunca vi nada tão perigoso. As máquinas de combate mais mortíferas são brinquedos se comparadas a essa faca, o mal que ela pode causar é ilimitado. Teria sido infinitamente melhor se jamais tivesse sido feita.
— Mas com ela... — começou Will, Iorek não o deixou acabar, e prosseguiu:
— Com ela você pode fazer coisas estranhas. O que você não sabe é o que a faca faz sozinha. Suas intenções podem ser boas. Mas a faca também tem intenções.
— Como é possível isso? — perguntou Will.
— As intenções de um instrumento são o que ele faz. Um martelo tem a intenção de golpear, um torno tem a intenção de segurar, prender bem, uma alavanca tem a intenção de levantar. Elas são a finalidade para a qual o instrumento é feito. Mas por vezes um instrumento pode ter outros usos que você não conhece. Por vezes, ao fazer o que você pretende, você também faz o que a faca pretende, sem ter conhecimento disso. Está vendo o gume mais afiado dessa faca?
— Não — respondeu Will, pois era verdade: o gume se reduzia a uma finura tão aguda que o olhar não conseguia alcançar.
— Então como pode saber tudo o que faz?
— Não posso. Mas ainda assim tenho que usá-la e fazer o que puder para ajudar que coisas boas aconteçam. Se não fizesse nada, eu seria pior que inútil. Eu seria culpado.
Lyra estava acompanhando aquele diálogo atentamente, vendo que Iorek ainda relutava, disse:
— Iorek, você sabe como eram malvadas aquelas pessoas de Bolvangar. Se não conseguirmos vencer, eles vão continuar a fazer aquele tipo de coisas para sempre. E, além disso, se não tivermos a faca, eles poderiam se apoderar dela. Nunca tínhamos ouvido falar sobre a faca quando conheci você, e mais ninguém também tinha ouvido, mas agora conhecemos a faca e temos que usá-la, não podemos simplesmente não usar. Seria covarde e também seria errado, seria a mesma coisa que entregá-la a eles e dizer, tudo bem, tratem de usá-la, não os impediremos. Está certo, nós não sabemos o que ela faz, mas eu posso perguntar ao aletiômetro, não posso? Então saberíamos. E poderíamos pensar nela da maneira apropriada, em vez de ficar imaginando coisas e ficar com medo.
Will não queria mencionar seu motivo mais premente: se a faca não fosse consertada, ele nunca mais voltaria para casa, nunca mais veria ou pensaria, só que não disse o que seria um bom pensamento ou um mau pensamento. E prosseguiu:
— Então... disse que sim — seus olhos faiscaram em direção aos espiões. — Disse que sim, que devemos fazê-lo, devemos consertar a faca.
Iorek olhou para ela com firmeza, então assentiu uma vez. Tialys e Salmakia desceram para olhar mais de perto e Lyra disse:
— Vai precisar de mais combustível, Iorek? Eu e Will podemos ir buscar, com certeza.
Will compreendeu o que ela estava querendo dizer: longe dos espiões eles poderiam conversar. Iorek disse:
— Abaixo do primeiro contraforte na trilha há um arbusto de madeira resinosa. Tragam o máximo que puderem.
Ela se levantou de um salto imediatamente e Will foi junto. A lua estava clara, brilhante, o caminho era uma trilha de marcas de pegadas meio apagadas na neve, o ar cortante e frio. Os dois se sentiam confiantes, esperançosos e vivos.
Não falaram até estarem bem afastados da caverna.
— O que mais ele disse? — perguntou Will.
— Disse coisas que não compreendi e ainda não compreendo agora. Disse que a faca seria a morte do Pó, mas depois disse que era a única maneira de manter o Pó vivo. Não compreendi, Will. Mas disse novamente que era perigosa, ficava repetindo isso. Disse que se nós, você sabe, o que eu pensei...
— Se formos ao mundo dos mortos...
— É... se fizermos isso... disse que poderíamos nunca mais voltar, Will. Poderíamos não sobreviver.
Ele não disse nada e continuaram caminhando, agora mais comedidamente, procurando o arbusto que Iorek havia mencionado e calados pelo pensamento da responsabilidade que poderiam estar aceitando.
— Mas temos que ir — argumentou ele — não temos?
— Eu não sei.
— Ora, mas agora nós sabemos. Você tem que falar com Roger e eu tenho que falar com meu pai. Agora nós temos que ir.
— Estou com medo — disse ela.
E ele sabia que Lyra nunca admitiria isso para mais ninguém.
— Ele falou o que aconteceria se não fôssemos? — perguntou.
— Só vazio. Só um branco total. Eu realmente não compreendi, Will. Mas acho que queria dizer que, mesmo se fosse assim tão perigoso, nós ainda deveríamos tentar salvar o Roger. Mas não vai ser como quando eu o resgatei de Bolvangar, na verdade, eu não sabia o que estava fazendo, naquela ocasião, simplesmente fui lá e tive sorte. Quero dizer, apareceu todo tipo de gente para ajudar, como os gípcios e as bruxas. Não vai haver ninguém para ajudar lá, aonde temos que ir. E posso ver... Em meu sonho eu vi... O lugar era... Era pior que Bolvangar. É por isso que estou com medo.
— Pois do que eu estou com medo — disse Will depois de um minuto, sem olhar para ela — é de ficar preso em algum lugar e nunca mais voltar a ver minha mãe.
De lugar nenhum, uma lembrança veio à sua mente: era bem pequeno e aquilo foi antes dos problemas dela começarem, e ele estava doente. A noite inteira, parecia, sua mãe tinha ficado sentada no escuro, na beira da cama dele, cantando cantigas de ninar, contando histórias e, enquanto sua voz querida estava lá, ele sabia que estava seguro. Não podia abandoná-la agora. Não podia! Cuidaria dela a vida inteira, se precisasse.
E como se Lyra soubesse exatamente o que ele estava pensando, disse, calorosamente:
— É, é verdade, isso seria terrível... Sabe, com minha mãe, nunca percebi... simplesmente cresci sozinha, na verdade, não me lembro de ninguém me pegando no colo, me abraçando, ou me fazendo carinho, sempre foi só eu e Pan, desde que me lembro... Não me lembro da Sra. Lonsdale me tratando assim, ela era a governanta na Universidade Jordan, tudo o que fazia era se assegurar de que eu estivesse limpa, só pensava nisso, ah, e em boas maneiras... Mas na caverna, Will, eu realmente senti... ah, é estranho, eu sei que ela fez coisas terríveis, mas realmente senti que me amava e que estava cuidando de mim... Deve ter pensado que eu ia morrer, dormindo aquele tempo todo, imagino que devo ter apanhado alguma doença, mas ela nunca deixou de cuidar de mim. E me lembro de acordar uma ou duas vezes e ela estava me segurando em seus braços... me lembro disso realmente, tenho certeza... Isso é o que eu faria no lugar dela, se tivesse uma criança.
De modo que ela não sabia por que estivera adormecida aquele tempo todo. Será que deveria contar a ela e trair aquela lembrança, ainda que fosse falsa? Não, claro que não devia.
— É aquele o arbusto? — perguntou Lyra.
O luar estava claro o bastante para mostrar cada folha. Will partiu um galho fino e o cheiro de resina pinífera ficou forte em seus dedos.
— E não vamos dizer nada àqueles pequenos espiões — acrescentou ela.
Eles juntaram braçadas de galhos do arbusto e carregaram de volta para a caverna.

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