11 de fevereiro de 2017

14. A ravina do álamo

Lee Scoresby baixou os olhos para o plácido oceano à sua esquerda, a costa verde à sua direita, e protegeu os olhos da luz para procurar sinais de vida humana. Tinham se passado um dia e uma noite desde que eles deixaram o Yenisei.
— E este é um novo mundo? — perguntou.
— Novo para aqueles que não nasceram nele — respondeu Stanislaus Grumman. — Tão velho quanto o seu ou o meu. O que Asriel fez bagunçou tudo, Sr. Scoresby, mais profundamente do que jamais aconteceu antes. Essas portas e janelas de que falei, elas agora se abrem para locais inesperados. A orientação é difícil, mas o vento está bom.
— Novo ou velho, este mundo aí embaixo é estranho — tornou Lee.
— É, sim. É um mundo estranho, embora sem dúvida certas pessoas se sintam em casa aqui.
— Parece deserto — Lee comentou.
— Mas não é. Atrás daquela ponta de terra existe uma cidade que já foi rica e poderosa. E ainda é habitada pelos descendentes dos mercadores e nobres que a construíram, embora ela tenha entrado em decadência há 300 anos...
Minutos depois, à medida que o balão avançava, Lee avistou primeiro um farol, depois a curva de um quebra-mar de pedra, depois as torres, os domos e os telhados marrom-avermelhados de uma linda cidade em torno de um porto, um prédio suntuoso, como um teatro, e belos jardins e avenidas largas, com hotéis elegantes e ruelas onde árvores carregadas orlavam sacadas sombreadas.
E Grumman tinha razão: havia gente ali. Mas ao se aproximarem, Lee surpreendeu-se ao constatar que se tratava de crianças. Não havia um só adulto à vista. As crianças estavam brincando na praia ou entrando e saindo de cafés e bares, ou comendo e bebendo, ou recolhendo sacolas de objetos das casas e das lojas. E havia um grupo de meninos brigando, e uma menina ruiva incentivando a briga, e um menininho jogando pedras, tentando quebrar todas as vidraças de um prédio próximo. Era como um playground do tamanho de uma cidade, sem um único professor à vista — um mundo infantil. Mas aquelas não eram as únicas presenças ali. Lee teve que esfregar os olhos quando os viu, mas não havia dúvida: colunas de névoa, ou algo mais tênue do que a névoa, um espessamento do ar... Fossem o que fossem, a cidade estava cheia deles, deslizavam ao longo das avenidas, entravam nas casas, juntavam-se nas praças.
As crianças andavam entre eles sem os ver. Mas não sem serem vistas. Quanto mais voavam para o centro da cidade, mais Lee podia observar o comportamento daquelas figuras. E era evidente que elas se interessavam por algumas crianças, e seguiam algumas por toda parte: as mais velhas, aquelas que (pelo que Lee podia ver através do telescópio) estavam às portas da adolescência. Havia um menino, alto, magro, de cabelos negros, que estava tão rodeado pelos seres transparentes que seu próprio contorno parecia desfocado.
Eram como moscas em volta da carne. E o menino não tinha ideia disso, embora de vez em quando esfregasse os olhos ou sacudisse a cabeça como se quisesse clarear a visão.
— Que coisas são aquelas? — Lee quis saber.
— As pessoas as chamam de Espectros.
— O que é que eles fazem, exatamente?
— Já ouviu falar de vampiros?
— Ah, as lendas.
— Assim como os vampiros se alimentam de sangue, os Espectros se alimentam de atenção, de um interesse consciente e informado. A imaturidade das crianças não os atrai tanto.
— Então são o oposto daqueles demônios em Bolvangar.
— Pelo contrário. Tanto o Conselho de Oblação quanto os Espectros da Indiferença estão enfeitiçados por esta verdade a respeito dos seres humanos: a inocência é diferente da experiência. O Conselho da Oblação teme e odeia o Pó, e os Espectros se alimentam dele, mas ambos são obcecados por ele.
— Estão cercando aquele menino ali...
— Ele está crescendo. Logo será atacado, e a sua vida será transformada num sofrimento vazio e indiferente. Ele está condenado.
— Pelo amor de Deus! Não podemos fazer nada?
— Não. Os Espectros nos agarrariam na mesma hora. Aqui em cima não podem nos alcançar; tudo que podemos fazer é observar e seguir viagem.
— Mas onde estão os adultos? Não me diga que este mundo inteiro está cheio só de crianças?
— Estas crianças são órfãs, seus pais foram atacados pelos Espectros. Existem muitos bandos delas neste mundo. Elas vagueiam por aí, vivendo daquilo que encontram quando os adultos fogem. E, como você pode ver, existe muita coisa à disposição delas. Elas não passam fome. Parece que um bando de Espectros invadiu esta cidade, e os adultos fugiram para algum lugar seguro, percebeu como há poucos barcos no porto? As crianças não correm perigo.
— A não ser as mais velhas. Como aquele menino ali embaixo, coitado.
— Sr. Scoresby, é assim que este mundo funciona. E se quiser acabar com a crueldade e a injustiça, precisa me levar mais longe. Tenho um trabalho a fazer .
— Me parece... — começou Lee, procurando as palavras. — Me parece que o lugar de combater a crueldade é onde ela está, e... o lugar onde se presta socorro é onde ele é necessário. Ou estou enganado, Dr. Grumman? Sou apenas um aeróstata ignorante. Sou tão ignorante que acreditei quando me disseram que os xamãs têm o dom de voar, por exemplo. No entanto, aqui está um xamã que não tem esse dom.
— Ah, mas eu tenho, sim.
— Como assim?
— Eu precisava voar, de modo que convoquei você e aqui estou, voando — disse Grumman.
O balão voava mais baixo, o solo estava mais perto. Uma torre de pedra erguia-se diretamente no caminho deles, e Lee parecia não ter percebido. Grumman estava inteiramente consciente do perigo que corriam, mas evitou insinuar que o aeróstata não estava. E, no momento apropriado, Lee Scoresby inclinou-se por cima da borda da cesta e puxou a corda de um dos sacos de lastro. A areia escorreu, e o balão ergueu-se suavemente, passando por cima da torre a uns dois metros de distância. Algumas gralhas, alvoroçadas, revoaram aos guinchos em volta deles.
— É, está mesmo — disse Lee. — O senhor tem um jeito estranho, Dr. Grumman. Já teve contato com as bruxas?
— Já, sim — disse Grumman. — E com Catedráticos, e com espíritos. Encontrei loucura em toda parte, mas havia grãos de sabedoria em todos os casos de loucura. Sem dúvida havia muito mais sabedoria do que eu consegui reconhecer. A vida é dura, Sr. Scoresby , mas mesmo assim nos agarramos a ela.
— E esta viagem, é loucura ou sabedoria?
— A maior sabedoria que conheço.
— Conte-me outra vez qual é o seu propósito: vai encontrar o portador da faca mágica, e depois?
— Revelar-lhe qual é a sua tarefa.
— Uma tarefa que inclui proteger Lyra — o aeróstata lembrou.
— Vai proteger nós todos.
O voo prosseguia, e logo a cidade tinha ficado para trás. Lee verificou seus instrumentos. A bússola ainda girava sem parar, mas o altímetro estava funcionando corretamente, pelo que ele podia julgar, e mostrava que estavam flutuando cerca de 300 metros acima da costa, paralelos a ela. À frente, uma cadeia de altas montanhas verdes erguia-se para dentro da névoa, e Lee sentiu alívio por ter providenciado bastante lastro. Mas quando examinou o horizonte ele sentiu o coração dar um salto. Hester sentiu o mesmo e sacudiu as orelhas, girando a cabeça para olhar para o rosto dele com um olho castanho-dourado.
Ele a pegou e a enfiou dentro do casaco, e tornou a abrir o telescópio.
Não. não tinha se enganado. Ao sul (se a direção de onde vinham era realmente o sul) outro balão flutuava na neblina. A distância e a distorção do calor impossibilitavam que ele distinguisse qualquer detalhe, mas o outro balão era maior e voava mais alto.
Grumman também o vira.
— Inimigos, Sr. Scoresby? — perguntou, protegendo os olhos para perscrutar a luz nacarada.
— Sem dúvida. Não sei se solto lastro e subo, para pegar um vento mais rápido, ou continuo voando baixo e fico menos visível. Ainda bem que aquela coisa não é um zepelim, senão poderia nos alcançar em poucas horas. Não. droga, Dr. Grumman. Vou subir, porque se eu estivesse naquele balão já teria visto este aqui. E aposto que eles enxergam bem.
Ele tornou a colocar Hester no chão e inclinou-se para soltar três sacos de lastro. O balão subiu imediatamente, e Lee manteve o telescópio pregado no olho. E no minuto seguinte ele teve certeza de ter sido avistado, pois houve um movimento na névoa que se transformou numa linha de fumaça subindo e se afastando em diagonal do outro balão e quando chegou a certa altura, a fumaça explodiu em luz. Durante um instante ela brilhou em vermelho, depois diminuiu para uma fumaça cinzenta, mas era um sinal tão claro quanto um sino de alarme tocando na noite.
— Pode invocar uma brisa mais forte, Dr. Grumman? Eu gostaria de chegar àquelas montanhas antes de escurecer — pediu Lee.
Pois agora afastavam-se da costa, e seu curso os levava sobre uma grande baía, de uns 50 quilômetros de extensão. As montanhas erguiam-se do outro lado, e agora que tinha ganho altura, Lee viu que eram realmente imensas.
Virou-se para Grumman, mas este estava em transe profundo. O xamã tinha os olhos fechados, e gotas de suor surgiam em sua testa, enquanto ele se balançava suavemente para a frente e para trás. Da garganta saía-lhe um gemido baixo e ritmado, e seu dimon, igualmente em transe, agarrava-se à borda da cesta.
Fosse resultado da maior altura, fosse resultado do feitiço do xamã, uma brisa alcançou o rosto de Lee. Ele ergueu os olhos para verificar o balão propriamente dito e viu que se inclinava um ou dois graus na direção das montanhas.
Mas a brisa que os impulsionava estava impulsionando o outro balão também. Ele não estava mais perto, porém também não estava mais longe. E quando Lee virou o telescópio naquela direção, avistou atrás dele formas menores e mais escuras. Estavam agrupadas de maneira organizada, e a cada minuto ficavam mais sólidas e nítidas.
— Zepelins — ele identificou. — Bem, não temos onde nos esconder.
Ele tentou calcular a distância dos zepelins e das montanhas para onde estavam voando. Sua velocidade certamente era maior agora, e a brisa erguia franjas brancas lá embaixo nas ondas do mar.
Grumman descansava num canto da cesta, enquanto seu dimon penteava as penas com o bico. Ele tinha os olhos fechados, mas Lee sabia que estava acordado.
— A situação é a seguinte, Dr. Grumman: não quero ser apanhado no ar por aqueles zepelins. Não há defesa, eles nos derrubariam num minuto. Também não quero pousar na água, por escolha ou não, poderíamos flutuar por algum tempo, mas eles nos pegariam com granadas como quem pesca um peixe. De modo que quero chegar até aqueles montes e pousar lá. Estou vendo uma floresta; podemos nos esconder entre as árvores por algum tempo, talvez por muito tempo. Enquanto isso, o sol está descendo. Faltam umas três horas para o pôr-do-sol, pelos meus cálculos. É difícil dizer, mas acho que a essa hora os zepelins já terão diminuído pela metade a distância entre nós, e já deveremos ter chegado ao outro lado desta baía. Portanto, entenda o que estou querendo dizer: vou nos levar para aquelas montanhas e então pousar, pois qualquer outra coisa será morte certa. Eles já devem ter feito a ligação entre o anel que eu mostrei e o escraelingue que matei em Nova Zembla, e não estão atrás de nós com tanto empenho só para nos dizer que esquecemos a carteira em cima do balcão. De modo que este voo termina hoje, não sei quando. Já pousou de balão?
— Não, mas confio na sua habilidade — afirmou o xamã.
— Vou tentar chegar o mais alto possível. É uma questão de equilíbrio, pois quanto mais voarmos, mais perto eles estarão de nós. Se eu pousar com eles muito perto, eles poderão ver onde pousamos, mas se eu pousar cedo demais, não conseguiremos nos abrigar nas árvores. De qualquer maneira, não vai demorar para haver tiroteio.
Grumman, impassível, jogava de uma mão para a outra um instrumento de magia feito de penas e contas, de um determinado jeito no qual Lee distinguia um certo propósito. Os olhos de seu dimon não abandonavam os zepelins que os perseguiam.
Passou-se uma hora, e mais outra. Lee mastigava um charuto apagado e bebericava café frio de um frasco de lata. O sol baixou no céu atrás deles, e Lee via a longa sombra da noite avançar pela praia da baía e subir as encostas mais baixas das montanhas à frente, enquanto o próprio balão e o topo das montanhas estavam banhados de dourado.
E atrás deles, quase perdidas no brilho do poente, as manchinhas dos zepelins ficavam maiores e mais nítidas. Eles já tinham ultrapassado o outro balão, e podiam ser vistos a olho nu: quatro zepelins, lado a lado. E através do amplo silêncio da baía veio o som dos seus motores, baixo, porém nítido — um insistente zumbido de mosquito.
Quando faltavam alguns minutos para chegarem acima da praia no sopé das montanhas, Lee percebeu uma novidade no céu, atrás dos zepelins: um banco de nuvens vinha crescendo e uma imensa nuvem de tempestade subia milhares de metros no céu, ainda claro lá em cima. Como ele pôde não ter percebido? Se uma tempestade era iminente, quanto mais cedo pousassem, melhor seria.
Então uma cortina verde-escura de chuva desabou da nuvem, e a tempestade parecia estar perseguindo os zepelins como estes perseguiam o balão de Lee, pois a chuva vinha do mar em sua direção, quando o sol finalmente desapareceu, veio das nuvens um fortíssimo clarão e, segundos depois, o estrondo de um trovão tão alto que sacudiu por inteiro o balão de Lee e ecoou durante longo tempo nas montanhas.
Houve então outro relâmpago, que dessa vez desceu das nuvens diretamente sobre um dos zepelins. No mesmo instante o gás incendiou-se: uma brilhante flor de fogo desabrochou contra as nuvens escuras, e a embarcação começou a cair lentamente, em chamas, como uma rocha, e ficou flutuando no mar.
Lee soltou a respiração. Grumman estava de pé a seu lado, uma das mãos na borda da cesta, o rosto marcado de rugas de cansaço.
— Foi o senhor quem trouxe a tempestade? — Lee perguntou.
Grumman assentiu.
O céu agora tinha o colorido de um tigre: listras douradas alternavam-se com manchas e mais listras marrom-escuras, e o desenho mudava a cada minuto, pois o dourado desaparecia rapidamente, engolido pelo marrom. O mar era uma colcha de retalhos de água escura e espuma fosforescente, e as derradeiras labaredas do zepelim em chamas minguavam, para finalmente desaparecerem quando ele afundou.
No entanto, os outros três continuavam a perseguição, maltratados pela tempestade, porém mantendo o rumo. Em volta deles os relâmpagos se multiplicaram, e, à medida que a tempestade se aproximava, Lee começou a temer pelo gás de seu próprio balão: um raio iria derrubá-lo no solo, em chamas, e ele não imaginava que o xamã teria tanto controle sobre a tempestade aponto de evitar isso.
— Certo, Dr. Grumman, por enquanto vou ignorar aqueles zepelins e me concentrar em nos levar em segurança para as montanhas e pousar por lá. Quero que o senhor se sente e se segure bem, e fique preparado para saltar quando eu mandar. Vou dar um aviso e vou tentar pousar o mais suavemente possível, mas o pouso nessas condições é tanto uma questão de sorte quanto de habilidade.
— Confio em você, Sr. Scoresby — afirmou o xamã.
Ele foi se recostar num canto da cesta enquanto seu dimon empoleirou-se na borda, as garras enfiadas nas cordas de couro. O vento agora soprava forte sobre eles, e o grande balão sacudia-se e se inclinava. Os cabos estalavam, forçados, mas Lee não temia que eles cedessem. Soltou um pouco mais de lastro, observando atentamente o altímetro. Numa tempestade, quando a pressão do ar caía, era preciso levar em conta essa queda ao fazer a leitura do altímetro, que muitas vezes permitia apenas um cálculo aproximado. Lee verificou e tornou a verificar as cifras, e então soltou seu último lastro.
O único controle que tinha agora era a válvula do gás. Não poderia subir mais, poderia apenas descer. Perscrutou atentamente o ar tempestuoso e distinguiu o vulto das grandes montanhas escuras contra o céu nublado. De baixo vinha um som como ondas batendo numa praia de pedras, mas ele sabia que era o vento passando com força pela folhagem das árvores. Então já estavam ali! Viajavam mais depressa do que ele tinha Imaginado. E ele não devia demorar muito para pousar. Lee era tranquilo demais por natureza para vociferar contra o destino, sua reação era erguer uma sobrancelha e aceitá-lo laconicamente. Mas agora não conseguia deixar de sentir uma fagulha de desespero, pois a única coisa a fazer — isto é, voar à frente da tempestade, esperando até que ela acabasse — era a única coisa que garantiria que eles seriam derrubados a tiros.
Pegou Hester e enfiou-a dentro do casaco de lona, abotoando-o até o pescoço para mantê-la presa. Grumman estava quieto e imóvel; seu dimon, açoitado pelo vento, a plumagem eriçada, agarrava-se firmemente à borda da cesta.
— Vou descer agora, Dr. Grumman — Lee gritou acima do ruído do vento. — O senhor deve ficar de pé, pronto para saltar. Agarre a borda e pule para fora quando eu mandar.
Grumman obedeceu. Lee olhou para baixo, para a frente, para baixo, para a frente, tentando enxergar alguma diferença de uma olhada para outra, pestanejando para tirar a chuva dos olhos — pois uma chuvarada súbita desabou sobre eles como punhados de cascalho, e o tamborilar dos pingos sobre o balão juntava-se ao uivo do vento e ao ruído da folhagem lá embaixo, até que Lee mal conseguia ouvir até mesmo o trovão.
— Lá vamos nós! — gritou. — O senhor preparou uma bela tempestade, Sr. Xamã.
Ele puxou a corda da válvula de gás e enrolou-a numa haste, para manter a válvula aberta. À medida que o gás saía pelo topo, invisível lá em cima, a curva inferior do balão começou a encolher, formando uma prega, depois mais outra, onde antes havia apenas uma esfera.
A cesta sacudia-se com tanta violência que era difícil dizer se eles estavam descendo, e as rajadas de vento eram tão súbitas e fortes que eles poderiam muito bem ter sido soprados para o alto sem perceberem, mas depois de mais ou menos um minuto, Lee sentiu um puxão e verificou que a pequena âncora tinha ficado presa num galho. A freada foi apenas temporária — o galho que os segurava partiu-se, mas serviu para demonstrar como estavam perto do solo. Ele gritou:
— Quinze metros acima das árvores!
O xamã assentiu.
Houve então outro puxão, mais violento, e os dois homens foram jogados de encontro à parede da cesta. Lee estava acostumado, e logo recuperou o equilíbrio, mas o Dr. Grumman foi pego de surpresa. No entanto, não largou a borda da cesta, e Lee viu que ele estava seguro, pronto para saltar.
No instante seguinte houve um choque violento, quando a âncora prendeu-se a um galho que não se partiu. Imediatamente a cesta tombou de lado, e no segundo seguinte ela batia contra o topo das árvores, e, em meio às chicotadas da folhagem molhada e dos ramos partidos e o estalo dos galhos que suportaram o choque, a cesta conseguiu uma precária imobilidade.
— Ainda está aí, Dr. Grumman? — Lee chamou, pois era impossível ver qualquer coisa.
— Ainda estou aqui, Sr. Scoresby.
— É melhor ficarmos parados um minuto até eu entender claramente a situação — disse Lee.
Estavam a sacudir-se ferozmente ao vento, e ele sentia a cesta vencer, com pequenos puxões, a resistência do que quer que os estava segurando no ar. O balão, agora quase vazio, operava como uma vela ao vento, puxando-os para um lado. Lee pensou em cortar os cabos que o prendiam, mas se fizesse isso, e o balão não fosse soprado para longe, ficaria sobre as árvores como uma bandeira indicando onde eles se encontravam, era melhor recolhê-lo, se conseguissem.
Houve o clarão de outro relâmpago, e no segundo seguinte o estrondo do trovão: a tempestade estava quase em cima deles. O clarão permitiu que Lee visse o tronco de um carvalho, com uma grande cicatriz branca onde um galho tinha sido quase totalmente arrancado — a cesta descansava sobre ele, perto do lugar onde ele ainda estava precariamente preso ao tronco.
— Vou jogar uma corda e descer — ele gritou. — Assim que estivermos com os pés no chão, poderemos planejar o passo seguinte.
— Vou atrás do senhor — Grumman declarou. — Meu dimon me disse que o solo fica a pouco mais de 10 metros.
E Lee tomou consciência do bater de asas poderosas, enquanto o dimon-águia pousava novamente na borda da cesta.
— Ela consegue afastar-se tanto assim? — perguntou, surpreso. Mas afastou isso da mente e prendeu a corda com segurança, primeiro à cesta e depois ao galho, de modo que, mesmo se este cedesse e a cesta caísse, a queda não seria grande.
Então, com Hester em segurança junto ao seu peito, ele jogou o resto da corda pela borda e desceu por ela até sentir o chão debaixo dos pés. Os ramos cresciam grossos em volta do tronco, era uma árvore imensa, um carvalho gigante, e Lee murmurou um obrigado enquanto dava um puxão na corda para avisar a Grumman que ele podia descer.
Mas havia por acaso outro som no meio do barulho? Lee escutou com atenção. Sim, o motor de um zepelim, talvez mais de um. Impossível dizer sua altitude ou direção, mas o som perdurou por um minuto ou mais, e depois desapareceu.
O xamã chegou ao solo.
— O senhor escutou? — Lee perguntou.
— Escutei. Subindo e se aproximando das montanhas, eu acho. Parabéns por ter pousado em segurança, Sr. Scoresby.
— Ainda não acabou. Quero puxar aquele balão para debaixo das árvores antes do amanhecer, senão ele vai revelar a nossa posição a quilômetros de distância. Está disposto a um trabalho braçal, Dr. Grumman?
— Diga-me o que tenho que fazer.
— Está bem. Vou tornar a subir e baixar algumas coisas para o senhor. Uma delas é uma barraca. O senhor pode ir montando a barraca enquanto eu vejo o que posso fazer para esconder o balão.
Trabalharam por longo tempo, e correram perigo em certo momento, quando o galho que segurava a cesta finalmente se partiu e Lee caiu com ele; mas não caiu muito, já que o balão, ainda preso ao topo das árvores, segurou a cesta no ar.
Na verdade, a queda facilitou esconder o balão, pois a parte inferior foi puxada para baixo, atravessando a ramagem das árvores; trabalhando à luz dos relâmpagos, puxando, torcendo e cortando, Lee conseguiu que todo o corpo do balão descesse por entre os galhos até descansar sobre os ramos inferiores, fora de vista.
O vento ainda açoitava o topo das árvores, mas o pior da tempestade tinha passado quando ele concluiu que aquilo era o máximo que podia fazer. Quando finalmente desceu, constatou que o xamã não apenas tinha montado a barraca como também acendido uma fogueira, e estava fazendo café.
— Fez isso com magia? — ele perguntou ao entrar na barraca, dolorido e encharcado, e pegar a caneca que Grumman lhe estendeu.
— Não, pode agradecer aos escoteiros — Grumman respondeu. — Existem escoteiros no seu mundo? Um escoteiro prevenido vale por dois. De todas as maneiras de fazer fogo, a melhor delas é usar fósforos secos, e eu nunca viajo sem eles. Podíamos estar menos confortáveis num camping, Sr. Scoresby.
— Ouviu aqueles zepelins de novo?
Grumman ergueu a mão. Lee escutou, e realmente lá estava o ruído de motor, mais discernível agora que a chuva tinha diminuído.
— Já passaram duas vezes — disse Grumman. — Não sabem onde estamos, mas sabem que estamos em algum lugar por aqui.
E no minuto seguinte um brilho bruxuleante veio da direção em que o zepelim voara. Era menos brilhante do que um relâmpago, mas era duradouro, e Lee tomou consciência de que era um foguete de iluminação.
— É melhor apagar o fogo, Dr. Grumman — ele disse. — Por mais pena que me dê ficar sem ele. Acho que a cobertura das árvores nos esconde, mas nunca se sabe. Vou dormir agora, molhado ou não.
— De manhã o senhor estará seco — o xamã afirmou.
Pegou um punhado de terra molhada e pressionou-o sobre a chama, e Lee estendeu-se com esforço na pequena barraca e fechou os olhos. Teve sonhos fortes e estranhos. Em certo momento, teve certeza de ter despertado e visto o xamã sentado de pernas cruzadas, envolto em chamas, e as chamas consumiram rapidamente o seu corpo, deixando apenas um esqueleto branco, ainda sentado num montinho de cinzas ardentes. Assustado, Lee procurou por Hester e encontrou-a adormecida, coisa que nunca tinha acontecido, pois quando ele estava acordado, ela também estava, assim, ao encontrá-la dormindo, sua dimon lacônica, porém de língua ferina, pareceu-lhe tão boazinha e vulnerável, que ele se comoveu com a estranheza daquilo, e deixou-se ficar, inquieto, ao lado dela, acordado dentro do sonho, mas na realidade dormindo, sonhando que ficara longo tempo acordado.
Outro sonho também enfocava Grumman. Lee parecia ver o xamã sacudindo um chocalho enfeitado de penas e dando ordens a alguma coisa, exigindo obediência. Lee viu, com um espasmo de náusea, que essa coisa era um Espectro como aqueles que eles tinham visto do balão. Era alto e quase invisível, e provocava uma repulsa tão profunda em Lee que ele quase despertou de terror. Mas Grumman dava ordens sem ter medo, e não parecia ter problemas, pois a coisa escutou-o com atenção e depois ergueu-se no ar como uma bolha de sabão até perder-se no topo da barraca.
Então a exaustiva noite de Lee deu outra reviravolta, pois ele estava na cabine de um zepelim, observando o piloto — aliás, estava sentado no lugar do copiloto, e voavam acima da floresta, perscrutando a superfície revolta do topo das árvores, um mar bravio de galhos e folhas. Então viu aquele Espectro na cabine com eles. Preso no sonho, Lee não conseguia mexer-se ou gritar, e sofreu o terror do piloto quando este começou a tomar consciência daquilo que estava lhe acontecendo. O Espectro estava inclinado sobre o piloto, pressionando aquilo que seria o seu rosto contra o dele. O dimon do piloto — uma fêmea de tentilhão bateu asas, grasnou e tentou afastar-se, para cair, quase desmaiado, sobre o painel de instrumentos. O piloto virou o rosto para Lee e estendeu a mão, mas Lee não tinha poder de movimento. A angústia nos olhos do outro era dilacerante. Alguma coisa viva e verdadeira estava a escoar-se dele, e seu dimon bateu as asas e soltou um grasnido alto e selvagem: ele estava morrendo.
Então o dimon desapareceu. Mas o piloto ainda estava vivo, seus olhos tornaram-se opacos e a mão estendida caiu flacidamente sobre o manete. Ele parecia vivo, mas não estava vivo: estava indiferente a tudo. E Lee ficou ali sentado, vendo, sem nada poder fazer, o zepelim voar diretamente para a encosta de uma das montanhas que se erguiam à frente. O piloto contemplava a montanha crescer sobre eles, mas nada poderia despertar o seu interesse. Lee apertou-se contra o encosto da cadeira, horrorizado, mas nada aconteceu, e no momento do impacto ele apenas gritou:
— Hester!
E despertou.
Estava na barraca, em segurança, e Hester mordiscava o seu queixo. Ele estava coberto de suor. O xamã permanecia sentado de pernas cruzadas, mas Lee sentiu um estremecimento ao ver que o dimon-águia não estava por perto.
Obviamente aquela floresta era um lugar ruim, assombrado por fantasmas. Ele então tomou consciência da luz pela qual estava conseguindo enxergar o xamã, pois o fogo continuava apagado e a escuridão da floresta era total. Um clarão distante mostrava os troncos e a parte inferior da copa das árvores, com as folhas pingando água, e Lee de imediato soube do que se tratava: seu sonho tinha sido realidade e um piloto de zepelim havia voado contra a encosta da montanha.
— Droga, Lee, está tremendo como uma folha de faia. Qual é o problema com você? — Hester resmungou, movendo as grandes orelhas.
— Você não está sonhando também, Hester? — ele resmungou em resposta.
— Não está sonhando, Lee, está vendo. Se eu soubesse que você é um vidente, já o teria curado há muito tempo. Agora vê se sossega, está ouvindo?
Ele esfregou a cabeça do dimon com o polegar e as orelhas dele estremeceram.
E sem a menor transição ele estava flutuando no ar ao lado do dimon do xamã, a águia-pesqueira Sayan Kötör. O fato de estar na presença do dimon de outro homem e distante do seu próprio provocava em Lee um forte sentimento de culpa e um estranho prazer. Estavam planando, como se ele também fosse um pássaro, nas turbulentas correntes ascendentes acima da floresta, e Lee olhou em volta para a escuridão, agora permeada pelo brilho pálido da lua cheia que ocasionalmente surgia através de uma breve fenda nas nuvens e coloria de prateado as copas das árvores.
A águia-dimon soltou um guincho forte e de baixo vieram, em mil vozes diferentes, os sonidos de mil pássaros: o pio das corujas, o grito de alarme das pequenas andorinhas, a música líquida do rouxinol: Sayan Kötör estava chamando os pássaros. E eles acorreram, todos os pássaros da floresta — os que estavam deslizando pelo ar com asas silenciosas, os que estavam em plena caça, os que dormiam empoleirados, todos alçaram voo aos milhares. E Lee sentiu a natureza de pássaro que o dominava reagir com alegria ao comando da águia-rainha, e a humanidade que ele possuía sentiu o mais estranho dos prazeres: aquele de oferecer obediência a um poder mais forte e inteiramente correto. Ele girava e volteava com o resto do enorme bando, cem espécies diferentes voando em formação, em obediência à vontade poderosa da águia, e avistou, contra a capa prateada das nuvens, o odioso vulto escuro de um zepelim.
Todos sabiam exatamente o que deviam fazer. E avançaram para a aeronave, os mais rápidos chegando primeiro, mas nenhum tão rápido quanto Sayan Kötör; as minúsculas cambaxirras, os tentilhões, os andorinhões de voo rápido, as corujas de voo silencioso — em um minuto o zepelim estava rodeado deles, as garras procurando apoio na seda oleada, perfurando-a. Os pássaros evitavam o motor, embora alguns tenham sido atraídos por ele, sendo feitos em pedaços pelas hélices. A maioria simplesmente empoleirou-se no corpo do zepelim, e os que chegavam depois agarravam-se aos primeiros, até cobrirem não apenas todo o balão da aeronave (agora perdendo hidrogênio através de milhares de pequenos orifícios feitos pelas garras) mas as janelas da cabine também, e os espeques e cabos — cada centímetro quadrado de espaço tinha um pássaro, dois pássaros, três ou mais, agarrado a ele. O piloto nada podia fazer. Sob o peso dos pássaros, o zepelim começou a perder cada vez mais altura, e então surgiu outra escarpa, crescendo na noite e naturalmente invisível aos homens dentro da embarcação, que movimentavam as armas sem direção e atiravam a esmo. No último instante Sayan Kötör gritou, e o estrondo do ruflar de asas abafou até mesmo o ronco do motor, quando todos os pássaros alçaram voo e se distanciaram. E os homens na cabine tiveram quatro ou cinco segundos de constatação e terror antes que o zepelim batesse na rocha e explodisse em chamas. Fogo, calor, labaredas...
Lee acordou novamente, o corpo quente, como se estivesse deitado ao sol do deserto.
Do lado de fora da barraca ainda havia o som incessante dos pingos que caíam das folhas sobre a lona da barraca, mas a tempestade passara. Uma luz cinzenta e fraca filtrava-se no interior da barraca, e Lee ergueu-se um pouco e viu Hester a seu lado, pestanejando, e o xamã enrolado numa coberta, dormindo tão profundamente que poderia estar morto, se sua dimon-águia pesqueira Sayan Kötör não estivesse dormindo empoleirada num galho caído do lado de fora. O único som além dos pingos era o cantar dos pássaros na floresta. Nenhum motor no céu, nenhuma voz inimiga, portanto, Lee achou que seria seguro acender o fogo e fazer café — e conseguiu, depois de certo esforço.
— E agora, Hester? — perguntou.
— Depende. Havia quatro zepelins, e ele só destruiu três.
— O que estou querendo saber é: já cumprimos a nossa obrigação?
Ela moveu as orelhas e disse:
— Não me lembro de contrato nenhum.
— Não é questão de contrato, é uma questão moral.
— Ainda temos que nos preocupar com mais um zepelim, antes de você começar a inventar essa coisa de moral, Lee. São 30 a 40 homens armados querendo nos pegar. Soldados imperiais, ainda por cima. Primeiro a sobrevivência, depois a moral.
Ela estava com a razão, naturalmente, e enquanto bebericava o café quente e fumava um charuto, contemplando a luz do dia que aumentava gradualmente, ele ficou pensando no que faria se estivesse no comando do único zepelim restante. Retroceder e esperar o dia clarear, sem dúvida, e voar suficientemente alto para esquadrinhar a borda da floresta numa grande extensão e avistar Lee e Grumman quando eles deixassem seu esconderijo. O dimon-águia-pesqueira Sayan Kötör despertou e estendeu as longas asas acima de onde Lee estava sentado. Hester ergueu os olhos e girou a cabeça para um lado e para outro, encarando o poderoso dimon com um olho dourado de cada vez, e no momento seguinte o próprio xamã saiu da barraca.
— Que noite cheia! — Lee comentou.
— E um dia cheio por vir. Temos que sair imediatamente da floresta, Sr. Scoresby. Eles vão botar fogo nela.
Lee, incrédulo, deu uma olhada para a vegetação encharcada à sua volta e perguntou:
— Como?
— Eles têm um motor que lança uma espécie de nafta misturada com potassa, que se incendeia em contato com a água. Foi desenvolvido pela Marinha Imperial para ser usado na guerra contra os nipônicos. Se a floresta está molhada, vai pegar fogo ainda mais depressa.
— O senhor consegue ver isso?
— Assim como o senhor viu o que aconteceu com os zepelins durante a noite. Prepare o que vai querer levar, e vamos embora agora.
Lee esfregou o queixo. As coisas mais valiosas que ele possuía eram também as mais portáteis — os instrumentos do balão, que ele recolheu da cesta e guardou cuidadosamente numa mochila, em seguida, certificou-se de que o rifle estava seco e carregado.
Deixou a cesta, os cabos e o balão vazio onde estavam, retorcidos e emaranhados nos galhos. Daí em diante ele não era mais um aeróstata, a não ser que por algum milagre conseguisse escapar com vida e conseguisse dinheiro suficiente para comprar outro balão. Agora tinha que mover-se como um inseto, ao longo da superfície da Terra.
Sentiram o cheiro da fumaça antes de ouvirem o fogo, pois uma brisa vindo do mar levava-a para o interior. Quando alcançaram a borda da floresta, escutaram o fogo, um rugido profundo e voraz.
— Por que não fizeram isto à noite? — Lee quis saber. — Podiam ter-nos assado enquanto dormíamos.
— Acho que querem nos pegar vivos — Grumman respondeu, enquanto preparava um galho para servir de bengala. — E estão esperando sairmos da floresta.
De fato, o zumbido do zepelim logo se fez ouvir acima até mesmo do som do fogo e da sua própria respiração ofegante, pois agora estavam correndo, trepando sobre raízes, rochedos e troncos caídos, parando apenas para recuperar o fôlego. Sayan Kötör, voando alto, dava rasantes para informar o progresso que eles tinham feito e a distância das labaredas, mas não demorou até que eles próprios pudessem ver a fumaça acima das árvores atrás deles, e depois uma faixa ondulante de fogo.
Pequenas criaturas da floresta, esquilos, pássaros, javalis fugiam com eles, e um coro de guinchos, berros, sons de alarme de todo tipo erguia-se à volta deles. Os dois homens avançavam com esforço para a borda da floresta, não muito distante e então a alcançaram, enquanto chegavam cada vez mais perto as ondas de calor das gigantescas labaredas que agora alcançavam 15 metros no ar. As árvores ardiam como tochas, a seiva em suas veias fervia e partia-as em pedaços, a resina nas coníferas prendiam fogo como nafta, os ramos pareciam florescer de um momento para o outro com ferozes flores alaranjadas.
Ofegantes, Lee e Grumman encontraram-se junto à íngreme encosta de rochedos e cascalho. Metade do céu estava obscurecida pela fumaça e pela reverberação do calor, mas acima flutuava a forma atarracada do único zepelim que restava — longe demais para avistá-los, mesmo através de binóculos, Lee pensou esperançosamente.
Vertical e intransponível, a encosta da montanha erguia-se à frente deles. Só havia um caminho para escapar da armadilha em que se encontravam: uma garganta estreita mais à frente, onde um leito seco de rio emergia de uma reentrância na rocha. Lee apontou, e Grumman disse:
— Exatamente o que eu estava pensando, Sr. Scoresby.
Seu dimon, voando em círculos, balançou as asas e voou para a ravina aproveitando uma corrente ascendente. Os homens não pararam, subindo o mais depressa que podiam, mas Lee disse:
— Desculpe a minha pergunta, se ela for impertinente, mas nunca conheci alguém cujo dimon conseguisse se afastar assim, a não ser as bruxas. Mas o senhor não é bruxo. Isso foi uma coisa que o senhor aprendeu, ou veio naturalmente?
— Para um ser humano, nada vem naturalmente — disse Grumman. — Temos que aprender tudo que fazemos. Sayan Kötör está me dizendo que a ravina leva a uma passagem. Se chegarmos até lá antes que eles nos vejam, ainda poderemos escapar.
A águia tornou a voar baixo, e os homens continuaram a subida. Hester preferia encontrar seu próprio caminho por sobre as rochas, de modo que Lee a seguiu, evitando as pedras soltas e movendo-se o mais depressa que podia por cima das pedras maiores, sempre em direção à pequena ravina. Lee ficou preocupado com Grumman, pois este estava pálido e abatido, e respirava com dificuldade. Suas atividades noturnas tinham consumido muito da sua energia. Até quando conseguiriam prosseguir era algo em que Lee não queria pensar, mas quando estavam quase perto da entrada da ravina, na margem do leito seco do rio, ele escutou uma mudança no som do zepelim.
— Eles nos viram — disse.
Isso era como receber uma sentença de morte. Hester tropeçou — até Hester, de passos tão seguros, tropeçou e vacilou. Grumman apoiou-se na bengala que levava e protegeu os olhos para olhar para trás, e Lee virou-se para olhar também. O zepelim descia depressa, rumo à encosta diretamente abaixo de onde eles estavam. Era óbvio que os perseguidores pretendiam capturá-los vivos, pois uma rajada de balas teria acabado com os dois num segundo. Em vez disso, o piloto trouxe habilidosamente a nave para pairar logo acima do solo no ponto mais alto da encosta abaixo deles, da porta da cabine saltaram muitos homens de farda azul, com seus dimons-lobos ao lado, e puseram-se a subir a encosta.
Lee e Grumman estavam quase 600 metros acima deles, e não muito distantes da entrada da ravina. Uma vez chegando lá, poderiam rechaçar os soldados enquanto tivessem munição: mas só tinham um único rifle.
— Estão atrás de mim, Sr. Scoresby — disse Grumman. — Se me der o rifle e se entregar, vai sobreviver. São soldados disciplinados. O senhor será prisioneiro de guerra.
Lee ignorou isso, e disse:
— Mexa-se. Vá até a ravina e se adiante até o outro lado, enquanto eu fico na boca da ravina e seguro os soldados. Trouxe o senhor até aqui e não vou deixar que o peguem agora.
Os homens lá embaixo subiam com rapidez, pois eram fortes e estavam descansados. Grumman assentiu.
— Não tive forças para derrubar o quarto zepelim — foi tudo o que disse.
Os dois se apressaram para atingir o abrigo da ravina.
— Diga-me só uma coisa antes de ir, porque não terei sossego enquanto não souber — Lee pediu. — Não sei dizer de que lado estou lutando, e não me importo muito com isso. Só quero saber o seguinte: isso que vou fazer agora vai ajudar ou vai prejudicar aquela garota, Lyra?
— Vai ajudar — Grumman afirmou.
— E o seu juramento, não vai esquecer o que jurou?
— Não vou esquecer.
— Porque, Dr. Grumman, ou John Parry, ou seja lá o nome que o senhor arranjar no mundo em que for parar, o senhor fique sabendo de uma coisa: eu amo aquela menininha como uma filha. Se eu tivesse uma filha, não a amaria tanto. E se o senhor quebrar seu juramento, o que quer que sobre de mim irá procurar o que quer que sobre do senhor, e o senhor vai passar o resto da eternidade desejando nunca ter existido. Isto mostra a importância que tem o seu juramento.
— Compreendo. E já dei a minha palavra.
— Então é só o que eu preciso saber. Boa sorte.
O xamã estendeu a mão, que Lee apertou. Então Grumman se virou e seguiu em direção à ravina, e Lee olhou em volta à procura do melhor lugar para assumir sua posição.
— Não o rochedo grande, Lee — aconselhou Hester. — De lá não dá para enxergar à direita, e eles poderiam atacar por ali. Vá para o menor.
Havia nos ouvidos de Lee um rugido que nada tinha a ver com o incêndio da floresta abaixo dele, ou com o zumbido forçado do motor do zepelim tentando elevar-se outra vez. Tinha a ver com a sua infância e o Álamo. Quantas vezes ele e seus amiguinhos tinham encenado de brincadeira aquela batalha heroica, nas ruínas do velho forte, alternando a vez de serem franceses ou dinamarqueses! A sua infância lhe voltava agora, com força redobrada. Ele pegou o anel navajo da mãe e colocou-o na pedra ao seu lado. Nas velhas brincadeiras de Álamo, Hester muitas vezes se transformava em puma ou lobo, e uma ou duas vezes em cascavel, mas em geral em tordo. Agora, porém...
— Pare de sonhar acordado e faça pontaria — ela instruiu. — Isto não é uma brincadeira, Lee.
Os homens que subiam a encosta tinham se espalhado e avançavam mais devagar, porque entendiam a situação tão bem quanto ele. Sabiam que teriam que invadir a ravina e sabiam que um homem com um rifle poderia detê-los por muito tempo. Atrás deles, para surpresa de Lee, o zepelim ainda tentava subir. Talvez estivesse perdendo a flutuação, ou talvez o combustível estivesse baixo, mas, fosse o que fosse, ele ainda não tinha levantado voo, e isso lhe deu uma ideia.
Ele ajustou a posição e fez pontaria com o velho Winchester até ter o suporte do motor de bombordo bem na mira, então atirou. Ouvindo o disparo, os soldados que subiam a encosta ergueram a cabeça, mas no segundo seguinte o motor de repente roncou e também de repente morreu. O zepelim tombou de lado. Lee ouvia o outro motor roncando, mas a aeronave agora estava no solo.
Os soldados tinham estacado, tentando proteger-se como podiam. Lee conseguiria contar quantos eram, e fez isso: 25.
E ele tinha trinta balas.
Hester aproximou-se do seu ombro esquerdo.
— Vou vigiar deste lado — disse.
Agachada no rochedo cinzento, as orelhas esticadas sobre as costas, ela parecia uma pequena rocha, marrom-acinzentada e quase invisível, a não ser os olhos. Hester não era nenhuma beleza; era sem graça e magrela como uma lebre pode ser, mas tinha os olhos maravilhosamente coloridos, dourados, com raios de um marrom profundo e um verde vivo. E agora esses olhos contemplavam a última paisagem que veriam: uma encosta árida, de brutais pedras roladas, e atrás dela uma floresta em chamas. Nem uma folha de capim, nem uma manchinha verde para descansar seus olhos. Ela mexeu de leve as orelhas.
— Estão conversando — disse. — Consigo escutar, mas não consigo entender.
— É russo — ele explicou. — Vão atacar todos juntos e correndo. Seria o pior para nós, portanto é o que eles vão fazer.
— Mire direito — ela recomendou.
— Vou mirar. Mas, que droga, não gosto de matar, Hester.
— Eles ou nós.
— Não, é mais que isso — ele corrigiu. — São eles ou Lyra. Não entendo como, mas estamos ligados àquela garota, e isso me faz feliz.
— Um homem à esquerda vai atirar — disse Hester.
Enquanto ela falava, ouviu-se o disparo, e a bala veio arrancar lascas da pedra a 30 centímetros de onde ela estava agachada. A bala ricocheteou para dentro da ravina, mas ela não moveu um só músculo.
— Bom, isso faz eu me sentir melhor — disse Lee, fazendo pontaria com cuidado.
Ele atirou. Havia apenas um pedacinho de azul para acertar, e ele acertou. Com um grito de surpresa o homem caiu para trás e morreu. E então começou o tiroteio. Dentro de um minuto, o estalido dos tiros e o zumbido das balas que ricocheteavam ecoavam ao longo do flanco da montanha e da ravina atrás de Lee. O cheiro de cordite e de queimado que vinha da pedra pulverizada que as balas atingiam era apenas uma variação do cheiro de queimado que vinha da floresta, até parecer que o mundo inteiro estava em chamas.
Logo o rochedo de Lee estava marcado de balas, ele sentia o impacto quando elas atingiam a pedra. Uma vez ele viu a pelagem das costas de Hester ondular com o deslocamento de ar provocado por uma bala, mas ela não se mexeu, e ele não parou de atirar.
O primeiro minuto foi feroz. E depois, na pausa que se seguiu, Lee constatou que estava ferido: havia sangue na pedra debaixo do seu rosto, e a mão direita — e o ferrolho do fuzil estavam vermelhos.
Hester virou-se para olhar.
— Nada de grave. Uma bala arranhou o seu couro cabeludo — declarou.
— Você contou quantos caíram, Hester?
— Não, estava ocupada demais me desviando das balas. Recarregue a arma enquanto pode, rapaz.
Ele rolou para baixo atrás do rochedo e moveu o ferrolho para a frente e para trás. O ferrolho estava quente, e o sangue do ferimento que o encharcava estava coagulando, emperrando o mecanismo. Lee cuspiu sobre ele e soltou-o. Então colocou-se novamente em posição e, antes mesmo que pudesse fazer pontaria, levou um tiro. Pareceu uma explosão no seu ombro esquerdo. Durante alguns segundos ele ficou atordoado, e quando recuperou o sangue-frio tinha o braço esquerdo dormente e inútil. Havia uma dor imensa esperando para dar o bote sobre ele, mas ela ainda não tinha reunido coragem para isso, e essa ideia deu-lhe forças para firmar o pensamento em voltar a atirar.
Apoiou o rifle no braço inútil, que um minuto antes era tão cheio de vida, e fez pontaria com estoica concentração: um tiro, dois, três, e cada um deles encontrou o seu alvo.
— Como vamos indo? — resmungou.
— Bom trabalho — ela cochichou de volta, bem perto do rosto dele. — Não pare. Em cima daquela pedra preta...
Ele olhou, mirou, atirou. A figura caiu.
— Droga, são homens como eu — desabafou.
— Não faz sentido. Mas atire assim mesmo — ela disse.
— Você acredita nele? Em Grumman?
— Claro. Mande chumbo, Lee.
Um tiro: outro homem caiu, e seu dimon apagou-se como uma vela. Houve então um longo silêncio. Lee remexeu no bolso e encontrou mais algumas balas. Enquanto recarregava, sentiu algo tão raro que seu coração quase parou, sentiu o rosto de Hester pressionado contra o seu, e ela estava chorando.
— Lee, a culpa foi minha — ela disse.
— Como assim?
— O escraelingue. Eu aconselhei você a trazer o anel dele. Sem ele, não estaríamos nesta situação.
— Você acha que alguma vez segui um conselho seu? Peguei o anel porque a bruxa...
Não terminou, porque outra bala o atingiu. Dessa vez na perna esquerda, e antes que ele pudesse sequer piscar, uma terceira bala raspou por sua cabeça, como um ferro quente encostado no couro cabeludo.
— Agora está por pouco, Hester — ele murmurou, tentando ficar firme.
— A bruxa, Lee! Você falou na bruxa! Lembra-se?
Pobre Hester, agora ela estava deitada, não agachada em postura tensa e vigilante, como estivera em toda a sua vida adulta. E os lindos olhos dourados estavam ficando embaçados.
— Ainda lindos — ele disse. — Ah, Hester, sim, a bruxa. Ela me deu...
— Isso mesmo. A flor...
— No bolso da camisa. Pegue, Hester, eu não consigo me mexer.
Foi um esforço grande, mas com seus dentes fortes ela conseguiu puxar para fora a pequena flor escarlate, e colocou-a junto à mão direita dele. Com enorme esforço ele fechou os dedos em volta da flor e disse:
— Serafina Pekkala! Socorro, por favor...
Um movimento lá embaixo: ele soltou a flor, fez pontaria, atirou. O movimento cessou. Hester estava enfraquecendo.
— Hester, não vá antes de mim — Lee sussurrou.
— Lee, eu não conseguiria ficar longe de você nem por um segundo — ela sussurrou em resposta.
— Acha que a bruxa virá?
— Claro que sim. Devíamos ter chamado ela antes.
— Devíamos ter feito um monte de coisas.
— Pode ser...
Outro estampido, e dessa vez a bala penetrou fundo, procurando o centro da vida dele. Ele pensou: ela não vai encontrar isso aqui dentro, o meu centro é Hester.
Avistou uma centelha azul lá embaixo e esforçou-se para virar o rifle naquela direção.
— É ele — Hester murmurou.
Lee achou difícil puxar o gatilho. Tudo era difícil. Teve que tentar três vezes, mas finalmente conseguiu, a farda azul rolou encosta abaixo. Outro longo silêncio. A dor que se avizinhava estava deixando de ter medo dele. Era como um bando de chacais, andando em círculos, farejando, aproximando-se, e ele sabia que não iam deixá-lo agora até que o tivessem devorado.
— Ainda falta um — Hester murmurou. — Está indo para o zepelim.
Lee viu-o mal e mal: um soldado da Guarda Imperial afastando-se da derrota da sua companhia.
— Não posso matar um homem pelas costas — Lee protestou.
— Mais vergonhoso é morrer com uma bala na arma.
Então ele apontou para o próprio zepelim, que ainda se esforçava para subir com um só motor, e disparou a sua última bala, que devia estar em brasa — ou talvez um galho em chamas da floresta lá embaixo tenha subido até a aeronave numa corrente ascendente, pois o gás subitamente transformou-se numa bola cor de laranja, e o zepelim ergueu-se um pouco e depois tombou e saiu rolando, devagar, suavemente, mas repleto de morte feroz. E o homem que fugia, mais os seis ou sete que eram o restante da Guarda e que não tinham ousado chegar mais perto do homem que defendia a ravina, foram envolvidos pelo fogo que caía sobre eles.
Lee viu a bola de fogo e escutou, acima do rugido nos ouvidos, a voz de Hester:
— Já foram todos, Lee.
Ele disse, ou pensou:
— Esses coitados não precisavam chegar a isso, nem nós.
— Nós os rechaçamos. Nós conseguimos. Estamos ajudando Lyra.
Ela então apertou seu corpo orgulhoso e alquebrado contra o rosto dele, o mais próximo que conseguiu, e os dois morreram.

3 comentários:

  1. Luamara feiticeira dimon dragão12 de março de 2017 14:47

    Me sinto relendo um Resgate Impossível.
    Arrasada.

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  2. Eu achei q a Lira ia ver ele de novo. T.T

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Boa leitura :)