4 de fevereiro de 2017

14. As luzes de Bolvangar

O fato de os gípcios não terem notícias da Sra. Coulter preocupava Farder Coram e John Faa muito mais do que deixavam Lyra perceber; mas não imaginavam que ela também estivesse preocupada. Lyra tinha medo da Sra. Coulter e pensava nela com frequência. E embora Lorde Asriel agora fosse “papai”, a Sra. Coulter nunca foi “mamãe”. O motivo disso era o dimon da Sra. Coulter, o macaco dourado, que tinha despertado uma profunda aversão em Pantalaimon e que, como Lyra suspeitava, havia se intrometido nos segredos dela, particularmente no segredo do aletiômetro.
E certamente estariam atrás dela; era tolice pensar o contrário. A mosca-espiã provava isso.
Mas, quando um inimigo realmente atacou, não foi a Sra. Coulter. Os gípcios tinham planejado parar para os cachorros descansarem, consertar dois trenós e preparar todas as armas para o ataque a Bolvangar. John Faa esperava que Lee Scoresby conseguisse encontrar algum gás de solo para encher o balão menor (pois ele possuía dois, aparentemente) e subir para espionar o terreno. Mas o aeróstata entendia das condições meteorológicas como um marinheiro e avisou que ia haver neblina; e assim que eles pararam, a névoa espessa desceu.
Lee Scoresby sabia que nada veria do céu, então se limitou a verificar o equipamento, embora estivesse tudo meticulosamente em ordem. Então, sem qualquer aviso, uma rajada de flechas caiu da escuridão.
Três gípcios caíram na mesma hora e morreram tão silenciosamente que ninguém ouviu nem um suspiro; só quando eles caíram por cima das rédeas ou ficaram imóveis inesperadamente foi que os homens mais próximos perceberam o que estava acontecendo, e então já era tarde demais, porque mais flechas caíam sobre eles. Alguns homens olharam para cima, atordoados com o ruído irregular e rápido de batidas que vinha da fila de trenós, produzido pelas flechas acertando madeira ou lona congelada.
O primeiro a reagir foi John Faa, que, no centro da fila, gritava ordens. Mãos frias e pernas rígidas se movimentaram para obedecer enquanto mais flechas despencavam como chuva — uma chuva mortal.
Lyra estava em terreno aberto, e as flechas passavam por cima da sua cabeça. Pantalaimon ouviu antes que ela, virou um leopardo e a derrubou, tornando-a um alvo menor. Limpando a neve dos olhos, ela rolou para tentar ver o que estava acontecendo, pois a semiescuridão parecia transbordar de barulho e confusão. Ela escutou um rugido poderoso e os ruídos da armadura de Iorek Byrnison quando ele saltou por cima dos trenós e mergulhou na neblina, e isto foi seguido por berros, rosnados, ruídos de coisas rasgadas e esmagadas, gritos de terror e rugidos de fúria animal, enquanto o urso os dizimava.
Mas quem eram eles? Lyra ainda não tinha avistado o inimigo. Os gípcios corriam para defender os trenós, mas isso (como até Lyra podia ver) fazia deles alvos mais fáceis; e era difícil disparar suas espingardas usando luvas grossas; ela ouvira apenas quatro ou cinco tiros contra uma tempestade incessante de flechas. E a cada minuto tombavam mais homens.
Ela pensou, angustiada: ah, John Faa, você não previu isso, e eu não o ajudei!
Mas ela não teve mais que um segundo para pensar isso, pois Pantalaimon soltou um rosnado poderoso e alguma coisa — outro dimon — o derrubou, tirando o fôlego de Lyra; e então mãos a agarraram, a levantaram, abafaram seus gritos com luvas fedorentas, a jogaram pelo ar de um lado para o outro e depois a deixaram cair com força na neve, de modo que ela estava ao mesmo tempo tonta, sem fôlego e machucada. Seus braços foram puxados para trás até seus ombros estalarem e alguém amarrou seus pulsos, depois colocaram um capuz cobrindo toda a sua cabeça para abafar seus gritos, pois ela gritou muito, e com força:
— Iorek! Iorek Byrnison! Socorro!
Mas será que ele podia ouvir? Ela não sabia; foi jogada de um lado para outro e finalmente caiu sobre uma superfície dura que então começou a se sacudir como um trenó. Os sons que chegavam até ela eram ferozes e confusos. Lyra julgou ter ouvido o rugido de Iorek Byrnison, mas muito longe; ela estava sendo levada aos solavancos por um terreno acidentado, os braços presos, a boca tapada, soluçando de raiva e medo. E vozes estranhas falavam ao seu redor.
— Pantalaimon! — ela sussurrou.
— Estou aqui, psiu, vou ajudar você a respirar. Fique parada...
As patinhas de rato de Pantalaimon puxaram o capuz até que ela ficou com a boca livre e pôde respirar o ar gelado.
— Quem são eles? — ela sussurrou.
— Parecem tártaros. Acho que feriram John Faa.
— Não...
— Vi quando ele caiu. Mas ele devia estar preparado para este tipo de ataque. Nós sabemos disso.
— Mas devíamos ter ajudado! Devíamos ter consultado o aletiômetro!
— Psiu. Finja que está desmaiada.
Ouviram o estalar de um chicote e o uivo de cães de corrida. Pelo modo como ela estava sendo jogada de um lado para outro, Lyra sabia que estavam indo muito depressa; e mesmo se esforçando para ouvir os sons do combate, tudo que conseguiu distinguir foi uma desesperada saraivada de disparos abafados pela distância.
— Vão nos levar para os Gobblers — ela cochichou.
Ambos pensaram na palavra intercisão. Um medo terrível tomou conta de Lyra, e Pantalaimon se chegou mais para perto dela.
— Eu vou lutar — ele disse.
— Eu também. Vou matar todos eles.
— Iorek também vai matar todos eles quando descobrir. Vai esmagar um por um.
— Será que estamos muito longe de Bolvangar?
Ele não sabia, mas ambos calculavam que fosse menos de um dia de viagem.
Depois de viajarem durante tanto tempo que Lyra chegou a ficar cheia de cãibras no corpo, a velocidade diminuiu um pouco, e alguém puxou com brutalidade o capuz.
Ela deparou com um rosto asiático largo sob um capuz de carcaju iluminado por uma lamparina trêmula. Ele tinha olhos negros que mostraram uma centelha de satisfação, especialmente quando Pantalaimon deslizou para fora do casaco de Lyra e mostrou os dentes brancos de arminho com um rosnado. O dimon do homem, um carcaju grande e pesado, rosnou de volta, mas Pantalaimon não se intimidou.
O homem colocou Lyra sentada, apoiando-a na lateral do trenó. Ela caiu de costas, pois tinha as mãos ainda amarradas por trás, então ele amarrou os pés dela e soltou as mãos.
Através da neve que caía e da neblina espessa, ela percebeu que o homem era muito forte, assim como o que dirigia o trenó; ambos se sentiam muito à vontade naquela terra, ao contrário dos gípcios.
O homem falou, mas naturalmente ela não entendeu. Ele tentou outra língua, com o mesmo resultado. Então tentou falar inglês.
— Seu nome?
Pantalaimon se arrepiou todo, e ela entendeu de imediato o que ele queria dizer. Então aquela gente não sabia quem ela era! Ela não tinha sido sequestrada por causa da sua ligação com a Sra. Coulter; então talvez não estivessem trabalhando para os Gobblers.
— Lizzie Brooks — respondeu.
— Lissie Broogs — ele repetiu. — Nós levamos você para lugar bom. Gentes boas.
— Quem são vocês?
— Samoiedes. Caçadores.
— Para onde vai me levar?
— Lugar bom. Gentes boas. Você tem panserbjorne?
— Para me proteger.
— Não adianta! Ra, ra, urso não adianta! Pegamos você assim mesmo!
Ele riu com vontade; Lyra se controlou e nada respondeu.
— Quem é aquela gente? — o homem perguntou em seguida, apontando para trás.
— Mercadores.
— Mercadores... De quê?
— Peles, bebida, folhas de fumar.
— Vendem folhas de fumar, compram peles?
— É.
Ele disse alguma coisa ao companheiro, que deu uma resposta curta. Durante todo o tempo, o trenó ia em alta velocidade, e Lyra se ajeitou para tentar ver para onde iam; mas estava nevando forte, o céu estava escuro, e finalmente ela sentiu frio demais e se deitou. Ela e Pantalaimon sentiam os pensamentos um do outro, e tentaram ficar calmos, mas a ideia de John Faa morto... E o que teria acontecido a Farder Coram? Iorek conseguiria matar os outros samoiedes? E alguém conseguiria descobrir o paradeiro dela?
Pela primeira vez, ela começou a sentir uma certa pena de si mesma.
Depois de muito tempo, o homem a sacudiu pelo ombro e entregou a ela um pedaço de carne-seca de rena para mascar. Era fedorenta e dura, mas ela estava com fome e aquilo era comida. Depois de comer tudo, ela se sentiu um pouco melhor. Enfiou a mão lentamente dentro do casaco até ter certeza de que o aletiômetro ainda estava ali, e então retirou cuidadosamente a lata com a mosca-espiã e a enfiou dentro da bota de peles. Pantalaimon entrou na bota em forma de um rato e empurrou a lata bem para o fundo, prendendo-a sob a perneira de couro de rena.
Depois disso, ela fechou os olhos. Estava exausta de medo, e logo caiu num sono inquieto.
Acordou quando o movimento do trenó mudou, ficando mais suave de repente. Quando ela abriu os olhos, viu luzes passando acima, tão brilhantes que ela teve que puxar mais o capuz sobre a cabeça antes de olhar outra vez. Estava se sentindo muito mal, com frio e cãibras, mas conseguiu se ajeitar o suficiente para ver que o trenó passava entre duas filas de postes altos, cada um com uma brilhante lâmpada anbárica. Enquanto ela observava as redondezas, o trenó passou por um portão de metal no final da avenida de luzes, entrando num grande espaço aberto que parecia uma praça deserta ou uma arena para algum tipo de esporte.
Era perfeitamente lisa, regular e branca, com cerca de 100 metros de extensão, rodeada por uma cerca alta de metal.
O trenó parou no extremo oposto dessa arena. Estavam diante de uma construção baixa ou uma série de construções baixas sob uma grossa camada de neve. Era difícil dizer, pois ela teve a impressão de que havia túneis ligando as diversas partes das construções — túneis cobertos de neve. De um lado, um grosso mastro de metal tinha uma aparência familiar, embora ela não conseguisse se lembrar do que era.
Antes que ela pudesse ver mais coisas, o homem no trenó cortou a corda que a prendia e a jogou na neve com brutalidade, enquanto o que dirigia gritava com os cães para que ficassem parados. Uma porta se abriu no prédio a poucos metros de distância e uma luz anbárica apareceu, movendo-se para procurá-los, como um holofote.
O raptor de Lyra a empurrou para a frente sem soltá-la, como se estivesse exibindo um troféu, e disse alguma coisa. A figura, que usava um casaco acolchoado feito de seda carbonífera, respondeu na mesma língua, e Lyra viu seu rosto. Não era um samoiede, nem um tártaro: parecia um Catedrático da Jordan. Ele olhou para ela e particularmente para Pantalaimon.
O samoiede tornou a falar, e o homem de Bolvangar perguntou a Lyra:
— Você fala inglês?
— Sim — ela respondeu.
— O seu dimon sempre tem esta forma?
Que pergunta mais inesperada! Lyra não soube o que responder. Mas Pantalaimon respondeu por si mesmo, virando um falcão e atacando o dimon do homem, uma grande marmota que tentou atingir Pantalaimon com um movimento rápido e cuspiu enquanto ele voava em volta dela.
— Entendo — disse o homem em tom satisfeito, enquanto Pantalaimon voltava para o ombro de Lyra.
Os samoiedes pareciam esperar alguma coisa; o homem de Bolvangar assentiu e tirou uma luva para enfiar a mão no bolso, de onde tirou um saco fechado por um cordão. Colocou uma dúzia de pesadas moedas na mão do caçador.
Os dois homens contaram o dinheiro antes de guardá-lo com cuidado, cada um ficando com a metade. Sem olhar para trás, eles entraram no trenó, e o que dirigia estalou o chicote e gritou para os cães; o trenó atravessou a praça ampla e entrou na avenida de luzes, aumentando a velocidade até desaparecer na escuridão.
O homem tornou a abrir a porta.
— Entre depressa — disse. — Lá dentro está quentinho e confortável. Não fique aí fora no frio. Como é o seu nome?
A voz era de um inglês, sem qualquer sotaque que Lyra pudesse identificar. Ele parecia o tipo de pessoa que ela havia conhecido na casa da Sra. Coulter: culto, educado e importante.
— Lizzie Brooks — ela disse.
— Entre, Lizzie. Vamos cuidar de você, não se preocupe.
Ele estava sentindo mais frio do que ela, mesmo estando ao ar livre por menos tempo, e estava impaciente para entrar. Ela resolveu bancar a boba, relutando, arrastando os pés ao entrar na casa.
Havia duas portas e um grande espaço entre elas, de modo que o ar quente não escapasse. Depois que eles entraram pela segunda porta Lyra sentiu um calor insuportável e teve que abrir o casaco e jogar o capuz para trás.
Estavam num espaço de uns 3 metros quadrados com corredores à direita e à esquerda; na frente dela, havia uma espécie de balcão de recepção como o de um hospital. Tudo estava brilhantemente iluminado, com superfícies brancas e aço inoxidável. Havia no ar o cheiro de comida — toicinho e café — e sob ele um leve cheiro de hospital; das paredes vinha um murmúrio baixo, quase baixo demais para ser ouvido — o tipo de ruído com que a pessoa tem que se acostumar para não enlouquecer.
Pantalaimon, agora um pintassilgo, cochichou no ouvido dela:
— Seja lerda e burra. Muito burra.
Alguns adultos a observavam: o homem que a trouxera, outro usando um jaleco branco, uma mulher de uniforme de enfermeira.
— Inglesa — dizia o primeiro homem. — Mercadores, aparentemente.
— Os caçadores de sempre? A história de sempre?
— A mesma tribo, pelo que eu pude perceber. Enfermeira Clara, podia levar a pequena... hum... e cuidar dela?
— Claro, Doutor. Venha comigo, querida — disse a enfermeira.
Lyra a acompanhou obedientemente.
Seguiram por um corredor curto com portas à direita e uma cantina à esquerda, de onde vinham o ruído de talheres e vozes e cheiro de comida. Lyra calculou que a enfermeira tinha mais ou menos a idade da Sra. Coulter e um ar de neutralidade, eficiência e sensatez; ela teria capacidade de dar pontos num ferimento ou trocar um curativo, mas nunca de contar uma história. Lyra teve um momento de angústia quando percebeu que o dimon da enfermeira era um cachorrinho branco, e não conseguiu entender por que ficou angustiada com isso.
— Qual é o seu nome, querida? — perguntou a enfermeira, abrindo uma porta pesada.
— Lizzie.
— Só Lizzie?
— Lizzie Brooks.
— E quantos anos você tem?
— Onze.
Lyra tinha ouvido dizer que ela era pequena para sua idade; isso não tinha afetado a ideia que tinha da sua própria importância, mas ela percebeu que agora podia usar isso para fazer de Lizzie uma pessoa tímida, nervosa e insignificante.
Estava esperando que lhe perguntassem de onde vinha e como tinha chegado, e preparava suas respostas; mas não era só imaginação que faltava à enfermeira, mas também curiosidade; pelo interesse que a Enfermeira Clara parecia demonstrar, Bolvangar podia estar situada nos subúrbios de Londres, com crianças aparecendo a todo momento. O dimon da enfermeira trotava junto a seus pés com o mesmo jeito eficiente e neutro.
No quarto onde entraram, havia um sofá, uma mesa, duas cadeiras e um arquivo, um armário de vidro com remédios e curativos, e uma pia. Assim que entraram a enfermeira tirou o casacão de Lyra e o deixou cair no chão.
— Tire o resto da roupa, querida — disse. — Vamos dar uma olhada para ver se você está bem, sem resfriado ou queimaduras de frio, e depois vamos arranjar roupas limpas. Vamos lhe dar um banho de chuveiro, também — acrescentou, pois Lyra não tomava banho nem mudava de roupa havia alguns dias, e no ambiente aquecido este fato ficava cada vez mais evidente.
Pantalaimon quis reclamar, mas Lyra fez um gesto para que ele ficasse calado. Ele se acomodou no sofá enquanto Lyra tirava as roupas, peça por peça, sentindo raiva e vergonha, mas ainda com suficiente presença de espírito para se fingir de boba e obediente.
— E a sua bolsa de dinheiro também, Lizzie — disse a enfermeira.
Ela própria desamarrou com seus dedos fortes o cinto com a sacola e foi colocá-lo na pilha de roupas de Lyra, mas parou ao palpar o aletiômetro.
— Que é isso? — perguntou, desabotoando a bolsa de lona.
— É um brinquedo — disse Lyra. — É meu.
— Está bem, nós não vamos tirar o seu brinquedo, minha querida — disse a Enfermeira Clara, abrindo o embrulho de veludo negro. — Que bonitinho, parece uma bússola! Agora, para o chuveiro — continuou, largando o aletiômetro e abrindo uma cortina de seda carbonífera num canto do aposento.
Com relutância, Lyra entrou debaixo da água morna e se ensaboou, enquanto Pantalaimon se empoleirava na vara da cortina. Ambos sabiam que ele não podia se mostrar muito esperto, pois os dimons das pessoas lerdas eram lerdos também. Depois que ela se enxugou, a enfermeira verificou sua temperatura e examinou seus olhos, ouvidos e garganta, depois mediu sua estatura e a pesou numa balança, antes de fazer anotações. Depois deu a Lyra pijama e um roupão. Eram roupas limpas e de boa qualidade, como o casaco de Tony Makarios, mas também nelas havia um ar de roupa de segunda mão. Lyra sentiu medo.
— Isso não é meu — disse.
— Não, minha querida. As suas roupas precisam de uma boa lavagem.
— Vou ter as minhas roupas de volta?
— Imagino que sim. Claro que sim.
— Que lugar é este?
— O nome é Estação Experimental.
Aquilo não era uma resposta. Como Lyra, ela teria dito isso e pedido mais informações, mas sabia que Lizzie Brooks não agiria assim. Então, concordou com a cabeça e ficou quieta.
Depois de vestida, falou, em tom de queixa:
— Eu queria o meu brinquedo.
— Pode pegar, querida — disse a enfermeira. — Mas será que não prefere um belo ursinho? Ou uma linda boneca?
Ela abriu uma gaveta cheia de brinquedos que pareciam coisas mortas. Lyra se obrigou a levantar e fingir estar pensando antes de escolher uma boneca de trapos de olhos grandes e sem expressão. Nunca tinha tido uma boneca, mas sabia o que fazer: abraçou distraidamente o brinquedo.
— E a minha bolsa de dinheiro? Gosto de guardar o meu brinquedo lá dentro.
— Pode pegar, minha querida — disse a Enfermeira Clara, que estava preenchendo um formulário cor-de-rosa.
Lyra levantou a camisa do pijama e prendeu o cinto com a sacola em volta da cintura.
— E o meu casaco, e as minhas botas? — ela insistiu. — E as minhas luvas e as minhas coisas?
— Vamos mandar limpar para você — disse a enfermeira automaticamente.
Então um telefone tocou, e enquanto a enfermeira atendia, Lyra se abaixou depressa para pegar a lata onde estava a mosca-espiã e a guardou na sacola com o aletiômetro.
— Vamos, Lizzie — chamou a enfermeira, desligando o telefone. — Vamos arranjar alguma coisa para você comer. Imagino que esteja com fome.
Ela seguiu a Enfermeira Clara até a cantina, onde havia uma dúzia de mesas brancas cobertas de migalhas e de círculos molhados e pegajosos feitos por copos sujos. Pratos e talheres sujos estavam empilhados num carrinho de aço. Não havia janelas, e para dar ilusão de luz e espaço uma das paredes era coberta por um gigantesco fotograma mostrando uma praia tropical, com um céu azul brilhante, areias brancas e coqueiros.
O homem que levara Lyra para dentro da casa estava pegando uma bandeja.
— Pode comer à vontade.
Não havia utilidade em passar fome, e Lyra então comeu com satisfação o picadinho com purê de batatas. Havia pêssegos em calda e, além disso, sorvete. Enquanto ela comia, o homem e a enfermeira conversavam em voz baixa em uma outra mesa; quando ela terminou, a enfermeira lhe ofereceu um copo de leite quente e levou a bandeja.
O homem veio se sentar em frente a ela. O dimon dele, a marmota, não era meio vazio e alheio como o dimon da enfermeira. Ele se acomodou polidamente no ombro do homem e ficou prestando atenção.
— Bem, Lizzie, você comeu o bastante?
— Comi, sim, obrigada.
— Quero que me diga de onde veio. Sabe me responder?
— De Londres — ela disse.
— O que está fazendo tão longe?
— Com meu pai — ela resmungou. Mantinha os olhos baixos, evitando o olhar da marmota e tentando parecer à beira das lágrimas.
— Com o seu pai? Entendo. E o que seu pai veio fazer nesta parte do mundo?
— Comércio. Viemos com uma carga de folhas de fumar da Nova Dinamarca e estávamos comprando peles.
— E o seu pai estava sozinho?
— Não. Com meus tios e tudo, e outros homens — ela disse, sem saber o que o caçador samoiede tinha revelado.
— Por que foi que ele trouxe você numa viagem como essa, Lizzie?
— Porque há dois anos ele trouxe o meu irmão e disse que depois ia me trazer e nuncatrazia, e eu fiquei pedindo muito e ele trouxe.
— E quantos anos você tem?
— Onze.
— Bom, bom. Lizzie, você é uma garota de sorte. Aqueles caçadores que encontraram você vieram para o melhor lugar possível.
— Eles não me encontraram. Foi um ataque. Eram muitos, eles tinham flechas...
— Acho que não foi assim. Acho que você deve ter se afastado do seu pai e se perdeu. Aqueles caçadores encontraram você perdida e trouxeram para cá. Foi isso que aconteceu, Lizzie.
— Eu vi o ataque — ela insistiu. — Estavam jogando flechas... Eu quero o meu pai — disse, levantando a voz e sentindo que começava a chorar.
— Bem, você está em segurança aqui até ele chegar — disse o médico.
— Mas eu vi eles atirando flechas!
— Ah, você pensa que viu. Isso acontece muitas vezes no frio intenso, Lizzie. Você adormece, tem pesadelos e não consegue saber o que é verdade e o que não é. Não se preocupe, não houve ataque. O seu pai está seguro e deve estar procurando você, e logo chegará aqui, pois é o único lugar em muitas centenas de quilômetros. Que surpresa boa ele vai ter quando encontrar você em segurança! Agora a Enfermeira Clara vai levar você para o dormitório, onde vai encontrar outras crianças, meninas e meninos que se perderam na neve como você. Pode ir. Amanhã cedo vamos ter outra conversa.
Lyra se levantou, agarrada à boneca, e Pantalaimon saltou para o ombro dela enquanto a enfermeira abria a porta.
Mais corredores. Lyra a essa altura estava muito cansada, com tanto sono que não parava de bocejar e mal conseguia levantar os pés nos chinelos de lã que lhe deram. Pantalaimon estava exausto, e teve que se transformar em um rato e ficar dentro do bolso do roupão dela. Lyra teve um vislumbre de uma fila de camas, rostos de crianças, um travesseiro — então adormeceu.


Alguém a sacudia. A primeira coisa que ela fez foi tatear na cintura para ter certeza de que as duas latas ainda estavam lá em segurança; então tentou abrir os olhos, mas isso era extremamente difícil, pois ela sentia um sono como nunca havia sentido.
— Acorde! Acorde!
Eram cochichos de mais de uma voz. Com um esforço enorme, como se estivesse empurrando uma rocha enorme ladeira acima, Lyra se forçou a acordar.
Na luz fraca de uma lâmpada anbárica de baixa potência que havia acima da porta, ela viu três meninas ao seu redor. Não era fácil enxergar, pois seus olhos custavam a entrar em foco, mas elas pareciam ter a idade dela, e estavam falando inglês.
— Ela acordou.
— Deram pílulas de dormir para ela. Deve ter sido...
— Como é o seu nome?
— Lizzie — ela balbuciou.
— Vai chegar um novo carregamento de crianças? — uma das meninas quis saber.
— Não sei. Só eu.
— Então onde pegaram você?
Lyra lutou para se sentar. Não se lembrava de ter tomado remédio para dormir, mas podia muito bem ter sido no leite quente. Sentia a cabeça cheia e uma dorzinha latejando atrás dos olhos.
— Que lugar é este?
— É no meio de nada. Eles não contam.
— Geralmente trazem mais de um de cada vez...
— O que eles fazem? — Lyra conseguiu perguntar, organizando os pensamentos enquanto Pantalaimon despertava ao seu lado.
— Não sabemos — disse a menina que mais falava. Era alta e ruiva, com movimentos rápidos e nervosos, e um forte sotaque londrino. — Eles medem a gente, fazem testes e...
— Eles medem o Pó — disse outra garota, simpática, gorducha e morena.
— Você não sabe — disse a primeira.
— É isso, sim — disse a terceira, uma menina de ar tímido que ninava seu dimon-coelho. — Eu ouvi eles falando.
— Eles levam uma por uma, é só o que a gente sabe. Ninguém volta mais — disse a ruiva.
— Aquele garoto, ele acha...
— Não conte isso a ela! — fez a ruiva. — Ainda não.
— Tem garotos aqui também? — Lyra perguntou.
— Tem, sim. Muitos. Uns trinta, eu acho.
— Tem mais. Uns quarenta — corrigiu a gordinha.
— Mas eles não param de levar a gente — disse a ruiva. — Geralmente começam trazendo uma turma, aí ficam sendo muitos, e um por um vão desaparecendo.
— São os Gobblers — disse a gorducha. — Você conhece os Gobblers. Todos nós tínhamos medo deles até nos pegarem...
Lyra ia despertando aos poucos. Os dimons das outras garotas, com exceção do coelho, estavam por perto, escutando junto à porta, e ninguém falava mais alto que um cochicho. Lyra perguntou o nome delas; a ruiva era Annie, a morena gorducha era Bella, a magra era Martha.
Não sabiam o nome dos meninos, pois os dois sexos eram mantidos separados. Não eram maltratados.
— Aqui é legal — disse Bella. — Não tem muita coisa para fazer, a não ser quando eles nos fazem testes e nos mandam fazer exercícios e então nos medem, medem a nossa temperatura. É só muito chato.
— A não ser quando a Sra. Coulter vem — disse Annie.
Lyra teve que se controlar para não soltar uma exclamação, e Pantalaimon sacudiu as asas com tanta força que as outras garotas perceberam.
— Ele está nervoso — disse Lyra, acalmando-o. — Devem ter dado remédio para a gente dormir, porque estamos tontos. Quem é a Sra. Coulter?
— É a mulher que pegou todos nós, ou quase todos — disse Martha. — As outras crianças falam dela. Quando ela vem, a gente sabe que alguém vai desaparecer.
— Ela gosta de assistir quando levam a criança, gosta de ver o que eles fazem com a gente. Esse garoto, o Simon, ele acha que eles matam a gente e a Sra. Coulter fica olhando.
— Eles nos matam? — Lyra repetiu, estremecendo.
— Deve ser. Porque ninguém volta.
— Estão sempre mexendo com os dimons, também — disse Bella. — Pesando, medindo e tudo...
— Eles tocam nos dimons de vocês?
— Não! Que horror! Eles botam uma balança, e o nosso dimon tem que subir em cima dela e mudar de forma, e eles tomam notas e tiram retratos. E colocam a gente num armário e medem o Pó, o tempo todo, nunca param de medir o Pó.
— Que Pó? — Lyra perguntou.
— A gente não sabe — disse Annie. — É um negócio qualquer que vem do espaço. Não é pó de verdade. Se a gente não tem Pó nenhum, então está tudo bem. Mas todo mundo tem Pó no final.
— Sabe o que eu ouvi o Simon dizer? — falou Bella. — Ele disse que os tártaros fazem um buraco no crânio para o Pó entrar.
— É, ele com certeza sabe de tudo — disse Annie em tom debochado. — Acho que vou perguntar à Sra. Coulter quando ela vier.
— Você não tem coragem! — disse Martha com admiração.
— Tenho, sim.
— Quando é que ela vem? — Lyra perguntou.
— Depois de amanhã — disse Annie.
Uma onda gelada de terror dominou Lyra, e Pantalaimon se aproximou mais dela. Ela só tinha um único dia para encontrar Roger e descobrir tudo que pudesse sobre aquele lugar, e então fugir, ou ser resgatada; e se todos os gípcios tivessem sido mortos, quem ia ajudar as crianças a sobreviver naquela imensidão gelada?
As outras meninas continuaram conversando, mas Lyra e Pantalaimon se cobriram e tentaram se aquecer, sabendo que, por muitos quilômetros em volta da sua cama, havia apenas o medo.

5 comentários:

  1. :O Por algum motivo, sempre esperei Lyra ser raptada para só saber como é as coisas :S mas agora... #medo

    ResponderExcluir
  2. Luamara feiticeira dimon dragão11 de março de 2017 05:27

    oooooooooooookeeeeeeeeeeeey.até agora tudo bem,todo mundo vivo.
    ATÉ AGORA.

    ResponderExcluir
  3. Quando eu li a parte dos muros com mais de 100 metros de extençao falei pronto deu m**** apesar deu meio que esperar
    #amando

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)