17 de fevereiro de 2017

13. Tialys e Salmakia

Noite sombria, sombria noite sobre este deserto permite que fulgurante tua lua se levante enquanto meus olhos eu descanse.
Willian Blake

Com a arma pesada na mão, Will fez um movimento rápido e circular para o lado, e derrubou o macaco dourado de onde estava empoleirado, deixando-o de tal maneira atordoado que a Sra. Coulter gemeu alto e a pata do macaco relaxou o suficiente para que a minúscula mulher conseguisse se soltar. Um instante depois, ela havia saltado para o alto das rochas e o homem se afastado depressa da Sra. Coulter, ambos se movendo com a rapidez de gafanhotos. As três crianças não tiveram tempo para se espantar. O homem estava preocupado: examinou o ombro e o braço de sua companheira delicadamente e a abraçou antes de gritar para Will:
— Você! Garoto! — chamou, e embora sua voz fosse pequenina em volume, era grossa como a de um homem adulto. — Está com a faca?
— É claro que estou — respondeu Will. Se não sabiam que estava quebrada, não iria contar a eles.
— Você e a menina terão que nos seguir. Quem é a outra criança?
— É Ama, da aldeia — respondeu Will.
— Diga a ela para voltar para lá. Agora vamos andando, antes que os suíços cheguem.
Will não hesitou. Independentemente de quais fossem as intenções daqueles dois, ele e Lyra ainda podiam fugir pela janela que ele tenha aberto atrás do arbusto mais abaixo no caminho.
De modo que a ajudou a se levantar e observou curiosamente enquanto as duas figuras pequeninas montavam em — quê? Passarinho, não, libélulas, quase tão compridas quanto o antebraço dele, que tenham estado esperando escondidas nas sombras. Eles voaram rapidamente para a entrada da caverna, onde a Sra. Coulter estava caída. Ela estava meio atordoada de dor e sonolenta por causa da ferroada que tinha levado do cavaleiro, mas estendeu a mão para cima quando ia passando e gritou:
— Lyra! Lyra, minha filha, minha querida! Lyra, não vá! Não vá!
Lyra olhou para ela, angustiada, mas então passou por cima do corpo de sua mãe e soltou a mão que segurava sem muita firmeza se tornozelo. A mulher agora estava soluçando, Will viu as lágrimas brilhando em suas faces. Agachando-se junto da entrada da caverna, as três crianças esperaram até que houvesse uma breve pausa no tiroteio e então segurar as libélulas enquanto voavam rápidas como setas descendo a trilha, a luz tinha mudado: além do clarão frio dos holofotes anbáricos dos zepelins, havia o alaranjado de chamas ardendo.
Will olhou para trás uma vez. Sob a luz intensa, o rosto da Sra. Coulter era uma máscara trágica de paixão e seu dimon se agarrava tristemente nela, enquanto ela se ajoelhava e estendia os braços, chorando:
— Lyra! Lyra, meu amor! Tesouro do meu coração, minha garotinha, só minha! Ah, Lyra, não vá, não me deixe! Minha filha querida você está partindo meu coração.
Um imenso e furioso soluço sacudiu Lyra, pois afinal a Sra. Coulter era a única mãe que jamais teria e Will viu uma cascata de lágrimas escorrer pelas faces da menina. Mas tinha que ser impiedoso. Puxou a mão de Lyra e, quando o cavaleiro montado na libélula passou voando ligeiro perto de sua cabeça, insistindo para que se apressassem, ele a conduziu correndo agachados, trilha abaixo para longe da caverna. Na mão esquerda de Will, sangrando novamente por causa do golpe que tinha acertado no macaco, estava a pistola da Sra. Coulter.
— Sigam para o alto do penhasco — ordenou o cavaleiro — e entreguem-se aos africanos. Eles são sua única esperança.
Tomando cuidado com aquelas esporas afiadas, Will não disse nada, embora não tivesse a menor intenção de obedecer. Só iria para um único lugar, e este era a janela atrás do arbusto, de modo que manteve a cabeça baixa e correu depressa, e Lyra e Ama correram atrás dele.
— Alto!
Havia um homem, três homens, bloqueando o caminho adiante, uniformizados, homens brancos, armados com bestas e com dimons com forma de mastins, rosnando — a Guarda Suíça.
— Iorek! — gritou Will imediatamente. — Iorek Byrnison!
Podia ouvir o urso se aproximando ruidosamente e rosnando não muito longe, e ouvir os gritos e lamentos dos soldados desafortunados que cruzaram seu caminho. Mas uma outra pessoa surgiu de lugar nenhum para ajudá-los: Balthamos, num gesto de desespero, arremessou-se entre as crianças e os soldados. Os homens caíram para trás, perplexos, enquanto aquela sanção surgia de repente, tremeluzindo, diante deles.
Mas eram combatentes bem treinados e, um instante depois, seus dimons saltaram sobre o anjo, os dentes ferozes brilhando em lampejos brancos na escuridão — e Balthamos recuou: ele gritou de medo e vergonha, e se encolheu para trás. Então saltou para o alto, batendo as asas com força. Will ficou olhando consternado, enquanto o vulto de seu guia e amigo voava nas alturas e desaparecia de vista em meio à copa das árvores. Lyra estava acompanhando tudo aquilo com o olhar ainda atordoado. Não havia levado mais que dois ou três segundos, mas foi o suficiente para que os suíços se reagrupassem e agora o líder deles estava levantando a besta e Will não teve alternativa: levantou a pistola, cerrou a mão direita sobre a coronha e apertou o gatilho, e a explosão sacudiu seus ossos, mas a bala acertou o coração do homem.
O soldado caiu para trás como se tivesse levado um coice de cavalo. Simultaneamente, os dois pequeninos espiões se lançaram sobre os outros dois, saltando das libélulas em cima de suas vítimas, antes que Will pudesse piscar. A mulher encontrou um pescoço, o homem um pulso e cada um deu um golpe rápido, para trás, com o calcanhar. Houve um arquejar de sufocamento angustiado e os dois suíços morreram, seus dimions desaparecendo no meio de um uivo.
Will saltou por cima dos corpos e Lyra foi com ele, correndo tão rápido quanto podia, com Pantalaimon, sob a forma de gato selvagem, seguindo em seus calcanhares. “Onde está Ama?”, pensou Will e, naquele mesmo momento, a viu se desviando, escapulindo e correndo por um outro caminho. “Agora ela vai estar em segurança”, pensou, e um segundo depois viu o clarão da janela lá atrás dos arbustos. Ele agarrou o braço de Lyra e a puxou naquela direção. O rosto deles estava arranhado, as roupas, rasgadas, os tornozelos se torciam tropeçando em raízes e pedras, mas encontraram a janela e mergulharam através dela para o outro mundo, sobre as rochas brancas como osso sob o clarão fulgurante da lua, onde somente o ranger dos insetos quebrava o imenso silêncio.
E a primeira coisa que Will fez foi abraçar o estômago e vomitar, sacudido pelas ânsias de náusea, dominado por um horror mortal. Agora já eram dois os homens que ele havia matado, sem falar no rapaz na Torre dos Anjos... Will não queria isso. Seu corpo se revoltava contra o que seu instinto o levara a fazer, e o resultado era aquela agonizante crise de náusea, amarga, seca, e vômitos que o deixavam de joelhos até que seu estômago e seu coração estivessem vazios.
Lyra ficou assistindo sem poder fazer nada, segurando Pan no colo, balançando-o apertado contra o peito.
Finalmente Will se recuperou um pouco e, imediatamente, viu que não estavam sozinhos naquele mundo, porque os pequeninos espiões também estavam ali, com seus fardos arrumados no chão ali por perto. As libélulas estavam voando baixo sobre as rochas, caçando mariposas. O homem fazia uma massagem no ombro da mulher e ambos olhavam severamente para as crianças. Os olhos deles eram tão brilhantes e as feições tão distintas que não havia dúvida quanto a seus sentimentos, e Will teve certeza de que formavam um par formidável, fossem quem fossem.
Ele disse para Lyra:
— O aletiômetro está na minha mochila, ali.
— Ah, Will, eu quis tanto que você o tivesse encontrado, mas o que foi que aconteceu? Você encontrou seu pai? E meu sonho, Will, é demais para acreditar, as coisas que temos que fazer. Ah, nem me atrevo a pensar nisso... E o aletiômetro está em segurança. Você o trouxe até aqui, mantendo-o em segurança para mim...
As palavras jorravam, saindo tão depressa de sua boca que ela nem esperava respostas. Ela virou o aletiômetro de um lado para outro, os dedos alisando o disco pesado de metal e o mostrador de cristal liso, com os ponteiros facetados que eles conheciam tão bem.
Will pensou: “O aletiômetro vai nos dizer como consertar a faca!” Mas antes perguntou:
— Você está se sentindo bem? Está com fome ou com sede?
— Não sei... é, até que estou. Mas não muita. De qualquer maneira.
— Deveríamos nos afastar dessa janela — disse Will — por segurança, para o caso de eles descobrirem e atravessarem também.
— Sim, é verdade — concordou Lyra, e eles foram subindo pela encosta, Will carregando sua mochila e Lyra, feliz da vida, carregando a bolsinha onde guardava o aletiômetro. Pelo canto do olho Will viu que os dois pequenos espiões os seguiam, mas que se mantinham à distância e que não faziam ameaças.
Depois do cume havia uma protuberância na rocha que oferecia um abrigo e eles sentaram debaixo dela, depois de verificarem se não havia cobras, fizeram uma refeição de frutas secas e beberam água do cantil de Will. Will falou em voz baixa.
— A faca está quebrada. Não sei como aconteceu. A Sra. Coulter fez alguma coisa, ou disse alguma coisa, e eu pensei em minha mãe e isso fez a faca se torcer, ou ficar presa ou... eu não sei o que aconteceu. Mas estamos imobilizados enquanto não pudermos consertá-la. Eu não queria que aquelas pessoas pequeninas soubessem, porque, enquanto pensarem que ainda posso usar a faca, estou em posição de superioridade. Achei que talvez você pudesse perguntar ao aletiômetro e...
— Claro! — exclamou ela, imediatamente. — Claro, vou perguntar.
Um instante depois ela tinha tirado o instrumento da bolsa e colocado onde o luar batia forte de modo que pudesse ver o mostrador com clareza. Afastando os cabelos para trás, prendendo-os atrás das orelhas, exatamente como Will tinha visto sua mãe fazer, começou a girar os ponteiros da maneira já familiar e Pantalaimon, agora em forma de camundongo, sentou-se no joelho dela. Mas não foi fácil ver como ela havia pensado, talvez o luar fosse enganador.
Ela teve que virar o instrumento e mudar de posição umas duas vezes, e piscar para clarear a visão, antes que os símbolos se tornassem mais definidos, nítidos, então conseguiu ler. Ela mal tinha começado quando soltou uma pequena exclamação de surpresa e olhou para Will, com os olhos brilhando, enquanto os ponteiros giravam. Mas ainda não havia acabado e ela continuou lendo, até que o instrumento ficou imóvel.
Ela o guardou, dizendo:
— Iorek? Ele está por perto, Will? Achei que tinha ouvido você chamá-lo, mas depois pensei que fosse apenas meu desejo de que ele estivesse aqui. Está de verdade?
— Está. Ele poderia consertar a faca? Foi isso que o aletiômetro disse?
— Ah, ele pode fazer qualquer coisa com metal, Will! Não apenas a armadura, também pode fazer coisas delicadas... — E contou a ele sobre a caixinha que Iorek tinha feito para ela para prender a mosca-espiã. — Mas onde está ele?
— Está por perto. Ele poderia ter vindo quando chamei, mas evidentemente estava lutando... E Balthamos! Ah, mas ele devia estar com tanto medo...
— Quem?
Will explicou rapidamente, sentindo o rosto ficar vermelho por causa da vergonha que o anjo devia estar sentindo.
— Mas eu lhe contarei mais a respeito dele depois — disse. — É tão estranho... Ele me disse tantas coisas, e acho que também as compreendo...
Ele passou as mãos nos cabelos e esfregou os olhos.
— Você tem de me contar tudo — disse ela com firmeza.
— Tudo o que você fez depois que ela me apanhou. Ah, Will, você ainda está sangrando? Coitada de sua mão...
— Não. Meu pai curou minha mão. Eu só abri um pouquinho a ferida, quando bati no macaco, mas agora está melhor. Ele me deu um unguento que tinha preparado...
— Você encontrou seu pai?
— Isso mesmo, na montanha, naquela noite...
Então ele deixou que Lyra limpasse o ferimento e passasse mais um pouco de unguento da caixinha de chifre, enquanto contava a ela parte do que tinha acontecido: a luta com o estranho, a revelação que os dois tinham tido um segundo antes que a flecha da bruxa acertasse o alvo, seu encontro com os anjos, a viagem até a caverna e seu encontro com Iorek.
— Tudo isso aconteceu e eu estava dormindo — admirou-se, maravilhada. — Sabe, eu acho que ela foi gentil, cuidou bem de mim, Will... eu acho que foi... não creio que tenha querido me fazer mal... Ela fez tantas coisas más, mas... — Lyra esfregou os olhos. — Ah, mas meu sonho, Will, não consigo nem contar como foi estranho! Foi como quando leio o aletiômetro, toda aquela nitidez, tudo claro e uma compreensão tão profunda que você não consegue ver o fundo, tudo claro até lá embaixo. Foi... Lembra-se de que eu lhe falei de meu amigo Roger e como os Gobblers o apanharam, de como tentei salvá-lo e deu tudo errado e Lorde Asriel o matou? — perguntou. — Bem, eu o vi. No meu sonho vi o Roger novamente, só que ele estava morto, era um fantasma e estava, como se estivesse acenando para mim, me chamado, só que eu não conseguia ouvir. Ele não queria que eu estivesse morta, não era isso. Ele queria falar comigo. E... Fui eu que o levei para lá, para Svalbard, onde ele foi morto, ele morreu por minha culpa. E me lembrei de quando costumávamos brincar na Faculdade Jordan, Roger e eu, no telhado, pela cidade inteira, nos mercados e na margem do rio, e lá nos Barreiros... Eu, Roger e todos os outros... E fui para Bolvangar para trazê-lo de volta para casa em segurança, só que consegui apenas piorar as coisas e, se eu não pedir desculpas a ele, tudo aquilo não terá valido nada, terá sido apenas uma enorme perda de tempo. Tenho que fazer isso, sabe, Will. Tenho que descer à terra dos mortos e encontrar o Roger e... pedir desculpa. Então nós poderemos... eu poderei... Depois disso, não importa.
— Esse lugar onde os mortos estão — disse Will. — É um mundo como este, como o meu ou o seu, como qualquer um dos outros? E um mundo onde eu poderia chegar com a faca?
Ela olhou para ele, espantada com a ideia.
— Você poderia perguntar — prosseguiu ele. — Faça isso agora. Pergunte onde fica e como podemos chegar lá.
Ela se debruçou sobre o aletiômetro, tendo que esfregar os olhos e olhar bem de perto novamente, e seus dedos se moveram rapidamente. Um minuto depois ela tinha a resposta.
— Certo — disse ela — mas é um lugar estranho, Will... Tão estranho... Será que realmente poderíamos fazer isso? Realmente poderíamos ir até a terra dos mortos? Mas... que parte de nós faz isso? Porque os dimons desaparecem quando morremos, já vi isso, e nossos corpos, bem, eles apenas ficam na cova e apodrecem, não é?
— Então deve haver uma terceira parte. Uma parte diferente.
— Você sabe — disse ela, cheia de animação — acho que isso deve ser verdade! Porque posso pensar em meu corpo e posso pensar em meu dimon, de modo que tem que haver uma outra parte, para pensar!
— Exato. E isso é o espírito.
Os olhos de Lyra faiscaram. Então disse:
— Talvez pudéssemos libertar o espírito de Roger de lá. Talvez pudéssemos salvá-lo.
— Talvez. Poderíamos tentar.
— Isso, vamos fazer isso! — concordou imediatamente. — Vamos juntos. É exatamente isso que vamos fazer!
Mas, se não conseguissem consertar a faca, pensou Will, não poderiam fazer coisa alguma.
Logo que sua cabeça clareou e seu estômago se acalmou, ele se levantou e chamou os pequeninos espiões. Estavam nas proximidades, ocupados com alguma espécie de minúsculo aparelho.
— Quem são vocês? — perguntou. — E de que lado estão?
O homem acabou o que estava fazendo e fechou uma caixa de madeira, parecendo um estojo de violino, não maior que uma casca de noz. A mulher falou primeiro.
— Somos galivespianos — respondeu. — Eu sou Lady Salmakia e meu companheiro é o Cavaleiro Tialys. Somos espiões de Lorde Asriel.
Ela estava de pé sobre um pedregulho, a uns três passos de distância de Will e Lyra, seu corpo e feições nítidos e brilhantes sob o luar. Sua voz pequenina era perfeitamente clara e baixa, sua expressão confiante. Usava uma saia rodada de tecido prateado e um corpete verde sem mangas, e seus pés, munidos de esporas, estavam descalços, como os do homem. As roupas dele eram igualmente coloridas, mas a camisa tinha mangas compridas e as calças largas chegavam ao meio da batata da perna. Ambos pareciam fortes, competentes, impiedosos e orgulhosos.
— De que mundo vocês vêm? — perguntou Lyra. — Nunca vi pessoas como vocês.
— Nosso mundo tem os mesmos problemas que o seu — disse Tialys. — Somos rebeldes, fora-da-lei. Nosso líder, Lorde Roke, ouviu falar da revolta de Lorde Asriel e lhe jurou que seríamos seus aliados, prometeu nosso apoio.
— E o que querem fazer comigo?
— Levá-la para seu pai — respondeu Lady Salmakia. — Lorde Asriel enviou um exército comandado pelo Rei Ogunwe para resgatar você e o menino, e levar vocês dois para a fortaleza dele. Estamos aqui para ajudar.
— Ah, mas e se eu não quiser ir para junto de meu pai? E se eu não confiar nele?
— Lamento muito ouvir isso — disse ela — mas estas são as ordens que recebemos: levar vocês até ele.
Lyra não conseguiu se controlar: deu uma grande gargalhada diante da ideia daquelas pessoas minúsculas obrigando-a a fazer qualquer coisa. Mas aquilo foi um erro. Num movimento repentino, a mulher agarrou Pantalaimon e, segurando seu corpo de camundongo num aperto feroz, encostou a ponta da espora na perna dele. Lyra arquejou: foi um choque, exatamente como o choque que havia sentido quando os homens de Bolvangar o agarraram. Ninguém devia tocar o dimon de outra pessoa — era uma violação. Mas então viu que Will havia agarrado o homem com a mão direita, segurando e apertando com firmeza suas pernas de modo que não pudesse usar as esporas, e levantando-o alto.
— Estamos novamente num impasse — comentou Salmakia calmamente. — Ponha o cavaleiro no chão, menino.
— Primeiro largue o dimon de Lyra — disse Will. — Não estou com disposição para discutir.
Lyra viu, com um frio no estômago de excitação, que Will estava perfeitamente pronto para esmagar a cabeça do galivespiano contra a rocha. E os dois seres pequeninos sabiam disso.
Salmakia afastou o pé da perna de Pantalaimon e, imediatamente, ele lutou para se libertar e assumiu a forma de um gato-do-mato, sibilando feroz, os pelos em pé, o rabo batendo de um lado para o outro. Os dentes arreganhados estavam a um palmo do rosto da mulher e ela olhou para ele com absoluta compostura.
Depois de um momento, ele lhe deu as costas e fugiu correndo para o colo de Lyra, sob a forma de arminho, e Will cuidadosamente colocou Tialys de volta sobre a pedra ao lado de sua parceira.
— Você deveria demonstrar algum respeito — disse o cavaleiro para Lyra. — É uma criança desatenciosa e insolente, e vários homens bravos morreram esta noite para garantir sua segurança. É melhor se comportar com educação.
— Sim — disse ela com humildade — sinto muito, sinceramente.
— Quanto a você — ele prosseguiu, virando-se para Will. Mas Will o interrompeu.
— Quanto a mim, não vou admitir que fale comigo desse modo, de maneira que é melhor não tentar. Respeito a gente dá e recebe. Agora escute com atenção. Você não está no comando aqui, nós estamos. Se quiser ficar e ajudar, então vai fazer o que dissermos. Caso contrário, pode voltar para junto de Lorde Asriel agora. Não adianta nem discutir o assunto.
Lyra percebeu a indignação dos dois, mas Tialys estava olhando para a mão de Will, que estava sobre a bainha da faca em seu cinto, e sabia que ele estava pensando que enquanto Will tivesse a faca seria mais forte do que eles. Então, a qualquer custo, eles não deveriam saber que estava quebrada.
— Muito bem — disse o cavaleiro. — Vamos ajudar vocês, por que esta foi a missão que nos foi dada. Mas têm que nos dizer o que pretendem fazer.
— Isso é justo — disse Will. — Eu direi a vocês. Nós vamos voltar ao mundo de Lyra, assim que tivermos descansado, e vamos nos encontrar com um amigo nosso, um urso. Ele não está longe.
— É o urso de armadura? Muito bem — disse Salmakia. — Nós o vimos lutar. Ajudaremos vocês a fazer isso. Mas depois devem vir conosco até Lorde Asriel.
— Iremos — disse Lyra, mentindo, falando com a maior seriedade. — Ah, sim, depois nós faremos isso, com certeza.
Pantalaimon agora estava mais calmo e curioso, de modo que ela o deixou subir em seu ombro e mudar de forma. Ele tornou-se uma libélula, tão grande quanto as outras duas que estavam esvoaçando no ar enquanto eles conversavam, e saiu voando para se juntar a elas.
— Aquele veneno — perguntou Lyra, virando-se de volta para os galivespianos — esse veneno que têm nas esporas, é mortal? Porque picaram minha mãe, a Sra. Coulter, não foi? Ela vai morrer?
— Foi apenas uma pequena ferroada — respondeu Tialys. — Uma dose inteira a teria matado, sim, mas um pequeno arranhão a deixará fraca e tonta durante meio dia ou coisa assim.
E sentindo uma dor de enlouquecer, ele sabia, mas não contou isso a ela.
— Preciso falar em particular com Lyra — disse Will. — Vamos nos afastar apenas por um minuto.
— Com essa faca — disse o cavaleiro — você pode cortar uma abertura de um mundo para outro, não é verdade?
— Você não confia em mim?
— Não.
— Está bem, então vou deixá-la aqui. Se não estiver comigo, não poderei usá-la.
Will desafivelou a bainha da faca e a colocou sobre a pedra e então ele e Lyra se afastaram e sentaram num ponto de onde podiam ver os galivespianos. Tialys estava olhando muito atentamente para o cabo da faca, mas sem tocar nela.
— Vamos ter que continuar com eles por enquanto — disse Will. — Assim que a faca estiver consertada, fugiremos.
— Eles são tão rápidos, Will — disse ela. — E não se incomodariam nem um pouco, matariam você.
— Espero apenas que Iorek possa consertá-la. Não tinha percebido quanto precisamos dela.
— Ele vai consertar — disse ela confiante.
Lyra estava observando Pantalaimon, enquanto esvoaçava e dardejava no ar, abocanhando minúsculas mariposas como as outras libélulas. Não conseguia ir tão longe quanto elas iam, mas era igualmente rápido e o colorido de suas cores ainda mais vivo. Levantou a mão e ele pousou nela, as longas asas transparentes vibrando.
— Acha que podemos confiar neles enquanto dormimos? — perguntou Will.
— Podemos. São impetuosos, violentos, mas acho que são honestos.
Os dois voltaram para o rochedo e Will disse para os galivespianos:
— Agora eu vou dormir. Seguiremos adiante quando amanhecer.
O cavaleiro assentiu e Will se deitou encolhido, adormecendo imediatamente.
Lyra sentou ao lado dele, com Pantalaimon sob a forma de gato, confortavelmente aninhado em seu colo. Que sorte para Will que ela agora estivesse acordada para cuidar dele! Era realmente muito corajoso e ela o admirava tanto que nem saberia dizer o quanto, mas Will não sabia mentir, nem trair, nem enganar, coisas que ela fazia tão naturalmente quanto respirar. Quando pensou nisso, sentiu-se animada e virtuosa, pois ela o fazia por Will, nunca por si mesma.
Tinha pretendido consultar o aletiômetro novamente, mas, para sua profunda surpresa, descobriu que estava tão cansada quanto se tivesse passado todo aquele tempo acordada em vez de inconsciente e deitou-se ali perto, fechou os olhos, só para tirar um cochilo rápido, garantiu a si mesma, antes de adormecer.

2 comentários:

  1. "mas Will não sabia mentir, nem trair, nem enganar, coisas que ela fazia tão naturalmente quanto respirar."
    Herdou da mãe :v

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Boa leitura :)