11 de fevereiro de 2017

13. Ӕsahӕttr

Quando a lua nasceu, as bruxas deram início ao feitiço para curar os ferimentos de Will: acordaram o menino e pediram-lhe para colocar a faca no chão, num local onde ela pudesse pegar um raio de luz das estrelas. Lyra estava sentada ali perto, mexendo um caldeirão de água fervente com algumas ervas sobre uma fogueira, Serafina agachou-se junto à faca e, enquanto as suas companheiras batiam palmas, batiam com o pé no chão e soltavam gritos ritmados, começou a cantar em tom alto e estridente: Pequena Faca! Arrancaram teu ferro das entranhas da mãe Terra, fizeram uma fogueira e ferveram o minério, fizeram-no chorar e sangrar e transbordar, teu ferro foi martelado, foi temperado, mergulhado em água gélida, aquecido dentro da forja até tua lâmina ter a cor vermelho-sangue, crestante! Então fizeram-te ferir a água outra vez, e mais outra, até o vapor tornar-se névoa fervente e a água clamar por misericórdia. E quando tu cortaste uma única sombra em 30 mil sombras, então souberam que estavas pronta, então chamaram-te: a sutil. Mas, pequena faca, que foi que fizeste? Abriste portais de sangue, deixando-os escancarados! Pequena faca, tua mãe te chama, das entranhas da Terra, de suas minas e cavernas mais profundas, de seu secreto ventre de ferro. Escuta!
E Serafina pôs-se a bater o pé no chão e a bater palmas com as outras bruxas, que ululavam, suas vozes rascantes arranhando o ar como garras. Will, sentado no meio delas, sentiu um arrepio no cerne do seu corpo. Então Serafina Pekkala virou-se para o menino e tomou a mão ferida entre as suas. Dessa vez, quando ela cantou ele quase fez uma careta, tão penetrante era a voz alta e clara, tão brilhantes eram os olhos dela, mas continuou sentado, imóvel, deixando que o feitiço seguisse seu curso. Sangue! Obedece-me! Faz meia-volta, sendo um lago e não um rio. Quando chegares ao ar livre, para! E constrói uma parede coagulada, que seja firme, para conter a enchente. Sangue, teu céu é o domo do crânio, teu sol é o olho aberto, teu vento, o ar dentro dos pulmões. Sangue, teu mundo é limitado; fica dentro dele!
Will conseguia sentir todos os átomos do seu corpo respondendo ao comando dela, e então juntou-se a eles, forçando o sangue que gotejava a escutar e obedecer.
Ela largou a mão de Will e se virou para o pequeno caldeirão de ferro sobre o fogo. Dele subia um vapor acre, Will ouvia o líquido borbulhando violentamente.
Serafina cantou:
Casca de carvalho, seda de aranha, musgo moído, erva-barrilheira: agarrem-se com firmeza, unam-se com força, tranquem a porta, travem o portão, reforcem a parede de sangue, estanquem a enchente sangrenta.
Então a bruxa pegou um broto de amieiro e, com sua própria faca, partiu-o em dois no sentido do comprimento.
A alvura do cerne, exposta, brilhava ao luar. Ela colocou um pouco do líquido quente em cada metade e tornou a juntá-las, pressionando um lado contra o outro em toda a extensão do corte. E o raminho ficou inteiro de novo. Will ouviu um som vindo de Lyra e virou-se, para ver outra bruxa segurando uma lebre, que se contorcia e se debatia nas mãos fortes da mulher. O animal ofegava, de olhos arregalados, chutando furiosamente, mas as mãos da bruxa eram implacáveis: uma delas segurava a lebre pelas patas da frente e a outra pelas patas traseiras, mantendo o frenético animal estendido de barriga para cima.
A faca de Serafina deslizou sobre ele. Will sentiu uma vertigem; Lyra, por sua vez, segurava Pantalaimon — em forma de lebre, para mostrar-se solidário — que tentava desvencilhar-se de suas mãos. A verdadeira lebre imobilizou-se, os olhos saltados, o peito ofegante, as entranhas brilhando. Mas Serafina deixou cair um pouco do líquido do caldeirão dentro do corte aberto na barriga da lebre e então fechou-o com os dedos, alisando sobre ele os pelos molhados até não haver mais qualquer sinal do corte. A bruxa que segurava o animal colocou-o no chão com delicadeza, ele se sacudiu, virou-se para lamber o flanco, mexeu as orelhas e foi mordiscar um pedaço de capim como se estivesse sozinho. De repente pareceu perceber o círculo de humanos à sua volta e como uma flecha fugiu dali, inteiramente refeito, saltando velozmente para dentro da escuridão.
Lyra, acalmando Pantalaimon, olhou de relance para Will e viu que ele sabia o que aquilo significava: o remédio estava pronto. Ele estendeu a mão e Serafina passou a mistura quente nos tocos sangrentos, enquanto ele desviava os olhos e respirava fundo algumas vezes, mas sem se queixar. Depois que a carne viva estava inteiramente encharcada, a bruxa pressionou sobre os ferimentos as ervas tiradas do caldeirão e fechou tudo com uma faixa de seda.
Pronto: o feitiço estava feito.


Will dormiu profundamente pelo resto da noite. Estava frio, mas as bruxas empilharam folhas sobre o seu corpo, e Lyra dormiu aninhada junto às suas costas. Na manhã seguinte, Serafina refez o curativo e ele tentou ler no rosto dela se o ferimento estava melhorando, mas a bruxa se mostrava tranquila e impassível.
Depois que comeram alguma coisa, Serafina contou-lhes: as bruxas tinham concordado que, já que tinham vindo a esse mundo para encontrar Lyra e tomar conta dela, iriam ajudar a menina a fazer aquilo que ela agora sabia ser a sua missão: levar Will até o pai dele.
Assim, partiram e a viagem foi tranquila em sua maior parte. Para começar, Lyra consultou o aletiômetro, mas com cautela, e ficou sabendo que deveriam viajar na direção das montanhas distantes, visíveis do outro lado da grande baía.
Nunca tendo chegado tão alto acima da cidade, os dois não tinham consciência do modo como a costa se curvava e das montanhas que se encontravam abaixo do horizonte, mas agora eles avistavam, onde as árvores escasseavam ou onde um declive se abria aos pés dos viajantes, o mar deserto da baía, até as altas montanhas azuis que eram o seu destino. Elas pareciam muito distantes.
Os dois não conversaram muito. Lyra ocupava-se em observar a vida na floresta, desde pica-paus até esquilos e cobrinhas de losangos nas costas, e Will precisava de toda a sua energia simplesmente para continuar andando. Lyra e Pantalaimon falavam a respeito dele incessantemente.
— Bem que nós podíamos consultar o aletiômetro — disse Pantalaimon, em certo momento em que os dois tinham ficado para trás para ver até que ponto conseguiriam aproximar-se de um cervo antes que este os visse. — Não prometemos não fazer isso. E poderíamos descobrir todo tipo de coisas para ele. Seria por ele, não por nós.
— Não seja estúpido — retrucou Lyra. — Seria por nós, porque ele nunca perguntaria. Você é curioso e intrometido, Pan.
— Já é uma mudança. Normalmente é você quem é curiosa e intrometida, e sou eu quem tem que lhe dizer para não fazer certas coisas. Como na Sala Privativa na Jordan. Eu não queria entrar lá.
— Se a gente não tivesse entrado, Pan, acha que tudo isso teria acontecido?
— Não. Porque o Reitor teria envenenado Lorde Asriel, e tudo ia acabar ali mesmo.
— É, talvez... Quem você acha que é o pai do Will? E por que será que ele é importante?
— É isso que eu estava dizendo! Podemos descobrir num instante!
Ela pareceu hesitar.
— Antigamente, eu até faria isso. Mas estou mudando, eu acho, Pan.
— Não está, não.
— Você pode não estar... Ei, Pan, quando eu mudar, você vai parar de mudar. O que é que vai ser?
— Uma pulga, espero.
— Você não tem nenhum pressentimento do que vai ser?
— Não, e nem quero ter.
— Você está chateado porque eu não vou fazer o que você quer.
Ele se transformou num porco e grunhiu, berrou e roncou até que ela risse, e então mudou para um esquilo e correu por entre os ramos ao lado dela.
— E você, quem você acha que o pai dele é? — Pantalaimon quis saber. — Acha que é alguém que nós já conhecemos?
— Podia ser. Mas deve ser alguém importante, quase tão importante quanto Lorde Asriel. Tem que ser. Sabemos que o que nós estamos fazendo é importante, afinal.
— Não sabemos, não — retorquiu Pantalaimon. — Achamos que sabemos, mas não temos certeza. Simplesmente resolvemos procurar o Pó porque o Roger morreu.
— Nós sabemos que é importante, sim! — Lyra exclamou com veemência, chegando abater o pé no chão. — E as bruxas também sabem. Elas viajaram até aqui para nos procurar, só para tomar conta de mim e me ajudar! E temos que ajudar Will a encontrar o pai dele. Isso é importante mesmo. Você sabe que é, senão não teria dado aquelas lambidas nele quando ele se feriu. Aliás, por que você fez aquilo? Nem me perguntou se podia! Não consegui acreditar quando vi.
— Fiz porque ele não tem dimon e estava precisando de um. E se você tivesse metade do talento que pensa que tem para perceber as coisas, saberia disso.
— No fundo eu sabia.
Pararam de falar porque alcançaram Will, que estava sentado numa pedra ao lado da trilha. Pantalaimon transformou-se num papa-moscas e passou a voar no meio dos galhos.
Lyra perguntou:
— Will, que será que as crianças vão fazer agora?
— Não vão nos seguir. Estão com muito medo das bruxas. Talvez continuem por aí, andando sem rumo.
— É, talvez... Mas podem querer usar a faca. Podem vir atrás de nós.
— Que venham. Não vão conseguir. No princípio eu não queria ficar com a faca. Mas se ela mata Espectros...
— Nunca confiei na Angélica, desde o princípio — Lyra afirmou virtuosamente.
— Confiou, sim — ele rebateu.
— É. Confiei mesmo... No fim eu estava odiando aquela cidade.
— Eu pensei que era o paraíso, quando cheguei lá. Não podia imaginar coisa melhor. E o tempo todo aquele lugar estava cheio de Espectros, e a gente nem sabia...
— Bom, não vou mais confiar em crianças — Lyra declarou. — Lá em Bolvangar eu pensava que, por mais maldades que os adultos fizessem, as crianças eram diferentes, não eram capazes de tanta crueldade. Mas agora não tenho certeza. Nunca tinha visto crianças como essas, é verdade.
— Eu já — disse Will.
— Quando? No seu mundo?
— É — fez ele, embaraçado.
Lyra esperou, imóvel, até que ele continuou:
— Foi quando a minha mãe estava tendo outra fase ruim. Ela e eu, a gente era só, entende, porque obviamente o meu pai não estava lá. E de vez em quando ela começava a dizer coisas que não eram verdade. E de vez em quando começava a pensar coisas que não eram verdade. E tinha que fazer coisas que não faziam sentido, pelo menos para mim. Quer dizer, ela precisava fazer essas coisas, senão ficava tão perturbada, com medo de tudo, então eu ajudava ela. Como tocar em todas as ripas da grade em volta do parque, ou contar as folhas de um arbusto, esse tipo de coisa. Depois de algum tempo ela melhorava. Mas eu tinha medo de alguém descobrir, porque achava que podiam levar ela, de modo que eu tomava conta dela e escondia isso de todo mundo. Nunca contei a ninguém. Uma vez ela ficou com medo quando eu não estava. Eu estava na escola. E então ela saiu, estava quase sem roupa, só que não sabia disso. E alguns meninos da minha escola, eles viram e começaram...
Will tinha o rosto vermelho. Sem conseguir controlar-se, ele começou a andar de um lado para outro, desviando os olhos de Lyra, porque tinha a voz instável e os olhos cheios d’água.
Mas prosseguiu:
— Estavam atormentando ela, igualzinho àqueles meninos na Torre com a gata... Acharam que ela era louca e queriam machucar ela, talvez até matar, isso não seria surpresa. Simplesmente ela era diferente, e eles tinham ódio disso. De qualquer maneira, eu encontrei ela e levei para casa. E no dia seguinte na escola briguei com o garoto que era o líder da turma. Lutei com ele, quebrei o braço dele e acho que alguns dentes também, não sei. E ia brigar com o resto da turma, mas comecei a pensar e vi que era melhor parar, porque, se as autoridades ou os professores ficassem sabendo, iam procurar minha mãe para fazer queixa, e então iam descobrir como ela era elevar ela embora. Então fingi que estava arrependido e disse aos professores que não ia fazer de novo, eles me castigaram por ter brigado e eu não disse nada. Mas minha mãe ficou em segurança, entende? Ninguém sabia, além daqueles meninos e eles sabiam o que eu faria se dissessem alguma coisa, sabiam que um dia eu ia matar eles todos, não ia só machucar. E logo depois ela melhorou outra vez. Ninguém nunca ficou sabendo. Mas depois disso deixei de confiar mais nas crianças do que nos adultos. São igualmente maus. De modo que não fiquei surpreso quando aquelas crianças de Ci’gazze fizeram aquilo.
Ele tornou a se sentar, de costas para Lyra.
— Mas gostei quando as bruxas vieram — arrematou.
Sem olhar para Lyra, ele enxugou os olhos com a mão. Ela fingiu não perceber.
— Will, o que você contou sobre a sua mãe... E Tullio, quando os Espectros pegaram ele... E ontem, quando você disse que achava que os Espectros vieram do seu mundo...
— É. Porque não faz sentido, o que estava acontecendo com ela. Ela não é louca. Aqueles meninos podiam achar que ela era louca, zombar e querer machucar ela, mas estavam enganados, ela não é louca. Só que tinha medo de umas coisas que eu não conseguia enxergar. E tinha que fazer coisas que pareciam malucas, eu não conseguia entender o motivo, mas obviamente ela entendia. Como contar todas as folhas, feito o Tullio, ontem, tocando nas pedras do muro. Talvez seja um modo de tentar afastar os Espectros. Se a pessoa desse as costas a alguma coisa que a amedrontava e tentasse se interessar realmente pelas pedras ou pelo desenho delas, ou pelas folhas da árvore, se conseguisse achar que aquilo era realmente importante, estaria segura. Não sei. Parece isso. Mamãe tinha medo de coisas reais, como aqueles homens que nos roubaram, mas havia mais alguma coisa. De modo que talvez a gente tenha Espectros no meu mundo, só que ninguém consegue ver, e nós não demos nome a eles, mas eles estão lá, e não param de tentar atacar a minha mãe. Foi por isso que fiquei contente ontem, quando o aletiômetro disse que ela está bem.
Ele tinha a respiração acelerada, a mão direita agarrada ao cabo da faca em sua bainha. Lyra nada disse, e Pantalaimon ficou imóvel.
— Quando foi que soube que tinha que ir procurar o seu pai? — ela perguntou depois de um momento.
— Há muito tempo — ele contou. — Eu costumava fingir que ele estava prisioneiro e eu ia ajudar ele a fugir. Brincava sozinho durante horas, durante dias. Ou então ele estava numa ilha deserta e eu ia até lá de barco e levava ele para casa. E ele ia saber exatamente o que era preciso fazer, especialmente com a minha mãe, e ela ia melhorar e ele ia cuidar dela e de mim, e eu ia poder simplesmente ir à escola e ter amigos, e ia ter um pai e uma mãe. Então eu sempre dizia para mim mesmo que, quando crescesse, ia sair para procurar meu pai... E a minha mãe costumava me dizer que eu ia portar o manto do meu pai. Ela dizia isso para me deixar feliz. Eu não sabia o que isso queria dizer, mas parecia importante.
— Você não tinha amigos?
— Como é que eu podia ter amigos? — ele perguntou, realmente sem saber. — Amigos... Eles entram na casa da gente, ficam conhecendo os pais da gente e... Às vezes um garoto me convidava para ir à casa dele, e eu até podia aceitar, mas nunca poderia retribuir o convite. Então nunca tive amigos. Eu gostaria... Eu tinha a minha gata — continuou. — Espero que ela esteja bem. Espero que alguém esteja tomando conta dela...
— E o homem que você matou? — Lyra perguntou, o coração batendo com força. — Quem era?
— Não sei. Se matei, não me importo. Ele merecia. Eram dois. Iam lá em casa atormentar a minha mãe até ela ficar com medo de novo, cada vez pior. Eles queriam saber tudo sobre o meu pai, e não deixavam ela em paz. Não sei se eram policiais ou o que eram. No princípio pensei que faziam parte de uma quadrilha de bandidos, que achavam que meu pai tinha roubado um banco, talvez, e escondido o dinheiro. Mas eles não queriam dinheiro, queriam papéis. Queriam algumas cartas que o meu pai tinha mandado. Um dia arrombaram a casa, e então eu vi que seria mais seguro se a minha mãe fosse para outro lugar. Entende, eu não podia ir pedir ajuda à polícia, porque iriam levar minha mãe embora. Eu não sabia o que fazer.
Will parou de falar por um instante.
— Finalmente procurei uma senhora que tinha sido minha professora de piano — retomou. — Na hora só me lembrei dela. Perguntei se a minha mãe podia ficar, e deixei ela lá. Acho que ela vai cuidar dela direito. De qualquer maneira, voltei para casa para procurar as tais cartas, porque eu sabia onde elas estavam. Peguei as cartas e os homens chegaram e tornaram a invadir a casa. Era de noite, ou de madrugada. Eu estava escondido no sótão, e Moxie, a minha gata Moxie, ela saiu do quarto sem eu ver, nem o homem viu, e quando pulei em cima dele ele tropeçou nela e rolou escada abaixo... e eu fugi correndo. Foi o que aconteceu. Eu não pretendia matar ele, mas não me importo se ele morreu. Fugi e vim para Oxford e encontrei aquela janela. E isso tudo só aconteceu porque eu vi a outra gata e parei para ficar olhando, e ela encontrou a janela primeiro. Se eu não tivesse visto aquela gata... ou se Moxie não tivesse saído do quarto naquele instante...
— É, foi sorte — comentou Lyra. — E eu e Pan estávamos pensando agora mesmo: se eu não tivesse entrado no armário da Sala Privativa da Jordan e visto o Reitor colocar veneno no vinho, nada disso teria acontecido, também...
Ficaram ambos sentados em silêncio na pedra coberta de musgo, sob os raios oblíquos do sol através dos velhos pinheiros, pensando em quantos acontecimentos casuais ínfimos tinham conspirado para levar os dois até esse lugar. Cada um desses acontecimentos casuais poderia ter tido um desfecho diferente. Talvez outro Will, em outro mundo, não percebesse a janela na Avenida Sunderland e saísse a vagar em direção às Midlands, perdido e exausto, até ser apanhado.
E em outro mundo, talvez outro Pantalaimon tivesse convencido outra Lyra a não entrar na Sala Privativa, e outro Lorde Asriel tivesse sido envenenado, e outro Roger tivesse sobrevivido para brincar para sempre com aquela Lyra sobre os telhados e pelos becos de uma Oxford diferente e imutável.
Finalmente Will estava suficientemente descansado para continuar caminhando, e os dois seguiram viagem, rodeados pelo silêncio profundo da floresta.
Viajaram durante todo o dia. Descansavam, avançavam, tornavam a descansar, enquanto as árvores iam ficando mais escassas e o terreno, mais pedregoso.
Lyra consultou o aletiômetro, que instruiu: continuem, esta é a direção correta.
Ao meio-dia chegaram a uma aldeia que os Espectros não perturbavam: cabras pastavam nas encostas, uma plantação de limoeiros jogava sombras no solo e algumas crianças que brincavam num riacho correram para suas mães ao verem a menina de roupas esfarrapadas e o menino de rosto pálido e feroz e com a camisa suja de sangue, e mais o elegante galgo que os acompanhava.
Os adultos mostraram-se cautelosos, mas dispostos a vender-lhes pão, queijo e frutas em troca de uma das moedas de ouro de Lyra. As bruxas ficaram fora de vista, embora as duas crianças soubessem que num segundo elas estariam ali se surgisse algum perigo. Lyra, depois de muito pechinchar, conseguiu que uma anciã lhes vendesse dois cantis de pele de cabra e uma bela camisa de linho, pela qual Will trocou com alívio a sua camiseta imunda, depois de se lavar no riacho gelado e se deitar ao sol quente para secar. Refeitos, os dois seguiram viagem. O terreno agora era mais inóspito, sombra, só a das rochas, pois não havia árvores, e o calor do solo atravessava a sola dos sapatos. O sol doía-lhes nos olhos. À medida que subiam, os dois avançavam cada vez mais devagar; quando o sol tocou na crista das montanhas e eles viram um pequeno vale abrir-se a seus pés, resolveram não ir mais longe.
Desceram a encosta às pressas, quase perdendo o equilíbrio mais de uma vez, e depois tiveram que atravessar um campo de rododendros-anões, as folhas escuras e brilhantes e os cachos de flores carmim pesados com o zumbido das abelhas, antes de saírem para uma campina aberta ao crepúsculo, ao longo de um riacho. O solo ali era de um capim que chegava aos joelhos, pontilhado de centáureas azuis, gencianas e quinquefólios. Will bebeu bastante água no riacho e depois deitou-se.
Não conseguia ficar acordado e tampouco conseguia dormir, a cabeça girava, uma aura de estranheza rodeava todas as coisas, sua mão doía e latejava.
E, pior, tinha recomeçado a sangrar.
Serafina examinou sua mão, colocou mais ervas sobre os ferimentos e apertou a atadura de seda com mais força, mas dessa vez tinha a fisionomia perturbada. Ele não quis fazer perguntas, de que adiantaria? Era evidente que o feitiço não tinha funcionado e ele se dava conta de que ela sabia disso também.
Assim que escureceu, ele sentiu Lyra vir deitar-se perto dele, e logo ouviu um ronronar suave: o dimon dela, em forma de gato, cochilava com as patas dobradas a menos de um metro dele, e Will sussurrou:
— Pantalaimon?
O dimon abriu os olhos. Lyra não se mexeu. Pantalaimon murmurou:
— Sim?
— Pan, eu vou morrer?
— As bruxas não vão deixar você morrer. Lyra também não vai.
— Mas o feitiço não funcionou. Eu não paro de perder sangue. Não deve ter sobrado muito. E continua sangrando, não quer parar. Estou com medo...
— Lyra acha que você não está.
— Acha?
— Ela acha que você é o guerreiro mais corajoso que ela já viu, tão corajoso quanto Iorek Byrnison.
— Então é melhor eu tentar não fazer cara de assustado — Will declarou. Depois de ficar em silêncio por um instante, continuou: — Acho que Lyra é mais corajosa que eu. Acho que é a melhor amiga que eu já tive.
— Ela pensa a mesma coisa de você — cochichou o dimon.
Finalmente Will fechou os olhos.
Lyra estava imóvel, mas tinha os olhos abertos na escuridão, e o seu coração batia com força.


Quando Will tornou a dar por si, estava completamente escuro, e sua mão doía mais que nunca. Ele se sentou com cuidado e viu uma fogueira acesa não muito longe, onde Lyra estava tentando tostar pão num galho em forquilha. Havia também alguns pássaros assando num espeto, e quando Will se aproximou, Serafina Pekkala pousou.
— Will, coma estas folhas antes de comer qualquer outra coisa.
Deu-lhe um punhado de folhas de sabor levemente amargo, um pouco parecido com salva, que ele mastigou em silêncio e forçou-se a engolir. Eram ligeiramente picantes, mas ele se sentiu melhor, mais desperto e menos friorento. Comeram os pássaros assados, temperando-os com suco de limão, uma bruxa trouxe algumas cerejas que ela havia encontrado, e então as bruxas reuniram-se em volta do fogo.
Conversavam em voz baixa, algumas delas tinham voado bem alto, para espionar, e uma tinha visto um balão sobre o mar. Lyra endireitou-se no mesmo instante.
— O balão do Sr. Scoresby? — quis saber.
— Havia dois homens nele, mas estavam distantes demais para eu distinguir quem eram. Atrás deles estava se formando uma tempestade.
Lyra bateu palmas.
— Se o Sr. Scoresby está chegando, vamos poder voar, Will! Ah, tomara que seja ele! Eu nem me despedi dele, e ele foi tão bacana... Queria ver ele de novo, queria mesmo...
A bruxa Juta Kamainen estava prestando atenção, com seu dimon-tordo de peito vermelho e olhos brilhantes empoleirado em seu ombro, porque a menção de Lee Scoresby lhe lembrara a busca que ele tinha partido para fazer. Ela era a bruxa que tinha se apaixonado por Stanislaus Grumman, que desdenhara o seu amor — a bruxa que Serafina Pekkala tinha trazido para este mundo para impedir que ela o matasse em seu próprio mundo. Serafina poderia ter percebido, mas aconteceu alguma coisa, ela ergueu a mão e a cabeça, assim como todas as outras bruxas. Will e Lyra escutavam muito vagamente, vindo do norte, o grito de um pássaro noturno. Mas não era um pássaro comum: as bruxas reconheceram instantaneamente um dimon. Serafina Pekkala levantou-se, olhando atentamente para o céu.
— Acho que é Ruta Skadi — disse.
Ficaram imóveis, as cabeças de lado, voltadas para o grande silêncio, esforçando-se para ouvir. Veio então outro grito, já mais perto, e então um terceiro, diante disso, todas as bruxas pegaram seus galhos e saltaram para o ar — exceto duas, que ficaram bem próximas, flechas preparadas nos arcos, protegendo Will e Lyra.
Em algum lugar na escuridão lá em cima havia uma batalha. E pareceu-lhes ter-se passado apenas um instante quando ouviram sons de luta, assobios de flechas e gritos de dor, de raiva ou de comando. E então, com um estrondo tão súbito que eles não tiveram tempo de saltar para trás, uma criatura caiu do céu a seus pés: um animal de pele semelhante a couro e pelagem encardida, que Lyra reconheceu como um avantesma-do-penhasco ou algo semelhante.
O animal tinha sofrido na queda, e tinha uma flecha enfiada no flanco, mas virou-se e tentou atacar Lyra com malícia. As bruxas não podiam atirar porque Lyra estava na linha de fogo, mas Will chegou primeiro, e com a faca cortou fora a cabeça da criatura, que rolou para longe, o ar que ainda havia nos pulmões da fera escapou com um som borbulhante, e ela caiu morta. Eles tornaram a olhar para o céu, pois a batalha agora se desenrolava mais perto do solo, e a luz da fogueira mostrava redemoinhos de seda negra, membros pálidos, ramos verdes de pinheiro-nubígeno, couro descamado, marrom-acinzentado. Como as bruxas conseguiam manter o equilíbrio durante as manobras súbitas, e ainda por cima fazer pontaria e atirar, era algo acima da compreensão de Will.
Outro avantesma caiu, depois um terceiro caiu no riacho ou nas pedras próximas e então o resto do bando fugiu ruidosamente para a escuridão em direção ao norte. Momentos depois, Serafina Pekkala pousou com suas bruxas e com mais uma: uma linda mulher de olhos ferozes e cabelos negros, as maçãs do rosto ruborizadas de raiva e excitação.
Essa bruxa viu o avantesma sem cabeça e cuspiu.
— Não vem do nosso mundo, nem deste — declarou. — Abominações nojentas. Existem milhares delas, reproduzindo-se como moscas... Quem é esta menina, é a Lyra? E o menino, quem é?
Lyra devolveu-lhe o olhar impassível, embora sentisse o coração bater mais depressa, pois os nervos de Ruta Skadi vibravam tão intensamente que provocavam um frêmito nos nervos de qualquer pessoa que chegasse perto dela.
Então a bruxa voltou-se para Will, que sentiu o mesmo frêmito de intensidade, mas como Lyra ele controlou sua expressão. Ainda tinha a faca na mão, a bruxa viu o que ele tinha feito usando a faca, e sorriu. Ele a enfiou na terra para limpá-la do sangue da criatura imunda e depois lavou-a no riacho. Ruta Skadi dizia:
— Serafina Pekkala, estou aprendendo muito, todas as coisas antigas estão mudando, ou morrendo, ou vazias. Estou com fome...
Ela comeu como um animal, roendo o que sobrara dos pássaros assados e enfiando punhados de pão na boca, com a ajuda de grandes goles de água do riacho. Enquanto ela se alimentava, algumas bruxas carregaram para longe o corpo do avantesma e refizeram a fogueira, depois montaram turnos de vigia.
As outras vieram sentar-se perto de Ruta Skadi, para escutar o que ela ia começar a contar. A bruxa narrou o que acontecera depois que ela partiu voando atrás dos anjos e a sua viagem até a fortaleza de Lorde Asriel.
— Irmãs, é o maior castelo que se pode imaginar. Muralhas de basalto chegando até o céu, estradas largas descendo de todas as direções, por onde chegam carregamentos de pólvora, comida, placas de armadura, como ele conseguiu isso? Acho que deve ter passado vários anos, várias eras, fazendo preparativos. Ele vem preparando isso tudo desde antes de nós termos nascido, irmãs, embora seja tão mais jovem... Mas como pode ser isso? Não sei. Não consigo entender. Acho que ele comanda o tempo, faz o tempo andar depressa ou devagar, conforme a sua vontade.
Depois de um silêncio ela continuou:
— Nessa fortaleza estão chegando guerreiros de todo tipo, de todos os mundos. Homens e mulheres, sim, e espíritos guerreiros também, e criaturas armadas que eu nunca tinha visto. Lagartos e macacos, e grandes pássaros com esporas venenosas, criaturas estranhas demais para ter um nome que eu conseguisse adivinhar. E outros mundos têm bruxas, sabiam disso, irmãs? Falei com bruxas que vieram de um mundo como o nosso, mas profundamente diferente, pois aquelas bruxas não vivem mais do que os nossos vidas-curtas, e havia homens, também, bruxos que voam como nós...
As bruxas do clã de Serafina Pekkala ouviam esse relato com assombro, medo e incredulidade. Mas Serafina acreditava, e insistiu para que Ruta Skadi continuasse.
— Viu Lorde Asriel, Ruta Skadi? Conseguiu chegar até ele?
— Sim, consegui, e não foi fácil, pois ele vive no centro de muitos círculos de atividade, e dirige todos eles. Mas fiquei invisível e consegui chegar ao aposento privativo dele, onde ele estava se preparando para dormir.
Todas as bruxas sabiam o que tinha acontecido em seguida, mas nem Will, nem Lyra sonhavam com isso. De modo que Ruta Skadi não viu necessidade de contar, e continuou:
— Então eu lhe perguntei por que estava reunindo todas aquelas forças, e se era verdade o que ouvimos sobre o seu desafio à Autoridade, e ele riu. Ele me perguntou: então falam disso na Sibéria? E eu disse que sim, e em Svalbard e em todas as regiões do Norte, o nosso Norte e contei sobre o nosso pacto, e que eu tinha deixado o nosso mundo para procurar por ele. E então nos convidou para nos juntarmos a ele, irmãs. Para integrarmos o seu exército contra a Autoridade. Eu desejava de todo o coração poder nos comprometer a todas naquele momento, teria jogado o meu clã na guerra com o coração satisfeito. Ele me mostrou que a rebelião era certa e justa, diante das coisas que os a gentes da Autoridade fizeram em nome dela... E pensei nas crianças de Bolvangar, e nas outras mutilações terríveis que vi nas nossas próprias terras meridionais, ele me contou muitas outras crueldades feitas em nome da Autoridade. Em alguns mundos eles capturam as bruxas e as queimam vivas, irmãs, sim, bruxas como nós...
Ela olhou em volta e prosseguiu:
— Ah, irmãs, eu queria me lançar nessa guerra com todo o meu clã! Mas sabia que devia consultá-la primeiro, Serafina Pekkala, e depois voar de volta ao nosso mundo e conversar com Ieva Kasku, Reina Miti e as outras bruxas-rainhas. Então fiquei invisível, peguei meu pinheiro-nubígeno e parti. Mas, antes de ir muito longe, surgiu um grande vento que me jogou para o alto das montanhas, e tive que me refugiar no topo de um penhasco. Conhecendo o tipo de criaturas que vivem nos penhascos, tornei a ficar invisível, e escutei vozes na escuridão. Parece que eu tinha ido parar no lugar onde ficava o ninho do mais velho de todos os avantesmas-dos-penhascos. Ele era cego, e os outros lhe traziam comida, carniça fedorenta, lá do vale. E lhe pediam orientação. Perguntavam e ele respondia: “Vovô, até onde vai a sua memória?” “Até bem longe. Muito antes dos humanos”, ele respondeu. Tinha a voz baixa, frágil e alquebrada. “É verdade que a maior batalha de todas está para acontecer, vovô?” “É, sim, crianças. Uma batalha maior do que a última. Um belo banquete para todos nós. Serão dias de prazer e abundância para todos os avantesmas de todos os mundos.” “E quem vai vencer, vovô? Lorde Asriel vai derrotar a Autoridade?” “O exército de Lorde Asriel tem milhões de soldados, vindos de todos os mundos”, contou o velho avantesma. “É um exército maior do que aquele que lutou contra a Autoridade da última vez, e é melhor dirigido. Quanto às forças da Autoridade, ora, elas são 100 vezes maiores. Mas a Autoridade é muito velha, até muito mais velha do que eu, crianças, e seus soldados estão assustados, ou então complacentes. Seria uma luta difícil, mas Lorde Asriel venceria, pois é apaixonado e corajoso, e acredita que sua causa seja justa. Mas há uma coisa, crianças. Ele não tem Ӕsahӕttr. Sem Ӕsahӕttr, ele e os seus exércitos serão derrotados. E então vamos nos banquetear durante anos, minhas crianças!”. Ele riu e começou a roer o osso fedorento que os outros tinham levado, e todos guincharam de alegria. Ora, vocês podem imaginar como eu me esforcei para escutar mais coisas sobre esse tal Ӕsahӕttr, mas só conseguia ouvir o uivo do vento e um avantesma novinho perguntando: “Se Lorde Asriel precisa de Ӕsahӕttr, por que não chama?”. E o velho avantesma respondeu: “Lorde Asriel sabe tanto quanto você sobre Ӕsahӕttr, criança! Esta é a piada! Pode rir bastante!”
Ruta Skadi mais uma vez olhou em volta.
— Mas quando tentei chegar mais perto daquelas coisas imundas, meu poder falhou, irmãs, não consegui ficar invisível por mais tempo. Os mais jovens me viram e deram o alarme, e tive que fugir de volta para este mundo através da porta invisível no céu. Um bando deles veio atrás de mim, e aqueles corpos ali são os últimos. Mas é evidente que Lorde Asriel precisa de nós, irmãs. Seja quem for esse Ӕsahӕttr, Lorde Asriel precisa de nós! Eu gostaria de voltar a Lorde Asriel agora e dizer: não se preocupe, nós estamos chegando, nós, as bruxas do Norte, vamos ajudá-lo a vencer... Vamos resolver isso agora, Serafina Pekkala, vamos convocar um grande conselho de todas as bruxas, de todos os clãs, e guerrear!
Serafina Pekkala olhou para Will, que sentiu que ela lhe pedia permissão para alguma coisa. Mas não sabia o que responder, e ela olhou de volta para Ruta Skadi.
— Nós, não — afirmou. — A nossa missão agora é ajudar Lyra, e a missão dela é guiar Will até o pai dele. Você deve voltar para lá, concordo, mas nós devemos ficar com Lyra.
Ruta Skadi fez um gesto de impaciência com a cabeça.
— Bom, se é preciso... — resmungou.
Will deitou-se, porque o ferimento estava doendo, muito mais do que no início. A mão inteira estava inchada. Lyra deitou-se também, com Pantalaimon enrodilhado junto ao seu pescoço, e ficou contemplando o fogo através das pálpebras semicerradas, escutando, sonolenta, o murmúrio das bruxas.


Ruta Skadi avançou um pouco riacho acima, e Serafina Pekkala acompanhou-a.
— Ah, Serafina Pekkala, você devia ver Lorde Asriel — disse baixinho a rainha da Latvia. — É o maior comandante que já existiu. Tem cada detalhe bem nítido no cérebro. Imagine quanta ousadia, entrar em guerra contra o criador? Mas quem você acha que pode ser esse Ӕsahӕttr? Como é que nunca ouvimos falar dele? E como podemos convencê-lo a se juntar a Lorde Asriel?
— Talvez não seja “ele”, irmã. Sabemos tão pouco quanto o avantesma novinho. Talvez o avô estivesse zombando da ignorância dele. Essa palavra parece significar destruidor-de-deus, sabia disso?
— Então pode ser que sejamos nós, Serafina Pekkala! E se formos, então o exército dele ficará muito mais forte com a nossa presença. Ah, que vontade de ver minhas flechas matando aqueles malvados de Bolvangar e de todas as Bolvangares em todos os mundos! Irmã, por que fazem isso? Em todos os mundos os a gentes da Autoridade estão sacrificando crianças ao seu deus cruel! Por quê? Por quê?
— Têm medo do Pó — disse Serafina Pekkala. — Mas não sei o que é isso.
— E esse menino que você encontrou, quem é? De que mundo ele veio?
Serafina Pekkala contou-lhe tudo que sabia sobre Will.
— Não sei por que ele é importante — concluiu. — Mas nós servimos a Lyra. E o instrumento dela lhe diz que a missão dela é esta. E, irmã, tentamos curar o ferimento dele, mas fracassamos. Tentamos o feitiço da coagulação, e não funcionou. Talvez as ervas neste mundo sejam menos potentes do que as nossas. Aqui é quente demais para o musgo-de-sangue crescer...
— Ele é estranho — Ruta Skadi comentou. — É do mesmo tipo de Lorde Asriel. Já olhou bem nos olhos dele?
— Para falar a verdade, não tive coragem — confessou Serafina Pekkala.
As duas rainhas sentaram-se em silêncio junto ao riacho.
O tempo passou, algumas estrelas desapareceram, outras nasceram. Alguém soltou um gritinho enquanto dormia: era Lyra, sonhando. As bruxas ouviram o ronco de uma tempestade e viram os raios sobre o mar e o sopé das montanhas, porém muito distante.
Mais tarde Ruta skadi perguntou:
— E a menina Lyra, qual é o papel dela? É só esse? Ela é importante porque pode levar o garoto até o pai? É mais que isso, não é?
— Isso é o que ela tem que fazer agora. Mas depois, sim, muito mais que isso. O que nós, bruxas, dissemos sobre a criança é que ela deveria colocar um fim no destino. Bem, nós conhecemos o nome que iria torná-la importante para a Sra. Coulter, e sabemos que a mulher não o conhece. A bruxa que ela estava torturando no navio perto de Svalbard quase disse qual era, mas Yambe-Akka chegou a tempo. Mas agora estou achando que Lyra pode ser aquilo que você ouviu os avantesmas falando, esse tal Ӕsahӕttr. Nem as bruxas, nem aqueles seres-anjos, mas esta criança adormecida: a arma definitiva numa guerra contra a Autoridade. Por que mais a Sra. Coulter ficaria tão ansiosa para encontrá-la?
— A Sra. Coulter foi amante de Lorde Asriel — informou Ruta Skadi. — Claro, Lyra é filha deles... Serafina Pekkala, se eu tivesse uma filha com ele, que bruxa seria ela! A rainha das rainhas!
— Psiu, irmã — fez Serafina. — Escute... E que luz é aquela?
Elas ficaram de pé, alarmadas, imaginando se alguma coisa teria passado despercebida por elas, e viram um brilho de luz vindo do local do acampamento: não era a fogueira, não tinha a menor semelhança com a luz do fogo. Correram de volta sem fazer ruído, as flechas já preparadas nos arcos, e estacaram de repente.
Todas as bruxas dormiam na relva, assim como Will e Lyra. Mas em volta das duas crianças havia mais de uma dúzia de anjos, olhos baixos, a contemplá-las.
E então Serafina entendeu algo para o qual as bruxas não tinham uma palavra: era a ideia de uma peregrinação. Ela compreendeu por que aqueles seres esperavam milhares de anos e viajavam longas distâncias para ficarem perto de alguma coisa importante, e que daí em diante seus sentimentos seriam diferentes até o final dos tempos, por terem estado por um instante na presença dessa coisa.
Era o que aquelas criaturas agora simbolizavam, aqueles belos peregrinos de luz rarefeita, postados em volta da menina de rosto sujo e saia escocesa e o menino de mão machucada que franzia a testa enquanto dormia.
Algo se mexeu junto ao pescoço de Lyra: Pantalaimon, um arminho branco como a neve, abriu os olhos negros sonolentamente e olhou em volta sem medo.
Mais tarde Lyra iria lembrar-se disso como se fosse um sonho. Pantalaimon pareceu aceitar aquela atenção como algo a que Lyra tinha direito, depois de algum tempo, enrodilhou-se e fechou os olhos novamente. Finalmente uma das criaturas abriu as asas. As outras, embora bem próximas umas das outras, fizeram a mesma coisa, e suas asas se interpenetravam sem resistência, passando uma pela outra como luz passando através de outra luz, até que havia um círculo radiante em volta das crianças adormecidas na relva.
Então os seres alçaram voo, um de cada vez, erguendo-se como labaredas no céu e aumentando de tamanho, até ficarem imensos; mas então já estavam distantes, movendo-se como estrelas cadentes em direção ao Norte.
Serafina e Ruta Skadi saltaram sobre seus galhos de pinheiro-nubígeno e seguiram-nos para o alto, mas ficaram para trás.
— Eram como as criaturas que você viu, Ruta Skadi? — Serafina perguntou, tendo as duas diminuído a velocidade do voo para contemplar as labaredas brilhantes diminuírem em direção ao horizonte.
— Maiores, eu acho, mas da mesma espécie. Não têm carne, você viu? São feitos só de luz. Seus sentidos devem ser tão diferentes dos nossos... Serafina Pekkala, vou deixá-la agora, para reunir todas as bruxas do nosso norte. Quando nos encontrarmos outra vez, será tempo de guerra. Fique bem, minha querida...
Abraçaram-se em pleno ar, e Ruta Skadi virou e partiu célere para o Sul.
Serafina ficou a observá-la, depois virou-se para ver os anjos cintilantes desaparecerem de vez na distância. Sentia apenas compaixão por aqueles imensos vigilantes. Quanta coisa eles deviam perder, nunca sentir aterra sob os pés ou o vento nos cabelos ou o arrepio que a luz das estrelas provocava na pele nua! E ela partiu um raminho do galho de pinheiro-nubígeno no qual voava e aspirou com guloso prazer o aroma acre da resina, antes de baixar lentamente para juntar-se às companheiras adormecidas na relva.

Um comentário:

  1. Acho que tenho uma ideia de quem seja Lyra.
    A bruxa torturada disse que ela a mulher que todos odiavam, as sombras disse a cientista que ela deveria fazer o papel da serpente. Este livro é muito religioso.
    Lyra só pode ser a reencarnação ou uma espécie e Eva, e Will seria o Adão deste novo mundo(visto que o mundo está mudando, de acordo com todos os relatos).

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Boa leitura :)