4 de fevereiro de 2017

13. Esgrima

O primeiro impulso dela foi de sair correndo ou então vomitar. Um ser humano sem dimon era como uma pessoa sem rosto, ou com as costelas à mostra e o coração arrancado: uma coisa antinatural e estranha, que pertencia ao mundo dos pesadelos noturnos, não ao mundo desperto e racional.
Então Lyra se agarrou a Pantalaimon; sentia a cabeça girar e tinha ânsias de vômito; apesar do frio intenso da noite, um suor doentio umedeceu sua carne com uma coisa ainda mais fria.
— Rateira! — disse o menino. — Você viu a minha Rateira?
Lyra sabia exatamente o que ele queria dizer.
— Não — respondeu, em voz tão fraca e assustada quanto ela se sentia. — Qual é o seu nome?
— Tony Makarios — ele disse. — Onde está a Rateira?
— Não sei... — ela começou, mas teve que engolir em seco para controlar a náusea. — Os Gobblers...
Mas não conseguiu continuar. Teve que sair do barracão e ir se sentar na neve sozinha, só que naturalmente ela não estava sozinha, nunca estaria sozinha, pois Pantalaimon estava sempre ali. Ah, ser afastada dele como aquele menininho tinha sido afastado da sua Rateira! A pior coisa no mundo! Ela soluçava, e Pantalaimon também gemia, e em ambos havia uma imensa piedade e tristeza por aquele meio-menino.
Então ela se levantou.
— Venha — chamou, em voz trêmula. — Tony, saia daí. Vamos levar você para um lugar seguro.
Houve um movimento dentro da peixaria, e ele apareceu à porta, ainda agarrado ao peixe seco. Estava usando roupas quentes, um casacão com capuz bem acolchoado e botas de pele, mas que aparentavam ser de segunda mão e não cabiam nele muito bem. Do lado de fora, sob a luz que vinha dos rastros desbotados da Aurora Boreal e do chão coberto de neve, ele parecia ainda mais perdido e digno de pena do que a princípio, quando estava acocorado dentro da peixaria, à luz da lamparina.
O aldeão que trouxera a lamparina tinha recuado alguns metros, e gritou alguma coisa. Iorek Byrnison traduziu:
— Ele está dizendo que você tem que pagar pelo peixe.
Lyra teve vontade de mandar o urso acabar com ele, mas disse apenas:
— Vamos livrar a aldeia da criança. Eles podem muito bem dar um peixe como pagamento.
O urso falou. O homem resmungou, mas não discutiu. Lyra colocou a lanterna na neve e pegou a mão do meio-menino para guiá-lo até o urso. Ele a acompanhou, sem mostrar surpresa ou medo diante do grande animal branco, e quando Lyra o ajudou a subir nas costas de Iorek, ele disse apenas:
— Não sei onde está a minha Rateira.
— Não, nem nós, Tony — ela respondeu. — Mas nós vamos... Vamos castigar os Gobblers. Vamos fazer isso, eu prometo. Iorek, será que você consegue me carregar também?
— A minha armadura pesa muito mais do que duas crianças.
Ela então subiu para o lado de Tony e ensinou a ele como se segurar nos pelos longos do urso, e Pantalaimon ficou dentro do capuz dela, aquecido, próximo e cheio de pena. Lyra sabia que a vontade de Pantalaimon era estender o braço e acariciar o pequeno meio-menino, lambê-lo e aquecê-lo como o dimon dele teria feito; mas o grande tabu impedia isso, naturalmente.
Atravessaram a aldeia em direção à serra, e os rostos dos aldeões mostravam horror e uma espécie de alívio temeroso ao ver aquela criatura horrivelmente mutilada ser levada embora por uma menininha e um grande urso branco.
No coração de Lyra, a repugnância lutava com a compaixão, e a compaixão venceu. Ela rodeou com os braços o corpinho magro e ossudo, para que ele não caísse. A viagem de volta à caravana foi mais fria, mais difícil e mais escura, porém pareceu passar mais depressa, apesar de tudo isso. Iorek Byrnison era incansável, e os movimentos que Lyra tinha que fazer para se equilibrar se tornaram automáticos, de modo que ela não corria perigo de cair. O corpo frio em seus braços era tão leve que de certo modo era fácil de segurar, mas por outro lado ele estava inerte, rígido, sem se mover de acordo com os movimentos do urso, portanto, de certo modo, ele era difícil de segurar.
De vez em quando, o meio-menino falava.
— Que foi que você disse? — Lyra perguntou.
— Eu disse que ela vai saber onde eu estou.
— É, vai saber, sim, vai encontrar você, e nós vamos encontrar ela. Segure com força, Tony. Não estamos longe...
O urso galopava. Lyra não tinha ideia de como estava cansada até alcançarem os gípcios. Os trenós haviam parado para o descanso dos cães, e de repente estavam todos ali, Farder Coram, Lorde Faa, Lee Scoresby, todos vindo ajudar, mas recuando em silêncio ao verem a outra figura com Lyra. Ela estava tão rígida que não conseguia sequer soltar os braços que rodeavam o corpo dele, e John Faa teve que ajudá-la.
— Meu Deus, o que é isso? — espantou-se ele. — Lyra, minha filha, o que foi que você encontrou?
— O nome dele é Tony — ela murmurou através dos lábios congelados. — E levaram o dimon dele. É isso que os Gobblers fazem.
Os homens, temerosos, ficavam a distância; mas o urso, para espanto de Lyra, lhes deu uma bronca.
— Que vergonha! Pensem no que esta criança fez! Vocês podem não ter mais coragem que ela, mas deviam ter vergonha de mostrar que têm menos!
— Tem razão, Iorek Byrnison — disse John Faa, se virando em seguida para dar ordens. — Aticem a fogueira e esquentem sopa para a criança. Para as duas crianças. Farder Coram, seu abrigo está montado?
— Está, sim, John. Traga Lyra, vamos aquecê-la.
— E o menino também — disse outra voz. — Ele pode comer e se aquecer, mesmo não...
Lyra estava tentando contar a John Faa sobre as feiticeiras, mas estavam todos muito ocupados, e ela cansada demais. Depois de momentos confusos, com vultos andando apressados de um lado para outro, ela sentiu Pantalaimon mordiscar de leve sua orelha, e acordou com o rosto do urso a poucos centímetros do seu.
— As feiticeiras — disse Pantalaimon. — Eu chamei Iorek.
— Ah, é mesmo — ela resmungou. — Iorek, obrigada por me levar e me trazer. Posso não me lembrar de contar a Lorde Faa sobre as feiticeiras, então seria melhor você fazer isso.
Ela ouviu o urso concordar e então adormeceu de vez.


Quando acordou, o dia estava claro — o que, naquela região, significava um céu pálido a sudoeste e o ar cheio de neblina cinzenta através da qual os gípcios se moviam como fantasmas corpulentos, preparando os trenós e atrelando os cães.
Lyra via isso tudo de dentro do abrigo do trenó de Farder Coram, onde ela estava deitada sob uma pilha de peles. Pantalaimon acordou antes dela e experimentava a forma de uma raposa do Ártico antes de reverter à sua forma favorita de arminho.
Iorek Byrnison estava dormindo na neve ali perto, a cabeça apoiada nas patas; mas Farder Coram estava de pé e atarefado, e assim que viu Pantalaimon ele veio mancando acordar Lyra.
Ela o viu chegar e se sentou.
— Farder Coram, sei o que era que eu não conseguia entender! O aletiômetro ficava dizendo pássaro e não, e isso não fazia sentido, porque significava “nenhum dimon” e eu não sabia como isso podia ser... Que foi?
— Lyra, eu sinto muito ter que contar isso a você depois de tudo que você fez, mas o menino morreu há uma hora. Ele não conseguia se acomodar, não conseguia ficar num lugar; não parava de perguntar pelo dimon, onde ele estava, se ele ia demorar; e ficava apertando aquele pedaço de peixe velho como se... Ah, não consigo falar sobre isso, filha; mas ele finalmente fechou os olhos e ficou imóvel, e foi a primeira vez que pareceu estar em paz, pois ficou igual a qualquer outra pessoa morta, com o dimon seguindo o curso natural. Tentaram abrir uma cova para ele, mas o chão está duro como ferro. Então John Faa ordenou que fizessem uma grande fogueira e vão cremar o corpo dele, para que ele não seja devorado pelos comedores de carniça. Minha filha, você fez uma coisa boa e corajosa, e estou orgulhoso de você. Agora que sabemos da maldade terrível de que aquela gente é capaz, vemos nosso dever com mais clareza. O que você deve fazer é comer e descansar, porque adormeceu cedo demais para se alimentar ontem à noite, e nesta temperatura é preciso comer para não enfraquecer...
Ele estava arrumando coisas, ajeitando as peles, apertando as cordas do trenó, desembaralhando as rédeas.
— Farder Coram, onde está o menino? Já foi cremado?
— Não, Lyra, está lá atrás.
— Quero ir lá ver.
Ele não poderia recusar, pois ela vira coisa pior do que um cadáver, e isto poderia acalmá-la. Então, com Pantalaimon como uma lebre branca saltitando delicadamente a seu lado, ela seguiu ao longo da fila de trenós até o local onde alguns homens empilhavam lenha.
O corpo do menino estava ao lado da trilha, coberto por um pano xadrez. Ela se ajoelhou e levantou o pano com a mão enluvada. Um dos homens parecia querer impedir, mas os outros sacudiram a cabeça.
Pantalaimon se aproximou enquanto Lyra contemplava o pobre rostinho abatido. Ela descalçou uma das luvas e tocou nos olhos dele. Estavam frios como mármore, e Farder Coram tinha razão: o coitado do Tony Makarios não era diferente de qualquer outro humano cujo dimon tivesse partido na morte. Ah, se tirassem Pantalaimon dela! Ela o pegou no colo e o abraçou como se quisesse guardá-lo dentro do coração. E tudo que o pequeno Tony tinha era seu pobre pedaço de peixe...
Onde estava o peixe?
Ela puxou a coberta: o peixe não estava lá.
No mesmo instante ela estava de pé, os olhos brilhando de fúria, interpelando os homens:
— Onde está o peixe dele?
Eles pararam de trabalhar, confusos, sem saber o que ela queria; mas alguns dos dimons deles sabiam e se entreolharam. Um dos homens esboçou um sorriso.
— Não ouse achar graça! Vou arrancar os pulmões de quem rir dele! Era tudo que ele tinha, só um pedaço velho de peixe seco, era tudo que ele tinha no lugar do seu dimon para amar e cuidar! Quem tirou o peixe dele? Onde é que ele foi parar?
Pantalaimon era um leopardo branco, como o dimon de Lorde Asriel, mas ela nem reparou nisso; tudo que via era o certo e o errado.
— Calma, Lyra — disse um homem. — Calma, criança!
— Quem foi que pegou? — ela tornou a perguntar.
O gípcio recuou um passo diante daquela fúria.
— Eu não sabia — disse outro, em tom de arrependimento. — Pensei que era o que ele andava comendo. Tirei da mão dele porque achei mais respeitoso. Só isso, Lyra.
— Então onde está?
O homem explicou, constrangido:
— Sem saber que ele precisava do peixe, eu dei para os meus cachorros. Peço que me perdoe.
— Não sou eu quem tem que perdoar, é ele — ela respondeu, e voltou a se ajoelhar ao lado da criança morta.
Então teve uma ideia, e procurou entre suas peles. O ar frio a atravessou quando ela abriu o casacão, mas em poucos segundos achou o que procurava e tirou uma moeda de ouro da bolsa antes de tornar a se agasalhar.
— Preciso da sua faca — disse ao homem que tinha tirado o peixe; depois se virou para Pantalaimon: — Como era o nome dele?
Pantalaimon compreendeu, naturalmente, e disse:
— Rateira.
Ela segurou a moeda com força na mão esquerda enluvada, e segurando a faca como um lápis gravou no metal o nome do dimon perdido.
— Espero que isto sirva, se eu fizer como um Catedrático da Jordan — ela cochichou para o menino morto.
Forçou os dentes dele a se abrirem o suficiente para ela enfiar a moeda. Foi difícil, mas ela conseguiu, e conseguiu também fechar novamente a boca. Então devolveu a faca ao homem e na penumbra da manhã saiu para ir procurar Farder Coram.
Ele deu a ela uma caneca de sopa saída do fogo, que ela bebericou com prazer.
— O que vamos fazer com as feiticeiras, Farder Coram? — ela quis saber. — Será que a sua feiticeira estava com eles?
— A minha feiticeira? Realmente não tenho ideia, Lyra. Elas podem estar indo a qualquer lugar. A vida das feiticeiras é cheia de vários tipos de preocupações, coisas invisíveis para nós, doenças misteriosas que as atacam e a nós não, motivos de guerra além da nossa compreensão, alegrias e tristezas ligadas à florescência de pequenas plantinhas na tundra... Mas eu gostaria de ter visto esse voo, Lyra. Gostaria de poder ver uma coisa como essa. Agora beba a sopa toda. Quer mais? Temos um pão assando, também. Coma bastante, filha, porque logo partiremos.
O alimento fortaleceu Lyra, e o gelo em sua alma começou a derreter. Com os outros, ela foi ver o pequeno meio-menino ser colocado em sua pira fúnebre, e inclinou a cabeça e fechou os olhos durante as orações feitas por John Faa; e então os homens aspergiram álcool de carvão e acenderam o fogo, que num instante se alastrou.
Uma vez certos de que o cadáver tinha sido todo consumido, os viajantes recomeçaram a jornada. Foi uma viagem fantasmagórica: logo começou a nevar, e num instante o mundo estava reduzido às sombras cinzentas dos cães, aos solavancos e estalidos dos trenós, ao frio cortante e a um mar agitado de grandes flocos pouco mais escuros do que o céu e pouco mais claros do que o solo.
Mesmo assim, os cães continuaram a correr, caudas no ar, soltando vapor pela boca. Avançavam para o norte, enquanto o pálido meio-dia chegava e passava, e o crepúsculo tornava a abraçar o mundo. Pararam para comer, beber e descansar numa fenda entre os montes, e para verificar a direção, e enquanto John Faa conversava com Lee Scoresby sobre a melhor maneira de utilizar o balão, Lyra pensou na mosca-espiã e foi perguntar a Farder Coram o que havia acontecido com a lata de folhas de fumar onde ele aprisionara o inseto.
— Está bem guardada — ele contou. — Está no fundo daquela valise, mas não dá para abrir; lá no navio eu soldei a tampa, como falei que ia fazer. Não sei o que vamos fazer com ela, para dizer a verdade; talvez jogar no fundo de uma mina de fogo, talvez isso resolvesse. Mas não precisa se preocupar, Lyra. Enquanto eu estiver com ela, você está segura.
Na primeira oportunidade, ela enfiou o braço dentro da lona congelada da valise e tirou a latinha. Antes mesmo de encostar nela, ela sentiu o zumbido.
Enquanto Farder Coram conversava com os outros chefes, ela levou a lata a Iorek Byrnison e explicou sua ideia. Aquilo lhe ocorrera quando ela se lembrou da facilidade com que ele rasgara o metal da cobertura do motor.
Ele escutou, e então pegou a tampa de uma lata de biscoitos e com facilidade a enrolou formando um cilindro pequeno e chato. Lyra ficou impressionada com a habilidade das mãos dele: ao contrário da maioria dos ursos, ele e os outros da sua espécie tinham garras-polegares opositivas, com as quais podiam segurar com firmeza as coisas; além disso, ele possuía um sentido inato da força e flexibilidade dos metais, o que significava que bastava erguer um pedaço de metal, flexioná-lo desta ou daquela maneira, e então raspar nele um círculo com a garra para marcar o lugar de dobrar. Foi o que fez, dobrando as laterais até formar uma caixinha redonda e uma tampa que lhe servisse. A pedido de Lyra, ele fez duas dessas: uma do mesmo tamanho da lata de folhas de fumar e outra onde coubesse a lata e uma boa quantidade de pelos e musgo bem comprimidos para abafar o zumbido. Fechada, a caixa tinha o mesmo tamanho e formato do aletiômetro.
Depois de tudo pronto, ela se sentou ao lado de Iorek Byrnison enquanto o urso mastigava um pernil de rena congelado e duro como madeira.
— Iorek, é ruim não ter dimon? Você não se sente solitário? — ela quis saber.
— Solitário? — ele repetiu. — Não sei. Eles me dizem que está frio: não sei o que é frio, porque não sinto frio. Do mesmo modo, não sei o que é solidão. Os ursos foram feitos para ficarem sozinhos.
— E os ursos de Svalbard? Eles são milhares, não são? Foi o que ouvi dizer.
Ele não respondeu, e partiu a carne ao meio com um som como um tronco rachando.
— Perdão, Iorek — ela disse. — Não quis ofender. É que fico curiosa. Sabe, fico ainda mais curiosa sobre os ursos de Svalbard por causa do meu pai.
— Quem é o seu pai?
— Lorde Asriel. E ele está preso em Svalbard, entende? Acho que os Gobblers traíram ele e pagaram aos ursos para que ele fique preso lá.
— Não sei. Não sou um urso de Svalbard.
— Pensei que era...
— Não. Já fui um urso de Svalbard, mas agora não sou. Fui expulso como castigo porque matei outro urso. Então tiraram o meu cargo, a minha fortuna e a minha armadura, e me mandaram viver na fronteira do mundo humano e lutar quando alguém me contratasse para isso, ou trabalhar em coisas brutais e afogar as lembranças no álcool.
— Por que matou o outro urso?
— De raiva. Entre os ursos existem maneiras de afastar a raiva de um pelo outro, mas eu estava fora de meu próprio controle. Então matei ele e fui castigado com justiça.
— E você era rico e importante — disse Lyra, impressionada. — Exatamente como o meu pai, Iorek! Foi exatamente o que aconteceu com ele depois que eu nasci; ele também matou alguém e então tiraram toda a fortuna dele. Foi muito antes de virar prisioneiro em Svalbard. Não sei nada de Svalbard, a não ser que fica no Extremo Norte... É tudo coberto de gelo? Pode-se chegar lá atravessando o mar congelado?
— Não partindo deste litoral. O mar às vezes congela ao sul, às vezes não. Você ia precisar de um barco.
— Ou um balão, talvez.
— É, um balão, mas então você ia precisar do vento certo.
Ele mordeu o pernil de rena, e uma ideia louca entrou na cabeça de Lyra quando ela se lembrou de todas aquelas feiticeiras no céu noturno, mas não falou nada sobre o assunto. Em vez disso, fez perguntas a Iorek Byrnison sobre Svalbard e escutou atentamente enquanto ele lhe falava das geleiras que deslizavam devagar; das rochas e icebergs onde os leões-marinhos de presas brilhantes se reuniam em grupos de cem ou mais; dos mares repletos de focas, dos narvais batendo as compridas presas brancas acima da água gelada; da enorme costa escura e cercada de ferro, os penhascos com quase 500 metros de altura onde os imundos avantesmas-dos-penhascos voejavam e se empoleiravam; das minas de carvão e minas de fogo onde os ursos-ferreiros martelavam grandes folhas de ferro e com elas fabricavam armaduras...
— Se eles tomaram a sua armadura, Iorek, onde foi que arranjou esta?
— Eu mesmo fiz em Nova Zembla, com ferro-celeste. Até fazer isso eu estava incompleto.
— Quer dizer que os ursos conseguem fazer sua própria alma... — disse ela. Havia muita coisa a aprender no mundo. — Quem é o rei de Svalbard? Os ursos têm rei?
— O nome dele é Iofur Raknison.
Aquele nome disparou um alarme na mente de Lyra; ela já havia ouvido aquele nome, mas onde? E não tinha sido pela voz de um urso, nem de um gípcio. A voz que pronunciara esse nome era de um Catedrático — precisa, pedante e indolentemente arrogante, uma voz bem típica da Faculdade Jordan. Ela tentou se lembrar. Ah, conhecia tão bem aquela voz!
E então lembrou: a Sala Privativa, os Catedráticos ouvindo Lorde Asriel. Tinha sido o Catedrático de Palmeriano quem falara alguma coisa sobre Iofur Raknison. Ele tinha usado a palavra panserbjorne, que Lyra não conhecia, e na ocasião ela não sabia que Iofur Raknison era um urso: mas o que havia sido dito? O rei de Svalbard era vaidoso e podia ser adulado.
Havia mais alguma coisa; se ao menos ela conseguisse recordar... Mas muita coisa acontecera desde então.
— Se seu pai é prisioneiro dos ursos de Svalbard, ele não vai conseguir escapar — Iorek Byrnison declarou. — Não há madeira para fazer um barco. Por outro lado, se ele é um fidalgo, será bem tratado. Vão lhe dar uma casa para morar, um criado, comida e combustível.
— Os ursos podem ser derrotados, Iorek?
— Não.
— Ou talvez enganados?
Ele parou de mastigar e olhou diretamente para ela. Então disse:
— Você nunca vai derrotar os ursos de armadura. Já viu a minha armadura; agora veja as minhas armas.
Largou a carne e estendeu as patas, com a palma para cima, para que ela visse. Cada palma era coberta de pele calejada com mais de 3 centímetros de espessura, e cada garra era pelo menos tão comprida quanto a mão de Lyra, e afiada como faca. Ele deixou que ela as apalpasse.
— Um golpe pode esmagar o crânio de uma foca — ele disse. — Ou quebrar a coluna de um homem, ou arrancar um membro. E posso morder. Se você não tivesse me impedido, em Trollesund, eu teria esmagado a cabeça daquele homem como um ovo. Já falei da força, agora vou falar da esperteza; não se consegue enganar um urso. Quer uma prova? Pegue um graveto e vamos esgrimir.
Ansiosa para experimentar, ela quebrou o galho de uma moita coberta de neve, tirou todas as folhas e o empunhou como se fosse uma espada. Iorek Byrnison ficou sentado nas patas traseiras, à espera. Quando estava pronta, ela o atacou, mas não quis golpeá-lo porque ele parecia muito pacífico. Então ficou brandindo a arma, avançando pelos lados, sem pretender encostar nele, e ele não se mexeu. Ela fez isso várias vezes, e nem uma vez ele se moveu um centímetro.
Finalmente ela resolveu golpeá-lo diretamente, sem força, mas apenas tocando a ponta do galho no estômago dele; no mesmo instante, ele estendeu a pata e afastou o galho para o lado.
Surpresa, ela tentou novamente, com o mesmo resultado. Ele se movimentava com muito mais rapidez e segurança do que ela. Ela tentou acertá-lo de verdade, movimentando o pedaço de pau como a arma de um espadachim, e nem uma vez tocou no corpo dele. Ele parecia saber antes dela o que ela pretendia fazer, e quando ela mirava a cabeça dele, a enorme pata desviava o galho. Quando ela fazia uma finta, ele não se movia.
Ela ficou com raiva e partiu para um ataque furioso, golpe após golpe, e nem uma vez conseguiu enganar aquelas patas; elas estavam em toda parte, no momento exato de aparar, no lugar exato de bloquear.
Finalmente ela ficou com medo e parou. Estava suando dentro das peles, sem fôlego, exausta, e o urso continuava sentado tranquilamente. Mesmo se ela tivesse uma espada de verdade com a ponta aguçada, ele estaria ileso.
— Aposto que você consegue aparar uma bala de espingarda — ela disse, jogando longe o galho. — Como é que consegue?
— Não sendo um humano — ele respondeu. — É por isso que você nunca conseguiria enganar um urso. Enxergamos truques e mentiras como enxergamos pernas e braços. Conseguimos ver de um modo que os humanos esqueceram. Mas você sabe disso; afinal, consegue entender o leitor de símbolos.
— Não é a mesma coisa, é?
Ela estava mais nervosa com o urso agora do que quando ele estava furioso.
— É, sim — ele confirmou. — Pelo que sei, os adultos não conseguem fazer isso. Aquilo que eu sou para os lutadores humanos você é para os adultos com o leitor de símbolos.
— É, pode ser — disse ela, confusa e de má vontade. — Isso quer dizer que quando eu crescer vou esquecer?
— Quem sabe? Nunca tinha visto um leitor de símbolos, nem alguém que conseguisse ler um. Talvez você seja diferente dos outros.
Ele ficou de quatro novamente e voltou a comer sua carne. Lyra tinha desabotoado o agasalho de peles, mas agora o frio era muito, e ela teve que fechar outra vez.
No geral, fora um episódio inquietante. Ela estava com vontade de consultar o aletiômetro ali mesmo, mas o frio era insuportável, e além disso estavam chamando por ela porque era hora de seguir viagem. Ela pegou as latas que Iorek Byrnison tinha feito, colocou a que estava vazia dentro da valise de Farder Coram e colocou a que continha a mosca-espiã junto com o aletiômetro na sacola que levava na cintura. Ficou contente quando se puseram em marcha.


Os chefes haviam concordado com Lee Scoresby que quando chegassem à parada seguinte iriam inflar o balão e ele iria espionar do ar. Naturalmente Lyra estava doida para voar com ele e, obviamente, isso foi proibido; mas ela estava viajando no trenó dele e oencheu de perguntas.
— Sr. Scoresby, como voaria até Svalbard?
— Você ia precisar de um dirigível com um motor a gás, alguma coisa como um zepelim, ou então um bom vento sul. Mas eu não teria coragem, droga. Você já viu aquele lugar? O buraco mais feio, triste, ruim, esquecido que pode existir.
— Eu só estava pensando, se Iorek Byrnison quisesse voltar...
— Iria ser morto. Iorek é um degredado; assim que colocasse os pés lá iria ser feito em pedaços.
— Como é que o senhor infla o balão, Sr. Scoresby?
— De dois modos. Posso fazer hidrogênio derramando ácido sulfúrico em raspas de ferro. A gente recolhe o gás que ele solta e aos poucos enche o balão. A outra maneira é encontrar um exaustor de gás do solo perto de uma mina de fogo. Há muito gás no subsolo daqui, e também óleo pétreo. Posso extrair gás do óleo pétreo, se precisar, e também do carvão. Não é difícil fazer gás. Porém a maneira mais rápida é usar gás do solo. Um bom exaustor consegue encher o balão em uma hora.
— Quantas pessoas o senhor pode carregar?
— Seis, se for preciso.
— Poderia carregar Iorek Byrnison de armadura?
— Já fiz isso. Uma vez, eu o salvei dos tártaros, quando ele estava cercado, e eles queriam que ele morresse de fome. Foi na campanha do Tunguska; voei até lá e tirei Iorek. Parece fácil, droga, mas tive que adivinhar o peso do garotão. E então tive que contar com achar gás do solo debaixo da fortaleza de gelo que ele tinha feito. Mas lá de cima eu conseguia ver o tipo de solo que era, e calculei que podíamos cavar. Sabe, para descer eu tenho que soltar gás do balão, e só posso subir de novo com mais gás. De qualquer maneira, nós conseguimos, com a armadura e tudo.
— Sr. Scoresby, sabe que os tártaros fazem buracos na cabeça das pessoas?
— Ah, claro. Fazem isso há milhares de anos. Na guerra de Tunguska, capturamos cinco tártaros vivos, e três deles tinham um buraco na cabeça. Um deles tinha dois.
— Fazem isso uns nos outros?
— Isso mesmo. Primeiro cortam um semicírculo de pele no couro cabeludo, para que possam levantar a pele e expor o osso. Então cortam e retiram do crânio um pequeno círculo de osso, com muito cuidado para não atingir o cérebro, e então tornam a costurar o couro cabeludo por cima.
— Pensei que fizessem isso nos inimigos!
— Claro que não. É um grande privilégio. Fazem isso para que os Deuses possam falar com eles.
— Já ouviu falar num explorador chamado Stanislaus Grumman?
— Grumman? Claro. Conheci um homem da equipe dele quando atravessei o rio Yenisei de balão há dois anos. Ele ia morar com as tribos tártaras por lá. Aliás, acho que ele também tinha o tal buraco na cabeça. Fazia parte de uma cerimônia de iniciação, mas o sujeito me disse que não entendia nada daquilo.
— Então... Se ele era como um tártaro honorário, eles não iam matá-lo?
— Matá-lo? Então ele está morto?
— Está, sim. Eu vi a cabeça dele — disse Lyra com orgulho. — Foi meu pai quem encontrou. Vi quando ele mostrou a cabeça para os Catedráticos na Faculdade Jordan em Oxford. Estava escalpelada e tudo.
— E quem foi que escalpelou?
— Bom, os tártaros, foi o que os Catedráticos pensaram... Mas talvez não tenha sido.
— Pode não ter sido a cabeça de Grumman — disse Lee Scoresby. — Seu pai pode ter enganado os Catedráticos.
— É, acho que sim — disse Lyra pensativamente. — Ele estava pedindo dinheiro a eles.
— E quando viram a cabeça eles deram o dinheiro?
— Foi.
— Belo truque. As pessoas ficam chocadas quando veem esse tipo de coisa. Não fazem questão de olhar de perto.
— Especialmente Catedráticos — Lyra acrescentou.
— Bom, você deve saber melhor que eu. Mas se era mesmo a cabeça do Grumman, aposto que não foram os tártaros que escalpelaram. Eles escalpelam os inimigos, não os seus, e ele era um tártaro por adoção.
Enquanto seguiam viagem, Lyra ficou remoendo essas coisas. Havia fortes correntes cheias de significado fluindo ao seu redor: os Gobblers e sua crueldade, o medo que tinham do Pó, a cidade na Aurora Boreal, o pai dela em Svalbard, a mãe... onde estaria sua mãe? O aletiômetro, as feiticeiras voando para o norte. E o pobre coitado do Tony Makarios; e a mosca-espiã movida a corda; e a esperteza extraordinária de Iorek Byrnison...
Ela adormeceu. E cada hora os levava mais para perto de Bolvangar.

3 comentários:

  1. Só de ler essa parte sobre os Tártaros... aaai

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  2. Luamara feiticeira dimon dragão10 de março de 2017 20:07

    eu aqui: li eragon,the 39 clues(todas as 3 temporadas),gatos guerreiros,vejo o livro e penso:ah,parece legalzinho,vai ser bom pra relaxar um pouco............sabe de nada inocente.

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Boa leitura :)