17 de fevereiro de 2017

12. A quebra

Ainda quando fugia, o olhar mantinha voltado para trás, como se seu medo ainda o estivesse seguindo, vindo logo atrás.
Edmund Spencer

À medida que a escuridão da noite ia caindo, as coisas se encontravam no seguinte pé.
Em sua torre adamantina, inquieto, Lorde Asriel andava de um lado para outro, sem cessar. Sua atenção estava cravada na figura pequenina ao lado do magneto ressonante e todas as outras transmissões tinham sido desviadas, todas as partículas de sua mente estavam concentradas no pequeno bloco quadrado de pedra sob a luz da lamparina.
O Rei Ogunwe estava na cabine de comando de seu giróptero, rapidamente preparando um plano para frustrar as intenções do Tribunal Consistorial, das quais acabara de tomar conhecimento através do galivespiano em sua aeronave. O navegador escreveu alguns números num pedaço de papel, que entregou ao piloto. A questão essencial era velocidade: conseguir pôr as tropas em terra primeiro faria toda a diferença. Os girópteros eram mais velozes que os zepelins, mas ainda estavam um pouco atrasados. Nos zepelins do Tribunal Consistorial, a Guarda Suíça preparava seu equipamento de combate. Suas bestas eram mortais numa distância de até 460 metros e um arqueiro podia carregar e disparar 15 flechas curtas por minuto. As barbatanas em espiral, feitas de chifre, davam a essas setas um movimento giratório e tornavam a pontaria da arma precisa como a de uma espingarda. Também era, é claro, silenciosa, algo que podia ser uma grande vantagem.
A Sra. Coulter estava acordada na entrada da caverna. O macaco dourado estava inquieto e frustrado: os morcegos tinham deixado a caverna quando começara a escurecer e não havia nada que pudesse atormentar. Ficou rondando em volta do saco de dormir da Sra. Coulter, esmigalhando com um dedo pontudo os vaga-lumes que ocasionalmente vinham pousar na caverna e esfregando sua luminescência na pedra.
Lyra continuava deitada, acalorada e quase que igualmente inquieta, mas muito, muito profundamente adormecida, confinada ao esquecimento pelo trago de bebida que sua mãe a havia forçado a engolir, apenas uma hora antes. Havia um sonho que a ocupara durante muito tempo anteriormente e agora ele tinha voltado, e pequenos gemidos, tão característicos de Lyra, de pena, de raiva e de determinação, sacudiam seu peito e sua garganta, fazendo Pantalaimon ranger seus dentes de arminho em solidariedade. Não muito longe, sob os pinheiros batidos pelo vento na trilha da floresta, Will e Ama estavam se aproximando a caminho da caverna. Will tinha tentado explicar a Ama o que iria fazer, mas o dimon dela não tinha conseguido compreender e quando ele cortou uma janela e mostrou a ela, ficou tão apavorada que quase desmaiou. Ele teve que andar mais devagar e falar baixinho para conseguir mantê-la por perto, pois ela se recusava a deixá-lo tocar no embrulho de pó e até mesmo contar a ele como deveria ser usado. Afinal ele foi obrigado a dizer simplesmente:
— Mantenha-se em silêncio e siga-me — e a esperar que ela o fizesse.
Iorek, vestido em sua armadura, estava em algum lugar nas proximidades, esperando para impedir a passagem dos soldados dos zepelins, de modo a dar a Will tempo suficiente para agir. O que nenhum dos dois sabia era que as forças de Lorde Asriel também estavam se aproximando: o vento, de tempos em tempos, trazia aos ouvidos de Iorek um ruído distante de batimentos, mas, apesar de conhecer o barulho que os motores de um zepelim faziam, nunca tinha ouvido o som de um giróptero, de modo que aquilo não lhe dizia nada. Balthamos talvez pudesse ter-lhes dito, mas Will estava preocupado com ele. Agora que tinham encontrado Lyra, o anjo começara a se recolher novamente em seu luto: estava calado, distraído e mal-humorado. E aquilo, por sua vez, tornava mais difícil falar com Ama.
Quando fizeram uma parada na trilha, Will disse para o ar:
— Balthamos? Você está aí?
— Estou — respondeu o anjo monotonamente.
— Balthamos, por favor, fique comigo. Fique perto e me avise de qualquer perigo. Eu preciso de você.
— Eu ainda não abandonei você — retrucou o anjo. E isso foi o máximo que Will conseguiu arrancar dele.
Bem longe nas alturas, no ar turbulento, Tialys e Salmakia voavam alto sobre o vale, tentando ver onde ficava a caverna. As libélulas fariam exatamente o que ordenassem, mas seus corpos não lidavam com facilidade com o frio e, além disso, estavam sendo perigosamente sacudidas e jogadas pelo vento fone. Seus cavaleiros as guiaram para mais baixo, sob a proteção das árvores, e então foram voando de galho em galho, procurando se situar na escuridão que aumentava.
Will e Ama se esgueiraram sob o vento forte, ao luar, até o ponto mais próximo que podiam alcançar que ainda ficasse fora do ângulo de visão da caverna.
Calhou de ser atrás de um arbusto muito frondoso a pouca distância da trilha, ali ele cortou uma janela no ar.
O único mundo que conseguiu encontrar, com a mesma conformação de terreno, era um lugar deserto, rochoso, onde a lua brilhava forte, do alto de um céu estrelado, sobre um solo esbranquiçado, descorado como osso, onde pequenos insetos se arrastavam e emitiam seus ruídos secos, rangidos, em meio a um vasto silêncio.
Ama o seguiu pela janela, com dedos e polegares se esfregando furiosamente para protegê-la dos demônios que deviam estar assombrando aquele lugar horrível, e seu dimon, imediatamente se adaptando, se transformou num lagarto e correu sobre as rochas com pés ligeiros. Will percebeu um problema. Era simplesmente que o luar intenso, banhando as rochas esbranquiçadas, iria brilhar como uma lanterna quando ele abrisse a janela na caverna da Sra. Coulter. Teria que abri-la rapidamente, puxar Lyra para o outro lado e fechá-la imediatamente.
Podiam deixar para acordá-la naquele mundo, onde era mais seguro.
Ele parou na encosta ofuscante e disse para Ama:
— Temos que agir muito rápido e nos manter completamente silenciosos. Não fazer nenhum barulho, nem um sussurro.
Ama compreendeu, embora estivesse assustada. O pequeno embrulho de pó estava no bolso de seu peito: tinha verificado uma dúzia de vezes, ela e seu dimon tinham ensaiado a tarefa tantas vezes que tinha certeza de que seriam capazes de executá-la até na escuridão total.
Eles foram escalando as rochas esbranquiçadas, cor de osso, Will medindo cuidadosamente a distância até que calculou que estariam dentro da caverna.
Então pegou a faca e cortou a menor janela possível, por onde pudesse ver, não maior que o círculo que ele fazia juntando o polegar com o indicador. Rapidamente encostou o olho nela, para impedir que o luar passasse, e olhou para o outro lado. Estava tudo lá: tinha calculado bem. Podia ver a entrada da caverna mais para frente, as rochas escuras, delineadas no céu noturno, podia ver o vulto da Sra. Coulter, dormindo, com seu dimon dourado a seu lado, podia ver até o rabo do macaco, descansando negligentemente sobre o saco de dormir.
Mudando de ângulo e olhando para mais perto, viu a rocha atrás da qual Lyra estivera deitada. Contudo não conseguia vê-la. Estaria perto demais? Ele fechou a janela, deu um ou dois passos para trás e abriu de novo. Ela não estava lá.
— Escute — disse para Ama e seu dimon — a mulher mudou Lyra de lugar e não consigo ver onde ela está. Vou ter que atravessar a janela e procurar dentro da caverna até descobrir onde ela está, então corto outra janela assim que tiver encontrado. De modo que fique um pouco afastada, mantenha-se fora do caminho para eu não cortar você acidentalmente quando voltar.
— Nós devíamos atravessar juntos — disse Ama — porque eu sei como acordá-la e você não sabe, e eu conheço a caverna melhor que você.
O rosto dela tinha uma expressão teimosa, os lábios comprimidos, os punhos cerrados. Seu dimon lagarto adquiriu um colar natural que ele levantou e abriu em volta do pescoço.
— Ah, então está bem — concordou Will. — Mas vamos atravessar rapidamente e em silêncio absoluto, e você faz exatamente o que eu mandar, na hora em que eu disser, entendeu?
Ela balançou a cabeça concordando e, mais uma vez, bateu de leve no bolso para se certificar de que o remédio estava lá.
Will fez uma pequena abertura, bem baixa, olhou através dela e a aumentou rapidamente, e de quatro, engatinhando nas mãos e nos joelhos, atravessou num instante. Ama estava bem atrás dele e, no total, a janela ficou aberta durante menos de dez segundos.
Os dois se agacharam no solo da caverna, se escondendo atrás de um grande pedregulho, com Balthamos, sob a forma de passarinho, bem ao lado, os olhos deles levaram alguns instantes para se ajustar à luz brilhante do luar do outro mundo. Dentro da caverna estava muito mais escuro e muito mais cheio de sons: principalmente do vento agitando as árvores, mas também havia um outro som mais baixo. Era o rugido do motor de um zepelim, e não estava muito distante.
Com a faca na mão direita, Will se equilibrou com cuidado e olhou em volta. Ama estava fazendo a mesma coisa e, com olhos de coruja, seu dimon também olhava de um lado para outro, mas Lyra não estava daquele lado da caverna. Quanto a isso não havia mais dúvida.
Will levantou a cabeça sobre o pedregulho e lançou um longo olhar na direção da entrada, onde a Sra. Coulter e seu dimon estavam dormindo. E então seu coração se contraiu. Lá estava Lyra, deitada nas profundezas de seu sono, bem ao lado da Sra. Coulter. Os contornos das duas se fundiam na escuridão, não era de espantar que ele não a tivesse visto. Will tocou na mão de Ama e apontou.
— Vamos ter que fazer isto com muito cuidado — sussurrou.
Alguma coisa estava acontecendo do lado de fora. O rugido dos zepelins agora estava muito mais alto que o vento batendo nas árvores e havia luzes se movendo por lá, vindas do alto, iluminando o solo, através dos galhos. Quanto mais depressa conseguissem tirar Lyra dali, melhor, e isso significava correr até lá agora, antes que a Sra. Coulter acordasse, cortar uma abertura, puxá-la por ela e fechar de novo.
Ele sussurrou para Ama. Ela assentiu.
Então, quando ele estava pronto para agir, a Sra. Coulter acordou. Ela se mexeu e disse alguma coisa, imediatamente o macaco dourado se levantou de um salto.
Will podia ver a silhueta dele na boca da caverna, agachado, alerta, e então a Sra. Coulter se levantou, protegendo os olhos da luz que vinha de fora.
A mão esquerda de Will segurava o pulso de Ama com firmeza. A Sra. Coulter se levantou, totalmente vestida, ágil, alerta, como se absolutamente não tivesse estado dormindo pouco antes. Talvez tivesse estado acordada o tempo todo. Ela e o macaco dourado estavam agachados, escondidos junto à entrada da caverna, observando e ouvindo, enquanto as luzes dos zepelins balançavam de um lado para outro acima das copas das árvores e os motores rugiam, e gritos de vozes masculinas fazendo advertências ou dando ordens deixavam evidente que eles deveriam tratar de se mexer depressa, muito depressa.
Will apertou o pulso de Ama e avançou rapidamente, observando o solo para não tropeçar, correu depressa, mantendo-se abaixado. Logo estava ao lado de Lyra e ela estava profundamente adormecida, com Pantalaimon aninhado em volta de seu pescoço, e então Will levantou a faca e um minuto depois teria havido uma abertura através da qual poderia puxar Lyra para um lugar seguro. Mas ele levantou o olhar. Olhou para a Sra. Coulter. Ela tinha se virado para trás, em silêncio, o clarão vindo do céu, refletindo na parede úmida da caverna, iluminou seu rosto e, por um instante, não era mais absolutamente o rosto dela, era o rosto da mãe dele, censurando-o, e seu coração tremeu de dor, então, quando ele golpeou com a faca, sua mente devaneou e, com uma torção e um estalo, a faca caiu em pedaços no chão.
Estava quebrada.
Agora ele não poderia mais cortar uma abertura para sair.
Ele disse para Ama:
— Acorde-a. Agora.
Então se levantou, pronto para lutar. Primeiro iria estrangular aquele macaco. Estava tenso, pronto para enfrentar seu bote, e descobriu que ainda tinha o cabo da faca na mão: pelo menos poderia usá-lo para bater nele. Mas não houve ataque, nem do macaco dourado, nem da Sra. Coulter. Ela simplesmente se moveu um pouco para permitir que a luz vinda de fora mostrasse a pistola em sua mão. Ao fazer isso, permitiu que a luz passasse mostrando o que Ama estava fazendo: ela estava salpicando um pó no lábio superior de Lyra e observando enquanto Lyra inspirava o pó, ajudando a empurrá-lo para dentro das narinas, usando a cauda de seu dimon como pincel.
Will ouviu uma alteração nos sons que vinham de fora: havia uma outra nota além do rugido dos zepelins. Parecia familiar, como uma intrusão vinda de seu mundo, e ele então reconheceu o ruído de um helicóptero. Logo veio outro e mais outro, e mais luzes estavam varrendo as árvores em movimento contínuo lá fora, num leque de radiação verde brilhante.
A Sra. Coulter virou-se rapidamente quando ouviu o novo som, mas por um instante muito breve para que Will pudesse saltar e tomar-lhe a arma. Quanto ao macaco dourado, olhava furioso para Will, sem piscar, agachado, pronto para saltar em cima dele.
Lyra estava se mexendo e murmurando. Will se abaixou e apertou a mão dela, e o outro dimon sacudiu de leve Pantalaimon, levantando sua cabeça, sussurrando para ele.
Do lado de fora veio um grito e um homem caiu do céu com uma pancada violenta, nauseante, a menos de cinco metros da entrada da caverna. A Sra. Coulter se manteve impassível, olhou friamente para ele, depois se virou de volta para Will. Um instante depois houve um disparo de tiros de uma carabina vindo do alto e um segundo depois uma tempestade de tiros se desencadeou, e o céu se encheu de explosões, do crepitar de chamas, de rajadas de balas de armas de fogo.
Lyra estava lutando para recuperar a consciência, arquejando, suspirando, gemendo, se apoiando para se levantar e depois caindo enfraquecida e Pantalaimon estava bocejando, se espreguiçando e resmungando com o outro dimon, despencando desajeitada mente para o lado quando seus músculos se recusavam a obedecer.
Quanto a Will, ele estava vasculhando o solo da caverna com o maior cuidado, catando os pedaços da faca quebrada. Não havia tempo para se perguntar como aquilo teria acontecido, ou se ela poderia ser reparada, mas ele era o portador da faca e tinha que juntar e guardar todos os pedaços. À medida que foi encontrando cada pedaço, pegava-o cuidadosamente, cada nervo em seu corpo consciente dos dedos que faltavam, e o enfiava na bainha. Podia ver os pedaços com facilidade porque o metal refletia a luz vinda de fora: eram sete, o menor sendo a ponta. Ele recolheu todos os pedaços e então se virou para tentar entender a luta que estava ocorrendo lá fora. Em algum lugar acima das árvores, os zepelins estavam pairando no ar, e homens vinham descendo por cordas, mas o vento tornava difícil para os pilotos manterem as aeronaves estacionárias.
Enquanto isso, os primeiros girópteros tinham chegado ao alto do penhasco. Só havia espaço para que aterrissasse um de cada vez e depois os carabineiros africanos tinham que descer pela parede de rocha. Fora um deles que tinha sido abatido por um tiro afortunado, disparado por alguém nos zepelins oscilantes.
A essa altura os dois lados já tinham desembarcado tropas. Alguns tinham sido mortos entre o céu e o solo, vários estavam feridos e caídos na encosta ou entre as árvores. Mas nenhuma das duas forças havia alcançado a caverna, e o poder ali dentro ainda estava nas mãos da Sra. Coulter.
Will disse, falando mais alto que o barulho:
— O que vai fazer?
— Manter vocês prisioneiros.
— O que, como reféns? Por que eles haveriam de dar qualquer importância a isso? Eles querem nos matar.
— Uma força quer, sem dúvida — respondeu ela — mas não tenho certeza com relação à outra. Devemos torcer para que os africanos vençam. — Ela parecia satisfeita e, no clarão que vinha de fora, Will viu que seu rosto estava cheio de felicidade, de vida e energia. — Você quebrou a faca.
— Não, eu não quebrei. Eu a queria inteira, de modo que pudéssemos escapar. Foi você quem a quebrou.
A voz de Lyra chamou aflita:
— Will — murmurou. — Will, é você?
— Lyra! — exclamou ele e se ajoelhou ao lado dela. Ama a estava ajudando a se levantar.
— O que está acontecendo? — perguntou Lyra. — Onde estamos? Ah, Will, eu tive um sonho...
— Estamos numa caverna. Não se mexa muito depressa, senão vai ficar tonta. Vá andando devagar. Procure recuperar suas forças. Você esteve dormindo durante dias e dias.
Os olhos dela ainda estavam pesados e ela era sacudida por profundos bocejos, mas estava desesperada para ficar desperta e ele a ajudou a se levantar, pondo o braço dela sobre seu ombro e sustentando a maior parte de seu peso. Ama observou timidamente, pois agora que a estranha menina estava acordada, a deixava nervosa. Will inspirou sentindo o perfume do corpo de Lyra com alegre satisfação: ela estava ali, ela era real. Eles sentaram num pedregulho. Lyra segurou a mão dele e esfregou os olhos.
— O que está acontecendo, Will?
— Nossa amiga aqui, Ama, conseguiu um pó para acordar você — explicou ele, falando muito depressa, e Lyra se virou para a menina, vendo-a pela primeira vez, e pôs a mão sobre o ombro de Ama em sinal de agradecimento. — Vim para cá o mais rápido que pude — prosseguiu Will — mas alguns soldados também vieram. Não sei quem são eles. Vamos sair assim que pudermos.
Lá fora o barulho e a confusão estavam chegando ao auge, um dos girópteros tinha levado uma rajada de balas de uma metralhadora de um zepelim, enquanto os carabineiros saltavam para o alto do penhasco, e explodira em chamas, não somente matando sua tripulação, como impedindo os girópteros que faltavam de aterrissar.
Enquanto isso, mais um zepelim havia encontrado uma área livre mais abaixo no vale, e os homens armados de bestas que desembarcaram dele agora vinham correndo, subindo pela trilha para dar reforço aos que já estavam em ação. A Sra. Coulter estava seguindo tudo que podia da entrada da caverna e, naquele momento, levantou a pistola, segurando-a com as duas mãos, e mirou cuidadosamente antes de atirar. Will viu o clarão do disparo, mas não ouviu nada por causa das explosões e do tiroteio lá fora.
“Se ela fizer isso de novo”, pensou, “vou correr e derrubá-la”, e ele se virou para sussurrar para Balthamos, mas o anjo não estava em nenhum lugar por perto. Em vez disso, Will viu com desolação que ele estava encolhido contra a parede da caverna, de volta à sua forma de anjo, tremendo e choramingando.
— Balthamos! — chamou aflito. — Deixe disso, eles não podem machucar você! E tem que nos ajudar! Você pode lutar, sabe disso, você não é um covarde, e nós precisamos de você.
Mas, antes que o anjo pudesse responder, uma outra coisa aconteceu. A Sra. Coulter gritou e abaixou-se para segurar o tornozelo, simultaneamente, o macaco dourado agarrou alguma coisa no ar, com um rosnado de satisfação.
Uma voz — uma voz de mulher — mas de alguma forma minúscula — veio da coisa nas garras do macaco.
— Tialys! Tialys!
Era uma mulher minúscula, não maior que a mão de Lyra, e o macaco já estava puxando e puxando um dos braços dela, de modo que ela gritava de dor. Ama sabia que ele não pararia até tê-lo arrancado fora, mas Will saltou para frente quando viu a pistola cair da mão da Sra. Coulter. E ele pegou a arma — mas então a Sra. Coulter ficou imóvel e Will percebeu que estava diante de um estranho impasse.
O macaco dourado e a Sra. Coulter estavam ambos absolutamente imóveis. O rosto dela estava contorcido de dor e de fúria, mas ela não ousava se mexer, porque de pé sobre seu ombro estava um homem minúsculo, com o calcanhar pressionado contra o seu pescoço, as mãos agarrando-lhe os cabelos, e Will, a despeito de seu espanto, viu naquele calcanhar uma reluzente espora de chifre e soube o que a fizera gritar um momento antes. Ele devia ter espetado o tornozelo dela.
Mas o homenzinho não podia mais ferir a Sra. Coulter, por causa do perigo que sua companheira corria nas mãos do macaco, e o macaco não podia machucar a mulher, caso contrário o homenzinho enfiaria sua espora envenenada na veia jugular da Sra. Coulter. Nenhum deles podia se mover. Respirando fundo e engolindo com dificuldade para controlar a dor, a Sra. Coulter virou os olhos cheios de lágrimas para Will e disse calmamente:
— Então, Mestre Will, o que acha que devemos fazer agora?

Um comentário:

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Boa leitura :)