4 de fevereiro de 2017

12. O menino perdido

VIAJARAM durante várias horas e então pararam para comer. Enquanto os homens acendiam as fogueiras e derretiam neve para beber, com Iorek Byrnison observando Lee Scoresby assar carne de foca, John Faa conversava com Lyra.
— Lyra, você consegue enxergar o instrumento para poder ler? — perguntou.
A lua já havia se posto muito tempo antes. A luz da Aurora Boreal era mais forte do que o luar, porém inconstante. Mas Lyra tinha boa visão; enfiando a mão dentro de suas peles, ela retirou a sacola de veludo negro.
— Consigo, sim — disse. — Mas de qualquer maneira já sei o lugar da maioria dos símbolos. O que vou perguntar, Lorde Faa?
— Quero saber mais sobre como estão defendendo esse lugar, Bolvangar — ele pediu.
Sem sequer precisar pensar, ela viu que seus dedos moviam os ponteiros apontando para o elmo, o grifo e o cadinho, e sentiu a mente escolher os significados corretos como um complicado diagrama em três dimensões. No mesmo instante, o ponteiro grande começou a dançar, como uma abelha dançando sua mensagem para a colmeia. Ela observava calmamente, contente em não saber a princípio, mas ciente de que um significado estava a caminho, e então as coisas começaram a ficar claras. Ela deixou que os movimentos se repetissem até ter plena certeza.
— É exatamente como disse o dimon da feiticeira, Lorde Faa. Há um pelotão de tártaros vigiando a Estação, e eles colocaram cercas em volta dela toda. Não esperam ser atacados, é o que diz o leitor de símbolos. Mas, Lorde Faa...
— Que é, minha filha?
— Ele está dizendo mais uma coisa. No próximo vale, há uma vila perto de um lago onde as pessoas estão sendo perturbadas por um fantasma.
John Faa sacudiu a cabeça com impaciência e disse:
— Isso não tem importância agora. Deve haver todo tipo de espíritos nessas florestas. Fale outra vez sobre os tártaros. Quantos são, por exemplo? Como é que estão armados?
Lyra perguntou obedientemente e anunciou a resposta:
— São sessenta homens com rifles, e eles têm algumas armas maiores, uma espécie de canhão. Têm lançadores de fogo, também. E... todos os dimons deles são lobos, é o que está dizendo.
Isto causou um impacto entre os gípcios mais velhos, aqueles que já haviam participado de combates.
— Os regimentos de Sibirsk têm dimons-lobos — disse um.
John Faa acrescentou:
— Nunca vi mais ferozes. Vamos ter que lutar como tigres. E consultar o urso; aquele ali é um guerreiro esperto.
Lyra estava impaciente e disse:
— Mas, Lorde Faa, esse fantasma... Acho que é o fantasma de uma das crianças!
— Bom, mesmo que seja, Lyra, não sei o que se pode fazer sobre isso. Lançadores de chamas, sessenta rifles... Sr. Scoresby, venha aqui um instante, por favor.
Enquanto o aeróstata se aproximava do trenó, Lyra saiu de fininho e foi falar com o urso.
— Iorek, você já viajou por aqui?
— Uma vez — ele respondeu.
— Tem uma aldeia aqui perto, não é?
— Do outro lado da serra — ele disse, erguendo os olhos para o topo por entre as poucas árvores.
— É longe?
— Para você ou para mim?
— Para mim.
— Longe demais. Para mim, nem um pouco.
— Quanto tempo você levaria, então?
— Eu poderia ir e voltar três vezes antes do próximo nascer da lua.
— Porque, Iorek, escute, eu tenho um leitor de símbolos que me diz as coisas, entende, e ele me disse que tem uma coisa importante que eu tenho que fazer naquela aldeia, e Lorde Faa não quer me deixar ir. Ele quer viajar depressa, e sei que isso é importante também. Mas se eu não for até lá e descobrir o que é, podemos nunca ficar sabendo o que os Gobblers estão fazendo.
O urso ficou em silêncio. Estava sentado como um humano, as enormes patas juntas no colo, os olhos escuros fixos nos dela. Sabia que ela queria alguma coisa. Pantalaimon falou:
— Pode nos levar lá e alcançar os trenós depois?
— Eu poderia. Mas dei a minha palavra a Lorde Faa que ia obedecer a ele e a ninguém mais.
— E se eu tivesse a permissão dele? — Lyra perguntou.
— Então sim.
Ela voltou correndo pela neve.
— Lorde Faa! Se Iorek Byrnison me levar até a aldeia no outro lado podemos descobrir o que está havendo lá e depois alcançar os trenós. Ele conhece o caminho. Eu não ia pedir, mas é como o que aconteceu antes, Farder Coram, o senhor se lembra daquele camaleão. Na hora eu não entendi, mas era verdade, nós descobrimos logo depois. E tenho a mesma sensação agora. Não consigo entender direito o que o leitor de símbolos está dizendo, mas sei que é importante. E Iorek Byrnison conhece o caminho, ele disse que podia ir e voltar três vezes até a próxima lua, e eu estaria em segurança com ele, não é? Mas ele só vai se tiver permissão de Lorde Faa.
Houve um silêncio. Farder Coram suspirou. John Faa estava muito preocupado, os lábios apertados. Antes, porém, que ele dissesse alguma coisa, o aeróstata interveio:
— Lorde Faa, se Iorek Byrnison levar a garotinha, ela vai estar tão segura quanto se estivesse aqui conosco. Todos os ursos são honestos, mas conheço Iorek há anos e nada neste mundo vai fazer com que ele quebre a palavra dada. Se ordenar que ele tome conta dela, ele vai fazer isto, não se preocupe. Quanto à velocidade, ele consegue galopar horas seguidas sem se cansar.
— Mas por que não podiam ir alguns homens? — John Faa perguntou.
— Bom, eles iam ter que caminhar, porque não se pode atravessar aquela serra de trenó — Lyra respondeu. — Iorek Byrnison pode ir mais rápido do que qualquer homem neste tipo de terreno, e sou bastante leve, então ele não vai se cansar. E prometo, Lorde Faa, prometo não demorar mais do que o necessário, nem dar qualquer informação sobre nós, nem correr qualquer risco.
— Tem certeza de que precisa fazer isso? Esse leitor de símbolos não está bancando o bobo com você?
— Ele nunca brinca, Lorde Faa, e acho que não ia conseguir bancar o bobo.
John Faa esfregou o queixo.
— Bem, se tudo der certo, teremos mais alguma informação. Iorek Byrnison! — chamou. — Está disposto a fazer o que esta menina está pedindo?
— Faço o que o senhor pedir, Lorde Faa. Se me disser para levar a garota, eu levo.
— Muito bem. Leve a garota aonde ela deseja ir e faça o que ela pedir. Lyra, agora estou dando as suas ordens, está entendendo?
— Sim, Lorde Faa.
— Você vai procurar seja o que for, e quando tiver encontrado, volte imediatamente. Iorek Byrnison, vamos estar viajando, de modo que vai ter que nos alcançar.
O urso assentiu com a enorme cabeça.
— Algum soldado na aldeia? — ele perguntou a Lyra — Vou precisar da minha armadura? Vamos mais depressa sem ela.
— Não, eu tenho certeza, Iorek. Obrigada, Lorde Faa, prometo fazer o que o senhor mandou.
Tony Costa deu à menina um pedaço de carne-seca para mascar, e com Pantalaimon como ratinho dentro do seu capuz, Lyra subiu para as costas amplas do urso, agarrando seus pelos com suas luvas de lã e prendendo os joelhos na cintura fina e musculosa dele. A pelagem dele era maravilhosamente espessa, e a sensação de grande poder que ela experimentou era avassaladora. Como se ela nada pesasse, o urso saiu a galope na direção da serra e das árvores baixas.
Levou algum tempo para que ela se acostumasse com o movimento, mas então perdeu todo o medo e sentia um grande entusiasmo. Estava cavalgando um urso! A Aurora Boreal ocupava o céu acima deles em arcos e arabescos dourados, e à volta dela, o impiedoso frio do Polo Ártico e o silêncio imenso do Norte.
As patas de Iorek Byrnison mal faziam ruído na neve. As árvores eram magras e pouco crescidas, pois ficavam na borda da tundra, mas havia galhos secos e moitas espinhentas no caminho. O urso passava por elas como se fossem teias de aranha.
Subiram a serra baixa entre erupções de rocha negra, e logo já não podiam ver os viajantes. Lyra queria conversar com o urso, e se ele fosse humano ela já estaria amiga dele; mas ele era tão estranho, selvagem e frio que ela sentia timidez, talvez pela primeira vez na vida. Assim, enquanto ele seguia a galope, as pernas poderosas e incansáveis, ela ficou em silêncio. Talvez ele preferisse assim, ela pensou; ela devia parecer um filhote bagunceiro, mal saído do ninho, aos olhos do urso de armadura.
Raras vezes ela pensara em si própria e achava a experiência interessante, porém desconfortável; aliás, bem parecido com cavalgar o urso. Iorek Byrnison galopava depressa, movendo ambas as pernas de um lado do corpo ao mesmo tempo e se balançando de um lado para outro num ritmo forte e regular. Ela descobriu que não bastava apenas ficar agarrada a ele; precisava acompanhar seus movimentos.
Estavam com cerca de uma hora de viagem e Lyra sentiu que estava dura e dolorida, mas profundamente feliz, quando Iorek Byrnison diminuiu a velocidade e parou.
— Olhe para cima — ele disse.
Lyra ergueu os olhos e teve que enxugá-los com o pulso, pois sentia tanto frio que tinha lágrimas nos olhos. Quando conseguiu enxergar, ficou boquiaberta com a visão do céu. A Aurora Boreal desbotara para um brilho pálido e trêmulo, mas as estrelas brilhavam como diamantes, e através do grande domo pontilhado de diamantes, centenas e centenas de minúsculas figuras negras voavam do leste e do sul em direção ao norte.
— São pássaros? — ela perguntou.
— São feiticeiras — disse o urso.
— Feiticeiras? O que estão fazendo?
— Reunindo-se para a guerra, talvez. Nunca vi tantas ao mesmo tempo.
— Conhece alguma feiticeira, Iorek?
— Já servi a algumas delas. E lutei contra algumas, também. Isto vai deixar Lorde Faa assustado. Se elas estão indo ajudar os seus inimigos, vocês todos deviam ficar com medo.
— Lorde Faa não vai ficar com medo. Você não está com medo, está?
— Ainda não. Quando estiver, vou controlar meu medo. Mas é melhor contarmos a Lorde Faa sobre as feiticeiras, porque os homens podem não ter visto.
Ele seguiu mais devagar, e ela ficou observando o céu até seus olhos se encherem novamente de lágrimas de frio, mas não viu terminar o fluxo de feiticeiras que voavam para o norte. Finalmente Iorek Byrnison parou e disse:
— Esta é a aldeia.
À frente deles, havia uma ladeira íngreme e acidentada, e lá embaixo um punhado de construções de madeira ao lado de uma vastidão de neve muito plana, que Lyra imaginou ser o lago congelado. Um cais de madeira mostrou que ela estava certa. Os dois estavam a menos de cinco minutos do lugar.
— O que você quer fazer? — o urso perguntou.
Lyra escorregou das costas dele e teve dificuldade em ficar de pé. Seu rosto estava rígido de frio e as pernas tremiam, mas ela se agarrou ao pelo dele e bateu os pés no chão até se sentir mais forte.
— Tem uma criança, ou um fantasma, ou uma coisa qualquer nesta aldeia, ou talvez perto dela, não sei direito. Quero descobrir onde está e levar essa coisa para Lorde Faa e para os outros, se eu conseguir. Pensei que era um fantasma, mas o leitor de símbolos podia estar me dizendo alguma coisa que não consegui entender.
— Se ele está ao relento, vai ter que encontrar um abrigo qualquer — disse o urso.
— Acho que não está morto... — disse Lyra.
Mas não tinha a menor certeza. O aletiômetro havia indicado alguma coisa estranha e antinatural, o que era alarmante; mas quem era ela? A filha de Lorde Asriel. E quem estava sob seu comando? Um urso poderoso. Como ela podia demonstrar medo?
— Vamos procurar — ordenou.
Tornou a montar nas costas dele, e o urso desceu encosta abaixo, caminhando sem pressa. Os cães da aldeia farejaram, ouviram ou sentiram a chegada deles e começaram a uivar apavorantemente; e as renas nos currais pareciam nervosas, os chifres batendo uns nos outros como gravetos secos. No ar imóvel, ouvia-se de longe cada movimento.
Quando chegaram à primeira casa, Lyra olhou para a direita e para a esquerda, tentando enxergar na escuridão, pois a Aurora Boreal estava se dissipando, e a lua ainda demoraria a nascer. Aqui e ali uma luz tremulava sob um telhado coberto de neve; Lyra julgou ter visto rostos pálidos atrás da vidraça de algumas janelas, e ficou imaginando a surpresa deles ao verem uma criança montada num grande urso branco.
No centro da pequena aldeia, havia um espaço aberto junto ao ancoradouro onde os botes tinham sido deixados, parecendo protuberâncias na neve. O barulho dos cachorros era ensurdecedor; no instante em que Lyra achou que aquilo ia acordar alguém, uma porta se abriu e um homem saiu segurando uma espingarda. Seu dimon-carcaju saltou para a pilha de lenha ao lado da porta, espalhando neve.
Lyra desceu imediatamente e ficou parada entre ele e Iorek Byrnison, lembrando-se de que ela havia dito ao urso que não haveria necessidade da armadura.
O homem falou em palavras que ela não conseguiu entender. Iorek Byrnison respondeu na mesma língua, e o homem soltou um gemido de medo.
— Ele acha que somos demônios. O que eu digo? — quis saber o urso.
— Diga que não somos demônios, mas temos amigos que são. E estamos procurando... só uma criança. Uma criança estranha. Diga isto a ele.
Assim que o urso disse isto, o homem apontou para a direita, indicando um lugar distante, e falou rapidamente. Iorek Byrnison traduziu:
— Ele quer saber se viemos para levar a criança embora. Estão com medo dela. Tentaram fazer que ela fosse, mas ela sempre volta.
— Diga que vamos levar a criança com a gente, mas que eles foram muito maus em tratá-la assim. Onde está ela, afinal?
O homem explicou, gesticulando animadamente. Lyra teve medo de que ele disparasse a arma por acidente, mas assim que acabou de falar ele correu de volta para casa e fechou a porta. Lyra via rostos em todas as janelas.
— Onde está a criança? — perguntou.
— Na peixaria — disse o urso, seguindo na direção do ancoradouro.
Lyra foi atrás. Estava horrivelmente nervosa. O urso estava indo na direção de um barracão estreito de madeira, erguendo a cabeça para farejar, e quando chegou à porta, ele estacou e disse:
— Aí dentro.
O coração de Lyra batia tão depressa que ela mal conseguia respirar. Levantou a mão para bater na porta e então, achando ridículo esse gesto, respirou fundo para chamar, mas percebeu que não sabia o que ia dizer. Ah, estava tão escuro! Devia ter levado uma lamparina...
Não havia escolha, e de qualquer maneira ela não queria que o urso visse seu medo. Ele falara em controlar o medo: era isso que ela teria que fazer. Ergueu a tira de couro de rena que segurava a porta e empurrou com força. A porta se abriu com barulho. Lyra teve que afastar com os pés a neve empilhada na frente antes de conseguir abrir inteiramente a porta, e Pantalaimon não estava ajudando nada, correndo de um lado para outro em sua forma de arminho, uma sombra branca sobre o solo branco, emitindo ruídos de medo.
— Pan, pelo amor de Deus! Vire morcego e vá olhar para mim...
Mas ele não quis, e também não quis falar. Ela nunca o vira assim, a não ser na ocasião em que ela e Roger tinham trocado de lugar as moedas dos dimons na cripta da Jordan. Agora ele estava ainda mais amedrontado que ela. Quanto a Iorek Byrnison, o urso estava deitado na neve ali perto, observando em silêncio.
— Saia daí! — Lyra ordenou, o mais alto que ousou. — Saia!
Não houve resposta. Ela abriu um pouco mais a porta, e Pantalaimon saltou para os seus braços em forma de gato, cutucando-a e dizendo:
— Vá embora! Não fique aqui! Ah, Lyra, vá agora! Vamos embora!
Tentando segurar Pantalaimon, ela viu que Iorek Byrnison estava se levantando e, ao olhar na mesma direção que ele, viu uma figura correndo pelo caminho que vinha da aldeia, carregando uma lamparina. Quando a figura se aproximou, ergueu a lamparina para mostrar o rosto: um ancião de rosto largo e enrugado e os olhos perdidos no meio de mil rugas. Seu dimon era uma raposa do Ártico.
Ele falou, e Iorek Byrnison traduziu:
— Ele diz que não é a única criança desse tipo. Já viu outras na floresta. Às vezes elas morrem logo, às vezes não morrem. Essa aí é durona, ele acha. Mas seria melhor para ela se morresse.
— Pergunte se ele pode me emprestar a lamparina — disse Lyra.
O urso falou e o homem entregou a lamparina de imediato, assentindo vigorosamente.
Ela entendeu que ele tinha vindo trazer a lamparina para ela, e agradeceu. Ele assentiu outra vez e recuou para longe dela, do barracão e do urso.
Lyra pensou de repente: e se for o Roger? E rezou com todas as forças para que não fosse. Pantalaimon estava agarrado a ela, novamente um arminho, as pequenas garras enfiadas no casaco dela.
Lyra ergueu a lamparina e deu um passo para dentro do barracão, e então viu o que o Conselho de Oblação estava fazendo e qual a natureza do sacrifício que as crianças estavam tendo que fazer.
O menininho estava encolhido de encontro à grade de secagem com suas filas e filas de peixes pendurados, duros como tábuas. Ele apertava ao peito um pedaço de peixe seco como Lyra apertava Pantalaimon: com ambas as mãos, contra o coração; mas era tudo que ele tinha: um pedaço de peixe seco; porque ele não tinha um dimon. Os Gobblers tinham separado o dimon dele.
Isso era intercisão, e aquela era uma criança seccionada!

3 comentários:

  1. Luamara feiticeira dimon dragão10 de março de 2017 19:48

    só ....................nossa.Valei me Gideon Cahill Quéisso jovens?

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Boa leitura :)