11 de fevereiro de 2017

12. A linguagem da tela

— Conte tudo outra vez — pediu o Dr. Oliver Payne, no pequeno laboratório com vista para o parque. — Ou não entendi direito, ou você está dizendo bobagens. Uma criança de outro mundo?
— Foi o que ela disse. Certo, é bobagem, mas pelo menos escute, Oliver, por favor — disse a Dra. Mary Malone. — Ela sabia das Sombras, com o nome de Pó, mas é a mesma coisa. São as nossas partículas de Sombra. Estou lhe dizendo: quando ela estava ligada à Caverna através dos eletrodos, houve uma extraordinária ocorrência de figuras e símbolos na tela... Além disso ela possuía um instrumento, uma espécie de bússola feita de ouro, com vários símbolos em volta do mostrador. Disse que conseguia ler aquilo da mesma maneira, e sabia também sobre o estado de espírito necessário, ela o conhecia intimamente.
Estavam no meio da manhã. A Dra. Malone, a Catedrática de Lyra, tinha os olhos vermelhos por causa do sono atrasado, e seu colega, que acabava de voltar de Genebra, mostrava-se preocupado, cético e impaciente para ouvir mais.
A Dra. Malone prosseguiu:
— E o importante, Oliver, é que ela se comunicou com elas. Elas são conscientes, e conseguem reagir. E você se lembra dos crânios? Pois bem, ela me falou de uns crânios no Museu Pitt-Rivers, descobriu por aquela coisa que eles eram muito mais antigos do que o museu dizia, e havia Sombras...
— Espere um minuto. Pelo menos fale coisa com coisa. O que é que você está dizendo, exatamente? A garota confirmou o que já sabemos, ou revelou alguma novidade?
— As duas coisas. Não sei. Mas vamos supor que tenha acontecido alguma coisa há 30 ou 40 mil anos. Antes disso já havia partículas de Sombra, é claro, elas existem desde a Grande Explosão. Mas não havia um meio físico de amplificar seus efeitos no nosso nível, no nível antropológico, no nível dos seres humanos. E então aconteceu alguma coisa, não consigo imaginar o quê, mas tinha a ver com a evolução. Daí os seus crânios, lembra-se? Antes não havia Sombras, e depois havia um monte delas? E os crânios que a menina viu no museu e testou com aquela espécie de bússola. Ela disse a mesma coisa. O que estou dizendo é que por volta dessa época o cérebro humano tornou-se o veículo ideal para esse processo de amplificação. De repente adquirimos consciência.
O Dr. Payne virou a caneca de plástico e bebeu o resto do café.
— Por que deveria ter acontecido exatamente nesse período? — perguntou. — Por que de repente, há 35 mil anos?
— Ah, quem sabe? Não somos paleontólogos. Não sei, Oliver, só estou especulando. Não acha pelo menos que é possível?
— E esse policial, fale sobre ele.
A Dra. Malone esfregou os olhos.
— O nome dele é Walters. Disse que era da Divisão Especial. Pensei que eles tratassem de política, ou coisa assim.
— Terrorismo, subversão, segurança, tudo isso... Continue. O que ele queria? Por que veio até aqui?
— Por causa da garota. Ele disse que estava procurando um menino mais ou menos da mesma idade, mas não me disse a razão. E esse menino tinha sido visto com a garota que veio aqui. Mas ele tinha outra intenção também, Oliver, ele sabia sobre a pesquisa, chegou até a perguntar...
O telefone tocou. Ela se interrompeu, dando de ombros, e o Dr. Payne atendeu. Falou rapidamente e desligou, dizendo:
— Temos visita.
— Quem é?
— Não conheço o nome. Sir Qualquer Coisa. Escute, Mary, você sabe que vou me demitir, não sabe?
— Eles lhe ofereceram o emprego.
— É. Tenho que aceitar. Você certamente compreende.
— Bom, então é o fim de tudo isto.
Ele espalmou as mãos, num gesto que indicava impotência, e disse:
— Para falar com franqueza, não consigo entender o sentido de tudo isso que você me contou. Crianças de outro mundo e Sombras fósseis... É muita maluquice. Simplesmente não posso me envolver. Tenho uma carreira, Mary.
— E os crânios que você testou? E as Sombras em volta da peça de xadrez feita de marfim?
O Dr. Payne sacudiu a cabeça e virou-se de costas. Antes que ele pudesse responder, ouviram batidas à porta e ele abriu-a de imediato, com alívio.
Sir Charles cumprimentou:
— Bom dia a todos. Dr. Payne? Dra. Malone? Meu nome é Charles Latrom. É muita gentileza me receberem sem hora marcada.
— Entre — convidou a Dra. Malone, perplexa. — Entendi bem? O senhor é Sir Charles? Como é que podemos ajudá-lo?
— Talvez seja o caso de eu poder ajudá-los — ele respondeu. — Ouvi dizer que estão esperando o resultado do seu pedido de verba.
— Como sabe disso? — perguntou o Dr. Payne.
— Já trabalhei para o Ministério. Aliás, eu trabalhava diretamente com a política científica. Ainda tenho muitos contatos nesta área, e ouvi dizer que... Posso me sentar?
— Ah, por favor — disse a Dra. Malone.
Ela puxou uma cadeira e ele se sentou como se estivesse dirigindo uma reunião.
— Obrigado. Soube por um amigo... É melhor não mencionar o nome dele, os regulamentos de segurança são muito rigorosos... Enfim, eu soube que o seu pedido estava sendo estudado, e o que ouvi me intrigou tanto, que devo confessar que pedi para ver alguma coisa do trabalho de vocês. Sei que não era da minha conta, mas ainda atuo como uma espécie de conselheiro não oficial, de modo que usei essa desculpa. E realmente, o que vi era fascinante.
— Isso significa que vamos conseguir? — quis saber a Dra. Malone, inclinando-se para a frente, ansiosa para acreditar nele.
— Infelizmente, não. Tenho que ser sincero: eles não estão dispostos a renovar a sua bolsa.
A Dra. Malone curvou os ombros. O Dr. Payne observava com curiosidade o visitante.
— Então, por que veio aqui? — perguntou.
— Bem, sabe, eles ainda não decidiram oficialmente. Não parece que a resposta será promissora, e vou ser franco com vocês: eles não têm perspectiva de financiar esse tipo de trabalho no futuro. No entanto, se alguém defendesse o caso de vocês, eles poderiam mudar de ideia.
— Um patrono? O senhor está dizendo que poderia fazer isso? Eu não sabia que as coisas funcionavam assim — disse a Dra. Malone, endireitando se. — Pensei que eles consultassem outros cientistas e...
— Na teoria, sim, mas também ajuda saber como esses comitês funcionam na prática. E saber quem faz parte deles. Bem, cá estou: tenho imenso interesse no seu trabalho, acho que ele pode ser muito importante e certamente devia prosseguir. Vocês me deixariam fazer contatos informais para isso?
A Dra. Malone sentia-se como um marinheiro que está se afogando, quando de repente lhe jogam um salva-vidas.
— Ora! Claro que sim! E muito obrigada... Quer dizer, o senhor acha mesmo que vai adiantar? Não estou querendo dizer que... Ah, não sei o que estou querendo dizer. É claro que sim!
— O que é que nós teríamos que fazer? — perguntou o Dr. Payne. A Dra. Malone olhou para ele, surpresa: Oliver não tinha acabado de dizer que ia trabalhar em Genebra? Mas ele parecia estar entendendo Sir Charles melhor do que ela estava, pois uma centelha de cumplicidade passou entre os dois homens, e Oliver veio sentar-se também.
— Fico feliz por você ter me entendido — disse o homem. — Tem toda razão. Existe uma certa direção que me deixaria intensamente feliz se vocês tomassem. E, se pudermos entrar num acordo, eu poderia até arranjar mais dinheiro, de outra fonte.
— Espere, espere — interrompeu a Dra. Malone. — Espere um minuto. O rumo desta pesquisa é uma questão nossa. Estou inteiramente disposta a discutir os resultados, mas não a meta. O senhor sem dúvida deve entender que...
Sir Charles espalmou as mãos num gesto que exprimia pesar e ficou de pé.
Oliver Payne também se levantou, ansioso.
— Não, por favor, Sir Charles, tenho certeza de que a Dra. Malone vai escutar o que o senhor tem a dizer. Mary, escutar não faz mal, e pode fazer uma grande diferença.
— Você não ia para Genebra?
— Genebra? — interpôs Sir Charles. — Excelente lugar. Muitos recursos. Muito dinheiro, também. Não quero prendê-lo aqui.
— Não, não, ainda não está decidido — apressou-se a dizer o Dr. Payne. — Falta discutir muita coisa, ainda está tudo muito no ar. Sente-se, Sir Charles, por favor... Posso lhe oferecer um café?
— É muita gentileza sua — disse Sir Charles, tornando a sentar-se com ar de um gato satisfeito.
A Dra. Malone estudou-o com atenção pela primeira vez. Viu um homem de quase 70 anos, próspero, confiante, vestido com elegância, habituado ao melhor, acostumado a conviver com pessoas poderosas e a sussurrar em ouvidos importantes.
Oliver tinha razão, ele queria mesmo alguma coisa em troca e só teriam o apoio dele se o satisfizessem. Ela cruzou os braços. O Dr. Payne estendeu uma caneca ao visitante, dizendo:
— Sinto muito, a nossa louça é modesta...
— De maneira nenhuma. Posso continuar o que estava dizendo?
— Sim, por favor — disse o Dr. Payne.
— Bem, compreendo que vocês fizeram algumas descobertas fascinantes no campo da consciência. Sim, eu sei, vocês ainda não publicaram, e ainda falta muita coisa, aparentemente, para o sucesso da sua pesquisa. No entanto, as notícias se espalham. Estou especialmente interessado no assunto. Eu ficaria muito feliz, por exemplo, se vocês concentrassem sua pesquisa na manipulação da consciência. Em segundo lugar, na hipótese dos mundos diversos, de Everett, vocês se lembram, 1957 ou por aí, acredito que vocês estão na pista de alguma coisa que poderia expandir muito essa teoria. E essa linha de pesquisa poderia até atrair verbas da Defesa, que, como vocês devem saber, ainda é generosa, mesmo hoje em dia, e certamente não está sujeita a esses cansativos processos de aprovação dos pedidos de verbas.
Ele ergueu a mão quando a Dra. Malone tentou falar, e prosseguiu:
— Não me peçam para revelar minhas fontes. Mencionei as leis de segurança nacional, é uma legislação incômoda, mas não podemos brincar com ela. Eu tenho confiança de que teremos alguns progressos na área dos mundos diversos. Acho que vocês são as pessoas certas para isso. E, em terceiro lugar, existe um determinado assunto relacionado a uma pessoa. Uma criança.
Ele fez uma pausa e bebericou o café. A Dra. Malone não conseguia falar, ela empalidecera, embora não tivesse consciência disso, mas tinha consciência de que se sentia zonza.
Sir Charles continuou:
— Por diversos motivos estou em contato com os serviços de informações. Eles estão interessados numa criança, uma menina, que possui um instrumento pouco comum, um antigo instrumento científico, certamente roubado, que deveria estar em mãos mais seguras do que as dela. Existe também um menino mais ou menos da mesma idade, uns 12 anos, que está sendo procurado por causa de um assassinato. Muito se discute se uma criança desta idade é capaz de assassinato, mas ele certamente matou uma pessoa. E foi visto com a menina. Agora, Dra. Malone, pode ser que a senhora tenha conhecido uma dessas crianças. E pode ser que a senhora, muito corretamente, esteja inclinada a contar à polícia o que sabe. Mas estaria agindo melhor se me contasse em particular. Posso dar um jeito para que as autoridades lidem com o assunto de maneira rápida e eficiente, sem sensacionalismo nos jornais. Sei que o Inspetor Walters veio vê-la ontem, e sei que a garota apareceu. Percebe, sei do que estou falando. E saberia, por exemplo, se a senhora a visse de novo e se não me contasse, eu saberia disso também. Seria bom pensar bastante sobre isso, e tentar clarear a sua lembrança do que ela disse e fez enquanto estava aqui. É um problema de segurança nacional. Sei que a senhora está me entendendo.
Ele suspirou e em seguida continuou:
— Bem, vou ficando por aqui. Tomem o meu cartão, para poderem me procurar. Se fosse eu, não perderia muito tempo, o comitê se reúne amanhã, como vocês sabem. Mas podem me encontrar neste número a qualquer hora.
Ele deu um cartão a Oliver Payne e, ao ver que a Dra. Malone continuava de braços cruzados, colocou um sobre a mesa para ela. O Dr. Payne abriu a porta para ele.
Sir Charles colocou na cabeça o chapéu panamá, dando-lhe um tapinha, depois sorriu para ambos e partiu. Depois de fechar a porta, o Dr. Payne perguntou:
— Mary, você ficou maluca? Por que se comportou dessa maneira?
— Como assim? Você não caiu na conversa desse velho nojento, caiu?
— Você não pode recusar uma oferta como essa! Quer ou não quer que o nosso projeto sobreviva?
— Não foi uma oferta, foi um ultimato — ela retrucou com veemência. — Ou fazemos o que ele quer, ou fechamos. E Oliver, pelo amor de Deus, todas aquelas ameaças e indiretas nada sutis sobre segurança nacional e coisas assim, você não consegue enxergar aonde isso iria levar?
— Bem, acho que consigo enxergar melhor do que você. Se você disser não, eles não vão fechar este lugar; vão se apossar dele. Se estão tão interessados quanto ele diz, vão querer continuar com a pesquisa. Só que nos termos deles.
— Mas os termos deles seriam... Ora, uma questão de defesa, pelo amor de Deus, isto quer dizer que eles querem encontrar novos métodos de matar. E você ouviu o que ele disse sobre consciência: ele quer manipular consciências! Não vou me envolver com esse tipo de coisa, Oliver, jamais.
— Eles vão fazer de qualquer maneira, e você vai ficar sem emprego. Se permanecer, poderá orientar o trabalho, dirigir a pesquisa para um rumo melhor. E ainda estará trabalhando no projeto! Ainda estará envolvida!
— Mas, de qualquer maneira, em que isso interessa a você? O trabalho em Genebra já não está decidido?
Ele passou as mãos pelos cabelos e disse:
— Decidido, não. Nada foi assinado. E seria uma coisa completamente diferente, eu não gostaria de ir embora agora que acho que estamos realmente conseguindo alguma coisa...
— O que é que você está dizendo?
— Não estou dizendo...
— Está insinuando. Aonde quer chegar?
— Bem... — Ele se pôs a caminhar de um lado para outro no laboratório, espalmando as mãos, dando de ombros, sacudindo a cabeça. — Bom, se você não entrar em contato com ele, entro eu — disse finalmente.
Ela ficou em silêncio por algum tempo. Depois disse:
— Ah, estou entendendo.
— Mary, tenho que pensar na...
— Claro.
— Não que...
— Não, não.
— Você não compreende...
— Compreendo, sim. É muito simples. Você promete fazer o que ele diz, você consegue a verba, eu saio, você assume como Diretor. Não é difícil entender. Você teria um orçamento maior. Muitas máquinas novinhas. Meia dúzia de PhDs sob suas ordens. Ótima ideia. Faça isso, Oliver. Vá em frente. Mas para mim chega, estou fora. Isso fede.
— Você não...
Mas a expressão dela silenciou-o. A Dra. Malone despiu o jaleco branco e pendurou-o na porta, juntou alguns papéis numa sacola e saiu sem uma palavra.
Assim que ela partiu, ele pegou o cartão de Sir Charles e foi para o telefone.


Várias horas mais tarde, pouco antes da meia-noite, a Dra. Malone estacionou o carro em frente ao prédio de ciências e entrou por uma porta lateral. Mas, assim que se virou para subir a escada, deparou com um homem que surgira de outro corredor, assustando-a tanto que ela quase deixou cair a pasta. Ele estava fardado.
— Aonde vai? — quis saber.
Ficou parado diante dela, corpulento, os olhos quase invisíveis sob a aba baixa do quepe.
— Vou para o meu laboratório. Eu trabalho aqui. Quem é você?
— Segurança. Posso ver sua identidade?
— Que segurança? Saí daqui hoje às três da tarde e só havia um porteiro trabalhando, como sempre. Sou eu quem devia estar pedindo a sua identidade. Quem o contratou? E por quê?
— Eis a minha identidade — disse ele, mostrando-lhe um cartão e tornando a guardá-lo sem que ela tivesse tempo de ler. — E onde está a sua?
Ela notou que ele levava um telefone celular num coldre à cintura. Ou seria uma arma? Não, claro que não, ela estava ficando paranoica. E ele não tinha respondido. Mas se ela insistisse, ele ficaria cheio de suspeitas, e o que interessava era chegar ao laboratório, ela pensou: tenho que acalmá-lo, como a gente faz com um cachorro. Remexeu na bolsa e encontrou a carteira.
— Isto serve? — perguntou, mostrando o cartão que costumava usar para operar a porta automática do estacionamento.
Ele estudou o cartão rapidamente.
— O que é que está fazendo aqui a esta hora da noite? — perguntou.
— Estou no meio de uma experiência delicada. Preciso verificar periodicamente o computador.
Ele parecia estar procurando um motivo para impedi-la, ou talvez estivesse apenas gostando de exercer poder. Finalmente assentiu e pôs-se de lado. Ela passou por ele, sorrindo, mas o rosto dele permaneceu sério. Ela ainda estava tremendo quando chegou ao laboratório. Naquele prédio, a “segurança” sempre tinha se resumido a uma tranca na porta e um porteiro idoso, e ela sabia o motivo daquela mudança. Mas isso significava que ela dispunha de pouco tempo: seria preciso acertar de primeira, pois quando descobrissem o que estava fazendo, ela não poderia voltar lá. A cientista trancou a porta atrás de si e baixou as persianas.
Ligou o detector, pegou um disquete no bolso e colocou-o no computador que controlava a Caverna, e um minuto depois já estava manipulando os números na tela, guiando-se metade pela lógica, metade pela intuição e metade pelo programa que ela havia criado em casa, tendo trabalhado até aquela hora e a complexidade da tarefa a que se propunha era tão desconcertante quanto fazer três metades somarem um inteiro.
Finalmente ela afastou os cabelos dos olhos e colocou os eletrodos na cabeça, depois flexionou os dedos e começou a digitar. Sentia-se intensamente constrangida.
Olá. Não sei o que estou fazendo. Talvez seja loucura. As palavras se agruparam à esquerda da tela, o que foi a primeira surpresa. Ela não estava usando um programa de processamento de texto na verdade, estava passando ao largo de grande parte do sistema operacional — e a formatação das suas palavras não estava sendo feita por ela. Ela sentiu um arrepio nas costas e tomou consciência de todo o prédio à sua volta, os corredores escuros, as máquinas ociosas, as várias experiências em curso, computadores monitorando testes e registrando resultados, o ar-condicionado analisando e ajustando a umidade e a temperatura, todos os dutos, encanamentos e cabos, que eram as artérias e os nervos do prédio, despertos e vigilantes... Na verdade, quase conscientes.
Ela experimentou de novo.
Estou tentando fazer com palavras o que fiz antes com um estado de espírito, mas
Antes que ela tivesse sequer terminado a frase, o cursor correu para o lado direito da tela e escreveu:
Faça uma pergunta.
Foi quase instantâneo.
Ela sentiu como se tivesse tentado descer um degrau que não existia: todo o seu corpo sofreu um impacto com o choque. Foram necessários vários minutos para que ela se acalmasse o suficiente para tentar de novo. Quando o fez, as respostas se apresentavam no lado direito da tela praticamente antes que ela terminasse.
Vocês são as Sombras?
Sim.
Vocês são a mesma coisa que o Pó de Lyra?’
Sim.
E que a matéria escura?
Sim.
A matéria escura tem consciência?
Evidentemente.
O que eu disse hoje a Oliver, a minha ideia sobre a evolução humana, está
Correta. Mas você precisa fazer mais perguntas.
Ela parou, respirou fundo, empurrou a cadeira para trás, flexionou os dedos.
Sentia o coração disparado. Aquilo que estava acontecendo era impossível: toda a sua educação, todos os seus hábitos mentais, todo o seu senso de si mesma como cientista berravam com ela silenciosamente: isto está errado! Não está acontecendo! Você está sonhando! No entanto, ali estavam aquelas coisas na tela: as suas perguntas e as respostas de alguma outra mente.
Ela se controlou e tornou a digitar, e novamente as respostas surgiram sem uma pausa discernível.
A mente que está respondendo não é humana, é?
Não. Mas os humanos sempre souberam de nós.
Nós? Então existe mais de um?
Milhões e milhões.
Mas quem são vocês?
Anjos.
A Dra. Malone sentiu a cabeça girar. Ela fora educada como católica, mais que isso: como Lyra havia constatado, ela já tinha sido freira. Nada lhe restava agora de sua fé, mas ela já sabia dos anjos. Santo Agostinho disse: “Anjo é o nome do trabalho deles, não da natureza deles. Se você procurar o nome da natureza deles, esse nome é espírito, se procurar o nome do trabalho deles, esse nome é anjo, o que eles são, espírito, o que eles fazem, anjo.” Zonza, trêmula, ela tornou a digitar: Os anjos são criaturas de matéria de Sombra?
Estruturas. Complexificações.
De Pó?
Sim.
E a matéria de Sombra é o que chamamos de espírito?
Pelo que somos, espírito. Pelo que fazemos, matéria. Matéria e espírito são uma coisa só.
Ela estremeceu, estavam escutando os seus pensamentos!
E vocês interferiram na evolução humana?
Sim.
Por quê?
Vingança.
Vingança de...
Anjos rebeldes! Depois da guerra no Céu, Satanás e o jardim do Éden...
Mas (...)
Ah, Encontre a menina e o menino. Não perca tempo. Você precisa bancar a serpente.
(...) isso não é verdade, é? É isso que vocês... Mas por quê?
Ela tirou as mãos do teclado e esfregou os olhos. Quando tornou a olhar, as palavras ainda estavam lá.
Vá a uma rua chamada Avenida Sunderland e procure uma tenda. Engane o guardião e atravesse. Leve provisões para uma longa viagem. Você estará protegida. Os espectros não lhe farão mal.
Onde, mas eu
Antes de ir, destrua este equipamento.
Não compreendo, por que eu? Que viagem é essa?
Você vem se preparando para isto desde que nasceu. Seu trabalho aqui chegou ao fim. A última coisa que você tem a fazer neste mundo é impedir que os inimigos tomem o controle. Destrua este equipamento. Faça isto agora mesmo e parta imediatamente.
Mary Malone empurrou a cadeira para trás e levantou-se, trêmula. Apertou as têmporas com os dedos e descobriu os eletrodos ainda presos à pele. Tirou-os sem prestar atenção.
Podia ter duvidado do que tinha feito e daquilo que ainda podia ver na tela, mas na última meia hora ela havia passado para além da dúvida e da credulidade.
Alguma coisa tinha acontecido, e ela estava eletrizada. Desligou o detector e o amplificador. Então anulou todos os códigos de segurança e formatou o disco rígido do computador, esvaziando-o por completo, depois removeu a interface entre o detector e o amplificador, que era um cartão especialmente adaptado, colocou o cartão sobre a mesa e destruiu-o com o salto do sapato, pois nada havia de pesado à mão. Em seguida desligou a fiação entre o escudo eletromagnético e o detector; encontrou a planta da fiação numa gaveta do arquivo e colocou fogo nela. Havia mais alguma coisa que podia fazer?
Não podia fazer coisa alguma a respeito do conhecimento que Oliver Payne tinha do programa, mas a aparelhagem especial estava destruída. Enfiou alguns papéis de uma gaveta dentro da pasta e finalmente tirou da parede o cartaz com os hexagramas do I Ching, que dobrou e guardou no bolso. Depois apagou a luz e saiu.
O segurança estava parado ao pé da escada, falando ao telefone. Guardou o aparelho assim que ela desceu e acompanhou-a em silêncio até a entrada lateral, observando através da porta de vidro até o carro dela desaparecer.


Uma hora e meia mais tarde, ela encostou o carro numa rua perto da Avenida Sunderland. Tinha sido necessário procurar a rua num mapa de Oxford, pois não conhecia essa parte da cidade. Até esse momento ela vinha agindo movida pela empolgação acumulada, mas ao sair do carro na escuridão da madrugada e sentir o ar noturno, frio e silencioso, e a imobilidade à sua volta, ela teve um momento de apreensão. E se estivesse sonhando? E se aquilo tudo fosse uma complicada brincadeira de alguém?
Bem, era tarde demais para se preocupar com isso. Ela já estava envolvida. Pegou a mochila que tantas vezes carregara em excursões na Escócia e nos Alpes, e refletiu que pelo menos sabia sobreviver no mato; se o pior acontecesse, podia sempre fugir correndo, ir para as montanhas... Ridículo.
Colocou a mochila nas costas, deixou o carro e entrou na Rua Banbury, e caminhou 200 ou 300 metros pela Avenida Sunderland, que começava à esquerda do trevo. Nunca na vida ela havia se sentido tão tola. Mas ao virar a esquina e ver aquelas árvores estranhas, com formato de criança, que Will tinha visto, ela constatou que pelo menos alguma coisa era verdade: sob as árvores, na grama no lado oposto da rua havia uma pequena tenda quadrada de náilon vermelho e branco, do tipo que os eletricistas erguem para proteger-se da chuva enquanto trabalham, e estacionado ali perto havia um caminhão branco, do departamento de trânsito, com vidros escuros nas janelas.
Melhor não hesitar. Ela atravessou diretamente para a tenda. Quando estava quase lá, a porta traseira do furgão abriu-se e dali saiu um policial. Sem o capacete ele parecia muito jovem, e a luz do poste brilhava em seu rosto.
— Posso saber aonde vai, senhora? — perguntou.
— Entrar nesta tenda.
— Infelizmente não é possível, senhora. Tenho ordens de não deixar ninguém entrar.
— Ótimo! — ela exclamou. — Que bom que mandaram proteger este lugar. Mas sou do Departamento de Ciências Físicas. Sir Charles Latrom nos pediu para fazer uma avaliação preliminar redigir um relatório antes que comecem a pesquisa. É importante que isso seja feito a esta hora, enquanto não há muita gente na rua. Tenho certeza de que você compreende os motivos.
— Bem, sim — disse ele. — Mas a senhora tem alguma identificação?
— Ah, claro — ela afirmou.
E tirou a mochila das costas, para pegar a bolsa. Entre as coisas que tinha tirado da gaveta no laboratório estava um cartão da biblioteca, já vencido, de Oliver Payne. Com 15 minutos de trabalho, sentada à mesa da sua cozinha, ela havia utilizado a foto do seu próprio passaporte para produzir um documento que ela esperava que passasse por genuíno. O policial pegou o cartão de plástico e estudou-o atentamente.
— Dra. Oliver Payne — leu. — Por acaso a senhora conhece uma Dra. Mary Malone?
— Ah, sim, é uma colega.
— Sabe onde ela está agora?
— Em casa, na cama, se tiver juízo. Por quê?
— Bem, me disseram que ela não trabalha mais na sua organização e não tem permissão para passar por aqui. Na verdade, temos ordens para prender a doutora se ela tentar. E, ao ver uma mulher, naturalmente pensei que só podia ser ela, entende? Desculpe, Dra. Payne.
— Ah, entendo — disse Mary Malone.
O policial tornou a examinar o cartão.
— Bem, isto parece correto — disse, e devolveu-o. Nervoso, com vontade de falar, ele continuou: — Sabe o que existe ali, dentro desta tenda?
— Bem, só de ouvir falar — ela respondeu. — Por isso estou aqui.
— Imagino que sim. Muito bem, Dra. Payne.
O guarda deu um passo para o lado e deixou que ela desatasse a proteção que fechava a porta da tenda. Ela esperava que ele não notasse o tremor de suas mãos. Segurando a mochila contra o peito, ela entrou. Engane o guardião — ela havia feito isso, mas não tinha ideia do que encontraria dentro da tenda. Estava preparada para algum tipo de escavação arqueológica, um cadáver, um meteorito — mas nada em sua vida ou em seus sonhos a tinha preparado para aquele quadrado de cerca de um metro em pleno ar, ou para a cidade adormecida e silenciosa à beira-mar que ela encontrou quando o atravessou.

2 comentários:

  1. AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

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    1. Luamara feiticeira dimon dragão12 de março de 2017 13:43

      Só concordo com você.

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Boa leitura :)