11 de fevereiro de 2017

11. O belvedere

Na grande mansão branca no centro do belo jardim, Will dormiu um sono inquieto, perseguido por sonhos cheios de ansiedade e ternura em igual medida, de modo que ele lutava para despertar mas ansiava por tornar a dormir. Quando seus olhos abriram-se de vez, ele se sentia tão cansado, que mal podia se mover, ao se sentar, descobriu que o curativo estava frouxo e a cama estava escarlate.
Conseguiu sair da cama e atravessar os aposentos cheios de poeira, luz do sol e silêncio, até chegar à cozinha. Ele e Lyra tinham dormido nos quartos dos criados, sob o sótão (pois não se sentiriam bem nas imponentes camas de dossel nos quartos dos outros andares), e era um percurso longo e difícil.
— Will... — fez ela imediatamente, a voz cheia de preocupação. Ela deixou o fogão para ajudá-lo a sentar-se. Ele se sentia tonto. Imaginava ter perdido muito sangue, aliás, nem precisava imaginar, pois as evidências estavam por toda parte.
E os ferimentos ainda sangravam.
— Eu ia justamente fazer café — ela disse. — Quer café primeiro, ou quer que eu faça outro curativo? Como você preferir. E temos ovos, mas não consigo encontrar uma lata de salsichas.
— Este não é o tipo de casa onde se come isso. Primeiro o curativo. Tem água quente na torneira? Quero me lavar. Odeio ficar cheio de sangue...
Ela abriu a torneira de água quente e ele se despiu, ficando só de cuecas. Estava fraco e tonto demais para se sentir envergonhado, mas Lyra envergonhou-se por ele, e saiu. Ele se lavou o melhor que conseguiu e depois se enxugou nos panos de prato pendurados perto do fogão.
Quando Lyra voltou, tinha arranjado roupas para ele — uma camiseta, calças de lona e um cinto. Ele se vestiu e ela rasgou um pano de prato em tiras, com as quais fez um curativo apertado. Estava muito preocupada com a mão dele: não apenas os ferimentos ainda sangravam em abundância, como também o resto da mão estava vermelho e inchado. Mas ele nada comentou, nem ela.
Então ela fez café e torrou um pouco de pão velho, os dois levaram a comida para o salão que ficava na parte fronteira da casa, com vista para a cidade.
Depois de comer e beber, ele se sentiu um pouco melhor.
— É melhor perguntar ao aletiômetro o que devemos fazer agora — ele sugeriu. — Já fez alguma pergunta?
— Não. De agora em diante só vou fazer o que você pedir. Pensei em perguntar ontem à noite, mas não fiz. E não vou fazer, a não ser que você me peça.
— Bom, então é melhor perguntar logo. Existe tanto perigo aqui quanto no meu mundo, agora. Para começar, existe o irmão da Angélica. E se...
Ele silenciou, pois ela ia começar a dizer alguma coisa, mas parou assim que ele o fez. Então ela se controlou e falou:
— Will, tem uma coisa que aconteceu ontem que eu não contei a você. Devia ter contado, mas estava acontecendo tanta coisa... Desculpe...
Ela então narrou tudo que tinha visto pela janela da Torre enquanto Giacomo Paradisi estava fazendo o curativo nele: Tullio sendo atacado pelos Espectros, Angélica avistando-a na janela e seu olhar de ódio, e mais a ameaça de Paolo. E continuou:
— Você se lembra quando ela falou com a gente pela primeira vez? O irmão pequeno disse alguma coisa sobre o que todos estavam fazendo. Ele disse: “Ele vai pegar...” mas não terminou, porque ela lhe deu um safanão, lembra-se? Aposto que ele ia dizer que Tullio ia pegar a faca, e foi por isso que todas as crianças vieram para cá. Porque, se elas tivessem a faca, poderiam fazer qualquer coisa, poderiam até crescer sem medo dos Espectros.
— Como era a aparência dele quando estava sendo atacado? — Will quis saber.
Para surpresa dela, Will tinha se sentado ereto, os olhos curiosos e interessados.
Ela tentou se lembrar exatamente:
— Ele... Ele começou a contar as pedras na parede. Parecia estar se encostando em cada uma. Mas não conseguiu continuar. No final ele perdeu o interesse e parou. Então ficou imóvel — ela completou. Ao ver a expressão de Will, ela quis saber: — Por quê?
— Porque... Acho que talvez eles tenham vindo do meu mundo, os Espectros. Se eles fazem as pessoas se comportarem assim, não seria estranho que eles tivessem vindo do meu mundo. E quando os homens da Liga abriram a primeira janela, se ela dava para o meu mundo, os Espectros poderiam ter entrado por ali.
— Mas não existem Espectros no seu mundo! Você nunca ouviu falar deles lá, ouviu?
— Talvez eles não sejam chamados de Espectros. Talvez o nome deles seja outro.
Lyra não entendeu o que ele queria dizer, mas não quis pressionar. Ele tinha o rosto vermelho e os olhos inchados.
— De qualquer maneira, o importante é que a Angélica me viu na janela da Torre. E agora que sabe que a faca está com a gente, ela vai contar para as outras crianças. Vai pensar que foi por nossa culpa que o irmão foi atacado pelos Espectros. Sinto muito, Will, eu devia ter lhe contado antes. Mas aconteceu tanta coisa...
— Bom, acho que não ia fazer diferença. Ele estava torturando o velho, e depois de aprender a usar a faca ele teria matado nós dois, se pudesse. Tínhamos que lutar com ele.
— Eu me sinto mal por causa disso, Will. Quer dizer, ele era irmão dela. E aposto que no lugar deles, íamos querer a faca também.
— É, mas não podemos voltar e mudar o que aconteceu. Tínhamos que pegar a faca para poder ter o aletiômetro de volta, e se pudéssemos conseguir isso sem lutar, nós teríamos feito.
— É, teríamos — ela concordou.
Como Iorek Byrnison, Will era um verdadeiro guerreiro, de modo que ela estava preparada para concordar com ele quando ele dizia que melhor seria não lutar: ela sabia que não era uma questão de covardia, mas de estratégia. Ele agora parecia mais calmo e tinha o rosto outra vez pálido, estava olhando para longe, pensativo. Então disse:
— Com certeza é mais importante agora pensar no que Sir Charles vai fazer, ou a Sra. Coulter. Talvez, se ela tem essa escolta especial de que eles estavam falando, esses soldados com os dimons cortados, talvez Sir Charles tenha razão e eles consigam ignorar os Espectros. Sabe o que eu acho? Acho que o que eles comem, esses Espectros, são os dimons das pessoas.
— Mas as crianças também têm dimons. E eles não atacam crianças. Não pode ser isso.
— Então deve ser a diferença entre os dimons das crianças e os dos adultos — Will insistiu. — Existe uma diferença, não é? Você me disse que os dimons dos adultos não mudam de forma. Deve ter alguma coisa a ver com isso. Se aqueles soldados dela não têm dimon, pode ser que o efeito seja o mesmo...
— É! — ela concordou. — Pode ser. E de qualquer maneira, ela não teria medo dos Espectros. Ela não tem medo de nada. E é tão esperta, Will, eu juro, e tão impiedosa e cruel, que ia acabar mandando neles, eu aposto. Ela poderia mandar nos Espectros como faz com as pessoas e eles teriam que obedecer, aposto. Lorde Boreal é forte e inteligente, mas logo, logo vai fazer tudo que ela quiser. Ah, Will, estou ficando assustada de novo, só de pensar no que ela pode fazer... Vou perguntar ao aletiômetro, como você disse. Ainda bem que conseguimos pegar ele de volta.
Ela abriu o embrulho de veludo e passou as mãos com ternura sobre o pesado instrumento de ouro.
— Vou perguntar sobre o seu pai, e como podemos encontrar ele — disse. — Veja, eu coloco os ponteiros em...
— Não. Pergunte primeiro pela minha mãe. Quero saber se ela está bem.
Lyra assentiu e girou os ponteiros antes de colocar o aletiômetro no colo, puxar os cabelos para trás das orelhas, baixar os olhos e se concentrar. Will observou o ponteiro maior girar em volta do mostrador, correndo e parando e correndo de novo com a rapidez de uma andorinha ciscando, e observou os olhos de Lyra, tão azuis, intensos e cheios de compreensão. Ela então pestanejou e ergueu o olhar.
— Ela a inda está segura — disse. — Essa amiga que está tomando conta dela, ela é muito boa. Ninguém sabe onde sua mãe está, e a amiga não vai denunciar.
Will não tinha percebido a extensão da sua preocupação. Diante dessa boa notícia, ele relaxou, então, livre de uma pequena parte da tensão que o dominava, sentiu com mais força a dor dos ferimentos.
— Obrigado. Muito bem, agora pergunte sobre o meu pai...
Antes, porém, que ela pudesse sequer começar, ouviram um grito lá fora. Imediatamente os dois olharam para a janela. Na borda do jardim, em frente às primeiras casas da cidade, havia um cinturão de árvores, e alguma coisa se movia ali. Pantalaimon transformou-se num lince e foi até a porta aberta, com olhar feroz.
— São as crianças — disse.
Ambos se levantaram. As crianças surgiam por entre as árvores, uma a uma, talvez 40 ou 50 ao todo. Muitas levavam pedaços de pau. À frente ia o garoto de camiseta listrada, e não era um pedaço de pau o que ele carregava: era uma pistola.
— Ali está Angélica — Lyra sussurrou, apontando.
Angélica estava ao lado do menino líder, puxando-o pelo braço, incentivando-o a continuar em frente. Logo atrás deles, seu irmão Paolo gritava de entusiasmo, e também as outras crianças gritavam e sacudiam os punhos no ar. Duas carregavam pesadas espingardas. Will já tinha visto crianças dominadas por esse estado de espírito, mas nunca tantas, e as crianças da sua cidade não carregavam armas.
Elas gritavam, e Will conseguiu distinguir a voz de Angélica acima das outras:
— Vocês mataram o meu irmão e roubaram a faca! Seus assassinos! Vocês fizeram os Espectros pegarem ele! Vocês mataram ele e nós vamos matar vocês! Não vão conseguir fugir! Vamos matar vocês como vocês mataram ele!
— Will, você podia abrir uma janela! — Lyra disse com urgência, agarrando o braço bom dele. — Podíamos fugir facilmente...
— É, mas onde a gente ia estar? Em Oxford, em plena luz do dia, a poucos metros da casa de Sir Charles. Provavelmente no meio da rua, na frente de um ônibus. Não posso simplesmente cortar em qualquer lugar e ter certeza de que estaremos seguros. Primeiro tenho que espiar e ver onde vamos sair, e isso ia demorar demais. Atrás desta casa tem uma floresta, um bosque ou coisa assim. Se conseguirmos chegar até lá, estaremos mais seguros entre as árvores.
Olhando pela janela, Lyra exclamou, furiosa:
— Eu devia ter acabado com ela ontem! Ela é tão ruim como o irmão. Eu queria...
— Pare de falar e venha — disse Will.
Ele se certificou de que tinha a faca presa ao cinto, e Lyra colocou nas costas a mochila com o aletiômetro e as cartas do pai de Will. Os dois correram pelo vestíbulo cheio de ecos, desceram o corredor e entraram na cozinha, atravessaram a copa e saíram num pátio com piso de pedras, uma porta no muro dava para uma horta com canteiros de hortaliças e ervas expostos ao sol da manhã.
A borda do bosque ficava a algumas centenas de metros, depois de um gramado em subida, horrivelmente exposto à visão. Numa elevação à esquerda, mais próxima do que as árvores, ficava uma pequena edificação, uma estrutura circular parecendo um templo, com um segundo andar aberto em arcos como uma varanda, de onde se descortinava a vista da cidade.
— Vamos correr — Will comandou, embora sentisse menos vontade de correr do que de se deitar e fechar os olhos.
Com Pantalaimon em forma de pássaro, voando acima dela para vigiar, os dois partiram através do gramado. Mas a grama era alta e irregular, e Will não conseguiu correr mais do que alguns passos sem ficar tonto demais para continuar.
Passou a andar devagar.
Lyra olhou para trás. As crianças ainda não os tinham visto, ainda estavam na frente da casa, talvez levassem algum tempo para revistar todos os aposentos...
Mas Pantalaimon piou em alarde. Havia um menino parado perto de uma janela aberta no segundo andar da casa, apontando para eles. Ouviu-se um grito.
— Vamos, Will — fez Lyra.
Ela o puxou pelo braço sadio, ajudando-o, levantando-o. Ele tentou reagir, mas não tinha forças. Só conseguia andar bem devagar .
— Está bem, não vamos conseguir chegar até as árvores. É longe demais. Então vamos para aquele templo ali. Com a porta fechada, talvez a gente consiga segurar eles pelo tempo suficiente para eu cortar uma porta...
Pantalaimon adiantou-se, e Lyra soltou um arquejo e chamou-o, sem fôlego, fazendo com que ele esperasse. Will quase podia enxergar o elo entre eles, o dimon puxando e a menina reagindo. Ele cambaleava através da grama alta, com Lyra correndo à frente para enxergar e voltando para ajudar, depois novamente à frente, até chegarem ao piso de pedra em volta do templo. A porta sob o pequeno pórtico estava destrancada, e ao entrarem eles encontraram um aposento circular com várias estátuas de deusas em nichos na parede em volta. Bem no centro, uma escada em espiral, feita de ferro forjado, subia até uma abertura no andar de cima. Não havia chave na porta, de modo que os dois subiram a escada e passaram para o piso de tábuas do que era na realidade um belvedere — um lugar onde as pessoas vinham respirar o ar puro e contemplar a cidade, pois não havia janelas ou paredes, mas simplesmente uma série de arcos abertos em toda volta, sustentando o telhado. Em cada arco havia um parapeito da altura da cintura, onde se podia apoiar, e abaixo dele, pelo lado de fora, o telhado de telhas curvas descia num aclive suave até a calha de chuva que o circundava.
Eles viam a floresta atrás do templo, a uma proximidade tentadora, e a casa abaixo deles, e atrás dela o grande jardim e os telhados marrom-avermelhados da cidade, com a Torre erguendo-se à esquerda. Havia urubus girando no ar acima das ameias cinzentas, e Will sentiu um espasmo de náusea ao tomar consciência do que os atraíra até lá.
Mas não havia tempo para contemplar a paisagem, primeiro precisavam lidar com as crianças, que vinham correndo em direção ao templo, gritando de fúria e de excitação. O garoto que ia à frente diminuiu a velocidade e ergueu a pistola, e fez dois ou três disparos na direção do templo. Então todos recomeçaram a correr, aos berros:
— Ladrões!
— Assassinos!
— Vamos matar vocês!
— Vocês roubaram a nossa faca!
— Vocês não são daqui!
— Vão morrer!
Will não deu atenção. Já tinha a faca na mão, e rapidamente abriu uma janelinha para ver onde estavam — e recuou no mesmo instante. Lyra também olhou, e retrocedeu, decepcionada. Estavam a uns 15 metros do chão, suspensos sobre uma avenida bastante movimentada.
— Claro — fez Will em tom amargurado. — Nós subimos uma boa ladeira... Bom, estamos presos. Vamos ter que tentar afastar eles, só isso.
Poucos segundos depois, as primeiras crianças entravam em bando pela porta. O som dos berros ecoava dentro do templo e reforçava a selvageria e então ouviu-se um tiro, imensamente alto, e outro, e os gritos tomaram outra entonação, e então a escada pôs-se a estremecer quando as primeiras crianças começaram a subir.
Lyra, paralisada, estava agachada contra a parede, mas Will ainda tinha a faca na mão; correu para a abertura no chão, estendeu a mão e cortou o ferro do degrau superior como se fosse papel. Sem ter o que a segurasse, a escada começou a dobrar sob o peso das crianças, depois caiu com um enorme ruído.
Mais gritos, mais confusão e novamente a arma disparou, mas parece ter sido acidental, pois alguém se feriu, e dessa vez o grito era de dor. Will olhou para baixo e viu uma confusão de corpos a contorcerem-se, cobertos de cal, poeira e sangue.
Não eram crianças individuais: eram uma massa única, como uma onda que cresceu abaixo deles quando as crianças saltaram para o ar em fúria, mãos estendidas para agarrá-los, ameaçando, gritando, cuspindo, mas sem conseguir alcançá-los.
Então alguém chamou, e elas olharam para a porta, aquelas que conseguiam se mover saíram naquela direção, deixando várias outras presas debaixo dos degraus de ferro, ou atordoadas, tentando se levantar do chão cheio de entulho.
Will logo percebeu por que elas tinham corrido para fora. Houve um ruído no telhado abaixo dos arcos e ao correr para o parapeito ele viu o primeiro par de mãos agarrando a borda das telhas e alçando o corpo para cima. Alguém ajudava por baixo, e logo surgiu outra cabeça e outro par de mãos, à medida que umas subiam nos ombros das outras e alcançavam o telhado como formigas.
Mas era difícil caminhar sobre as telhas, e as primeiras crianças avançaram de gatinhas, os olhares ferozes grudados no rosto de Will. Lyra postou-se ao lado dele, e Pantalaimon, como leopardo, rosnava, as patas no alto do parapeito, fazendo as primeiras crianças hesitarem. Mas mesmo assim elas avançavam, cada vez em maior número.
Alguém gritava “Mata! Mata! Mata!”, e então outras vozes se juntaram, cada vez mais alto, e as crianças que estavam no telhado puseram-se a bater o pé marcando o ritmo, embora não ousassem se aproximar e enfrentar a fúria do dimon.
Então uma telha se partiu e o menino de pé sobre ela escorregou e caiu, mas o que estava ao lado dele pegou um caco e arremessou-o sobre Lyra. Ela mergulhou e a telha espatifou-se na coluna ao seu lado, os pedaços choveram sobre ela. Will tinha reparado na grade de ferro em volta da abertura no chão, e cortou dois pedaços na forma de espada. Entregou um a Lyra, que o girou com toda força em direção à lateral da cabeça do primeiro menino. Ele caiu na mesma hora, mas logo surgiu outra criança — Angélica, cabelos vermelhos, rosto branco, olhos enlouquecidos, ela subiu de gatinhas até o parapeito, mas Lyra golpeou-a com o pedaço de grade e ela caiu. Will estava fazendo a mesma coisa.
A faca estava na bainha em sua cintura, e ele atacava e se defendia com o pedaço de ferro; embora muitas crianças tombassem, outras as substituíam, e cada vez mais crianças subiam para o telhado.
Então apareceu o menino de camiseta listrada, mas tinha perdido a pistola, ou talvez estivesse sem munição. No entanto, ele e Will se encararam, e ambos tinham consciência do que iria acontecer: eles iam lutar, e ia ser uma luta violenta e mortal.
— Venha — disse Will, ansioso pelo combate. — Venha então...
Mais um segundo e eles teriam lutado. Mas aconteceu uma coisa estranhíssima: um grande cisne branco veio voando baixo, as asas estendidas, grasnando tão alto que até as crianças no telhado, em meio àquela selvageria, viraram-se para olhar .
— Kaisa! — Lyra chamou, cheia de alegria, pois era mesmo o dimon de Serafina Pekkala.
O ganso tornou a grasnar, um som penetrante que encheu o céu, depois girou e passou a poucos centímetros do menino de camiseta listrada. O garoto recuou, apavorado, e deslizou para a borda do telhado, de onde desceu, as outras crianças puseram-se a gritar de medo também, porque havia mais alguma coisa no céu e quando Lyra viu as pequenas figuras negras surgindo do azul, pôs-se a gritar de alegria.
— Serafina Pekkala! Aqui! Socorro! Estamos aqui no templo...
Com um som sibilante, uma dúzia de flechas, e mais uma dúzia logo em seguida, e mais outra dúzia disparada tão depressa, que todas estavam no ar ao mesmo tempo, choveram sobre o telhado do templo, onde bateram como marteladas. Atônitas e atordoadas, as crianças no telhado num instante perderam toda a truculência, que foi substituída pelo pavor: quem eram aquelas mulheres vestidas de preto voando no ar? Que coisa podia ser aquilo? Seriam fantasmas? Um novo tipo de Espectros?
Gemendo e chorando, as crianças saltaram do telhado, algumas caindo de mau jeito e arrastando-se ou mancando para longe, outras rolando ladeira abaixo e correndo para um lugar seguro, não mais uma massa humana, mas apenas um bando de crianças assustadas e envergonhadas. Um minuto depois do aparecimento do ganso, a última das crianças fugiu do templo, e o único som era o ar passando pelos galhos nos quais as bruxas voavam em círculos.
Will olhou para cima, maravilhado, espantado demais para falar, mas Lyra saltava e chamava, encantada:
— Serafina Pekkala! Como foi que nos encontrou? Obrigada, obrigada! Eles iam matar a gente! Desça para cá...
Mas Serafina e as outras sacudiram a cabeça e tornaram a subir, para voar em círculos mais acima. O dimon-ganso girou e voou na direção do telhado, batendo as grandes asas para dentro, para diminuir a velocidade, e pousou ruidosamente nas telhas abaixo do arco.
— Saudações, Lyra — disse. — Serafina Pekkala não pode vir ao solo, nem as outras. Este lugar está cheio de Espectros, mais de 100 deles estão rodeando este lugar, e vêm vindo outros pelo gramado. Não conseguem ver?
— Não! A gente não vê nada disso!
— Já perdemos uma bruxa. Não podemos arriscar. Vocês conseguem descer daí?
— Saltando do telhado, como as crianças fizeram. Mas como nos encontrou? E onde...
— Por agora chega. Vêm mais problemas por aí, e maiores ainda. Desçam como puderem e vão para as árvores.
Os dois passaram por cima do parapeito e desceram lateralmente através das telhas quebradas até a calha. Não era alto, e o solo era gramado, com um ligeiro declive. Lyra saltou primeiro e Will seguiu-a, rolando no chão e tentando proteger a mão, que já estava novamente sangrando muito e doendo também. O curativo tinha se soltado e pendia numa tira, enquanto ele tentava enrolá-lo, o ganso pousou na grama ao lado dele.
— Lyra, quem é este? — Kaisa perguntou.
— Will. Ele vem conosco...
— Por que os Espectros estão evitando você? — o dimon-ganso perguntou diretamente a Will.
A essa altura nada mais surpreendia Will, que respondeu:
— Não sei. A gente não consegue ver eles. Não, espere! — E ele ficou de pé, quando uma ideia lhe ocorreu. — Onde é que estão agora? — perguntou. — Onde está o mais próximo?
— A 10 passos de você, ladeira abaixo — disse o dimon. — Eles não querem chegar mais perto, é evidente.
Will tirou a faca e olhou naquela direção, e ouviu o dimon sibilar, surpreso.
Mas Will não conseguiu fazer o que pretendia porque no mesmo momento uma bruxa pousou seu galho na grama ao lado dele. Ele ficou atônito, não tanto pelo fato de vê-la voar, mas pela espantosa graciosidade, a claridade intensa, fria e amorosa do olhar dela, e pelos membros pálidos, despidos, tão jovens, no entanto tão distantes de serem jovens.
— Seu nome é Will? — ela perguntou.
— É, sim, mas...
— Por que os Espectros têm medo de você?
— Por causa da faca. Onde está o mais próximo? Diga! Quero matar ele!
Mas Lyra veio correndo antes que a bruxa pudesse responder.
— Serafina Pekkala! — exclamou.
E jogou os braços em volta da bruxa, abraçando-a com tanta força que a bruxa riu e beijou-lhe o topo da cabeça.
A menina continuou:
— Ah, Serafina, de onde você surgiu desse jeito? Nós estávamos... aquelas crianças... Eram crianças, e iam matar a gente... Você viu? Pensamos que íamos morrer, e... Ah, estou tão feliz por você ter aparecido! Pensei que nunca mais ia ver você!
Serafina Pekkala olhou por cima da cabeça de Lyra, para onde os Espectros obviamente estavam agrupados a certa distância, depois olhou para Will.
— Agora escutem, há uma caverna neste bosque, não muito longe. Subam a ladeira e então acompanhem a crista do morro, para a esquerda. Poderíamos até tentar carregar Lyra uma parte do caminho, mas você é grande demais, vai ter que ir a pé. Os Espectros não vão nos seguir, eles não conseguem nos ver no ar, e têm medo de você. Nós nos encontraremos lá, é uma caminhada de meia hora.
E ela tornou a alçar voo. Will protegeu os olhos da luz para observar a bruxa e as outras figuras elegantes girarem no ar e voarem céleres rumo às árvores.
— Ah, Will, estamos salvos agora! Vai dar tudo certo, agora que Serafina Pekkala está aqui! — Lyra afirmou. — Nunca pensei que fosse ver a Serafina de novo... Ela chegou bem na hora, não foi? Exatamente como na outra vez, em Bolvangar...
Tagarelando animadamente, como se já tivesse esquecido a luta, ela subiu a ladeira em direção ao bosque. Will acompanhava-a em silêncio. A mão latejava com força, e o sangue escorria sem parar. Ele ergueu a mão junto ao peito e tentou não pensar nisso.
Demorou não meia hora, mas uma hora e três quartos, porque por várias vezes Will teve que parar e descansar. Quando chegaram à caverna, encontraram uma fogueira acesa, um coelho assando e Serafina Pekkala mexendo alguma coisa num pequeno caldeirão de ferro.
— Deixe eu ver a ferida — foi a primeira coisa que ela disse a Will. Ele, como um zumbi, estendeu a mão.
Pantalaimon, em forma de gato, observava com curiosidade, mas Will desviou o olhar. Não gostava de ver seus dedos mutilados. As bruxas cochicharam entre si, e então Serafina Pekkala perguntou:
— Qual foi a arma que fez esse ferimento?
Will pegou a faca e estendeu-a para ela em silêncio. As companheiras contemplaram a faca com espanto e suspeita, pois nunca tinham visto uma lâmina assim tão afiada.
— Vai ser preciso mais do que ervas para curar isto. Vai ser preciso um feitiço — Serafina Pekkala declarou. — Muito bem, vamos preparar um. Vai estar pronto quando a lua sair. Enquanto isso, vocês vão dormir.
Ela deu a ele uma pequena taça de chifre contendo uma poção quente cujo sabor amargo era adoçado com mel, e algum tempo depois ele se deitou e caiu em sono profundo. A bruxa cobriu-o com folhas e voltou-se para Lyra, que ainda comia coelho.
— Agora, Lyra, me conte quem é este menino e o que você sabe sobre este mundo e esta faca — pediu.
Então Lyra respirou fundo e começou.

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