17 de fevereiro de 2017

11. As libélulas

Uma verdade de má-fé contada é capaz de derrotar qualquer mentira por ti inventada.
Willian Blake

Ama subiu a trilha que levava à caverna com leite e pão na sacola às costas e uma dúvida terrível fazendo pesar seu coração. Que jeito neste mundo poderia dar para conseguir chegar perto da menina adormecida?
Ela alcançou o pedregulho onde a mulher lhe dissera para deixar a comida. Colocou as coisas no chão, mas não voltou direto para casa, subiu mais um pouco, ultrapassando a caverna e a massa espessa de rododendros, depois mais um pouco ainda, até onde as árvores ficavam mais escassas e os arco-íris começavam.
Ali, ela e seu dimon costumavam fazer uma brincadeira: subiam acima das reentrâncias na rocha e das pequenas cachoeiras verde-esbranquiçadas, passando pelos redemoinhos e pela espuma colorida do espectro solar, até que os cabelos e as pálpebras dela e o pelo de esquilo dele ficavam totalmente cobertos por um milhão de minúsculas pérolas de água. A brincadeira era chegar ao topo sem limpar os olhos, apesar da tentação, e logo a luz do sol brilhava e se dispersava em vermelho, amarelo, verde, azul e todas as cores intermediárias, mas não podia passar a mão nos olhos para ver melhor até que se tivesse chegado ao topo, senão estaria perdido o jogo.
Seu dimon, Kulang, saltou para a rocha que ficava na beira da pequena cachoeira mais alta e ela sabia que imediatamente se viraria para se assegurar de que ela não limparia a água dos cílios — só que ele não se virou. Em vez disso, ficou agarrado na pedra, olhando para a frente. Ama limpou os olhos, porque o jogo estava cancelado pela surpresa que seu dimon estava sentindo. Quando escalou até ali para olhar por sobre a beirada, deu um pequeno soluço de susto e ficou imóvel, porque olhando para baixo, direto para ela, estava a cara de um bicho que nunca vira antes: um urso, mas imenso, aterrador, com quatro vezes o tamanho dos ursos pardos da floresta e branco como marfim, com um focinho preto e olhos pretos, e garras compridas como punhais. Ele estava apenas à distância de um braço. Ela podia ver cada pelo em sua cabeça.
— Quem é essa? — disse a voz de um garoto e, embora Ama não compreendesse as palavras, percebeu o sentido com muita facilidade. Depois de um instante o garoto apareceu ao lado do urso: com uma expressão feroz, olhos franzidos e o queixo levantado. E seria aquilo ao lado dele um dimon, com forma de pássaro?
Mas um pássaro tão estranho: diferente de todos que ela conhecia. Ele voou até Kulang e falou rapidamente:
— Amigos. Não vamos machucar vocês.
O grande urso branco não havia se movido um milímetro.
— Suba até aqui — disse o garoto e mais uma vez seu dimon traduziu para ela o sentido do que ele dizia.
Vigiando o urso com respeito e temor supersticiosos, Ama subiu até o lado da pequena cachoeira e ficou parada timidamente no rochedo. Kulang se transformou numa borboleta e pousou por um instante em sua face, mas logo saiu para esvoaçar em volta do outro dimon, que estava pousado no ombro do garoto.
— Will — disse o garoto apontando para si mesmo, e ela respondeu:
— Ama. — Agora que podia vê-lo direito, estava quase com mais medo do garoto do que do urso: ele tinha um ferimento terrível: faltavam dois de seus dedos. Ama ficou tonta quando viu aquilo.
O urso se virou, entrando no riacho de águas leitosas, e se deitou na água, como que para se refrescar. O dimon do garoto levantou voo e ficou esvoaçando com Kulang entre os arco-íris e pouco a pouco eles começaram a se entender.
E o que ela descobria que eles estavam procurando, senão uma caverna com uma garota adormecida? As palavras jorraram numa torrente em sua resposta:
— Eu sei onde é! E ela está sendo mantida adormecida à força, pela mulher que diz ser sua mãe, mas nenhuma mãe seria tão malvada, não é? A mulher a obriga a beber um líquido que a faz dormir, mas eu tenho umas ervas para fazer com que ela acorde, se ao menos conseguisse chegar junto dela!
Will podia apenas sacudir a cabeça e esperar que Balthamos traduzisse. Levou mais de um minuto.
— Iorek — chamou, e o urso veio andando pesadamente até junto da margem do riacho, lambendo os beiços, pois acabara de engolir um peixe. — Iorek — disse Will — essa menina diz que sabe onde Lyra está. Vou até lá com ela para ver, enquanto você fica aqui de vigia.
Iorek Byrnison, parado de quatro dentro do riacho, assentiu silenciosamente. Will escondeu a mochila e afivelou a faca no cinto, antes de descer com alguma dificuldade entre os arco-íris com Ama. Ele teve que esfregar os olhos e se esforçar para enxergar em meio aos reflexos coruscantes para ver onde era seguro pôr os pés, a névoa que enchia o ar estava gelada.
Quando chegaram à base das cachoeiras, Ama indicou que deveriam ír com cuidado e não fazer barulho, e Will foi andando atrás dela, descendo a encosta, por entre os rochedos cobertos de musgo e os imensos troncos retorcidos dos pinheiros, onde a luz salpicada dançava num verde intenso, e um bilhão de minúsculos insetos zumbiam e cantavam. E seguiram descendo e descendo cada vez mais, ainda assim, a luz do sol os seguiu, penetrando nas profundezas do vale, enquanto acima os galhos se agitavam sem cessar no céu claro.
Então Ama parou. Will se escondeu atrás do tronco maciço de um cedro e olhou para onde ela estava apontando. Através de um emaranhado de folhas e de galhos, ele viu a parede lateral de um penhasco que se erguia verticalmente à direita e, a meio caminho na subida.
— A Sra. Coulter — sussurrou, seu coração batendo acelerado.
A mulher apareceu saindo de trás de um pedregulho e sacudiu um galho coberto de folhas antes de largá-lo e esfregar as mãos para limpá-las. Será que estivera varrendo o chão? Suas mangas estavam arregaçadas e o cabelo preso por um lenço. Will nunca poderia tê-la imaginado com uma aparência tão doméstica. Mas então houve um lampejo de dourado e aquele macaco feroz apareceu, saltando sobre seu ombro.
Como se estivessem desconfiando de alguma coisa, os dois olharam atentamente ao redor e, de repente, a Sra. Coulter não parecia mais nem um pouco doméstica.
Ama estava sussurrando em tom urgente: tinha medo do dimon macaco dourado, ele gostava de arrancar as asas de morcegos enquanto ainda estavam vivos.
— Há mais alguém com ela? — perguntou Will. — Nenhum soldado ou coisa parecida?
Ama não sabia. Nunca tinha visto soldados, mas, de fato, as pessoas falavam de homens estranhos e assustadores, ou podiam ser fantasmas, vistos nas encostas durante a noite... Mas sempre houvera espíritos e fantasmas nas montanhas, todo mundo sabia disso. De modo que podiam não ter nada a ver com a mulher.
“Bem”, pensou Will, “se Lyra está na caverna e a Sra. Coulter não sair, vou ter que ir lá fazer uma visita.”
— O que é esse remédio que você tem? — perguntou Will. — O que você tem de fazer para acordá-la?
Ama explicou.
— E onde está agora?
— Em minha casa — respondeu. — Escondido.
— Então está certo. Espere aqui e não se aproxime. Quando encontrar com ela, não deve dizer que me conhece. Você nunca me viu, nem viu o urso. Quando deve voltar para trazer comida para ela?
— Meia hora antes do pôr-do-sol — respondeu o dimon de Ama.
— Então, quando voltar traga o remédio — instruiu Will. — Eu me encontro com você aqui.
Ela ficou observando com intensa preocupação enquanto ele seguia descendo a trilha. Com certeza não acreditava no que ela havia acabado de contar sobre o dimon macaco, caso contrário ele não estaria indo para a caverna tão displicentemente.
Na verdade, Will estava muito nervoso. Todos os seus sentidos pareciam mais aguçados, de modo que percebia até os insetos mais minúsculos esvoaçando nos raios de sol e o farfalhar de cada folha, o movimento das nuvens acima, apesar de seus olhos em nenhum momento terem se despregado da boca da caverna.
— Balthamos — sussurrou, e o anjo dimon voou até seu ombro sob a forma de um passarinho de olhos brilhantes com asas vermelhas.
— Fique perto de mim e vigie aquele macaco.
— Então olhe para a direita — respondeu Balthamos secamente. E Will viu um lampejo de luz dourada na boca da caverna que tinha cara e olhos e os estava observando. Eles estavam a menos de 20 passos de distância. Will se deteve, ficando imóvel, e o macaco dourado virou a cabeça para olhar para dentro da caverna, disse alguma coisa e virou-se de volta para ele.
Will pôs a mão no cabo da faca, então continuou a andar.
Quando chegou à caverna, a mulher estava esperando por ele. Estava sentada muito confortavelmente em sua cadeirinha de lona, com um livro no colo, observando-o calmamente. Vestia roupas de viagem de cor cáqui, mas eram tão bem cortadas e seu corpo era tão gracioso que parecia um modelo de altíssima costura, e o pequeno buquê de botões de flores vermelhas que ela tinha prendido na camisa parecia a mais elegante das joias. Os cabelos dela brilhavam e seus olhos escuros faiscavam, as pernas nuas reluziam bronzeadas sob a luz dourada do sol.
Ela sorriu. Will quase retribuiu o sorriso, porque não estava habituado com a doçura e delicadeza que uma mulher podia incutir num sorriso, e aquilo o deixou inquieto.
— Você é Will — disse ela, naquela voz baixa, inebriante.
— Como sabe o meu nome? — perguntou em tom mal-educado.
— Lyra diz seu nome quando está dormindo.
— Onde está ela?
— A salvo.
— Quero vê-la.
— Então venha — disse ela e se levantou, largando o livro sobre cadeira. Pela primeira vez desde que chegara à presença da Sra. Coulter, Will olhou para o dimon macaco dourado. O pelo dele era longo e lustroso, cada fio parecendo ser feito de ouro puro, muito mais fino do que cabelo humano, e sua carinha e mãos eram pretas. Da última vez que Will tinha visto aquela cara, contorcida de ódio, fora na noite em que ele e Lyra tinham roubado de volta o aletiômetro de Sir Charles Latram, na casa em Oxford. O macaco tinha tentado mordê-lo com os dentes afiados até que Will golpeara, da esquerda para a direita, com a faca, obrigando o dimon a recuar, de modo que pudesse fechar a janela e prendê-los num mundo diferente. Will refletiu que, agora, nada no mundo o faria dar as costas àquele macaco.
Mas Balthamos, sob a forma de passarinho, o estava vigiando atentamente, e Will entrou pisando com cuidado no solo da caverna e seguiu a Sra. Coulter até o vulto pequenino deitado imóvel nas sombras. E lá estava ela, sua amiga mais querida, adormecida. Parecia tão menina!
Ele ficou surpreendido com o fato de que toda a força e fogo que eram Lyra pudessem torná-la frágil e delicada quando estava dormindo. Enroscado em seu pescoço estava Pantalaimon sob sua forma de arminho, a pelagem reluzindo, e os cabelos de Lyra escorriam úmidos colados em sua testa. Will se ajoelhou ao lado dela e afastou os cabelos. O rosto de Lyra estava pelando. Pelo canto do olho Will viu o macaco dourado agachado, pronto para dar o bote, e pôs a mão sobre a faca, mas a Sra. Coulter sacudiu a cabeça muito ligeiramente e o macaco relaxou. Sem parecer fazê-lo, Will estava memorizando com exatidão o interior da caverna: a forma e o tamanho de cada rocha, a inclinação do solo, a altura exata do teto acima da garota dormindo. Teria que saber por onde passar e encontrá-la no escuro, e aquela era a única oportunidade que teria de investigar isso.
— Como está vendo, ela está em segurança — disse a Sra. Coulter.
— Por que a está mantendo aqui? E por que não deixa Lyra acordar?
— Vamos nos sentar.
Ela não voltou para a cadeira em vez disso, veio sentar-se com ele nas pedras cobertas de musgo na entrada da caverna. Parecia tão gentil e havia uma sabedoria tão triste em seus olhos, que a desconfiança de Will aumentou. Sentia que cada palavra que ela dizia era uma mentira, que todas as suas ações escondiam uma ameaça e cada sorriso era uma máscara de fingimento. Bem, ele teria que lhe dar o troco e enganá-la: teria que fazê-la acreditar que era inofensivo. Mas havia enganado muito bem todos os professores e policiais, todas as assistentes sociais e vizinhos que algum dia tinham demonstrado algum interesse por ele e por sua casa, vinha se preparando para isso durante sua vida inteira. “Certo”, pensou ele. “Posso cuidar muito bem de você.”
— Gostaria de beber alguma coisa? — perguntou a Sra. Coulter. — Eu também vou beber... Não há nenhum perigo. Veja.
Ela cortou uma estranha fruta marrom enrugada e espremeu o suco leitoso em duas pequenas canecas. Bebeu numa e ofereceu a outra a Will, que também bebericou e achou o suco fresco e doce.
— Como você conseguiu chegar aqui? — perguntou ela.
— Não foi difícil seguir vocês.
— Estou vendo. Você está com o aletiômetro de Lyra?
— Estou — respondeu, e deixou que ela tentasse descobrir sozinha se sabia usá-lo ou não.
— E você tem uma faca, pelo que me disseram.
— Foi Sir Charles quem lhe contou isso, não foi?
— Sir Charles? Ah... o Carlo, é claro. Foi ele, sim. Deve ser fascinante. Posso vê-la?
— Não, é claro que não — retrucou. — Por que está mantendo Lyra aqui?
— Porque eu a amo — disse ela. — Sou a mãe dela. Ela está correndo um perigo terrível e não vou permitir que nada aconteça a ela.
— Perigo de quê? — perguntou Will.
— Bem... — disse ela, e colocou a canequinha no chão, inclinando-se para a frente de maneira que seus cabelos balançassem dos dois lados de seu rosto. Quando tornou a erguer o tronco, puxou os cabelos para trás, enfiando-os atrás das orelhas com as duas mãos, e Will sentiu a fragrância de algum perfume que ela estava usando, combinado com o cheiro fresco de seu corpo, e se sentiu inquieto.
Se a Sra. Coulter percebeu sua reação, não demonstrou. Então prosseguiu.
— Olhe, Will, não sei como você veio a conhecer minha filha e não sei o que você já sabe, e, certamente, não sei se posso confiar em você, mas, igualmente, estou cansada de ter que mentir. De modo que aqui vai a verdade: — E prosseguiu. — Descobri que exatamente as pessoas da instituição à qual eu pertencia, a Igreja, constituem um perigo para minha filha. Francamente, eu acho que eles querem matá-la. De modo que me vi diante de um dilema, sabe: obedecer à Igreja ou salvar minha filha. E eu também era uma servidora fiel da Igreja. Não havia ninguém mais dedicado, dei minha vida à Igreja, fui sua servidora apaixonada — ela fez uma pausa. — Mas tive esta filha... — Ela se calou. — Sei que não cuidei bem dela quando era pequena. Foi tirada de mim e criada por estranhos. Talvez isso tenha tornado difícil para ela confiar em mim. Mas quando estava crescendo, vi o perigo que estava correndo e, agora, já por três vezes, tentei salvá-la desse perigo. Tive que me tornar uma renegada e me esconder neste lugar remoto e pensei que estivéssemos em segurança, mas, agora, acabo de descobrir que você nos achou com tanta facilidade... bem, acho que pode compreender, isso me preocupa. A Igreja não deve estar muito longe de você. E eles querem matá-la, Will. Eles não permitirão que ela viva.
— Por quê? Por que eles a odeiam tanto?
— Por causa do que acreditam que ela vai fazer. Não sei o que é, gostaria muito de saber, pois assim poderia mantê-la ainda mais segura. Mas tudo o que sei é que eles a odeiam e que não têm misericórdia, nenhuma. — Ela se inclinou para frente, falando em tom urgente, baixo e cauteloso. — Por que estou contando isso a você? — continuou. — Posso confiar em você? Acho que vou ter que confiar. Não posso mais fugir, não há mais para onde ir. E se você é amigo de Lyra, poderia ser meu amigo também. E eu realmente estou precisando de amigos, realmente estou precisando de ajuda. Agora tudo está contra mim. A Igreja vai me destruir também, exatamente como Lyra, se nos encontrarem. Eu estou sozinha, Will, sou só eu numa caverna com minha filha e todas as forças de todos os mundos estão tentando nos encontrar. E aqui está você, para mostrar como, aparentemente, é fácil nos achar. O que você vai fazer, Will? O que você quer?
— Por que a mantém adormecida? — perguntou ele, teimosamente, evitando as perguntas.
— Porque, o que aconteceria se eu a deixasse acordar? Ela fugiria imediatamente. E ela não sobreviveria nem cinco dias.
— Mas por que não explica a ela e lhe dá uma escolha?
— Você acha que ela me ouviria? Acha que, mesmo se me ouvisse, que acreditaria em mim? Ela não confia em mim. Ela me detesta, Will. Você deve saber disso. Ela me despreza. Eu, bem... eu não sei como dizer isso... eu a amo tanto que abandonei tudo o que eu tinha, uma carreira brilhante, uma grande felicidade, posição e riqueza, tudo, para vir para esta caverna nas montanhas e viver de pão seco e frutas amargas, só para poder manter minha filha viva. E se para fazer isso eu tiver que mantê-la adormecida, assim seja. Mas eu tenho que salvar sua vida. Sua mãe não faria o mesmo por você?
Will sentiu o impacto de um choque de raiva diante do fato de que a Sra. Coulter tivesse ousado se referir à mãe dele para defender seus argumentos. Depois, esse primeiro choque foi complicado pelo pensamento de que sua mãe, afinal, não o havia protegido, ele tivera que protegê-la. Será que a Sra. Coulter amava Lyra mais do que Elaine Parry o amava? Mas isso era injusto: sua mãe não estava bem.
Ou a Sra. Coulter não tinha conhecimento do turbilhão de sentimentos que suas palavras simples haviam criado ou ela era monstruosamente esperta. Seus belos olhos observaram com brandura, enquanto o rosto de Will ficava afogueado e ele se mexia desconfortavelmente, e, por um momento, a Sra. Coulter ficou espantosamente parecida com sua filha.
— Mas o que você vai fazer? — perguntou.
— Bem, agora eu já vi Lyra — respondeu Will — e ela está viva, isso está claro para mim e, creio, está em segurança. Isso é tudo o que eu ia fazer. De maneira que agora que já fiz, posso ir embora, para ajudar Lorde Asriel, como já deveria ter feito.
Aquilo de fato a surpreendeu um pouco, mas ela se controlou.
— Você não quer dizer... eu pensei que poderia nos ajudar — argumentou, bastante calmamente, sem suplicar, mas questionando. — Com a faca. Eu vi o que você fez na casa de Sir Charles. Poderia nos botar em segurança, não poderia? Poderia nos ajudar a fugir?
— Agora, eu vou embora — disse Will, levantando-se.
Ela estendeu a mão. Um sorriso triste, um dar de ombros e um meneio de cabeça, como se cumprimentando um adversário inteligente que tivesse feito um bom movimento no tabuleiro de xadrez: isso foi tudo o que seu corpo disse. Will descobriu que estava gostando dela, porque era corajosa e porque parecia ser uma Lyra mais complexa, mais rica e mais profunda. Não conseguiu se impedir de gostar dela.
De modo que apertou a mão dela e viu que era firme, fresca e macia. A Sra. Coulter se virou para o macaco dourado, que estivera sentado atrás dela o tempo todo, e houve uma troca de olhares entre eles que Will não conseguiu interpretar.
Então ela se virou de volta com um sorriso.
— Adeus — disse ele, e ela respondeu baixinho:
— Adeus, Will.
Will saiu da caverna, sabendo que os olhos dela o estavam seguindo, e não se virou para trás nem uma vez.
Ama não estava em nenhum lugar a vista. Foi caminhando de volta por onde tinha vindo, seguindo a trilha, até que ouviu o som da cachoeira mais adiante.
— Ela está mentindo — disse para Iorek Byrnison, 30 minutos depois. — É claro que está mentindo. Ela mentiria mesmo se isso tornasse as coisas piores para si mesma, porque ela simplesmente gosta demais de mentir para parar.
— Então qual é o seu plano? — perguntou o urso, que estava tomando um banho de sol, a barriga achatada contra um pedaço de neve entre as rochas. Will andou de um lado para o outro, se perguntando se poderia usar a mesma manobra que tinha funcionado em Headington: usar a faca para passar para outro mundo e então ir para um ponto que ficasse bem ao lado de onde Lyra estava deitada, cortar uma outra abertura para voltar a entrar nesse mundo, puxá-la pela abertura para um local seguro e tornar a fechar. Era a coisa óbvia a fazer: por que estava hesitando?
Balthamos sabia. Sob sua própria forma de anjo, tremeluzindo como uma névoa de calor sob a luz do sol, declarou:
— Você foi tolo de ir vê-la. Agora tudo o que quer é vê-la de novo.
Iorek soltou um rosnado baixo e grave. De início, Will pensou que estivesse fazendo uma advertência a Balthamos, mas depois, com um ligeiro choque de vergonha, percebeu que o urso estava concordando com o anjo. Os dois tinham dado pouca atenção um ao outro até agora, suas maneiras de ser eram totalmente diferentes, mas, com relação àquilo, claramente tinham a mesma opinião.
E Will fez uma careta de desprezo, mas era verdade. Tinha sido seduzido pela Sra. Coulter. Todos os seus pensamentos se voltavam para ela: quando pensava em Lyra, era para se perguntar como seria parecida com a mãe quando crescesse, se pensava na Igreja, era para se perguntar quantos padres e cardeais estariam enfeitiçados por ela, se pensasse em seu pai, morto, era para se perguntar se ele a teria detestado ou admirado, e se pensasse em sua mãe...
Ele sentiu seu coração se contrair. Foi andando para longe do urso e ficou parado no alto de um pedregulho de onde podia ver o vale inteiro. No ar limpo e frio podia ouvir o toque-toque distante de alguém cortando lenha, podia ouvir um sino de ferro tilintando surdamente em volta do pescoço de uma ovelha, podia ouvir o farfalhar das copas das árvores bem longe, lá embaixo. Mesmo as mais minúsculas fendas nas rochas no horizonte estavam nítidas e claras diante de seus olhos, bem como os abutres que voavam em círculos sobre algum animal quase morto a muitos quilômetros de distância. Não havia dúvida quanto àquilo: Balthamos estava certo. A mulher o enfeitiçara. Era agradável e tentador pensar naqueles belos olhos e na doçura daquela voz, e recordar a maneira como seus braços tinham se levantado para empurrar para trás os cabelos brilhantes... Com um esforço, recuperou o controle de seus sentidos e ouviu um outro som, totalmente diferente: um zumbido muito distante.
Virou-se para um lado e depois para outro, tentando localizá-lo, e o descobriu ao norte, exatamente na mesma direção de onde ele e Iorek tinham vindo.
— Zepelins — disse a voz do urso, assustando Will, pois não tinha ouvido o imenso animal se aproximar. Iorek estava a seu lado, olhando na mesma direção, e então se levantou nas duas patas traseiras, ficando duas vezes mais alto que Will, olhar fixo, atento.
— Quantos?
— Uns oito — disse Iorek depois de um minuto e, então, Will também os avistou: minúsculos pontos enfileirados.
— Sabe me dizer quanto tempo vão levar para chegar aqui? — perguntou Will.
— Estarão aqui não muito depois do anoitecer.
— Então não teremos muito tempo de escuridão. Isso é uma pena.
— Qual é o seu plano?
— Fazer uma abertura e através dela levar Lyra para um outro mundo, e fechar antes que sua mãe possa nos seguir. A menina tem um remédio para fazer Lyra acordar, mas não conseguiu explicar com muita clareza como usá-lo, de modo que ela terá que entrar na caverna também. Contudo, não quero colocá-la em perigo. Talvez você pudesse distrair a Sra. Coulter enquanto cuidamos disso.
O urso grunhiu e fechou os olhos. Will olhou ao redor procurando o anjo e viu sua forma delineada em gotículas de névoa sob a luz do final da tarde.
— Balthamos — disse — vou voltar à floresta agora, para encontrar um lugar seguro para fazer a primeira abertura. Preciso que fique de vigia para mim e me avise no minuto em que ela se aproximar, ela ou aquele dimon dela.
Balthamos assentiu e levantou as asas para sacudir a água. Então voou bem alto no ar frio e foi planando sobre o vale enquanto Will começava a procurar um mundo onde Lyra pudesse estar em segurança.


Na antepara dupla do zepelim líder da esquadrilha, que estalava e tamborilava, as libélulas estavam saindo de seus casulos. Lady Salmakia se inclinou para frente, sobre o casulo da libélula azul-elétrico, ajudando a soltar as asas delicadas e úmidas, tomando cuidado para que seu rosto fosse a primeira coisa a ser registrada pelos olhos multifacetados, acalmando os nervos delicadamente tensos, sussurrando seu nome para a pequena criatura de cor brilhante, ensinando-lhe quem ela era.
Alguns minutos depois o Cavaleiro Tialys faria o mesmo com a sua. Mas no momento estava enviando uma mensagem através do magneto ressonante e sua atenção estava totalmente ocupada com o arco e seus dedos. Ele transmitiu:

Para Lorde Roke:
Estamos a três horas do horário previsto de chegada ao vale. O Tribunal Consistorial de Disciplina pretende enviar um pelotão de combate para a caverna assim que aterrissarem.
Esse pelotão vai se dividir em duas unidades. A primeira abrirá caminho até a caverna, combatendo, se necessário, e matará a criança, cortando-lhe fora a cabeça de maneira a comprovar sua morte. Se possível, também querem capturar a mulher, porém, se isto for impossível, pretendem matá-la. A segunda unidade tem a missão de capturar o garoto vivo. O restante da força enfrentará os gírópteros do Rei Ogunwe. Eles estimam que os girópteros chegarão pouco depois dos zepelins. De acordo com suas ordens, Lady Salmakia e eu brevemente deixaremos o zepelim e voaremos diretamente para a caverna, onde tentaremos defender a menina contra a primeira unidade de soldados e mantê-los à distância até que cheguem os reforços.
Aguardamos sua resposta.

A resposta veio quase imediatamente.

Para o Cavaleiro Tialys:
À luz de suas informações, aqui vai uma mudança de planos. De maneira a impedir que o inimigo mate a criança, que seria o pior resultado possível, você e Lady Salmakia devem cooperar com o garoto. Enquanto ele tiver a faça, ele também tem a iniciativa, de modo que se ele abrir um outro mundo e levar a menina para lã, permitam que o faça e tratem de segui-los na passagem. Permaneçam ao lado deles em todos os momentos, quaisquer que sejam as circunstâncias.

O Cavaleiro Tialys respondeu:

Para Lorde Roke:
Sua mensagem foi recebida e compreendida. Lady Salmakia e eu partiremos imediatamente.

O pequenino espião fechou o magneto ressonante e recolheu seu equipamento.
— Tialys — veio um sussurro da escuridão — está saindo do casulo. Deve vir imediatamente.
Ele saltou para cima do esteio onde sua libélula estivera se esforçando para vir ao mundo e a ajudou delicadamente a se libertar do casulo partido. Acariciando a grande cabeça feroz, levantou as antenas pesadas, ainda úmidas e enroscadas, e permitiu que a criatura sentisse o gosto de sua pele até que estivesse inteiramente sob seu comando.
Lady Salmakia estava equipando sua libélula com os arreios que sempre tinha consigo onde quer que fosse: rédeas de seda de teia de aranha, estribos de titânio, uma sela de pele de beija-flor. Não pesava quase nada. Tialys fez o mesmo com a sua, ajeitando os tirantes em torno do corpo do inseto, apertando, ajustando. A libélula usaria os arreios até morrer. Então ele rapidamente colocou a mochila sobre os ombros e cortou uma abertura no tecido oleado da carcaça do zepelim.
Ao lado dele, Lady Salmakia havia montado em sua libélula e agora a incitou a sair pela abertura estreita, para as fortes rajadas de vento. As asas alongadas e frágeis tremeram enquanto se espremia para passar e então o êxtase de voar se apoderou da pequenina criatura e ela mergulhou no vento. Poucos segundos depois Tialys se juntou a ela no ar turbulento, sua montaria ansiosa para lutar contra a própria noite que caía rapidamente.
Os dois rodopiaram em direção ao alto nas correntes de vento geladas, levaram uns poucos momentos para descobrir onde estavam e tomar o curso rumo ao vale.

Um comentário:

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Boa leitura :)