4 de fevereiro de 2017

11. A armadura

QUANDO voltaram para o navio, Farder Coram, John Faa e os outros chefes passaram muito tempo em conferência no salão de refeições, e Lyra foi mandada para a sua cabine para consultar o aletiômetro. Cinco minutos depois ela sabia exatamente onde estava a armadura do urso e por que o resgate seria difícil.
Ficou sem saber se ia ao refeitório contar para John Faa e para os outros, mas resolveu que se quisessem saber eles lhe perguntariam. Talvez até já soubessem.
Ficou deitada na cama pensando naquele urso poderoso e selvagem e no modo como ele engolia aquela bebida forte, e na solidão dele naquele barracão sujo. Como era diferente ser gente, com seu dimon sempre por perto para conversar! No silêncio do navio parado, sem os contínuos estalidos de metal e madeira ou o ronco do motor ou o barulho da água no casco, Lyra foi adormecendo, com Pantalaimon em cima do travesseiro dormindo também.
Ela estava sonhando com seu pai aprisionado quando de repente, sem qualquer razão, despertou. Não tinha ideia das horas. Havia na cabine uma luz fraca que ela imaginou ser da lua, e ela viu, no canto da cabine, as suas roupas novas. E no mesmo instante teve vontade de experimentá-las.
Depois de vesti-las, ela quis sair para o convés, e um minuto depois estava no topo da escada, abrindo a porta.
Viu imediatamente que alguma coisa estranha estava acontecendo no céu. Pensou que fossem nuvens se movendo e estremecendo sob uma agitação nervosa, mas Pantalaimon cochichou:
— A Aurora Boreal!
O êxtase dela foi tão grande que ela precisou se agarrar à amurada para não cair. A luz enchia todo o céu ao Norte; sua imensidão mal podia ser concebida. Como se estivessem presas no próprio céu, grandes cortinas de delicada luz pendiam e estremeciam.
Com seus tons de verde-claro e rosa, transparentes como a renda mais fina, e tendo como bainha uma faixa de um púrpura profundo e gritante como as chamas do Inferno, elas balançavam e cintilavam com mais graça do que a mais graciosa dançarina. Lyra chegou a pensar que as escutava: um sussurro intenso e distante. No meio daquela delicadeza evanescente, ela experimentou uma emoção tão profunda como a que havia sentido quando estava perto do urso. Aquilo a comovia, era muito lindo, quase sagrado; ela sentiu lágrimas nos olhos, e as lágrimas dividiram ainda mais a luz em arco-íris prismáticos. Não demorou para que ela se encontrasse no mesmo tipo de transe de quando consultava o aletiômetro.
Pensou calmamente: talvez a mesma força que move o ponteiro do aletiômetro crie também a Aurora Boreal. Podia ser até o próprio Pó. Ela pensou isto sem perceber que tinha pensado, e logo esqueceu; só foi se lembrar muito tempo depois.
Enquanto Lyra observava, a imagem de uma cidade se formou atrás dos véus e dos jatos de translúcida luz: torres e domos, templos e colunatas, amplas praças e parques iluminados pelo sol. Olhar para aquilo lhe dava uma sensação de vertigem, como se não estivesse olhando para cima e sim para baixo, através de um abismo tão largo que nada poderia atravessá-lo — aquela cidade ficava a um universo inteiro de distância.
Mas alguma coisa se movia através do abismo, e, ao tentar focalizar a visão no momento, ela ficou tonta, porque a coisinha que se movia não fazia parte da Aurora Boreal ou do outro universo atrás da Aurora; era no céu, acima dos telhados da cidade. Quando conseguiu distinguir claramente, ela havia saído inteiramente do transe e a cidade celeste tinha desaparecido.
A coisa voadora se aproximou e rodeou o navio com as asas estendidas. Depois desceu e pousou com rápidos movimentos das asas poderosas, parando no convés a poucos metros de Lyra.
À luz da Aurora, ela viu um pássaro enorme, um lindo ganso cinzento com a cabeça coroada por um clarão de puro branco. Mas não era um pássaro: era um dimon, embora não houvesse pessoa alguma à vista. Isso deixou Lyra morrendo de medo. O pássaro perguntou:
— Onde está Farder Coram?
E de repente Lyra compreendeu quem devia ser: o dimon de Serafina Pekkala, a rainha do clã, a feiticeira amiga de Farder Coram. Gaguejou em resposta:
— Eu... Ele está... Vou chamar.
Lyra desceu a escada aos tropeços; abriu a porta da cabine que Farder Coram ocupava e falou para a escuridão:
— Farder Coram! O dimon da feiticeira apareceu! Está esperando no convés. Voou até aqui sozinho, eu vi quando ele vinha pelo céu...
O ancião pediu:
— Peça para ele esperar no convés de ré, minha filha.
O ganso avançou majestosamente para a popa do navio, onde olhou em volta, ao mesmo tempo elegante e selvagem, causando uma mistura de terror e fascinação em Lyra, que tinha a sensação de estar falando com um fantasma.
Então Farder Coram apareceu, enrolado em suas roupas de frio, seguido de perto por John Faa. Os dois velhos fizeram uma reverência respeitosa, e seus dimons também cumprimentaram o visitante.
— Saudações — disse Farder Coram. — Estou feliz e orgulhoso por vê-lo de novo, Kaisa. Agora, gostaria de entrar, ou prefere ficar aqui ao ar livre?
— Eu prefiro ficar ao ar livre, obrigado, Farder Coram. Vai conseguir ficar aquecido aqui por algum tempo?
Os feiticeiros e seus dimons não sentiam frio, mas sabiam que os outros humanos sentiam.
Farder Coram assegurou que estavam todos bem agasalhados e perguntou:
— Como vai Serafina Pekkala?
— Ela manda lembranças, Farder Coram, está muito bem e forte. Quem são estas duas pessoas?
Farder Coram apresentou os dois. O dimon-ganso olhou atentamente para Lyra.
— Já ouvi falar desta criança — declarou. — As feiticeiras conversam sobre ela. Então vieram guerrear?
— Guerrear, não, Kaisa. Viemos libertar as crianças que nos roubaram. E espero que as feiticeiras nos ajudem.
— Nem todas irão ajudar. Alguns clãs estão trabalhando com os caçadores do Pó.
— É assim que vocês chamam o Conselho de Oblação?
— Não sei o que pode ser esse Conselho. Eles são caçadores do Pó. Vieram para a nossa região há dez anos com instrumentos filosóficos. Pagaram-nos para permitir que construíssem estações em nossas terras e nos trataram com cortesia.
— Que Pó é esse?
— Ele vem do céu. Alguns dizem que sempre existiu; outros, que está caindo agora. O certo é que quando as pessoas tomam consciência dele, ficam apavoradas, e não descansam até descobrirem o que é. Mas nada disso interessa às feiticeiras.
— E onde estão agora esses caçadores do Pó?
— Quatro dias a nordeste daqui, num lugar chamado Bolvangar. Nosso clã nunca fez acordo com eles, e por causa da nossa antiga dívida com você, Farder Coram, vim mostrar como encontrar esses caçadores do Pó.
Farder Coram sorriu, e John Faa bateu palmas com satisfação.
— Muitíssimo obrigado, senhor — disse ao ganso. — Mas nos diga uma coisa: sabe algo mais sobre esses caçadores do Pó? O que eles fazem nessa tal de Bolvangar?
— Construíram edifícios de metal e concreto, e algumas câmaras subterrâneas. Queimam álcool de carvão, que trazem com muita despesa. Não sabemos o que fazem, mas nesse lugar, e por muitos quilômetros em volta, o ar está cheio de ódio e de medo; as feiticeiras conseguem ver estas coisas onde os humanos não conseguem. Os animais também ficam de longe. Nenhum pássaro voa lá; os lemingues e as raposas fugiram. Daí o nome Bolvangar: as campinas do mal. Eles não chamam assim: chamam de Estação Experimental. Mas para todo mundo é Bolvangar.
— E como se defendem?
— Eles têm uma companhia de tártaros do Norte armados com rifles. São bons soldados, mas não têm prática, porque ninguém jamais atacou o posto. Além disso, à volta do terreno, há uma cerca de arame com energia anbárica. Pode haver outras defesas que não conhecemos, pois, como eu expliquei, isso não nos interessa.
Lyra estava louca para fazer uma pergunta; o dimon-ganso sentiu isso e olhou para ela como se lhe desse permissão para perguntar.
— Por que as feiticeiras falam de mim? — ela quis saber.
— Por causa do seu pai e do conhecimento que ele tem dos outros mundos — respondeu o dimon.
Aquilo surpreendeu os três. Lyra olhou para Farder Coram, que lhe retribuiu o olhar com um leve espanto, e para John Faa, cuja expressão era preocupada.
— Outros mundos? — repetiu. — Perdão, senhor, mas que mundos seriam esses? Está falando das estrelas?
— Claro que não.
— Talvez o mundo dos espíritos? — arriscou Farder Coram.
— Também não.
— É a cidade nas luzes, não é? — disse Lyra.
O ganso virou para ela a sua majestosa cabeça. Tinha olhos negros rodeados por uma linha fina de puro azul-celeste, e seu olhar era intenso.
— Sim — respondeu. — Há milhares de anos as feiticeiras sabem dos outros mundos. Eles às vezes podem ser vistos nas Luzes do Norte. Não fazem parte deste universo; até mesmo as estrelas mais distantes fazem parte deste universo, mas as luzes nos mostram outro universo, inteiramente diferente. Não é mais distante, e sim misturado a este. Aqui, neste convés, existem milhões de outros universos que não sabem uns dos outros...
Ele ergueu as asas e estendeu-as, antes de tornar a dobrá-las.
— Acabei de esbarrar em outros 10 milhões de mundos, e eles nem sabem. Estamos tão próximos quanto de nós mesmos, mas não podemos tocar, ver ou ouvir esses outros mundos, a não ser nas Luzes do Norte.
— E por que lá? — quis saber Farder Coram.
— Porque as partículas carregadas na Aurora Boreal têm a propriedade de afinar a matéria deste mundo, de modo que por um momento conseguimos ver através dele. As feiticeiras sempre souberam disso, mas raramente falamos sobre o assunto.
— Meu pai acredita nisso — Lyra afirmou. — Eu sei, porque ouvi ele falando e mostrando figuras sobre a Aurora Boreal.
— Isso tem alguma coisa a ver com o Pó? — perguntou John Faa.
— Quem sabe? — fez o dimon-ganso. — Só posso lhes dizer que os caçadores do Pó têm medo dele como se fosse um veneno mortal. Foi por isso que aprisionaram Lorde Asriel.
— Mas por quê? — Lyra perguntou.
— Eles acham que ele pretende usar o Pó de alguma forma para fazer uma ponte entre este mundo e o mundo do outro lado da Aurora.
Lyra sentia a cabeça muito leve. Ouviu Farder Coram perguntar:
— E ele pretende mesmo?
— Pretende, sim — respondeu o dimon-ganso. — Eles não acreditam que ele consiga, acham que ele é louco por acreditar em outros mundos. Mas é verdade, esta é a intenção dele. E ele é uma figura tão forte que eles ficaram com medo que ele fosse atrapalhar os planos deles, então fizeram um pacto com os ursos de armadura para capturá-lo e mantê-lo prisioneiro na fortaleza de Svalbard. Alguns dizem que como parte do trato eles ajudaram o novo urso-rei a chegar ao trono.
Lyra perguntou:
— As feiticeiras desejam que ele faça essa ponte? Estão a favor dele, ou contra ele?
— Esta é uma pergunta com uma resposta complicada demais. Em primeiro lugar, as feiticeiras não são unidas; há diferenças de opinião entre nós. Em segundo lugar, a ponte de Lorde Asriel terá influência numa guerra que existe no momento entre algumas feiticeiras e várias outras forças, algumas no mundo dos espíritos. A posse dessa ponte, se ela algum dia existisse, daria uma vantagem enorme a quem a possuísse. Em terceiro lugar, o clã de Serafina Pekkala, o meu clã, ainda não faz parte de qualquer aliança, embora esteja sofrendo grande pressão para se declarar de um lado ou do outro. Sabem, são questões de alta política, difíceis de responder.
— E os ursos, de que lado eles estão? — Lyra perguntou.
— Do lado de quem lhes pagar. Não têm o menor interesse nesses assuntos; não têm dimons; não se preocupam com os problemas humanos. Pelo menos é como eles costumavam ser, mas ouvimos dizer que o novo rei está disposto a mudar os velhos hábitos... De qualquer maneira, os caçadores do Pó pagaram a eles para aprisionar Lorde Asriel, e eles vão fazer isso até a última gota de sangue do corpo do último urso vivo.
— Mas não de todos! — protestou Lyra. — Existe um que não está em Svalbard. É um urso renegado, e ele vai com a gente.
O ganso dirigiu a Lyra outro de seus olhares penetrantes. Desta vez ela sentiu a fria surpresa dele. Farder Coram se remexeu desconfortavelmente e disse:
— Na verdade, Lyra, acho que ele não vai. Ouvimos dizer que ele está cumprindo pena de trabalhos forçados; não está livre, como pensamos. Até ser liberado, ele não poderá ir conosco, com ou sem armadura, que, aliás, ele não vai conseguir de volta.
— Mas ele disse que foi enganado! Fizeram ele ficar bêbado e roubaram a armadura dele!
— Nós ouvimos uma história diferente — John Faa contestou. — Ouvimos dizer que ele é um malandro perigoso, isso sim.
Lyra ficou tão indignada que mal conseguiu falar:
— Se o aletiômetro diz alguma coisa, eu sei que é verdade. Eu perguntei, e ele disse que o urso estava dizendo a verdade, que ele foi mesmo enganado e são eles que estão mentindo, não ele. Eu acredito nele, Lorde Faa! Farder Coram, você também viu o urso e acredita nele, não é?
— Eu pensei que acreditasse, filha. Mas não tenho tanta certeza quanto você.
— Mas do que eles têm medo? Estão achando que ele vai sair matando as pessoas assim que estiver de armadura? Ele podia matar um monte delas agora!
— E matou — disse John Faa. — Bom, não um monte, mas algumas. Quando tiraram sua armadura, ele saiu em busca dela; arrombou a delegacia e o banco e nem sei mais o quê, e pelo menos dois homens morreram. Só não foi morto a tiros por causa da sua habilidade fantástica com metais; queriam usá-lo como operário.
— Como escravo! — protestou Lyra com veemência. — Não tinham esse direito!
— Seja como for, podiam ter matado o urso por causa dos homens que ele liquidou, e não mataram. Ele foi condenado a trabalhos forçados pelo interesse da cidade até pagar os estragos e a indenização pelos assassinatos.
Farder Coram interveio:
— John, não sei o que você acha, mas acredito que nunca vão lhe devolver a tal armadura. Quanto mais tempo ele ficar preso, mais zangado vai estar quando tiver a armadura de volta.
— Mas se nós lhe devolvermos a armadura, ele vai com a gente e nunca mais vai incomodar a cidade — disse Lyra. — Eu prometo, Lorde Faa.
— E como é que vamos fazer isso?
— Eu sei onde ela está!
Houve um silêncio, durante o qual todos os três tomaram consciência do dimon da feiticeira olhando fixamente para Lyra. Os três se voltaram para ele, inclusive seus próprios dimons, que até então tinham tido a extrema delicadeza de manter os olhos afastados de tão singular criatura ali presente sem seu corpo.
— Você não vai ficar surpresa em saber que o aletiômetro é a outra razão de as feiticeiras estarem interessadas em você, Lyra. Nosso cônsul nos contou sobre sua visita hoje de manhã. Acredito que foi o Dr. Lanselius quem lhe falou do urso.
— Foi, sim — disse John Faa. — Lyra e Farder Coram foram falar com ele. Acho que o que Lyra diz é verdade, mas se nós agirmos contra a lei dessa gente, só vamos conseguir entrar em conflito com eles, e o que devíamos estar fazendo é ir para essa tal de Bolvangar, com ou sem urso.
— Ah, mas você não viu esse urso, John — protestou Farder Coram. — E eu acredito em Lyra. Podíamos nos responsabilizar por ele, talvez. Ele pode fazer uma grande diferença.
— O que o senhor acha? — John Faa perguntou ao dimon da feiticeira.
— Tivemos pouco contato com os ursos. Os desejos deles são tão estranhos para nós quanto os nossos para eles. Se esse urso é um renegado, pode ser menos confiável do que dizem que os ursos são. Vocês vão ter que resolver sozinhos.
— Está certo — disse John Faa em tom firme. — Mas agora, senhor, pode nos dizer como chegar a Bolvangar?
O dimon-ganso começou a explicar. Falou em vales e montes, na linha de árvores e na tundra, nas estrelas. Lyra escutou durante algum tempo e depois se recostou na cadeira, com Pantalaimon enrolado em seu pescoço, e pensou na grandiosa visão que o dimon-ganso trouxera consigo. Uma ponte entre dois mundos... Aquilo era muito mais esplêndido do que ela poderia esperar! E somente seu maravilhoso pai poderia ter concebido tudo isso. Assim que tivessem resgatado as crianças, ela iria a Svalbard com o urso para levar o aletiômetro a Lorde Asriel, usaria o instrumento para ajudar a libertá-lo; e os dois juntos construiriam aponte e seriam os primeiros a atravessar...


Em algum momento durante a noite, John Faa deve ter carregado Lyra para a cama dela, porque era onde ela estava ao acordar. O sol fraco estava em sua posição mais alta, apenas o espaço de uma mão acima do horizonte, de modo que devia ser quase meio-dia; breve, quando se aproximassem mais do Norte, não haveria sol algum.
Ela se vestiu depressa e correu para o convés, onde nada de especial estava acontecendo. Todos os suprimentos tinham sido descarregados, trenós e juntas de cães haviam sido alugados e aguardavam a partida; tudo estava pronto, e nada se movia. A maioria dos gípcios estava sentada em volta de compridas mesas de madeira numa taverna cheia de fumaça defronte ao mar, comendo rosquinhas e bebendo café forte e doce sob os estalidos de algumas antiquadas lâmpadas anbáricas.
— Onde está Lorde Faa? — ela perguntou, se sentando com Tony Costa e os amigos dele. — E Farder Coram? Eles foram pegar a armadura do urso?
— Eles estão conversando com o Alcaide. É assim que eles chamam o governador. Você viu esse tal urso, Lyra?
— Vi, sim!
Ela começou a explicar tudo sobre o urso. Enquanto ela falava, mais alguém puxou uma cadeira e se juntou ao grupo.
— Quer dizer que você falou com o velho Iorek? — perguntou.
Lyra olhou com surpresa para o recém-chegado. Era um homem alto e magro, com um bigode preto fino e olhos azuis apertados, e uma eterna expressão de distanciamento, de cinismo e de estar achando graça nas coisas. Ela ficou instantaneamente impressionada com ele, mas sem saber se gostava dele ou não. O dimon dele era uma lebre humilde, magra e com a mesma aparência valente que ele tinha.
O homem estendeu a mão, que ela apertou com cautela.
— Lee Scoresby — ele se apresentou.
— O aeróstata! — ela exclamou. — Onde está o seu balão? Posso subir nele?
— No momento, ele está embalado, senhorita. Você deve ser a famosa Lyra. O que achou de Iorek Byrnison?
— Conhece ele?
— Lutei ao lado dele na campanha da Tunguska. Droga, conheço Iorek há anos. Os ursos são criaturas difíceis, mas aquele é um problema, sem dúvida. Será que algum dos cavalheiros está disposto a um jogo de azar?
Um baralho surgiu do nada na mão dele. Ele o manejou com destreza.
— Bom, já ouvi falar da habilidade que seu povo tem com as cartas — Lee Scoresby declarou enquanto cortava e embaralhava as cartas com uma das mãos e com a outra pescava um charuto no bolso da camisa. — Então achei que não iam negar a um pobre viajante texano a chance de jogar contra a sua habilidade e ousadia no campo de batalha de papelão. O que dizem, cavalheiros?
Os gípcios tinham orgulho de sua habilidade com as cartas, e vários homens se interessaram e aproximaram as cadeiras. Enquanto resolviam com Lee Scoresby que tipo de jogo seria e quanto apostariam, o dimon dele mexia as orelhas para Pantalaimon, que compreendeu e saltou para o lado dele como um esquilo.
Ele estava falando também para Lyra, naturalmente, e ela o escutou dizer baixinho:
— Vá direto ao urso e fale direto com ele. Assim que souberem o que está acontecendo vão levar a armadura dele para outro lugar.
Lyra se levantou, foi levando sua rosquinha, e ninguém percebeu; Lee Scoresby já estava distribuindo as cartas e todos olhavam com desconfiança para as mãos dele.
Na luz fraca daquela tarde interminável, ela chegou ao entreposto de trenós. Era uma coisa que ela sabia que tinha que fazer, mas estava inquieta, e com medo também.
Do lado de fora do maior dos barracões de concreto, o grande urso estava trabalhando, e Lyra ficou olhando junto ao portão aberto. Iorek Byrnison estava desmontando um trator movido a gás que tinha dado uma trombada; a cobertura de metal do motor estava retorcida e rasgada, e um eixo se curvava para cima. O urso levantou o metal como se fosse papelão, virando-o nas mãos enormes, como se estivesse testando o peso, antes de colocar uma pata traseira num canto e depois esticar toda a folha de metal de tal modo que as amassaduras desapareceram e a forma original foi restaurada. Encostando a placa desamassada à parede, ele levantou o trator com uma das patas e o virou de lado, antes de se inclinar para examinar o eixo empenado.
Neste momento, avistou Lyra. Ela sentiu uma onda gelada de medo, por ele ser tão poderoso e desconhecido. Ela o contemplava através da cerca de tela a uns 30 metros de distância, e sabia com certeza que ele conseguiria cobrir essa distância em um ou dois saltos e rebentar a cerca como se fosse uma teia de aranha. Ela teve vontade de fugir. Mas Pantalaimon disse:
— Pare! Deixe que eu vou falar com ele.
Ele tomou a forma de uma gaivota e sem esperar resposta dela voou por cima da cerca para o solo gelado do outro lado. Havia um portãozinho aberto, e Lyra poderia ter ido atrás dele, mas ficou para trás. Pantalaimon olhou para ela e virou um texugo.
Ela sabia o que ele estava fazendo. Os dimons não podiam se afastar mais de alguns metros de seus humanos, e se ela ficasse junto à cerca e ele continuasse um pássaro, ele não conseguiria chegar perto do urso; portanto, ele ia ter que fazer força.
Ela se sentiu infeliz e irritada. As patas do texugo se enfiaram na terra, e ele avançou.
Era um sentimento muito estranho e doloroso quando o dimon de uma pessoa forçava a ligação entre os dois; em parte, uma dor física no fundo do peito; em parte, uma tristeza e um amor intensos. E ela sabia que o mesmo acontecia com ele. Todos testavam isso quando eram crianças: ir ficando cada vez mais longe para ver quanto aguentavam e depois voltando a se aproximar com intenso alívio.
Ele forçou um pouco mais.
— Não, Pan!
Mas ele não parou. O urso observava, imóvel. A dor no coração de Lyra ficava cada vez mais insuportável, e um soluço lhe subiu à garganta.
— Pan...
Ela então atravessou o portão e correu para ele pela lama gelada; ele se transformou num gato-do-mato e saltou para o colo dela; os dois ficaram fortemente abraçados, ambos soltando trêmulos suspiros de infelicidade.
— Pensei que você ia mesmo...
— Não...
— Incrível como doeu...
Então ela enxugou as lágrimas com raiva e fungou com força; ele se aninhou nos braços dela, e ela tomou consciência de que preferia morrer a deixar que os dois se separassem e enfrentar aquela tristeza outra vez; ela enlouqueceria de sofrimento e terror. Mesmo quando ela morresse, eles continuariam juntos, como os Catedráticos na cripta da Jordan.
Então a menina e seu dimon olharam para o urso solitário. Ele não tinha um dimon; estava sozinho, sempre estaria sozinho. Ela sentiu uma onda de tamanha piedade por ele que quase estendeu a mão para tocar no pelo dele, e apenas o senso de cortesia para com aqueles olhos frios e ferozes a impediu.
— Iorek Byrnison — ela chamou.
— Sim?
— Lorde Faa e Farder Coram foram tentar pegar sua armadura.
Ele não se moveu nem falou. Estava claro o que pensava das chances dos dois homens.
— Mas eu sei onde ela está — continuou a menina. — Se eu lhe contar, talvez você mesmo possa ir pegar, não sei.
— Como é que você sabe onde ela está?
— Eu tenho um leitor de símbolos. Acho que eu devia lhe contar, Iorek Byrnison, já que foram eles que enganaram você. Não acho isso direito. Eles não deviam ter agido assim. Lorde Faa vai discutir com o Alcaide, mas provavelmente não vão querer devolver sua armadura; assim, se eu lhe contar, você vem com a gente e ajuda a libertar as crianças de Bolvangar?
— Vou.
— Eu... — Ela não queria ser intrometida, mas não conseguia controlar sua curiosidade. — Por que você simplesmente não faz uma armadura com todo este metal, Iorek Byrnison?
— Porque não adianta. Veja. — Ele levantou a capa do motor com uma das mãos e com as garras da outra mão rasgou o metal como se fosse papel. — Minha armadura é feita de ferro-celeste especialmente para mim. A armadura de um urso é a alma dele, assim como o seu dimon é a sua alma. Você poderia se livrar do seu dimon e colocar no lugar um boneco cheio de serragem? É a mesma coisa. Agora, onde está minha armadura?
— Escute, você vai ter que prometer não se vingar. Eles erraram quando tiraram sua armadura, mas você vai ter que aguentar.
— Está bem. Sem vingança. Mas se eles tentarem me impedir de pegar minha armadura, vão morrer.
— Está escondida no porão da casa do padre. Ele acha que tem um espírito dentro dela e anda tentando expulsar esse espírito. Mas ela está lá.
Ele se ergueu nas patas traseiras e se virou em direção ao oeste, de modo que os últimos raios do sol tingiram seu focinho de um amarelo esbranquiçado e brilhante no meio da penumbra. Ela sentia a força emanar da enorme criatura como ondas de calor.
— Tenho que trabalhar até o pôr do sol — ele declarou. — Hoje de manhã, dei a minha palavra ao dono daqui. Ainda estou devendo alguns minutos de trabalho.
— Aqui onde eu estou o sol já se pôs — ela afirmou, pois o sol tinha desaparecido atrás do promontório a sudoeste.
Ele ficou de quatro.
— É verdade — disse, com o rosto agora na sombra, como o dela. — Qual é o seu nome, filha?
— Lyra Belacqua.
— Então tenho uma dívida com você, Lyra Belacqua — ele afirmou.
Começou a caminhar, atravessando o solo congelado com tanta rapidez que Lyra mal conseguiu acompanhá-lo, mesmo correndo. Mas ela correu, e Pantalaimon voou como uma gaivota para ver aonde o urso ia e gritar instruções para ela.
Iorek Byrnison saiu correndo do entreposto e desceu a ruela estreita, virando na rua principal da cidade; passou em frente ao jardim da residência do Alcaide — onde uma bandeira pendia no ar imóvel e um sentinela marchava rigidamente de um lado para outro — e desceu a colina, passando pelo final da rua onde o Cônsul das Feiticeiras morava. A essa altura o sentinela percebera o que estava acontecendo e tentava decidir o que fazer, mas Iorek Byrnison já havia virado uma esquina perto do porto.
As pessoas paravam para olhar ou saíam do caminho dele. O sentinela deu dois tiros para o alto e saiu correndo morro abaixo atrás do urso, estragando a cena ao escorregar na ladeira cheia de gelo, só recuperando o equilíbrio depois de se agarrar a uma grade. Lyra não vinha muito atrás; quando passou pela casa do Alcaide, ela viu várias figuras saindo para o pátio para ver o que estava acontecendo, e imaginou ter visto Farder Coram entre elas; mas passou depressa, correndo rua abaixo na direção da esquina por onde o sentinela nesse momento desaparecia, seguindo o urso.
A casa do padre era mais velha do que a maioria, e feita de tijolos, um material de alto preço. Três degraus levavam à porta da rua, que agora pendia de lado, e de dentro da casa vinham gritos e o barulho de madeira despedaçada. O sentinela hesitou do lado de fora, o rifle de prontidão; mas ao ver que as pessoas começavam a se juntar na calçada e a observar das janelas, o homem decidiu que tinha que agir e deu um tiro para o alto antes de entrar correndo.
No momento seguinte, a casa inteira pareceu estremecer. Em três janelas, as vidraças estilhaçaram e uma telha deslizou do telhado, e então uma criada saiu correndo da casa, aterrorizada, o galo que era o seu dimon atrás dela, batendo as asas.
Soou outro disparo dentro da casa, e todos ouviram um rugido feroz que fez a criada gritar. Então o próprio padre saiu como se tivesse sido arremessado de um canhão, com seu dimon-pelicano de penas arrepiadas e expressão de orgulho ferido. Lyra escutou ordens gritadas e se virou ao ver um pelotão de policiais armados surgir correndo da esquina, alguns com pistolas e outros com rifles, e logo atrás vinha John Faa e a figura gorducha e nervosa do Alcaide.
O som de algo que se partia fez com que todos olhassem para a casa. Uma janela ao nível do solo, obviamente dando para um porão, foi arrancada ruidosamente. O sentinela que tinha seguido Iorek Byrnison para dentro da casa saiu lá de dentro em disparada e parou de frente para a janela do porão com o rifle em posição de tiro; e então a janela foi aberta com violência e por ela surgiu Iorek Byrnison, o urso de armadura.
Sem ela, ele inspirava respeito; com ela, inspirava terror. A armadura era vermelho-ferrugem e toscamente montada: grandes folhas e placas de metal descolorido e cheio de marcas, que rangiam e raspavam umas nas outras ao se chocarem. O elmo era pontudo como o focinho do dono, com fendas no lugar dos olhos, e deixava as mandíbulas de fora para que ele usasse os dentes.
O sentinela disparou vários tiros, e os policiais também apontaram as armas, mas Iorek Byrnison simplesmente jogou longe as balas com uma sacudidela, como se fossem gotas de chuva; lançou-se para a frente em meio ao rangido do metal e derrubou o sentinela antes que ele pudesse fugir. O dimon do sentinela, uma cadela husky, quis agarrar a garganta do urso, mas este lhe deu a atenção que daria a uma mosca; puxando o sentinela para si com uma das patas, ele se inclinou e enfiou a cabeça do homem entre os dentes. Lyra sabia exatamente o que ia acontecer a seguir: ele ia esmagar a cabeça do sentinela como um ovo e haveria uma luta sangrenta, mais mortes, mais atraso; e eles nunca se livrariam, com ou sem o urso.
Sem pensar, ela foi em direção ao urso e colocou a mão no único local onde a armadura deixava alcançar a pele — o buraco que aparecia entre o elmo e a grande placa dos ombros quando ele baixava a cabeça —, onde ela podia ver a pelagem branco-amarelada entre as bordas enferrujadas. A menina enfiou os dedos lá dentro, e Pantalaimon no mesmo instante voou para o local e virou um gato-do-mato, agachado, pronto para defendê-la; mas Iorek Byrnison ficou imóvel, e os soldados não atiraram.
Num cochicho veemente, ela lhe disse:
— Iorek! Escute! Você tem uma dívida comigo, certo? Pois agora pode pagar. Faça o que eu peço: não lute com esses homens. Vamos embora daqui. Nós precisamos de você, Iorek, você não pode ficar. Venha andando comigo até o porto e não olhe para trás. Farder Coram e Lorde Faa estão ali, deixe a conversa para eles, eles vão se sair bem. Largue este homem e venha comigo...
O urso abriu a boca lentamente. A cabeça do sentinela, sangrenta, molhada e pálida como a morte, bateu no chão quando ele desmaiou, e seu dimon começou a cuidar dele e a acalmá-lo enquanto o urso recuava para o lado de Lyra.
Ninguém mais se movia. Ficaram todos observando o urso dar as costas à sua vítima a pedido da menininha com o dimon-gato, e em seguida abriram caminho para dar passagem a Iorek Byrnison, que com passos pesados atravessou a multidão ao lado de Lyra em direção ao porto.
Toda a atenção de Lyra estava concentrada no urso; portanto, ela não viu a confusão atrás deles, o medo e a raiva que cresceram assim que eles se foram. Ela caminhava ao lado do urso, e Pantalaimon ia à frente dos dois, como se abrisse caminho.
Quando chegaram ao porto, Iorek Byrnison baixou a cabeça, desabotoou o elmo com uma garra e o deixou cair sonoramente no solo congelado. Os gípcios saíram do café, sentindo que alguma coisa estava acontecendo, e à luz das lâmpadas anbáricas do convés do navio assistiram a Iorek Byrnison despir o resto da armadura e deixá-la amontoada na beira do cais.
Sem uma palavra, ele foi até a água, mergulhou nela sem provocar uma só ondulação e desapareceu.
— O que aconteceu? — perguntou Tony Costa ao ouvir as vozes indignadas dos moradores e da polícia descendo para o porto.
Lyra contou-lhe, como pôde.
— Mas para onde ele foi? — quis saber o rapaz. — Pois ele não acabou de largar a armadura aí no chão? Eles vão pegar ela de volta assim que chegarem aqui!
Lyra também tinha medo de que isso acontecesse, pois um policial já vinha virando a esquina, depois outro, depois o Alcaide e o padre, e uns vinte ou trinta espectadores, com John Faa e Farder Coram tentando alcançá-los.
Mas eles pararam quando viram o grupo no cais, pois tinha surgido mais alguém: sentado sobre a armadura do urso, com um tornozelo apoiado no joelho, via-se a figura comprida de Lee Scoresby, tendo na mão a pistola mais comprida que Lyra já havia visto, apontando, de maneira casual, para a ampla barriga do Alcaide.
— Parece que vocês não cuidaram direito da armadura do meu amigo — disse, em tom de bate-papo. — E não me surpreenderia de encontrar traças nela. Agora fiquem paradinhos aí, bem calminhos, e que ninguém se mova até o urso voltar com um lubrificante qualquer. Ou melhor, acho que vocês todos podem ir para casa ler jornal. A escolha é de vocês.
— Ali está ele! — exclamou Tony, apontando para uma rampa na ponta do cais.
Ali Iorek Byrnison emergia da água arrastando uma coisa escura atrás de si. Uma vez em cima do cais, ele se sacudiu, soltando água em todas as direções, até seus pelos estarem secos.
Então se inclinou para tornar a pegar com os dentes o objeto negro e o arrastou até onde estava a armadura. Era uma foca morta.
— Iorek! — disse o aeróstata, pondo-se de pé preguiçosamente e mantendo a pistola fixa no Alcaide. — Oi!
O urso ergueu os olhos e soltou um rosnado curto, antes de rasgar com a garra uma abertura na foca. Lyra observou, fascinada, enquanto ele esticava a pele do animal morto e arrancava tiras de gordura, que começou a passar em toda a armadura, colocando mais quantidade nos lugares onde as placas se sobrepunham em movimento.
— Você está com esta gente? — ele perguntou a Lee Scoresby.
— Claro. Acho que nós dois somos empregados deles, Iorek.
— Onde está o seu balão? — Lyra perguntou ao texano.
— Embalado em dois trenós — ele informou. — Aí vem o patrão.
John Faa e Farder Coram, juntamente com o Alcaide, desceram o cais com quatro policiais armados.
— Urso! — disse o Alcaide em voz alta e áspera. — Desta vez você tem permissão para partir em companhia dessas pessoas. Mas fique sabendo que se aparecer de novo dentro dos limites da cidade será tratado sem piedade.
Iorek Byrnison não lhe deu a menor atenção, e continuou esfregando gordura de foca em toda a armadura; o cuidado e a atenção que ele dedicava a essa tarefa lembraram a Lyra sua própria devoção a Pantalaimon. Exatamente como o urso tinha dito: a armadura era a alma dele. O Alcaide e os policiais se retiraram, e aos poucos os espectadores começaram a ir embora, apesar de alguns terem ficado para assistir.
John Faa levou as mãos à boca e chamou:
— Gípcios!
Estavam todos prontos para partir e ansiosos para seguir caminho desde que tinham desembarcado; os trenós estavam preparados, os cães a postos.
John Faa anunciou:
— Hora da partida, amigos. Estamos todos reunidos e o caminho nos espera. Sr. Scoresby, já arrumou suas coisas?
— Estou pronto para partir, Lorde Faa.
— E você, Iorek Byrnison?
— Assim que vestir minha armadura — respondeu o urso.
Ele havia terminado de lubrificar a armadura. Sem querer desperdiçar a carne da foca, ergueu a carcaça nos dentes e a jogou sobre o trenó maior de Lee Scoresby antes de vestir a armadura. Era impressionante ver a leveza com que ele a manejava: em certos locais, as folhas de metal tinham quase 3 centímetros de espessura, mas ele as jogava em cima de si mesmo como se fossem panos de seda. Levou menos de um minuto, e desta vez não se ouviu um só rangido do ferro.
Assim, em menos de meia hora, a expedição seguia para o norte. Sob um céu pontilhado de milhões de estrelas e uma lua exuberante, os trenós avançavam aos solavancos, fazendo ruído por sobre os buracos e as pedras até chegarem à neve limpa na periferia da cidade. Então o som mudou, ficando mais regular, e os cães começaram a aumentar a velocidade.
Lyra, no trenó de Farder Coram, tão agasalhada que só tinha os olhos de fora, cochichou a Pantalaimon:
— Está vendo Iorek?
— Ele vem caminhando ao lado do trenó de Lee Scoresby — respondeu o dimon, olhando para trás em sua forma de arminho enquanto se agarrava ao capuz de pelo de carcaju que ela usava.
À frente deles, acima das montanhas ao norte, os arcos e volteios pálidos das Luzes do Norte começaram a brilhar e tremeluzir. Lyra as via através dos olhos semicerrados, e teve uma sensação sonolenta de perfeita felicidade, de estar viajando para o norte sob a Aurora Boreal. Pantalaimon lutava contra a sonolência dela, mas em vão; ele então virou um ratinho e se enroscou dentro do capuz dela. Podia contar a ela quando despertassem, e provavelmente era um animal, ou um sonho, ou um tipo qualquer de espírito local inofensivo; mas alguma coisa estava seguindo a fila de trenós, saltando com leveza de galho em galho pelos pinheiros, e aquilo trazia até ele a preocupante lembrança de um macaco.

3 comentários:

  1. Luamara feiticeira dimon dragão10 de março de 2017 19:37

    eeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee
    vai da merda.Não confiem em niguém,aprendi muito com esssa frase.

    ResponderExcluir
  2. O iorek nunca mentee!🙄😐 Se vcs n etendem direito algumas coisa dai tem q ver o filmeee!😉 🤔

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)