17 de fevereiro de 2017

10. Rodas

Do mar elevou-se uma nuvem pequenina como a mão de um homem.
I Reis

— Pois é — disse menina ruiva no jardim deserto do Cassino. — Nós vimos essa mulher, eu e o Paolo, nós dois vimos. Ela apareceu por aqui já faz alguns dias.
— E se lembram de como ela era? — perguntou o Padre Gomez.
— Ela parecia estar com calor — disse o garotinho. — Estava com o rosto todo suado.
— Que idade ela parecia ter?
— Cerca de... — a menina parou para refletir. — Acho que talvez uns 40 ou 50 anos. Não a vimos de perto. Poderia ter, talvez, uns 30. Mas estava com calor, como disse o Paolo e estava carregando uma mochila bem grande, muito maior que a sua, deste tamanho...
Paolo sussurrou alguma coisa para ela, franzindo e revirando os olhos para espiar o padre enquanto o fazia. O sol batia forte em seu rosto.
— Ah, é — disse a menina com impaciência — eu sei. Os Espectros — disse ela para o Padre Gomez — ela não tinha medo nenhum dos Espectros. Simplesmente andou pela cidade e nem se preocupou. Nunca vi um adulto fazer isso antes, é verdade. Ela parecia nem sequer saber que eles existiam. Igual a você — acrescentou, olhando para ele com desafio.
— Tem muita coisa que eu não sei — concordou o Padre Gomez em voz branda.
O garotinho puxou a manga da menina e sussurrou novamente.
— Paolo disse — ela contou ao padre — que acha que você vai pegar a faca de volta.
O Padre Gomez sentiu a pele se arrepiar. Lembrou-se do depoimento do Frei Pavel durante a investigação do Tribunal Consistorial: devia ser esta a faca que ele tinha mencionado.
— Se eu puder — respondeu — pegarei. A faca vem daqui?
— Da Torre degli Angeli — disse a menina, apontando para a torre quadrada de pedra que se elevava acima dos telhados marrom avermelhados. Ela cintilava ao sol forte do meio-dia. — E o garoto que roubou a faca matou nosso irmão Tullio. Os Espectros pegaram o Tullio, direitinho. Se você quiser matar esse garoto, tudo bem. E a menina, ela era uma mentirosa, era tão má quanto ele.
— Então a menina também esteve aqui? — perguntou o padre tentando não parecer muito interessado.
— Uma mentirosa nojenta — disse a menina ruiva com ódio. — Quase matamos os dois, mas então vieram umas mulheres, mulheres voadoras.
— Bruxas — disse Paolo.
— Bruxas, e não pudemos lutar contra elas. Levaram os dois embora, a menina e o garoto. Não sabemos para onde foram. Mas a mulher, ela veio depois. Pensamos que talvez ela tivesse alguma espécie de faca, para conseguir manter os Espectros longe, é verdade. E talvez você também tenha — disse ela, levantando o queixo para encará-lo com audácia.
— Eu não tenho nenhuma faca — respondeu o Padre Gomez. — Mas tenho uma tarefa sagrada a cumprir. Talvez isso esteja me protegendo desses... Espectros.
— É — disse a menina — pode ser. De qualquer maneira, se quer encontrar a mulher, ela foi para o sul, para as montanhas. Não sabemos para onde. Mas pode perguntar a qualquer um, eles vão saber se ela tiver passado, porque não tem ninguém igual a ela em Cittàgazze, não tinha antes e não tem agora. Ela vai ser fácil de achar.
— Obrigado, Angélica — agradeceu o padre. — Deus as abençoe, crianças.
Ele pós a mochila nas costas, saiu do jardim e seguiu seu caminho pelas ruas quentes e silenciosas, sentindo-se satisfeito.


Depois de passar três dias na companhia dos seres de rodas, Mary Malone sabia bastante mais coisas a respeito deles e eles sabiam de muita coisa a respeito dela.
Naquela primeira manhã, eles a carregaram durante uma hora, mais ou menos, pela estrada de basalto até um povoado à margem de um rio, e a viagem foi desconfortável, ela não tinha onde se apoiar e o lombo da criatura era duro.
Seguiram rapidamente, numa velocidade que a assustava, mas o trovar de suas rodas sobre a superfície dura da estrada e o compasso rápido de suas patas eram de tal maneira estimulantes que a deixavam animada a ponto de esquecer o desconforto.
E durante o percurso ela foi compreendendo melhor a fisiologia daqueles seres. Como os animais de pasto, seus esqueletos tinham uma estrutura em forma de losango, com uma perna em cada um dos cantos. Em algum momento, num passado distante, uma linhagem de seres ancestrais deveria ter desenvolvido aquela estrutura e descoberto que funcionava, exatamente como os seres rastejantes no mundo de Mary haviam desenvolvido a coluna dorsal. A estrada de basalto seguia gradualmente para um terreno mais baixo e, depois de algum tempo, o declive aumentava, de modo que os seres podiam andar com as rodas livres. Eles encolhiam as pernas laterais e pilotavam inclinando-se para um lado ou para o outro, lançando-se numa velocidade que Mary achava aterradora, embora tivesse que admitir que o ser em que estava montada nunca lhe desse a menor sensação de perigo. Se ao menos ela tivesse algo em que pudesse se apoiar, bem que teria gostado. Na base da encosta de um quilômetro e meio, havia um grupo de árvores imensas e nas vizinhanças um rio serpenteava em meandros no terreno plano coberto de relva. A alguma distância Mary viu um clarão que parecia uma extensão maior de água, mas não passou muito tempo olhando para aquilo, porque os seres estavam se dirigindo para um povoado na margem do rio e ela estava louca de curiosidade para vê-lo.
Havia 20 ou 30 cabanas, mais ou menos agrupadas num círculo, feitas de — ela teve que proteger os olhos contra o sol para ver — vigas de madeira cobertas com uma espécie de mistura de taipa nas paredes e com telhado de colmo. Os outros seres de rodas estavam trabalhando: alguns consertavam os telhados, outros puxavam uma rede do rio, outros ainda traziam lenha para uma fogueira. De maneira que eles possuíam uma língua, tinham fogo e tinham uma sociedade.
E, mais ou menos nesse momento, ela percebeu uma mudança ocorrendo em sua mente, à medida que a palavra criaturas se tornou a palavra pessoa. Aqueles seres não eram humanos, mas eram pessoas, disse a si mesma, não são eles, eles são nós.
Agora estavam bastante próximos e, vendo o que estava se aproximando, alguns dos aldeões levantaram a cabeça e gritaram uns para os outros para olhar. O grupo que vinha pela estrada reduziu a velocidade até parar e Mary desmontou, sentindo os músculos enrijecidos e sabendo que ficaria dolorida depois.
— Muito obrigada — disse para seu... seu o quê? Seu cavalo? Sua bicicleta? Ambas as ideias eram absurdamente erradas para a amabilidade de olhar brilhante e inteligente que estava a seu lado. Ela se decidiu, escolhendo amigo. Ele levantou a tromba e imitou as palavras dela:
— Mutobigada — disse, e mais uma vez riram, satisfeitos da vida. Ela pegou a mochila que estava com um dos outros (bigada! bigada!) e os seguiu, saindo da faixa de basalto para a terra batida da aldeia. E então a integração de Mary começou de verdade.
Nos dias que se seguiram, ela aprendeu tanta coisa que se sentiu como se fosse novamente uma criança, desnorteada com a escola. Para completar, as pessoas de rodas pareciam estar igualmente maravilhadas com ela. Para começar, havia suas mãos. Eles pareciam nunca se cansar delas: as trombas delicadas examinavam cada articulação, percorrendo os polegares, os nós dos dedos e as unhas, flexionando-os delicadamente e observando com espanto quando ela pegava a mochila, levava comida à boca, se coçava, penteava o cabelo, se lavava.
Em troca, deixaram que ela examinasse suas trombas. Eram infinitamente flexíveis e tinham aproximadamente o mesmo comprimento do braço de Mary, mais grossas no ponto onde se uniam à cabeça e suficientemente fortes para esmagar seu crânio, imaginava. As duas projeções semelhantes a dedos que ficavam na ponta eram capazes de uma força enorme e de grande delicadeza, os seres pareciam poder variar o tônus da pele no interior, no que seria o equivalente às pontas dos dedos, de uma maciez de veludo a uma solidez semelhante à madeira. Em resultado disso, podiam usá-las tanto para tarefas delicadas, como ordenhar um dos animais de pasto, quanto para tarefas mais duras, como arrancar e curvar galhos.
Pouco a pouco, Mary se deu conta de que as trombas também desempenhavam um papel na comunicação. Um movimento de tromba podia modificar o significado de um som, de modo que a palavra que soava como “tchah” significava água quando acompanhada de um movimento circular da tromba da esquerda para a direita, “chuva” quando a tromba se virava para cima na ponta, “tristeza” quando se virava em curva para baixo e “novos brotos de relva” quando fazia um rápido peteleco para a esquerda. Tão logo percebeu isso, Mary os imitou, movendo o braço o melhor que podia da mesma maneira, e os seres perceberam que ela estava começando a falar com eles, e o encantamento deles foi radiante.
Depois que começaram a conversar (principalmente na língua deles, apesar de ela ter conseguido ensinar-lhes algumas palavras em sua língua: sabiam dizer “bigadu” e “reuva”, “áaavore”, “céu” e “rio”, e pronunciar o nome dela, com alguma dificuldade), progrediram muito mais rapidamente. A palavra deles para se referirem a si mesmos como povo era mulefa, mas um indivíduo era zalif.
Mary achava que havia uma diferença entre os sons para zalif macho e zalif fêmea, mas era demasiado sutil para que ela percebesse com facilidade.
Começou a escrever tudo aquilo, a compilar um dicionário.
Mas antes de se permitir se entregar verdadeiramente àquela tarefa, pegou seu livro maltratado e as varetas de milefólio e perguntou ao I Ching: eu deveria estar aqui fazendo isso ou deveria seguir adiante para algum outro lugar e continuar procurando?
A resposta foi:

A QUIETUDE significa deter-se, a verdadeira quietude consiste em manter-se imóvel quando chega o momento de se manter imóvel e avançar quando chega o momento de avançar. Desse modo a inquietação se dissipa, então para além da luta e do tumulto individuais, se pode compreender as grandes leis do universo e agir em harmonia com elas.

E prosseguia:

Montanhas próximas umas das outras: a imagem da QUIETUDE. Assim o homem superior não permite que sua vontade e seus pensamentos o levem além da situação em que se encontra.

Uma resposta mais clara seria impossível. Ela juntou as varetas e guardou o livro e então percebeu que havia atraído a atenção de um círculo de seres que a observavam.
Um deles disse:
Pergunta? Permissão? Curioso.
Ela respondeu:
Por favor. Pode olhar.
Muito delicadamente as trombas se moveram, separando as varetas no mesmo movimento de contagem que ela estivera fazendo, ou virando as páginas do livro. Uma coisa que os deixava espantadíssimos era o fato de ela ter duas mãos, o fato de que ela podia segurar o livro e virar as páginas ao mesmo tempo. Adoravam observá-la cruzar os dedos, ou fazer a brincadeira de criança: “Esta é a Igreja e esta é a torre da Igreja”, ou fazer o movimento repetido de sobrepor, esfregando, o dedo polegar com o indicador que era o que Ama estava fazendo, exatamente naquele mesmo momento, no mundo de Lyra, como feitiço para afastar os maus espíritos.
Depois de terem examinado as varetas de milefólio e o livro, eles os embrulharam cuidadosamente no pano e os puseram na mochila de Mary . Ela sentia-se feliz e tranquilizada pela mensagem da China antiga, porque significava que o que mais queria fazer era, naquele momento, exatamente o que deveria fazer.
De modo que se dedicou a aprender mais a respeito dos mulefas, com o coração feliz.
Descobriu que havia dois sexos e que eles viviam em casais monogamicamente. Seus filhos tinham uma infância bastante longa: dez anos pelo menos, crescendo muito lentamente, pelo menos até onde conseguia interpretar a explicação deles. Havia cinco crianças naquele povoado, um quase crescido e os outros em algum ponto no meio do caminho e, por serem menores que os adultos, não conseguiam usar as rodas das nozes. As crianças se moviam como os animais de pasto, com as quatro patas no chão, mas a despeito de toda a sua energia e vontade de viver aventuras (correndo até junto de Mary e então se afastando timidamente, tentando subir pelos troncos das árvores, despencando nas águas rasas, e assim por diante), pareciam desajeitadas, como se estivessem fora de seu elemento.
Em contraste, a velocidade e a graça dos adultos era surpreendente, e Mary percebeu o quanto um jovem em fase de crescimento devia ansiar pelo dia em que as rodas lhe caberiam. Ela observou a criança mais velha, certo dia, ir silenciosamente até a casa que servia de depósito, onde uma quantidade de nozes eram guardadas, e experimentar encaixar sua garra dianteira no buraco central, mas, quando tentou se levantar, caiu imediatamente, ficando preso, e o som atraiu um adulto. A criança lutou para se soltar, guinchando de aflição, e Mary não conseguiu conter o riso diante do quadro, o pai indignado e a criança travessa apanhada em flagrante, que conseguiu se soltar no último minuto e sair correndo.
As rodas de nozes eram claramente da maior importância e logo Mary começou a compreender exatamente o quanto eram valiosas.
Para começar, os mulefas passavam a maior parte do tempo cuidando da manutenção de suas rodas. Levantando e girando a garra, com destreza, eles deslizavam-na para fora do buraco e então usavam a tromba para examinar toda a roda, limpando a borda do buraco, verificando se havia rachaduras. A garra era formidavelmente forte, como uma espora de chifre ou de osso, saindo em ângulo reto com relação à perna e ligeiramente curvada de modo que a parte mais alta, no meio, sustentava o peso ao se apoiar no interior do buraco. Certo dia Mary ficou observando enquanto uma zalif examinava o buraco em sua roda da frente, tocando aqui e ali, levantando a tromba no ar e levando-a de volta, como se testando o aroma.
Mary lembrou-se do óleo que havia descoberto em seus dedos quando examinara a primeira noz. Depois de pedir permissão à zalif, examinou sua garra e descobriu que a superfície era mais lisa e escorregadia do que qualquer coisa que já havia tocado em seu mundo. Seus dedos simplesmente não conseguiam ficar parados sobre aquela superfície. A garra inteira parecia impregnada do óleo ligeiramente perfumado e depois de ter visto uma quantidade de aldeões experimentando o aroma, testando, verificando o estado de suas rodas e garras, começou a se perguntar o que teria vindo primeiro: roda ou garra? “Ciclista” ou árvore?
Embora, evidentemente, também houvesse um terceiro elemento, e este era a geologia. Os seres só podiam usar rodas num mundo que lhes oferecesse estradas naturais. Devia haver algum aspecto na composição daqueles derramamentos de lava que os fazia correr em tiras, como se fossem fitas estendidas, sobre a vasta savana e serem tão resistentes às intempéries e rachaduras. Pouco a pouco, Mary começou a ver a maneira como tudo era interligado e, aparentemente, tudo aquilo era administrado pelos mulefas. Eles sabiam qual era a localização de todos os rebanhos de animais de pasto, de todos os bosques de árvores-das-rodas, de todos os recantos de relva doce, e conheciam todos os indivíduos nos rebanhos, e cada árvore separadamente, e discutiam seu bem-estar e seu destino. Numa ocasião, ela viu os mulefas escolherem um rebanho de animais de pasto, selecionando alguns indivíduos e afastando-os do resto, para depois dar cabo deles quebrando-lhes o pescoço com uma violenta torcida de tromba. Nada foi desperdiçado. Segurando flocos de pedra afiados como gilete com a tromba, os mulefas tiraram a pele e limparam os animais em minutos, depois deram início a um cuidadoso trabalho de corte da carne, separando as partes não aproveitadas, a carne macia e as juntas mais duras, cortando a gordura, removendo os chifres e os cascos, trabalhando de maneira tão eficiente que Mary admirou com o prazer que sentia ao ver qualquer coisa ser bem-feita.
Em pouco tempo, tiras de carne estavam penduradas para secar ao sol e outras tinham sido cobertas de sal e embrulhadas em folhas, as peles tinham sido absolutamente limpas de toda gordura, que foi separada para ser usada mais tarde, e depois postas de molho em poços de água cheios de pedaços de casca de carvalho para curtir, e a criança mais velha estava brincando com um par de chifres, fingindo ser um animal de pasto, fazendo as outras crianças rirem.
Naquela noite houve carne fresca para comer e Mary se banqueteou. Da mesma maneira, os mulefas sabiam onde se podia apanhar os melhores peixes e exatamente quando e onde lançar suas redes. Procurando alguma coisa que pudesse fazer, Mary se dirigiu aos rendeiros e se ofereceu para ajudar. Quando ela viu como eles trabalhavam, não cada um por si, mas de dois em dois, movendo as trombas em conjunto para dar um nó, compreendeu como tinham ficado surpreendidos com suas mãos, pois é claro que ela podia dar nós sozinha.
De início, acreditou que aquilo lhe dava uma vantagem — não precisava de mais ninguém, mas depois percebeu como aquilo a mantinha distante dos outros. Talvez todos os seres humanos fossem assim. E, a partir daquele momento, usou só uma das mãos para dar nós nas fibras, dividindo sua tarefa com uma zalif fêmea que havia se tornado sua amiga pessoal, dedos e tromba se movendo para dentro e para fora juntos. Mas de todas as coisas vivas de que o povo de rodas cuidava, era com as árvores-das-rodas que tinham maior cuidado.
Havia meia dúzia de arvoredos naquela área que estavam sob os cuidados daquele grupo. Havia outros mais distantes, mas esses eram de responsabilidade de outros grupos. A cada dia uma equipe saía para verificar o bem-estar das grandiosas árvores e para colher quaisquer nozes que tivessem caído. O que os mulefas tinham a ganhar era evidente, mas como as árvores poderiam se beneficiar desse intercâmbio? Um belo dia ela viu. Estava montada acompanhando o grupo, quando, de repente, houve um ruído alto, craque, e todo mundo parou imediatamente, rodeando um indivíduo cuja roda havia se partido.
Todo grupo levava consigo uma ou duas de reserva, de modo que o zalif com a roda quebrada logo estava novamente aparelhado, mas a roda quebrada foi cuidadosamente embrulhada num pano e levada de volta para o povoado.
Lá eles a abriram, retiraram todas as sementes — ovais, achatadas e de cor clara, do tamanho da unha do dedo mindinho de Mary — e examinaram cada uma cuidadosamente. Então explicaram que as nozes precisavam do atrito e do desgaste constantes, que recebiam nas superfícies duras das estradas, para poderem se partir e, também, que as sementes eram difíceis de germinar. Sem os cuidados dos mulefas, as árvores morreriam todas. Uma espécie dependia da outra e, além disso, era o óleo que tornava tudo possível. Era difícil compreender, mas eles pareciam estar dizendo que o óleo era o elemento mais importante para a capacidade de pensar e de sentir que possuíam, que os jovens não tinham a sabedoria dos mais velhos porque não podiam usar as rodas e, desse modo, absorver o óleo através de suas garras. E foi então que Mary começou a ver a ligação entre os mulefas e a questão que havia ocupado os últimos anos de sua vida.
Mas, antes que ela pudesse examiná-la melhor (e as conversas com os mulefas eram longas e complexas, porque eles adoravam qualificar e ilustrar seus argumentos com dúzias de exemplos, como se não tivessem se esquecido de nada e todas as coisas de que jamais tivessem tido conhecimento estivessem imediatamente disponíveis para referências), o povoado foi atacado.
Mary foi a primeira a ver os atacantes se aproximando, embora não soubesse o que eram.
Aconteceu no meio da tarde, quando estava ajudando a consertar o telhado de uma cabana. Os mulefas só construíam um andar, porque não eram muito chegados a subidas, mas Mary não se incomodava de escalar até o telhado e podia colocar o colmo e amarrá-lo na estrutura com suas duas mãos, depois que lhe ensinaram a técnica, muito mais rapidamente que eles. De modo que estava sentada, apoiada nas vigas de uma casa, pegando os maços de colmo que eram jogados para cima, para ela, e apreciando a brisa fresca que vinha da água, que estava amenizando o calor do sol, quando seu olhar foi atraído por um lampejo branco.
Vinha daquele lugar de brilho distante que pensava ser o mar. Protegeu os olhos com a mão e viu uma, duas, mais, uma frota de velas brancas altas emergindo da névoa quente, a alguma distância, dirigindo-se com graça silenciosa para a foz do rio.
Mary!, chamou o zalif lá embaixo. O que está vendo?
Ela não conhecia a palavra para vela, ou barco, de modo que disse alto, branco, muitos.
Imediatamente o zalif deu um grito de alarme e todo mundo chamou as crianças. Em menos de um minuto todos os mulefas estavam prontos para fugir.
Atai, a sua amiga, chamou:
Mary!Mary! Venha! Tualapi! Tualapi!
Tudo tinha acontecido tão depressa que Mary mal tivera tempo de se mexer. A essa altura as velas já tinham entrado no rio, avançando com facilidade contra a corrente. Mary ficou impressionada com a disciplina dos marinheiros: manobravam tão rapidamente, as velas se movendo juntas como um bando de estorninhos, todas mudando de direção simultaneamente. E eram tão bonitas, aquelas velas esguias, brancas como a neve, se dobrando e se inclinando e se enfunando — Havia umas 40 velas, no mínimo, e estavam subindo o rio muito mais rapidamente do que ela havia imaginado. Mas não viu tripulantes a bordo e então se deu conta de que não eram absolutamente barcos: eram pássaros gigantes e as velas eram suas asas, uma na proa e uma na popa, mantidas erguidas e flexionadas, sendo manobradas pela força de seus próprios músculos.
Não havia tempo para parar e estudá-los, porque já haviam chegado à margem e estavam subindo. Eles tinham pescoços como os de cisnes e bicos tão compridos quanto seu antebraço. As asas eram duas vezes mais altas que ela e — lançando um olhar rápido para trás, por sobre o ombro, agora assustada, enquanto fugia — eles tinham pernas poderosíssimas: não era de espantar que se movessem tão depressa na água.
Ela correu muito atrás dos mulefas, que gritavam seu nome enquanto corriam para fora do povoado e seguiam para a estrada. Ela os alcançou bem a tempo: sua amiga Atai estava esperando, e enquanto Mary montava em suas costas ela começou a bater com os pés na estrada, se afastando a toda a velocidade, e subindo a encosta atrás de seus companheiros. Os pássaros, que não podiam se mover com a mesma velocidade em terra, logo desistiram da perseguição e se viraram de volta para o povoado. Eles abriram com violência os depósitos de alimentos, rosnando e rugindo, atirando os bicos cruéis para o alto, enquanto engoliam a carne-seca e todas as frutas em conserva e os cereais. Tudo que havia de comestível desapareceu em menos de um minuto.
E então os tualapi descobriram o depósito de rodas e tentaram abrir a pancadas as grandes nozes, mas estava além de suas forças. Mary sentiu seus amigos ficarem tensos de preocupação ao seu redor, enquanto observavam do alto do pequeno morro e viram uma noz depois da outra ser atirada no chão, chutada, arranhada pelas garras das pernas poderosas, mas é claro que não sofreram nenhum dano por causa disso. O que preocupava os mulefas era que várias delas estavam sendo empurradas aos trancos e com cotoveladas para dentro da água do rio, onde flutuavam pesadamente, descendo o rio em direção ao mar.
Então os grandes pássaros brancos como a neve começaram a demolir tudo que viam pela frente com brutais golpes longitudinais de seus pés e com movimentos penetrantes, destruidores, sacudindo e arrancando as coisas com seus bicos. Os mulefas ao redor de Mary estavam sussurrando, quase chorando de tristeza.
Eu ajudo, disse Mary. Nós fazemos de novo.
Mas as criaturas vis não tinham acabado ainda, levantando as belas asas bem alto, agacharam-se em meio à devastação e esvaziaram seus intestinos. O cheiro subiu a encosta trazido pela brisa, pilhas e poças de excrementos verde-preto-marrom-esbranquiçados se espalhavam em meio as vigas partidas e aos maços de colmo espalhados. Então, seus movimentos desajeitados em terra dando-lhes um andar pomposo afetado, os pássaros seguiram de volta para a água e saíram velejando, descendo o rio, em direção ao mar. Só quando a última asa branca tinha desaparecido na neblina da tarde foi que os mulefas tornaram a descer pela estrada. Estavam cheios de dor e raiva, mas principalmente estavam tremendamente preocupados com o depósito de nozes.
Das 15 nozes que tinham estado ali, só testavam duas. O resto tinha sido empurrado até a água e perdido. Mas, havia um banco de areia na curva seguinte do rio, e Mary teve a impressão de avistar uma roda que tinha ficado presa ali, de modo que, para a surpresa e aflição dos mulefas, ela tirou as roupas, amarrou um pedaço de corda em volta da cintura e nadou até lá. No banco de areia ela encontrou não uma, mas cinco das preciosas rodas, e passando a corda pelas suas macias cavidades centrais, nadou de volta puxando-as atrás de si.
Os mulefas ficaram cheios de gratidão. Eles nunca entravam na água e só pescavam da margem, tomando cuidado para manter os pés e as rodas secos. Mary sentiu que finalmente tinha feito alguma coisa útil para eles. Mais tarde naquela noite, depois de uma parca refeição de raízes doces, eles contaram a ela por que tinham ficado tão preocupados com as rodas. Outrora, tinha havido um tempo em que as nozes eram abundantes e em que o mundo era rico e cheio de vida, e os mulefas viviam com suas árvores em perpétua felicidade. Mas alguma coisa havia acontecido, muitos anos atrás, alguma virtude havia saído e abandonado aquele mundo, porque, a despeito de todo o esforço, todo o amor e atenção que os mulefas pudessem dar a elas, as árvores-das-rodas estavam morrendo.

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