11 de fevereiro de 2017

10. O xamã

Lee Scoresby desembarcou no porto na foz do rio Yenisei e encontrou o lugar num caos, com pescadores tentando vender seu parco produto da pesca — peixes até então desconhecidos — para as fábricas de peixe enlatado, donos de navio furiosos com as taxas portuárias que as autoridades tinham aumentado para enfrentar as enchentes, caçadores e peleiros chegando à cidade em grande número, impossibilitados de trabalhar por causa do degelo precoce na floresta e do comportamento inusitado e imprevisível dos animais. Ia ser difícil viajar para o interior pela estrada, isso era certo, em épocas normais a estrada era simplesmente uma trilha de terra congelada, e agora que até mesmo essa camada estava se derretendo, o leito da estrada era um pântano de lama e água.
Portanto Lee colocou o balão e o equipamento num depósito e com o seu suprimento de ouro — cada vez mais minguado — ele alugou um barco com motor a gás, comprou vários tanques de combustível e alguns suprimentos, e partiu corrente acima pelo rio cheio.
A princípio seu progresso foi lento. Não apenas a corrente era forte, mas as águas carregavam todo tipo de detritos: troncos, galhos, animais afogados, e até mesmo o corpo inchado de um homem. Ele tinha que pilotar com cautela e manter o pequeno motor funcionando com força total, para conseguir avançar.
Seu destino era a aldeia da tribo de Grumman. Como orientação, ele tinha apenas a sua lembrança de ter sobrevoado a região alguns anos antes, mas essa lembrança era forte, e ele teve pouca dificuldade em encontrar o rumo correto em meio aos cursos d’água, mesmo com parte das margens submersas sob a água turva da enchente. A temperatura tinha perturbado os insetos, e uma nuvem de mosquitos deixava todos os contornos esmaecidos. Lee esfregou unguento de estramônio no rosto e nas mãos e fumou uma sucessão de charutos de cheiro forte, para minorar um pouco o problema. Quanto a Hester, ela ficou sentada na proa, taciturna, as orelhas compridas deitadas sobre o dorso magro e os olhos apertados. Ele estava acostumado ao silêncio dela e ela ao dele, falavam-se quando havia necessidade.
Na manhã do terceiro dia, Lee dirigiu a pequena embarcação contra a corrente de um regato que se juntava ao rio, vindo de uma sucessão de montes baixos que deveriam estar bem cobertos pela neve, mas agora estavam manchados de marrom. Logo o regato passou acorrer entre pinheiros e abetos baixos, e depois de alguns quilômetros chegaram a um rochedo grande e arredondado, com a altura de uma casa, onde Lee atracou e amarrou o barco.
— Havia um atracadouro aqui — contou a Hester. — Lembra-se do que aquele velho caçador de focas em Nova Zembla nos contou? Deve estar dois metros debaixo d’água.
— Então, espero que tenham tido o bom senso de construir a aldeia no alto — ela respondeu, saltando para a margem.
Não mais de meia hora depois ele colocou sua bagagem no chão diante da casa de madeira do chefe da aldeia e se voltou para cumprimentar a pequena multidão que se juntara. Usou o gesto universal em direção ao norte para significar amizade, e pousou o rifle no chão aos seus pés. Um velho tártaro siberiano, os olhos quase perdidos em meio às rugas que o rodeavam, colocou sua tigela no chão ao lado do rifle. Seu dimon-carcaju sacudiu o focinho para Hester, que moveu uma orelha em resposta, e então o chefe falou.
Lee respondeu, e os dois passaram por meia dúzia de linguagens antes de encontrarem uma em que pudessem conversar.
— Meus respeitos a você e à sua tribo — disse Lee. — Tenho um pouco de erva de fumar, que não vale muito, mas eu me sentiria honrado em lhe dar de presente.
O chefe assentiu, satisfeito, e uma das suas mulheres recebeu a trouxa que Lee retirou da bagagem.
— Estou procurando um homem chamado Grumman — Lee prosseguiu. — Ouvi dizer que ele é um de vocês por adoção. Pode ser que ele tenha adotado outro nome, mas é europeu.
— Ah, estávamos esperando por você — disse o chefe.
O resto dos habitantes, reunidos sob a luz fraca do sol no solo enlameado no meio das casas, não conseguia entender as palavras, mas via a satisfação do chefe — satisfação e alívio, foi o que Lee sentiu Hester pensar. O chefe assentiu várias vezes.
— Estávamos esperando por você — repetiu. — Você veio para levar o Dr. Grumman para o outro mundo.
Lee franziu a testa, mas disse apenas:
— Como quiser, senhor. Ele está aqui?
— Siga-me — disse o chefe.
Os outros afastaram-se respeitosamente. Compreendendo o desprazer de Hester em ter que atravessar a lama imunda, Lee colocou a mochila nas costas e pegou-a nos braços, seguindo o chefe ao longo de uma trilha na floresta até uma cabana situada a 10 longas flechadas da aldeia, numa clareira entre os lariços.
O chefe parou do lado de fora da cabana de estrutura de madeira e cobertura de couro. O local era decorado com presas de javali e chifres de alces e veados, que não eram apenas troféus de caça, pois deles pendiam flores secas e ramos de pinheiro cuidadosamente dispostos, como se para algum ritual.
— Tem que falar com ele com respeito — disse o chefe em voz baixa. — Ele é um xamã. E tem o coração doente.
De repente Lee sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo, e Hester retesou-se em seus braços, pois os dois se deram conta de que vinham sendo observados todo o tempo: por entre as flores secas e os ramos de pinheiro, um olho amarelo e brilhante os vigiava. Era um dimon, e Lee viu-o virar a cabeça, tirar delicadamente um ramo de pinheiro com seu bico poderoso e passá-lo pelo ar como se puxasse uma cortina.
O chefe chamou em sua própria língua, usando o nome que o velho caçador de focas mencionara a Lee: Jopari. No momento seguinte a porta se abriu.
Parado à soleira estava um homem magro, de olhos brilhantes, vestindo couro e peles. Os cabelos negros eram manchados de cinzento, a mandíbula forte ressaltava, e seu dimon, uma águia-pesqueira empoleirada em seu punho, olhava com raiva para os visitantes.
O chefe curvou-se três vezes e retrocedeu, deixando Lee sozinho com o xamã-acadêmico que ele tinha vindo procurar.
— Dr. Grumman, meu nome é Lee Scoresby. Venho do país do Texas, e sou aeróstata de profissão. Se me deixar sentar e falar um pouco, vou lhe contar o que me trouxe aqui. É isso mesmo, não é? O senhor é mesmo o Dr. Stanislaus Grumman da Academia de Berlim?
— Sou — disse o xamã. — E você diz que vem do Texas. Os ventos o empurraram para bem longe da sua terra natal, Sr. Scoresby.
— Bem, agora existem ventos estranhos soprando pelo mundo, senhor.
— Realmente. O sol está morno, eu acho. Vai encontrar um banco dentro da minha cabana, se me ajudar a trazê-lo para fora, podemos nos sentar sob essa luz tão agradável e conversar ao ar livre. Tenho um pouco de café, se lhe agrada.
— É muita gentileza, senhor — disse Lee.
Ele carregou o banco de madeira enquanto Grumman ia ao fogão e servia o café quente em duas canecas de lata. Aos ouvidos de Lee seu sotaque não era alemão, mas inglês, da Inglaterra. O Diretor do Observatório estava com a razão, afinal.
Depois que estavam sentados, Hester impassível, de olhos apertados, ao lado de Lee e a grande dimon-águia-pesqueira olhando malevolamente para o sol, Lee pôs-se a falar. Começou com seu encontro em Trollesund com John Faa, chefe dos gípcios, e relatou como tinham recrutado Iorek Byrnison o urso, e viajado para Bolvangar, e resgatado Lyra e as outras crianças, depois contou o que tinha ficado sabendo por Lyra e Serafina Pekkala, no balão, enquanto voavam para Svalbard.
— Sabe, Dr. Grumman, pelo jeito que a menina descreveu, parece que Lorde Asriel simplesmente brandiu diante dos Catedráticos aquela cabeça decepada embalada em gelo, assustando-os tanto que eles não quiseram examinar de perto. Foi o que me fez suspeitar que o senhor poderia estar vivo. E é óbvio que o senhor tem um conhecimento especializado dessa história. Tenho ouvido falar no senhor em todo o litoral do Ártico: da perfuração em sua cabeça, da sua pesquisa, que varia entre escavar o leito do oceano e observar as luzes do norte, e o jeito como o senhor apareceu de repente, saindo do nada, há uns 10 ou 12 anos, e tudo isso é muito interessante. Mas algo mais que a simples curiosidade me atraiu até aqui, Dr. Grumman. Estou preocupado com a menina. Acho que ela é importante, e as bruxas também acham. Se existe alguma coisa que o senhor saiba sobre ela e sobre o que está acontecendo, eu gostaria que me contasse. Como eu disse, alguma coisa me deu a certeza de que o senhor pode fazer isso, e é por isso que estou aqui.
Ele fez uma pausa antes de prosseguir:
— Mas, se não estou enganado, senhor, ouvi o chefe da aldeia dizer que eu tinha vindo para levar o senhor para outro mundo. Entendi errado, ou foi isso mesmo que ele disse? E mais uma pergunta, senhor: que nome foi aquele que ele usou? É algum tipo de nome tribal, algum título de magia?
Grumman sorriu brevemente e respondeu:
— O nome que ele usou é o meu nome verdadeiro, John Parry. Sim, você veio até aqui para me levar para outro mundo. E quanto ao que o trouxe aqui, acho que vai concluir que foi isto.
Ele abriu a mão. Na palma havia uma coisa que Lee viu, mas não entendeu. Ele viu um anel de prata e turquesa, um desenho navajo, que ele reconheceu como o anel de sua própria mãe: conhecia o seu peso, a superfície lisa da pedra e o modo como o ourives tinha dobrado mais o metal no canto onde a pedra estava lascada — Lee sabia que os contornos daquele canto lascado tinham se desgastado com o uso, porque muitas e muitas vezes ele tinha passado os dedos ali, muitos anos antes, em sua infância nos campos de salva do seu país natal.
Quando deu por si, estava de pé. Hester tremia, ereta, orelhas em pé. Sem que Lee percebesse, a águia-pesqueira tinha se movido entre ele e Grumman, defendendo o seu humano, mas Lee não ia atacar. Ele se sentia atarantado, sentia-se criança outra vez, e tinha a voz tensa e trêmula quando perguntou:
— Onde conseguiu isso?
— Pegue — disse Grumman, ou Parry. — Ele já cumpriu sua missão. Trouxe você. Agora não preciso mais dele.
— Mas como... — fez Lee, pegando na palma da mão de Grumman aquele objeto querido. — Não compreendo como foi que o senhor... Será que... Como conseguiu isso? Eu não via esse anel há mais de 40 anos.
— Sou um xamã. Posso fazer muitas coisas que você não entende. Sente-se, Sr. Scoresby. Fique calmo. Vou lhe contar tudo que precisa saber.
Lee tornou a sentar-se, segurando o anel, passando os dedos sobre ele vezes sem conta.
— Bem, estou perturbado, senhor. Acho que preciso ouvir o que o senhor puder me contar.
— Muito bem, vou começar. Meu nome, como já lhe disse, é John Parry, e eu não nasci neste mundo. Lorde Asriel não é o primeiro a viajar entre os mundos, embora seja o primeiro a abrir caminho de maneira tão espetacular. Em meu próprio mundo, fui soldado e depois explorador. Há 12 anos eu estava acompanhando uma expedição a um lugar no meu mundo que corresponde ao seu estreito de Bering, meus companheiros tinham outros projetos, mas eu estava procurando uma coisa que tinha ouvido nas velhas lendas: um rasgão no tecido do mundo, um buraco que tinha aparecido entre o nosso universo e outro. Bem, alguns dos meus companheiros se perderam. Procurando por eles, eu e dois outros atravessamos esse buraco, essa porta, sem percebermos, e deixamos o nosso mundo para trás. A princípio não compreendemos o que tinha acontecido. Caminhamos até encontrarmos uma cidade, e aí não tivemos mais dúvidas: estávamos em outro mundo.
O xamã prosseguiu:
— Bem, por mais que tentássemos, não conseguimos encontrar novamente aquela porta. Tínhamos atravessado durante uma nevasca, e você, que é um veterano do Ártico, sabe o que isso significa. De modo que não tivemos opção senão continuarmos naquele mundo novo. E logo descobrimos que era um lugar perigoso. Parece que havia um estranho avantesma ou uma aparição assombrando o lugar, alguma coisa implacável e mortal. Meus dois companheiros morreram logo depois, vítimas dos Espectros, como aquelas coisas são chamadas. O resultado foi que achei o mundo deles um lugar abominável, e não via a hora de sair de lá. O caminho de volta ao meu próprio mundo estava barrado para sempre, mas havia outras portas para outros mundos, e logo encontrei o caminho para este aqui.
Ele continuou:
— E aqui estou. E assim que cheguei descobri uma coisa que me maravilhou, Lee Scoresby, pois os mundos são muito diferentes uns dos outros, e neste mundo vi meu dimon pela primeira vez. É, eu não sabia da existência de Sayan Kötör até entrar no seu mundo. As pessoas daqui não conseguem conceber um mundo onde os dimons são uma voz silenciosa na mente, nada mais. Pode imaginar o meu pasmo ao descobrir que parte da minha própria natureza era feminina, tinha a forma de pássaro e era linda?
“Assim, com Sayan Kötör ao meu lado, vaguei pelas terras do Norte e aprendi muita coisa com os povos do Ártico, como os meus bons amigos nesta aldeia. O que eles me contaram sobre este mundo preencheu algumas lacunas nas informações que eu obtive no meu, e comecei a ver a resposta de muitos mistérios. Fui para Berlim com o nome de Grumman. Não contei a ninguém as minhas origens, era o meu segredo. Apresentei uma tese à Academia e defendia num debate, que é o método deles. Eu era melhor informado do que os acadêmicos, e não tive dificuldade em me tornar um deles.
“Com as minhas novas credenciais eu poderia começar a trabalhar neste mundo onde encontrei, de maneira geral, muito contentamento. Senti falta de algumas coisas do meu próprio mundo, é claro. É casado, Sr. Scoresby? Não? Bem, eu era e amava muito a minha esposa, como amava o meu filho, meu único filho, um menino que ainda não tinha um ano quando saí do meu mundo. Senti uma saudade terrível deles. Mas mesmo que procurasse durante mil anos nunca encontraria o caminho de volta. Estávamos separados para sempre. Além disso, o meu trabalho me absorvia, e procurei outras formas de conhecimento: fui iniciado no culto do crânio, tornei-me um xamã. E tenho feito algumas descobertas úteis: descobri um modo de fazer um unguento com musgo-de-sangue, por exemplo, que conserva todas as virtudes da planta viva.
“Conheço muita coisa deste mundo, Sr. Scoresby. Sei, por exemplo, da existência do Pó. Vejo pela sua expressão que já ouviu essa palavra. É uma coisa que está matando de medo os seus teólogos, mas são eles que me amedrontam. Sei o que Lorde Asriel está fazendo, e sei por quê, e foi por isso que chamei você aqui. Quero ajudar Lorde Asriel, entende, porque a missão que ele tomou para si é a maior na História humana. A maior em 35 mil anos de História humana, Sr. Scoresby. Eu mesmo não posso fazer grande coisa. Meu coração está doente de um mal que ninguém neste mundo conseguirá curar. Ainda tenho, talvez, energia suficiente para um grande esforço. Mas sei uma coisa que Lorde Asriel não sabe e precisa saber para que seus esforços tenham sucesso. Fiquei intrigado com aquele mundo mal-assombrado onde os Espectros se alimentavam da consciência humana, tinha vontade de saber o que eram, como tinham surgido. Sendo um xamã, consigo descobrir coisas através do espírito quando não posso ir com o corpo, e passei muito tempo em transe explorando aquele mundo. Descobri que os filósofos de lá, há muitos séculos, criaram uma ferramenta para a sua própria destruição: uma ferramenta que eles chamaram de faca sutil. Ela possuía muitos poderes, mais do que eles imaginavam quando a fabricaram, muito mais do que eles sabem, mesmo hoje em dia. E ao usá-la, eles deixaram os Espectros entrar no mundo deles.
“Bem, sei a respeito da faca sutil e o que ela pode fazer. E sei onde ela está, sei como reconhecer o indivíduo que deve usá-la e sei o que ele tem que fazer para ajudar Lorde Asriel. Espero que ele seja capaz de cumprir a tarefa. Portanto, chamei o senhor até aqui para me levar pelo ar para o Norte, para dentro do mundo que Asriel abriu, onde espero encontrar o portador da faca sutil. É um mundo perigoso, não se engane. Aqueles espectros são piores do que qualquer coisa no seu mundo ou no meu. Teremos que ter cuidado e coragem. Não vou voltar de lá, e o senhor terá que usar toda a sua coragem, toda a sua esperteza, toda a sua sorte, se quiser ver o seu mundo de novo. É esta a sua missão, Sr. Scoresby. Por isso o senhor me procurou.”
Com essas palavras o xamã silenciou. Tinha o rosto pálido, com um leve brilho de transpiração.
— É a coisa mais maluca que já ouvi na minha vida — foi o comentário de Lee. Em sua agitação, ele se pôs de pé e ficou a caminhar de um lado para outro, enquanto Hester, impassível, observava. Grumman tinha os olhos semicerrados e seu dimon, no colo, observava Lee com olhar desconfiado.
— Quer dinheiro? — Grumman perguntou, depois de alguns instantes. — Posso lhe arranjar ouro. Não é difícil.
— Droga, não vim até aqui por dinheiro — Lee exclamou. — Vim porque... Vim ver se o senhor estava vivo como eu pensava. Bem, a minha curiosidade quanto a isso já foi satisfeita.
— Que bom.
— E há outra coisa — Lee acrescentou.
Ele relatou a Grumman sobre o Conselho de bruxas no Lago Enara e a resolução a que elas tinham chegado. E terminou:
— Sabe, aquela garotinha, Lyra... Bem, foi por causa dela que resolvi ajudar as bruxas. O senhor diz que me trouxe até aqui com o anel navajo, pode ser que seja, pode ser que não. O que eu sei é que vim aqui porque achei que estaria ajudando Lyra. Nunca vi uma criança como aquela. Se eu tivesse uma filha, queria que ela fosse metade tão forte, corajosa e boa quanto ela é. Ora, eu tinha ouvido falar que o senhor conhecia um objeto, eu não sabia o que podia ser, que dá proteção a qualquer pessoa que o carregue. E pelo que o senhor diz, acho que deve ser essa tal de faca sutil. De modo que este é o meu preço para levar o senhor até o outro mundo, Dr. Grumman: nada de ouro, mas a faca sutil, e não a quero para mim, mas para Lyra. O senhor terá que jurar que vai conseguir que ela fique sob a proteção desse objeto, e então eu o levo aonde o senhor quiser ir.
O xamã escutou atentamente, e disse:
— Muito bem, Sr. Scoresby, eu juro. Acredita no meu juramento?
— Vai jurar pelo quê?
— Pelo que o senhor quiser.
Lee pensou um pouco e disse:
— Jure por aquilo que fez o senhor recusar o amor da bruxa. Acho que deve ser a coisa mais importante que o senhor conhece.
Grumman arregalou os olhos e disse:
— Tem toda razão, Sr. Scoresby. Jurarei com prazer. Dou-lhe a minha palavra de que vou fazer com que essa menina Lyra Belacqua fique sob a proteção da faca sutil. Mas vou lhe dar um aviso: o portador dessa faca tem sua própria missão a cumprir, e pode ser que essa missão coloque a menina num perigo ainda pior.
Lee assentiu com a fisionomia séria.
— Pode ser — concordou. — Mas, quero que ela tenha uma chance de segurança, por menor que seja.
— Eu lhe dou a minha palavra. E agora preciso ir para o novo mundo, e o senhor precisa me levar.
— E o vento? O senhor não está doente demais para observar as condições meteorológicas, está?
— Deixe que eu cuido do vento.
Lee assentiu. Tornou a sentar-se e ficou passando a mão pelo anel de turquesa enquanto Grumman colocava dentro de uma bolsa de pele de cervo as poucas coisas de que necessitaria, e então os dois voltaram para a aldeia pela trilha na floresta.
O chefe falou durante algum tempo. Cada vez mais pessoas vinham tocar na mão de Grumman, murmurar algumas palavras e receber em troca algo que parecia uma bênção.
Enquanto isso, Lee examinava as condições do tempo. O céu estava claro para o sul, e uma brisa fresca sacudia de leve os ramos e o topo dos pinheiros. Para o norte, a neblina ainda pairava sobre o rio cheio, mas pela primeira vez em muitos dias parecia haver uma promessa de tempo claro. Junto ao rochedo onde antes ficava o ancoradouro, ele colocou a bolsa de Grumman dentro do bote e abasteceu o pequeno motor, que pegou de imediato. Partiram, com o xamã sentado na proa, o bote desceu velozmente a correnteza, passando sob as árvores e entrando no rio principal com tanta rapidez que Lee temeu por Hester, agachada junto à amurada. Mas ela era uma viajante experiente, ele deveria saber disso, por que estava tão nervoso?
Quando chegaram ao porto na foz do rio, constataram que todos os hotéis, pensões e até quartos em casas particulares tinham sido requisitados para os soldados. E não eram quaisquer soldados: eram as tropas da Guarda Imperial de Moscóvia, o exército mais feroz, mais treinado e melhor equipado do mundo, dedicado sob juramento a defender os poderes do Magisterium. Lee tinha pretendido descansar uma noite antes de partirem, pois Grumman parecia estar precisando, mas não havia chance de encontrarem um quarto.
— O que é que está acontecendo? — ele perguntou ao barqueiro, quando devolveu o barco alugado.
— Não sabemos. O regimento chegou ontem e requisitou todos os leitos, toda a comida e todos os barcos da cidade. Este bote seria deles, se não estivesse com o senhor.
— Sabe para onde estão indo?
— Para o Norte — disse o barqueiro. — Vai haver uma guerra, a maior guerra que já houve.
— Para o Norte, para esse novo mundo?
— Isso mesmo. E vão chegar mais tropas, esta é só a tropa de vanguarda. Daqui a uma semana não vamos ter um só pedaço de pão ou um galão de combustível. O senhor me fez um grande favor alugando este barco. O preço já dobrou...
Agora não havia sentido em descansar, mesmo se conseguissem encontrar um lugar. Cheio de ansiedade por seu balão, Lee, acompanhado por Grumman, foi direto ao depósito onde o tinha deixado. Grumman conseguia acompanhar seu passo, parecia doente, mas era durão.
O guardador do depósito, ocupado contando algumas peças de motor para um sargento da Guarda, ergueu os olhos rapidamente de sua prancheta.
— Balão? Infelizmente foi requisitado ontem — disse. — Está vendo como as coisas estão, não tive escolha.
Hester mexeu as orelhas e Lee entendeu o que ela queria dizer.
— Já entregou o balão? — perguntou.
— Virão buscá-lo esta tarde.
— Nada disso — disse Lee. — Tenho uma autoridade que ultrapassa a da Guarda.
E mostrou ao guardador do depósito o anel que ele tinha tirado do dedo do escraelingue morto em Nova Zembla. O sargento, que estava ao seu lado junto ao balcão, parou o que estava fazendo e fez uma continência ao ver o símbolo da Igreja, mas, apesar de toda a sua disciplina, não conseguiu conter uma breve expressão de espanto.
— Portanto vamos levar o balão agora mesmo, pode colocar alguns homens para trabalhar: quero o balão cheio e abastecido. Isso inclui comida, água e lastro. Eu disse agora mesmo.
O guardador do depósito olhou para o sargento, que deu de ombros, e então saiu apressado para ver o balão. Lee e Grumman foram para o atracadouro onde ficavam os tanques de combustível, para supervisionar o abastecimento e conversar em voz baixa.
— Onde conseguiu esse anel? — Grumman quis saber.
— Tirei do dedo de um morto. É meio arriscado usar isso, mas não vi outra maneira de ter meu balão de volta. Acha que aquele sargento suspeitou de alguma coisa?
— Claro que suspeitou. Mas é um homem disciplinado. Não vai questionar a Igreja. Se ele mencionar o que viu, nós estaremos longe quando resolverem fazer alguma coisa. Bem, eu lhe prometi um vento, Sr. Scoresby; espero que goste.
O céu estava azul e o sol brilhava. Para o norte, a neblina ainda parecia uma cordilheira de montanhas acima do mar, mas a brisa a empurrava cada vez mais para trás, e Lee ficou impaciente para levantar voo. Enquanto o balão enchia-se de ar, inchando e começando a aparecer por trás do telhado do depósito, Lee examinava a cesta e guardava o equipamento com especial cuidado, quem poderia prever as turbulências que encontrariam no outro mundo? Também os instrumentos foram fixados à estrutura com a máxima atenção — até mesmo a bússola, cujo ponteiro girava em volta do mostrador. Para terminar, Lee amarrou vários sacos de areia como lastro em volta da cesta.
Quando o balão já estava cheio, pendendo para o norte e forçando as cordas que o ancoravam por causa do vento que aumentava, Lee pagou o guardador do depósito com o resto de seu ouro e ajudou Grumman a entrar na cesta. Então virou-se para os homens que seguravam as cordas para ordenar que as soltassem.
Antes, porém, que pudesse dar a ordem, houve uma interrupção. Do beco ao lado do depósito veio o ruído de botas pisando com força, movendo-se depressa, e um brado de comando:
— Alto!
Os homens das cordas ficaram indecisos, alguns olhando para o beco, outros para Lee, que gritou com veemência:
— Soltem as cordas!
Dois deles obedeceram e o balão tentou subir, mas os outros dois prestavam atenção nos soldados, que estavam rodeando a esquina do depósito. Os dois homens seguravam as cordas ainda em volta dos ganchos, e o balão estava inclinado para um lado. Lee agarrou-se à borda da cesta, Grumman já estava agarrado a ela, e também seu dimon tinha as garras em volta dela.
Lee gritou:
— Soltem as cordas, seus idiotas! O balão já está no ar!
O gás que enchia o balão tinha muita força, e os homens, por mais que resistissem, não conseguiam segurá-lo. Um deles soltou a corda, que se desenrolou do gancho de amarração, mas o outro, ao sentir a corda começando a fugir, agarrou-se instintivamente a ela, em vez de soltá-la. Lee, que já tinha visto isso acontecer uma vez, ficou horrorizado. O dimon do pobre homem, uma pesada cadela husky, uivava de medo e dor, lá no solo, enquanto o balão disparava para o céu. Depois de cinco intermináveis segundos, estava tudo acabado: o homem perdeu as forças e caiu, semimorto, batendo com força na água.
Mas os soldados já tinham os rifles apontados para cima. Uma rajada de balas assobiou perto da cesta, uma delas tirando uma fagulha de um anel de metal e fazendo as mãos de Lee arderem com o impacto, mas nenhuma causou algum estrago.
Quando dispararam a segunda rajada, o balão estava quase fora de alcance, erguendo-se no azul e disparando na direção do mar. Lee sentia o coração erguer-se também. Certa vez dissera a Serafina Pekkala que não fazia questão de voar e que aquilo era apenas um trabalho, mas não tinha dito a verdade. Voar pelo céu, com um bom vento a carregá-lo e um mundo novo a aguardá-lo — alguma coisa poderia ser melhor na vida?
Soltou a borda da cesta e viu que Hester estava agachada, de olhos semicerrados, no seu canto costumeiro. Lá de baixo e de muito longe, outra rajada de balas foi disparada inutilmente. A cidade distanciava-se rapidamente, e abaixo deles a amplidão da foz do rio cintilava ao sol.
— Bem, Dr. Grumman, não sei quanto ao senhor, mas eu me sinto melhor no ar — Lee comentou. — Mas queria que aquele coitado tivesse soltado a corda. É tão fácil, e se a gente não soltar, não tem escapatória.
— Obrigado, Sr. Scoresby, fez um bom trabalho. Agora vamos nos acomodar para o voo. Eu ficaria muito grato se me passasse essas peles, o ar ainda está frio.

4 comentários:

  1. Respostas
    1. Pois éeee, não acreditei!

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    2. 2 ka e c vc ver o nome era tão óbvio

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    3. Óbivio? Não sei o que Grumman Tem em comum com John Larry O.o

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Boa leitura :)