4 de fevereiro de 2017

10. O Cônsul e o urso

JOHN Faa e os outros chefes tinham decidido que iriam para Trollesund, o principal porto da Lapônia. As feiticeiras tinham um consulado nessa cidade, e John Faa sabia que, sem a ajuda delas — ou pelo menos sua neutralidade amigável —, seria impossível salvar as crianças sequestradas.
No dia seguinte, quando o enjoo de Lyra tinha diminuído um pouco, ele explicou sua ideia a ela e a Farder Coram. O sol brilhava, e as ondas verdes quebravam de encontro à proa formando esteiras de espuma. No convés, com a brisa soprando e o mar inteiro brilhando com luz e movimento, ela sentia pouco enjoo; e agora que Pantalaimon tinha descoberto o prazer de ser uma gaivota e depois um pássaro oceânico roçando os picos das ondas, Lyra se distraiu com a alegria dele e conseguiu não ficar entregue aos sofrimentos de um marinheiro de primeira viagem.
John Faa, Farder Coram e mais dois ou três homens estavam sentados na popa, sob o sol, conversando sobre o próximo passo.
— Bom, Farder Coram conhece essas feiticeiras da Lapônia — disse John Faa. — E se não me engano há uma dívida de gratidão.
— É isso mesmo, John — confirmou Farder Coram. — Foi há quarenta anos, mas para uma feiticeira isso não é nada; algumas vivem isso multiplicado várias vezes.
— Que foi que aconteceu para que elas ficassem em dívida com você, Farder Coram? — perguntou Adam Stefanski, o homem encarregado da tropa de combate.
— Salvei a vida de uma feiticeira — Farder Coram explicou. — Ela caiu do céu, perseguida por um enorme pássaro vermelho, nunca vi outro igual. Ela caiu ferida no pântano, e eu saí procurando. Estava quase afogada, e eu a coloquei dentro do barco e dei um tiro no pássaro. Ele caiu num atoleiro, infelizmente, pois era do tamanho de uma galinha pequena e vermelho como uma labareda.
— Ah... — murmuraram os outros, presos à narrativa de Farder Coram.
— Bom, quando coloquei a moça no barco, tive o maior choque da minha vida, porque ela não tinha dimon.
Foi como se ele tivesse dito “não tinha cabeça”; essa ideia era repugnante. Os homens estremeceram, seus dimons se eriçaram, ou se sacudiram, ou piaram roucamente, e os homens os acalmaram. Pantalaimon foi para o colo de Lyra, os corações de ambos batendo juntos.
— Pelo menos era o que parecia — continuou Farder Coram. — Como tinha caído do céu, eu já suspeitava que era uma feiticeira. Parecia mesmo uma mulher jovem, mais magra que algumas e mais bonita que a maioria, mas não ver o dimon me causou um grande choque.
— Então as feiticeiras não têm dimon? — quis saber outro homem, Michael Canzona.
— Os dimons delas são invisíveis, eu acho — disse Adam Stefanski. — Ele estava lá o tempo todo, e Farder Coram não viu.
— Não, você está enganado, Adam — explicou Farder Coram. — Ele não estava lá, não. As feiticeiras têm o poder de se separar de seus dimons a uma distância muito maior do que nós. Se for preciso, elas podem mandar seus dimons viajar para terras distantes, ou até as nuvens, ou até o fundo do mar. E essa feiticeira que eu encontrei não tinha descansado nem uma hora quando o dimon dela chegou voando, porque ele sentiu o medo e os machucados dela, é claro. E eu acredito, embora ela nunca tenha admitido, que o grande pássaro vermelho que eu matei era o dimon de outra feiticeira. Poxa, fiquei tremendo quando pensei nisso. Se eu soubesse, não teria atirado; teria feito qualquer outra coisa, no mar ou em terra; mas eu atirei. De qualquer maneira, eu salvei a vida dela, e ela me deu uma lembrança disso e disse para eu lhe pedir ajuda se algum dia precisasse. E uma vez ela me mandou ajuda quando os escraelingues me acertaram uma flecha envenenada. Nós tínhamos outras ligações, também... Não nos vemos há muitos anos, mas ela vai se lembrar.
— E essa feiticeira mora em Trollesund?
— Não, não. Elas moram nas florestas e na tundra, não em um porto marítimo, entre homens e mulheres. O negócio delas é com a natureza. Mas elas têm lá um consulado, e eu vou mandar um recado para ela, sem dúvida.
Lyra estava louca para saber mais sobre as feiticeiras, mas a conversa mudou para a questão de combustível e suprimentos, e afinal ela ficou impaciente para conhecer o resto do navio. Saiu vagando pelo convés na direção da proa, e logo fez amizade com um Marinheiro Qualificado — amizade que começou com ela atirando nele, uma por uma, as sementes que guardara da maçã que tinha comido no café da manhã.
Ele era um homem corpulento e tranquilo, e depois que lhe disse um palavrão e ouviu outro dela em resposta, eles se tornaram grandes amigos. O nome dele era Jerry. Sob a orientação dele, ela descobriu que ter alguma coisa para fazer impedia o enjoo, e que até um trabalho como lavar o convés podia ser prazeroso, se fosse feito como um marinheiro fazia.
Ela ficou entusiasmada com essa ideia, e depois disso passou a dobrar as cobertas da sua cama à moda dos marinheiros, a guardar seus pertences no armário à moda dos marinheiros e usar o termo “estivar” em vez de “arrumar” para esse processo.
Depois de dois dias no mar, Lyra estava convencida de que aquela era a vida que ela queria. Tinha toda liberdade no navio, desde a casa de máquinas até a ponte, e logo já sabia o nome de toda a tripulação. O Capitão Rokeby deixou que ela tocasse o apito a vapor para sinalizar para uma fragata das Holandas; o cozinheiro aceitou a ajuda dela para misturar o pudim de pêssego; e só uma bronca de John Faa impediu que ela subisse ao topo do mastro para contemplar da gávea o horizonte.
O navio ia para o Norte, e cada dia o frio era mais intenso. Procuraram, nos depósitos, lonas que pudessem ser cortadas para ela, e Jerry lhe ensinou a costurar, uma arte que ela aprendeu de boa vontade, embora na Jordan a tivesse desprezado, fugindo às aulas da Sra. Lonsdale. Juntos fizeram para o aletiômetro uma sacola à prova d’água que ela podia prender em volta da cintura, caso caísse na água, segundo ela. Com o instrumento em segurança, ela usando a capa e o capuz de lona, Lyra se agarrava à amurada, enquanto a espuma gelada se derramava por cima da proa e molhava o convés. Às vezes, ela sentia enjoo, principalmente quando o vento crescia e o navio mergulhava pesadamente por uma crista das ondas verde-acinzentadas, e então foi a vez de Pantalaimon distraí-la roçando as ondas como uma ave marinha, porque ela conseguia sentir a euforia de liberdade dele ao sabor do vento e da água e esquecer o enjoo. De vez em quando, ele tentava até mesmo ser um peixe, e certa vez se juntou a um cardume de golfinhos, para grande surpresa e prazer deles. Lyra ficou, tremendo de frio, no castelo de proa, e riu de prazer enquanto seu amado Pantalaimon, esguio e poderoso, saltava da água com meia dúzia de outras figuras cinzentas e rápidas. Era prazer, mas não um prazer simples, pois nele havia também dor e medo: e se ele gostasse mais de ser golfinho do que gostava dela?
Seu amigo, o Marinheiro Qualificado, estava por perto e enquanto ajeitava a tampa de lona sobre a abertura da proa ele parou para observar o dimon da menina nadando e saltando com os golfinhos. Seu próprio dimon, uma gaivota, estava empoleirado no guincho, com a cabeça enfiada sob a asa. Ele sabia o que Lyra estava sentindo.
— Eu me lembro a primeira vez que vim para o mar, eu era bem novinho e a minha Belisária ainda não tomara apenas uma forma, e ela adorava ser toninha, que é uma baleia pequena. Eu tinha medo que ela ficasse assim para sempre. No meu primeiro navio, tinha um velho marinheiro que nunca podia ir a terra, porque o dimon dele tinha ficado sendo um golfinho, e ele nunca podia sair do mar. Era um marinheiro muito bacana, o melhor navegador que já se viu; podia ter feito fortuna com a pesca, mas não gostava. Nunca foi feliz até morrer e poder ser enterrado no mar.
— Por que os dimons têm que ficar com uma forma só? — Lyra perguntou. — Quero que Pantalaimon possa mudar sempre. Ele também quer.
— Ah, eles sempre ficam com uma só, e sempre ficarão. Faz parte de crescer. Vai chegar um tempo em que você vai ficar cansada de tantas mudanças dele, e vai querer que ele tenha uma forma fixa.
— Nunca vou querer isso!
— Ah, vai, sim. Vai querer crescer como todas as outras meninas. De qualquer maneira, a forma única tem suas vantagens.
— Quais?
— Saber que tipo de pessoa você é. A velha Belisária, por exemplo; ela é uma gaivota, o que significa que eu sou uma espécie de gaivota, também. Não sou grandioso, esplêndido, nem bonito, mas sou durão e consigo sobreviver em qualquer lugar, e sempre arranjo comida e boa companhia. Vale a pena saber disso. E quando o seu dimon se estabelecer numa forma, você vai saber que tipo de pessoa é.
— Mas e se o meu dimon se estabelecer numa forma que eu não goste?
— Bom, você vai se decepcionar, não é? Tem muita gente que gostaria de ter um dimon-leão e acaba com um poodle. E até aprenderem a se contentar com o que são, reclamam muito. Acho isso um desperdício de energia.
Mas Lyra tinha a impressão de que nunca cresceria.
Certa manhã, havia no ar um cheiro diferente, e o navio se movia de modo estranho, balançando de um lado para o outro, em vez de mergulhar a proa e tornar a erguê-la. Lyra acordou e em menos de um minuto estava no convés, olhando avidamente para a terra: uma visão muito estranha, depois de toda aquela água, pois embora só tivessem ficado alguns dias navegando, para Lyra era como se tivessem passado meses no oceano. Bem à frente do navio ela via uma montanha de encostas verdes e o pico coberto de neve, e no sopé uma cidadezinha e um porto: casas de madeira com telhados pontudos, a torre fina de uma igreja, caixotes no porto e nuvens de gaivotas voando em círculo e gritando. O cheiro era de peixe, mas junto com ele vinham também cheiros de terra firme: resina de pinheiro, barro, e alguma coisa animal e almiscarada, e mais alguma coisa, que era fria, informe e livre: podia ser neve. Era o cheiro do Norte.
Em volta do navio, brincavam focas, mostrando seus rostos de palhaço acima da água antes de mergulharem de novo ruidosamente. O vento que levantava espuma das cristas brancas das ondas era monstruosamente frio, e procurava toda abertura que houvesse no casaco de Lyra, e logo as mãos dela doíam e o rosto estava dormente. Pantalaimon, em sua forma de arminho, aquecia o pescoço dela, mas o tempo estava frio demais para que ficassem do lado de fora por muito tempo sem um trabalho a fazer, mesmo que fosse observar as focas, e Lyra desceu para tomar seu mingau do café da manhã e olhar pela escotilha do refeitório.
Dentro do porto, o mar estava calmo, e enquanto o barco avançava ao longo do gigantesco quebra-mar, Lyra começou a se sentir tonta por causa da falta de movimento. Ela e Pantalaimon observavam atentamente enquanto o navio se movia de modo lento e majestoso em direção ao atracadouro. Durante a hora seguinte, o ruído do motor diminuiu para um ronco baixo, vozes gritavam ordens ou perguntas, cordas eram jogadas, passarelas baixadas, portas abertas.
— Vamos, Lyra — chamou Farder Coram. — Já arrumou sua bagagem?
A bagagem de Lyra, por assim dizer, já estava arrumada desde que ela acordara de manhã e avistara terra firme. Tudo que precisava fazer agora era correr até a cabine e pegar a sacola de compras.
A primeira coisa que ela e Farder Coram fizeram em terra firme foi visitar a casa do Cônsul das Feiticeiras. Não demoraram a encontrar; a cidadezinha rodeava o porto, sendo o oratório e a casa do Governador as únicas construções um pouco maiores. O Cônsul das Feiticeiras morava numa casa de madeira pintada de verde com vista para o mar, e quando eles tocaram a campainha, o som ressoou pela rua silenciosa.
Um criado os levou para uma saleta e lhes trouxe café. Depois, o próprio Cônsul veio recebê-los. Era um homem gordo, de rosto alegre, usando um sóbrio terno preto. Seu nome era Martin Lanselius. Seu dimon era uma serpente pequena da mesma cor verde intensa e brilhante dos olhos dele, que eram a única coisa de feiticeiro na aparência dele; mas Lyra não tinha certeza de como seria uma feiticeira.
— Em que posso ajudá-lo, Farder Coram? — ele perguntou.
— De duas maneiras, Dr. Lanselius. Primeiro, estou ansioso para entrar em contato com uma feiticeira que conheci há alguns anos, na região dos Pântanos na Anglia Oriental. O nome dela é Serafina Pekkala.
O Dr. Lanselius tomou nota com uma lapiseira de prata.
— Há quanto tempo foi o seu encontro com ela? — quis saber.
— Deve ter uns quarenta anos. Mas acho que ela se lembra.
— E em que mais posso ajudá-lo?
— Estou representando um grupo de famílias gípcias que perderam seus filhos. Temos razões para acreditar que existe uma organização sequestrando essas crianças, as nossas e as terrestres, e que essas crianças são trazidas para o Norte com algum objetivo desconhecido. Gostaria de saber se o senhor ou o seu povo ouviu alguma coisa sobre isso.
O Dr. Lanselius ficou bebericando calmamente seu café.
— Não é impossível que notícias de tal atividade possam ter chegado por esses lados — disse. — O senhor sabe que as relações entre o meu povo e os nortelandenses são inteiramente cordiais. Seria difícil encontrar uma razão para eu ir contra eles.
Farder Coram assentiu como se compreendesse muito bem.
— Naturalmente — respondeu. — E não me seria necessário lhe perguntar, se eu poderia conseguir a informação de qualquer outra maneira. Foi por isso que primeiro perguntei pela minha amiga.
Agora foi o Dr. Lanselius quem assentiu como se compreendesse muito bem. Lyra observava esse jogo com admiração e respeito. Havia muita coisa acontecendo por trás das palavras, e ela viu que o Cônsul das Feiticeiras estava chegando a uma decisão.
— Muito bem — ele disse. — Naturalmente, isso é verdade, e o senhor fique sabendo que seu nome não nos é desconhecido, Farder Coram. Serafina Pekkala é a rainha de um clã de feiticeiros na região do Lago Enara. Quanto à sua outra pergunta, naturalmente fica entendido que essa informação não chegou ao senhor por mim.
— Naturalmente.
— Bem, aqui mesmo nesta cidade existe uma filial de uma organização chamada Companhia de Exploração Progresso do Norte, que finge estar procurando minério, mas que na realidade é controlada por uma coisa chamada Conselho Geral Londrino de Oblação. Por acaso sei que essa organização importa crianças. Isto não é conhecido na cidade; o governo da Noruega não tem conhecimento oficial do fato. As crianças não ficam muito tempo aqui. São levadas para o interior.
— Sabe para onde, Dr. Lanselius?
— Não. Eu lhe contaria, se soubesse.
— E sabe o que acontece a elas lá?
Pela primeira vez o Dr. Lanselius olhou de relance para Lyra. Ela o encarou de volta, impassível. O pequeno dimon-serpente verde ergueu a cabeça do colarinho do Cônsul e cochichou algo em seu ouvido, deixando ver a língua pequena e rápida. O Cônsul declarou:
— Já ouvi a expressão “o Processo Maystadt” em relação a este assunto. Acho que é um nome usado para evitar o uso do nome real. Também já ouvi a palavra “intercisão”, mas não sei a que se refere.
— E no momento há crianças na cidade? — Farder Coram perguntou.
Ele estava acariciando o pelo de seu dimon, sentado alerta em seu colo. Lyra percebeu que ele havia parado de ronronar.
— Acho que não — disse o Dr. Lanselius. — Um grupo de umas dez chegou na semana passada e foi embora anteontem.
— Ah, há tão pouco tempo assim? Então isso nos dá alguma esperança. Como foi que viajaram, Dr. Lanselius?
— De trenó.
— E o senhor não tem ideia de para onde foram?
— Muito pouca. Não é um assunto que nos interesse.
— Naturalmente. O senhor respondeu todas as minhas perguntas de boa vontade, e agora só tenho mais uma. Se o senhor fosse eu, que pergunta faria ao Cônsul dos Feiticeiros?
Pela primeira vez o Dr. Lanselius sorriu.
— Eu perguntaria onde poderia obter os serviços de um urso de armadura — disse.
Lyra se endireitou na cadeira e sentiu o coração de Pantalaimon dar um salto em suas mãos.
— Pensei que os ursos de armadura estivessem a serviço do Conselho de Oblação — disse Farder Coram, surpreso. — Quero dizer, da Companhia de Progresso do Norte, ou seja lá qual for o nome que estão usando.
— Pelo menos um deles não está. Vai encontrá-lo no entreposto de trenós no final da rua Langlokur. No momento, ele ganha a vida lá, mas tem um gênio tão forte, e tão forte é o medo que ele causa nos cachorros, que seu emprego talvez não dure muito.
— Então ele é um renegado?
— Parece que sim. O nome dele é Iorek Byrnison. Você me perguntou o que eu perguntaria, e eu lhe disse. Agora eis o que eu faria: eu agarraria a chance de empregar um urso de armadura, mesmo que fosse uma oportunidade muito mais remota do que esta.
Lyra mal conseguia ficar sentada. Farder Coram, no entanto, conhecia o ritual de entrevistas como esta, e pegou outro pedaço de pão de mel. Enquanto ele comia, o Dr. Lanselius se virou para Lyra.
— Fiquei sabendo que você possui um aletiômetro — disse, para grande surpresa dela; como poderia saber disso?
— Sim — ela respondeu. Então, impulsionada por um cutucão de Pantalaimon, ofereceu: — Gostaria de dar uma olhada nele?
— Gostaria muito.
Ela puxou de dentro da roupa a sacola de lona e entregou ao cônsul o embrulho de veludo. Ele desembrulhou o instrumento e o ergueu com grande cuidado, contemplando o mostrador como um sábio diante de um manuscrito raro.
— Que maravilha! — exclamou. — Já vi outro exemplar, mas não era tão bonito quanto este. E você possui o livro de instruções?
— Não — Lyra começou.
Antes, porém, que ela pudesse dizer mais alguma coisa, Farder Coram interveio:
— Não, é uma grande pena que embora Lyra possua o aletiômetro não haja meio de consultá-lo. É um mistério igual às manchas de tinta que os hindus usam para ler o futuro. E o livro de instruções mais próximo, pelo que sei, é o da Abadia de St. Johann em Heidelberg.
Lyra entendeu por que ele dizia isso: não queria que o Dr. Lanselius soubesse do poder dela. Mas ela via também uma coisa que Farder Coram não conseguia ver: a agitação do dimon do Dr. Lanselius. Ela logo percebeu que não adiantava fingir. Portanto, disse:
— Na verdade, eu consigo ler o aletiômetro.
Ela se dirigiu tanto ao Dr. Lanselius quanto a Farder Coram, mas quem reagiu foi o Cônsul.
— É muito sábio da sua parte — disse. — Onde foi que obteve este exemplar?
— O Reitor da Faculdade Jordan em Oxford me deu. Dr. Lanselius, o senhor sabe quem foi que construiu estas coisas?
— Dizem que tiveram origem em Praga. O inventor do primeiro aletiômetro estava aparentemente tentando descobrir um modo de medir a influência dos planetas, de acordo com os princípios da astrologia. Ele pretendia criar um mecanismo que reagisse à percepção de Marte ou Vênus, assim como a bússola reage à percepção do Norte. Nisso ele fracassou, mas o mecanismo que criou está obviamente reagindo a algo, mesmo que ninguém saiba exatamente a quê.
— E onde ele conseguiu estes símbolos?
— Ah, foi no século XVII. Havia símbolos e emblemas por toda parte. Os prédios e os quadros podiam ser lidos como livros. Tudo simbolizava outra coisa; se a pessoa tivesse o dicionário certo, poderia ler até a Natureza. Não era estranho que os filósofos usassem a simbologia da sua época para interpretar um conhecimento vindo de uma origem misteriosa. Mas, vocês sabem, durante mais de dois séculos eles não foram corretamente usados.
Devolveu o instrumento a Lyra e acrescentou:
— Posso lhe fazer uma pergunta? Sem o livro dos símbolos, como é que você lê?
— Eu faço minha cabeça ficar vazia e então é como olhar para dentro d’água. A gente deixa os olhos encontrarem o nível certo, porque é o único que fica em foco. Mais ou menos isso — ela falou.
— Será que posso vê-la fazer isso? — ele pediu.
Lyra olhou para Farder Coram, com vontade de concordar, porém esperando a aprovação dele. O ancião assentiu.
— O que vou perguntar? — Lyra quis saber.
— Quais são as intenções dos tártaros em relação a Kamchatka?
Esta não era difícil. Lyra girou um ponteiro até o camelo, que significava Ásia, que significa os tártaros; outro, para a cornucópia, significando Kamchatka, onde ficavam as minas de ouro; e o terceiro para a formiga, que significava atividade, que significava propósito e intenção. Então ficou imóvel, deixando a mente reunir os três níveis de significado, esperando tranquilamente a resposta, que veio quase no mesmo instante. O ponteiro comprido estremeceu sobre o golfinho, o elmo, o bebê e a âncora, dançando entre eles e até o cadinho num desenho complicado que os olhos de Lyra acompanharam sem hesitação, mas que era incompreensível para os dois homens.
Depois que ele completou várias vezes o movimento, Lyra ergueu os olhos. Pestanejou duas vezes, como se saísse de um transe.
— Eles vão fingir que atacam lá, mas não vão atacar, porque é longe demais, e eles iam ficar muito espalhados — disse.
— Pode me dizer como leu isto?
— O golfinho, um dos significados mais profundos dele é brincar, fazer brincadeiras — ela explicou. — Sei que é esse significado porque ele parou no símbolo um certo número de vezes e ficou claro nesse nível e em nenhum outro. O bebê significa... significa dificuldade... O ataque seria muito difícil para eles, e a âncora diz por quê: porque eles iam ficar esticados como a corda da âncora. É assim que eu vejo, entende?
O Dr. Lanselius assentiu.
— Notável — comentou. — Fico-lhe muito grato. Não vou esquecer.
Então olhou estranhamente para Farder Coram e depois para Lyra.
— Posso lhe pedir mais uma demonstração? — perguntou. — No quintal atrás desta casa você vai encontrar vários galhos de pinheiro-nubígeno pendurados na parede. Um deles foi usado por Serafina Pekkala; você pode me dizer qual?
— Claro! — disse Lyra, sempre pronta para fazer bonito.
Pegou o aletiômetro e saiu depressa. Estava ansiosa para ver o tal pinheiro-nubígeno que as feiticeiras usavam para voar. Enquanto ela estava ausente, o Cônsul perguntou:
— Sabe quem é esta criança?
— É a filha de Lorde Asriel — respondeu Farder Coram. — E a mãe é a Sra. Coulter, do Conselho de Oblação.
— E além disto?
O velho gípcio sacudiu a cabeça.
— Não, eu não sei mais. Mas é uma criatura estranha e inocente, e eu não quero que nenhum mal lhe aconteça. Como ela consegue ler aquele instrumento eu não sei, mas acredito no que ela diz. Por que pergunta, Dr. Lanselius? O que o senhor sabe sobre ela?
— Há séculos as feiticeiras falam dessa criança — disse o Cônsul. — Por viverem tão próximas do lugar onde o véu entre os mundos é fino, de vez em quando elas escutam sussurros imortais, as vozes daqueles seres que passam de um mundo a outro. E eles falaram de uma criança como esta, que tem um grande destino que não poderá ser cumprido neste mundo, mas num lugar muito além dele. Sem esta criança, morreremos todos, é o que dizem as feiticeiras. Mas ela tem que cumprir esse destino sem saber o que está fazendo, porque somente na inocência dela nós podemos ser salvos. Está entendendo, Farder Coram?
— Não — disse Farder Coram. — Não posso dizer que estou.
— O que significa que ela deve ser livre para cometer erros. Devemos esperar que ela não cometa, mas não podemos guiá-la. Estou feliz por ter visto esta criança antes de morrer.
— Mas como foi que o senhor a reconheceu? E o que quis dizer quando falou em seres que passam de um mundo a outro? Não consigo compreender o que o senhor diz, Dr. Lanselius, por mais que o considere um homem honesto...
Mas antes que o Cônsul pudesse responder, a porta se abriu e Lyra entrou, triunfante, trazendo um raminho de pinheiro.
— É este aqui! — exclamou. — Testei todos eles, e tenho certeza de que é este.
O Cônsul examinou o ramo com atenção e assentiu.
— Correto — disse. — Bem, Lyra, isto é notável. Você tem sorte de ter um instrumento como este, e eu lhe desejo sorte com ele. Gostaria de lhe dar uma coisa...
Pegou o galho e partiu um raminho para ela.
— Ela voou com isto? — Lyra quis saber, impressionada.
— Voou, sim. Não posso lhe dar todo, porque preciso dele para entrar em contato com ela, mas isto é suficiente. Cuide bem dele.
— Vou cuidar. Muito obrigada.
Ela enfiou o raminho dentro da bolsa, ao lado do aletiômetro. Farder Coram tocou no ramo de pinheiro como se fosse um amuleto, e Lyra viu no rosto dele uma expressão que nunca tinha visto antes: quase nostálgica. O Cônsul foi com eles até a porta, onde apertou a mão de Farder Coram, e a de Lyra também.
— Espero que sejam bem-sucedidos — disse.
Ficou parado na soleira, no frio penetrante, observando enquanto eles seguiam pela pequena rua.
— Ele já sabia da resposta sobre os tártaros — Lyra contou a Farder Coram. — O aletiômetro me contou, mas eu não disse. Foi o cadinho.
— Imagino que estava testando você, filha. Mas fez bem em ser gentil, já que não temos certeza do que ele já sabe. E aquela dica do urso foi muito útil. De outra maneira, não ficaríamos sabendo.
Conseguiram encontrar o entreposto, que era formado por dois armazéns de concreto numa área de terrenos baldios onde o capim fino crescia entre pedras cinzentas e poças de lama gelada. Na sala das conversas, um homem carrancudo informou que eles poderiam falar com o urso no final do expediente, às seis horas, mas teriam que chegar na hora, porque em geral ele ia diretamente para o quintal atrás do Bar de Einarsson, onde lhe davam bebida.
Então Farder Coram levou Lyra para a melhor loja de roupas da cidade e comprou para ela algumas peças próprias para o frio. Compraram um casacão feito de pele de rena, porque os pelos da rena são ocos e isolam muito bem; e o capuz era feito de pele de carcaju, porque esse pelo expulsa o gelo que se forma quando a pessoa respira. Compraram roupas de baixo e forros de bota de pele de filhote de rena, e luvas de seda para usar debaixo das grossas luvas de pele. As botas e essas luvas eram feitas da pele da perna da rena, que é muito resistente, e as solas das botas eram feitas com a pele da foca barbada, que é tão grossa quanto o couro do leão-marinho, porém mais leve. Finalmente, compraram uma capa semitransparente que a envolvia completamente, feita de intestino de foca.
Vestindo tudo isso, com um cachecol de seda em volta do pescoço, uma touca de lã tapando as orelhas e o grande capuz puxado para a frente, ela sentia até calor; mas eles iam para lugares ainda muito mais frios.
John Faa, que tinha ficado supervisionando o descarregamento do navio, estava ansioso para saber o que o Cônsul das Feiticeiras dissera, e ficou ainda mais curioso quando soube do urso.
— Vamos lá hoje mesmo — decidiu. — Já falou alguma vez com uma criatura dessas, Farder Coram?
— Já, sim; e já lutei contra uma, também, embora não sozinho, graças a Deus. Temos que nos preparar para lidar com ele, John. Ele vai pedir muito, tenho certeza, e deve ser mal-humorado e difícil de tratar; mas precisamos dele.
— Ah, precisamos, sim. E a sua feiticeira?
— Bem, ela está muito longe, e agora é rainha de um clã — contou Farder Coram. — Eu esperava que pudesse mandar um recado para ela, mas a resposta ia demorar demais.
— Ah, sim. Agora vou contar o que foi que eu descobri, amigo.
Pois John Faa estava impaciente para lhe contar uma coisa. Ele havia conhecido no porto um explorador, um homem da Nova Dinamarca chamado Lee Scoresby, do país do Texas, e esse homem tinha um balão! A expedição que ele pretendia acompanhar fracassara por falta de fundos antes de sair de Amsterdã, então ele estava livre.
— Pense no que podemos fazer com a ajuda de um aeróstata, Farder Coram! — disse John Faa, esfregando as mãos. — Contratei o sujeito para ir conosco. Parece que estamos tendo sorte neste lugar.
— Ainda mais sorte teríamos se tivéssemos uma ideia de aonde estamos indo — disse Farder Coram.
Mas nada conseguia diminuir o prazer de John Faa por estar novamente em campanha.


Depois que escureceu e que toda a carga tinha sido retirada do navio e estava esperando no cais, Farder Coram e Lyra seguiram ao longo da praia procurando o Bar de Einarsson. Encontraram facilmente: um tosco barracão de concreto com um cartaz de néon vermelho piscando irregularmente acima da porta e o som de vozes altas passando através das janelas embaçadas de condensação.
Um beco de solo acidentado ao lado do bar levava a um portão de ferro que dava para os fundos do prédio, onde havia um barracão. A luz fraca que saía pela janela dos fundos do bar mostrava uma figura grande e pálida agachada, devorando uma posta de carne que segurava com ambas as mãos. Lyra teve um vislumbre de um focinho sujo de sangue, olhos pequenos e maus, e uma imensidão de pelos amarelados e sujos. A figura soltava sons ao mastigar e engolir, rosnados e ofegos.
Farder Coram parou junto ao portão e chamou:
— Iorek Byrnison!
O urso parou de comer. Pelo que eles podiam ver, o urso estava olhando diretamente para eles, mas era impossível decifrar sua expressão.
— Iorek Byrnison! — tornou a chamar Farder Coram. — Posso falar com você?
Lyra tinha o coração disparado, porque alguma coisa na presença do urso lhe dava uma sensação quase de frio, de uma força perigosa e brutal, mas uma força controlada pela inteligência; e não uma inteligência humana, nada parecido com isto, porque naturalmente os ursos não tinham dimons. Aquela estranha figura mastigando carne não se parecia com o que ela havia imaginado, e ela sentiu admiração e piedade profundas pela criatura solitária.
Ele deixou a perna de rena cair na lama e foi andando de quatro até o portão. Ali ficou de pé, com seus mais de 3 metros de altura, como se quisesse mostrar seu poder e deixar claro que aquele portão seria inútil para contê-lo.
— Bom, quem são vocês?
Sua voz era tão grossa que parecia sacudir a terra. O fedor que vinha do seu corpo era quase insuportável.
— Sou Farder Coram, do povo gípcio da Anglia Oriental. E esta menininha é Lyra Belacqua.
— O que vocês querem?
— Queremos lhe oferecer um emprego, Iorek Byrnison.
— Já tenho emprego.
O urso ficou de quatro novamente. Sua voz era tão grossa e sem entonação que era difícil detectar nela alguma expressão, fosse de ironia ou de raiva.
— O que você faz no entreposto de trenós? — Farder Coram quis saber.
— Conserto máquinas e artigos de ferro. Levanto coisas pesadas.
— Que tipo de trabalho é esse para um panserbjorne?
— Trabalho pago.
Atrás do urso, uma fresta foi aberta, e um homem colocou no chão um grande jarro de barro antes de erguer os olhos para eles.
— Quem está aí?
— São desconhecidos — disse o urso.
Parecia que o dono do bar ia perguntar mais alguma coisa, mas o urso se lançou na direção dele, e o homem, assustado, fechou a porta. O urso passou uma garra pelo cabo do jarro e bebeu. Lyra sentiu o cheiro forte de álcool.
Depois de beber vários goles, o urso largou o jarro e voltou a morder a carne, aparentemente esquecido de Farder Coram e Lyra; mas de repente ele tornou a falar.
— Que trabalho vocês estão oferecendo?
— Combate, com certeza — disse Farder Coram. — Estamos viajando para o Norte até encontrarmos o lugar para onde levaram algumas crianças roubadas. Quando encontrarmos o lugar, vamos ter que lutar para libertar as crianças; e então vamos trazer todas de volta.
— E como vão pagar?
— Não sei o que lhe oferecer, Iorek Byrnison. Se quiser ouro, nós temos.
— Não serve.
— O que lhe pagam no entreposto de trenós?
— Comida e bebida.
O urso ficou calado; deixou cair o osso esfrangalhado e tornou a levar o jarro à boca, engolindo a forte bebida como se fosse água. Farder Coram falou então:
— Desculpe perguntar, Iorek Byrnison, mas você podia viver com orgulho e liberdade no gelo, caçando focas e leões-marinhos, ou podia ir para a guerra e ganhar muitos prêmios; o que prende você a Trollesund e ao Bar de Einarsson?
Lyra sentiu o corpo inteiro se arrepiar. Achava que uma pergunta como aquela, sendo quase um insulto, iria enraivecer a enorme criatura, e ficou impressionada com a coragem de Farder Coram em perguntar. Iorek Byrnison largou o jarro e chegou perto do portão para estudar o rosto do ancião. Farder Coram não se abalou.
— Sei quem é o pessoal que vocês estão procurando, os mutiladores de crianças — disse o urso. — Saíram da cidade anteontem, indo para o Norte com mais crianças. Ninguém vai lhes falar sobre eles; fingem não ver, porque os mutiladores de crianças trazem dinheiro e negócios para a cidade. Eu não gosto deles, então vou responder com educação. Fico aqui e bebo porque os homens daqui tiraram a minha armadura, e sem ela eu posso matar focas, mas não posso ir para a guerra. Eu sou um urso de armadura: a guerra é o mar onde eu nado e o ar que eu respiro. Os homens desta cidade me deram bebida, me fizeram beber até dormir, e então tiraram a minha armadura. Se eu soubesse onde ela está, iria derrubar a cidade até pegar de volta. Se querem o meu serviço, o preço é este: devolver minha armadura. Se fizerem isto, eu vou ajudar na sua luta até morrer ou até vocês vencerem. O preço é a minha armadura; quando eu tiver de volta a minha armadura, nunca mais vou precisar da bebida.

3 comentários:

  1. Hã... Ursos. Ok. Mas mesmo assim, é um suspense incrível.

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  2. Alguém traz essa armadura pra esse urso.
    Ah, e ele me lembra muito um personagem... só não sei quem

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  3. Luamara gípcia dimon raposa Inu9 de março de 2017 19:32

    Vesper 1,Flagelo,

    gente poderosa oferecendo um acordo por ajuda........tomara que esse urso seja mais....confiável.

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Boa leitura :)