11 de fevereiro de 2017

1. A gata e os carpinos

Will puxou a mãe pela mão, dizendo:
— Vamos, vamos...
Mas a mãe relutava, ainda estava com medo.
À luz do entardecer, Will perscrutou os dois lados da ruela estreita — um quarteirão pequeno, cada casa atrás de seu jardinzinho minúsculo e sua cerca-viva, com o sol a refletir-se nas janelas de um lado, deixando o outro lado na sombra. Não tinham muito tempo; a essa hora, as pessoas certamente estariam à mesa, mas logo haveria outras crianças por ali, para prestar atenção, perceber, comentar. Era perigoso esperar mas, como sempre, a única coisa que ele podia fazer era tentar convencê-la.
— Mãe, vamos entrar e ver a Sra. Cooper — disse ele. — Olhe, é logo ali.
— A Sra. Cooper? — ela repetiu, em tom de dúvida.
Mas ele já estava tocando a sineta. Para isso teve que deixar a mala no chão, pois a outra mão ainda segurava a da mãe. Com 12 anos de idade, ele poderia até ficar envergonhado de ser visto segurando a mão da mamãe, mas sabia o que aconteceria se não fizesse isso.
A porta abriu-se e surgiu a figura idosa e encurvada da professora de piano, exalando cheiro de lavanda, como ele se lembrava.
— Quem é? É William? — perguntou a anciã. — Não vejo você há mais de um ano. Que é que você quer, meu filho?
— Quero entrar, por favor. Eu e a minha mãe — ele disse em tom firme. A Sra. Cooper olhou para a mulher de cabelos despenteados e um meio-sorriso aturdido, e para o menino com um brilho forte e infeliz nos olhos, lábios contraídos, queixo saliente. E percebeu então que a Sra. Parry, a mãe de Will, distraidamente colocara maquilagem num dos olhos, mas não no outro. E Will não tinha visto isso? Alguma coisa estava errada.
— Bem... — fez ela, pondo-se de lado para dar-lhes passagem no corredor estreito.
William olhou para os dois lados da rua antes de fechar a porta; a Sra. Cooper percebeu a força com que a Sra. Parry agarrava-se à mão do filho, e o carinho com que ele a levou para dentro da sala de estar onde ficava o piano (naturalmente, era o único aposento que ele conhecia) e ela percebeu também que as roupas da Sra. Parry tinham um leve odor de mofo, como se tivessem ficado tempo demais na máquina de lavar antes de serem postas a secar; e que os dois se pareciam muito, sentados no sofá, o sol vespertino caindo em cheio no rosto deles: as maçãs salientes, os olhos largos, as sobrancelhas retas e negras.
— Que foi, William? — perguntou a anciã. — Qual é o problema?
— Mamãe precisa de um lugar para ficar alguns dias — ele explicou. — No momento está muito difícil cuidar dela em casa. Não que ela esteja doente, está só meio confusa, e fica um pouco preocupada. Não é difícil tomar conta dela. Ela só precisa de alguém que a trate com carinho, e acho que a senhora poderia fazer isso facilmente, com certeza.
A mulher olhava para o filho parecendo não entender, e a Sra. Cooper viu um arranhão no rosto dela. Will não tirara os olhos da Sra. Cooper, e sua expressão era de desespero.
— Ela não vai lhe dar despesa — ele prosseguiu. — Eu trouxe alguns pacotes de comida, acho que será suficiente. É para a senhora, também. Ela não vai se importar em dividir.
— Mas... Não sei se devo... Ela não precisa de um médico?
— Não! Ela não está doente.
— Mas deve haver alguém que possa... Quer dizer, não há um vizinho, ou alguém da família...
— Nós não temos família. Somos só nós dois. E os vizinhos são ocupados demais.
— E o serviço social? Não estou querendo enxotar você, filho, mas...
— Não, não. Ela só precisa de um pouco de cuidado. Não vou mais poder fazer isso, mas só por pouco tempo, não vou demorar. Tenho que... Tenho algumas coisas a fazer. Mas logo estarei de volta, e vou levar mamãe de novo para casa, prometo. A senhora não vai precisar cuidar dela por muito tempo.
A mãe olhava para o filho com tanta confiança, e ele voltou-se e sorriu para ela com tanto amor, transmitindo-lhe tanta segurança, que a Sra. Cooper não conseguiu negar.
— Bem, com certeza não será ruim, por um dia ou dois. — Voltou-se para a Sra. Parry: — Minha cara, pode ficar no quarto da minha filha, ela está na Austrália e não vai precisar dele.
— Obrigado — disse Will, pondo-se de pé como se estivesse com pressa de partir.
— Mas onde você estará? — perguntou a Sra. Cooper.
— Vou ficar com um amigo — ele disse. — Vou telefonar sempre que puder. Tenho o seu número. Vai dar tudo certo.
A mãe olhava para ele, confusa, Will inclinou-se para ela e beijou-a desajeitadamente.
— Não se preocupe — disse. — A Sra. Cooper vai cuidar da senhora melhor que eu, acredite. E amanhã eu telefono e falo com a senhora.
Os dois se abraçaram com força, e então Will beijou-a novamente e com ternura retirou os braços dela de seu pescoço, antes de se encaminhar para a porta da rua. A Sra. Cooper notava que ele estava perturbado, pois tinha os olhos brilhantes, mas ele virou-se, lembrando-se das boas maneiras, e estendeu a mão.
— Adeus, e muito obrigado — disse.
— William, eu queria que você me contasse qual é o problema... — ela pediu.
— É um pouco complicado, mas ela não vai dar trabalho, eu prometo.
Não fora isso que ela perguntara, e ambos sabiam, mas, de um modo ou de outro, Will estava cuidando dos seus assuntos, fossem eles quais fossem. A anciã nunca tinha visto uma criança tão determinada. Ele virou-se, já pensando na casa vazia.


O beco onde Will e a mãe moravam era uma curva de estrada num loteamento moderno, com uma dúzia de casas idênticas, das quais a deles era, de longe, a mais modesta.
O jardim da frente era apenas um gramado cheio de ervas; no início do ano, a mãe tinha plantado algumas flores, mas elas secaram e morreram por falta de água. Quando Will dobrou a esquina, a gata Moxie saiu de seu local favorito, sob a única hortênsia que ainda vivia, e espreguiçou-se antes de cumprimentá-lo com um miado baixo e esfregar a cabeça contra a perna dele. Ele pegou-a no colo e cochichou:
— Eles voltaram, Moxie? Você viu algum deles?
A casa estava silenciosa. Aproveitando os resquícios de luz do dia, o morador da casa em frente estava lavando o carro, mas não prestou atenção em Will, e o garoto não olhou para ele. Quanto menos as pessoas o percebessem, melhor.
Segurando Moxie junto ao peito, Will destrancou a porta e entrou rapidamente. Então ficou escutando com atenção, antes de soltar o animal. Não havia ruído algum, a casa estava vazia.
Abriu uma lata de comida para a gata e deixou-a comendo na cozinha. Quanto tempo até o homem voltar? Will não sabia, de modo que era melhor agir depressa. Subiu a escada e começou a busca.
Estava procurando um escrínio de couro verde, puído pelo tempo. Havia uma quantidade surpreendente de locais para esconder uma coisa daquele tamanho, mesmo numa casa moderna comum — não é preciso haver painéis secretos e porões enormes para dificultar a busca de alguma coisa. Will procurou primeiro no quarto da mãe, constrangido ao revistar as gavetas onde ela guardava as roupas íntimas, e depois vasculhou sistematicamente o resto dos quartos no andar de cima, inclusive o seu próprio. Moxie veio ver o que ele estava fazendo, sentou-se a um canto e pôs-se a lamber-se, fazendo-lhe companhia.
Mas ele não teve sucesso.
Quando escureceu, Will sentiu fome. Preparou uma porção de ervilhas com torradas e sentou-se à mesa da cozinha, estudando a melhor ordem para revistar os aposentos do andar térreo.
Estava terminando de comer quando o telefone tocou.
Ele ficou imóvel, o coração disparado. Contou: 26 toques até parar. Colocou o prato na pia e recomeçou a busca.


Quatro horas depois, ainda não tinha encontrado o escrínio de couro verde. Era uma e meia da manhã, e ele estava exausto. Deixou-se cair na cama vestido e adormeceu de imediato, teve sonhos tumultuados e cheios de gente, o rosto infeliz e assustado da mãe sempre presente, mas fora do seu alcance.
E quase no mesmo instante, ao que parecia (embora tivesse dormido quase três horas), ele despertou tomando consciência de duas coisas ao mesmo tempo.
A primeira: sabia onde o escrínio estava escondido. A segunda: sabia que os homens estavam lá embaixo, abrindo a porta da cozinha. Ergueu Moxie para fora do seu caminho e com delicadeza silenciou seu protesto sonolento. Depois sentou-se na cama e calçou os sapatos, forçando cada nervo para ouvir os ruídos do térreo — ruídos bastante abafados: uma cadeira erguida e recolocada no chão, um cochicho breve, o ranger de uma tábua do assoalho.
Movendo-se com menos ruído do que eles, o menino saiu do quarto e foi pé ante pé até o quarto de guardados no alto da escada. A escuridão não era total e, à luz cinzenta e fantasmagórica de antes do amanhecer, ele avistou a velha máquina de costura de pedal. Tinha revistado o quarto algumas horas antes, mas esquecera-se do compartimento na lateral da máquina, onde ficavam guardadas agulhas e carretilhas.
Tateou cuidadosamente, sem deixar de escutar. Os homens moviam-se no andar térreo, e Will via, pela fresta da porta, uma luz fraca que poderia ser uma lanterna.
Então encontrou o fecho do compartimento e abriu-o com um estalido; lá dentro, como ele sabia, estava o escrínio de couro.
E agora, que poderia fazer?
No momento, nada. Agachou-se na penumbra, o coração disparado, escutando atentamente.
Os dois homens estavam no corredor de entrada. Ele ouviu um deles dizer baixinho:
— Vamos, estou ouvindo o leiteiro entrar na outra rua.
— Mas o negócio não está aqui, vamos ter que procurar lá em cima — disse a outra voz.
— Então vá logo. Não perca tempo.
Will retesou-se ao ouvir o estalido baixo do degrau superior. O homem procurava não fazer ruído, mas não pôde evitar o estalido porque não sabia dele. Então houve uma pausa. Will viu por baixo da porta o facho muito estreito da lanterna varrer o chão do lado de fora.
Então a porta começou a mover-se. Will esperou até o homem estar emoldurado pela porta aberta, e então saltou da escuridão e jogou-se contra o estômago do intruso.
Mas nenhum dos dois viu a gata.
Quando o homem chegara ao último degrau, Moxie saíra silenciosamente do quarto e ficara parada, com a cauda erguida, logo atrás das pernas dele, pronta para esfregar-se nelas.
O homem poderia ter dado cabo de Will, pois era grande, forte e treinado, mas a gata estava no seu caminho e ele tropeçou no animal quando tentou retroceder e com um grito abafado caiu de costas escada abaixo, batendo a cabeça brutalmente contra a mesa do saguão.
Will escutou um estalo horrível mas não parou para pensar nisso: desceu a escada num salto, passando por cima do corpo que se contorcia, agarrou a sacola de compras que estava sobre a mesa e saiu pela porta da frente, fugindo antes que o outro homem pudesse fazer algo mais do que surgir à porta da sala de estar.
Mesmo com medo e pressa, Will ficou pensando por que o outro homem não gritara ou saíra atrás dele. Mas logo estariam à sua procura com seus carros e seus telefones celulares. A única coisa a fazer era correr. Viu o leiteiro entrar no beco, os faróis de seu carro elétrico pálidos ao brilho da aurora que já enchia o céu. Will pulou o muro para o jardim vizinho, desceu o corredor ao lado da casa, pulou o muro oposto, cruzou um gramado molhado de orvalho, atravessou a cerca-viva e entrou no emaranhado de árvores e moitas que ficava entre o loteamento e a rua principal; lá, rastejou para debaixo de uma touceira e ficou deitado, ofegante e trêmulo. Era cedo demais para ir para a rua: melhor esperar até mais tarde, quando começasse o movimento matinal.
Não conseguia tirar do pensamento o estalo produzido pela cabeça do homem batendo na mesa, e o modo como o pescoço dele estava torcido, tão estranho, e os horrendos espasmos das pernas. O homem estava morto. Ele o tinha matado.
Não conseguia tirar isso da cabeça, mas precisava. Havia muita coisa em que pensar. Sua mãe: ela estaria realmente segura onde estava? A Sra. Cooper não iria contar, iria? Mesmo se Will não voltasse como tinha prometido? Porque poderia não voltar, agora que tinha matado alguém. E Moxie. Quem daria comida a ela? Moxie ficaria preocupada com ele e a mãe? Tentaria ir atrás dele?
Estava ficando mais claro a cada minuto. Já havia luz suficiente para ele verificar as coisas na sacola de compras: a bolsa da mãe, a última carta do advogado, o mapa do Sul da Inglaterra, barras de chocolate, pasta de dente, meias e calças.
E o escrínio de couro verde.
Estava tudo ali. Na realidade, estava tudo saindo conforme planejado. A não ser uma coisa: ele tinha matado uma pessoa.


Will tinha sete anos de idade quando percebeu que sua mãe era diferente e que ele tinha que tomar conta dela. Estavam num supermercado, e faziam uma brincadeira: só podiam colocar alguma coisa no carrinho quando ninguém estivesse olhando. A função de Will era olhar em volta e cochichar “Agora!”, e ela então pegava depressa uma lata ou um pacote na prateleira e colocava no carro. Com a mercadoria dentro do carrinho, eles estavam seguros, porque ficavam invisíveis.
Era uma boa brincadeira, e durou um bom tempo, pois era uma manhã de sábado e o mercado estava cheio, mas eles eram bons nisso e juntos trabalhavam bem. Confiavam um no outro. Will amava muito a mãe e sempre lhe dizia isso, e ela dizia a mesma coisa a ele.
De modo que quando chegaram à caixa registradora Will estava excitado e feliz porque quase tinham vencido. E quando a mãe não conseguiu encontrar a bolsa, isso também fazia parte da brincadeira, mesmo quando ela disse que os inimigos a tinham roubado, mas a essa altura Will estava ficando cansado, e faminto também, e a mãe já não estava tão feliz — ela estava realmente assustada, e os dois ficaram dando voltas no mercado, recolocando todas as mercadorias nas prateleiras, mas dessa vez tiveram que ter ainda mais cuidado, porque os inimigos estavam no rastro dela através dos números do cartão de crédito, que eles conheciam, pois estavam com a bolsa dela... E Will ficava cada vez mais amedrontado. Percebia a esperteza da mãe ao fazer do perigo real uma brincadeira, para que ele não ficasse assustado, e via também que, agora que sabia a verdade, precisava fingir não estar com medo, para que ela ficasse tranquila.
De modo que o menininho fingiu que ainda era uma brincadeira, para que ela não tivesse que se preocupar com o medo dele, e os dois foram para casa sem as compras, mas a salvo dos inimigos; e então Will encontrou a bolsa na mesa do corredor de entrada. Na segunda-feira foram ao banco e fecharam a conta dela, e abriram uma nova em outro lugar, só para terem certeza. E assim o perigo passou.
Mas ao longo dos meses seguintes Will percebeu, lentamente e a contragosto, que aqueles inimigos de sua mãe não estavam no mundo lá fora, mas dentro da mente dela. Isso não os tornava menos reais, nem menos assustadores ou perigosos, significava apenas que ele teria que protegê-la ainda mais.
E desde o instante, no supermercado, em que ele percebeu que devia fingir para não preocupá-la, parte da sua mente estava sempre alerta à ansiedade dela. Will amava tanto a mãe, que morreria para protegê-la. Quanto ao seu pai, ele desaparecera muito antes de Will ter capacidade para lembrar-se dele. Will tinha a respeito do pai uma curiosidade apaixonada, e costumava encher a mãe de perguntas que na maioria ela não sabia responder.
— Ele era rico?
— Para onde ele foi?
— Por que ele foi?
— Ele está morto?
— Ele vai voltar?
— Como ele era?
Essa última era a única pergunta a que ela sabia responder. John Parry tinha sido um homem bonito, um oficial da Marinha Real corajoso e inteligente, que deixou a carreira militar para tornar-se explorador e guiar expedições a regiões remotas do mundo. Will adorou saber disso: nenhum pai poderia ser mais empolgante do que um explorador. Daí em diante, em todas as suas brincadeiras ele tinha um companheiro invisível: ele e o pai estavam juntos abrindo uma picada na mata, ou no convés de sua escuna protegendo os olhos com a mão para observar o mar revolto, ou erguendo uma lanterna para decifrar inscrições misteriosas numa caverna infestada de morcegos... Eram os melhores amigos, salvaram a vida um do outro inúmeras vezes, riam e conversavam junto à fogueira até tarde da noite.
Mas ao ficar mais velho Will começou a questionar. Por que não havia retratos de seu pai nessa ou naquela parte do mundo, com homens de barba de gelo em trenós no Ártico ou estudando ruínas cobertas pelo mato na selva? Nada sobrevivera dos troféus e das curiosidades que ele certamente tinha trazido para casa? Não havia um só livro que falasse dele?
A mãe não sabia. Mas uma coisa que ela costumava dizer ficou guardada para sempre na mente dele:
— Um dia você vai seguir os passos do seu pai. Você também vai ser um grande homem. Vai levar o manto dele.
E embora Will não soubesse o que isso significava, entendia o sentido, e sentia-se cheio de orgulho e propósito: todas as suas brincadeiras iam se tornar realidade.
O pai estava vivo, perdido em algum lugar, e ele ia salvá-lo e levar o manto dele...
Valia a pena viver uma vida difícil, quando se tinha um propósito grandioso como esse.
De modo que ele guardou em segredo o problema da mãe.
Havia ocasiões em que ela ficava mais calma e mais lúcida, e ele tratava de aprender com ela como fazer compras, cozinhar e manter a casa limpa, para poder fazer essas coisas nos períodos em que ela estava confusa e assustada. E aprendeu também a esconder-se, passar despercebido na escola; não atrair a atenção dos vizinhos, mesmo quando a mãe se encontrava num tal estado de medo e loucura que mal conseguia falar. O que o próprio Will temia mais do que tudo era que as autoridades descobrissem sobre ela e a levassem embora, e o colocassem num lar adotivo entre pessoas desconhecidas. Qualquer dificuldade era melhor que isso.
Porque havia ocasiões em que as trevas abandonavam a mente da Sra. Parry e ela ficava outra vez feliz, ria dos próprios temores e o abençoava por cuidar dela tão bem e era tão cheia de amor e carinho que ele não podia imaginar uma companhia melhor, e nada mais desejava senão viver só com ela para sempre.
Mas então apareceram aqueles homens.
Não eram da polícia, não eram do serviço social e não eram criminosos — pelo menos pelo que Will podia julgar.
Não lhe disseram o que queriam, apesar dos esforços dele para afastá-los, só falariam com a mãe dele. E nessa ocasião o estado dela era de fragilidade.
Mas o garoto escutou atrás da porta e ouviu-os perguntar pelo pai dele, e sentiu a respiração acelerar-se.
Os homens queriam saber aonde John Parry tinha ido, e se tinha mandado alguma coisa para ela, e quando ela tivera notícias dele pela última vez, e se ele fizera algum contato com qualquer embaixada estrangeira. Will percebeu que a mãe ficava cada vez mais perturbada, e finalmente ele irrompeu na sala e mandou-os embora.
Will parecia tão feroz que nenhum dos dois homens riu, embora ele fosse tão jovem. Podiam simplesmente tê-lo derrubado, ou prendido seu corpo no chão com uma das mãos, mas ele era destemido e sua raiva era ardente e mortal.
Eles foram embora. Naturalmente esse episódio fortaleceu a convicção de Will: seu pai estava com problemas, e só ele poderia ajudar. Suas brincadeiras já não eram infantis, e ele não brincava tão às claras. A fantasia estava virando realidade, e ele teria que se mostrar à altura. Não muito depois, os homens voltaram, insistindo que a mãe de Will tinha algo a revelar. Vieram quando Will estava na escola, e um deles ficou conversando com ela no andar térreo enquanto o outro revistava os quartos de dormir. Ela não percebeu o que estavam fazendo. Mas Will voltou para casa mais cedo e os encontrou lá, e mais uma vez brigou com eles, e mais uma vez eles partiram.
Pareciam saber que ele não procuraria a polícia, por medo de perder a mãe para as autoridades, e ficaram cada vez mais insistentes. Finalmente arrombaram a porta e entraram na casa quando Will tinha saído para buscar a mãe no parque: ela estava pior agora, e acreditava que tinha que tocar em cada tábua de cada banco junto ao laguinho. Will resolveu ajudá-la, para acabar logo com aquilo. Quando chegavam perto de casa, avistaram a traseira do carro dos homens saindo do beco, e ao entrar ele viu que tinham revistado a casa toda, remexendo na maioria das gavetas e dos armários. Sabia o que eles estavam procurando. O escrínio de couro verde era o objeto mais precioso que sua mãe possuía e ele jamais sonharia em abri-lo, nem sequer sabia onde ela o guardava, mas sabia que ele continha cartas, e sabia que ela as lia às vezes, e chorava, e era então que ela falava sobre o pai dele. De modo que Will imaginava que era isso que os homens procuravam, e concluiu que tinha que fazer alguma coisa.
Decidiu que primeiro encontraria um lugar seguro para a mãe ficar. Pensou e tornou a pensar, mas não tinha amigos a quem pedir, e os vizinhos já suspeitavam; a única pessoa que ele achava digna de confiança era a Sra. Cooper. Uma vez que a mãe estivesse em segurança lá, ele iria encontrar o escrínio de couro verde, ver o que ele continha, e depois iria para Oxford, onde encontraria resposta para algumas das suas perguntas.
Mas os homens voltaram cedo demais.
E agora ele tinha matado um deles.
De modo que a polícia também estaria atrás dele.
Ora, Will sabia como passar despercebido. Teria que passar mais despercebido do que jamais passara em toda a sua vida, e continuar assim pelo tempo que fosse possível, até encontrar o pai ou até que eles o encontrassem. E se o encontrassem antes, ele não se importaria em matar quantos fosse necessário.


No final desse mesmo dia, já perto da meia-noite, Will estava saindo a pé da cidade de Oxford, a 65 quilômetros de distância da sua casa. Estava exausto, tinha viajado de carona, de ônibus (dois) e a pé, e eram seis da tarde quando chegara a Oxford, tarde demais para fazer o que ele precisava fazer, então comeu no Burger King e foi refugiar-se num cinema (embora não tivesse conseguido prestar a menor atenção ao filme), e agora estava caminhando por uma rua infindável, atravessando os subúrbios na direção norte. Até então ninguém o tinha notado. Mas ele sabia que era melhor encontrar logo um lugar para dormir, pois quanto mais tarde ficasse, mais conspícuo ele se tornaria. O problema era que não havia onde se esconder nos jardins das casas confortáveis ao longo dessa rua, e ainda não havia sinal do campo aberto.
Chegou a um trevo largo, um grande entroncamento onde a rua que ele percorria rumo ao norte cruzava com a via de acesso a Oxford, esta na direção leste-oeste. A essa hora da noite havia pouco tráfego, e a rua onde ele se encontrava era tranquila, com casas confortáveis, cercadas de arbustos e separadas da calçada, nos dois lados da rua, por um extenso gramado. Plantadas ao longo do gramado, quase na beira da calçada, havia duas fileiras de carpinos, árvores de aparência estranha, de copas muito densas e perfeitamente simétricas, mais parecidas com desenhos infantis do que com árvores de verdade, a luz dos postes da rua dava-lhes uma aparência artificial, como um cenário montado. Will estava entorpecido de cansaço, e poderia ter seguido para o norte ou se deitado no gramado para dormir sob uma daquelas árvores, mas enquanto estava parado, tentando clarear a mente, ele viu um gato.
Era uma fêmea, como Moxie, surgiu de um jardim na calçada onde Will estava. Will colocou a sacola no chão e estendeu a mão, e a gata aproximou-se e esfregou a cabeça nos dedos dele, exatamente como Moxie fazia. Naturalmente todos os gatos faziam isso, mas mesmo assim Will sentiu uma vontade tão grande de voltar para casa que seus olhos encheram-se de lágrimas.
Finalmente a gata deu-lhe as costas, era noite, e havia um território para patrulhar, ratos para caçar. Ela atravessou a rua e o gramado até chegar aos carpinos, e ali estacou.
Will, ainda a observá-la, viu que o animal se comportava de maneira curiosa. A gata estendeu uma pata para tatear alguma coisa no ar à sua frente, algo invisível para Will. Depois saltou para trás, as costas arqueadas e os pelos eriçados, a cauda rígida no ar.
Will conhecia o comportamento felino, observou com mais atenção enquanto a gata tornava a se aproximar do local — um trecho de gramado entre as árvores e os arbustos de uma cerca de jardim — e mais uma vez tateou no ar.
Novamente saltou para trás, mas dessa vez com muito menos sobressalto. Depois de mais alguns segundos farejando, tateando e fremindo os bigodes, a curiosidade venceu o medo.
A gata avançou alguns passos e desapareceu.
Will pestanejou. Então ficou imóvel, grudado ao tronco da árvore mais próxima, enquanto um caminhão virava a esquina e seus faróis deslizavam sobre ele.
Depois que o caminhão passou, ele atravessou a rua, olhos postos no local onde a gata estivera. Não era fácil, pois nada havia para marcar o lugar, mas quando chegou lá e olhou em volta com atenção ele viu. Pelo menos de alguns ângulos.
Era como se alguém tivesse cortado um pedaço do ar a uns dois metros da calçada, um pedaço que formava um quadrado grosseiro com menos de um metro de lado. Para quem estivesse vendo pelo lado, ele ficava quase invisível, e por trás era totalmente invisível, só podia ser visto pelo lado mais perto da calçada, e mesmo assim com dificuldade, pois tudo que se podia ver através dele era exatamente o mesmo tipo de coisa que havia na frente dele deste lado: um trecho de gramado iluminado por um poste de rua.
Mas Will sabia, sem sombra de dúvida, que aquele gramado do outro lado ficava em outro mundo.
Não sabia por que, mas sabia, como sabia que o fogo queimava e que a bondade era boa: estava olhando para alguma coisa inteiramente alienígena. E apenas por esse motivo ele se inclinou e olhou mais para dentro. O que viu fez sua cabeça girar e o coração bater com mais força, mas ele não hesitou: jogou para dentro a sacola e passou ele mesmo através do buraco no tecido deste mundo, para dentro de outro mundo.
Encontrou-se sob uma fileira de árvores. Mas não eram carpinos: eram palmeiras altas, que, como as árvores em Oxford, cresciam numa fileira ao longo do gramado. Mas a rua ali era uma avenida larga, tendo num dos lados uma fileira de cafés e lojinhas, portas abertas, tudo muito iluminado, e tudo inteiramente silencioso e deserto sob um céu pesado de estrelas. A noite quente trazia o perfume de flores e o cheiro salgado do mar. Will olhou em volta cuidadosamente. Atrás dele a lua cheia brilhava sobre uma paisagem distante de grandes montes verdes, e nas encostas dos morros havia casas com ricos jardins e um parque aberto, com pequenos bosques e o brilho alvo de um templo clássico.
Logo atrás dele ficava o recorte no ar, tão difícil de distinguir deste lado quanto do outro, mas definitivamente real. Ele se inclinou para olhar através dele e viu a rua em Oxford, no seu próprio mundo. Virou-se com um estremecimento: fosse o que fosse esse outro mundo, tinha que ser melhor do que aquele que ele acabava de deixar. Com um início de vertigem, uma sensação de estar sonhando e estar acordado ao mesmo tempo, ele se endireitou e olhou em volta à procura da gata, a sua guia. Ela não estava à vista. Sem dúvida já estava explorando aquelas ruelas e os jardins atrás dos cafés de luzes tão convidativas. Will pegou sua velha sacola de compras e atravessou lentamente a rua naquela direção, movendo-se com cuidado para o caso de tudo desaparecer.
O ar daquele lugar tinha algo de mediterrâneo, ou talvez de caribenho. Will nunca estivera fora da Inglaterra, de modo que não podia compará-lo com qualquer coisa que conhecesse, mas era o tipo de lugar para onde as pessoas iam tarde da noite para comer e beber, dançar e ouvir música. No entanto, ali não havia vivalma, e o silêncio era imenso.
Na primeira esquina havia um café com mesinhas verdes na calçada, um balcão com tampo de zinco e uma máquina de café expresso. Havia copos cheios pela metade, em algumas das mesas; numa delas, um cigarro queimara até o filtro, um prato de risoto estava ao lado de uma cestinha de pães velhos, duros como papelão.
Ele pegou uma garrafa de refrigerante na geladeira atrás do bar e pensou por um instante antes de deixar uma moeda de uma libra na caixa registradora. Assim que a fechou, tornou a abri-la, imaginando que o dinheiro ali guardado pudesse mostrar-lhe que lugar era aquele. O dinheiro se chamava corona, mas além disso ele nada mais conseguiu descobrir. Guardou de volta o dinheiro e abriu a garrafa com o abridor preso ao balcão antes de sair do café e descer a rua que se afastava da avenida. Pequenas quitandas e padarias ficavam entre joalherias e floristas, e portas com cortinas de contas levavam a casas particulares onde sacadas de ferro trabalhado, cobertas de flores, abriam-se acima da calçada estreita, e onde o silêncio enclausurado parecia ainda mais profundo.
As ruas eram em declive, e logo terminavam numa avenida larga, onde outras palmeiras erguiam-se no ar, aparte inferior das folhas brilhando à luz dos postes. Do outro lado da avenida estava o mar.
Will encontrou-se diante de um porto fechado à esquerda por um molhe de pedra e à direita por um promontório onde, entre árvores e arbustos em flor, um prédio grande, com colunas de pedra, larga escadaria e balcões ornamentados, estava iluminado por holofotes. No porto, um ou dois botes a remo estavam ancorados, e para além do molhe o brilho das estrelas refletia-se no mar parado.
A essa altura o cansaço de Will desaparecera: ele estava inteiramente acordado e possuído pelo pasmo. De vez em quando, enquanto caminhava pelas ruas estreitas, ele estendia a mão para tocar numa parede, numa porta, nas flores de uma jardineira sob uma janela, e tudo era sólido e convincente, agora ele queria tocar em toda a paisagem à sua frente, porque ela era ampla demais para ser apreendida somente através dos olhos. Ficou ali parado, respirando profundamente, quase que com medo.
Constatou que ainda estava segurando a garrafa trazida do café, e provou o líquido, que tinha sabor daquilo que realmente era: soda limonada gelada — e muito bem-vinda, porque a noite estava quente. Virou para a direita e seguiu pela avenida à beira-mar, passando por hotéis com toldos acima das entradas brilhantemente iluminadas, ladeadas de buganvílias floridas. O prédio entre as árvores, com sua fachada enfeitada, iluminada por holofotes, poderia ser um cassino, ou até mesmo um teatro lírico. No jardim que o circundava, por entre as espirradeiras floridas de cujos ramos pendiam lâmpadas, havia alamedas que levavam a várias direções. Mas nem um som de vida se ouvia: nenhum pássaro noturno, nenhum inseto, nada além do ruído dos passos do próprio Will. O único som que ele ouvia, abafado e regular, vinha das marolas que quebravam mansamente na praia, além das palmeiras que orlavam o jardim.
Will encaminhou-se para lá. A maré estava a meio, e alguns pedalinhos tinham sido puxados para acima do alcance da água e formavam uma fileira na areia branca e macia. A cada poucos segundos, uma onda minúscula dobrava-se na areia antes de deslizar de volta, harmoniosamente, sob a ondulação seguinte. A uns 50 metros mar adentro, uma plataforma de mergulho flutuava na água calma. Will sentou-se na lateral de um dos pedalinhos e arrancou os sapatos — seus tênis baratos, que já estavam se desmanchando e apertavam seus pés em brasa. Deixou as meias junto aos sapatos e enfiou os dedos dos pés na areia. Segundos depois, tinha arrancado o resto das roupas e entrava no mar.
A água estava deliciosa, entre fresca e morna. Ele nadou até a plataforma de mergulho, alçou-se para sentar-se nas tábuas alisadas pelo tempo e voltou o olhar para a cidade.
A sua direita, o porto limitado pelo seu molhe. Atrás dele, distante cerca de dois quilômetros, ficava um farol listrado de vermelho e branco. Atrás do farol viam-se vagamente penedos distantes, e mais além deles, aquelas grandiosas montanhas que ele avistara assim que atravessou o buraco no ar. Mais próximas ficavam as árvores luminosas dos jardins do cassino, as ruas da cidade, e a avenida ao longo da praia, com seus hotéis, cafés e lojas acolhedoramente iluminados — tudo silencioso, tudo deserto. E tudo seguro. Ninguém poderia segui-lo até ali; o homem que revistara a casa jamais saberia; a polícia nunca o encontraria. Ele tinha um mundo inteiro onde se esconder.
Pela primeira vez desde que saíra correndo pela porta de sua casa, naquela manhã, Will começou a se sentir a salvo.
Estava novamente com sede, e com fome também, pois, afinal de contas, alimentara-se pela última vez em outro mundo.
Deslizou de volta para a água e nadou devagar para a praia, onde vestiu a cueca e recolheu o resto das roupas e a sacola de compras. Deixou cair a garrafa vazia na primeira lixeira que encontrou e saiu caminhando descalço pela avenida na direção do porto.
Quando seu corpo secou um pouco ele vestiu o jeans e procurou um lugar onde arranjar comida. Os hotéis eram chiques demais; Will olhou para dentro do primeiro que apareceu, mas era tudo tão grandioso que ele se sentiu desconfortável, portanto continuou ao longo da praia até encontrar um pequeno café que parecia ser o lugar certo. Não saberia dizer por quê; era um lugar muito parecido com uma dúzia de outros, mesas e cadeiras na calçada ao ar livre e uma sacada no primeiro andar carregada de flores, mas lhe pareceu acolhedor.
Havia um balcão de bar com fotografias de lutadores de boxe na parede e um pôster autografado de um homem de sorriso largo tocando acordeom. Havia uma cozinha, e ao lado dela uma porta que se abria para uma escada estreita atapetada por um estampado floral de cores vivas. Ele subiu sem ruído até o pequeno patamar do segundo andar e abriu a primeira porta que encontrou. Era uma sala de visitas; lá dentro estava quente e abafado, e Will abriu a porta de vidro da sacada, para deixar entrar o ar vespertino. A sala em si era acanhada, com móveis grandes demais para ela, e modesta, mas era limpa e confortável — ali moravam pessoas hospitaleiras. Havia uma pequena estante de livros, uma revista sobre a mesa, algumas fotos emolduradas.
Will saiu e olhou os outros aposentos: um banheiro pequeno, um quarto com cama de casal. Alguma coisa fez sua pele arrepiar-se antes de abrir a última porta. Seu coração disparou. Ele não tinha certeza de ter ouvido um som vindo de dentro, mas alguma coisa lhe dizia que aquele quarto não estava vazio. Pensou na estranheza desse dia, que tinha começado com alguém do lado de fora de um quarto escuro, ele esperando lá dentro, e agora as posições eram inversas.
Enquanto ele pensava nisso a porta escancarou-se de chofre e alguma coisa arremessou-se sobre ele como um animal feroz.
Mas sua memória lhe dera o aviso, e ele não estava suficientemente perto para ser derrubado. E reagiu com truculência: joelhos, cabeça, punhos e a força dos seus braços contra aquela coisa, aquele homem, aquela mulher... Uma garota mais ou menos da idade dele, feroz, a rosnar, roupas sujas e esfarrapadas, membros despidos e magros. No mesmo momento ela percebeu o que ele era, e desvencilhou-se do peito nu dele para ir agachar-se no canto do patamar escuro, como um gato encurralado. E havia mesmo um gato ao lado dela, para espanto de Will: um enorme gato selvagem cuja altura chegava aos joelhos dele, pelo eriçado, dentes à mostra, cauda ereta. Ela colocou a mão no dorso do animal e lambeu os lábios secos, vigiando cada movimento de Will.
O garoto levantou-se devagar.
— Quem é você? — perguntou.
— Lyra da Língua Mágica — disse ela.
— Você mora aqui?
— Não! — fez ela com veemência.
— Então o que é este lugar? Esta cidade?
— Não sei.
— De onde você veio?
— Do meu mundo. Eles estão grudados. Onde está o seu dimon?
Os olhos dele se arregalaram. Então ele viu uma coisa extraordinária acontecer com o gato: ele saltou para os braços dela e ali se transformou num arminho castanho com garganta e barriga creme, que olhava para ele com raiva, feroz como a própria garota. Mas então ocorreu outra mudança, porque ele percebeu que ambos, a garota e o arminho, tinham um medo profundo dele, como se ele fosse um fantasma.
— Não tenho dimon — ele respondeu. — Não sei o que isso quer dizer. Então: — Ah, esse aí é o seu dimon?
Ela se ergueu devagar. O arminho enrodilhou-se no pescoço dela, e seus olhos escuros não deixaram o rosto de Will.
— Mas você está vivo! — ela exclamou, sem acreditar. — Você não... você não foi...
— Meu nome é Will Parry — ele disse. — Não sei o que você quer dizer com essa história de dimons. No meu mundo, demônio significa... significa diabo, alguma coisa ruim.
— No seu mundo? Quer dizer que este aqui não é o seu mundo?
— Não. Acabei de descobrir uma... uma maneira de entrar aqui. Como o seu mundo, eu acho. Eles devem estar grudados.
Ela relaxou um pouco, mas continuava a vigiá-lo atentamente, e ele permaneceu calmo e quieto, como se ela fosse um gato desconhecido com quem estivesse fazendo amizade.
— Já viu mais alguém nesta cidade? — ele continuou.
— Não.
— Há quanto tempo está aqui?
— Sei lá. Alguns dias. Não consigo me lembrar.
— Então por que veio para cá?
— Estou procurando Pó — ela explicou.
— Procurando pó? Qual pó, pó de ouro? Que tipo de pó?
Ela entrecerrou os olhos e não respondeu. Ele se virou para descer a escada.
— Estou com fome — declarou. — Tem comida na cozinha?
— Sei lá... — disse ela, e seguiu-o à distância.
Na cozinha Will encontrou os ingredientes para um ensopado de frango com cebola e pimentão, mas naquele calor as coisas estavam cheirando mal. Ele jogou tudo na lata de lixo.
— Você não comeu? — perguntou, abrindo a geladeira.
Lyra veio olhar.
— Não sabia que isto estava aí — disse. — Uh, que frio!
O dimon dela tinha se transformado novamente, tornando-se uma enorme borboleta multicor que esvoaçou para dentro da geladeira por um instante e logo saiu, indo acomodar-se no ombro dela. A borboleta erguia e baixava lentamente as asas. Will sentiu que não devia ficar olhando, embora sua cabeça girasse com a estranheza daquilo.
— Nunca tinha visto uma geladeira? — quis saber.
Encontrou uma lata de refrigerante e entregou-a a ela antes de tirar uma caixa de ovos. Ela apertou a lata entre as mãos comprazer.
— Pode beber — ele disse.
Ela ficou olhando para a lata, de testa franzida, sem saber como se abria aquilo.
Ele abriu a lata para ela e o líquido espumou para fora. Ela lambeu-o com suspeita, e então arregalou os olhos.
— Isto é bom? — perguntou, a voz meio esperançosa, meio temerosa.
— É. Obviamente eles têm Coca-Cola neste mundo. Escute, vou beber um pouco para mostrar que não é veneno.
Abriu outra lata. Ao vê-lo beber, ela seguiu o exemplo. Era evidente que estava com sede: bebeu tão depressa que as bolhas subiram-lhe até o nariz. Ela espirrou e arrotou ruidosamente, e fez uma careta quando ele olhou para ela.
— Vou fazer uma omelete — ele disse. — Quer um pouco?
— Não sei o que é uma omelete.
— Bem, fique olhando e saberá. Temos também uma lata de salsichas, se preferir.
— Não sei o que é isso.
Ele lhe mostrou a lata. Ela procurou a lingueta de abrir, como a da lata de refrigerante.
— Não. É preciso usar um abridor de lata — ele explicou.
— Não existe abridor de lata no seu mundo?
— No meu mundo os criados cozinham — ela disse em tom de desprezo.
— Procure naquela gaveta ali.
Ela remexeu por entre os talheres de cozinha enquanto ele quebrava seis ovos numa tigela e batia-os com um garfo.
— É isto aí — disse, observando-a. — Com o cabo vermelho. Pode me trazer?
Ele perfurou a lata e mostrou-lhe como abri-la.
— Agora pegue aquela panelinha no gancho e despeje isto dentro dela.
Ela cheirou as salsichas e mais uma vez seus olhos assumiram uma expressão de prazer e suspeita. Virou a lata na panela e lambeu um dedo, observando Will colocar sal e pimenta nos ovos e cortar um pedaço de manteiga de um pacote na geladeira, jogando-o numa frigideira de ferro. Ele foi até o bar para procurar fósforos, e ao voltar encontrou-a enfiando o dedo sujo na tigela com os ovos batidos, para depois lambê-lo gulosamente. Seu dimon, novamente um gato, estava prestes a enfiar a pata também, mas recuou quando Will se aproximou.
— Ainda não está pronto — disse, retirando a tigela. — Quando foi que fez uma refeição pela última vez?
— Na casa do meu pai em Svalbard — ela disse. — Faz dias e mais dias e mais dias. Não sei. Encontrei pão e umas coisas aqui e comi.
Ele acendeu o gás, derreteu a manteiga, derramou os ovos e espalhou-os na frigideira. Os olhos dela acompanhavam tudo gulosamente, vendo-o puxar para o centro a parte já cozida e inclinar a frigideira para que aparte crua escorresse, preenchendo o espaço vazio. Observava Will, também: o rosto dele, as mãos ocupadas, os ombros nus e os pés descalços. Quando a omelete ficou pronta, ele dobrou-a e cortou-a em dois com a espátula.
— Procure uns pratos — ele disse.
Lyra obedeceu. Parecia disposta a aceitar ordens se as achasse sensatas, de modo que ele mandou que ela fosse preparar uma mesa na calçada em frente ao café. Ele mesmo levou a comida e talheres que achou numa gaveta, e os dois se sentaram, um pouco constrangidos. Ela comeu sua parte em menos de um minuto, e depois ficou a se mexer com impaciência, balançando a cadeira para frente e para trás e arrancando pedacinhos de plástico do assento, enquanto ele acabava de comer. O dimon transformou-se de novo, tornando-se um pintassilgo, bicando migalhas invisíveis sobre a mesa.
Will comia devagar. Dera a ela a maior parte das salsichas, mas mesmo assim demorou muito mais que ela. O porto diante deles, as luzes ao longo da avenida deserta, as estrelas no céu escuro, tudo isso estava suspenso no silêncio imenso, como se nada mais existisse. E durante todo o tempo ele esteve intensamente cônscio da garota. Ela era pequena e leve, mas rija, e tinha lutado como um tigre; o soco dele lhe causara uma equimose no rosto, que ela simplesmente ignorava. Sua expressão era uma mistura de criancice — quando provou o refrigerante — e uma desconfiança triste e profunda. Os olhos eram azuis e os cabelos seriam de um louro escuro quando fossem lavados — pois ela estava imunda e cheirava como se não se banhasse havia dias.
— Laura? Lara? — fez Will.
— Lyra.
— Lyra... da Língua Mágica?
— É.
— Onde é o seu mundo? Como você chegou aqui?
Ela deu de ombros.
— Andando. Estava tudo enevoado. Eu não sabia onde estava indo. Quer dizer, sabia que estava saindo do meu mundo. Mas não conseguia ver este aqui, até a neblina clarear. Então me encontrei aqui.
— Que foi que falou sobre pó?
— Pó, isso mesmo. Vou descobrir. Mas este mundo parece estar deserto. Não encontrei ninguém para perguntar. Já estou aqui há... sei lá, três dias, talvez quatro. E não vi ninguém aqui.
— Mas por que quer descobrir pó?
— É um Pó especial — ela disse em tom seco. — Não é pó comum, obviamente.
O dimon tornou a mudar. Fez isso num piscar de olhos, e de pintassilgo transformou-se em um rato, um enorme rato negro de olhos vermelhos. Will encarou-o com olhos arregalados e assustados, e a garota viu seu olhar.
— Você também tem um dimon — disse em tom firme. — Dentro de você.
Ele não soube o que dizer.
— Tem, sim — ela continuou. — Senão não seria humano. Você seria... um morto-vivo. Já vimos um garoto com o dimon cortado. Você não é assim. Mesmo que não saiba que tem um dimon, você tem. No princípio ficamos com medo quando vimos você. Como se fosse uma assombração ou coisa assim. Mas então vimos que você não era isso.
— Nós quem?
— Eu e Pantalaimon. Nós. O dimon de uma pessoa não é uma coisa separada dela. É ela. Uma parte dela. Um faz parte do outro. No seu mundo não existe ninguém como nós? São todos como você, com os dimons escondidos?
Will contemplou aquele par — a menina magricela, de olhos claros, e seu dimon-rato, agora acomodado em seus braços e sentiu-se profundamente solitário.
— Estou cansado. Vou para a cama — disse. — Você vai ficar nesta cidade?
— Sei lá. Tenho que saber mais sobre o que estou procurando. Deve haver alguns catedráticos neste mundo. Tem que haver alguém que saiba sobre isso.
— Talvez não neste mundo. Mas eu vim de uma cidade chamada Oxford. Lá está cheio de catedráticos, se é o que você quer.
— Oxford? — ela exclamou. — É de onde eu vim!
— Então no seu mundo também existe uma Oxford? Você não veio do meu mundo.
— Não mesmo — disse ela. — São mundos diferentes. Mas no meu mundo existe uma Oxford também. Nós dois estamos falando inglês, não estamos? É óbvio que outras coisas são iguais. Como foi que você passou? Existe uma ponte, ou o quê?
— Só uma espécie de janela no ar.
— Me mostre — fez ela.
Era uma ordem, não um pedido. Ele sacudiu a cabeça.
— Agora não. Quero dormir. De qualquer maneira, estamos no meio da noite.
— Então me mostre de manhã.
— Está bem, vou mostrar. Mas tenho minhas próprias coisas a fazer. Você vai ter que encontrar sozinha os seus catedráticos.
— Fácil — ela afirmou. — Conheço tudo sobre catedráticos.
Ele juntou os pratos e se levantou.
— Eu cozinhei, de modo que você pode lavar os pratos.
Ela olhou para ele incrédula.
— Lavar os pratos? — zombou. — Existem milhões de pratos limpos por aí! Além disso, não sou uma criada. Não vou lavar os pratos.
— Então não vou lhe mostrar a passagem.
— Eu encontro sozinha.
— Não encontra, não. Ela está escondida. Você nunca vai encontrar. Escute. Eu não sei quanto tempo podemos ficar neste lugar. Temos que comer, portanto vamos comer o que houver aqui, mas depois vamos arrumar tudo e manter o lugar limpo, porque temos a obrigação de fazer isso. Temos que tratar direito este lugar. Agora vou para a cama. Vou ficar no outro quarto. Vejo você de manhã.
Ele entrou, limpou os dentes com o dedo e um pouco do dentifrício que trazia na sacola, caiu na cama de casal e adormeceu num instante.


Lyra esperou até ter certeza de que ele estava dormindo e então levou os pratos para a cozinha, colocando-os sob a água da torneira, e esfregou-os com força com um pano até parecerem limpos. Fez o mesmo com garfos e facas, mas esse método não funcionou com a frigideira, de modo que ela tentou com uma barra de sabão amarelo, e foi arrancando a sujeira até a frigideira ficar tão limpa quanto ela achava possível. Então secou tudo com outro pano e arrumou direitinho no secador de louça.
Como ainda estava com sede e queria experimentar abrir outra lata, ela fez isso e levou o refrigerante para cima. Escutou do lado de fora da porta de Will e, nada ouvindo, foi pé ante pé até o outro quarto e tirou o aletiômetro de sob o travesseiro.
Não precisava estar perto de Will para perguntar sobre ele, mas queria vê-lo; moveu a maçaneta do quarto dele com o mínimo de ruído, e entrou. Havia uma luz na praia lá fora que brilhava diretamente dentro do quarto, e sob o brilho refletido do teto ela olhou para o rapaz adormecido. Ele tinha a testa franzida e o rosto brilhante de suor. Era forte e parrudo, não como um homem adulto, naturalmente, porque não era muito mais velho que ela, mas um dia seria muito forte. Como seria mais fácil se o dimon dele estivesse visível! Ela se perguntou que forma ele teria, e se já estava fixo. Fosse qual fosse a forma, ele mostraria uma natureza selvagem, cortês e infeliz. Foi pé ante pé até a janela. A luz do poste da rua, ela moveu cuidadosamente os ponteiros do instrumento e relaxou a mente na forma de uma pergunta. O ponteiro começou a girar em torno do mostrador numa série de pausas e arranques quase rápidos demais para os olhos.
Ela tinha perguntado: O que ele é, amigo ou inimigo?
A bússola respondeu: Ele é um assassino.
Ao ver a resposta, ela relaxou imediatamente. Ele conseguia encontrar comida e poderia mostrar-lhe como chegar a Oxford — talentos que eram úteis —, mas podia ser ao mesmo tempo covarde ou indigno de confiança. Um assassino era um bom companheiro. Ela se sentiu tão segura ao lado dele quanto com Iorek Byrnison, o urso de armadura.
Puxou a persiana da janela para que o sol matinal não caísse sobre o rosto dele e saiu do quarto pé ante pé.

4 comentários:

  1. Quer cair nas boas graças dela seja um assasino :P kkkkkk

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  2. 1 - Essa série vai trabalhar com multiversos? Seria interessante...
    2 - Eu tenho um daemon dentro de mim :3
    3 - "Ele é um assassino, ufa" masoq kkkk

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    1. Yep. Vários mundos paralelos, se é que multiverso significa o mesmo.
      Pois é! Iorek eu entendo, mas ela conhece um assassino e fica de boas? Hauehauehaue

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  3. Multiverso... Lembrei de Flash... :P

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Boa leitura :)