4 de fevereiro de 2017

1. A garrafa de Tokay

LYRA e seu dimon atravessaram o Salão, já bastante escuro, tomando cuidado para seguirem junto à parede, fora de vista da Cozinha. As três mesas grandes ao longo do Salão já estavam arrumadas e os bancos compridos estavam afastados, esperando os comensais. No alto, ao longo das paredes, os retratos de antigos Reitores estavam na penumbra. Lyra chegou ao tablado e se voltou para olhar a porta aberta da Cozinha; não vendo ninguém, subiu para junto da mesa principal.
Ali os talheres eram de ouro, não de prata, e os 14 lugares não eram num banco de carvalho, mas em cadeiras de mogno com almofadas de veludo.
Lyra parou junto à cadeira do Reitor e deu um peteleco de leve na taça maior; o som percorreu todo o Salão.
— Você está de brincadeira. Comporte-se! — cochichou o dimon.
O nome do dimon era Pantalaimon, e, no momento, ele tinha a forma de uma mariposa marrom, para não se destacar na penumbra do Salão.
— Lá na cozinha estão fazendo muito barulho — Lyra cochichou de volta. — E o Administrador só aparece depois do primeiro sino. Deixe de ser ranzinza.
Em todo caso, ela colocou a palma da mão sobre o cristal que vibrava; Pantalaimon esvoaçou à frente dela, atravessando o tablado, e entrou pela porta entreaberta da Sala Privativa, no outro extremo. Logo depois tornou a aparecer.
— Está vazia — sussurrou. — Mas temos que ser rápidos.
Quase agachada, escondida pela mesa, Lyra foi até a porta e entrou na Sala Privativa, onde tornou a ficar de pé e olhou em volta. A única luz vinha da lareira; a pilha de lenha em brasa desabou enquanto ela estava olhando, fazendo subir uma coluna de faíscas pela chaminé.
Ela havia passado a maior parte da vida na Faculdade, mas nunca tinha visto a Sala Privativa; só os Catedráticos e seus convidados podiam entrar ali, e nunca uma mulher. Nem as criadas entravam para limpar; esse trabalho só quem fazia era o Mordomo.
Pantalaimon acomodou-se no ombro dela.
— Está satisfeita agora? Podemos ir? — cochichou.
— Não seja medroso! Ainda quero dar uma espiada!
Era uma sala ampla, com uma mesa oval de jacarandá envernizada e sobre ela várias garrafas e taças de cristal, além de uma tabaqueira de prata com um pequeno porta-cachimbo.
Num aparador vizinho, havia uma panelinha e uma cesta com botões de papoula.
— Eles vivem bem, hein, Pan? — ela comentou baixinho.
Foi sentar-se numa das poltronas de couro verde, tão funda que ela ficou quase deitada, mas se endireitou e encolheu as pernas. Depois se pôs a examinar os retratos nas paredes: mais Catedráticos, com certeza; barbados e melancólicos, eles lançavam olhares de solene desaprovação de dentro de suas molduras.
— O que você acha que eles conversam aqui? — a garota perguntou, ou começou a perguntar, pois antes de terminar a frase ela ouviu vozes do lado de fora.
— Para trás da poltrona! Depressa! — sussurrou Pantalaimon.
Como um raio, Lyra pulou da poltrona e se escondeu atrás dela. Não era o melhor esconderijo: ela havia escolhido logo a poltrona que ficava bem no meio da sala, e se não ficasse quietinha...
A porta se abriu e a iluminação da sala mudou: um dos recém-chegados trazia uma lamparina, que colocou sobre o aparador. Lyra via as pernas dele, as calças verde-escuras e os sapatos pretos bem engraxados: um criado.
Então uma voz grossa perguntou:
— Lorde Asriel já chegou?
Era o Reitor. Lyra prendeu a respiração ao ver o dimon do criado (um cão, como os dimons de todos os criados) entrar trotando e se sentar em silêncio aos pés dele, e então os pés do Reitor ficaram visíveis também, metidos nos sapatos velhos que ele sempre usava.
— Não, Reitor — disse o Mordomo. — Também não temos notícia das Docas Aéreas.
— Imagino que ele vá chegar com fome. Leve-o direto para o Salão, sim?
— Sim senhor, Reitor.
— E já separou um pouco do Tokay especial?
— Já, sim, Reitor. O 1898, como o senhor mandou. Lorde Asriel aprecia muito essa safra, se não me falha a memória.
— Ótimo. Agora vá, por favor.
— Vai precisar da lamparina, Reitor?
— Sim, pode deixar aí. Durante o jantar, venha ajeitar o pavio, está bem?
O Mordomo fez uma reverência leve e se virou para sair, e seu dimon o seguiu obedientemente. De seu precário esconderijo, Lyra ficou observando enquanto o Reitor ia até um grande armário de carvalho num canto da sala, tirava a sua beca de um cabide e a vestia com dificuldade — o Reitor tinha sido um homem muito forte, mas agora estava com bem mais de 70 anos e seus movimentos eram rígidos e lentos. Seu dimon era uma fêmea de corvo, e assim que ele terminou de vestir a túnica o dimon saltou de cima do armário e foi se acomodar no seu lugar de costume: o ombro direito dele.
Lyra sentia a aflição de Pantalaimon, embora ele não emitisse um único som. Ela própria estava achando delicioso aquele friozinho na barriga...
Lorde Asriel, o visitante mencionado pelo Reitor, era tio dela, um homem que ela admirava e temia muito. Diziam que ele estava envolvido em altas políticas, explorações secretas, guerras distantes, e ela nunca sabia quando ele ia aparecer. Ele era muito bravo; se a apanhasse ali, ela seria severamente castigada, mas conseguiria aguentar.
Mas o que ela viu em seguida mudou completamente as coisas.
O Reitor tirou do bolso um papel dobrado e o colocou sobre a mesa. Tirou a rolha de uma garrafa que continha um vinho dourado, desdobrou o papel e deixou cair lá dentro um jorro fino de pó branco; depois amassou bem o papel e o jogou no fogo da lareira. Tirou um lápis do bolso e mexeu o vinho até dissolver todo o pó, e depois recolocou a rolha.
Seu dimon soltou um grasnido curto; o Reitor respondeu com um murmúrio, olhou em volta com os olhos semicerrados e severos e saiu pela porta por onde tinha entrado.
Lyra cochichou:
— Viu isso, Pan?
— Claro que vi! Agora saia depressa, antes que o Administrador chegue!
Nem terminou a frase e eles ouviram um sino tocando uma badalada na outra ponta do Salão.
— É o sino do Administrador! — Lyra exclamou. — Pensei que a gente ia ter mais tempo...
Pantalaimon esvoaçou até a porta do Salão e voltou rapidamente.
— O Administrador já está lá — avisou. — E você não vai poder sair pela outra porta...
A outra porta, aquela por onde o Reitor tinha entrado e saído, dava para o movimentado corredor entre a Biblioteca e a Sala de Estar dos Catedráticos. Àquela hora do dia, o corredor estaria cheio de homens indo vestir suas becas para o jantar, ou correndo para deixar papéis ou pastas na Sala de Estar antes de ir para o Salão; sabendo disso, Lyra tinha planejado sair por onde entrara, contando com mais alguns minutos antes do sino do Administrador.
Se ela não tivesse visto o Reitor colocar aquele pó no vinho, poderia até ter desafiado a cólera do Administrador ou tentado passar despercebida no corredor movimentado. Mas estava confusa, e isso fez com que hesitasse.
Então ouviu passos pesados sobre o tablado: era o Administrador vindo verificar se a Sala Privativa estava pronta, com as papoulas e o vinho que os Catedráticos beberiam depois do jantar. Lyra correu para o armário de carvalho, abriu a porta e se escondeu lá dentro, puxando a porta bem no momento em que o Administrador entrou. Ela não se preocupou com Pantalaimon: a sala era toda de cores escuras, e ele podia muito bem entrar debaixo de uma poltrona.
Ela escutou a respiração forte do Administrador e, pela fresta da porta, viu quando ele ajeitou os cachimbos no seu lugar junto à tabaqueira, lançando um olhar de relance para as garrafas de bebida e as taças. Depois ajeitou os cabelos sobre as orelhas com ambas as mãos e disse algo ao seu dimon. O Administrador era um criado, então seu dimon era uma cadela, mas como era um criado de alta categoria, seu cão também era superior — um setter vermelho. O dimon parecia suspeitar de alguma coisa e ficou olhando em volta como se sentisse uma presença intrusa, mas não foi até o armário, para grande alívio de Lyra. Ela temia muito o Administrador, que já havia batido nela duas vezes.
Lyra ouviu um sussurro bem fraquinho; obviamente Pantalaimon tinha se enfiado no armário junto com ela.
— Agora vamos ter que ficar aqui. Por que você nunca escuta o que eu digo?
Lyra só respondeu depois que o Administrador saiu. Cabia a ele supervisionar os que serviam a mesa principal; ela ouviu os Catedráticos entrando no Salão, o murmúrio de vozes, o arrastar de pés.
— Ainda bem que não escutei — ela cochichou em resposta. — Senão não teríamos visto o Reitor colocar veneno no vinho. Pan, era o Tokay que ele tinha pedido ao Mordomo! Vão assassinar Lorde Asriel!
— Você não sabe se aquilo é veneno.
— Claro que é! Você não se lembra? Ele esperou o Mordomo sair da sala; se fosse inocente, não se importaria que o Mordomo visse. E eu sei que está acontecendo alguma coisa. Alguma coisa política. Os criados só falam sobre isso. Pan, nós podíamos impedir um assassinato!
— Nunca ouvi tamanha bobagem — cortou ele. — Como você acha que vai conseguir ficar quatro horas imóvel neste armário apertado? Deixe que eu vá vigiar o corredor; quando estiver vazio, eu aviso.
Ele voou do ombro dela, e ela viu a sombra minúscula aparecer na fresta de luz.
— Não adianta, Pan, vou ficar aqui — declarou. — Há outra beca ou sei lá o quê aqui dentro; vou colocar isto no chão do armário e me acomodar. Tenho que ver o que eles fazem!
Até então ela estava agachada; ficou em pé com cuidado, tateando à procura dos cabides para não fazer barulho, e descobriu que o armário era maior do que pensara. Havia várias becas acadêmicas e capuzes, alguns com a borda de pele, a maioria com forro de seda.
— Será que são todos do Reitor? — ela sussurrou. — Quando ele recebe diplomas honorários de outros lugares, talvez eles lhe deem becas que ele guarda aqui para usar... Pan, você acha mesmo que aquilo no vinho não é veneno?
— Não; assim como você, eu acho que é veneno. E acho que isso não é da nossa conta. E acho que interferir seria a mais idiota de todas as coisas idiotas que você já fez na sua vida. Não temos nada a ver com isso.
— Não seja idiota! — Lyra exclamou. — Não posso ficar aqui sentada vendo ele ser envenenado!
— Então vamos para outro lugar.
— Você é um covarde, Pan.
— Claro que sou. Posso perguntar o que você pretende fazer? Vai dar um salto e arrancar a taça dos dedos trêmulos dele? Qual é o seu plano?
— Não tenho plano nenhum, e você sabe muito bem — ela respondeu em voz baixa. — Mas agora que vi o que o Reitor fez, não tenho escolha. Pensei que você conhecesse a existência da consciência. Sabendo o que vai acontecer, como é que eu posso ir me sentar na Biblioteca ou em qualquer outro lugar e ficar de braços cruzados? Isso eu não pretendo fazer, juro!
— Era isso que você queria o tempo todo — ele disse depois de um momento. — Queria se esconder aqui e assistir a tudo. Por que eu não percebi antes?
— Está certo, eu quero mesmo — ela confessou. — Todo mundo sabe que eles vêm fazer uma coisa secreta. Têm um ritual, ou alguma coisa assim. E eu só queria saber o que é.
— Não é da nossa conta! Se eles querem ter seus segredinhos, você devia apenas se sentir superior e deixar pra lá. Se esconder, espiar, tudo isso é coisa de criança boba.
— Sabia que você ia dizer isso. Agora pare de resmungar.
Os dois ficaram em silêncio por algum tempo, Lyra desconfortável no chão duro do armário e Pantalaimon pousado num cabide, com ar contrariado, mexendo suas antenas temporárias. Lyra sentia vários pensamentos brigando dentro da sua cabeça e queria muito poder se abrir com o seu dimon, mas era também orgulhosa e achou melhor tentar clarear os pensamentos sem a ajuda dele.
O que predominava era a aflição, e não por si própria — de tanto passar por situações difíceis, já estava acostumada. Dessa vez, estava aflita por causa de Lorde Asriel e pelo que aquilo tudo queria dizer. Ele não costumava visitar a Faculdade, e o fato de estarem numa época de alta tensão política significava que ele não estava vindo simplesmente para comer, beber e fumar com alguns velhos amigos. Ela sabia que tanto Lorde Asriel quanto o Reitor eram membros do Conselho do Gabinete, que era o órgão especial de assessoria ao Primeiro-ministro, de modo que a visita podia ter alguma coisa a ver com isso; mas as reuniões do Conselho do Gabinete eram feitas no Palácio, não na Sala Privativa da Faculdade Jordan.
Além disso, havia um boato que estava provocando cochichos entre os criados da Faculdade: diziam que os tártaros tinham invadido Moscóvia e estavam avançando rumo ao Norte para São Petersburgo, de onde poderiam dominar o Mar Báltico e acabar conquistando todo o Oeste da Europa. E Lorde Asriel estivera no Extremo Norte: na última vez em que ela o vira, ele estava preparando uma expedição para a Lapônia...
— Pan... — ela cochichou.
— Que é?
— Você também acha que vai haver guerra?
— Ainda não. Lorde Asriel não estaria jantando aqui se a guerra fosse explodir na semana que vem.
— Também acho. Mas depois...
— Psiu. Vem vindo alguém.
Ela se endireitou e olhou pela fresta da porta. Era o Mordomo, entrando para aparar o pavio da lamparina, como o Reitor mandara. A Sala de Estar e a Biblioteca eram iluminadas por luz anbárica, mas, na Sala Privativa, os Catedráticos preferiam as lâmpadas de nafta, mais antigas e mais suaves. Isso não mudaria enquanto o Reitor estivesse vivo.
O Mordomo aparou o pavio e colocou outra tora de lenha na lareira, depois escutou cautelosamente junto à porta antes de surrupiar um punhado de folhas da tabaqueira.
Mal tinha recolocado a tampa quando a maçaneta da outra porta girou e ele deu um pulo, sobressaltado. Lyra tentou não rir. O Mordomo enfiou às pressas as folhas de fumo no bolso e se virou para o recém-chegado.
— Lorde Asriel! — exclamou.
Um arrepio de surpresa gelou as costas de Lyra. Ela não conseguia vê-lo e tentou dominar a vontade de mudar de posição para isso.
— Boa noite, Wren — disse Lorde Asriel, com aquela voz áspera que Lyra sempre escutara com uma mistura de prazer e apreensão. — Cheguei atrasado para o jantar. Vou esperar aqui.
O Mordomo parecia constrangido; só se entrava na Sala Privativa a convite do Reitor, e Lorde Asriel sabia disso. Mas o Mordomo viu também o olhar de Lorde Asriel fixo em seu bolso estufado e resolveu não dizer nada.
— Devo avisar ao Reitor que o senhor chegou?
— Não seria mau. Pode me trazer um café.
— Muito bem, senhor.
O Mordomo saiu apressado, seu dimon trotando obedientemente atrás. O tio de Lyra foi até a lareira e estendeu os braços por cima da cabeça, se espreguiçando e bocejando como um leão. Estava usando roupas de viagem. Como sempre acontecia quando tornava a vê-lo, Lyra se lembrou de quanto ele a assustava. Agora estava fora de questão sair sem ser percebida: ela teria que esperar e torcer.
O dimon de Lorde Asriel, uma pantera branca, se postou logo atrás dele.
— Vai mostrar as projeções aqui? — ele perguntou em voz baixa.
— Vou. Vai ser menos confuso do que irmos para o Auditório. Vão querer ver os espécimes também; daqui a pouco vou mandar chamar o Porteiro. São tempos difíceis, Stelmaria.
— Você devia descansar.
Ele se esticou numa das poltronas, de modo que Lyra não podia ver seu rosto.
— Devia, sim. E também mudar de roupa; com certeza, existe algum regulamento que permite que eles me multem em uma dúzia de garrafas por entrar aqui sem estar vestido adequadamente. Eu precisava dormir uns três dias. Mas o caso é que...
Houve uma batida na porta e o Mordomo entrou, trazendo um bule de café e uma xícara numa bandeja de prata.
— Obrigado, Wren — disse Lorde Asriel. — Aquilo ali na mesa é Tokay?
— O Reitor mandou separar este especialmente para o senhor — informou o Mordomo. — Restam só três dúzias de garrafas do 98.
— Não há bem que sempre dure. Deixe a bandeja aqui ao meu lado. Ah, peça ao Porteiro para mandar as duas caixas que deixei na Portaria.
— Para cá, senhor?
— Sim, para cá, ora. E vou precisar de uma tela e uma lanterna de projeção, também aqui, também agora.
O Mordomo mal conseguia segurar o queixo de surpresa, mas conseguiu engolir a pergunta ou o protesto.
— Wren, você está esquecendo o seu lugar — disse Lorde Asriel. — Não me questione; apenas faça o que eu mando.
— Muito bem, senhor — replicou o Mordomo. — Se posso dar uma sugestão, senhor, talvez seja melhor avisar o Sr. Cawson do que o senhor está planejando, senhor, senão ele ficará um tanto surpreso, se é que me entende.
— Está bem. Avise a ele, então.
O Sr. Cawson era o Administrador. Havia uma rivalidade antiga e permanente entre ele e o Mordomo; o Administrador tinha mais autoridade, porém o Mordomo tinha mais oportunidades de se fazer notar pelos Catedráticos, e aproveitava cada uma delas. Ele ia adorar a oportunidade de mostrar ao Administrador que sabia mais do que ele sobre o que acontecia na Sala Privativa.
Fez uma reverência e saiu. Lyra observou o tio se servir de uma xícara de café, bebê-la de uma vez e servir outra, que passou a beber mais devagar. Ela estava perplexa: caixas de espécimes? Uma lanterna de projeção? Que teria ele de tão urgente e importante para mostrar aos Catedráticos?
Então Lorde Asriel se levantou e virou de costas para o fogo. Ela o viu de corpo inteiro, e se maravilhou com o contraste que ele formava com o Mordomo gorducho e com os Catedráticos curvados e lânguidos: Lorde Asriel era um homem alto, de ombros largos, fisionomia sombria e feroz, olhos que pareciam cintilar com um humor selvagem. Tinha o rosto de uma pessoa a quem se obedecia ou combatia — nunca poderia ser tratada como inferior ou digna de compaixão. Todos os seus movimentos eram largos e possuíam um equilíbrio perfeito, como os de um animal selvagem; dentro de um aposento como aquele, ele parecia uma fera presa numa jaula pequena demais.
No momento, sua expressão era distante e preocupada. O dimon se aproximou e encostou a cabeça na cintura dele, e ele baixou os olhos para a pantera com um olhar enigmático, antes de lhe dar as costas e ir até a mesa. Lyra de repente sentiu o estômago dar um nó, pois Lorde Asriel havia tirado a tampa da garrafa de Tokay e estava enchendo uma taça.
— Não!
O grito abafado saiu antes que ela pudesse contê-lo. Lorde Asriel ouviu e se virou imediatamente.
— Quem está aí?
Ela não conseguiu se controlar: saltou para fora do armário e correu para arrancar a taça das mãos dele. O vinho voou, molhando a borda da mesa e o tapete, e a taça caiu e se despedaçou. Ele agarrou a menina pelo pulso, torcendo-o com força.
— Lyra! Que diabos está fazendo aqui?
— Me solte e eu lhe digo!
— Primeiro vou lhe quebrar o braço. Como ousa entrar aqui?
— Acabei de salvar a sua vida!
Por um segundo os dois ficaram imóveis, ela se retorcendo de dor e fazendo uma careta para reprimir os gemidos, ele inclinado sobre ela, com a testa franzida, como um trovão anunciando tempestade.
— O que você disse? — ele perguntou, em voz mais baixa.
— O vinho está envenenado — ela resmungou, quase sem abrir a boca. — Vi o Reitor colocar um pó branco dentro dele.
Lorde Asriel a soltou e ela caiu no chão; nervoso, Pantalaimon esvoaçou para o ombro dela. O tio a encarou com uma raiva controlada e ela não ousou sustentar seu olhar.
— Entrei só para ver como era esta sala — ela contou. — Sei que não devia ter feito isso. Ia sair antes que alguém entrasse, mas o Reitor apareceu e fiquei encurralada. O armário era o único esconderijo. E vi quando ele colocou o pó no vinho. Se eu não tivesse...
Bateram na porta.
— Deve ser o Porteiro — disse Lorde Asriel. — Volte para o armário. Se eu ouvir o menor barulho, vou fazer você ter vontade de morrer.
Ela correu para se esconder, e mal fechara a porta do armário quando Lorde Asriel falou em voz alta:
— Pode entrar!
Como ele tinha dito, era o Porteiro.
— Coloco aqui, senhor?
Lyra viu o velho parado à porta com ar indeciso, e atrás dele a ponta de um grande caixote de madeira.
— Isso mesmo, Shuter. Traga as duas para dentro e coloque no chão perto da mesa.
Lyra se acalmou um pouquinho e se permitiu sentir a dor no ombro e no pulso. Ela teria chorado de dor se fosse outro tipo de menina; mas só o que fez foi cerrar os dentes e movimentar de leve o braço até sentir que ficava mais leve.
Então ouviu o ruído de vidro se quebrando e o borbulhar de um líquido que se derramava.
— Maldição! Shuter, seu velho desastrado! Veja o que você fez!
Lyra conseguia ver pouco, mas o suficiente. O tio dera um jeito de derrubar a garrafa de Tokay, fazendo parecer que tinha sido o Porteiro. O velho pousou com cuidado o caixote no chão e começou a se desculpar.
— Sinto muito, mesmo, senhor. A mesa estava mais perto do que eu pensava...
— Arrume alguma coisa para limpar esta sujeira. Vá depressa, antes que o tapete fique encharcado!
O Porteiro e seu jovem ajudante saíram apressados. Lorde Asriel se aproximou do armário e falou num cochicho:
— Já que está aí, pode fazer alguma coisa útil. Vigie atentamente o Reitor. Se me contar alguma coisa interessante a respeito dele, vou impedir que você tenha ainda mais problemas do que os que já vai ter. Entendeu?
— Sim, tio.
— Se fizer um barulho sequer aí dentro, não vou ajudar você. Fica por sua conta.
Ele se afastou, e estava novamente parado de costas para a lareira quando o Porteiro voltou com uma vassoura e uma pá para os cacos de vidro, além de um pano e uma tigela.
— Só me resta pedir desculpas mais uma vez, senhor; juro que não sei o que me...
— Limpe isso aí e pronto.
Enquanto o Porteiro enxugava o vinho do tapete, o Mordomo bateu e entrou com o criado de Lorde Asriel — um homem chamado Thorold. Os dois carregavam um caixote pesado, de madeira envernizada e alças de bronze. Viram o que o Porteiro estava fazendo e pararam, perplexos.
— Era o Tokay, sim — disse Lorde Asriel. — Uma pena. A lanterna está aí? Coloque-a perto do armário, Thorold, por favor. A tela vai ficar do outro lado.
Lyra percebeu que pela fresta da porta conseguiria ver a tela e o que fosse projetado nela, e pensou se o tio tinha feito de propósito. Protegida pelo barulho que o criado fazia ao desenrolar o linho rígido e montar a tela e sua armação, ela cochichou:
— Está vendo? Não valeu a pena?
— Pode ser que sim... — disse Pantalaimon em tom severo, com sua vozinha de mariposa — ... e pode ser que não — completou.
Lorde Asriel ficou parado perto da lareira bebericando o resto do café e observando com ar sério enquanto Thorold abria a caixa da lanterna de projeção e desencapava a lente antes de verificar o tanque de óleo.
— Há bastante óleo, senhor — disse. — Quer que eu mande chamar um técnico para fazer a projeção?
— Não, eu mesmo farei isso. Obrigado, Thorold. Eles já terminaram o jantar, Wren?
— Creio que estão quase terminando, senhor — respondeu o Mordomo. — Se entendi direito o que o Sr. Cawson disse, o Reitor e seus convidados vão se apressar quando souberem que o senhor está aqui. Posso levar a bandeja do café?
— Pode levar.
— Muito bem, senhor.
Com uma reverência leve, o Mordomo pegou a bandeja e saiu, e Thorold foi com ele.
Assim que a porta se fechou, Lorde Asriel olhou diretamente para o armário no outro lado da sala, e Lyra sentiu a força daquele olhar quase como se ele tivesse uma forma física, como se fosse uma flecha ou uma lança. Então ele desviou os olhos e falou baixinho com seu dimon.
A pantera veio se sentar calmamente ao lado dele, alerta, elegante e perigosa, os olhos verdes examinando o aposento antes de se voltarem, como os olhos negros dele, para a porta que dava para o Salão, no momento em que a maçaneta girou. Lyra não conseguia ver a porta, mas escutou uma respiração profunda quando o primeiro homem entrou.
— Estou de volta, Reitor — disse Lorde Asriel. — Por favor, traga os seus convidados; tenho algo muito interessante para mostrar.

10 comentários:

  1. Desculpa por falar algo tão aleatório mas... só eu relacionei dimon e Pantalaimon com Digimon? :v

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  2. Aymê Filha De Athena16 de março de 2017 19:17

    Eu também!!!kkkkkkkkkk

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  3. Karina eu taça sem a mínima idéia de que livro ler mas graças a seu blog achei e to amando de incio <3

    E eu tbm meio que associe =D
    Mas qual é a definição pra dimon? Um ser mágico de estimação? Não tindi:/

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    1. Valeu <3
      Dimon é uma espécie de personificação da sua alma, sua consciência. É como se sua essência fosse dividida em dois corpos
      Bem, esse ainda é o primeiro capítulo. Com o tempo vc vai lendo, passará a entender melhor

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  4. Dei uma pausa em Maze Runner e agora estou nesse kkk
    Eu assisti o filme há muito tempo e não lembro bem. Sei que tem a Nicole Kidman lá heheheh. To adorando. Leitura flui de um jeito gostoso.

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  5. Vi o filme e espero q o livro seja melhor pq o filme n era alts coisas
    To lendo insurgente eeeeeee! , acabei de ler a serie rainha vermelha.
    Nada aver eu sei
    É q eu leio duas series por vez ja q eu sempre tenho q le uma em papel quando to no colégio esperando meu irmão dai tem la divergente e insurgente lá e convergente vou ler aq dai dessa série na biblioteca lá tem o terceiro livro dessa serie dai tenho q ler o 1 e o 2 antes de acabar insurgente ou seja tenho q correr chao
    Karina meu anjo obrigado por tudo q vc faz em nome da leitura, seu site é o salvador de pessoas q n podem comprar todos os livros q gostam alias ficariamos pobres ou sem espaço pra guarda los
    Meu nome é Bianca
    To no setimo ano e tenho 11 anos e li muitas series desse site

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    1. Oi Bianca, imagina :) é muito bom saber que alguém tão nova quanto você se interessa por livros, e como tem lido tanto! Tomara que leia muitos mais por aqui. Boa leitura!

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Boa leitura :)