17 de fevereiro de 2017

1. A adormecida enfeitiçada

... Enquanto feras atrás de presas saídas de covis nas profundezas espreitavam a donzela adormecida...
William Blake

Em um vale sombreado por rododendros, próximo da linha de neve, onde um riacho de águas leitosas de neve derretida passava ligeiro espumando, onde pombos e milheiros voavam entre os imensos pinheiros, havia uma caverna, que ficava semiescondida pelo rochedo acima e pelas folhas secas e pesadas que se acumulavam abaixo. A floresta era repleta de sons: das águas do riacho correndo entre as pedras, do vento entre as folhas alongadas dos galhos de pinheiros, do zumbido dos insetos e de guinchos de pequenos mamíferos arbóreos, bem como do cantar de passarinhos, e, de tempos em tempos, uma lufada mais forte de vento fazia com que um dos galhos de um cedro ou de um abeto roçasse contra um outro e gemesse como um violoncelo. Era um lugar claro e ensolarado, nunca monótono, raios de claridade, dourado-limão, penetravam até o solo da floresta entre retângulos e círculos de sombra verde-acastanhados, e a luz estava sempre em movimento, nunca era constante, porque a névoa que passava com frequência flutuava em meio às copas das árvores, filtrando todos os raios de sol até adquirirem um brilho perolado e salpicando cada cone de pinheiro com gotículas de umidade que cintilavam quando a névoa se desfazia. Por vezes a umidade nas nuvens se condensava formando minúsculas gotas, metade neblina, metade chuva, que desciam flutuando em vez de cair, fazendo um ruído suave como um tamborilar farfalhante entre os milhares de folhas aciculadas dos pinheiros. Havia um caminho estreito passando junto do riacho, que levava de uma aldeia — pouco mais que um aglomerado de choupanas de pastores — na entrada do vale, até um relicário, semiarruinado, próximo da geleira ao fundo, um lugar onde bandeirolas de seda esvoaçavam sob os ventos perpétuos das altas montanhas e oferendas de bolos de cevada e chá seco eram colocadas pelos fiéis aldeões. Um estranho efeito da luz, do gelo e do vapor fazia com que a parte mais alta do vale ficasse envolta em eternos arco-íris. A caverna ficava a alguma distância acima do caminho. Muitos anos antes, um homem religioso morara ali, meditando, jejuando e orando, e o local ainda era venerado em sua memória. Tinha 30 metros de profundidade, mais ou menos, com o solo bem seco: um abrigo ideal para um urso ou para um lobo, mas os únicos seres morando nela durante anos haviam sido pássaros e morcegos.
Mas o vulto que estava se agachando logo após a entrada, os olhos negros atentos vigiando um lado e depois o outro, as orelhas pontudas levantadas, não era pássaro nem morcego. A luz do sol descia pesada e forte sobre seu lustroso pelo dourado e as mãozinhas de macaco reviravam uma pinha para lá e para cá, com os dedos fortes, partindo a casca em lascas e raspando as nozes doces.
Atrás dele, pouco além do ponto que a luz do sol alcançava, a Sra. Coulter estava aquecendo água numa panelinha sobre um fogareiro à nafta. Seu dimon emitiu um murmúrio de advertência e a Sra. Coulter levantou a cabeça.
Vindo pelo caminho da floresta havia uma menina da aldeia. A Sra. Coulter sabia quem ela era: Ama vinha lhe trazendo comida já há alguns dias. Logo ao chegar, a Sra. Coulter fizera circular a notícia de que era uma mulher religiosa, dedicada a meditações e preces, que fizera um voto de jamais falar com um homem.
Ama era a única pessoa cujas visitas aceitava receber. Dessa vez, contudo, a menina não estava sozinha. Seu pai estava com ela e enquanto Ama subia até a caverna, ele esperou, mantendo alguma distância.
Ama chegou à entrada da caverna e fez uma mesura.
— Meu pai me pediu que viesse trazendo preces para sua boa vontade — disse.
— Bons olhos a vejam, criança — disse a Sra. Coulter.
A menina trazia uma trouxa embrulhada em algodão desbotado, que colocou aos pés da Sra. Coulter. Então estendeu um raminho de flores, cerca de uma dúzia de anêmonas amarradas com um fio de algodão, e começou a falar rápida e nervosamente. A Sra. Coulter compreendia um pouco da língua daquela gente da montanha, mas nunca permitiria que percebessem o quanto. De modo que sorriu e fez um gesto para que a menina se calasse e para que observassem seus dimons. O macaco dourado estava estendendo a mãozinha negra e o dimon borboleta de Ama esvoaçava, chegando cada vez mais perto, até pousar no caloso dedo indicador.
O macaco o aproximou lentamente de sua orelha e a Sra. Coulter sentiu uma corrente de compreensão fluir para sua mente, esclarecendo as palavras da menina. Os aldeões estavam felizes que uma santa mulher religiosa como ela estivesse abrigada na caverna, mas havia rumores de que também tinha uma acompanhante, uma mulher como ela, que de alguma forma era perigosa e muito poderosa.
Isso era o que estava deixando os aldeões assustados. Seria aquele outro ser mestra da Sra. Coulter ou sua criada? Teria a intenção de fazer mal? Por que estava ali, para começar? Pretendia ficar muito tempo? Ama transmitiu essas perguntas com infindáveis apreensões.
Uma resposta totalmente nova ocorreu à Sra. Coulter, à medida que a compreensão do dimon foi penetrando em sua mente. Ela podia contar a verdade. Não toda, naturalmente, mas parte. Estremeceu ao conter a vontade de rir diante da ideia, mas manteve isso longe de sua voz quando explicou:
— Sim, há uma outra pessoa comigo. Mas não há nada a temer. É minha filha e ela foi vítima de um feitiço que fez com que adormecesse. Viemos aqui para nos esconder do feiticeiro que lançou este feitiço, enquanto eu tento curá-la e impedir que qualquer mal lhe ocorra. Venha ver, se quiser.
Ama ficou parcialmente tranquilizada pela voz suave da Sra. Coulter, mas ainda estava com medo, e toda aquela conversa sobre feiticeiros e feitiços aumentava seus temores. Mas o macaco dourado estava segurando seu dimon com tamanha gentileza e, além disso, estava tão curiosa, que seguiu a Sra. Coulter até o interior da caverna.
O pai de Ama, que esperava mais abaixo no caminho, deu um passo adiante e seu dimon corvo levantou as asas uma ou duas vezes, mas ficou onde estava.
A Sra. Coulter acendeu uma vela, porque a luz estava indo embora rapidamente, e conduziu Ama até o fundo da caverna. Os olhos da garotinha faiscavam, arregalados, na semiobscuridade e suas mãos se moviam, fazendo um gesto repetitivo de esfregar o dedo no polegar, para afastar o perigo confundindo os maus espíritos.
— Está vendo? — perguntou a Sra. Coulter. — Ela não pode fazer mal a ninguém. Não há motivo para ter medo.
Ama olhou para a pessoa no saco de dormir. Era uma menina, mais velha que ela, talvez três ou quatro anos, e tinha cabelos de uma cor que Ama nunca vira antes — de um tom fulvo, amarelo-tostado como o pelo de um leão. Seus lábios estavam bem fechados, comprimidos, e estava profundamente adormecida, não havia dúvida quanto a isso, pois seu dimon estava deitado, enroscado em seu pescoço e inconsciente. Ele tinha a forma de um animal parecido com um mangusto, mas de cor vermelho-dourada e menor. O macaco dourado estava alisando carinhosamente o pelo entre as orelhas do dimon adormecido e, enquanto Ama observava, a criatura-mangusto mexeu-se incomodada e emitiu um pequeno miado rouco. O dimon de Ama, na forma de camundongo, se apertou contra o pescoço de Ama e espiou assustado entre seus cabelos.
— De maneira que pode contar a seu pai o que você viu — prosseguiu a Sra. Coulter. — Não há nenhum espírito mau. Apenas minha filha, adormecida por causa de um feitiço e de quem estou cuidando. Mas por favor, Ama, diga a seu pai que isso tem de ser mantido em segredo. Ninguém, exceto vocês dois, deve saber que Lyra está aqui. Se o feiticeiro souber onde ela está, virá procurá-la e destruí-la, a mim também e tudo que estiver nas vizinhanças. De maneira que trate de ficar calada! Conte a seu pai e a mais ninguém.
Ela se ajoelhou junto de Lyra e afastou o cabelo úmido do rosto da menina adormecida antes de se inclinar para beijar a face de sua filha. Então levantou a cabeça, com uma expressão triste e carinhosa no olhar, e sorriu para Ama com tamanha bravura e sábia compaixão que a garotinha sentiu os olhos se encherem de lágrimas.
A Sra. Coulter pegou a mão de Ama, enquanto iam voltando para a entrada da caverna, e viu o pai da menina observando cheio de ansiedade lá de baixo. A mulher juntou as mãos e inclinou a cabeça para ele num cumprimento, que ele respondeu com alívio, enquanto sua filha, depois de fazer uma mesura para a Sra. Coulter e para a menina adormecida enfeitiçada, fez meia-volta e desceu correndo pela encosta sob a luz do crepúsculo. Pai e filha inclinaram a cabeça mais uma vez em direção à caverna, num cumprimento respeitoso, e se foram, desaparecendo em meio às sombras dos rododendros.
A Sra. Coulter virou-se de volta para a água no fogareiro, que estava quase fervendo.
Abaixando-se, ela esmigalhou algumas folhas secas sobre a água, tirando duas pitadas de um saquinho, uma pitada de outro e acrescentou três gotas de um óleo amarelo-claro. Mexeu rapidamente a mistura, contando silenciosamente até terem se passado cinco minutos. Então tirou a panela do fogo e sentou-se para esperar que o líquido esfriasse.
Espalhada ao seu redor estava parte da equipagem do acampamento, próximo ao laguinho azul, onde Sir Charles Latrom havia morrido: um saco de dormir, uma mochila com mudas de roupas, produtos de limpeza e assim por diante. Também havia uma valise de lona com uma armação resistente de madeira, acolchoada com paina, contendo vários instrumentos, e havia uma pistola num coldre.
A decocção esfriou depressa no ar rarefeito e tão logo atingiu a temperatura do corpo, ela a colocou cuidadosamente numa taça de metal de boca larga e levou-a até o fundo da caverna. O dimon macaco largou a pinha e foi junto com ela.
Cuidadosamente, a Sra. Coulter colocou a taça sobre uma rocha e se ajoelhou junto de Lyra. O macaco dourado se abaixou ao lado dela, pronto para agarrar Pantalaimon, se este acordasse.
O cabelo de Lyra estava úmido, seus olhos se moviam atrás das pálpebras cerradas. Ela estava começando a despertar: a Sra. Coulter tinha sentido seus cílios se mexerem quando a beijara e sabia que não dispunha de muito tempo antes que Lyra despertasse totalmente.
Enfiou a mão sob a cabeça da menina e com a outra afastou as mechas úmidas de cabelo de sua testa. Os lábios de Lyra se entreabriram e ela gemeu baixinho, Pantalaimon se aconchegou mais junto de seu peito. Os olhos do macaco dourado não se descolavam do dimon de Lyra e seus pequeninos dedos negros repuxavam a beirada do saco de dormir.
Depois de um olhar da Sra. Coulter, ele largou o saco de dormir e se afastou um palmo para trás. A mulher levantou a filha com delicadeza de modo que seus ombros saíssem do chão e a cabeça balançou ligeiramente. Então Lyra respirou fundo e seus olhos se entreabriram, piscando pesados.
— Roger — murmurou. — Roger... onde está você... não consigo ver...
— Ssh — sussurrou sua mãe — ssh, minha querida, beba isso.
Levando a taça até a boca de Lyra, ela a inclinou para deixar que uma gota umedecesse os lábios da menina. A língua de Lyra percebeu isso e se moveu para lambê-los, e então a Sra. Coulter deixou que um pouco mais do líquido pingasse em sua boca, com muito cuidado, deixando-a engolir cada gole antes de lhe dar mais.
Passaram-se vários minutos, mas finalmente a taça ficou vazia e a Sra. Coulter tornou a deitar a filha. Tão logo a cabeça de Lyra repousou no chão, Pantalaimon voltou a se acomodar em volta de seu pescoço. Seu pelo vermelho-dourado estava tão úmido quanto os cabelos de Lyra. Ambos estavam de novo profundamente adormecidos.
O macaco dourado foi saltitando graciosamente até a entrada da caverna e sentou-se, mais uma vez vigiando o caminho. A Sra. Coulter umedeceu uma flanela numa bacia de água fria e passou no rosto de Lyra, depois, abriu o saco de dormir e lavou seus braços, pescoço e ombros, porque Lyra estava acalorada.
Então sua mãe pegou um pente e com delicadeza desembaraçou o cabelo de Lyra, afastando-o da testa e repartindo-o cuidadosamente. Ela deixou o saco de dormir aberto de modo que a menina pudesse se refrescar e abriu a trouxa que Ama havia trazido: algumas bisnagas achatadas de pão, um retângulo de chá prensado, um pouco de arroz meio grudento, embrulhado numa folha larga.
Estava na hora de acender a fogueira. O frio nas montanhas era intenso durante a noite. Trabalhando metodicamente, ela cortou algumas achas de lenha, preparou a fogueira e acendeu um fósforo. Aquilo era outra coisa a respeito da qual teria que pensar: os fósforos estavam acabando e a nafta para o fogareiro também, teria que manter a fogueira acesa dia e noite, dali por diante.
Seu dimon estava aborrecido. Não gostava do que ela estava fazendo e quando tentou manifestar sua preocupação ela não lhe deu atenção. Ele deu-lhe as costas, o desprezo evidente em cada linha de seu corpo enquanto continuava a descascar pinhas na escuridão. Ela nem reparou e continuou a trabalhar atenta e habilmente para aumentar a fogueira e preparar uma panela para esquentar água para fazer um chá. A despeito disso, o ceticismo dele a afetava e enquanto ia desmanchando o chá prensado na água, repetidamente perguntou a si mesma o que achava que estava fazendo e se teria enlouquecido, o que aconteceria quando a Igreja descobrisse. O macaco dourado tinha razão. Ela não estava apenas escondendo Lyra: estava cobrindo os olhos para esconder a verdade de si mesma.


Saindo da escuridão o garotinho veio, esperançoso e assustado, sussurrando uma vez após a outra:
Lyra, Lyra, Lyra...
Atrás dele havia outros vultos, ainda mais indistintos do que ele, ainda mais silenciosos. Pareciam ser de um mesmo grupo e do mesmo tipo, mas não tinham rostos que fossem visíveis ou vozes que falassem, e a voz dele se elevou um pouco acima de um sussurro e seu rosto ficou sombreado e borrado como algo semiesquecido.
Lyra... Lyra...
Onde estavam eles? Numa grande planície onde nenhuma luz brilhava no céu escuro cor de chumbo e onde uma neblina obscurecia o horizonte em todas as direções. O solo era de terra nua, socada e achatada por milhões de pés, embora esses pés tivessem menos peso que penas, de modo que deveria ter sido o tempo que o achatara daquele jeito, embora o tempo tivesse parado naquele lugar, de modo que as coisas deviam ser assim mesmo. Aquele era o fim de todos os lugares e o último de todos os mundos.
Lyra...
Por que estavam ali?
Eram prisioneiros. Alguém havia cometido um crime, embora ninguém soubesse qual era o crime, quem o havia cometido, nem que autoridade o havia julgado.
Por que o garotinho continuava a chamar pelo nome de Lyra?
Esperança.
Quem eram eles?
Fantasmas.
E Lyra não conseguia tocá-los, por mais que tentasse. Desnorteadas, suas mãos se moviam procurando, tentando, de um lado para o outro, e o garotinho continuava parado ali suplicando.
— Roger — chamou ela, mas sua voz saiu num sussurro. — Ah, Roger, onde está você? O que é este lugar?
— É o mundo dos mortos, Lyra — respondeu ele. — Não sei o que fazer, não sei se estou aqui para sempre e não sei se fiz coisas más ou o que, por que tentei ser bom, mas detesto estar aqui, estou com medo de tudo isso, detesto.
E Lyra disse:
— Eu...

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