26 de janeiro de 2017

Prólogo

Condado de Redmont
A República dos Estados de Araluen
(Outrora o medieval Reino de Araluen)
Julho 1896

O professor Giles MacFarlane gemia baixinho enquanto aliviava a sua dor nas costas. Ele estava ficando muito velho para ficar agachado durante longos períodos, gentilmente batendo a poeira longe da terra onde estava escavando há pouco quando achou outro artefato que prendeu a sua atenção durante tanto tempo.
Ele e sua equipe vinham para as ruínas deste castelo há vários anos. Eles haviam mapeado o contorno triangular das muralhas principais – uma forma incomum para um castelo. O coto irregular da torre mantinha-se em pé no centro do espaço que eles haviam aberto. A torre destruída tinha apenas quatro metros agora. Mas mesmo neste estado arruinado, MacFarlane podia ver que tinha sido uma construção formidável.
A primeira temporada da escavação foi usada para determinar os limites da construção. No ano seguinte, eles haviam cavado várias trincheiras em forma de cruz, cavando para descobrir o que havia sob o acúmulo de mil e duzentos anos de terra, rochas e detritos.
Agora, na terceira temporada, eles faziam um belo trabalho e começavam a descobrir antigos tesouros na escavação. A fivela de cinto aqui, uma ponta de flecha ali. Uma faca. Uma concha quebrada. Joias cujo design e aparência datavam do século X da Era Comum.
Em um dia memorável, eles haviam descoberto uma placa de granito esculpida na forma de um javali com grandes presas. Era, sem dúvida, a peça que identificava o local como um castelo.
— Este foi o Castelo Redmont — MacFarlane contou a seus assistentes.
Castelo Redmont. Contemporâneo ao lendário Castelo Araluen. Sede do Barão Arald, conhecido como um dos mais ferrenhos partidários do lendário Rei Duncan. Se Redmont tivesse realmente existido, então todos os contos do seu povo tinham um fundo de verdade.
Talvez, pensou MacFarlane, acreditando além da esperança, ele pudesse encontrar provas de que a misteriosa Ordem dos Arqueiros de Araluen tivesse mesmo existido. Seria uma descoberta incrivelmente significativa.
Mas enquanto a temporada tinha progredido e as trincheiras foram cavadas profundamente, não houve achado mais importante do que o primeiro. MacFarlane tinha de se contentar com os achados normais de uma escavação – pequenas ferramentas enferrujadas de metal, ornamentos, fragmentos de cerâmica e vasos de cozinhar.
Eles procuraram, cavaram e escovaram, esperando a cada dia encontrar seu Santo Graal pessoal. Mas com a temporada de escavação de verão terminado, MacFarlane tinha perdido as esperanças. Para este ano, pelo menos.
— Professor! Professor!
Ele levantou-se, esfregando novamente suas costas quando ouviu seu nome sendo chamado. Uma dos jovens voluntários da universidade que havia aumentado sua equipe remunerada estava correndo através da escavação acenando para ele. Ele franziu o cenho. Uma escavação arqueológica não era lugar para se mover tão imprudentemente.
Um ligeiro passo em falso poderia arruinar semanas de trabalho paciente. Então ele a reconheceu como Audrey, uma de suas favoritas, e sua expressão suavizou. Ela era jovem. Os jovens agiam imprudentemente às vezes.
Ela o alcançou e parou, os ombros arqueados enquanto recuperava o fôlego.
— Então Audrey, o que é? — Ele indagou, após dar a ela um pouco de tempo.
Ainda ofegante, ela apontou para baixo da colina em direção ao rio Tarbus.
— Para lá do rio — disse ela — entre um emaranhado de arvores e arbustos. Nós encontramos ruínas de uma cabana.
Ele deu de ombros, nem um pouco animado com a revelação.
— Havia uma vila lá embaixo — ele lembrou. — Não é nada surpreendente.
Mas Audrey estava balançando a cabeça e agarrou o seu braço para levá-lo para baixo do morro.
— É além dos limites da vila. Encontrei sozinha. Você deve vir e ver aquilo!
MacFarlane hesitou. Seria uma longa caminhada morro abaixo e maior ainda para subir novamente. Então ele deu de ombros mentalmente. Entusiasmos como o de Audrey deveriam ser encorajados, não abafados. Ele permitiu que a menina o levasse pelo caminho acidentado e em ziguezague.
Eles atravessaram a velha ponte sobre o rio. Sem nunca perder uma chance de ensinar, ele mostrou para a menina como os suportes das extremidades eram muito mais velhos que o do meio.
— A seção do meio é muito mais nova — ele explicou. — Estas pontes eram construídas para que o centro pudesse ser removido caso eles fossem atacados.
Normalmente Audrey teria prestado atenção em cada palavra. O professor era um herói pessoal para ela. Mas hoje ela estava em um frenesi de excitação para mostrar a ele a sua descoberta.
— Sim, sim — ela falou distraidamente, exortando-o.
Ele sorriu com indulgência quando ela puxou sua manga enquanto levava-o para longe dos restos da antiga vila. O caminho tornou-se mais difícil quando eles entraram na floresta e tiveram que atravessá-la seguindo uma trilha estreita, por entre enormes árvores e densa vegetação rasteira.
Finalmente, Audrey saiu da trilha, dobrou duas vezes e forçou caminho através de um emaranhado de cipós e trepadeiras. MacFarlane a seguiu desajeitadamente e, em seguida, espantado, viu-se em uma pequena clareira cercada por velhos carvalhos e cornisos mais modernos.
— Como diabos você achou isso? — ele perguntou.
Audrey corou.
— Oh... eu... er... Precisava de um pouco de privacidade... Você sabe — ela respondeu sem jeito.
Ele balançou a cabeça, agitando a mão.
— Não diga mais nada.
Ela o guiou para frente, olhando para onde ela apontava. Seu olho treinado podia ver claramente o contorno de uma cabana ou chalé. A maior parte da estrutura tinha apodrecido, é claro. Mas havia uns poucos vestígios de algumas colunas restantes.
— Carvalho dura por séculos — ele comentou.
Os contornos dos quartos e paredes divisórias ainda eram visíveis – fracos sinais impressos no solo ao longo do tempo, mesmo que a estrutura original tenha-se ido a muito tempo. E o chão aplainado, o nível do solo no interior, era tudo muito óbvio.
— Pode ter havido um estábulo nos fundos — ela disse, sua voz parecia baixa em um lugar tão antigo. — Encontrei algumas poucas peças de metal – pedaços que poderiam ser uma fivela arnês. E os restos de um balde.
MacFarlane girou lentamente, estudando o contorno escuro da construção.
— É diferente da disposição das casas do vilarejo — ele disse, quase que para si mesmo — completamente diferente.
Ele deu um par de passos com a intenção de medir as dimensões da cabana, então parou abruptamente.
— Você ouviu isso?
Audrey balançou a cabeça, com os olhos arregalados.
— O seu último passo. Soou como se o chão estivesse oco.
Eles ficaram de joelhos e começaram a raspar a sujeira, mofo e folhas.
Audrey bateu os nós dos dedos no chão e novamente eles ouviram o som de um espaço oco por baixo. MacFarlane nunca ia a lugar nenhum sem uma pequena pá de mão em seu cinto. Ele a pegou e começou a jogar a terra para o lado. Então a lâmina bateu em algo sólido – sólido, mas com certa elasticidade.
Trabalhando rapidamente, testando o terreno para saber exatamente de onde vinha o som oco, ele abriu um espaço retangular de aproximadamente quarenta por cinquenta centímetros. Audrey se aproximou e começou a escovar a terra a partir do centro. Eles se encontraram olhando para um antigo painel de madeira ressecada. Um anel de bronze fora colocado em um lado e MacFarlane gentilmente usou a pá para alavancar e levantá-lo.
O painel levantou-se junto com o anel, dividindo-se e desintegrando, para revelar abaixo um espaço com pedras muito bem alinhadas.
Um espaço que continha um antigo baú de madeira e latão.
Mais uma vez, MacFarlane usou a pá, a colocou no vão da abertura para abrir o baú. Audrey colocou a mão para pará-lo.
— Deveríamos mesmo estar fazendo isto? — ela perguntou.
Ela sabia que normalmente MacFarlane nunca iria mexer num artefato antigo como este sem ter o máximo de cuidado para preservá-lo de danos.
Ele encontrou o seu olhar.
— Não. Mas eu não aguento mais esperar.
Ele abriu a tampa com surpreendente facilidade. Dobradiças de latão, ele pensou. Se fossem de ferro, teriam virado pó devido à ferrugem há muito tempo.
Suavemente, mal contendo seu entusiasmo, ele levantou a tampa e olhou para dentro.
O baú estava cheio de páginas e manuscritos em pergaminho ou velino, que agora estavam delicados e frágeis. Gentilmente, ele levantou uma folha do monte. As bordas esmigalharam, porém o centro ficou intacto. Ele se inclinou para frente, esticando o pescoço para ler mais de perto as palavras escritas na página. Cuidadosamente, ele estudou outras páginas, manuseando os frágeis manuscritos com um cuidado de perito, checando nomes, lugares e acontecimentos.
Então ele gentilmente recolocou as páginas no baú, inclinou-se para trás e se apoiou nos calcanhares, os olhos brilhando de excitação.
— Audrey. Você sabe o que nós encontramos?
Ela balançou a cabeça. Obviamente, pela reação dele, era algo grande. Não, ela pensou, é mais do que isso, é algo sem precedentes.
— O que é? — ela perguntou finalmente.
MacFarlane jogou a cabeça para trás e riu, ainda sem acreditar.
— Nós nunca soubemos o que tinha acontecido com eles — ele comentou, e quando ela inclinou a cabeça em uma pergunta não formulada, ele explicou. — Os arqueiros, Halt, Will Tratado e os outros. As crônicas e lendas apenas nos contam até o ponto em que eles retornam de Nihon-Ja. Mas agora temos isto.
— Mas o que é isto, professor?
MacFarlane riu alto.
— É o resto da história, minha menina! Nós encontramos as Histórias Perdidas de Araluen!

3 comentários:

  1. É interessante o modo como o autor abordou esse prólogo. Mostra que, além dos arqueiros manterem registros próprios escritos, eles deixavam suas histórias "perdidas" bem escondidas. Para que permanecessem perdidas.

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  2. Nossa! Já comecei chorando.
    Ass: Lua

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Boa leitura :)