16 de janeiro de 2017

Prólogo

De certa distância, o homem que lutava para erguer o rosto branco da geleira deve ter se assemelhado a uma formiga que lentamente se arrastava pela borda de um prato na mesa do jantar. A favela de La Rinconada era uma coleção de pontos dispersos lá embaixo, ao longe. O vento aumentava à medida que ele subia, soprando lufadas de neve triturada em seu rosto e congelando os cachos úmidos de seu cabelo.
Apesar de seus óculos de proteção com lentes cor de âmbar, ele se contraiu diante do brilho do pôr do sol refletido no gelo.
Ainda assim, o homem não tinha medo de cair, apesar de não utilizar cordas ou descensores, apenas crampons1 e um único piolet2. O nome dele era Alastair Hunt e ele era um mago. Ele moldava a substância congelada da geleira sob suas mãos à medida que subia. Agarras para as mãos e para os pés surgiam à medida que ele escalava e avançava.
Quando atingiu a caverna, na metade da geleira, ele estava semicongelado e completamente exausto por ter de domar sua vontade no intuito de suportar o pior dos elementos. Essa exploração contínua de sua magia minou as energias do mago, mas ele não ousou diminuir o passo.
A própria caverna se abria como uma boca para o lado de dentro da montanha, impossível de ser vista por quem estivesse acima ou abaixo daquele ponto. Ele parou na entrada e respirou fundo, amaldiçoando-se por não ter chegado ali mais cedo, por se deixar enganar. Em La Rinconada, as pessoas viram a explosão e sussurraram entredentes sobre o que aquilo significava, o fogo dentro do gelo.
Fogo dentro do gelo. Aquele tinha de ser um sinal de perigo... ou de um ataque. A caverna estava repleta de magos muito velhos para lutar ou muito jovens, os feridos e os doentes, mães de crianças ainda muito novas para serem abandonadas — como a própria esposa e o filho de Alastair. Eles haviam sido escondidos ali, em um dos locais mais remotos da Terra.
O Mestre Rufus havia insistido que, se não fizessem isso, se tornariam vulneráveis, reféns do destino, e Alastair acreditara nele.
Assim, quando o Inimigo da Morte não apareceu no campo de batalha para encarar o campeão dos magos, a garota Makar, em quem eles haviam depositado todas as esperanças, Alastair se deu conta do seu erro. Ele seguiu para La Rinconada o mais depressa que pôde, voando a maior parte do tempo nas costas de um elemental do ar. Em seguida, ele fez o caminho a pé, já que o controle do Inimigo sobre os elementais era imprevisível e poderoso. Quanto mais ele escalava, mais o pavor o dominava.
“Que eles estejam bem”, ele pensava enquanto entrava na caverna. “Por favor, permita que eles estejam bem.”
Deveria haver algum som de crianças chorando. Deveria haver o burburinho de conversas nervosas e o zumbido de uma magia tênue. Em vez disso, havia apenas o uivo do vento que soprava do cume desolado da montanha. As paredes da caverna estavam cobertas pelo gelo branco, com pústulas vermelhas e marrons onde o sangue respingara e derretera, formando poças. Alastair tirou os óculos de proteção e os largou no chão, obrigando-se a seguir pela passagem, recorrendo a seus últimos resquícios de poder para se manter de pé.
As paredes emanavam uma horripilante luz fosforescente. Ao se afastar da entrada, essa era a única luz com que podia contar, o que provavelmente explicava o fato de ele ter tropeçado no primeiro corpo e quase cair de joelhos. Alastair se recompôs com um grito e em seguida recuou enquanto ouvia seu próprio grito lhe ser devolvido pelo eco. A maga caída havia sido queimada e era impossível reconhecê-la, embora ela usasse o cinto de couro com a grande peça de cobre batido que a identificava como uma aluna do segundo ano do Magisterium. Ela não devia ter mais que treze anos.
“A esta altura, você já deveria estar habituado à morte”, ele disse para si mesmo. Estavam em guerra com o Inimigo havia uma década, mas às vezes esse tempo parecia ser um século. No início, aquilo parecia impossível — um jovem, um dos Makaris, inclusive, que planejava conquistar a própria morte. Entretanto, o Inimigo tornou-se poderoso e seu exército de Dominados pelo Caos cresceu, a ameaça se tornou uma calamidade da qual era impossível escapar... e que culminou no massacre impiedoso dos mais desamparados, dos mais inocentes.
Alastair se pôs de pé e penetrou ainda mais na caverna, procurava desesperadamente um rosto mais do que todos os outros.
Ele abriu caminho entre os corpos dos velhos Mestres do Magisterium e do Collegium, filhos de amigos e conhecidos e magos que foram feridos em batalhas anteriores. Entre eles estavam os cadáveres alquebrados dos Dominados pelo caos, seus olhos em torvelinho escurecidos para sempre. Apesar de os magos não estarem preparados para o ataque, eles deviam ter realizado uma grande batalha dado o número de massacrados das forças do Inimigo. O horror revirava suas entranhas, os dedos das mãos e dos pés estavam dormentes e Alastair chocava-se com tudo aquilo... até que a viu.
Sarah.
Ele a encontrou caída em um canto, jogada contra a parede de gelo. Os olhos estavam abertos, encarando o nada. As íris pareciam turvas e os cílios estavam congelados. Ele se abaixou e acariciou uma de suas bochechas gélidas. Ele respirou fundo e seus soluços cortaram o ar.
Mas onde estava seu filho? Onde estava Callum?
Uma adaga estava presa à mão direita de Sarah. Ela se destacara na modelagem do minério extraído das profundezas do solo. A própria Sarah havia fabricado aquela adaga em seu último ano no Magisterium. A arma tinha um nome: Semíramis. Alastair sabia o quanto Sarah prezava aquela adaga. “Se eu morrer, quero que seja segurando minha própria arma”, ela sempre lhe dizia. Só que ele não queria que ela morresse, seja como fosse.
Os dedos de Alastair roçaram as bochechas frias.
Um choro fez com que ele se erguesse em um pulo. Naquela caverna repleta de morte e silêncio, um choro.
Uma criança.
Ele se virou, procurando freneticamente a fonte daquele lamento lânguido. Parecia vir de algum lugar próximo à entrada. Mais que depressa, ele percorreu o caminho de onde viera, tropeçando em corpos, alguns deles rígidos como estátuas — até que, de repente, outro rosto familiar o encarou em meio à carnificina.
Declan. O irmão de Sarah, ferido na última batalha. Ele parecia ter sido sufocado até a morte por uma magia do ar particularmente cruel. O rosto estava azul e os olhos, injetados com vasos sanguíneos partidos. Um de seus braços estava arqueado, e, debaixo dele, protegido do chão congelado por um cobertor, estava o filho de Alastair. Enquanto o pai observava, impressionado, o garoto abriu a boca e soltou um novo pequeno gemido de choro.
Como se em um transe, tremendo de alívio, Alastair se abaixou e ergueu o filho. O garoto olhou para ele com seus imensos olhos cinza e abriu a boca para gritar de novo. Quando o cobertor revelou parte do corpo da criança, ele entendeu o choro. A perna do bebê pendia em um ângulo terrível, como um galho de árvore quebrado.
Alastair tentou invocar a magia da terra para curar o menino, porém tinha apenas poder suficiente para afastar um pouco da dor. Com o coração acelerado, ele voltou a envolver o bebê com o cobertor e adentrou novamente a caverna até o local onde estava Sarah. Segurando o filho como se ela pudesse vê-lo, ele se ajoelhou ao lado do corpo.
— Sarah — ele sussurrou. As lágrimas o deixavam rouco —, contarei a ele que você morreu para protegê-lo. Irei criá-lo com a lembrança do quanto você foi corajosa.
Os olhos da esposa o encaravam, vazios e pálidos. Ele segurou o bebê o mais próximo possível do cadáver e tirou Semíramis da mão de Sarah. Ao fazer isso, Alastair percebeu que o gelo ao redor da lâmina estava estranhamente marcado, como se ela o tivesse arranhado enquanto morria. As marcas, entretanto, eram muito deliberadas para que houvessem sido feitas sem nenhum intuito.
Quando ele se abaixou para ver de perto, se deu conta de que os arranhões formavam palavras — palavras que a esposa encravou no gelo da caverna com suas últimas forças.
Quando ele as leu, foi como se tomasse três socos violentos no estômago.
MATE A CRIANÇA.

17 comentários:

  1. Caramba
    Que começo
    Bia

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  2. OMG.
    Mate a criança?
    Que mãe é essa?

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  3. Quê isso mano?!
    Ja começa dando tiro desse jeito?
    AI MEU PSICOLÓGICO!!!!!

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  4. Como isso gente. .já começa jogando a intriga na pessoa!Bora lá ler mais então..js vi que vou devorar o livro!

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  5. Eitaa , que isso gente !!! Que começo ... :O

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  6. Mate a criança??????????
    Como assim????
    O filhinho dele e dela??????

    ai creduu, chesuis....que começo!!!!

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  7. vai ver o menino vai virar um demônio futuramente rsrsrs

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  8. Meu coração parou na última frase.

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  9. Noooossa, já começou ótimo! Acho que antes de morrer ela deve ter descoberto algo que as crianças vão virar futuramente.. Ansiosa para descobrir :)

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  10. esse livro ta no universo de shadowhunter?

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Boa leitura :)